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Natuza Nery
Passados três anos do governo Lula, a oposição parecia convergir para um nome. Diversos setores da direita, do centrão ao bolsonarismo, se articulavam para que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, fosse o candidato à presidência na eleição deste ano. Só que aí, novembro chegou e tudo mudou. Jair Bolsonaro foi preso no fim daquele mês e, poucos dias depois, numa sexta-feira, 5 de dezembro, o filho dele mais velho fez um anúncio.
Luiz Felipe Silva
O senador Flávio Bolsonaro foi às redes sociais dizer que, segundo informações do senador, ele e o pai fecharam ali. O pai indicou o senador para ser o candidato à presidência da República.
Natuza Nery
No começo, parecia balão de ensaio. Apenas dois dias depois do anúncio, Flávio colocou sua pré-candidatura como moeda de troca. Na época, o Congresso estava votando justamente o projeto para reduzir a pena dos condenados pela tentativa de golpe de Estado.
Flávio Bolsonaro
Tem uma possibilidade de eu não ir até o fim. Eu tenho preço para isso. Eu vou negociar. Eu tenho preço para não ir até o fim.
Natuza Nery
Mas o discurso mudou e a pré-candidatura começou a ganhar corpo, mas não de forma tranquila. Na largada, recebeu críticas até de aliados.
Maria Cristina Fernandes
Esses líderes do Centrão, presidentes de partidos, receberam muitos telefonemas do mundo econômico, do que a gente chama Faria Lima. Pessoas revoltadas com o fato de Flávio Bolsonaro ter feito um anúncio que quebra uma construção. Esse é o significado, né? Quebra uma construção de um nome forte.
Flávio Bolsonaro
Uma coisa é Bolsonaro. Outra coisa são os filhos e a mulher. Isso aqui não é herança de negócio de família, não. E pra mostrar a falta de estratégia de Flávio, ele nem primeiro reuniu o partido dele pra falar, ó, tive com o meu pai, a conversa foi assim, assim, reunir a Liga Herança do Centro. Não, usa uma rede social e quer botar com ela abaixo. Não, não é assim, não.
Natuza Nery
Então entrou em campo a versão Flavinho Pais e Amor.
Flávio Bolsonaro
Vão conhecer um Flávio Bolsonaro, sempre pediram.
Amanda Polato
Um Bolsonaro mais moderado e eu sempre.
Flávio Bolsonaro
Fui assim, eu sou esse Bolsonaro mais moderado, equilibrado.
Natuza Nery
O filho zero um de Jair Bolsonaro embarcou ainda em uma tour internacional. Acompanhado pelo irmão Eduardo, articulador da família no exterior, viajou e discursou nos Estados Unidos, na Europa e no Oriente Médio. Enquanto isso, aqui no Brasil, seu nome foi ganhando terreno.
Amanda Polato
O Flávio Bolsonaro tem 77% do apoio das intenções de voto entre o eleitor bolsonarista. Ou seja, a transferência de voto no bolsonarismo já é gigante nesse caso pra ele.
Natuza Nery
Conquistou um apoio até então reticente dentro do próprio partido.
Luiz Felipe Silva
O presidente do PL, o Valdemar Costa Neto, tá all-in no projeto do Flávio Bolsonaro, pelo menos a preço de hoje. E acredita que o Flávio Bolsonaro pode conseguir reduzir a sua rejeição, se fizer algumas modificações ali, comparando com o discurso de 2018 e 2022 do próprio pai.
Natuza Nery
E também entre aliados.
Flávio Bolsonaro
Sempre falei do meu respeito, da minha lealdade ao presidente Bolsonaro e não queria mais. O meu candidato é o Bolsonaro ou quem ele indicar. Ele indicou o Flávio. Então quem é o meu nome a partir de agora? É o Flávio Bolsonaro.
Natuza Nery
E passou a figurar nas pesquisas como o candidato mais competitivo para enfrentar Lula.
