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Marília Mendonça
Nesse posto eu cantei por muito tempo, cantei também nesse Lava Jato. A gente montava um somzinho ali do lado e eu cantava ali, onde tá aquela moto ali. Esse barzinho aqui era onde meu pai me trazia às vezes, quando eu era pequena. Vamos descer? Vamos. Tomar uma? Decidimos, vamos tomar uma cerveja. E aí, tudo bem? Trouxe o pessoal do Profissão Repórter pra tomar uma comigo aqui no boteco. Tá bom? Tá bom.
Carol Prado
A Marília era pequenininha quando ela vinha.
Marília Mendonça
Aqui, mas agora na refrigerante. Eita rapaz, uma cervejinha dessa, um calor desse.
Carol Prado
Você sente falta um pouco dessa vida.
Carolina Brandão
Assim, de poder sentar na mesa de plástico no bar?
Carol Prado
Muita falta.
Marília Mendonça
Minha mãe tá lá em casa.
Carol Prado
Você acha que um dia... Essa mudança toda, essa perda de liberdade, vai cansar?
Marília Mendonça
Eu acho que sim, eu acho que a gente tem momento pra tudo. Tem o momento de trabalhar, tem o momento de formar família. Com certeza, daqui 10 dias, ou daqui um ano, ou daqui dois anos, vai chegar um novo estilo musical que vai tomar o lugar de todo esse sucesso que a mulherada tá fazendo agora. E agora vamos tomar uma cervejinha. Vai ser rápido pra comemorar. Um brinde!
Carol Prado
Quando a Marília Mendonça deu essa entrevista em 2017 para o Profissão Repórter, ela parecia enxergar com muita clareza como a indústria da música funciona. Esse mercado tem mesmo modas que vão e vêm e um espaço disputado a cada lançamento. Não é fácil construir algo que seja durável. Só que ela conseguiu.
Marília Mendonça
Bora? Quem souber pode cantar.
Carol Prado
Nos últimos dez anos, Amarília foi uma compositora disputada do sertanejo, estreou como cantora, emplacou um sucesso logo de cara e virou presença constante no topo das paradas. Ela apresentou histórias de mulheres que o sertanejo ainda não conhecia, conquistou todo mundo com um carisma arrebatador, viajou com shows pelo Brasil, criando momentos inesquecíveis para os fãs e deixou um país inteiro de luto com sua partida trágica e repentina. Hoje, o espaço da Marília Mendonça continua garantido. Ela segue sendo uma das artistas mais ouvidas do Brasil. Referência de sucesso na música popular. Sua carreira foi curta para o tamanho do impacto que ela causou. A Marília chacoalhou o mercado e produziu muito. Tanto que várias das coisas que ela deixou, o público ainda não conhece.
Vander Oliveira
A ideia é lançar algo em torno de 10 músicas por ano. Existem coisas para trabalhar facilmente 20 anos com folga. E existe um pendrive. Esse pendrive para mim não me pertence. Pra mim isso pertence ao Léo, que eu acho que quando ele tiver uma idade, que ele tiver um entendimento, 16, 17, 18 anos, eu gostaria que nós entregássemos isso pra ele, pra ele fazer o que ele quiser disso. Isso é a história da mãe dele.
Carol Prado
Eu vou falar aqui de negociações envolvendo um catálogo de músicas de altíssimo valor comercial, capaz de movimentar cifras milionárias. E, ao mesmo tempo, de acordos feitos por pessoas que perderam alguém que elas amavam e, de repente, se viram com a missão de definir o futuro da obra de uma grande artista. Nesse cenário, questões financeiras e sentimentais acabam se confundindo na tarefa de manter a memória da Marília Mendonça viva. Eu sou Carol Prado e esse é Marília, o outro lado da sofrência, um podcast do G1 para tentar explicar o que fez a sofrência de Marília Mendonça entrar para a história. No quinto e último episódio, eu quis descobrir o tamanho da obra que foi deixada pela Marília, como essa obra está sendo administrada e por que ela virou alvo de debate. Episódio 5 – Esqueça-me se for capaz.
Marília Mendonça (singing)
Esquece aí senão, bichão!
Marília Mendonça
Nunca esquecerão!
