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Narrator/Reporter
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Natuzaneri (Host)
Tainara Souza Santos atropelada de propósito e arrastada por mais de um quilômetro em São Paulo.
Narrator/Reporter
A vítima estava com essa amiga no bar e, ao sair, ela foi atropelada e arrastada pelo agressor. Ela foi arrastada nesse carro por mais ou menos 1.4 quilômetros do ponto do bar até as proximidades da Marginal Tietê. O agressor se chama Douglas Alves da Silva, ele tem 26 anos e ele já está preso. vítima ficou presa na traseira desse carro e esse homem ele segundo uma testemunha ele não só passou com o carro por cima dela mas chegou a puxar o freio de mão quando já tinha avançado sobre ela para o atrito ser maior ali e causar um impacto ainda maior.
Natuzaneri (Host)
A mãe de Tainara diz que sua filha nunca teve um relacionamento com o agressor. Mãe de dois filhos, Tainara passou por cirurgias e teve as pernas amputadas. Tainara é uma Menina divertida. Gosta de deixar todo mundo feliz, né? É minha filha. É o bebezinho. Trabalhadora, tem seus filhos. Tava lembrando, né? Eu lembrando dela, eu ensinando ela a andar.
Amanda Sadala (Serenas Director)
A senhora lembrou disso?
Natuzaneri (Host)
Colocava ela assim e eu falava, vem mãe. Eu vou ser as pernas dela agora. Daniela Guedes Antunes, assassinada em Santo André, a facadas, na frente de sua filha, uma criança de 11 anos.
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
É assombroso o nível de crueldade desse crime. Daniele foi morta porque o marido não aceitava a separação proposta por ela.
Amanda Sadala (Serenas Director)
Alguns parentes se dizem muito surpresos com essa tragédia.
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
Já outros dizem que nem tanto, que a Daniele já relatava o histórico do Christian de ser possessivo e também Christian era obcecado pela Daniele.
Natuzaneri (Host)
Alane de Souza Pedrotti Matos e Laíse Costa Pinheiro. Elas foram baleadas na cabeça e no tórax dentro do Centro Federal de Educação Tecnológica, o Cefete do Maracanã, no Rio de Janeiro. O homem que entrou aqui na instituição e disparou contra elas duas foi identificado como João Antônio Miranda Telo Gonçalves. O assassino era um professor da instituição. Testemunhas ouvidas pela polícia contam que ele não aceitava ser chefiado por mulheres.
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
As funcionárias estavam trabalhando quando foram baleadas pelo pedagogo João Antônio Gonçalves, que foi encontrado morto em seguida. João chegou a ser levado, chegou a ser afastado do serviço por questões de saúde mental, mas já tinha retornado.
Natuzaneri (Host)
Catarina Kasten, violentada sexualmente e morta em Florianópolis quando ia para uma aula de natação.
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
O desaparecimento da Catarina foi percebido pelo companheiro dela que fez o boletim de ocorrência Ela tinha saído de casa pouco antes das 7 horas da manhã e não tinha retornado A polícia chegou ao suspeito com a ajuda de câmeras de segurança e fotos feitas por turistas O homem de 21 anos confessou o crime Ele é Giovanni Correa Maier Ela foi.
Amanda Sadala (Serenas Director)
Agredida, abusada e estrangulada. O corpo foi encontrado por moradores em meio à vegetação de uma trilha. Em depoimento, Giovani admitiu o crime e disse ter atacado a vítima pelas costas.
Natuzaneri (Host)
Maria Catiane Gomes da Silva, agredida a socos no estacionamento de um condomínio e retirada à força de dentro do elevador. Ela morreu depois de cair do décimo andar de um prédio em São Paulo.
