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Natuza Neri
A partir de agosto de 2025, mais de uma dezena de navios de guerra americanos começaram a se posicionar no Mar do Caribe. Pelo ar, o céu caribenho passou a ser rota de caças e drones enviados pelas forças armadas a serviço de Trump. E então vieram os ataques. Primeiro navios venezuelanos.
Otávio Guedes
O secretário de guerra dos Estados Unidos anunciou que um ataque aéreo a uma embarcação no Caribe matou quatro narcotraficantes. Segundo o Pete Hagseth, o barco estava em águas internacionais perto da Venezuela.
Natuza Neri
Depois, o alvo foi outro.
Otávio Guedes
O governo dos Estados Unidos atacou quatro barcos no Oceano Pacífico, perto da costa da Colômbia. 14 pessoas morreram nessa operação.
Natuza Neri
O governo dos Estados Unidos alega que as ações visavam combater o narcoterrorismo na região. Relatórios indicam que pelo menos 100 pessoas morreram nos bombardeios até o dia 3 de janeiro, data do ataque americano à Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro.
Otávio Guedes
O governo Trump comunicou ao Congresso que os Estados Unidos estão em conflito armado contra os cartéis de drogas e isso dá base legal para as operações.
Natuza Neri
não foi o suficiente para Trump parar.
Otávio Guedes
No litoral da Colômbia, no Mar do Caribe, os pescadores têm trabalhado nos últimos meses com um medo de serem bombardeados pelos americanos.
Natuza Neri
Os pescadores temem ter o mesmo destino de Alejandro Carranza. 15 de setembro, um dia depois de Alejandro ir para o mar, o presidente Donald Trump publicou um vídeo com a explosão de um barco e anunciou havia destruído uma embarcação venezuelana carregada com drogas.
Otávio Guedes
A família nos procurou e disse que o Alejandro tinha saído para a Lagoa Jira e não tinha retornado. Passaram-se sete dias e ele não deu notícias.
Natuza Neri
Alejandro é o único dos mais de 80 mortos nos ataques de Trump que foi identificado por uma autoridade, o presidente colombiano Gustavo Petro, que visitou a família do pescador. Petro acusou os Estados Unidos de assassinarem um pescador colombiano que estava em um barco, segundo ele, quebrado, que foi atacado pelos Estados Unidos em setembro. O presidente da Colômbia pediu medidas legais. O presidente americano ameaçou também invadir a Colômbia e passou a acusar o presidente Gustavo Petro de ser um traficante, o que é mentira.
Otávio Guedes
Trump afirmou que a Colômbia está doente sendo governada por um homem doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos. Quando perguntado diretamente sobre intenções militares contra o país latino, Trump disse que a ideia soa bem para ele.
Natuza Neri
não demorou muito e as atenções se voltaram para o México. A Casa Branca informou que colaborou com a operação que matou o líder do maior cartel de drogas no país vizinho. Nemésio Oceguera Cervantes, o El Mencho, morreu sob custódia. Após ser ferido em uma operação militar das forças especiais mexicanas, El Mencho era classificado como um terrorista global pelo Departamento de Estado americano. Nesta semana, Mais um país latino-americano entrou no alvo de Donald Trump. E o argumento já é bem conhecido. O Departamento de Estado americano divulgou uma
Otávio Guedes
nota em que classifica o PCC e
Natuza Neri
o Comando Vermelho como ameaças significativas à segurança regional.
Otávio Guedes
Os Estados Unidos discutem incluir as facções brasileiras na lista de organizações terroristas, o que permitiria ações unilaterais como sanções financeiras
Natuza Neri
e bloqueio de ativos.
Otávio Guedes
O governo brasileiro é contra a classificação das facções como terroristas por considerar que isso ameaça a soberania do país.
Natuza Neri
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Facções criminosas e terrorismo. O que querem os Estados Unidos no Brasil? Neste episódio, eu converso com Otávio Guedes, comentarista da Globo News e colunista do G1. Quinta-feira, 12 de março. Otávio, para situar todo mundo no papo que a gente vai ter a partir de agora, qual é o tamanho a influência das duas maiores facções criminosas do Brasil, PCC e Comando Vermelho, em termos de Brasil, de expansão territorial, mas também de infiltração nas instituições públicas?