Amanda Polato
O ponto é que a política não tolera o vácuo. Enquanto o Flávio Bolsonaro está indicado pelo pai, está fazendo campanha, está conversando com atores políticos, atores do mercado e atores econômicos, ele vai, aos poucos, ocupando espaços deixados abertos nessa oposição.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Nathuzaneri e o assunto hoje é Flávio Bolsonaro, o candidato do Pai. Neste episódio, eu converso com Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da CBN e da Globo News. Quarta-feira, 11 de fevereiro. Maria Cristina, até novembro do ano passado o mundo político era um tacísio de freitas, era apontado como o candidato do campo bolsonarista por setores específicos da sociedade. Mas aí chegou dezembro e esse mundo se inverteu. De repente, Flávio Bolsonaro foi visitar o pai já preso em Brasília e sai de lá dizendo que o pai havia o escolhido como candidato à presidência da República. Ato contínuo, ele chegou a dizer que ele poderia desistir dessa candidatura caso a anistia fosse aprovada. Ou seja, se criou essa ideia por ele mesmo de balão de ensaio, mas ele acabou recuando e a candidatura dele foi ganhando tração. Consistência mesmo de candidatura e não como um balão de ensaio. Ao mesmo tempo, as pesquisas apontavam uma rejeição alta. E aí, ao longo das últimas semanas, Flávio Bolsonaro foi se consolidando em uma posição de mais destaque nas pesquisas de intenção de voto. Por que, apesar de uma rejeição em dezembro bastante alta, prevaleceu o nome de Flávio Bolsonaro?
Maria Cristina Fernandes
Bem, Natuzel, acho que a primeira pergunta que a gente tem que se fazer é se, de fato, a candidatura presidencial do Taciso de Freitas algum dia existiu. O que existiu, sim, foi muita intenção, vontade, disposição de fazer do Taciso um candidato a presidente. por parte de setores empresariais, do sistema financeiro, por parte da imprensa e de setores da opinião pública que queriam, sim, um nome da chamada terceira via para romper com essa polarização do petismo e do bolsonarismo. Mas o problema é que o tacísio nunca existiu eleitoralmente sem o Bolsonaro. Ele nunca poderia ser esse nome de terceira via, na verdade. Ele se elegeu governador de São Paulo, um apoio decisivo do Bolsonaro, e ele terá o apoio também do bolsonarismo se quiser se reeleger. Como este apoio para se candidatar à presidência da República não veio, ele simplesmente não foi o candidato. É simples assim. E por que o Bolsonaro não apoia o Tarsísio? Bem, porque a eleição do Tarsísio seria decretar a morte de Bolsonaro e do bolsonarismo, muito mais do que um quarto mandato do presidente Lula. Mas como assim decretar a morte do Bolsonaro se, na verdade, o Taciso estava se comprometendo com a anistia? Porque a anistia relegaria, o bolsonarismo já estaria de fogo morto porque o Taciso teria ocupado esse espaço de alternativa à direita. do Lula, né? O Lula mantém o bolsonarismo vivo porque, na verdade, mantém o antilulismo vivo. E já o tacísio, ele ocuparia esse espaço. Olha, a gente não precisa mais do Bolsonaro nem do bolsonarismo, a gente agora tem o tacísio para enfrentar o Lula. E o bolsonarismo ficaria relegado a um espaço, a um nicho, digamos assim, de extrema direita.
Natuza Nery
Você está dizendo o seguinte, que o Bolsonaro poderia, se o Tarsísio fosse o candidato e fosse eleito, obter a anistia. Mas, politicamente ou eleitoralmente, o bolsonarismo passaria a ser um anexo do Tarsísio.
