O Assunto: "IA na Educação: Desafios e Oportunidades"
Data: 15 de outubro de 2025
Host: Vitor Boiadian
Participantes:
- Nara Fernandes de Oliveira (professora)
- Paulo Blikstein (diretor, Centro Lemann, Universidade Columbia)
- Júlia Santana (Centro de Inovação para a Educação Brasileira)
- Natália Cosmina (MIT, citada)
Visão Geral
Neste episódio, Vitor Boiadian explora os desafios e oportunidades que a inteligência artificial (IA) traz para a educação brasileira. Com entrevistas de especialistas e relatos de quem vive a realidade em sala de aula, o episódio investiga como IA está sendo usada por estudantes e professores, a falta de preparo e infraestrutura, os riscos de dependência tecnológica, as promessas de inovação, e os perigos de desigualdade e controle privado sobre dados escolares.
Pilares da Discussão
1. A IA já faz parte da rotina escolar (00:07 – 03:11)
- Mudança de hábitos: Transição das enciclopédias manuais para buscas em IA, com aumento de produtividade e acesso a diversas fontes.
- Dados recentes:
- 70% dos alunos do ensino médio usam IA em tarefas escolares, mas só 32% receberam orientação para uso responsável (00:07).
- Professores brasileiros usam IA 20 pontos percentuais acima da média de países desenvolvidos, mas 64% relatam falta de formação e 60% dizem que as escolas não têm infraestrutura adequada.
- Desigualdade:
- Júlia Santana (Centro de Inovação) alerta para o risco de “ver a desigualdade de aprendizagem aumentar no Brasil” sem conectividade, infraestrutura e formação docente (02:32).
"Cadê o dinheiro para isso?" – Júlia Santana (02:23)
2. Prática docente e mediação da IA – relato de Nara Fernandes (03:11 – 11:15)
- Uso criativo da IA: Nara usa IA para planejar aulas, adaptando prompts para atender à BNCC e tornando aulas mais engajadoras.
- Eficiência e limites:
- Ganho de tempo no planejamento.
- Necessidade de conhecimento profissional: “Não adianta eu só saber mandar alguém fazer e não saber fazer a coisa” (Nara, 05:44).
- Atividades com alunos:
- Plataforma Eureka: estudantes devem interagir com a IA, mas sempre avaliando criticamente as respostas e fazendo resumos próprios.
- Orientação ética e desenvolvimento de competências digitais, conforme a BNCC.
"A resposta é o que a gente precisa, então a gente tem que ler, avaliar se está adequada, pegar os trechos que são interessantes e fazer o resumo no caderno." – Nara Fernandes (07:07)
- Preparo e formação de professores:
- A BNCC Computação está sendo implementada no Brasil, exigindo atualização pedagógica e curricular.
- Visão sobre ameaça profissional:
- Nara se diz despreocupada, vê IA como ferramenta sob controle humano:
"Não me sinto ameaçada. Quem conduz a máquina é o homem." – Nara Fernandes (10:35)
3. Perspectiva crítica: perigos e horizontes – Paulo Blikstein (12:09 – 25:26)
- Cenário preocupante:
- A IA pode substituir etapas fundamentais da aprendizagem, como o planejamento de aulas e a elaboração de conteúdos.
- Risco de o professor perder autonomia, sendo substituído por decisões algorítmicas opacas.
"Quando você usa a IA como um auxílio... tudo bem. Mas [...] quem controla o que acontece na sala de aula deixa de ser o professor e passa a ser um algoritmo que a gente não conhece." – Paulo Blikstein (12:36)
-
Estudo do MIT (Natália Cosmina):
- Em atividade de escrever redação com IA, Google ou sem ajuda, 83% dos que usaram IA não lembraram o que escreveram (14:30).
- Atividade cerebral era menor nos que usaram IA, especialmente em áreas de criatividade.
-
Desenvolvimento de competências:
- Paulo enfatiza o perigo da escola virar “um jogo de faz de conta” se a IA fizer o trabalho dos alunos.
"O ponto de ir para a escola não é entregar um produto pronto... é aprender a fazer essas coisas." – Paulo Blikstein (15:32)
- Cultura de produção tecnológica:
- Exemplos positivos: projetos em que alunos aprendem a criar seus próprios chatbots, tornando-se produtores de tecnologia, não apenas consumidores (18:22).
"O computador não deve programar a criança, é a criança que deve programar o computador." – citação de Seymour Papert trazida por Paulo (19:08)
-
Vieses e riscos de IA:
- IA pode perpetuar vieses raciais, culturais, políticos ou misóginos dos dados com que é treinada.
- Sociedades autoritárias podem manipular conteúdos via IA.
-
Dependência e controle de dados:
- Preocupação com plataformas de Big Techs concentrando dados e decisões educacionais, fora do controle público brasileiro.
“É um risco real a gente ter o controle público da educação transferido para empresas que dizem ter a solução mágica para todos os problemas da humanidade.” – Paulo Blikstein (22:58)
4. Caminhos e Recomendações (20:55 – 25:26)
-
Política pública é fundamental:
- Aprendizados do passado com a internet destacam a importância de normas e transparência.
- Contratos de uso de plataformas devem ser públicos, transparentes e fiscalizados.
- Escolhas pedagógicas e curriculares precisam ser abertas à sociedade.
-
Ações urgentes:
- Acelerar formação de professores em competências digitais.
- Garantir conectividade e infraestrutura.
- Priorizar modelos onde alunos criam tecnologia.
- Regulamentar uso de dados e plataformas educacionais.
Momentos e Timestamps Relevantes
- [00:07] – Estatísticas iniciais sobre uso de IA por alunos e professores.
- [02:23] – Júlia Santana: “Cadê o dinheiro para isso?”
- [03:59] – Nara descreve como usa IA para planejar aulas.
- [07:07] – Nara sobre atividades mediadas e leitura crítica das respostas da IA.
- [12:36] – Paulo Blikstein explica riscos de professores perderem autonomia.
- [14:30] – Estudo do MIT: 83% dos alunos que usaram IA não lembraram o que escreveram.
- [15:32] – Paulo: "A escola pode virar faz de conta."
- [17:23] – Dado de atividade cerebral menor ao usar IA para redações.
- [18:22] – Paulo dá exemplos de trabalhos onde alunos programam IAs.
- [19:08] – Papert: “O computador não deve programar a criança...”
- [22:58] – Paulo alerta para o risco imediato de perda de controle público.
Frases Marcantes
- “Eu não vejo a máquina como ameaça.” – Nara Fernandes (10:39)
- "É um risco real a gente ter o controle público da educação... transferido para empresas." – Paulo Blikstein (22:58)
- "O ponto de ir para a escola não é entregar um produto pronto... é aprender a fazer essas coisas." – Paulo Blikstein (15:32)
Conclusão
O episódio evidencia o papel já central da IA na educação brasileira, mas alerta para o risco de aprofundamento das desigualdades, perda de autonomia docente, dependência tecnológica e invisibilidade dos processos de aprendizagem. A solução não está só em adotar novas ferramentas, mas em garantir formação para professores, infraestrutura para todos, e políticas públicas transparentes e participativas. O futuro da educação com IA será definido por escolhas críticas feitas agora – sobre quem controla, para quem serve e como são usadas as tecnologias em sala de aula.