Otávio Guedes
Natuza, deixaram de ser quadrilhas nacionais e passaram a ser transnacionais. O primeiro bandido, a entender que não queria ser apenas um varejista, mas podia ser um atacadista, foi o Beranar. O Beranar, ele vai, ele foge para a Colômbia e lá faz uma sociedade com as Farc. que é ali o grupo revolucionário na Colômbia, que de revolução não tem nada, começa a negociar também cocaína, principalmente entra no ramo da cocaína. Então o Beramar foi o primeiro a entender que uma quadrilha não precisava ficar na favela Beramar, que fica no Rio de Janeiro ali em Caxias, poderia também ser um atacadista internacional. Esse passo depois é seguido pelo PCC. O PCC rompeu fronteiras e já está presente em pelo menos 28 países do
Natuza Neri
mundo, em pelo menos quatro continentes. Na América do Sul, países como Paraguai,
Otávio Guedes
Bolívia e Venezuela são considerados estratégicos. Na Europa, o destaque vai para Portugal,
Natuza Neri
onde a facção encontrou terreno fértil pela proximidade cultural e pelo idioma No Japão, o PCC passou a ter registro definitivo de integrantes Segundo especialistas, a força do PCC está no controle das prisões, onde
Otávio Guedes
tudo começa Então, o que nós temos aí, a partir do Beira-Mar, é a internacionalização dessas duas quadrilhas.
Natuza Neri
Eu conversava com autoridades que estão em contato com o governo americano, que tentam entender qual seria a extensão desse ato presidencial de Trump. E a percepção hoje, pode ser que isso mude, é de que apenas o PCC seria enquadrado como organização terrorista e não o Comando Vermelho, e a razão seria porque as autoridades americanas enxergam atividades do PCC nos Estados Unidos, como, por exemplo, compra de imóveis na Flórida, até com obtenção de green card, né? Porque quando você compra um imóvel, você tem acesso direito ao green card. O que a gente sabe sobre a atuação transnacional dessas organizações criminosas brasileiras?
Otávio Guedes
Olha Natuza, sabe muito pouco. A gente sabe muito pouco. O que tem por trás dessa história de terrorismo? Ele nasce muito mais de fake news do que basicamente de fatos. Não que essas organizações não estejam lavando dinheiro, operando nos Estados Unidos e em outros países. É óbvio que sim. É óbvio que sim. Mas o que nós temos de prova relacionados Aterrorismo, por enquanto, está mais no campo das fake news. Isso é uma tese antiga de que a tríplice fronteira é um terreno ali onde o Reis Bolá lava o dinheiro com o PCC, além de treinamento. desde o início da década de 90, pelo menos, já havia investigações a respeito disso. Há uma grande comunidade libanesa em Foz do Iguaçu, que é um hub comercial ali por conta também da tríplice fronteira, hoje em dia, com muitos chineses também, muitos coreanos também. Ali há, de fato, muita troca e isso acabou também atraindo operações de lavagem de dinheiro que envolvem narcotráfico também, mas nunca conseguiu-se provar, de fato, que houvesse uma relação direta nem de financiamento dessa comunidade libanesa os grupos radicais do Líbano. Ele foi ao Congresso, falou de organizações terroristas da América Latina e cita o PCC, dizendo que, comprovadamente, o PCC lava o dinheiro do grupo libanês Hezbollah. Apesar de ele dizer comprovadamente, não foi anexado ali nenhuma prova. Ele pertence, ele é do grupo Maga, né? O grupo Maga é o grupo de extrema-direita do Trump, que se fosse no Brasil seria chamado de gabinete do ódio. Então, hoje ele ocupa o cargo de subsecretário adjunto de defesa para o hemisfério ocidental. Ou seja, se na época do discurso primeiro governo Trump, ele não era um representante oficial dos Estados Unidos, hoje ele ocupa uma importante posição no Departamento de Guerra.
Natuza Neri
O Departamento de Estado norte-americano divulgou uma nota sobre o assunto. Afirmou que os Estados Unidos consideram que organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho representam sérios desafios à segurança regional devido ao seu envolvimento com tráfico de drogas, violência e outras atividades de crime transnacional. A nota continua informando que o governo americano não comenta antecipadamente eventuais designações de organizações terroristas e que o país está plenamente comprometido em adotar as medidas apropriadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas. Aí a gente passa para um outro elemento dessa conversa, Otávio, que são as ações dos Estados Unidos em outros países sob o mesmo argumento. de que organizações criminosas desses outros países, transformadas em organizações terroristas pela doutrina Trump, precisam ser combatidas.
