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Nathuzaner
do palco do Web Summit. Eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Lázaro Ramos.
Lázaro Ramos
O assunto é Lázaro Ramos?
Nathuzaner
É Lázaro Ramos.
Lázaro Ramos
Tem certeza?
Nathuzaner
Tenho certeza absoluta. E penso como eu estou feliz de fazer esse assunto Lázaro Ramos. Pra você que é assúnter, hoje eu trago um episódio extra com Lázaro Ramos. Você já parou pra pensar o que acontece quando a inteligência artificial encontra arte? Como é que fica a autoria e o trabalho de quem vive de imaginar, de escrever, interpretar, contar histórias em um mundo cada vez mais atravessado por robôs? Pois bem, este episódio foi gravado ao vivo, com plateia, no Web Summit Rio 2026, uma das maiores conferências de tecnologia e inovação do mundo. Então, fica comigo para acompanhar esse papo especial. Lázaro, a gente evidentemente está tratando aqui de inteligência artificial. Então, antes de mais nada, quero te perguntar qual é a tua relação? O que o seu coração diz quando a pauta é inteligência artificial?
Lázaro Ramos
Pois é, eu vindo para cá eu fiquei preocupado, porque eu falei, nossa, vou para um evento que vai falar sobre tecnologia, várias pessoas que trabalham com isso, e eu tenho uma relação conflituosa. Se por um lado eu sou absolutamente apaixonado por todas as possibilidades que a IA pode trazer para a agricultura, para aceleração de processos no campo da saúde, no campo das avaliações, Por outro lado, eu sou uma pessoa também preocupada com a IA porque eu acho que tem uma regulação que é importante ser feita, de várias instâncias. E essas regulações, acho que a gente vai poder falar um pouquinho mais, têm a ver com preservar alguns valores que eu prezo muito, principalmente dentro do meu trabalho, dentro do que me motiva criativamente, dentro do que eu sinto que toca às pessoas. A minha profissão é trazer as sensações humanas mais espontâneas, um riso largo, um choro que você não sabe pelo que é, uma reflexão. E isso é produzido com alguns processos que a Iá ainda não consegue atingir. Então eu reflito muito sobre isso, tenho usado com parcimônia, como pai também tenho conversado muito com meus filhos e ainda estou com algumas frases, pode ser que daqui a algum tempo eu diga diferente, mas eu ainda prefiro uma música feita por Cartola do que uma feita pelo Suno. Eu tô aqui assim nesse momento.
Nathuzaner
Não, tá tudo certo. Eu acho que muita gente compartilha das mesmas angústias que você. E aí a minha grande dúvida nessa história toda é a relação do artista com o Iá. Você já teve alguma imagem tua manipulada por Iá? Você já passou por essa experiência?
Lázaro Ramos
Já passei por uma experiência que era de um anúncio de um produto. Felizmente, um seguidor me avisou com antecedência, a gente entrou em contato e esse anúncio saiu do ar. Mas, por outro lado, com a novela que eu estou fazendo atualmente, algumas pessoas fazem versões da novela com imagem dos personagens e que estão aí disponíveis. por enquanto está na instância da brincadeira, da diversão, do entretenimento. Tem algo que eu me preocupo hoje em dia, por isso que eu falo sobre regulação, é assim, porque eu sou um profissional das artes, que eu escolho muito bem o que eu quero falar, em que projeto eu quero estar envolvido, que assunto eu quero levar para as pessoas, que conteúdo e que gênero eu quero fazer parte. uma imagem manipulada minha, utilizada num produto, num filme, num discurso que eu acredito, eu acho um grande problema. Porque tem muita gente que, por exemplo, assiste às minhas coisas e percebe que tem uma curadoria, um pensamento, uma ética, um tipo de humor que eu faço, e isso é algo que eu acho que é um direito meu, a minha imagem estar a serviço disso. Hoje em dia, eu não sei bem se a gente tem este controle, mas eu acho que é uma reflexão importantíssima.
Nathuzaner
E daí entra o aspecto da regulação, né? Porque se não tiver regulação, daqui a algum tempo, podem dizer que a sua imagem feita por AIA não é sua.
Lázaro Ramos
Exato.
Nathuzaner
Portanto, você não tem direito sobre essa imagem, inclusive financeiro.
