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Natu Zaneri
Pela lateral, pela frente, por trás, só tinha ice. Foi assim que Shawn Jackson descreveu o que aconteceu em uma noite de janeiro em Mineápolis, nos Estados Unidos. Em um impressionante relato publicado no jornal The New York Times, ele contou que voltava para casa com a família após um jogo de basquete com um dos filhos. No carro, seis crianças. Entre elas, um bebê de colo, de apenas seis meses de idade. A família se viu presa no meio de uma confusão entre manifestantes e agentes do ICE, o Serviço de Migração dos Estados Unidos. Quando tentaram dar meia-volta para sair da rua bloqueada, acabaram cercados. Foi quando os agentes lançaram granadas. Um cilindro de gás lacrimogêneo rolou para debaixo do carro. O impacto foi tão grande que sacudiu o veículo, disparou os airbags e prendeu a família no meio da fumaça. Sean descreveu a agonia. Diz que parecia que os pulmões dele e da família dele estavam queimando. Uma onda de protestos tomou Mineápolis depois que uma americana, Renée Goode, de 37 anos, foi baleada e morta por um agente do ICE no estado. Desde então, vídeos se multiplicam nas redes sociais e na imprensa. Eu vou relatar alguns deles. Um homem de 56 anos, cidadão americano, retirado de dentro de casa sem nenhuma explicação. Ele vestia apenas um short, em meio à neve e a 10 graus negativos. Em outro caso viral, um manifestante fantasiado de raposa apenas dançava em frente aos agentes quando foi derrubado no chão com truculência e imobilizado. Homens fardados abordando de forma grosseira e violenta famílias dentro de seus carros.
Gabrielle Oliveira
Então.
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
É o que as pessoas estão tentando proteger, são patriotas. Tudo o que o ICE quer fazer é tirar essas pessoas do nosso país. levá-los para prisões e instituições mentais e outras coisas de onde vieram. Tudo criminosos, cidadãos estrangeiros, ilegais, muitos que têm relações com chefes de gangues, são traficantes e também fora aqueles que saíram de instituições mentais.
Natu Zaneri
Pesquisas de opinião mostram que a população rejeita a escalada de violência Uma delas, publicada pela CBS no dia 18 de janeiro, diz o seguinte Mais de 50% dos americanos acreditam que o AIS está tornando as cidades menos seguras E mais de 60% dizem que as ações são violentas e desaprovam a abordagem do governo Até apoiadores de Trump estão questionando. O comediante e podcaster conservador Joe Rogan chegou a comparar Weiss a Gestapo, a polícia secreta oficial do nazismo.
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
O estado de Minnesota e também o estado de Illinois processaram o governo Trump pelo aumento desproporcional das operações de imigração, que segundo essa ação é inconstitucional e ilegal. O governador Tim Walz disse que armar o sistema de justiça e ameaçar oponentes políticos é uma tática perigosa e autoritária. O prefeito Jacob Frey também condenou a investigação, que chamou de uma clara tentativa de intimidação, por defender Mineápolis e os moradores contra o caos provocado pela administração Trump.
Natu Zaneri
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é... ICE, o braço repressor da política imigratória de Trump. Neste episódio, eu converso com Pedro de Abreu Gomes dos Santos, professor de Ciência Política do College of St. Benedict e da St. John's University, no Minnesota. E com Gabrielle Oliveira, professora de Educação e Imigração na Universidade de Harvard. Ela é autora do podcast Uma Estrangeira e fala comigo direto de Bosto. Quarta-feira, 21 de janeiro. Pedro, você teve uma situação, um encontro com agentes do ICE. Como é que foi?