Otávio Guedes
Isso se trata de América, em primeiro lugar. Isso se trata da paz através da força.
Natuza Neri
Aí Trump vai, coloca o exército americano, faz ações ou no mar ou até mesmo potencialmente incursões por terra. A gente viu, por exemplo, o caso da Venezuela, a gente viu as forças americanas atacando barcos na Venezuela. colaborando na operação que matou o líder do maior cartel mexicano. A gente pode ver algo parecido por aqui?
Otávio Guedes
Olha Natuza, o que deveria ser uma discussão basicamente técnica sobre cooperação de países contra o crime organizado, virou política. O Maduro só foi sequestrado pelos Estados Unidos porque justamente uma facção venezuelana foi considerada terrorista.
Natuza Neri
Trump assinou um decreto que classifica o Tren de Arágua como organização terrorista. Para o americano, Nicolás Maduro controla os narcotraficantes do Tren de Arágua e de outras facções, como o Cartel de los Soles.
Otávio Guedes
Eu citei há pouco o Joseph Rumire, que esteve no Congresso falando do PCC lavando dinheiro por resbolar, nesse mesmo depoimento ele cita a facção venezuelana, ou seja, está tudo dentro da mesma ideia. Então, a partir daí, a política invadiu essa discussão e o que passa a ser, depois da Venezuela, uma discussão sobre soberania. Se o fato do PCC ser considerado uma organização terrorista, isso poderia fragilizar a nossa soberania a exemplo do que aconteceu na Venezuela.
Natuza Neri
O próprio jornal americano The New York Times, num artigo não de muito tempo atrás, fez a seguinte avaliação, que essa nova doutrina oferece base oficial, palavras do jornal, para a possibilidade de operações militares diretas por mar e também em solo estrangeiro, e aí estrangeiro do ponto de referência dos Estados Unidos. Então há uma ideia, que eu diria até consensual na imprensa de lá, de que não há um objetivo claro nessa nova doutrina, que o governo Trump, que é a Casa Branca, não mostra muito quais são as suas intenções a fazer isso, faltam dados, por exemplo, o Lincoln gaquia Conversei com ele agora há pouco e eu disse, já é possível dizer que transformar uma organização, uma facção criminosa em organização terrorista ajuda a combater o tráfico? Ajuda a combater o tráfico internacional? Ajuda a dizimar essas organizações? E ele respondeu que não, que é o contrário. E explicou a razão e isso me impressionou bastante, Otávio. Ele disse o seguinte, que hoje ele consegue formar parcerias com o FBI, por exemplo, para combater o próprio PCC. Mas que, se essa doutrina passa a existir, a classificação da informação sobe de degrau. Ela vai para top secret. Então, quem passa a tocar ações para combater isso é a CIA. E a CIA não tem parceria, não faz transferência de informação.
Otávio Guedes
O promotor de justiça, Lincoln Gaquia, que atua no enfrentamento ao PCC em São Paulo e foi um dos principais interlocutores
Natuza Neri
procurados pelo governo dos Estados Unidos.
Otávio Guedes
O que melhora, o que facilita a nossa atuação é justamente o que está sendo feito agora. Eu, inclusive, tenho colaboração com o governo americano, com o FBI, com o DEA, com o Departamento de Estado. Tivemos, no ano passado, operação em Boston, Massachusetts, relativa à informação que nós passamos para o FBI. Então, isso está a nível de cooperação policial. Se os Estados Unidos, porventura, classificarem o PCC como organização terrorista, ele passa a apresentar, segundo os Estados Unidos, um risco para o Estado americano e a classificação dessas informações, que hoje são trocadas e compartilhadas em nível de cooperação policial com os ministérios públicos, por exemplo, ela pode subir a classificação para um critério, por exemplo, confidencial que passe a ser de atribuição da CIA e a gente não consiga mais acesso a algum tipo de informação.
Natuza Neri
Então ele acha que até no combate prático, no dia a dia, essa mudança pode beneficiar, inclusive, essas organizações e não ajudar a asfixiá-las.