Lázaro Ramos
Exatamente. Financeiro, o principal também, né? Uma das outras coisas que eu, no começo da conversa com a IA para usar no meu setor de trabalho, no audiovisual, que eu fiquei muito preocupado, foi assim, eu falei, nossa, vai acelerar vários processos, mas vai acabar várias profissões com muita rapidez. Hoje em dia, por exemplo, para você fazer um storyboard de um filme que você contratava um designer, sentava, conversava, planejava, você consegue fazer um storyboard em 20 segundos com um AI. Então esses profissionais que viviam disso não tiveram exatamente um tempo para se adaptar para essa nova realidade. Eu acho que foi um bonde que a gente perdeu, né? E é toda uma indústria que se mantém disso. As pessoas estão correndo, estão se adaptando, estão entendendo como é que vai ser, estão caindo os rendimentos, que eu acho que é uma coisa natural, que vai acontecer no mercado da gente. Eu acho que não vai ter mais os supersalários, essa é uma verdade, mas só que eu sinto falta da gente ter tido esse tempinho de adaptação. Assim como eu sinto falta desse debate juridicamente. O que é que a gente vai regular? Quais vão ser as obrigações? Uma das preocupações que eu tenho é, hoje em dia, a gente, nas IAs, a gente não ter regulação para casos extremos. Como, por exemplo, um jovem que entra em uma IA agora e cria um amigo virtual, a gente não tem uma regulação que a IA, se esse jovem começar a falar sobre suicídio, ela precisa indicá-lo a um médico ou para conversar com o familiar. Isso é muito sério. Tem alguns casos extremos que eu acho que precisam ser regulados, sabe? Não dá para você conversar até o fim. A gente tem alguns, inclusive, programas de televisão internacionais que já mapearam vários desses casos de jovens que estavam conversando, que se suicidaram. Então, esse tipo de conversa eu acho importante. Quando eu falo sobre isso, não tem nada a ver com impedir o avanço da tecnologia, porque é claro que eu quero que a IA ajude no diagnóstico precoce de câncer. Eu vi inclusive em Dubai um scanner de IA maravilhoso, que era assim, você passa pelo scanner e ele já dá um primeiro diagnóstico, já vê se você já está com febre. Achei fascinante. Eu quero que a IA chegue na agricultura e veja como é que a gente usa menos agrotóxico e ainda assim floresce em mais alimentos. Está tudo certo, é tudo legal, mas tem algumas coisas muito ligadas à nossa saúde, ao humano, à empregabilidade que eu acho que a gente precisa legislar.
Nathuzaner
Já que você citou esse aspecto de ser pai e de se preocupar com isso, qual é o tipo de conversa que você tem com seus filhos sobre tecnologia? Eu te pergunto porque eu fiz um episódio de um assunto faz algum tempo que a gente detectou esse fenômeno de pessoas Muitos que não conseguiam pagar, um psicólogo, se consultando com a inteligência artificial. E aí isso tem um debate social importantíssimo, né? Porque profissional não está sempre disponível para todo mundo e a gente sabe que a gente mora num país muito desigual. E, ao mesmo tempo, mesmo pessoas jovens, gente da nossa idade, da nossa faixa etária, idosos, que se consultavam com o IA. E aí eu fiz um episódio de um assunto dizendo, olha, qual é o limite disso? Aí você fala, bom, aí tem que ter um limite. Se a pessoa sinaliza com suicídio, sinaliza com automutilação, tem que ter algum alerta, tem que ter algo que diga. Tem a que já faz isso, né? Que recomenda que se consulte um profissional da área, mas tem a que não faz. E aí eu te pergunto, que tipo de conversa você tem com os teus filhos sobre tecnologia? Você proíbe eles de fazer alguma coisa? Você não proíbe? Você conversa? Você alerta?
Lázaro Ramos
É, estou na fase da proibição e muita conversa. E é muito engraçado, vou citar até uma coisa que eu aprendi lá nos idos de 2004.
Nathuzaner
Outra era geológica.