Maria Cristina Fernandes
Passaria a ser uma fatia da extrema-direita do Tarsisismo. Tarsísio passaria a ocupar o eixo da oposição ao petismo, ao lulismo. Ele seria o eixo. e em torno dele gravitariam setores da oposição, entre os quais o bolsonarismo, um eixo importante, mas relegado ali a um extremo, sempre ameaçador, mas um extremo não estaria no eixo. A candidatura Flávio coloca o bolsonarismo no eixo da oposição à Lula. E aí você me pergunta, O que aconteceu com a rejeição ao Flávio, que estava tão alta? Eles decidiram manter o Flávio apesar de toda a rejeição. Bem, a rejeição do Flávio, quando ele se lançou, estava ali no pico porque, vamos lembrar, coincidiu com o fim do julgamento, com a prisão do Bolsonaro, o momento em que toda a trama golpista foi trazida de volta. E o bolsonarismo, a despeito de tudo isso, apostou no Flávio. Porque apostou que sem uma terceira via, sem o Tarcísio, um grande contingente da direita e até do centro antilulista iria com o Flávio mesmo, a despeito de todas as objeções, porque simplesmente não quer votar no Lula. E apostou-se que o prolongamento da prisão do Bolsonaro acabaria por criar também um certo vitimismo, uma coisa de que já deu e, é o que a gente está vendo agora, a candidatura do Flávio como representante de um ex-presidente que, digamos assim, foi alvo de um tribunal que se cedeu.
Natuza Nery
A gente sabe que a população ainda não virou a chave, ainda não está ligada na eleição. Mas se a gente for ler as últimas pesquisas, as mais importantes do ano passado, as pesquisas de agora, as que ainda estão para entrar, para serem verificadas pelas próximas pesquisas, pelas pesquisas vindoras, O que a gente sabe sobre a candidatura Flávio? O que é possível tirar de pistas sobre o perfil dessa candidatura?
Maria Cristina Fernandes
O senador Flávio Bolsonaro está ocupando a metade não lulista do país, a metade que o pai dele conquistou em 2022, a despeito de não ter sido eleito. que parece cristalizada. Aliás, o presidente Lula verbalizou isso dias atrás. Fez a metáfora do time de futebol. Ele disse que é como o Palmeiras e Corinthians, o Flamengo e o Vasco. Quem veste uma camisa não troca por nada. E que o percentual de votos em disputa é muito pequeno. É este percentual que será disputado na eleição que, segundo o presidente falou, vai ser uma guerra.
Flávio Bolsonaro
Entenda mais que não minha paz e amor. Não tem essa mais. Essa eleição vai ser uma guerra. Vai ser uma guerra. E nós vamos ter que estar preparados para ela.
Maria Cristina Fernandes
Flávio, as pesquisas mostram que a rejeição ao nome dele caiu.
Amanda Polato
Lula mantém 43%, aproximadamente, potencial de voto contra 54% de rejeição. E o Flávio Bolsonaro, que tinha uma rejeição de 60% em dezembro, no vácuo deixado pela direita não-bolsonarista, recua à rejeição e chega a 55 pontos, uma queda muito significativa para quem está buscando consolidar a sua candidatura. Mas o mais importante para essa análise é o que acontece com a direita não-bolsonarista. O Flávio Bolsonaro já tem metade, aproximadamente, das intenções de voto na direita não-bolsonarista, mesmo no cenário com Tarcísio, Ratinho, Caiado, Zema, etc. Ou seja, enquanto há vácuo, espaço deixado, o que a gente vai observando é que o Flávio, aos poucos, vai ocupando esse lugar e, ao ocupar esse lugar, ele vai se consolidando nesse segundo turno.
Maria Cristina Fernandes
Caiu um pouco, eu diria, também, porque não tem ninguém batendo no Flávio Bolsonaro. Quem está cumprindo esse papel de bater no Flávio, dia sim, outro também, é o Renan Santos, ex-MBL e hoje está fundando um partido chamado Missão. E, curiosamente, se a gente assiste os vídeos do Renan, ele está colocando o Flávio Bolsonaro e o Lula no mesmo balaio. Ele diz que ambos são candidatos do sistema. Ele quer transformar o Flávio no candidato do sistema e capturar este voto anti-sistema do bolsonarismo. Então, é este o quadro, um Flávio ocupando esse espaço e está ocupando esse espaço, esta metade, de uma maneira, digamos, mais ao centro do que o pai. Pelo menos é esta a intenção da campanha dele. É um Bolsonaro que toma vacina. Não vamos esquecer também que o senador é advogado, tem um escritório em Brasília. Dos três filhos mais velhos do presidente, é, digamos, o mais desenvolvido no mundo dos negócios.
