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Ana Tuzaneri
Aviso, este episódio contém descrição de violência.
Unidentified Listener
Choro.
Ana Tuzaneri
E gritos de desespero. Uma pessoa filmando de forma amadora com o celular na mão vai andando entre os corpos ensacados no chão. Uma cena difícil de se imaginar e também de contar, mas real no Irã neste início de 2026. São pessoas que ousaram protestar contra o regime e que foram mortas, barbaramente mortas.
News Reporter
E os relatos incluem necrotérios lotados, execuções e atiradores da guarda revolucionária disparando contra civis. O governo iraniano cortou o acesso à internet para tentar evitar a divulgação de imagens e informações.
Ana Tuzaneri
Não é a primeira vez que manifestações de grande proporção tomam as ruas do país. Em 2009, os iranianos questionaram o resultado da eleição presidencial.
Historical Narrator
O clima é de tensão no Irã depois da reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Manifestantes, a maioria jovens, foram às ruas protestar contra a vitória. Eles acusam o governo de fraude eleitoral. Forças de segurança iranianas prenderam mais de 100 pessoas acusadas de organizarem as manifestações.
Ana Tuzaneri
Em 2022, uma jovem foi assassinada paulada sob custódia policial simplesmente por usar o véu do jeito errado.
UN Spokesperson
A porta-voz da ONU disse que existem relatos de que Mersa Amini foi espancada na cabeça com um cacetete. Disse ainda que a chamada Polícia da Moralidade ampliou o patrulhamento nas ruas e tem usado violência contra as mulheres. A morte de Amini na semana passada provocou protestos em várias partes do Irã, inclusive na capital Teherã.
Ana Tuzaneri
Mas desta vez, a coisa é diferente. A crise atual começou a tomar corpo em 28 de dezembro, num mercado de Teherã. Uma greve de comerciantes cresceu rapidamente e logo milhares de pessoas passaram a marchar nas principais cidades iranianas. E o que motivou a onda de protesto? O bolso.
Geopolitical Analyst
A crise econômica se aprofundou com a desvalorização da moeda local. Em um ano, o real perdeu 56% do valor frente ao dólar. E o preço dos alimentos teve um aumento médio de 72%.
Ana Tuzaneri
Mas não só.
Political Commentator
Logo passaram a exigir a queda do regime radical islâmico dos ayatollahs no poder desde a Revolução Islâmica de 1979. o.
Ana Tuzaneri
Regime reagiu com uma violência brutal.
Political Commentator
Iranianos denunciam essa repressão em massacres. Mesmo com acesso à internet cortado, organizações internacionais calculam entre 2 mil e 12 mil o número de mortos.
Ana Tuzaneri
Enquanto se equilibra para tentar abafar os protestos internos, o governo iraniano se vê na mira de Washington.
Geopolitical Analyst
Os Estados Unidos tem cerca de 40 mil soldados na região. Além de tropas posicionadas no Iraque, na Síria, no Egito e em Oman, os americanos mantêm bases na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait e Jordânia. e a principal e maior no Catar. Presidente Donald Trump ameaçou uma nova intervenção. Se o Irã atirar e matar violentamente manifestantes pacíficos, os Estados Unidos irão ao socorro deles. Estamos armados e prontos para agir", escreveu o presidente americano.
Political Commentator
O presidente americano convocou os manifestantes iranianos a tomar o controle das instituições e também avisou que a ajuda está a caminho, sem dizer quando, nem como, nem em que forma.
Ana Tuzaneri
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é Irã, a crise inédita e a repressão do regime. Meu convidado é Demetrio Magnoli, comentarista da Globo News e colunista dos jornais O Globo e Folha de São Paulo. Sexta-feira, 16 de janeiro. Demetrio, a gente tem acompanhado com bastante preocupação a escalada de violência diante dos protestos no Irã. Eu quero começar te ouvindo sobre a origem dessas manifestações. Quem é que está por trás dela? Que atores aparecem? O que é importante de frisar neste momento?
Demetrio Magnoli
São manifestações bastante diferentes daquelas do último ciclo de manifestações no Irã, que se deu em 2022. Naquela ocasião, o foco era a questão da polícia, da moralidade, a repressão às mulheres, a questão do véu, de mulheres poderem mostrar o cabelo em público. As mulheres foram a vanguarda daquelas manifestações imensas de 2022 e a juventude se somou àquelas manifestações.
Ana Tuzaneri
Que começaram inclusive pelo assassinato, pela execução da Masha Amina, que colocou um véu errado. Só por colocar um véu errado, né?
