O Assunto – Episódio: “Guerra na Ucrânia: o que está na mesa de negociação”
Data: 19 de agosto de 2025
Host: Vitor Boiadjan
Convidado: Oliver Stuenkel (Professor de Relações Internacionais - FGV, Pesquisador Harvard e Carnegie Endowment), com participações de Benjamin Redd e depoimentos de ucranianos
Visão Geral do Episódio
O episódio explora os últimos desenvolvimentos diplomáticos em torno da guerra na Ucrânia, destacando o papel dos presidentes Donald Trump (EUA), Vladimir Putin (Rússia) e Volodymyr Zelensky (Ucrânia) em recentes tentativas de negociação para um acordo de paz. O foco recai sobre o que realmente está sendo discutido na mesa de negociações, as complexas demandas de cada lado, os riscos para a integridade territorial ucraniana e as possíveis consequências para o tabuleiro geopolítico global.
Principais Pontos e Análises
1. Encontros Diplomaticos Recentes
[00:02–02:32]
- Reunião Alaska: Trump e Putin se reúnem no Alasca, primeira vez juntos desde a invasão russa. Apesar da expectativa, nenhum cessar-fogo é anunciado; apenas promessas vagas e fortalecimento do protagonismo internacional de Putin.
- “Quem esperava o anúncio de uma solução para o conflito saiu frustrado.” – Vitor Boiadjan [00:22]
- “Terminou sem um cessar-fogo para a Ucrânia… nada de concreto.” – Benjamin Redd [00:38], Oliver Stuenkel [00:57]
- Reunião Washington: Trump, Zelensky e líderes europeus debatem possíveis garantias de proteção à Ucrânia. Surge o tema da cessão de territórios para a Rússia, antes inegociável.
- Zelensky evita resposta direta sobre ceder território: “Apoiamos a ideia do presidente Trump para acabar com a guerra de uma forma diplomática.” – Zelensky [01:54]
2. Clima e Repercussão das Reuniões
[03:29–05:44]
- A reunião recente é considerada menos hostil para a Ucrânia, diferente do embate público anterior entre Trump e Zelensky em fevereiro, que expôs alinhamento de Trump com a postura russa e humilhação de Zelensky.
- “Foi péssimo para a Ucrânia, porque mostrou uma preferência de Trump pela postura russa.” – Oliver Stuenkel [03:29]
- "Zelensky foi humilhado, chamado de ingrato por Donald Trump. (…) Diante da imprensa, Trump mostrou ao mundo um alinhamento com um país invasor." – Narrador/Reporter [03:53]
- Trump apresentou a narrativa de que “a Ucrânia poderia, se quisesse, encerrar o conflito” – Oliver Stuenkel [04:26]
3. O Que Está na Mesa: Território x Garantias de Segurança
[05:44–08:39]
- O cenário indica que uma concessão territorial, mesmo sem reconhecimento formal, está sendo considerada, em troca de garantias concretas de segurança dos EUA e Europa.
- “Já existe uma citação implícita em Kiev de que o país provavelmente vai ter que ceder parte do seu território para a Rússia…” – Oliver Stuenkel [05:44]
- “A Ucrânia desiste de tentar recuperá-los militarmente, mas ao mesmo tempo a Rússia se compromete a não atacar o restante do território ucraniano.” – Oliver Stuenkel [07:38]
- O desgaste ucraniano é evidente, aumentando a disposição para negociar.
- “Há um cansaço enorme na população…” – Oliver Stuenkel [06:58]
4. Riscos e Precedentes de Ceder Território
[08:39–11:13]
- Admite-se que a Ucrânia sinaliza buscar negociação direta com Putin, com mediação ou observação internacional, mas os precedentes históricos (como o desrespeito de Putin a acordos antigos) pesam como fator de insegurança.
- “É fundamental que haja garantidores…” – Oliver Stuenkel [10:01]
- “Vladimir Putin violou mais de 20 cessar-fogos ao longo da história com a Ucrânia.” – Obama (narrado) [10:20]
- “A Ucrânia não confia na palavra da Rússia, o que precisa, de fato, para garantir segurança é capacidade militar...” – Oliver Stuenkel [11:13]
5. Desafios Políticos Internos para Zelensky
[12:27–16:11]
- Questiona-se a viabilidade política e a imagem de Zelensky ao negociar territórios, ainda mais diante do desgaste da população com a guerra prolongada.
- “É um momento muito sensível politicamente… há um cansaço palpável na população…” – Oliver Stuenkel [13:06]
- "Os ucranianos só vão concordar em abrir mão de território se isso vem junto com garantias ocidentais para garantir que a Rússia não ataque novamente…" – Oliver Stuenkel [16:07]
6. Futuro Político Ucraniano Pós-Guerra
[16:50–18:24]
- Há fortalecimento da identidade e sentimento pró-Ocidente entre ucranianos, mesmo em regiões historicamente próximas à Rússia.