Natuza Nery
Curioso porque ele mesmo verbalizou. Ah, procuravam tanto um bolsonarista moderado, esse bolsonarista moderado sou eu. Eu queria que você analisasse esse discurso dele.
Maria Cristina Fernandes
A imagem mais forte desse bolsonaro moderado é essa, né? Eu tomei vacina. Mas ele fala muito em segurança pública também, né? Eu já estive em El Salvador visitando lá a política do Bocchelli Um país.
Flávio Bolsonaro
Que de fato extinguiu a violência Eu nunca tinha visto nada parecido Já estive em outros lugares da América Central perigosos Em que a gente precisa estar sempre atento E lá em El Salvador a tranquilidade é total A questão é, qual é o preço dessa segurança? O preço é bloquear quase completamente os direitos humanos Dezenas, às vezes centenas de presos julgados ao mesmo tempo. É tanta gente que muitas vezes nem cabe no prédio. Eles fazem pela internet. Naib Bukele é o nome. Antes de entrar na política, era publicitário. Herdou a agência do pai.
Maria Cristina Fernandes
E foi nessa agência que ele logo descobriu a mágica do marketing político. Eu acho que a maior investida em tornar Flávio, assim, além do discurso, tem uma investida, digamos, estrutural para fazer do Flávio um candidato mais centrista. Quando o Caçafilhou caiado, o Taciso encontrou o Bolsonaro, foi visitar o Bolsonaro. Ele saiu desse encontro elogiando o Callado, elogiando inclusive uma pré-candidatura dele, dizendo que o Bolsonaro também tinha visto com bons olhos essa candidatura. E aí o Kassab reagiu, foi quando ele reagiu falando da subordinação do Taciso ao Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro
Isso não tem absolutamente nada a ver com submissão. Absolutamente nada a ver.
Maria Cristina Fernandes
Depois o Kassab disse que ele foi mal entendido pelo jornalista. Mas o que a gente ouve é que, na verdade, havia um recado ali de que quem escolhe o candidato do PSD é ele, Gilberto Kassab.
Natuza Nery
Bom, Gilberto Kassab que acabou de fazer um movimento político de trazer para o partido o Ronaldo Caiado, pré-candidato à presidência da República e ter no partido dele três nomes, o Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, o próprio Ratinho Júnior que você acaba de mencionar, governador do Paraná e o Ronaldo Caiado, governador de Goiás.
Maria Cristina Fernandes
Pois é, mas aí é que tá. Existe hoje a possibilidade de você viabilizar o nome de terceira via, o nome da direita que se quer dar o nome de terceira via sem o apoio do Bolsonaro. Existe, porque o que as pesquisas mostram é que essas duas bandas estão cristalizadas. Sim, existe aquele percentual que disse que não gostaria de votar em nenhum nem no outro. Mas na presença de um candidato bolsonarista, essa nuance se desfaz. Há empecilhos importantes da viabilidade de um candidato.
Natuza Nery
Agora, Maria Cristina, eu queria olhar de novo aqui para o Flávio Bolsonaro. Se você tivesse que apontar uma vulnerabilidade do senador Flávio Bolsonaro e uma vantagem competitiva de Flávio Bolsonaro, você apontaria que elementos?
Maria Cristina Fernandes
Vulnerabilidade, vamos começar por ela. Ele terá que responder pelo governo Bolsonaro. O bolsonarismo não é exatamente a defesa do governo Bolsonaro, mas é um ideário antilulista, certo? Mas, sendo filho do ex-presidente, é inevitável que ele tenha que responder pelo governo Bolsonaro, que o eleitorado vai ser relembrado da pandemia, vai ser relembrado da tentativa de golpe, vai ser relembrado do tarifaço.
Amanda Polato
30 bilhões de reais é quanto custou.
Flávio Bolsonaro
A operação de Eduardo Bolsonaro contra o.