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
Eu faço parte de um desses grupos de resposta rápida e, assim, uma das coisas que nós estamos fazendo, pelo menos como eu estou fazendo, eu estou lá para observar. Eu quero observar e ter certeza que eles estão seguindo a lei. Tem várias coisas que o governo federal, os agentes federais, não podem fazer, como, por exemplo, entrar na sua propriedade sem ter um mandado de busca e apreensão. Então eu cheguei nesse lugar, que é uma vizinhança, que é uma vizinhança com maioria latina, e nós estávamos lá, duas ou três pessoas, de carros diferentes, olhando as entradas, e nós vimos que chegaram sete carros. Dava pra ver que era o pessoal da imigração. Então, quando eu descobri onde eles estavam, eu parei meu carro, desliguei meu carro, E fiquei observando, eram 9 ou 10 agentes que estavam batendo nas portas e checando as portas para tentar entrar nas casas das pessoas. Então quando um deles passou do meu lado, eu perguntei, você tem o mandato de prisão ou o mandato de busca e apreensão? A primeira pessoa que eu perguntei olhou pra mim com muita raiva e perguntou, você tem os seus documentos? Você pode programar com você, cidadão americano? E aí eu falei, eu tenho, mas eu não preciso mostrar pra você. Porque a lei é essa, se você é cidadão americano, você não precisa mostrar sua identidade para eles. Aí daqui a pouco, um outro agente veio, que eu acho que a pessoa que era o superior lá, E aí nós tivemos uma conversa muito mais a calma, assim, calma porque tava ele na minha porta do meu carro e seis agentes rodeando no carro, né? Então assim, calma pra eles. Esse segundo agente dava pra ver que tinha um nível de profissionalismo muito maior. Que são agentes de imigração que tão fazendo o trabalho deles. São profissionais e são treinados pra isso, né? Inclusive pra descalar uma situação como essa, né? o primeiro agente que eu conversei, eu imagino que seja um desses mais novos que chegaram agora, que não tem treinamento. Vários exemplos de pessoas que não tem treinamento suficiente para interagir com o público. Então qualquer questão, questionamento do que eles estão fazendo, chega automaticamente à violência, coerção e à tentativa de intimidar as pessoas. Eles ficam nervosos quando as pessoas começam a filmar, porque eles não podem mais fazer o que eles estavam fazendo, que normalmente são coisas que são ilegais.
Natu Zaneri
Pedro, você mora e trabalha em Minnesota, que é um estado com baixa população de imigrantes, são menos de 9% da população de todo o estado. E ainda é menor a parcela de imigrantes sem documentação, cerca de 2%. Muito menos um que existe, por exemplo, num estado de maioria trampista ou governado por trampista. Texas é um exemplo disso, Flórida é um outro exemplo, que são mais de 5% do total. Mesmo assim, o governo federal enviou mais de 2 mil agentes do ICE para Minnesota. Por que Minnesota virou alvo do governo?
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
A resposta curta é política. É uma revanche contra os democratas do estado e da cidade de Minneapolis e St. Paul. a vice-presidente contra ele em novembro. Então ele foi muito crítico ao Trump e nós estamos vendo cada vez mais que o Trump tem uma questão muito da vingança. E existe um outro fator também que foi a questão do George Floyd em 2020, que o Trump até hoje não gosta de como foi feita a reação da polícia e dos líderes do estado e da cidade também. O primeiro alvo dos protestos foi exatamente a delegacia de polícia de Mineápolis. E eles não pararam mais. A região virou um campo de guerra.
Gabrielle Oliveira
O presidente americano Donald Trump falou sobre os protestos em Mineápolis. Ele disse que a Guarda Nacional foi liberada para atuar em Mineápolis para fazer o trabalho que, segundo Trump, o prefeito democrata não conseguiu fazer. Trump diz que se a Guarda Nacional tivesse sido acionada há dois dias, não teria havido tantos estragos, nem a sede da polícia teria sido invadida e arruinada.
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
Foram várias coisas que, todas juntas, é uma coisa muito política de tentar punir o estado de Minnesota por queixas políticas do Donald Trump especificamente.
Natu Zaneri
Onde os agentes se concentram nessas operações? Onde é que eles estão? Qual é o grau de violência dessas ações? As imagens que chegam para a gente são imagens muito impressionantes.
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
Muitas pessoas aqui no estado de Minnesota estão vivendo a vida normalmente. Se você não mora numa região que existem muitos imigrantes, ou mora numa cidade que não tem muitos imigrantes, você não vai ver muito disso. Vou focar no interior primeiro e passar pra chegar na cidade da capital, que é Twin Cities, que é Minneapolis e Saint Paul. Quando você mora fora da capital, existem algumas cidades pequenas que são onde as frigoríficas têm os matadouros. E esse é um lugar que tem muitos imigrantes. Muitos imigrantes, principalmente latinos, mas também alguns somares e também alguns haitianos e pessoal do Sudão também. Então nessas cidades menores, tá acontecendo. E o nível de violência não é necessariamente muito grande, mas gera um medo muito grande na população, né? Porque eles não sabem quem eles vão pegar, né? Porque não tem uma... Esse é um dos maiores problemas, na verdade, que eles estão prendendo qualquer pessoa pra depois perguntar se são cidadãos ou não, né? Isso nas cidades pequenas. Aí você vai chegando em uma cidade como Saint Cloud, que é onde eu moro. Tem um número muito grande de somalis aqui. Aqui existiram várias operações já que foram bem próximas de chegar a uma violência.