Lázaro Ramos
Outra era, quando eu resolvi escrever um livro infantil para falar sobre uso de tecnologia. E olha como são as coisas. Eu uso muito isso para conversar com meus filhos. Eu criei a história de uma menina que era muito parada porque ficava o tempo todo na frente da televisão e do computador e nos joguinhos. Ela não brincava, não corria na rua. E um dia ia uma vizinha na casa da mãe dela e dizia assim, Essa sua filha é muito parada. Parece que ela tem uma velha sentada na cabeça. Isso era um livro infantil, chamavelha sentada. E aí essa menina acreditava nisso e entrava na própria cabeça para procurar a velha para tirar a velha de lá. Essa velha que fazia com que ela ficasse parada. A menina procurava no olho, no paladar, no olfato, na audição. E aí eu parei o livro, porque quando a menina encontrou a velha, eu não sabia o que fazer, porque o primeiro texto que eu escrevi foi assim, tecnologia é um absurdo, tem que brincar na rua, não se aproxime do joguinho, não pode assistir. Eu falei, gente, mas não é possível, isso não é real. E eu parei esse livro por três anos, até que através de uma piada eu falei, já sei onde é que está a velha. A piada é o seguinte, a velha estava na veia que liga o cérebro ao coração, ela estava bem no meio. E aí eu falei, por quê? Porque é justamente o equilíbrio, né? É saber onde usar e onde recolher também e viver outras experiências. É esse tipo de infância que eu tento proporcionar a meus filhos. Hoje em dia, o meu filho outro dia me mostrou uma coisa que eu achei maravilhosa. O conteúdo que ele recebeu da escola, ele pegou, colocou dentro da IA e pediu para que a IA criasse um joguinho para ele, para ele pegar o assunto que ele já sabia e estudar. Eu achei maravilhoso, porque ele se apropriou da tecnologia, criando uma coisa que ia ajudar ele a compreender mais o assunto. Mas eu já vi situação de outras crianças é que estavam perdendo a capacidade de reflexão. Queria acelerar tanto o processo, queria já fazer o trabalho pronto, pedir para o chat fazer o trabalho e entregar para a escola sem nem ler. E os professores estão tendo uma questão grande de trabalhos feitos no chat e quando chega diz, olha, isso aqui foi feito no chat. Não é só para você me dar o trabalho, é para você refletir, para você ler, para você criar. Então, a minha conversa com meus filhos é muito sobre a importância deles manterem a capacidade criativa deles e de reflexão. E se eles tiverem alguma dúvida, alguma coisa, eles conversarem com a gente. Agora, é exaustivo, Natura. É exaustivo, porque tem dias que eu digo assim, eu preciso tirar eles disso, porque eles só querem ficar nisso. Então, é uma vigilância constante. E tem dias que eu estou exausto, eu falo, Thaís, hoje é com você. A gente reveza, porque realmente a nossa presença como pais, ela precisará ser constante. Não tem outro caminho, porque a gente vai precisar conduzi-los ainda. Eles estão em formação, né? Assim, falar sobre, por exemplo, eu vejo eles se divertindo muito, É, com alguns vídeos de IA, aí eu falo, para aí, agora a gente tem uma conversa, minha filha já fala assim, ah, já sei, Dramaturgia. Aí eu falo, ué, vamos sair disso aqui, a gente vai ver Dramaturgia. Por quê? Porque tem algumas coisas que a Dramaturgia vai te oferecer e que a IA não oferece. Você sabe o que é subtexto? Outro dia a gente teve essa conversa. Subtexto. O sentimento não vai vir chapado. Às vezes, a atriz vai estar sorrindo, mas está chorando. O que quer dizer isso? É esse aprofundamento nas relações que eu acho muito importante para falar com meus filhos, porque senão a gente começa a reproduzir comportamentos de máquina. O que é o comportamento de máquina para mim? É ficar passando o dedo eternamente vendo uma coisa sem fixar em nada. O que é o comportamento de máquina? É você saber que tem um chat que vai fazer o serviço para você, que ele vai repetir aquele processo e você já vai ter pronto. E aí, onde é que vai ficar as as outras coisas que são tão importantes, né? A sensibilização, a reflexão, a criatividade. Então é conversa chata. Eles já sabem que a gente é chato, mas essa é a nossa função. Outro dia minha filha falou assim, eu tô com raiva. Aí eu falei, não tô nem aí, eu sou seu pai. É nessa que eu ando.
Nathuzaner
Você sabe que, recentemente, o meu filho recebeu um texto e o texto era horrível. Eu não entendi o texto. Aí eu falei, você leu? Lê de novo. O livro falou, continua o perdido. Aí eu falei assim, então, você tem o texto em PDF? Tem o texto em PDF. Então joga na IA. Jogou? Jogou. Pede pra ele te dar os pontos principais. A IA deu. O texto continuava horrível. Eu disse assim, pede pra eu te explicar em linguagem de boteco. E aí, o mundo se abriu para mim. E agora, tudo que eu quero falar simples, eu preciso falar Iá. Eu falo assim, como é que eu explico esse conceito aqui em linguagem de boteco? E aí, a minha Iá já diz assim, ok, Natuzza, é em linguagem de boteco. Então, agora, eu consigo simplificar temas muito, comunicar, na verdade, temas muito complexos me valendo da Iá. Mas é um uso superficial, ele não é um uso profundo. E eu queria te perguntar uma outra...