Narrator/Reporter
O ponto de virada desse caso começou quando a polícia teve acesso a imagens de câmeras de segurança do condomínio, tanto do estacionamento quanto do elevador, locais que viraram pontos de interesse do trabalho investigativo. E aí o companheiro dela, o Alex Leandro, bispo do Santos de 40 anos, desde então passa a ser o principal suspeito. Nós vemos que o Alex dá pelo menos um soco em Catiane e depois arrasta a mulher e por vários metros no estacionamento do condomínio até chegar ao elevador. E aí ele tenta, em determinado momento, inclusive, agarrá-la pelo pescoço. A gente vê que a mulher esboça uma reação de defesa, mas instantes depois é retirada a força do elevador no movimento brusco feito pelo Alex.
Natuzaneri (Host)
Os casos relatados aqui não são isolados. Nos primeiros seis meses deste ano, o Brasil registrou 718 feminicídios. para você ter uma ideia de como essa realidade é brutal. No dia em que este episódio foi feito, quatro mulheres, na média, morreram por feminicídio. Amanhã, mais quatro. E outras quatro. E mais quatro. Números que são inaceitáveis. E os principais agressores, companheiros e ex-companheiros. Quem fala agora é Estela Bezerra, secretária nacional de enfrentamento à violência contra as mulheres.
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
E essas mulheres também, elas têm filhos. E esses filhos ficam órfãos. E ser órfão do feminicídio é um impacto muito maior do que ser órfão por qualquer tipo de abandono. A violência contra a mulher é explícita. 71% das vezes ela é presenciada por alguém. E 70% das vezes é pelos filhos menores. que vivem, assim como a mulher, em situação do que a gente poderia chamar de tortura. Porque a violência contra a mulher não é um evento, ela é uma situação sistemática.
Natuzaneri (Host)
Desde 2024, a pena por crime de feminicídio ficou mais dura. Hoje, quem comete este crime pode ser condenado a até 40 anos de prisão. Escute o que diz Juliana Brandão, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A gente está vivendo uma escalada nos casos de violência contra a mulher, de forma mais específica com relação ao feminicídio. A gente não tem mais nenhum tipo de barreira para a violência física. Ela é feita com requintes de crueldade. Não basta matar a mulher. Eu preciso humilhar, eu preciso subjulgar, eu preciso colocá-la numa situação de completa violação de direito. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Feminicídio, a barbárie que se repete. Eu falo com Amanda Sadala, cofundadora e diretora executiva da Serenas, organização que atua para prevenir a violência contra meninas e mulheres e qualificar agentes públicos que atendam vítimas. Eu também converso com Regina Celi Almeida, cofundadora e vice-presidente do Instituto Maria da Penha. Regina é filósofa e tem mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco. Segunda-feira, 15 de dezembro. Amanda, você atua na ONG Serenas, que é uma organização que faz um trabalho de educação preventiva importante. Explica na prática como esse trabalho funciona, como é que vocês atuam.
Amanda Sadala (Serenas Director)
A Serenas nasce justamente porque eu, durante muitos anos, me dediquei a tentar entender por que o Brasil é um país tão perigoso para mulheres e para meninas. A gente precisa lembrar que a violência de gênero atinge também as meninas na infância e na adolescência. E aí eu fui fazer trabalhos em delegacias de polícia, órgãos que atendem vítimas e também nas escolas. E eu identifiquei duas grandes lacunas no nosso país. A primeira é a prevenção. Quando o tema é violência de gênero, as novas gerações seguem reproduzindo padrões machistas, violentos, racistas e LGBTfóbicos. E se a gente não trabalha com os mais novos, eles vão seguindo esses padrões machistas com as suas companheiras. E a segunda lacuna é a parte de qualificação dos agentes públicos que atendem vítimas. A gente tem leis muito robustas no Brasil, a Lei Maria da Penha é uma referência no Brasil e no mundo, ela trata da prevenção, ela entende que a violência contra a mulher não é só coisa de polícia, mas também tem que ser tratada por outros equipamentos e serviços. Mas, apesar disso, quem aplica essa lei, os aplicadores da lei, não estão capacitados para fazer esse trabalho. E aí os seus vieses pessoais, que isso inclui racismo, machismo, muita transfobia, falam mais alto. E aí, a partir dessa identificação, a Serenas nasce para implementar duas grandes frentes. A primeira é a prevenção de violências, então a gente apoia secretarias de educação de norte a sul do país a desenvolver políticas educacionais voltadas à prevenção de violência, isso envolve a formação de professores, produção de materiais didáticos, atividades com os próprios alunos e, o mais importante, formar as equipes técnicas das secretarias de educação para que esse seja um tema prioritário da educação. E a segunda frente é a qualificação dos agentes públicos. A gente qualifica policiais, agentes de saúde, agentes de assistência social e também lideranças comunitárias, que muitas vezes são as pessoas que atendem as vítimas, para que essas pessoas saibam atender as vítimas de uma forma humanizada, acolhedora e efetiva.