Gabrielle Oliveira
Desde o ano passado, Mineápolis tem sido.
Natu Zaneri
Alvo de operações anti-imigração com foco na.
Gabrielle Oliveira
Comunidade somali, a maior do país.
Natu Zaneri
Em dezembro, Trump chamou de lixo estes imigrantes do leste africano.
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
E aí nós vemos o que a gente tá vendo muito nas notícias, que são em Mineápolis, em São Paulo, inclusive, onde a Renée Good foi assassinada, né? E lá existe um nível maior de violência, porque a população está reagindo, né? Então existem vários grupos de rapid response, de resposta rápida. que estão sendo organizados organicamente, realmente bem disciplinados, e estão seguindo os agentes, e filmando, e avisando a população, e que está frustrando muitos agentes. Então a violência às vezes vem, inclusive, dessas interações com esses grupos de resposta rápida que estão frustrando as operações deles, né? E aí quando você vê muitas imagens de câmera, é por isso, porque está todo mundo já preparado e já sabemos onde estão indo também, né? Porque eles estão focando nesses lugares onde tem uma população maior de migrantes.
Natu Zaneri
Agora, Pedro, você falou da reação dos moradores, dos cidadãos de Mineápolis. Como é que tem sido essa resistência? Eu ouço relatos de cidadãos naturais dos Estados Unidos que se reúnem, se juntam para sair, para comprar comida para as pessoas que são imigrantes, para não saírem de suas casas. cidadãos americanos que levam filhos de imigrantes para a escola, como é que tem sido essa reação? Você acabou de dizer desse grupo de resposta rápida, o que você tem observado por aí?
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
Esse é o revés do que está acontecendo aqui, o revés não, mas o outro lado, né? que é a população realmente se conectando para ajudar as pessoas. Esse fim de semana, inclusive, eu fui à Minneapolis, eu moro há mais ou menos uma hora, em Moredé de Minneapolis, e eu fui lá para uma região que tem mais brasileiros para ajudar numa igreja. A igreja lá estava organizando essas doações e era uma operação, assim, industrial. As pessoas vinham, organizavam, cada carro levava quatro ou cinco mantimentos, uma cesta básica, praticamente, e cada um ia para cinco ou seis lugares, e acho que foram quase duas mil cestas básicas distribuídas para as pessoas. A gente quer cidadão, vai, dirige até o lugar, coloca na frente da casa e vai embora. E a pessoa pode pegar a cesta básica na frente de casa sem ter que sair de casa. E também existe esse caso das pessoas que estão ajudando, levando para a escola, levando para médico, levando para o aeroporto, inclusive, para pessoas que estão tentando sair do país, mas querem sair do país sem ser presos, quer sair sem ter que passar por essa violência. E pessoas também começando a esconder as pessoas dentro de casa. Então existe uma rede muito grande. Interessante ler um pouco da história dos Estados Unidos e pensar o que está acontecendo agora. É realmente uma underground railroad. É a mesma coisa que aconteceu na época da escravidão das pessoas realmente usando o que eles têm para ajudar as pessoas a ficarem seguras e estarem longe da violência do Estado.
Natu Zaneri
Bom, você ouviu o Pedro usando a expressão Underground Railroad, então deixa eu fazer um parênteses aqui para dizer do que se trata. Foi uma rede informal de resistência à escravidão que operou nos Estados Unidos até o fim da Guerra Civil, no século XIX, e que ajudou pessoas escravizadas a escapar. Não era uma ferrovia real, mas um conjunto de esconderijos, de rotas secretas que seguiam por rios, estradas, portos, fronteiras, levando pessoas a destinos como Canadá, México e outros territórios livres. E há relatos, e eu queria checar com vocês se isso tem acontecido por aí, até mesmo de crianças que são apreendidas pelo ICE e levadas e as famílias ficam sem saber, pelo menos por um tempo, o paradeiro desses menores de idade?