Carol Prado
Nunca! Quando morre um artista, sua obra se torna parte da herança que é deixada por ele. No caso da Marília Mendonça, desde o acidente em 2021, tudo o que ela produziu é administrado por três partes. A família, a gravadora Som Livre, que é responsável pelos lançamentos, e a Workshow, empresa do Vander Oliveira, empresário da Marília, que você ouviu várias vezes aqui, inclusive agora, contando a história do pendrive. Essas partes precisam trabalhar juntas para garantir que a voz da Marília continue presente. Isso envolve preservar a imagem dela, a memória que o público construiu, proteger o que já foi lançado e decidir o que fazer com trabalhos inéditos que possam ser divulgados de forma póstuma. Mas nem todas as decisões sobre o que deve ou não ser feito e de que forma agradam todos os envolvidos. Por exemplo, no início desse ano, foi lançado um dueto póstumo entre a Marília e o Cristiano Araújo, cantor sertanejo que morreu em 2015 Foi uma ideia da família com a qual o Wander, empresário.
Vander Oliveira
Não concordou A família decidiu, eu poderia não ter liberado, mas como era da família, eu não achei que era prudente eu não deixar. Mas se tivesse me perguntado, eu não gostaria que tivesse sido feito.
Carol Prado
Essa obra é tão poderosa e gera tanta disputa porque o público continua ouvindo muito as músicas da Marília.
Carolina Auzuguir
De maneira geral, no dia e na semana de falecimento, aumenta bastante o consumo, mas depois volta para o patamar original.
Carol Prado
Essa é a Carolina Auzuguir. Ela é líder de música do Spotify no Brasil.
Carolina Auzuguir
No caso da Marília, o patamar dela já era altíssimo. Sim, logo depois do falecimento aumentou e o patamar ficou ainda mais alto e se manteve alto por muito tempo. mas continua quebrando recordes, ela continua quebrando recordes mesmo depois do falecimento. Então, por exemplo, você falou do desempenho das músicas depois do lançamento, eu comentei com você que sete músicas da Marília atingiram o primeiro lugar no ranking do Spotify, o que é um feito inédito também. Só que duas delas, quebraram o recorde de tempo no primeiro lugar. Agora, não vou lembrar exatamente de cabeça quantos dias ou quantas semanas essas duas músicas ficaram em primeiro lugar no Spotify e ninguém roubava esse trono, né? Uma delas foi Todo Mundo Vai Sofrer, quando a Marília ainda estava viva. A outra foi Leão, depois do falecimento dela.
Carol Prado
Leão não só quebrou esse recorde de tempo em primeiro lugar, como também se tornou a música mais ouvida pelos brasileiros na última década. Um marco na era da música consumida pela internet. E por trás desse hit, tem um outro artista bem famoso. Eu fui procurar esse artista.
Xamã
Não aceitam nada, um café, uma água, um suco. Fala, dona Sonja. Isso aqui é minha mãe, dona Sônia.
Carol Prado
O Xamã me recebeu na casa dele, no Rio de Janeiro. Lá, eu conheci a dona Sônia, brinquei com o Ragnar, um Pitbull que não tem nada de bravo, e eu conversei muito com esse artista que é hoje um dos principais nomes do rap nacional. No primeiro episódio desse podcast, eu contei como o luto pela partida da Marília Mendonça se tornou um trauma pra muita gente da música. Nesse dia, lá na casa do Xamã, eu entendi que pra ele também foi assim.
Xamã
Eu não cantava Leão no show, eu não cantava, tipo, fiquei papo de sei lá. um ano, não cantava, que era estranho. O telefone que eu tinha, eu via as mensagens, aí eu nunca mais usei o telefone também, tipo, tinha conversa, pra não ficar olhando, né? É muito louco, porque quando alguém morre assim, durante esse tempo, não parecia que ela tinha morrido, sabe? Você sabe que ela morreu, mas você não... Porque eu não usei o telefone, porque eu ouvia as mensagens dela. Aí quando você pega o telefone, alguém morreu, aí você conversa, você olha para a conversa, é tipo... Igual você falando com alguém que você, sei lá, às vezes você fala assim com um amigo seu, do lado que você viu hoje, ou então sua mãe, sua filha, seu... Você olha as mensagens de ontem, de ontem ontem, parece que você vai ver sempre. Mas tem um dia que, tipo, não tem mais mensagem aí. Pô, foda. Mas quem vai nos julgar? Sou seu despenteado leal.