Natuzaneri (Host)
Amanda, eu sei que você aponta duas lacunas importantes no combate à violência contra mulheres e meninas, que é a prevenção, você tá explicando bastante como a tua instituição funciona e trabalha, e a qualificação de quem implementa a lei. Qual a importância dessas duas frentes, juntas?
Amanda Sadala (Serenas Director)
A gente precisa lembrar que, segundo a UMS, um a cada quatro adolescentes no mundo vai sofrer violência por parceiro íntimo. O que esse dado nos diz? que se a gente não trabalhar a prevenção das violências, a gente vai seguir enxugando gelo quando temer violência de gênero no nosso país e no mundo. Isso significa que as novas gerações vão seguir reproduzindo os padrões violentos com as suas companheiras e nos seus relacionamentos. Nos meus anos aí de estrada, nas escolas, o que eu mais encontrei são meninos que, durante rodas de conversa sobre relacionamentos abusivos na TULSA, eles vêm ao final com muita vergonha e me dizem assim, eu acho que isso que você está me mostrando é o que eu faço com a minha namorada. Eu pergunto para os meninos, por que você faz isso com a sua namorada? E eles me dizem, é porque eu vejo meu pai tratando a minha mãe assim. E aí quando eu pergunto, e por que você segue reproduzindo o que seu pai faz com a sua mãe? E eles me dizem, sabe Amanda, eu detesto ver meu pai fazendo isso, eu me tranco no quarto, coloco um fone de ouvido para não ouvir E aí eu insisto, né? Então, por que você faz isso com a sua namorada? E eles me dizem, eu não sei namorar de outra forma. Essa frase, ela é tão importante. Os meninos, eles estão vendo um certo tipo de relacionamento em casa e reproduzindo. Como a gente pode esperar que os meninos ajam de uma forma diferente daquela que eles veem nas suas casas, se a gente não ensina uma outra forma de ser? E aí vem também a internet, os grupos masculinistas na internet, no YouTube, nas redes sociais, eles estão ensinando um ódio profundo às mulheres, e um ódio carregado de racismo, de transfobia, isso tudo como uma reação ao progresso das mulheres na nossa sociedade. Então, os meninos, eles estão aprendendo esse ódio às mulheres na internet, e reproduzindo aquilo que eles veem em suas casas. Então, a escola tem que vir como uma reação a isso, como uma outra forma de se relacionar. E as meninas, elas não conhecem seus direitos. Eu ouço muito as pessoas me dizendo assim, essa nova geração sabe tudo, não é verdade. Nas serenas, a gente faz grupos com adolescentes e quando a gente pergunta, o que você deve fazer se uma amiga sofre um abuso sexual? Elas não sabem. O que você faz se uma amiga está sofrendo um relacionamento abusivo? Elas não sabem. E elas dizem, eu queria muito saber os meus direitos, eu queria saber que serviço eu posso procurar. Quando eu falo sobre as leis, elas não conhecem. Elas não sabem sobre o que é consentimento, sobre qual é a diferença entre uma relação saudável e uma relação não saudável. O que a Serenas faz é justamente apoiar os governos para que o tema de consentimento, relações saudáveis, autoconhecimento, masculinidades saudáveis, positivas, faça parte do currículo escolar. E quando a gente fala de acolhimento humanizado, o que eu quero dizer? Mais de 60% das mulheres que sofrem violência no nosso país não buscam ajuda, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Por quê? Um dos principais motivos é a falta de confiança nos serviços públicos. E a gente sabe por que isso, porque os serviços públicos não estão fazendo um bom atendimento. Quantas mulheres eu já vi em delegacias em que os maridos, quando estão sendo presos, viram para essa mulher e falam