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
Sim, eu sei de três casos, pelo menos, de estudantes de ensino médio que foram pegos pela imigração e ninguém sabia onde eles estavam. Alguns demoraram alguns dias, outros demoraram semanas para retornarem ou para alguém saber onde eles estão. O sistema que a imigração já tinha de manter o banco de dados com que eles estão aprendendo, não está sendo renovado sempre. Eles não estão colocando as informações em tempo real como antigamente eles faziam. Inclusive, outra coisa que é uma estratégia que eles estão fazendo aqui agora também, que é uma estratégia muito complicada, eles pegam a pessoa e no mesmo dia ou no próximo dia já levam a pessoa para Texas. O maior exemplo que eu tenho ouvido é que Texas, que as pessoas vão pro Texas e aí de lá que eles vão descobrir se a pessoa é ou não é cidadã, se é ou não é, está aqui legalmente e aí não tem como voltarem.
Natu Zaneri
E pra terminar, Pedro, como é que você, um brasileiro naturalizado americano, casado com uma americana, com filhos americanos, como é que você está se sentindo? Você tem tido medo? Você tem... visto muitas pessoas com medo e surpresas de estarem presenciando isso na terra que é vista como a terra da liberdade?
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
Com certeza tem um pouco de medo, receio principalmente, né? E conversando com outros brasileiros, né? Na minha pesquisa, que tem green card ou que são cidadãos, todo mundo agora andando com documentos, independente, né? Uma coisa que nunca pensava muito sobre isso, né? Então andando com o nosso documento sempre, e eu ando com o meu documento sempre. E assim, é uma coisa que eu acho que não é um... Não é uma coisa imediata, mas eu e minha esposa já começamos a conversar sobre o que fazer caso eu seja preso ou caso eu seja deportado, porque o próximo passo do governo Trump é começar um processo de denaturalização de cidadãos como eu, cidadãos naturalizados. Então existe essa possibilidade, o próximo teste legal dele vai ser com pessoas como eu. E eu já tô aqui participando desses eventos, então já fica um pouco mais na cara que talvez eu seja uma dessas pessoas. Então nós temos um planejamento caso eu seja deportado ou dinaturalizado. Então não é um medo imediato, mas é realmente uma coisa que eu nunca pensei em ter que planejar. ter um fundo de emergência pra viagem, deixar todos os documentos já preparados de uma forma diferente do que normalmente eu tinha. Então sempre tem um receio. Muitos brasileiros muito naturalizados estão passando por esse medo. E uma coisa que eu acho importante falar também é que os somares aqui, mais de 90% dos somares são cidadãos americanos. O foco é muito nas comunidades somares aqui, quando não tem quase ninguém pra mandar embora. Pessoas estão com muito medo. Vou falar mais um exemplo também. As crianças somalias agora, nos pontos de ônibus da escola, saem correndo para casa. Saem correndo, olhando para um lado e para o outro, com medo de ver outros carros que estão por aí e entrando diretamente no carro das pessoas, dos pais e das mães, porque a comunidade está com medo realmente de sair.
Natu Zaneri
Pedro, eu agradeço enormemente a sua participação, o seu relato, desejo que vocês fiquem bem, desejo que todo mundo fique bem por aí. Obrigada.
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
Obrigado.
Natu Zaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Gabriel Oliveira. Gabriela, eu falava agora há pouco com o Pedro, que nos contava sobre como o AIS se age. Com você eu quero um olhar mais histórico e o processo político, então vou começar te perguntando como o AIS surgiu e quando ele começou a ser expandido, quando a agência começou a ser expandida.