Carol Prado
O Xamã é o compositor da música Leão. Originalmente, essa música foi gravada como uma parceria, entre ele e a Marília, para um álbum do Xamã que foi lançado em 2020 e se chama Zodíaco. A versão que entrou nesse álbum é bem diferente da que ficou mais famosa.
Xamã
E aí eu escrevi a Leão, tinha a primeira parte, aí na segunda eu falei, vou escrever a sua parte então, vou te mandar aqui uma Um rascunho, uma ideia, né? Muito inseguro, porque é a Marília, né? Além de cantar muito, ela canetava muito. É uma caneta de ouro. Aí eu fui e escrevi, mais ou menos, assim, aí mancantei. No áudiozinho, assim, o refrão, eu falei... Quando ela pegou, ela... Que isso, que incrível! E ela já cantou com aquela vozona dela. Ela criou uma textura diferente para a música. Ela tinha um jeito de interpretar, parece que era uma roupa. Ela pegava a roupa e vestia e parecia parte dela.
Carol Prado
Essa afinidade com o xamã é muito representativa de mais um traço importante da carreira da Marília Mendonça. O trânsito fácil que ela tinha com artistas de estilos bem distantes do sertanejo ajudou a quebrar barreiras que existem em volta de alguns gêneros musicais, como lembrou a Carolina Auzuguir, a executiva do Spotify.
Carolina Auzuguir
Por causa da Marília Mendonça, artistas de trap e de rap que nunca escutavam sertanejo ou que escutavam, mas não contavam que escutavam sertanejo, começaram a escutar, começaram a ser fãs. Então, assim, o Xamã é um ótimo exemplo, mas também tem o Bean, por exemplo, que é um artista de trap que tem uma música chamada Marília Mendonça.
Xamã
E a gente ficou conversando, né? Tava vendo essa conversa esses dias no telefone A gente mandava muita música, achava que ela não conhecia muito de rap Ela conhecia tudo, Racionais, e gostava das músicas depois acústicas Gostava dos artistas, assim, que cantavam mais loud songs É verdade.
Carol Prado
Que a Marília ouvia de tudo Mas como eu já contei aqui, pra cantar, ela gostava mesmo era do brega Em maio de 2021, durante a pandemia, a Marília cantou numa live essa outra versão de Leão, adaptada para uma batida irresistível de Arrocha.
Xamã
Ficou incrível, né? Ficou muito dançante. Todos os meus amigos, né, que curtiam, colocavam ela no som, assim, sabe? Virou uma febre no Brasil.
Carol Prado
O Decretos Reais foi o único disco lançado depois da morte da Marília. Ele reuniu versões repaginadas de faixas do repertório dela e de outros artistas, todas cantadas nessa mesma live. Leão foi uma das que entraram nesse trabalho. E a adaptação brega acabou se tornando a gravação definitiva.
Vander Oliveira
O trabalho que a gente fez em rádio e nas plataformas, a gente faz normal. A gente continua trabalhando normal, como se ela estivesse aqui, como ela está aqui ainda.
Carol Prado
O Vander Oliveira, empresário, trabalhou para ajudar a emplacar essa música nas rádios e na internet.
Vander Oliveira
Foi a pessoa Marília, mas a obra dela, a arte que ela produziu ainda continua aqui E as pessoas continuam consumindo e lembrando dela todos os dias De.
Carol Prado
Onde sai o Leão e todo o projeto Decretos Reais, podem sair vários outros As várias lives que a Marília Mendonça fez durante a pandemia foram gravadas E essas gravações fazem parte do acervo da Marília que pode dar origem a mais trabalhos nos próximos anos.
João Gustavo
Graças a Deus a gente tem muitos lançamentos de coisas inéditas para vir, vai ter o filme que também está em produção.
Carol Prado
Esse é o João Gustavo, irmão mais novo da Marília Mendonça. Como membro da família, ele participa das decisões sobre o futuro dessa obra, assim como a mãe deles, Dona Ruth, e o cantor Murilo Ruff. O Murilo é o pai do Léo, filho da Marília, que hoje tem 5 anos e é o único herdeiro dela. Além dessa cinebiografia que o João Gustavo citou, uma série documental sobre a vida da Marília também já foi anunciada.
