O Assunto – “Estamos comendo proteína demais?”
Podcast: O Assunto | Host: G1, Natuza Nery
Data: 9 de fevereiro de 2026
Convidada: Nadine Marques, nutricionista e pesquisadora
Visão Geral do Episódio
O episódio investiga a obsessão contemporânea por proteínas: de hábitos alimentares à explosão de produtos e suplementos ricos em proteínas nas prateleiras e redes sociais. Natuza Nery entrevista a nutricionista Nadine Marques para analisar riscos, mitos e realidades do consumo proteico excessivo, além de refletir sobre mudanças recentes nas diretrizes alimentares dos Estados Unidos e o impacto sociocultural e econômico desse fenômeno no Brasil e no mundo.
Pontos-Chave do Debate
1. O Papel das Proteínas na Alimentação
- Equilíbrio dos macronutrientes: A importância de proteínas junto a carboidratos e gorduras para uma dieta saudável ([00:02]–[00:48]).
- “As proteínas são moléculas grandes formadas a partir de moléculas menores, os aminoácidos. E essas proteínas têm muitas funções.” – Natuza Nery, [00:13]
- Fontes alimentares: Carnes, ovos, laticínios e opções vegetais (soja).
2. Proteína: Da Panela às Prateleiras e ao Hype
- Suplementos e marketing de proteína: Popularização do whey protein (antes restrito a atletas) e surgimento de uma indústria bilionária global ([00:56]).
- “O melhor lugar para encontrar uma boa proteína sempre foi a panela. Mas... está em tudo. Em bebidas enlatadas, caixinhas de leite, iogurtes e até no rótulo de chocolates.” – Natuza Nery, [00:56]
- Mudança na relação com a comida: A “obsessão” por proteína altera não só o vocabulário, mas o prazer de comer ([01:35]).
3. Riscos do Consumo Excessivo de Proteína
- Limite saudável: Acima de 1,5-1,8g por kg/dia não há benefícios adicionais e pode haver riscos ([03:29]).
- “Os estudos são poucos... mas o que a gente já tem verificado é que não existem benefícios adicionais quando a gente começa a aumentar o consumo de proteínas.” – Nadine Marques, [03:29]
- Sobrecarga de órgãos: Excesso de proteína pode sobrecarregar fígado e rins, desequilibrar cálcio e prejudicar equilíbrio metabólico.
- “Não é como se quanto mais a gente comer, mais músculo a gente vai produzir.” – Nadine Marques, [05:56]
- Armazenamento em gordura: Proteínas em excesso, assim como outros macronutrientes, acabam estocadas como gordura no corpo ([06:40]).
4. Reducionismo Nutricional e Perda de Identidade Alimentar
- Crítica da chef Rita Lobo:
- “Quando você começa a chamar carne de proteína, a comida perde a identidade e qualquer coisa serve.” – Rita Lobo (áudio), [02:04]
- Perigos do ‘nutricionismo’: Reduzir alimentos a nutrientes ignora sua complexidade e interação no organismo ([07:54]–[08:15]).
5. Diretrizes Nutricionais: EUA vs. OMS e Brasil
- Mudança americana: Nova diretriz dos EUA coloca proteína animal como principal, reduzindo vegetais e cereais ([09:09]–[10:48]).
- “Essa inversão da pirâmide... contradiz o que a ciência vem mostrando.” – Nadine Marques, [08:15]
- OMS recomenda 0,6 a 0,8g/kg/dia, nova diretriz americana dobra esse valor. Consumo brasileiro já é superior ao necessário ([14:31]–[15:22]).
- “No Brasil temos já um consumo excessivo." – Nadine Marques, [15:22]
6. Desigualdade Alimentar e Realidade Brasileira
- Consumo proteico e desigualdade: Apesar das desigualdades sociais, a deficiência de proteína é rara na população brasileira ([12:48]).
- “A população brasileira [tem] um consumo adequado de fontes de proteína... em todos os extratos populacionais.” – Nadine Marques, [13:54]
7. ‘Sociedade do Whey’ e Cultura do Corpo
- Origens da febre das proteínas: Desde meados do século XX, mito do déficit proteico e culto ao corpo alimentam o mercado de suplementos ([20:30]).