Lázaro Ramos
Peraí, deixa eu só dizer uma coisa. Você usa assim porque você é uma pessoa elevada, né? Eu uso no geral pra ser cínico. Por exemplo, quando eu quero brigar com uma pessoa, eu tô com raiva. Eu escrevo no chat umas coisas bem raivosas e falo, agora transforma isso tudo numa mensagem mais cínica. Aí resolve muitos problemas pra minha vida.
Nathuzaner
Aí há alter ego, né? Excelente! Eu não fiz esse uso da... Menina,
Lázaro Ramos
mas livra de tanta briga, tem que fazer!
Nathuzaner
Muito bom! Agora, quando você olha para o teu mundo, que é... o mundo artístico, você já revelou aqui uma preocupação com o mundo do trabalho, né? Como ficarão as pessoas ultrapassadas pela IA ou atropeladas pela IA? Como é que você enxerga o teu mercado com a IA daqui a 10 anos? Tô fazendo só um exercício aqui pra gente ver o que que tá na tua... até onde vai a sua criatividade em relação à inteligência artificial.
Lázaro Ramos
Nossa, primeiro assim, eu tenho muita consciência de que tudo vai mudar, né? A gente, por exemplo, alguns setores, dublagem. Hoje em dia, você dubla em qualquer idioma com a voz do ator original um filme.
Nathuzaner
Isso é incrível, né?
Lázaro Ramos
É, isso é incrível. Mudou, mudou. É outra coisa. Você já não precisa mais de storyboard, efeitos especiais. A novela que eu faço, A Nobreza do Amor, recomendo, está passando nesse minuto. A novela é ótima. Alguém aí já assistiu? Vou aproveitar e... Viva Batanga! A novela é maravilhosa. A novela tem o uso de Iá, tem alguns cenários que são feitos por Iá, que a gente captou primeiro em Mossoró, no Rio Grande do Norte, e agora a gente trabalha com a Iá, e ficam assim que ninguém percebe o que é Iá e o que não é. Isso é muito legal, tudo isso é muito bom, mas eu, como criador, eu me sinto desafiado a oferecer ao meu consumidor, ao meu público, aquilo que a Iá não vai oferecer. E isso eu associo muito a uma coisa que aconteceu no Brasil aqui nos últimos anos, e que foi um aprendizado, que foi assim. O mercado do audiovisual entrou em uma crise grande, como vários mercados, durante a pandemia. Muita gente sem trabalho, e muita gente, quando a pandemia foi passando, começou a ser cliente, trabalhar e produzir e criar para streamings. Num determinado momento, os streamings começaram a trabalhar com padrões algorítmicos, com pesquisas e testes, e produziu, por exemplo, um monte de filme que a gente até assistia, mas acabava o filme e você não sabia o nome do protagonista. Você não lembrava o início do filme. Que tipo de experiência é essa que está sendo criada? O que a gente está perdendo e que o entretenimento pode nos oferecer? Os filmes que ficam com a gente para sempre. Você chega em casa e lembra de uma piada e ri. Você lembra de uma cena romântica. A cena do Hamnet, por exemplo, todo mundo fala, para dar um filme recente, daquela atriz assistindo o espetáculo pela primeira vez, de vez em quando eu lembro e falo, nossa, que bonito. É uma experiência que fica na gente, que fica tatuada. E a gente, durante um período, produzia um monte de coisa e passava. Acho que aprendemos, porque eu já vejo alguns novos filmes sendo feitos, até para streaming, que estão sendo mais autorais, que estão sendo mais imperfeitos, que usam o algoritmo como referência, mas não como única referência, mesmo porque o estudo do algoritmo, geralmente, é para saber o que foi sucesso, mas ele não antecipa a tendência. Até quando a gente vai para a IA perguntando qual é o caminho de criação aqui, ela dá umas opções, mas não é uma certeza. Como é que a gente vai fazer uma grande obra de arte, não estou falando assim da gente fazer o Cidadão Kane, mas de uma obra que faça sentido a pessoa sair da sua casa e ir para um cinema, ligar a televisão para assistir. é sendo autoral, é sendo muito humano, é criando experiências diferentes. Eu acho que é esse o grande desafio que a gente tem. A gente não vai poder ficar acomodado em fazer apenas o que é padrão. A gente vai ter que atiçar muito a criatividade, pensar nos processos criativos, pensar nos novos estímulos e narrativas para a gente continuar fazendo sentido na vida das pessoas. Para continuar fazendo sentido, a pessoa querer assistir a gente e ouvir o que a gente está falando. Alguém aplaudiu aí? Deve ser algum parente. Tem algum parente?