Otávio Guedes
Então, é a prova, mais uma vez, de que trata-se de política e não de uma discussão técnica e racional. É isso que está acontecendo e muito contaminado pelas ideias da extrema direita dos Estados Unidos e da visão de que a América Latina é um quintal e que os Estados Unidos, com o poder de polícia, pode livrar esse quintal do tráfico, do crime organizado, que aqui não se combate, no seu quintal não se combate, porque há muita corrupção. Então, essa é uma ideia no imaginário, principalmente do maga, que foi traduzido nessa doutrina do Trump.
Natuza Neri
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Otávio Guedes. Agora, já que você sustenta que é político, que a motivação é política, por que agora? Eu te pergunto isso porque representantes do governo americano se reuniram, ainda nesta tarde em que a gente grava, com autoridades brasileiras que combatem essas facções criminosas. E antes os próprios americanos já haviam se encontrado com a diplomacia, com integrantes da diplomacia brasileira, para tratar do mesmo assunto. Por que então agora, neste momento?
Otávio Guedes
É exatamente isso que a diplomacia brasileira está tentando mapear. Conversei com diversos integrantes do Itamaraty que estão nessas negociações. A visão brasileira é a seguinte, há três níveis de decisão em relação a essa questão. Primeira delas é o MAGA, como eu digo, no Brasil se chamaria Gabinete do Ódio. É o MAGA que hoje tem integrantes desse MAGA em postos-chave da administração americana, se isso é uma ideia deles. A outra camada é o Marco Rubio. O Marco Rubio não é um Um maga raiz, digamos assim, mas tem uma visão muito dura também para a América Latina, mas toca a sua agenda, quer ser o sucessor do Trump. E a terceira camada é o próprio Trump. Muitas vezes o que maga quer, o que Marco Rubio quer, não faz parte da agenda do Trump. Ao contrário, por exemplo, das tarifas. As tarifas eram uma agenda do Trump. Então, o que a diplomacia está tentando ganhar tempo e, com isso, uma negociação para que se espere o encontro Lula e Trump, é justamente para sondar se isso é um ponto importante para o Trump. O chanceler Mauro Vieira levou essa preocupação ao secretário de Estado americano Marco Rubio numa conversa por telefone no domingo. O tema deve entrar na pauta do próximo encontro entre os presidentes Trump e Lula, ainda sem data definida.
Natuza Neri
Um dos objetivos do presidente Lula é
Otávio Guedes
propor o aprofundamento da cooperação entre os
Natuza Neri
dois países na área da segurança e mostrar o que o Brasil já vem fazendo para combater o crime organizado. e ele falava das implicações para além do debate da soberania. Ele diz, por exemplo, que o Comando Vermelho, por exemplo, uma vez listado como organização terrorista, e se ele está situado numa região do Rio de Janeiro, que pessoas que quiserem viajar para os Estados Unidos e que pedirem visto, por exemplo, para visitar os Estados Unidos, podem ter esse visto negado por estarem numa região de domínio dessa facção criminosa.
Otávio Guedes
que existe na Foreign Terrorist Organizations Act, na chamada FTO, é a inclusão de organizações numa lista, e essa é uma lista que vem crescendo de maneira prodigiosa, né? E uma vez que você tem uma organização incluída, isso pode produzir vários efeitos, não só pra para os membros dessas organizações, mas além das pessoas que participam dessas organizações, muitas outras pessoas podem ser afetadas. Os Estados Unidos vai ter um poder de dizer quem é do Comando Vermelho, que dinheiro que é do Comando Vermelho, de maneira completamente arbitrária. E de repente você diz assim, eu moro aonde? Ah, moro no Rio de Janeiro. Aonde? Perto do Complexo do Alemão, visto negado. Então, o que prevê a FTO nos Estados Unidos? A captura de ativos de capital associado a essas organizações, direta ou indiretamente, o bloqueio de bens, de contas, ou a suspensão de transações por meio de instituições financeiras que tenham valores nessa origem, ou a proibição de visita, de passagem pelos estados americanos, ou por outros estados que pactuam, no mesmo sentido, nesses tratados bilaterais, criando restrições adicionais. Então, deixa eu dar um exemplo. Se uma pessoa da região em Sinaloa, e existe o cartel de Sinaloa, e ele é identificado como terrorista, quem mora na região, provavelmente não vai conseguir visto para ir para os Estados Unidos. Ou para conseguir um visto para ir para os Estados Unidos, vai ter que passar por um processo excruciante de validação para ter certeza que ele não integra essa organização.