que vão sair de lá e vão matar essa mulher. Ou seja, essa mulher está super insegura, ela volta para casa insegura e ela não tem políticas que dizem para ela que vão, de fato, efetivar aquela medida de segurança, medida protetiva, por exemplo. Mas para além disso, antes desse homem ser preso, por exemplo, quando essa mulher chega numa delegacia e conta o que aconteceu, ela precisa de apoio, de acolhimento, e muitas vezes o que ela ouve? Mas tem certeza que você quer denunciar? Mas por que você acha que ele está fazendo isso? Mas você fez alguma coisa para provocar? Eu já dei muita formação na Tusa para policiais, muita, e algo que eu escuto muito dos policiais é o seguinte, ai, Amanda, tem mulher que parece que gosta de apanhar, porque toda vez ela chega na minha delegacia falando que foi agredida por um homem diferente A gente precisa entender que as mulheres sofrem o que a gente chama de ciclo intergeracional de violência. Ela sofre violência em várias relações, muitas vezes porque ela viu a mãe, a avó, a bisavó sofrendo violência. Ela aprendeu que a violência é uma forma de amor. Ninguém gosta de apanhar, mas ela não conhece outra forma de se relacionar. Ela precisa que este policial seja justamente a pessoa que traga para ela que ela tem direito a uma relação sem violência. Agora, se este policial é uma pessoa que vai julgá-la, não é este tipo de acolhimento que ela vai ter. E quando a gente fala de uma mulher negra, uma mulher pobre, uma mulher transexual, é muito pior este atendimento. Então, a gente precisa qualificar os profissionais para que eles façam um atendimento humanizado, com empatia, com cuidado, reconhecendo as interseccionalidades que fazem parte da vida dessa mulher, compreendendo que ela depende emocionalmente e financeiramente deste homem. E sempre lembrando, não dá para a gente depositar tudo nos agentes públicos sem que eles tenham os recursos necessários para trabalhar. A gente precisa de investimento nos recursos para que eles possam fazer esse atendimento com qualidade.
Natuzaneri (Host)
Amanda, tem algum lugar no Brasil ou no mundo que conseguiu enfrentar essa epidemia de alguma forma?
Amanda Sadala (Serenas Director)
Eu não vou te dizer que existe um lugar que solucionou esse problema, porque especialmente com a o crescimento de grupos conservadores e com o crescimento de grupos conservadores na internet, a gente tem, mesmo em lugares onde a violência de gênero estava mais controlada, existe uma subida, né? Mas eu consigo trazer algumas referências de intervenções que eu acho que são muito significativas pra gente ter como referência, né? O Reino Unido, por exemplo, tem uma política de educação integral em sexualidade que é muito interessante porque trabalha aspectos como consentimento, relações saudáveis no currículo escolar. A gente lançou recentemente, a Serenas, uma pesquisa que mostra que 7 a cada 10 professores identificam meninos sexualizados as meninas na escola, 45% dos professores dizendo que os colegas fazem comentários machistas sobre as alunas. Então, a gente precisa de uma política como a do Reino Unido, que coloque no currículo escolar a prevenção da violência de gênero. E a gente já tem leis que instituem isso, a própria Lei Maria da Penha, no artigo 8º, diz que a gente precisa de prevenção à violência de gênero, a gente tem a lei 14.164 de 2021, que foi inclusive uma lei sancionada pelo próprio presidente Bolsonaro, então acho que a gente tem espaço com mesmo os partidos mais conservadores para falar de prevenção à violência contra a mulher, que é uma lei que trata da prevenção de violência contra mulheres dentro da escola.