Nathuzaner
E se daqui, vamos fazer um outro exercício que me veio à cabeça agora te ouvindo. E se daqui a 20 anos um diretor de cinema te fizesse um convite e dissesse assim, Lázaro, eu quero fazer um filme todo em Iá, você não precisa atuar. E uma hora e cinquenta depois você assiste ao filme e uma hora e cinquenta depois você disse, sou eu todinho. Se eu tivesse feito esse filme, Seria eu nesse papel. Você autorizaria esse filme, recebendo inclusive por ele?
Lázaro Ramos
Eu ia cobrar mais caro do que eu cobro. E enquanto o filme tivesse sendo exibido, eu ia fazer teatro. Eu ia ganhar dinheiro duas vezes.
Nathuzaner
Aceito
Lázaro Ramos
propostas.
Nathuzaner
Desde que a atuação fosse impecável, né?
Lázaro Ramos
É, e não tivesse nude. Ou se tivesse nude, que melhorasse minha barriga. Esse tipo de piada a IA não faz, eu só queria registrar isso aqui, tá?
Nathuzaner
Tem uma outra discussão que eu queria muito ter com você, que é sobre os limites da IA a partir do algoritmo racial. Eu queria te falar de uma pesquisadora, canadense, melhor dizendo, preta, que foi fazer uma pesquisa no MIT e ela começou a ter dificuldade de ter o rosto preto dela reconhecido. E aí ela mandou fazer uma máscara branca. Então, o sistema de reconhecimento facial, por IA, não a reconhecia pelo rosto preto dela. O que ela fez? Ela botou uma máscara e, automaticamente, ela passou a ser uma máscara branca e automaticamente ela passou a ser reconhecida. O nome dela é Joy Buolamini e ela acabou sendo responsável por alertar grandes empresas de Amazon abaixo sobre como a inteligência artificial precisa ser responsável. Muita gente a ouviu, na época ela conseguiu uma audiência com o então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, então eu queria muito falar do viés racial nos sistemas de reconhecimento facial por I.A. Porque tem aí um debate se a I.A. é feita por pessoas brancas sem ouvir ou sem ter no borde pessoas pretas, a gente vai reproduzir no mundo artificial, da inteligência artificial, a prática racista do mundo real. E isso vai produzir injustiças atrás de injustiças. Tanto é assim que há muitos relatos de pessoas de um homem, por exemplo, ela cita o caso desse homem, injustamente preso, porque a AIA o associou a alguém que tinha cometido um crime, ele ficou uma noite preso porque o sistema de reconhecimento facial falhou.
Lázaro Ramos
Pois é, isso é importantíssimo. É esse tipo de debate que a gente precisa ter, né? Que, inclusive, são questões que já nos permeiam na sociedade, né? Alguns anos atrás, quando você começou a me falar, eu me lembrei de um movimento que teve para os sites de pesquisa, porque quando você pesquisava, assim, homem, só eram homens brancos. Para você achar uma imagem de homem negro, você tinha que colocar homem negro. Quando você colocava mulher bonita, eram só mulheres brancas. Se você quisesse uma mulher, você tinha que colocar o negro junto. Olha que injustiça, olha que problema. E quando você fala sobre isso, imagina um sistema policial usando reconhecimento facial. Quantas injustiças não podem ser cometidas? Então esse tipo de sutileza, esse tipo de avanço precisa ser discutido também.
Nathuzaner
Tem uma discussão no mundo que eles estão fazendo agora, que é quando você vai desenvolver um sistema de inteligência artificial, por que não há só o algoritmo racial nessa história? Há o algoritmo de gênero também. Então, você vê o risco de preconceitos da própria sociedade, da humanidade, sendo produzidos e desenvolvidos e cometendo erros na vida real das pessoas.