Natuza Neri
Inclusive, instituições financeiras, com conhecimento ou não de que possam estar transacionando dinheiro do crime, podem ser afetadas por essa regra. Por exemplo, uma instituição financeira por onde esse dinheiro passou, ainda que a instituição financeira não tenha conhecimento disso, pode ser impedida de atuar ou, no mínimo, estar ao alcance desse ato internacional.
Otávio Guedes
Vamos supor que parte de um valor de uma facção, se uma facção for declarada terrorista nessa lista, certo? E há uma transação financeira com um banco qualquer. E os Estados Unidos identificam que esse banco está recebendo o dinheiro dessa fonte, ele bloqueia as atividades desse banco nos Estados Unidos de maneira vertical, súbita e não justificada. Ou seja, o que a legislação dos Estados Unidos permite quando ela entende que existe uma organização terrorista, ela garante poderes amplos ao executi-lo. Então ela não é normalmente enfrentada dentro do mesmo processo legal, digamos, que um bloqueio de conta normalmente passa, digamos, por uma questão trabalhista, penal simples, ou por uma questão, enfim, administrativa. Você não vai passar pelo processo legal como aqui, O poder executivo dos Estados Unidos, o poder executivo federal da União dos Estados Unidos, tem um poder enorme de, subitamente, tirar direitos de mobilidade internacional, de ir e vir, seja de pessoas ou de capital.
Natuza Neri
Isso também abre espaço para sanções financeiras, como a que a gente viu, por exemplo, contra o ministro Alexandre de Moraes. Você tem as sanções OFAC, que são do escritório para coibir esse tipo de crime financeiro, crime relativo ao tráfico, e com isso você poderia, por exemplo, fazer com que algumas bancos que tivessem correntistas, aliás, o PCC, por exemplo, fossem excluídos do sistema SWIFT, que é internacional de transações. aquele Você pode colocar, a depender do acirramento dessa disputa internacional, até o Brasil na mira de sanções como é o Irã, por exemplo, que o Irã tem organizações terroristas. Mas, Otávio, e a tal da química entre Trump e Lula? Ela vai fazer alguma diferença nessa discussão? Porque o Lincoln Gacchia, por exemplo, acha, avalia, que não importa o que o Brasil diga, que os Estados Unidos já tomaram a sua decisão. A química não contará na sua avaliação nesse aspecto ou o Brasil tem condições de ganhar tempo? Eu sei que não dá para fazer futurologia, mas na tua avaliação, a partir de tudo que você viu ao longo desse período Trump e da sua relação com Lula, o que dá para extrair daí?
Otávio Guedes
Olha, então vamos nos basear em fatos. Qual é a característica principal do Trump nesse segundo mandato dele? A imprevisibilidade. Quem poderia prever que ele ia manter o governo chavista e até elogiar a vice-presidente chavista do Maduro? Quem também poderia imaginar que, no meio daquela crise das tarifas, ele ia ocupar o púlpito da ONU para dizer que adorava o Lula, que sentiu uma energia boa entre os dois? Então, ao contrário do Lincoln, eu acredito, sim, que o que chamam de química, mas é o que eu chamo de imprevisibilidade, pode ajudar, sim, porque nem sempre as decisões de Trump me parecem guiadas pela racionalidade. mas sim por seus interesses.
Natuza Neri
Tem uma avaliação de que Trump faz isso neste momento pra interferir nas eleições brasileiras. Eu não tô convencida disso não, Otávio, você tá?