Gabrielle Oliveira
Bom, o AIS surgiu, foi fundado oficialmente em 2003, junto com o Departamento de Segurança Nacional, que também foi um mandato junto com esses dois, né, que aconteceu. E o AIS era para compor um terço dos três mandatos principais que tem a parte dos serviços imigratórios e naturalização, ou seja, o pessoal que faz todo o processo de visto de estudante, toda essa parte de naturalização de Green Card, aí você tem a parte da fronteira, a polícia fronteiriça, que é o Border Patrol, conhecido aqui, e o terceiro é o ICE, que seria essa parte de policiamento, deportações, aqui dentro na parte doméstica do país, então começou ali em 2003. Em 2008, a gente já estava vendo entre o Bush e o Obama, a gente já começou a ver uma expansão maior do ICE, ainda com um orçamento reduzido, entre 3 a 5 bilhões de dólares, é o que a gente via ali no começo, mas a gente começou a ver, especialmente o Obama, usando para mais dessas deportações que a gente estava vendo, dentro do país, mas com foco em pessoas que haviam sido condenadas com crimes, né? Então a ICE começou a expandir ali. No primeiro governo do Trump, a ICE expandiu consideravelmente. Não era tão visível, de novo, a gente não estava vendo tanto na rua como a gente vê agora, Mas sim, já estavam fazendo blitzes em lugares de trabalho, em fábricas, deportando pessoas e trabalhando mais em conjunto com algumas cidades, pedindo para compartilhar mais os dados. E aí, no segundo mandato do Trump, a gente viu um crescimento astronômico, onde agora tem mais de 30 bilhões de dólares dedicados a essa agência específica, eles cresceram em contratações mais de 120% entre ano passado e esse, então agora com mais de 20 mil agentes atuando com isso, porque a ideia é essa, de ser muito visível e de não só ir atrás de pessoas que foram condenadas, mas qualquer pessoa que seja imigrante nos Estados Unidos.
Natu Zaneri
Essa prática do qualquer pessoa, ela começa agora nesse primeiro ano do segundo mandato do Trump, é isso?
Gabrielle Oliveira
Exato. Essa é uma estratégia que o Stephen Miller, ele chama essa estratégia de dragnet, que basicamente é uma ideia de uma rede que você joga e o que você pescar, você pesca. Você recolhe o quanto você conseguir, independente de quem estiver naquele meio.
Natu Zaneri
Explica pra gente quem é o Stephen Miller.
Gabrielle Oliveira
O Stephen Miller é um dos assessores principais do Donald Trump, foi no primeiro governo dele também, e ele é considerado o arquiteto de políticas imigratórias aqui nos Estados Unidos desde 2017 o Stephen Miller.
Natu Zaneri
Que é o vice-chefe de gabinete do Trump para políticas e assessor de segurança interna, mas tem uma outra personagem, Gabrielly, que tem dado cara para as ações violentas do ICE, que é a Christine Owen, que é a secretária de segurança interna dos Estados Unidos. Eu fico particularmente impressionada com a frieza dela nas entrevistas que eu acompanho ao tratar de episódios muito violentos, tanto contra imigrantes quanto contra cidadãos americanos, aqueles que nasceram nos Estados Unidos. Conta um pouco pra gente da história dessa secretária, da Christine Owen.
Gabrielle Oliveira
A Christine Owen, o que é interessante dela é que ela sempre apoiou o Trump desde o começo, então ela como figura política já estava ali no mix antes até das eleições, durante as eleições, e ela é usada nesse momento como faz muito sentido para essa administração também ter essa questão do gênero, ter uma mulher e ela tá sempre assim, o cabelo dela tá impecável, ela tá com maquiagem, ela é super feminina como ela se coloca, mas ela sempre aparece vestida de camuflagem quando ela tá em lugares diferentes ou ela segura uma arma, então dá aquela ideia de que essa mulher também protege os Estados Unidos. Então, a figura dela política, ela sim já estava nessa área política, mas o que deu muita força para ela foi o quanto ela apoiou o Trump, independente do que ele falava e quando ele falava, e ela sempre foi, deu entrevista na Fox News e em outros lugares, defendendo ele antes das eleições, inclusive. E para o Trump, quem ele vê que é fiel e leal nesse momento, para ela é um cargo perfeito, porque você precisa afirmar e defender a todo custo o que o governo está fazendo. Na guerra de narrativas, a secretária de Segurança Interna, Christine Noem, chamou o incidente de um ato de terrorismo doméstico. Esses indivíduos usam seus veículos para tentar atropelar nossos policiais e colocar suas vidas em risco, disse numa coletiva de imprensa.
Natu Zaneri
E quando eu me referi à frieza dela, quando ela é questionada sobre o episódio que a gente abre o assunto de hoje, dessa família com muitas crianças, a mais velha de 11 anos de idade, ela não se abala. Ela diz que a culpa são dos manifestantes que estavam protestando contra o AIS. É impressionante como ela desloca a responsabilidade dos agentes do AIS para aqueles que protestavam contra as ações violentas da força.