Lázaro Ramos
E aí a pergunta que me fica, ai meu Deus do céu, nós lutamos tanto contra violências, contra injustiça, contra preconceitos, realmente tem que ser permitido tudo na IA? Realmente tem que ser permitido produção de um discurso nazista, de um discurso racista, de um discurso violento? Que sociedade a gente quer? A liberação tecnológica, deve ser tanta assim, aonde é que a gente vai chegar se a gente não pensar numa ética que nos proteja? Eu acho isso um assunto muito sério, e eu acho que as empresas precisam ser responsabilizadas e pensar nisso, porque muitos dos donos de empresas falam assim, olha, isso é um serviço livre, a internet é livre, a tecnologia é livre, e tem uma intenção por trás também, é de que nós usemos essa tecnologia por mais tempo possível. Inclusive, por isso, algumas empresas se recusam a regular os casos de pessoas que começam a falar em suicídio, porque, se você regula, a pessoa abandona a tecnologia. Então, a gente está falando de mercado e de ética. A gente está chegando aqui no fim e eu acho que é muito importante a gente ter isso na consciência e eu acho que é totalmente possível a gente avançar tecnologicamente, a gente produzir dinheiro, produzir renda, mas, ainda assim, sermos éticos e humanos.
Nathuzaner
Porque não pode haver dois mundos, né? Um mundo desse nosso, em que estamos todos aqui, de carne e osso, trabalhando, vivendo, amando. E a regra valer para isso aqui e não valer para um outro lugar, né? Não valer para uma extensão dessa realidade que nós vivemos. Então, já que você é um otimista pessimista, né? Acho que dá pra gente... E eu também me encontro nesse teu... Se é que eu traduzi bem a sua relação de amor e medo com a inteligência artificial, que é uma relação que eu acho que muita gente aqui pode ter também, eu tenho. Eu queria que você se despedisse desse episódio dizendo, no mundo em que o Lázaro Ramos fosse o líder principal, como
Lázaro Ramos
é que seria... Olha aí, a eleição para presidente está chegando.
Nathuzaner
Como é que seria esse mundo? Como é que seria a I.A. nesse seu mundo, se você tivesse esse poder, esse domínio?
Lázaro Ramos
Nossa, eu tenho um sonho que é muito grande. Ih, I have a dream! Foi sem querer, tá? Juro por Deus. Mas eu tenho um sonho. Outro dia, eu estava conversando com um amigo e eu fiz uma brincadeira que, assim, gente, não tem embasamento científico, sociológico nenhum. Mas eu falei assim, nossa, a gente tá indo pra um tempo que a gente tá tão ansioso, tá tão inseguro. Eu fico pensando assim, coletivamente, o que é que a gente vai querer, né? Um mundo de tanta disputa, de tanta incerteza. Aí eu falei assim, já sei qual é o meu sonho, porque eu acho que, assim, nos anos 70, enquanto sentimento coletivo, a gente lutava pelo direito de ser. Nos anos 80, e não tem embasamento científico, tá, gente? Pelo amor de Deus, eu sou artista. Nos anos 80, a gente lutava coletivamente pelo direito de ter. Aí vem ombreira grande, cinto largo, roupas coloridas. Nos anos 90, a gente vai para, enquanto sentimento coletivo, para o direito de... Aparecer. Aí vem reality show e etc. Massa tese, né? Aí, quando chega nos anos 2000, a gente vai tentando o direito de parecer. É o que é o Instagram com a foto bonita, tá tudo bem, é o prato de comida, a gente parece alguma coisa, a gente se vende. Aí, qual é o meu desejo para o futuro? Que a gente tenha o direito de expirecer. de não ficar com tanta angústia, com tanta incerteza e etc. E isso, eu acho que vai ser produzido numa coisa que é assim, eu vou discordar de você, você falou que eu sou um otimista pessimista, eu não sou nenhum dos dois, eu sou um conversacionista. Eu acho que a gente tem que conversar sobre os assuntos por mais delicados que eles sejam. A gente só não pode silenciar, entubar e achar que a vida vai seguir assim. E a gente tem essa capacidade de conversar, conversar sobre ética, sobre afeto, sobre a luta contra os preconceitos e sobre o uso responsável da inteligência artificial.
Nathuzaner
É isso. Desculpa ter te definido, hein?
Lázaro Ramos
Eu pensei isso agora. Não tinha essa certeza, não.
Nathuzaner
Lázaro, foi um prazer entrevistá-lo neste episódio de O Assunto. Foi um prazer entrevistá-lo aqui diante de vocês. Muito obrigada.