Narrator/Reporter
Há 19 anos, foi criada a Lei Maria da Penha, a principal ferramenta de combate à violência contra a mulher no país. Desde então, vieram outros avanços. Em 2015, o país passou a reconhecer o feminicídio e aumentou as penas para assassinos de mulheres. Três anos depois, a importunação sexual virou crime. Em 2021, foi a vez da violência psicológica contra a mulher, com pena de reclusão de até dois anos.
Amanda Sadala (Serenas Director)
Então acho que essa referência do Reino Unido de uma política de educação para prevenção das violências contra meninas e mulheres através da educação sexual dentro da escola é uma grande referência pra gente.
Natuzaneri (Host)
Amanda, muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui no assunto sobre esse tema que nos dói, mas também nos leva a buscar respostas pra reverter, tentar reverter essa realidade. Muito obrigada, bom trabalho.
Amanda Sadala (Serenas Director)
Eu que agradeço. Obrigada, tchau, tchau.
Natuzaneri (Host)
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Regina Célia. Regina, você trabalha há mais de 20 anos com violência contra a mulher e nas últimas semanas deve ter ficado muito impactada tanto quanto eu com os casos brutais que vieram à tona. Mas trabalhar com isso há 20 anos pode eventualmente calejar a alma. Você ainda se choca com o que você vê?
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
Sim, Natuza, muito. E é algo que a gente não pode até deixar de ser impactado. O ativista, e principalmente aquele que está com o pé nas comunidades, nas periferias, que está também nas academias, porque há muita violência também no âmbito acadêmico, nas universidades, em vários espaços, a gente não pode se deixar contaminar pela naturalização. Porque isso significa que as mulheres que estão em situação de violência, quando nos pedem socorro, elas conseguem perceber quando a gente não acolhe mais com os olhos, não acolhe mais com a alma e também o esforço para retirá-la daquela condição de que ela não deseja e que ela não quer.
Natuzaneri (Host)
Bom, e quais são, Regina, as políticas públicas que realmente impactam para mudar esse cenário, essa epidemia?
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
A Lei Maria da Penha preconiza no artigo 8º da lei uma série de ações para fortalecer as políticas públicas. Mas ela tem duas palavrinhas, dois objetivos que são muito fortes e que vão linkar com o artigo 35. Ações articuladas e integradas, isso está no artigo 8º das políticas públicas, nos três setores, primeiro, segundo e terceiro setor, e que tem que estar alinhada, no artigo 35, com os equipamentos da lei. E um dos equipamentos que nós consideramos, enquanto Instituto Maria da Penha, o equipamento que a gente chama de caixa preta do avião, chamado Lei Maria da Penha, é o centro de referência de atendimento à mulher em situação de violência. Algumas pessoas chamam-se SEANS, outras pessoas chamam-se CRANS, e alguns melhoraram para a questão da Casa da União Brasileira. Mas o que seria antes mesmo de uma delegacia? O centro de referência tem ali três profissionais, que são a advogada, a psicóloga e a assistente social. Essas três profissionais são fundamentais, primeiro, fazer com que a mulher identifique os tipos de violência que ela sofre. Não é toda mulher que identifica a violência moral, a violência psicológica e a violência patrimonial, e até mesmo a violência sexual, no sentido marital, como violências. Ela só consegue sentir, ela só consegue se pronunciar com a violência física. E, infelizmente, foi esse tipo de violência que está repousada na estrutura da mentalidade popular. Então, quando ela vai ao centro de referência, a psicóloga vai dizer para ela como essas violências ocorrem, de que maneira ela consegue identificar para ela poder ter condições de sair do ciclo da violência, sair da rota crítica e solicitar no centro de referência um acolhimento, primeiro a escuta, fundamental, e depois para onde essa mulher deve ir. O centro de referência, infelizmente, não tem em todos os municípios e nem em todas as capitais do país.