Demetrio Magnoli
Exatamente. E aquilo foi o apito da panela de pressão, levando a uma revolta generalizada no país, principalmente nas grandes cidades. A diferença agora é que as manifestações começaram em outro setor, começaram no bazar de Teherã, entre os comerciantes de Teherã, que foram, no passado, uma base de apoio do regime teocrático. mas não são mais, porque o que deflagrou as atuais manifestações foi o desastre econômico do país. O fato de que a moeda, o real, não vale mais quase nada, a inflação dispara e a situação econômica em geral nunca foi tão ruim na história da República Islâmica. Aquelas manifestações iniciais dos comerciantes produziram uma onda de manifestações populares muito mais heterogênea do que as de 2022 e que se espalharam, isso é importante, pelas pequenas cidades do interior e com grande intensidade nas regiões curdas do oeste do país, perto do Iraque. mas que tomaram Teherã, tomaram também as grandes cidades. Então, essa é a principal diferença. E há outras diferenças, que a gente pode até conversar, na situação internacional e geopolítica do regime iraniano, que é muito menos estável do que em 2022.
Ana Tuzaneri
Bom, dessa vez, como você diz, a insatisfação é mais ampla, marcada, portanto, por questões econômicas e uma insatisfação muito grande no bazar, como você acabou de nos dizer. Mas e a reação do regime? Tem diferença de 2022 para cá?
Demetrio Magnoli
Veja, em 2022 houve uma onda de repressão muito grande, mas nunca houve um banho de sangue das dimensões que aconteceu nos últimos dias. Os números são incertos porque há um blackout geral de internet. O regime desligou o Irã do resto do mundo. Então, são diferentes fontes de informação, mas com certeza, no mínimo, Mais de 2.400 pessoas foram mortas nas ruas por munição real. A ordem das forças de repressão foi utilizar munição real contra os manifestantes. Isso gerou um banho de sangue. Donald Trump tinha dito, no início do banho de sangue, que os Estados Unidos iriam intervir se o regime matasse as pessoas nas ruas. Foi o que o regime fez, em larga quantidade. Há fontes que falam em vários milhares de mortos, talvez até 12 mil mortos, não se sabe ao certo. Os hospitais se tornaram hospitais típicos de uma zona de guerra, porque o regime fez guerra interna contra a sua população. E nesse momento parece ter conseguido conter a onda de manifestações.
News Reporter
A agência iraniana de notícias, OAN, divulgou imagens de uma aparente calma inteira. Mas, como o bloqueio da internet continua, é difícil ter uma confirmação independente. O presidente iraniano, Massoud Pezeskian, disse que está focado em resolver alguns dos problemas econômicos que levaram os iranianos às ruas.
Ana Tuzaneri
Uma notícia que eu vi ontem, Demetrio, me deixou bastante impressionada. Médicos de hospitais locais dizendo, relatando que há uma espécie de padrão nas execuções de parte dos mortos, né? Que as pessoas chegam nos hospitais com tiro nos olhos ou na cabeça, ou os dois. Que há, portanto, um padrão nessa execução.
Demetrio Magnoli
Exatamente, são jovens, adolescentes muitas vezes, adultos jovens com tiros na nuca, com tiros entre os olhos, com tiros na cabeça, são execuções a sangue frio. É isso que se viu nos últimos dias no Irã. Quando essa história for contada até o fim, nós vamos estar diante de um dos maiores e mais cruéis massacres da história contemporânea. E isso revela que o regime sentiu claramente que lutava pela sua sobrevivência. Aliás, continua lutando. É a sobrevivência do regime que foi posta em questão por essa onda de manifestações. O regime está muito isolado. O que não existe no Irã e isso é importante destacar, é a defecção de forças em armas. Ditaduras violentas baseadas nas forças armadas costumam cair quando as forças armadas desistem de reprimir o povo e voltam as suas armas contra o regime. É isso que aconteceu em vários países árabes ao longo das últimas duas décadas. Não é isso que se vê no Irã. E por que não se vê no Irã? Porque o exército oficial, o exército regular, é o exército de mentira. O exército de verdade, a força mais bem armada, mais poderosa do Irã, é um exército paralelo, ideológico que é a Guarda Revolucionária, que tem sob seu controle a Basij, que são as milícias populares, centenas de milhares de civis ligados ao regime, armados e que atuam junto com a Guarda Revolucionária. É por esse motivo, além do fato de não existir uma liderança e uma estrutura organizacional clara da oposição, é por esse motivo que eram muito exageradas as profecias de queda do regime.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Demetrio. Bom, você já passou por esse ponto do isolamento do regime. Eu queria debulhar um pouco esse argumento para saber quais são os sinais disso. O que a gente viu acontecer nos últimos tempos que permitem essa constatação?