Lázaro Ramos
Nobreza do Amor, de segunda a sábado. Uma novela ótima.
Nathuzaner
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Nathuzaner e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
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Date: June 13, 2026
Host: Natuza Nery (G1)
Guest: Lázaro Ramos
Recorded at: Web Summit Rio 2026
Theme: The intersection of artificial intelligence (IA) and art, exploring creative, ethical, and social implications for artists and society.
In this special episode, Natuza Nery sits down with acclaimed actor, director, and writer Lázaro Ramos for a live conversation at the Web Summit Rio 2026. They dive deep into the profound changes that artificial intelligence is bringing to the world of art, creativity, and human connection. Through personal anecdotes, critical reflections, and forward-looking questions, the episode explores not just how art is made and consumed in the era of IA, but how artists, families, and society must rethink authorship, ethics, regulation, and inclusivity in an increasingly automated world.
Ambivalence & Awe:
Lázaro describes a “conflituosa” (conflicted) relationship with AI, being fascinated by its potential in fields like agriculture and health, but worried about its impact on creativity, human connection, and the spontaneous emotions central to his craft.
“A minha profissão é trazer as sensações humanas mais espontâneas... E isso é produzido com processos que a IA ainda não consegue atingir.”
(Lázaro Ramos, 01:33)
Preference for Human Artistry:
He still prefers music composed by humans:
“Eu ainda prefiro uma música feita por Cartola do que uma feita pelo Suno.”
(Lázaro Ramos, 02:18)
AI Manipulation of Image:
Lázaro recounts having his image used in an unauthorized AI-generated advertisement, highlighting the lack of control artists currently have when their likeness is manipulated by AI.
Curatorial Integrity:
He strongly values the ability to choose the projects and messages associated with his image, emphasizing the potential loss of curation and artistic ethics in an age of AI-generated content.
Call for Regulation:
The need for regulation is urgent, both for protecting artistic rights and for financial remuneration.
“Uma imagem manipulada minha, utilizada num produto, num filme, num discurso… eu acho um grande problema…”
(Lázaro Ramos, 03:22)
Job Loss & Rapid Change:
Lázaro notes that roles like storyboard artists have been displaced rapidly by AI, with little time for professional adaptation.
“Você consegue fazer um storyboard em 20 segundos com IA. Então esses profissionais… não tiveram tempo de se adaptar para essa nova realidade.”
(Lázaro Ramos, 04:31)
Industry Shifts:
He predicts an end to “supersalários” (super-salaries) in creative professions and critiques the lack of collective preparation for this new landscape.
Extreme Cases Without Safeguards:
Lázaro expresses grave concern about unregulated AI, especially regarding young people forming deep bonds with AI that might not intervene in crises like suicide ideation.
“…Não dá para você conversar até o fim. […] Esse tipo de conversa eu acho importante. Não tem nada a ver com impedir o avanço da tecnologia…”
(Lázaro Ramos, 05:59)
Balance Between Progress and Protection:
He advocates for technological progress that also keeps employability, health, and humanity at the forefront.
Finding Balance:
Sharing his own parenting approach, Lázaro tells of prohibiting excessive tech use but mainly focusing on dialogue about creativity and discernment.
Lessons from Children's Literature:
He recounts writing a children’s book about the dangers of being sedentary due to screens, ultimately learning that balance—not outright prohibition—is key.
“…a velha estava na veia que liga o cérebro ao coração… Porque é justamente o equilíbrio…”
(Lázaro Ramos, 08:51)
Encouraging Creative Use:
He praises when his son uses AI to create educational games but warns against using AI for shortcuts that diminish reflection and creativity.
Parenting is Exhausting in the Digital Age:
“Agora, é exaustivo, Natuza. […] A gente reveza, porque realmente a nossa presença como pais… vai precisar ser constante.”
(Lázaro Ramos, 11:18)
Simplifying Learning:
Natuza shares a humorous anecdote about using AI to explain complex texts in “linguagem de boteco” (bar lingo).
AI as Emotional Mediator:
Lázaro jokes about using AI to rephrase angry messages more diplomatically.
“Eu escrevo no chat umas coisas bem raivosas e falo, agora transforma isso tudo numa mensagem mais cínica. Aí resolve muitos problemas pra minha vida.”