João Gustavo
Tem aí algumas músicas que a gente tem aqui também, algumas não, várias músicas que a gente tem, né? Então pode ficar tranquilo que esses lançamentos aí vão acontecer, a gente já tá organizando da melhor forma.
Carol Prado
O João Gustavo é meio vago ao falar da dimensão desse acervo inédito, e isso é porque nem ele, nem ninguém, tem certeza ainda sobre qual é exatamente o tamanho dele. Quando Marília Mendonça morreu em 2021, existiam 331 composições dela registradas no ECAD, o Escritório de Arrecadação de Direitos Autorais. Dessas, 98 nunca tinham sido lançadas até então. Eu fui conversar com a Marília Neves, jornalista do G1, para saber um pouco mais sobre esse assunto. Ela fez uma reportagem sobre a obra da Marília Mendonça que ainda não foi lançada.
Robson Cunha
Movimento.
Xamã
Led.Com.Br inscrições prorrogadas até dia 10 de setembro.
Carol Prado
Marília, eu já entendi que esse acervo é gigante. O que exatamente tem nele?
Carolina Brandão
Então, Carol, tem toda a produção que ela gravou em vida, né? Todas as músicas que estão nos álbuns que a gente já conhece. Tem algumas registradas, mas que não foram gravadas nem por ela, nem por outros artistas. Tem o material das lives que ela fez durante a pandemia, que foram um sucesso, recorde de audiência. Tem a serenata, manuscrito, algumas que ela fez com alguns amigos e parceiros. Tem um pendrive que tem cerca de 110, 115... Não sei se dá pra dizer faixas, né. Porque não são músicas, exatamente. São registros e ideias que ela colocou ali, gravando música de outras pessoas. Algumas ideias que surgiam pra outras composições. E tem também o material que tá gravado no estúdio do Pepato. Que é onde ela gravava todas as produções dela. E tem o HD, com todo o material da Marília que tá lá. Que ainda não sabe exatamente o que tem. Mas tem material registrado lá de Marília.
Carol Prado
Esse pendrive que a Marília Neves citou causou um atrito entre as partes envolvidas na administração da obra da Marília Mendonça. Ele foi gravado pelo Juliano Soares, também conhecido como Tchula, o melhor amigo e principal parceiro de composição da Marília desde o início da carreira. Nos últimos anos, o Juliano se afastou completamente do mercado da música e, por isso, ele não deu entrevista nesse podcast.
Vander Oliveira
Até então, eu não tinha ouvido o pendrive, ele tinha sido me entregue pelo Tchula, eu não sabia qual era o conteúdo do pendrive, mas eu não achava que era de direito meu ou de qualquer pessoa que não fosse o Léo o que estava naquele pendrive O Vander.
Carol Prado
Esse que acabou de falar, é o empresário da Marília Mendonça Por contrato, ele é um dos donos da obra produzida por ela, a que já foi e a que ainda não foi lançada, e estava em conversas com uma gravadora para licenciar parte dessa obra. O Vander diz que, ao receber esse pendrive, não incluiu o conteúdo dele nas negociações. Ele achou que o destino desses arquivos deveria ser decidido só daqui a alguns anos pelo filho da Marília.
Vander Oliveira
E aí, nesse dia, ficou entendido que o conteúdo do pendrive eu teria doado para o Spolio, que seria para o Léo. Duas semanas depois, o advogado da família estava na sua livre negociando o pendrive. Naquele momento, eu fiquei bem chateado, porque eu achava que aquilo era da criança. A minha parte, os meus 50%, eu fiz uma doação porque eu imaginava que aquilo iria fazer bem para a criança, que hoje ela não entende, mas quando ela tivesse lá o entendimento, ela ia poder abrir e ver o que era, o que tinha, qual era o contexto do pendrive.
Carol Prado
Eu fui procurar o advogado da família da Marília Mendonça, esse que o Vander citou, para saber o lado deles nessa história. Esse advogado se chama Robson Cunha.