Demetrio Magnoli
Veja, vamos continuar nossa comparação com a onda de manifestações de 2022. Naquela ocasião, o regime iraniano enfrentava sérios problemas internos, mas se via e era visto como uma potência regional estável no Oriente Médio, a segunda maior potência no Oriente Médio, só depois de Israel. O Irã de 2022 tinha uma parceria ativa, funcional, com a Rússia. Isso acabou porque a Rússia concentra todas as suas atenções e esforços na invasão imperial da Ucrânia. O Irã tinha, em 2022, o seu anel de fogo em torno de Israel, o chamado eixo da resistência, ou seja, a sua rede de alianças com o regime com o Hezbollah no Líbano, com o Hamas na faixa de Gaza, com os Houthis no Iêmen. o anel de fogo foi destroçado quase completamente, o regime sírio caiu, o Hezbollah hoje é uma sombra do que foi, o Hamas é também uma sombra do que foi. Então, todo esse aparato de aliados regionais desapareceu. E por fim, o Irã foi humilhado durante os 12 dias de guerra de bombardeios com Israel. Essa humilhação, além de ter consequências materiais na defesa antiaérea iraniana, que foi bastante reduzida, tem consequências políticas. O regime iraniano passou a ser visto como um regime impotente militarmente. Tudo isso contribui para uma situação mais crítica do que nunca na história da República Islâmica.
Ana Tuzaneri
Com o agravante de Rússia olhando muito mais para a Ucrânia e o fator Trump, porque o presidente americano afirmou que ajuda, primeiro ele afirmou que ajuda estava a caminho, mas depois ele meio que deu uma recuada de que as informações que chegavam para ele era de que os massacres haviam recuado, etc. e tal. Como é que você avalia A performance de Trump, a pressão que ele ora faz e ora deixa de fazer?
Demetrio Magnoli
Até o momento é desmoralizante para Donald Trump, porque Donald Trump havia dito que havia uma linha vermelha. Se o regime matasse as pessoas na rua, os Estados Unidos responderiam. Ele não deixou claro qual seria a resposta, mas nitidamente ele se referia a uma resposta militar significativa.
Geopolitical Analyst
O mundo passou as últimas horas em alerta, em busca de sinais dessa ofensiva militar. E esses sinais vieram. Fontes do governo disseram a agências de notícias internacionais que os Estados Unidos começaram a retirar funcionários não essenciais de bases estratégicas no Oriente Médio. Um outro sinal importante é a presença da Marinha Americana na região. O Destroyer Roosevelt entrou no Mar Vermelho nos últimos dias, aumentando para três o total de navios de guerra americanos com capacidade de disparar mísseis contra o Irã.
Demetrio Magnoli
O regime fez isso em quantidade inesperada para todo mundo. E Donald Trump não reagiu, então ele fez uma segunda ameaça, se o regime começasse a executar presos, hoje havia uma execução marcada, ontem havia uma execução marcada, então ele retalharia. Ou seja, ele ofereceu um álibi para si mesmo e uma chance para o Irã escapar da retaliação dos Estados Unidos. O Irã suspendeu até o momento a execução programada e Donald Trump aparentemente não tomará outras medidas a não ser sanções individuais contra figuras do regime.
White House Spokesperson
Os Estados Unidos reduziram o nível de alerta na base militar no Catar, e depois de retirarem funcionários e aviões não essenciais, autorizaram que eles voltassem para lá. Hoje, o presidente americano reagiu à notícia de que o manifestante Erfan Soltani não seria condenado à morte. Escreveu, é uma boa notícia. Tomara que isso continue. A porta-voz da Casa Branca disse que Trump soube que 800 execuções programadas para ontem foram suspensas, mas afirmou que todas as opções continuam sobre a mesa do presidente.
Demetrio Magnoli
Ou seja, a linha vermelha posta por Trump não funcionou, não deteve o regime e não foi efetivada pelos Estados Unidos. Até o momento, Trump se desmoraliza nas suas ameaças.
Ana Tuzaneri
É, a execução a que você se referia do Irfan Sotani, que teve a sua sentença à morte decretada em dois dias, a família entrou em desespero, o assunto correu o mundo e chocou o planeta inteiro, naturalmente, e segundo o regime essa execução, pelo menos segundo informações dadas supostamente pelo regime, essa execução teria sido ao menos adiada, né?