Otávio Guedes
Tô convencido, mas não o Trump, mas o MAGA. O MAGA é que tem ali grandes relações com o bolsonarismo, Nós sabemos que quem mandou muitos elementos para o governo americano para fortalecer e justificar essa decisão é o senador Flávio Bolsonaro. E o próprio Eduardo Bolsonaro e o próprio Paulo Figueiredo já estão reivindicando esta articulação. Porque qual é a lógica por trás disso? Quando o governo brasileiro defende que não se deva classificar o PCC como organização criminosa, por esses motivos que o Lincoln desenhou, explicou, que dificulta até mesmo a troca de informações ou que a legislação brasileira não prevê isso, o que vai ser vendido para o eleitor? Governo Lula defende PCC e Comando Vermelho. Esse é o objetivo, esse é o discurso que o bolsonarismo quer extrair dessa discussão. O que é uma completa distorção dizer isso, que não classificar como organização terrorista você esteja defendendo o PCC. Isso é uma distorção, isso é uma fake news. É meio lamentável que o calendário político possa, no final das contas, atrapalhar uma conversa que pode ser feita entre dois países soberanos sobre uma cooperação com um tema que é comum. E é ruim que fique essa imagem de que se você questiona isso significa que você está defendendo o PCC e o CV. Não é o caso. Mas por isso que é uma armadilha, né? É uma armadilha. E eles mesmo é que já estão reivindicando esta articulação, como reivindicaram a articulação, segundo eles, para os Estados Unidos imporem a lei Magnitsky, que resultou ali na taxação dos produtos brasileiros. Mas eu acredito sim, Natuza, não do Trump, Mais dois pontos de contato entre o bolsonarismo e o maga.
Natuza Neri
Otávio Guedes, muito obrigada pelas explicações. Bom trabalho pra você.
Otávio Guedes
Beijo.
Natuza Neri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco. Colaborou neste episódio Arthur Stabile. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto!
Host: Natuza Nery
Convidado: Otávio Guedes (comentarista da GloboNews e colunista do G1)
Data: 12 de março de 2026
Tema: A pressão dos EUA para classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas — contexto, implicações e disputas diplomáticas.
Neste episódio, Natuza Nery e Otávio Guedes analisam a recente ofensiva do governo dos Estados Unidos contra cartéis e facções criminosas latino-americanas, incluindo PCC e Comando Vermelho do Brasil, sob o argumento de combate ao “narcoterrorismo”. O episódio explora as razões políticas e diplomáticas por trás do interesse americano em intervir, o impacto dessa doutrina sobre a soberania brasileira, e as potenciais consequências práticas e simbólicas da designação de facções como terroristas.
"No litoral da Colômbia, no Mar do Caribe, os pescadores têm trabalhado nos últimos meses com um medo de serem bombardeados pelos americanos." — Otávio Guedes (01:13)
"O beramar foi o primeiro a entender que uma quadrilha não precisava ficar na favela... poderia também ser um atacadista internacional." — Otávio Guedes (04:31)
"O que tem por trás dessa história de terrorismo? Ele nasce muito mais de fake news do que basicamente de fatos." — Otávio Guedes (06:43)
"A política invadiu essa discussão e o que passa a ser... uma discussão sobre soberania." — Otávio Guedes (11:23)
Lincoln Gakiya, promotor de justiça de SP, destaca os riscos da mudança na colaboração internacional (12:00–14:38):
"Se os Estados Unidos, porventura, classificarem o PCC como organização terrorista, ele passa a apresentar, segundo os Estados Unidos, um risco para o Estado americano e a classificação dessas informações... pode subir a classificação para um critério, por exemplo, confidencial que passe a ser de atribuição da CIA e a gente não consiga mais acesso a algum tipo de informação." — Otávio Guedes citando Lincoln Gakiya (13:39)
"É a prova, mais uma vez, de que trata-se de política e não de uma discussão técnica e racional." — Otávio Guedes (14:48)
“O que é uma completa distorção dizer que, não classificar como organização terrorista, você esteja defendendo o PCC. Isso é uma distorção, isso é uma fake news. É meio lamentável que o calendário político possa, no final das contas, atrapalhar uma conversa que pode ser feita entre dois países soberanos...” — Otávio Guedes (24:30)
O episódio apresenta um panorama detalhado e crítico da ofensiva americana contra facções brasileiras, expondo o cruzamento de interesses políticos, desafios diplomáticos e riscos concretos da nova doutrina dos EUA sob Trump. Mostra que a designação de “terrorista” tem implicações que vão muito além do combate ao crime: pode ameaçar a soberania nacional, dificultar colaborações efetivas e servir de instrumento tanto para pressões diplomáticas quanto para narrativas políticas e eleitorais no Brasil.
Tópicos adicionais, efeitos práticos, possíveis impactos, e bastidores da diplomacia brasileira enriquecem uma conversa essencial sobre crime, política internacional e democracia.