Natuzaneri (Host)
Era isso que eu queria te perguntar, né? Quantos centros estão acessíveis, ou seja, esses centros todos estão acessíveis a todas as mulheres ou a maior parte das mulheres? E você já me responde uma pergunta que eu ia te fazer. Há número suficiente de centros para dar conta dessa epidemia que é crescente contra as mulheres?
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
Olha Natuza, você vai fazer um cálculo de mais de 5.500 municípios. É claro que o centro de referência eles estão nas capitais e nas regiões metropolitanas. Então, por exemplo, se você vai falar de Pernambuco, é a capital Recife com 13 municípios da região metropolitana. Mas se você for para as Minas Gerais, você tem 800, mais de 800 e 30 municípios. Então você já consegue compreender que sim, Existe violência e não existe centro de referência para todas as mulheres. Por isso que nós temos as casas da mulher brasileira, onde a casa da mulher brasileira é o ideal, porque ela agrupa todos os equipamentos que são previstos pela lei, a delegacia, vara de violência, defensoria, o Instituto Médico Legal, E o próprio centro de referência só não tem casa-abrigo, ok? Mas nós vemos que não tem em todos os locais os centros de referência. Daí uma das ideias da Maria da Penha é que nas unidades de saúde, elas pudessem acomodar o centro de referência, porque a unidade de saúde existe, existem as UPAs, existem as agentes de saúde, e então nós poderíamos ter maior escalabilidade dos centros de referência em regiões interioranas do país.
Natuzaneri (Host)
Regina, um outro ponto aqui. Desde março do ano passado, o Brasil tem um plano de 73 ações para prevenir feminicídios. Inclui, inclusive, a construção de mais casas da mulher e centros de referência, como você os destacava. Mas um relatório que foi apresentado em novembro na Comissão de Direitos Humanos do Senado mostrou um cenário preocupante. Qual seja? Embora o governo tenha prometido um orçamento de 2,5 bilhões, acabou reservando um pouco mais da metade disso, apenas 1,4 bilhão. E desse valor, só 15% foi executado. Então, mesmo quando tem mais dinheiro, muita coisa não sai do papel. Onde é que está o gargalo aí?
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
A raiz é o reconhecimento de que existe o machismo estrutural e esse machismo, ele negligencia institucionalmente a questão da violência contra a mulher.
Narrator/Reporter
O feminicídio atingiu sua alta histórica no ano passado. Foram 1.492 casos. Em média, quatro mulheres assassinadas por dia apenas pela condição de ser mulher. Os principais agressores, companheiros e ex-companheiros.
Natuzaneri (Host)
Mais de 154 mil mulheres foram vítimas.
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
De violência no estado do Rio em 2024, de acordo com dados do dossiê.
Natuzaneri (Host)
Mulher 2025 divulgado pelo Instituto de Segurança Pública.
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
São 18 casos por hora. Na cidade de São Paulo, um recorde, 53 mulheres assassinadas de janeiro a outubro. O que significa, posteriori, que nós não temos servidores, pessoas que atuam, município, estado e federação, com qualificação suficiente para dar celeridade, atenção e integrabilidade nas ações desses projetos. Nós temos uma dificuldade enorme de fazer com que todo o orçamento que é destinado às secretarias ou coordenadorias da mulher sejam exclusivamente trabalhados para enfrentamento à violência, empoderamento feminino, trabalhando a questão de trabalho, emprego e renda, e também a questão da formação educacional desta mulher e, não podemos esquecer, a saúde da mulher. Consequentemente, isso também está atrelado aos representantes. Então, observe, nós temos municípios no nosso país que têm 20, 30, 40 vereadores. e não tem nenhuma vereadora. Apesar de nós estarmos acompanhando um aumento, isso não é um padrão. O que significa dizer que muitas vezes, naquelas decisões, está ausente a sociedade civil, e está ausente também os interesses em fazer com que a questão do enfrentamento à violência contra a mulher seja uma pauta estratégica que inclusive vai desenvolver, potencializar municípios, se assim eles bem pensassem.