(Lázaro Ramos, 13:17)
Transformation of Audiovisual Workflows:
Storyboards, dubbing, and visual effects are now AI-driven. His current soap opera, A Nobreza do Amor, uses AI in set design.
Authentic Connection vs. Algorithmic Content:
Lázaro reflects on streaming services’ reliance on algorithmic patterns, resulting sometimes in forgettable content.
“…um monte de filme que a gente até assistia, mas acabava o filme e você não sabia o nome do protagonista…”
(Lázaro Ramos, 15:24)
Challenge for Artists:
The future challenge is to “offer what AI cannot”—authentic, memorable, and human-centered stories.
Would Lázaro Approve an AI-Lázaro?
Natuza asks if he would authorize a full IA-generated performance of himself.
“Eu ia cobrar mais caro do que eu cobro. E enquanto o filme tivesse sendo exibido, eu ia fazer teatro. Eu ia ganhar dinheiro duas vezes.”
(Lázaro Ramos, 17:58)
Good-humored Boundaries:
He jokes about only accepting if the AI improved his physique on screen.
The Case of Joy Buolamwini:
Natuza details the story of a Black researcher who used a white mask to get facial recognition systems (trained on biased data) to “see” her, highlighting the embedded racism in current AI.
Risk of Reinforcing Societal Biases:
Lázaro points out that digital spaces replicate real-world racism and exclusion—a problem intensified if algorithms are designed without Black and diverse perspectives.
“Olha que injustiça… Imagina um sistema policial usando reconhecimento facial. Quantas injustiças não podem ser cometidas?”
(Lázaro Ramos, 20:40)
Responsibility and Regulation:
Calls are made for ethical standards to prevent AI from becoming a vector for prejudice or violence, and for holding companies accountable.
No Two Worlds:
Natuza notes the need to avoid a moral split between physical and digital worlds regarding rights and protections.
Lázaro’s Vision for Society:
In response to “if you were leader of the world, what would you decree for AI?” he coins a new word:
“Aí, qual é o meu desejo para o futuro? Que a gente tenha o direito de expirecer.”
(Lázaro Ramos, 24:31)
He hopes future generations will have the right not only “to be,” “to have,” “to appear,” or “to seem”—but also “to breathe, rest, and unburden.”
Conversationalist Approach:
Above optimism or pessimism, Lázaro advocates for persistent, honest conversation about the challenges AI poses.
On the irreplaceability of human creativity:
“A minha profissão é trazer as sensações humanas mais espontâneas… E isso é produzido com alguns processos que a IA ainda não consegue atingir.”
(Lázaro Ramos, 01:33)
On image misuse and regulation:
“Uma imagem manipulada minha… utilizada num produto, num filme, num discurso que eu acredito, eu acho um grande problema.”
(Lázaro Ramos, 03:22)
On balancing tech in parenting:
“A velha estava na veia que liga o cérebro ao coração, ela estava bem no meio.”
(Lázaro Ramos, 08:51)
About jobs lost to AI:
“Você consegue fazer um storyboard em 20 segundos com IA… Não tiveram tempo para se adaptar para essa nova realidade.”
(Lázaro Ramos, 04:31)
On streaming, repetition, and the value of the human touch:
“…um monte de filme que a gente até assistia, mas acabava o filme e você não sabia o nome do protagonista.”
(Lázaro Ramos, 15:24)
On AI-generated performances:
“Eu ia cobrar mais caro do que eu cobro. E enquanto o filme tivesse sendo exibido, eu ia fazer teatro. Eu ia ganhar dinheiro duas vezes.”
(Lázaro Ramos, 17:58)
On AI and racial bias:
“Imagina um sistema policial usando reconhecimento facial. Quantas injustiças não podem ser cometidas?”
(Lázaro Ramos, 20:40)
On collective rights and the future:
“Meu desejo para o futuro? Que a gente tenha o direito de expirecer.”
(Lázaro Ramos, 24:31)
The episode is candid, relatable, and engaging—occasionally philosophical, yet always grounded in the lived realities of art and daily life. Both Natuza and Lázaro employ humor, vivid storytelling, and empathetic insight, creating a conversation that is accessible yet thought-provoking for a broad audience.
This special episode of O Assunto is a must-listen for anyone interested in technology, art, and society. Lázaro Ramos’s reflections challenge listeners to consider not just what is possible with AI, but what should be desirable, ethical, and lasting in human culture. The episode closes with an invitation to ongoing dialogue and the pursuit of a future where technology expands, rather than diminishes, human potential and dignity.