Gabrielle Oliveira
Sim, e ela foi governadora da Dakota do Sul por seis anos, ela também é mãe, tem filhos, mas o que ela capitaliza muito, primeiro que eu acho que a gente não pode não prestar atenção no fato de que as pessoas, tem um grupo de pessoas e eu acredito que ela incluída, acredita piamente nessa história, nessa história de que essas pessoas sempre têm um problema, que às vezes a gente vê na TV uma questão, mas depois eles acreditam realmente que não, mas aquela mulher tinha uma razão para aquilo acontecer com ela, independente de ser verdade ou não Então acho que realmente ela é uma dessas pessoas que acredita veemente, acredita piamente que isso simplesmente acontece. E ela realmente, o jeito que ela opera como política é para poder ganhar mais oportunidade com o presidente. Então ela não tem problema nenhum em colocar qualquer emoção disso, do que aconteceu, pensar ela como mulher, como mãe, porque acho que as pessoas até podem olhar para ela e falar Como uma mulher pode ser tão fria, porque eu acho que a gente pode ter essas ideias também associadas a gênero, mas no caso dela e de tantas outras, a ideia dela é oportunidade, crescer a confiança com o presidente, se tornar mais e mais importante e que a carreira política dela, ela tem cinquenta e poucos anos, ela tem muito tempo ainda, para exercer isso e ela é uma das poucas mulheres ali no círculo mais íntimo do presidente que tem esse poder todo, então ela não vai ter problema nenhum em se colocar dessa maneira fria e realmente acreditar que esses são inimigos do Estado.
Natu Zaneri
Bom, focando nessa expansão surpreendente do ICE nesse segundo mandato de Trump, foram mais de 12 mil novos agentes nos últimos meses, é um crescimento muito impressionante. E me chama a atenção o tempo de redução da formação. Eu vi um vídeo recente de uma americana dizendo que fez parte do processo, ela não fez nenhuma preparação, ela relata uma quase negligência de contratação em termos de, até mesmo de antecedentes e por aí vai. Esses agentes que se espalham agora nessas redes que você descreveu, como tem sido a formação deles? Porque para dar conta desse crescimento tão grande, imagino que a formação fique também comprometida, porque a gente está falando de agentes que se espalham nas cidades, nos estados, mesmo sem autorização dos governos locais. E aí eu queria que você olhasse também para as consequências disso, dessa falta de formação.
Gabrielle Oliveira
Sim, o que é muito interessante de pensar é que a gente tem duas dinâmicas acontecendo ao mesmo tempo. Uma dinâmica é essa que você descreve, que você não precisa nem ter se formado na universidade aqui, ter feito os quatro anos de graduação, não precisa. e as entrevistas estão indo muito mais rápidas e eles estão até dando, oferecendo 50 mil dólares de bônus na hora que você assinar o contrato e se tornar um agente do ICE. Então, uns incentivos gigantes para pessoas que estão vindo com pouca formação, que estão vindo de uma dificuldade econômica, que estão vindo também muito motivadas pelo dinheiro, várias do que a gente vê, então você tem esse pedaço. O outro pedaço são pessoas que serviram em outras guerras, que são veteranos do Iraque, por exemplo, da guerra do Iraque, até da Afeganistão, e que têm essa perspectiva de ser um soldado americano. Então, ter essa ideia de que eu posso fazer a mesma coisa que eu fazia em outro lugar, em outro país, agora eu posso fazer aqui nos Estados Unidos com tudo que eu aprendi. Então, você vê essas duas dinâmicas que são muito perigosas juntas.
Natu Zaneri
Bom, e aparentemente eles têm imunidade federal, é isso? Para atuar?
Gabrielle Oliveira
Sim, imunidade federal. E não só essa imunidade federal, que a gente está vendo que é legal, mas também tem toda essa parte da narrativa com o presidente, com os ministros, todos falando, a gente está aqui, a gente apoia esses grandes lutadores e defensores da liberdade americana que estão colocando os Estados Unidos em primeiro lugar.
Pedro de Abreu Gomes dos Santos
Donald Trump convocou a imprensa para uma entrevista coletiva.
Natu Zaneri
Trump disse que a Polícia Federal de Imigração removeu milhares de imigrantes no último ano. Ao citar o assassinato da americana Renée Goode em Minneapolis há duas semanas, Trump disse pela primeira vez que os agentes do ICE às vezes cometem erros. Foi uma mudança no discurso do presidente, que vinha dizendo que a polícia atirou na mulher em legítima defesa. Trump responsabilizou o ex-presidente Joe Biden pela crise migratória. Acusou o democrata de deixar milhares de estrangeiros criminosos entrarem nos Estados Unidos.