Maria Cristina Fernandes
Brasil nos Tudo isso vulnerabiliza. Os negócios do senador Flávio Bolsonaro, ao longo dos quatro anos do governo do Paes, serão trazidos à tona e ele terá que enfrentar as entregas do Lula, a economia em crescimento, aliás, com a ajuda do Trump, que é outra vulnerabilidade. O Lula vai poder dizer que tirou o Brasil do risco no qual o Bolsonaro enfiou o país com a ajuda do irmão do Flávio, o Eduardo, que está ainda nos Estados Unidos, e que conseguiu reverter o grande risco em que o bolsonarismo colocou o país e foi capaz de estabelecer essa relação com o Trump. O que seria a força do Flávio? Não dá para subestimar a candidatura dele porque a força do antilulismo no Brasil só pede hoje para a do lulismo. Esta é uma campanha aberta, completamente aberta ainda, com ferramentas ainda mais sofisticadas de inteligência artificial. com o Tribunal Superior Eleitoral a ser presidido pelo Cássio Nunes Marques, ministro indicado por Jair Bolsonaro, que apresentou uma proposta de regulamentação das eleições, como liberou geral na propaganda negativa contra governos, contra o impulsionamento dirigido contra governos. e um liberou geral também nos perfis que não sejam criminosos. Vamos lembrar que a campanha do Marçal de cortes, aqueles cortes de vídeo, aqueles cortes foram considerados ilícitos eleitorais, eles não eram crime eleitoral. Aqueles cortes, por exemplo, estariam liberados talvez o Massal fosse prefeito de São Paulo se esta proposta do Cássio estivesse valendo na campanha de 2024. Então, é uma campanha aberta nas alianças, a gente não sabe quem estará com um ou com o outro, se haverá uma terceira via, é uma campanha aberta no seu formato e na propaganda. Então, está tudo tão aberto. que não dá para descartar, porque a gente não sabe que armas cada um vai ter, que discurso ainda é muito cedo para saber com que forças o Flávio Bolsonaro vai contar no mercado, até onde vai esse discurso mais centrista dele, de um Bolsonaro vacinado. E internacionalmente também, a gente vê um Lula hoje, trabalhou para conquistar a confiança do Trump, pelo menos a simpatia do Trump, mas a gente também não sabe até onde vai aí o empenho americano contra ou a favor do Lula.
Natuza Nery
Você citou uma expressão que eu ouvi dias atrás, de que o maior erro que o PT pode cometer é subestimar Flávio Bolsonaro a exemplo do que aconteceu com o próprio pai dele, com Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Esse é um ponto. O outro ponto é que eu queria aproveitar a tua presença para entender como tem sido o discurso de Flávio Bolsonaro. Você já disse, nos explicou, que ele está se vendendo como um candidato moderado. Dizem que ele busca, por exemplo, um posto Ipiranga para chamar de seu e que esse posto Ipiranga dos sonhos seria o Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, exemplo do que foi Paulo Guedes para o pai. E que uma outra cartada seria, por exemplo, ouvir isso de uma pessoa, seria garantir que o Ministério da Defesa seria comandado por um civil, para ver se ele conseguiria enfrentar minimamente esse desgaste que você apontou. Do que Flávio Bolsonaro vem dizendo, ele vem acenando com alguma coisa de concreto em relação a isso?