Natuzaneri (Host)
A maior parte da nossa conversa aqui gerou em torno de cuidados ou procedimentos ideais, ao menos, de mulheres que são vítimas da violência, da violência de gênero. Agora, a gente vive um problema cultural, né? Quando você usa a expressão machismo estrutural, nada mais é do que uma cultura que passa de geração pra geração, colocando a mulher num lugar de subordinação ao homem. Como é que a gente reverte isso? Eu vi ao longo dos últimos dias muitas mensagens, postagens nas redes sociais dizendo o seguinte, ensine o seu filho a não ser um agressor, ensine a sua filha a não passar pano pra violência contra ela. Isso é cultural, né? A gente só muda ensinando essas gerações. Mas como é que faz isso na prática?
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
Olha, Natuza, quando o relatório do caso Maria da Penha chegou na OEA, em 1998, 15 anos após o caso Maria da Penha, eles levaram até 2002 para fazer a investigação do caso e uma das questões que ficou muito marcada no relatório é que o Brasil é tolerante às práticas de violência contra a mulher. Neste mesmo documento, fizeram-se várias recomendações e uma das mais fortes recomendações foi a mudança ou alteração nos planos pedagógicos, do ensino fundamental até a formação superior. Aí você me pergunta, Regina, em todas essas escolas existe um plano cotidiário, não é evento, não é uma questão eventual, de março, agosto e 21 dias. Você perguntar para mim, tem um plano, Regina? Não tem. Não tem. Não está pacificado isso nas escolas.
Natuzaneri (Host)
Ou seja, o que você está me dizendo é que as escolas não transmitem esse tipo de conteúdo em caráter regular para ensinar as crianças, meninos e meninas, a não reproduzirem a violência contra a mulher e o machismo, é isso?
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
Exato, de forma integral, de forma pacificada, um padrão nacional não existe. A escola nossa não é uma questão de massificar, é porque a escola é uma das mais responsáveis, uma das maiores parceiras que o Estado tem para poder nós disseminarmos, diante do que você falou de uma epidemia, um conteúdo que possa trabalhar respeito, equidade e direitos humanos para todas e todos. Veja só, nesse documento que você falou do Conselho de Direitos Humanos e também da pesquisa data-senado, tem o seguinte, 71% dos casos de agressão contra as mulheres tinham testemunhas testemunhas, incluindo crianças. Essas crianças estavam em 71% dos casos. Aí você pergunta para mim, como é que chega uma criança na escola, como é que chega um adolescente na escola, um jovem no ensino médio para fazer ENEM, quando a sua casa, o seu ambiente doméstico é um ambiente onde ele é prioritariamente um ambiente violento. Será que o nosso espaço não pode ser um espaço suficientemente democrático para agregar valores que possam nos levar a uma condição de desenvolvimento humano com respeito, dignidade e direitos humanos? Essa é a pergunta.
Natuzaneri (Host)
Você deixa muito claro que tá faltando coordenação nacional, né? E isso é fundamental pra nos ajudar a sair dessa. Regina, eu te agradeço imensamente pelo seu tempo, por sua disponibilidade de tratar de um assunto que nos preocupa, mas que sobretudo nos dói tanto. Um bom trabalho pra você.
Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
Muito obrigada, Natuza, obrigada pela honra. Conte sempre conosco o conto do Instituto Maria da Penha e vamos prosseguir. Adelante!