Gabrielle Oliveira
Então, você vê que a narrativa que a gente viu no começo da implementação dessa política, em janeiro do ano passado, quando Trump assumiu o poder, ainda tinha muita crítica, até mesmo dentro do partido dele, as pessoas tentando entender o que era, o que estava acontecendo, agora a gente está vendo pouca oposição da base dele, mas entendendo que isso sim é uma grande proteção dos americanos que devem ser protegidos. Mas vale lembrar que centenas de americanos, cidadãos americanos, já foram presos e foram detidos por dias até conseguirem provar que sim, que a pessoa é um cidadão ou uma cidadã dos Estados Unidos.
Natu Zaneri
Agora, Gabriele, considerando a forma de agir e as mensagens, que paralelo é possível fazer entre o ICE e as polícias de regimes autoritários? Porque eu tenho visto nas reações e nos protestos pessoas chamando os agentes do ICE de fascistas. Aqui no Brasil já vi analistas chamando de milícias. Como é que a gente, à luz da história, consegue definir a atuação do AIS nos termos atuais?
Gabrielle Oliveira
Esse é um ótimo ponto e eu acho que a gente vai continuar vendo o que acontece esse ano, mas até o que a gente está vendo agora é esse grupo específico do AIS, a experiência que eles estão tendo no crescimento de poder e dinheiro. é tão rápida e tão grande que realmente eles estão agindo como se não existisse coaches e juízes, porque tudo que eles fazem, até podem protestar, até grupos podem processá-los, os juízes normalmente acabam do lado dos agentes do ICE. Então o status desses agentes estão crescendo muito, então isso está ficando algo desejado por uma grande parte da população. Mas o que eles estão fazendo, essa ideia de atirar antes de perguntar ou de pensar na crueldade como estratégia? Até a gente viu alguns vídeos deles andando juntos com cores e com casacos e com esses artefatos que nos fazem pensar em outro momento da história. Então, eu não acho que essa história inteira, porque a agência é muito maior do que o que a gente vê na TV, no que está acontecendo, tem gente que trabalha lá muito mais tempo e são funcionários de carreira, mas eu acho que existe sim um grupo, com a permissão do presidente e do Stephen Miller, que estão tentando chegar realmente até o limite de onde isso pode acontecer. E uma estratégia de distração muito forte para esse governo é focar em histórias como Venezuela e Irã, e falar que a gente está focando na liberdade das pessoas, a gente está libertando pessoas, e com essa história paralela daqui que o que a gente está fazendo aqui não é autoritário, é apenas protegendo a segurança nacional e doméstica dos americanos que aqui vivem. mas, sem dúvida alguma, as estratégias de desaparecer pessoas, de colocar pessoas no carro ou tirá-las apenas porque eles escutaram um sotaque, ou por causa da cor da pele da pessoa, ou enfim, tudo isso que a gente tá acontecendo, não ter nenhum problema envolver criança ou mulheres grávidas nessas confusões de violência, a gente vê que isso realmente A ideia que está sendo divulgada e treinada ali pra dentro do ICE é que essas pessoas, a vida dessas pessoas, não vale, não tem o valor da mesma forma que a vida de um americano. Eu entrevistei vários agentes da patrulha fronteriça anos atrás e quando eu perguntei, por que vocês querem fazer o que vocês fazem? Por que você quis? ser da patrulha fronteiriça, por exemplo, a maioria deles me falou que eles queriam aventuras, que eles queriam ser parte dessa defesa e dessas aventuras, que eles nunca quiseram ser parte de ajuda humanitária, de ajudar crianças e famílias no meio do deserto, e esse é o mesmo racional do que a gente está vendo agora, é uma ideia militar, é uma ideia de defesa, é uma ideia bélica, que é exatamente o coração desse Mas os.
Natu Zaneri
Próprios americanos estão sendo vítimas da violência do ICE. Isso está encontrando, tanto pelos imigrantes quanto pelos americanos que têm sido alvo da violência do ICE, algum tipo de oposição?