- “Existe essa construção de um mito de que a gente tem deficiência de proteínas... como se as proteínas fossem um elemento fundamental para isso [corpo musculoso].” – Nadine Marques, [20:30]
- Whey protein como subproduto: Excesso de produção indígena canaliza subprodutos (como whey) ao consumo humano ([22:17]–[23:32]).
8. O Mito do Déficit Proteico
- Razões históricas e econômicas: O “grande fiasco da proteína”, como batizado pelo pesquisador Donald McLaren, mostra que campanhas para aumento proteico estavam ligadas a excedentes de produção no século XX ([24:32]).
- “...essa construção de narrativa de um risco aumentado de deficiência de proteínas foi sendo acompanhada por isso. [...] E o que a ciência foi mostrando foi que, em situações em que existe energia suficiente naquele padrão alimentar, dificilmente a gente vai ter déficit de proteína.” – Nadine Marques, [25:45]
Notas e Momentos Memoráveis
- Redução da comida a ‘nutriente’: “Chamar bife de proteína, leite de cálcio... estou reduzindo demais tudo o que aquele alimento significa.” – Nadine Marques, [06:59]
- Desequilíbrio alimentar global: “Essa obsessão não atende ao que a gente verifica de fato em estudos que avaliam o consumo alimentar real das populações.” – Nadine Marques, [11:45]
- Alerta sobre suplementos: “Whey é um ultraprocessado, tem benefícios nutricionais... mas nem todo mundo precisa tomar o whey. [...] Ele não deve ser usado para substituir as refeições.” – Nadine Marques, [21:50]
- Perigo do foco isolado: “O hiperfoco em proteína desloca nossa atenção dos alimentos que realmente faltam – frutas, legumes, e verduras.” – Nadine Marques, [18:37]
Timestamps de Segmentos Importantes
- [02:04] – Rita Lobo comenta a perda de identidade da comida na obsessão proteica
- [03:29]–[06:40] – Efeitos negativos do excesso de proteína segundo Nadine Marques
- [09:09]–[10:48] – Explicação sobre a mudança das diretrizes alimentares nos EUA
- [12:48]–[14:31] – Dados sobre consumo real de proteína no Brasil e desigualdades
- [15:22]–[17:05] – Efeitos práticos da nova recomendação dos EUA e consequências para padrões alimentares
- [20:30]–[23:32] – Origem do 'culto à proteína' e do consumo de whey protein
- [24:32]–[26:33] – Histórico do mito do déficit proteico e interesses envolvidos
Resumo Final
O episódio desmistifica a ideia de que “quanto mais proteína, melhor”. Nadine Marques reafirma que a maioria dos brasileiros, assim como boa parte do mundo, já consome proteína suficiente – ou até em excesso. O foco obsessivo nesse macronutriente, impulsionado por diretrizes, marketing e padrões de beleza, pode não só ser inútil, como trazer riscos: sobrecarga de órgãos, desbalanceamento alimentar e exclusão de outros alimentos essenciais do prato. A “sociedade do whey” é tanto resultado de tendências sociais quanto das necessidades (e estratégias) industriais de décadas passadas. A recomendação final: equilíbrio, variedade e pensar a comida para além dos rótulos de proteína.
Citações-Chave
- “A obsessão por proteínas mexeu inclusive com o prazer de simplesmente comer.” – Natuza Nery, [01:49]
- “Não é como se quanto mais a gente comer, mais músculo a gente vai produzir.” – Nadine Marques, [05:56]
- “O suplemento serve para complementar a alimentação... E às vezes essa falta não existe.” – Nadine Marques, [05:27]
- “A gente já consome adequadamente... enquanto a gente come, por outro lado, quantidades insuficientes de outros alimentos, como frutas, legumes e verduras.” – Nadine Marques, [11:45]
- “Se existem calorias suficientes, haverá também suficiência proteica.” – Nadine Marques, [25:45]
Tom do episódio: Didático, crítico e acessível, sempre pautado em dados científicos e preocupações reais da sociedade brasileira e global.
Para quem é recomendada: Interessados em nutrição, tendências alimentares e políticas públicas de saúde, e qualquer um que tenha se perguntado se realmente precisa daquele suplemento proteico.