Natuzaneri (Host)
Adelante! Antes de terminar, um recado. Se você ouve o assunto no Spotify e gostou do episódio, é Assunter mesmo, dá cinco estrelas e compartilhe esse episódio com quem você quiser. Você pode nos ouvir no G1, no YouTube e em todas as plataformas de áudio. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 15 de dezembro de 2025
Host: Natuza Nery
Convidadas: Amanda Sadala (Diretora da Serenas), Regina Celi Almeida (Instituto Maria da Penha)
Neste episódio especial de "O Assunto," Natuza Nery aprofunda o debate sobre o feminicídio no Brasil, tema que permanece urgente e devastador. A partir de casos recentes e chocantes, o episódio aborda as raízes e consequências desse tipo de violência, as insuficiências das políticas públicas, e as dificuldades cotidianas no enfrentamento dessa barbárie. O programa ouve vozes de especialistas, como Amanda Sadala e Regina Celi Almeida, que analisam tanto o cenário atual quanto as possíveis respostas para quebrar esse ciclo.
“Tainara é uma menina divertida. Gosta de deixar todo mundo feliz, né? É minha filha. É o bebezinho. Trabalhadora, tem seus filhos. Tava lembrando, né? Eu lembrando dela, eu ensinando ela a andar.”
— Mãe de Tainara Souza Santos (00:59)
“Ser órfão do feminicídio é um impacto muito maior do que ser órfão por qualquer tipo de abandono.”
— Regina Celi Almeida (05:10)
“A gente está vivendo uma escalada nos casos de violência contra a mulher... Não basta matar a mulher. É preciso humilhar.”
— Juliana Brandão, Fórum Brasileiro de Segurança Pública (05:48)
[07:22–15:37]
Dois grandes desafios identificados:
Ações Práticas da Serenas:
“Os meninos, eles estão vendo um certo tipo de relacionamento em casa e reproduzindo... Eu não sei namorar de outra forma.”
— Amanda Sadala (09:59)
“Quantas mulheres eu já vi em delegacias em que os maridos, quando estão sendo presos, viram para essa mulher e falam que vão sair de lá e vão matar essa mulher.”
— Amanda Sadala (13:55)
[15:37–18:01]
“A escola tem que vir como uma reação a isso, como uma outra forma de se relacionar.”
— Amanda Sadala (12:10)
[18:23–27:52]
“Onde é que está o gargalo aí? A raiz é o reconhecimento de que existe o machismo estrutural e esse machismo, ele negligencia institucionalmente a questão da violência contra a mulher.”
— Regina Celi Almeida (25:24)
[27:52–31:49]
“Não tem. Não está pacificado isso nas escolas.”
— Regina Celi Almeida (29:55)
“Ser órfão do feminicídio é um impacto muito maior do que ser órfão por qualquer tipo de abandono.”
— Regina Celi Almeida (05:10)
“Eu não sei namorar de outra forma.”
— Amanda Sadala (09:59)
“A escola tem que vir como uma reação a isso, como uma outra forma de se relacionar.”
— Amanda Sadala (12:10)
“Onde é que está o gargalo aí? ... É o machismo estrutural e esse machismo, ele negligencia institucionalmente a questão da violência contra a mulher.”
— Regina Celi Almeida (25:24)
“Não tem. Não está pacificado isso nas escolas.”
— Regina Celi Almeida (29:55)
O episódio oferece uma análise contundente, sensível e didática sobre o feminicídio no Brasil, mostrando o quanto o problema é complexo e está arraigado na cultura, nas instituições e no cotidiano das famílias. Especialistas defendem a necessidade de ações conjuntas entre prevenção, capacitação, políticas públicas de largo alcance e, fundamentalmente, mudança cultural ancorada na educação. “O Assunto” termina com um chamado à sociedade e ao poder público para não normalizar a barbárie e agir, sem descanso, contra ela.