Gabrielle Oliveira
O que a gente vê são protestos, isso sim, mas, por exemplo, a última pesquisa que a ProPublica fez perguntando se as pessoas apoiam as políticas imigratórias do Trump, a base dele foi de 48% aprovando para 43% aprovando, então uma queda de 5%. Mas quem liderou essa caída grande foram os independentes, foram os independentes e alguns moderados. Acho que o que a gente pode ver é mexer esse meio do pessoal mais moderado, que talvez votou no Trump acreditando em crescimento econômico, mas agora achando que isso tá afetando e tá chegando perto das realidades dessas pessoas. E eu tô vendo muito disso aqui nos Estados Unidos também. Pessoas que falaram, eu nunca imaginei que fosse chegar tão perto de mim. Mas o que a gente vê é que aonde o governo está batendo muito forte são nos estados mais democratas, porque se você for olhar onde tem mais imigrantes, você iria para o Texas, você iria para a Flórida fazer esse tipo de operação, não ir para a Minnesota, por exemplo, né? Então a gente vê que existe sim essa ideia que eles estão indo já nos lugares onde o Trump já não tinha uma base tão forte. Então, aonde a base dele está muito forte, ainda está um pouco protegida do que está acontecendo. A gente está vendo isso em outros lugares. Então, eu acho que se isso continuar expandindo, porque a ICE já falou que quer contratar mais 10 mil agentes, então o plano deles são quatro anos longos de detenções e remoções de pessoas. Isso, sim, vai começar a afetar todos os americanos.
Natu Zaneri
Gabriele, te agradeço muito por ter participado dessa conversa com a gente. Está convidada a voltar ao assunto outras vezes. Obrigada.
Gabrielle Oliveira
Muito obrigada.
Natu Zaneri
Antes de terminar, um recado. Se você ouve o assunto no Spotify e gostou do episódio, é assunter mesmo, dá cinco estrelas e compartilhe esse episódio com quem você quiser. Você pode nos ouvir no G1, no YouTube e em todas as plataformas de áudio. Este episódio usou áudio do canal americano Fox9. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva e Carlos Catellan. Neste episódio colaborou também Paula Paiva Paulo. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 21 de janeiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidados: Pedro de Abreu Gomes dos Santos (professor de Ciência Política, Minnesota) e Gabrielle Oliveira (professora de Educação e Imigração, Harvard)
Este episódio de "O Assunto" examina o crescimento do ICE (Immigration and Customs Enforcement, ou Serviço de Imigração) no segundo mandato de Donald Trump, marcado por operações cada vez mais violentas e controversas nos EUA. A host Natuza Nery conversa com especialistas para contextualizar o impacto dessa intensificação, especialmente em estados tradicionalmente democratas como Minnesota, além de abordar as origens e a transformação do ICE em uma das principais ferramentas da política anti-imigratória americana. O episódio também relata reações da sociedade e discute as consequências históricas, políticas e humanitárias dessa escalada.
“O primeiro agente que eu conversei, imagino que seja um desses mais novos [...] qualquer questionamento leva à violência, coerção e à tentativa de intimidar as pessoas.”
— Pedro de Abreu Gomes dos Santos, [05:45]
“É realmente uma Underground Railroad.”
— Pedro, fazendo paralelo com a rede de resistência à escravidão, [12:29]
“Nunca pensei que fosse ter que planejar para ser preso ou deportado.”
— Pedro, sobre o clima de medo na comunidade de imigrantes, [16:08]
“No segundo mandato do Trump, a gente viu um crescimento astronômico do ICE. Agora a ideia é pegar qualquer pessoa imigrante.”
— Gabrielle Oliveira, [19:47]
“O que está acontecendo é uma estratégia de desaparecer pessoas, de tirar pessoas só por causa do sotaque ou cor de pele.”
— Gabrielle Oliveira, [31:20]
“Centenas de americanos já foram presos e detidos por dias até provarem que eram cidadãos.”
— Gabrielle Oliveira, [28:50]
O episódio apresenta um retrato contundente da atuação do ICE sob o governo Trump: crescimento acelerado, perda de limites legais, efeito devastador nas comunidades imigrantes e impacto crescente sobre cidadãos americanos comuns. Ao longo da conversa, evidencia-se o uso político da agência tanto como símbolo de força quanto como ferramenta eleitoral e de intimidação a adversários. O ICE tornou-se mais do que um órgão de polícia migratória — transformou-se num braço repressor com traços autoritários, afetando não só a vida de imigrantes, mas também redefinindo limites democráticos dos Estados Unidos, segundo os especialistas presentes.