Maria Cristina Fernandes
Bem, Natuza, ele vai falar, assim, esta nossa conversa vai ao ar na quarta-feira, em que ele é aguardado no exento do o BTG, o banco, um grande banco, o Banco da Trasteiros, muito formador de opinião no mercado financeiro. Ele é convidado para este evento, talvez seja o evento do mercado financeiro mais graúdo, do qual ele já participou como um pré-candidato. Neste evento a gente vai ter uma ideia melhor qual é a formatação desse discurso dele para o mercado financeiro, onde talvez ele espera arregimentar aí um apoio mais substantivo à sua candidatura. E eu acho que ele não vai ter muita dificuldade em ter o apoio do mercado, sinceramente. Ainda que ele não tenha o Paulo Guedes para chamar de seu. E eu não vejo dificuldade dele atrair o Roberto Campos Neto, eu acho que isso não está acontecendo no momento, porque o caso Master está muito em evidência. E levar o Campos Neto hoje para a campanha do Flávio Bolsonaro é levar para dentro da campanha do Flávio Bolsonaro a polêmica do Máster. O Roberto Campos Neto era o presidente do Banco Central quando o Máster floresceu para o mundo. O Roberto Campos Neto, a despeito de muitos alertas do que estava acontecendo, também nada fez para restringir a atuação do Máster. Então, eu acho que ele já poderia ter um Paulo Guedes para chamar de seu. Ele não tem nesse momento, Porque não quer, ele está comendo pelas beiradas, está levando o segundo escalão, digamos assim, do governo do pai para a sua pré-campanha, ex-colaboradores do governo do pai. E está falando, já ouvi inclusive ele falar em atrair investimentos para o Brasil com energia renovável, coisa que a gente não ouvia da boca do pai. De fato, essa moderação do Flávio está se expandindo para o discurso, para além do mercado financeiro, para além de um Paulo Guedes, né? Talvez a gente ouça aqui agora... Ele vai ter uma certa dificuldade porque a economia brasileira vai bem, né? Inflação controlada, desemprego mais baixo, histórico, e vai bem graças em grande parte ao Trump, né? Virou um cabo eleitoral do Lula porque a instabilidade nos Estados Unidos é tamanha que o investimento está fugindo para o Brasil, para mercados emergentes. A bolsa está batendo recordes, o dólar despencando, porque está entrando muito dinheiro no país, então vai ser difícil formatar um discurso econômico.
Luiz Felipe Silva
O que ele tem hoje são conselheiros, assessores para essa agenda econômica. Nomes como do ex-presidente do BNDES no governo Bolsonaro, Gustavo Montesano, e do Adolfo Sachida, que foi ministro de Minas e Energia também no governo Bolsonaro.
Maria Cristina Fernandes
Pelo perfil desse segundo escalão que ele está atraindo, muito provavelmente eles vão regar esse canteiro da privatização, que é um tema que o Lula não entrou porque simplesmente é avesso. Então, este é um tema que eu acho que eles vão investir nesse tema de privatização e vão esperar um pouco para ver onde é que a coisa do Master vai para tentar puxar o Roberto Campos, de fato, para dentro da campanha.
Natuza Nery
Mas eu não quero terminar sem falar desse giro internacional que passa, entre outras coisas, por Trump. Porque ele esteve nos Estados Unidos, esteve no Oriente Médio, esteve também na França. O que ele está querendo com esse périplo?
Maria Cristina Fernandes
Bem, é o salvador, se justifica pelo discurso de segurança pública. Ele foi à França faturar o desgaste do Macron, que é um apoiador do presidente, faturar a perspectiva do acordo Brasil-Mercosul, mais uma vez contra o Brasil, explorando os setores descontentes com este acordo, que é a direita, a extrema-direita francesa. Ele foi aos Estados Unidos em uma tentativa de encontrar o Marco Rubio, mas as informações que nós temos é que este Marco Rubio secretário do Departamento de Estado. Este encontro não se concretizou, porque justamente o Marco Rubio não está interessado em dar corda para o bolsonarismo, justamente por conta desse canal que o presidente Lula abriu com o Trump. Ele foi Israel e foi muito elogiado pelo Netanyahu, agora ele está com dificuldade na Europa. Por quê? Porque é um continente em que a extrema direita está sendo vista como uma certa reticência em função da tensão entre o continente, entre a Europa e o Trump. Vide a disputa pela Groenlândia. uma ameaça direta à Europa, a um país europeu, a Dinamarca, e a ameaça de Trump de diminuir ali a ajuda à OTAN. Então, esse bericismo do Trump tem atrapalhado quem, digamos assim, percorre o seu mesmo lado, outros candidatos de extrema-direita. Por outro lado, o fato de Lula se dar bem com Trump acabou trazendo investimentos para o Brasil. Hoje tem muito estrangeiro vindo para cá, então ele também encontra dificuldade de se vender como candidato que vai trazer investimentos para o Brasil, porque esses investimentos já estão chegando. E Lula, por outro lado, também, além de Trump, está se dando bem com lideranças de direita no mundo. Vamos citar aqui a Georgia Meloni, que acabou ajudando no Acordo Brasil-Mercosul ao fim ao cabo. Você é António Kast, presidente eleito do Chile. Eles tiveram um encontro recentemente. O Kast, um herdeiro do pinochetismo. Então, o que a gente pode dizer é que não existe uma corrente mundial, uma corrente formada por dirigentes mundiais ou mesmo até ex-dirigentes pela volta do bolsonarismo ao poder. Isso dificulta um perito internacional do Flávio. Ele está tendo dificuldade em placar um discurso no nicho que esteja aberto. Esse nicho não está aberto, ele não tem um espaço hoje a ocupar nessa cena internacional.