Robson Cunha
Após o falecimento da Marília, o empresário buscou a Son Livre para negociar lançamentos de músicas da Marília, principalmente de músicas-trechos que eram retirados da Air Live, tudo assim como foi o Leão. A Son Livre manifestou que esse material já seria dela, por conta desse contrato de cessão existente, e não se dispôs a fazer negociações tratativas na época. O empresário então buscou a Sony, a gravadora Sony, que na época havia adquirido a Son Livre, e o presidente da época interessou em negociar com o empresário. Então eles negociaram, e a negociação foram 114 músicas, onde parte seriam de trechos de live, editados e tudo mais, e uma parte seriam dessas músicas inéditas, que continham o pendrive. A Som Livre, observando isso, interessou então em negociar com o restante das músicas do pendrive, 150 músicas, e nós entramos nessa negociação.
Carol Prado
O Vander diz que só incluiu o conteúdo do pendrive nas negociações com a gravadora depois de saber da movimentação feita pelo advogado da família. Já o Robson Cunha, o advogado, afirma desconhecer qualquer trato de que o pendrive ficaria guardado para o filho da Marília Mendonça. Segundo ele, o Vander sempre teve a intenção de negociar esses arquivos. O Robson também me falou sobre um contrato de cessão dos direitos da obra, assinado em 2019, quando a Marília ainda estava viva.
Robson Cunha
Como a Marília faleceu ainda na vigência do contrato, tudo que ela produziu em vida, obrigatoriamente, seria da sua livre, de acordo com esse contrato de cessão.
Carol Prado
Existem vários tipos de contratos quando se negocia a obra de um artista. O contrato de sessão é um acordo em que a posse da obra é transferida para a gravadora. É parecido com um contrato de venda, mas ele pode ou não ser definitivo. Já num contrato de licenciamento, a obra pode ser usada comercialmente pela gravadora por um tempo determinado. É como se fosse um aluguel.
Vander Oliveira
O pendrive estava realmente, sim, sendo vendido. Bom, nisso, quando foi fazer, eu disse, olha, então vamos fazer o seguinte, o contrato de licenciamento que eu estou fazendo para ser lançado, eu quero que consta no contrato todas essas músicas que estão no pendrive, que acho eu, aí é o Wanda que está falando, que isso de maneira inteligente tem que ser licenciado e não vendido, porque isso no futuro, quem vai definir se vai vender a parte dele é o próprio Eu também.
Carol Prado
Entrei em contato com a Som Livre. Eles não quiseram dar entrevista, mas me enviaram uma nota que diz o seguinte. A Som Livre é a gravadora exclusiva do repertório musical da Marília Mendonça e é responsável por qualquer lançamento futuro da artista. Todos os projetos foram e continuarão sendo idealizados em conjunto com o escritório representante da artista e sua família, sempre com profundo respeito à memória e ao legado da Marília Mendonça. Mas, afinal, o que tem nesse pendrive?
Vander Oliveira
Tem coisas que dá pra aproveitar e tem coisas que não dá pra aproveitar. Tem músicas dela, ela cantando música dela, composição dela. Tem música ela cantando, música que não é dela, algumas coisas. Tem música dela, outras pessoas cantando que eu acho que não teria como fazer o lançamento. Eu acho que talvez ele seja muito mais um lado de sentimento, porque eu acho que a família vai ter que ter o cuidado de não lançar coisas de uma qualidade ruim, porque tudo que a Marília fez tinha muita qualidade. Então, eu acho que a família vai ter que ter um cuidado com essa curadoria para que não lance coisas que não sejam da altura que é a Marília.
Carol Prado
Ao longo de quatro meses, eu mandei mensagens para a dona Ruth, mãe da Marília Mendonça, para tentar entrevistá-la para esse podcast. Eu queria falar com ela sobre a história da Marília, mas também sobre os planos da família para essa obra inédita. A dona Ruth sempre negou. Eu não tenho tempo. É muito corrido o meu trabalho.
Carolina Brandão
Correria demais, sabe? Eu tô meio sem tempo mesmo.
Carol Prado
Nesse momento, a negociação sobre as gravações do pendrive, assim como outras envolvendo músicas da Marília Mendonça que ainda não foram lançadas, estão pausadas. O Robson Cunha, advogado da família, me.