- "A invasão russa fortaleceu muito a identidade ucraniana, o desejo de se afastar da Rússia…” – Oliver Stuenkel [17:20]
- Cidadãos ucranianos manifestam desconfiança total em relação a Putin e rejeição à ideia de cessão de território:
- “Não confie no criminoso de guerra Putin. Não vamos dar territórios para ninguém…” – Tetyana (cidadã ucraniana) [17:48]
- “Mais cedo ou mais tarde, a Rússia vai nos invadir novamente. Acho que a Ucrânia tem que se defender.” – Rostislav (cidadão ucraniano) [18:15]
7. Garantias de Segurança: OTAN (Artigo 5º) e Limites para a Ucrânia
[20:31–23:55]
- Debatida a possibilidade de garantias análogas à proteção da OTAN, sem adesão formal, para driblar as preocupações russas sobre “expansão da OTAN”.
- “Uma garantia análoga ao artigo 5 seria o melhor cenário… O pior cenário seria abrir mão de território e não poder se rearmar…” – Oliver Stuenkel [19:48]
- "Mesmo uma garantia de segurança análoga ao artigo 5 talvez não seja aceitável para a Rússia." – Oliver Stuenkel [22:18]
- “A Rússia vai fazer de tudo para limitar a presença militar ocidental na Ucrânia.” – Oliver Stuenkel [22:56]
8. Impacto e Consequências Geopolíticas Futuras
[23:55–28:48]
- O resultado do acordo determinará se haverá uma real estabilidade ou apenas uma pausa antes de novo conflito; o nível de confiança europeia na Rússia está no ponto mais baixo.
- "No caso dos EUA, pode até haver uma volta a uma espécie de normalidade com encontros entre Putin e Trump, mas do ponto de vista econômico, essa relação não é tão relevante." – Oliver Stuenkel [26:43]
- “O leste europeu continua sendo uma região de muita tensão geopolítica, muita preocupação […] Essa ruptura entre Rússia e Europa me parece ser permanente.” – Oliver Stuenkel [25:57, 28:00]
- Para a Ucrânia, integração à União Europeia é vista como passo mais viável do que entrada na OTAN.
Timestamps de Segmentos-Chave
- [00:02–02:32]: Resumo das reuniões recentes entre líderes (Trump, Putin, Zelensky)
- [03:29–05:44]: Análise da mudança de clima diplomático e narrativa das reuniões
- [05:44–08:39]: Debate sobre concessão territorial e garantias de segurança
- [12:27–16:11]: Dilemas políticos internos de Zelensky
- [16:50–18:24]: Opinião pública ucraniana
- [20:31–23:55]: Discussão sobre “Artigo 5” e segurança futura
- [23:55–28:48]: Projeto de cenários futuros para Europa, Rússia, EUA e Ucrânia
Frases e Momentos Notáveis (com Atuação)
- Sobre impasses e frustração:
- “Quem esperava o anúncio de uma solução para o conflito saiu frustrado.” – Vitor Boiadjan [00:22]
- “Terminou sem um cessar-fogo para a Ucrânia, sem discussão, sem data futura.” – Benjamin Redd [00:38]
- Sobre garantias e condições:
- “A Ucrânia hoje não consegue recuperar seus territórios militarmente, mas é fundamental que, para qualquer tipo de acordo, a Ucrânia tenha garantias muito concretas de segurança…” – Oliver Stuenkel [06:23]
- Sobre descrença em Putin:
- “Vladimir Putin violou mais de 20 cessar-fogos ao longo da história com a Ucrânia.” – (Narrador, citando Obama) [10:20]
- “Não confie no criminoso de guerra Putin. Não vamos dar territórios para ninguém.” – Tetyana [17:48]
- Sobre as opções de futuro da Ucrânia:
- “A população ucraniana hoje é mais pró-ocidental do que nunca.” – Oliver Stuenkel [18:24]
- "O melhor cenário para a Ucrânia seria uma garantia de segurança análoga ao artigo 5 [da OTAN]…" – Oliver Stuenkel [19:48]
- Sobre consequências duradouras da guerra:
- “Essa ruptura entre a Rússia e a Europa me parece ser permanente.” – Oliver Stuenkel [28:00]
Perspectiva Final
O episódio revela a profunda complexidade das negociações para a paz na Ucrânia, com destaque para o desequilíbrio de forças, a desconfiança histórica, e os enormes riscos políticos para as lideranças envolvidas. Fica claro que qualquer acordo seria precário sem garantias militares sólidas para a Ucrânia, ao passo que a Europa e os EUA vivem um dilema entre apoiar Kiev ou buscar estabilização mais ampla ao custo de concessão territorial. O futuro da Ucrânia passa por uma redefinição de sua soberania, identidade nacional e alianças internacionais, sob o olhar atento de um cenário global ainda marcado por incertezas e instabilidades.
Resumo elaborado para contextualizar e informar ouvintes sobre os pontos decisivos deste episódio marcante de O Assunto.