Natuza Nery
Mas, ao mesmo tempo, pode preencher um imaginário de presidenciável, porque presidentes da República, por exemplo, viajam o mundo. Só essa oportunidade de discurso afora, de ser recebido aqui e ali por personalidades internacionais, já dá a ele uma espécie de gancho para discurso.
Maria Cristina Fernandes
Pode dar agora a de se ver se esse discurso e esse pélipo tem alguma consistência. Não me parece que até o momento ele consiga consistência com esses personagens com os quais ele já encontrou. Imaginar que ele tem consistência, o único chefe de Estado que o recebeu nesse pélipo, até onde minha vista alcança, é o Netanyahu, que não me parece conferir credenciais de estadista ninguém.
Natuza Nery
Maria Cristina Fernandes, muito bom te ouvir. Acho que temos vários encontros marcados esse ano aqui para entender o Brasil e as eleições brasileiras. Muito obrigada pela participação.
Maria Cristina Fernandes
Eu que agradeço, Natuza. Sempre alegria.
Natuza Nery
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catelan e Luiz Gabriel Franco. Colaborou neste episódio, Paula Paiva Paulo. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Podcast do G1 | 11/02/2026 | Host: Natuza Nery
Convidada: Maria Cristina Fernandes (Valor Econômico, CBN, Globonews)
Colaborações: Luiz Felipe Silva, Amanda Polato
Neste episódio, Natuza Nery aprofunda a análise sobre a surpreendente candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência em 2026, articulada após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. O programa investiga como Flávio foi escolhido pelo pai, as movimentações internas da direita e do Centrão, o impacto no campo bolsonarista e as estratégias para consolidar sua imagem como candidato viável – inclusive moderado. Ao longo da conversa, a convidada Maria Cristina Fernandes contextualiza as dinâmicas políticas, avalia pesquisas e debate vulnerabilidades e trunfos de Flávio, além de comentar seu giro internacional e o contexto geopolítico e econômico atual.
Sobre o improviso e a falta de estratégia de Flávio
“Isso aqui não é herança de negócio de família, não. [...] usa uma rede social e quer botar com ela abaixo. Não, não é assim, não.” – Maria Cristina Fernandes [01:32]
Polarização cristalizada
“Quem veste uma camisa não troca por nada. E que o percentual de votos em disputa é muito pequeno. É este percentual que será disputado na eleição que, segundo o presidente falou, vai ser uma guerra.” – Maria Cristina Fernandes [09:18]
Flávio assumindo o papel de 'Bolsonaro moderado'
“Ah, procuravam tanto um bolsonarista moderado, esse bolsonarista moderado sou eu.” – Natuza Nery sobre Flávio [12:04]
Desafio econômico para Flávio
“A economia brasileira vai bem, né? Inflação controlada, desemprego mais baixo, histórico, e vai bem graças em grande parte ao Trump, né?” – Maria Cristina Fernandes [21:33]
Alerta ao PT
“O maior erro que o PT pode cometer é subestimar Flávio Bolsonaro a exemplo do que aconteceu com o próprio pai dele...” – Natuza Nery [18:27]
O episódio traça um panorama sólido do novo cenário eleitoral brasileiro e dos bastidores da ascensão de Flávio Bolsonaro como herdeiro político do pai – sinalizando que, apesar das fragilidades e do histórico controverso, ele está longe de ser carta fora do baralho. O antilulismo mobiliza e sustenta sua candidatura, enquanto as apostas em moderação e articulações políticas buscam ampliar sua base. O mercado observa, a terceira via hesita e a escolha do eleitor permanece, ainda, aberta.