Robson Cunha
Contou o motivo O Murilo Ruff.
Carol Prado
Também não topou me dar a entrevista Em junho de 2025, se tornou pública uma disputa judicial entre o cantor Murilo Ruff e a dona Ruth, envolvendo a guarda do Léo.
Marília Mendonça (singing)
Que o sol da manhã te dissuba, seu vampiro de filmes pastelão. Mas quem vai nos julgar, seu despenteado leão?
Carol Prado
É natural que conflitos envolvendo a memória de um ídolo ganhem repercussão, despertem opiniões e julgamentos por todos os lados. Mas também é papel das pessoas que administram o legado de um artista não deixar que ele seja afetado por esse tipo de situação. Por mais barulho que essas notícias façam, elas não podem se sobrepor à história que Marília Mendonça escreveu em vida.
Juliano Soares (Tchula)
A gente fazia a música com uma visão feminina. Marília, o que você usa pra compor? Você canta a sofrência, né? Só que ninguém percebeu que as histórias de Marília Mendonça sempre terminam com um final feliz pra ela. Mesmo o cara sendo infiel comigo, eu mandei ele embora. E agora eu quero ver você se lascar aí. Tá vendo aí o que você fez? É o jeito que eu gostaria que fossem os finais. Pode não ter acontecido daquele jeito comigo. Mas eu posso inventar o final que eu quiser na minha música.
Carol Prado
Em uma das últimas entrevistas que deu pro Fantástico, em outubro de 2021 A Marília refletiu muito sobre a própria trajetória. Relembrou as primeiras composições que foram gravadas por outros artistas e o efeito que esse ponto de vista teve no mercado da música quando surgiu, pegando muita gente de surpresa.
Juliano Soares (Tchula)
Que homem maravilhoso, detalhista, incrível, perfeito, lindo. Chegar no atual e falar, olha, por favor, cuida bem da minha ex. Aí veio depois. Calma, a sua insegurança não te leva a nada. Eu quero ser seu homem e te fazer amada. Amar, amar você até você se amar e me amar.
Marília Mendonça (singing)
Calma.
Juliano Soares (Tchula)
Mais uma visão de mulher por trás e um homem cantando. O cenário ideal de tudo que as mulheres estavam esperando, entendeu? Foi o que chocou o mercado naquela época. E hoje eu consigo visualizar a grandeza disso. E a gente fazia sem saber que tinha essa força toda. Só hoje a gente consegue entender.
Carol Prado
Seis anos tinham se passado desde aquele primeiro álbum lançado. E nessa entrevista, a Marília estava diferente daquela outra, que abriu esse episódio. Mais madura e mais segura, ela já tinha consciência do impacto duradouro causado por ela e pelas cantoras da mesma geração.
Juliano Soares (Tchula)
A gente quebrou tabus das mulheres falarem que elas bebiam, elas falarem que elas traíam. Como é vista a mulher que fala, eu tenho dinheiro e eu trabalho para ganhar o dinheiro? Parece que é estranho, porque me soa estranho falar isso para o espelho. Será que eu tenho que ter vergonha disso mesmo? Porque era nisso que a gente abaixava tanto a cabeça para tantas coisas.
Carol Prado
Mas mesmo com essa compreensão, a Marília nunca abandonou aquela ideia de que um dia as coisas poderiam mudar e ela poderia ser esquecida. Esse pensamento esteve presente até o último show, poucos dias antes do acidente.
Juliano Soares (Tchula)
As pessoas vão esquecer de Maria Mendonça.
Carol Prado
Vai ser difícil esquecer a Marília Mendonça. Não só pelo que ela fez, mas também pelo que ela não pôde fazer. Pelas músicas que não foram escritas, os discos que não foram gravados, os shows que não foram feitos, É impossível não pensar na história grandiosa que ela estava escrevendo e que parecia muito longe de terminar. Enquanto ouvia esse podcast, você deve ter imaginado como as coisas poderiam ter sido. Quase não dá pra acreditar, né? Como ela não está mais aqui, se ela ainda parece tão presente? Eu também sinto isso. Essa sensação de vazio só é tão grande porque o talento e a personalidade da Marília também eram. Tão grandes que mudaram o curso das coisas. As pessoas passaram a enxergar com mais respeito o tipo de música que ela fazia. Estilos musicais que pareciam distantes se aproximaram. O mercado se abriu para cantoras que antes não tinham espaço. Muitas mulheres puderam, algumas pela primeira vez, se reconhecer de verdade numa artista. Algo que ninguém é capaz de esquecer. E mesmo que a protagonista dessa história não esteja mais aqui, o legado dela é do tipo que não dá pra apagar, não importa quanto tempo passe.
Marília Mendonça (singing)
Me olho no espelho Meu cabelo e os meus olhos Trazem você pra mim E eu não quero mais viver assim Vou esperar você chegar E não dá pra responder Te amo Vai senta aqui do meu lado Me deixa te olhar E sentir o seu cheiro Pra me renovar Fale do que você quiser Eu quero ouvir Vale de nós Senta aqui do meu lado Leve essa herança Que ficou em mim Não quero esperança E nesse último pedido Eu quero só te abraçar Dez minutos já me bastam Eu.
Marília Mendonça
Vou me confortar.
Carol Prado
Esse podcast foi criado e produzido por mim, Carol Prado. O roteiro é meu e da Carolina Brandão, a cabra, que também fez a pesquisa e a edição. A coordenação é do Braulio Lorenz e da Cláudia Kreuter. Nesse episódio colaboraram também a Ana Luísa Marques, a Marília Neves e a Stephanie Rodrigues.
Data: 23 de agosto de 2025
Host: Carol Prado (G1)
Convidados: Vander Oliveira (empresário da Marília Mendonça), Carolina Auzuguir (Spotify), Xamã (rapper), João Gustavo (irmão de Marília Mendonça), Marília Neves (G1), Juliano Soares “Tchula” (compositor e parceiro), Robson Cunha (advogado da família)
O episódio marca a conclusão da série especial sobre Marília Mendonça, abordando o imenso legado artístico da cantora e como seus familiares, empresário e gravadora têm gerido sua obra desde a morte repentina em 2021. A jornalista Carol Prado mergulha nos bastidores de decisões polêmicas, disputas emocionais e jurídicas e novos desdobramentos sobre os lançamentos póstumos e a valorização do catálogo da artista, que segue alcançando multidões.
“Daqui 10 dias, ou daqui um ano, ou daqui dois anos, vai chegar um novo estilo musical que vai tomar o lugar de todo esse sucesso que a mulherada tá fazendo agora.” — Marília Mendonça [00:50]
“Existem coisas para trabalhar facilmente 20 anos com folga. E existe um pendrive... Pra mim isso pertence ao Léo [...] Isso é a história da mãe dele.” — Vander Oliveira [02:48]
“Eu achava que aquilo era da criança [...] Quando ela tivesse lá o entendimento, ela ia poder abrir e ver o que era, o que tinha, qual era o contexto do pendrive.” [17:58]
“Ela continua quebrando recordes mesmo depois do falecimento. [...] Leão [...] se tornou a música mais ouvida pelos brasileiros na última década.” — Carolina Auzuguir [06:23-07:22]
“Quando ela pegou, ela... Que isso, que incrível! E ela já cantou com aquela vozona dela. Ela criou uma textura diferente para a música.” — Xamã [09:46]
“Tem o material das lives [...] Tem um pendrive que tem cerca de 110, 115… Não sei se dá pra dizer faixas, né. [...] E tem também o material que tá gravado no estúdio do Pepato [...] e tem o HD com todo o material da Marília.” — Marília Neves [15:48]
“Eu acho que a família vai ter que ter um cuidado com essa curadoria para que não lance coisas que não sejam da altura que é a Marília.” — Vander Oliveira [22:04]
Com toques emocionantes da própria Marília e relatos de quem conviveu e trabalhou com ela, o episódio retrata a grandeza de sua obra e o turbilhão que envolve sua administração após sua morte. O programa mostra, com múltiplas vozes, que o maior desafio é manter o respeito à memória de Marília enquanto o Brasil e o mundo continuam, diariamente, redescobrindo e celebrando sua arte.
O episódio reforça: esquecer Marília Mendonça é impossível — seu talento e carisma continuam vivos e mobilizando paixões, debates e futuro dentro da música popular brasileira.