Demetrio Magnoli
As informações do regime são oscilantes. Inicialmente, o regime havia informado a família sobre essa execução, que deveria ter ocorrido antes, segundo a informação da família. A família se despediu do jovem prisioneiro. E hoje o regime diz que nunca houve uma sentença de morte. Nitidamente, é um diálogo entre o regime e Donald Trump. Nitidamente, o jovem manifestante está sendo poupado, ao menos provisoriamente, de tal forma a oferecer a Trump uma saída diante da sua ameaça. não que a ameaça de Trump pudesse evitar a repressão. Uma ação militar dos Estados Unidos contra o Irã não mudaria a repressão em terra, porque não seria, em hipótese nenhuma, uma invasão do país pelos Estados Unidos. Talvez uma ação militar dos Estados Unidos tivesse até efeitos contrários, fazendo com que a população, uma parte dela, se cohesionasse ao menos provisoriamente em torno do regime, diante da ameaça externa. Então, os efeitos de uma ação de Trump não necessariamente seriam benignos, provavelmente seriam malignos, mas o fato é que a ameaça dele se revelou vazia, pelo menos até esse momento.
Ana Tuzaneri
Quando você olha para o Irã, estudioso que é, professor que é, o que você enxerga? Você enxerga algo como o Friedrich Merz, da Alemanha, que disse que o regime estava com os dias contados, estava muito perto do fim? Ou você ainda enxerga fôlego do regime dos ayatollahs para continuar no poder?
Demetrio Magnoli
Olha, Friedrich Merz está verbado. As declarações dele foram dadas em meio às grandes manifestações que no momento pararam em função do banho de sangue e foram, vamos dizer assim, muito pouco responsáveis porque não há indícios no momento de que forças em arma no Irã estejam se voltando contra o regime e não há indícios de defecções na alta cúpula do regime. Aqui ou ali, em regiões curdas principalmente, forças policiais se negaram a reprimir, mas foram coisas marginais. A Guarda Revolucionária, a Basígia Milícia Popular, a Cúpula dos Ayatollahs, cúpula da guarda revolucionária, não há sinal de defecções nesse campo. Então, é muito difícil imaginar que possa acontecer aquilo que Trump conclamou os iranianos a fazer. Trump disse, tomem o poder, tomem as instituições. Não é assim que funciona. Regimes de força caem quando existe, além de uma forte pressão popular, uma fissura muito importante no núcleo do regime. E essa fissura ainda não aconteceu. Isso não quer dizer que o regime tenha um fôlego histórico. O regime perdeu as condições de estabilidade que um dia teve. Essa onda de manifestações marca o início do fim Mas quando o regime vai cair é algo que ninguém pode dizer.
Ana Tuzaneri
O Irã, Demetrio, tem um papel fundamental no quadro de estabilidade da região ou de instabilidade ali no Oriente Médio Eu queria entender o que acontece na região se as coisas piorarem muito por lá.
Demetrio Magnoli
Pois é, quando se olha para Israel e para a maior parte dos países árabes, das monarquias do Golfo, o desejo de todos eles é a queda do regime iraniano. Mas o medo de todos eles é a explosão de instabilidade regional que uma queda pode provocar. Um dos fatores que levou Donald Trump a não retalhar no Irã foi a oposição das monarquias do Golfo a uma retaliação, E de Israel há uma retaliação, porque o Irã responderia atingindo alvos americanos nas monarquias do Golfo, bases dos Estados Unidos, principalmente a grande base no Catar, e alvos de Israel. Essa seria a forma do regime iraniano procurar cohesionar uma parcela, mesmo que minoritária, da população. apresentando a revolta interna como resultado da ação de forças externas e não interessava para os países árabes e nesse momento também não para Israel uma confrontação militar com o Irã mesmo limitada Irã tem.
Military Analyst
O segundo maior efetivo militar do Oriente Médio. Tem 1.513 tanques de guerra e 1.285 veículos blindados. Tem 6.798 veículos de artilharia e lançadores de mísseis. Possui 199 navios, contando com a Guarda Revolucionária. O Irã tem o Kaybar, míssil com alcance de 2 mil quilômetros, e o Sejil, que consegue viajar até 2.500 quilômetros. A Força Aérea do Irã conta com um caça-bombardeiro SU-24 e um caça-supersônico F-14.
Demetrio Magnoli
A queda do regime do Irã será bem vista em quase todo o Oriente Médio, mas o que todos se perguntam é, no lugar do regime teocrático vem o quê? porque o que não existe no Irã é uma clara alternativa de poder ao regime teocrático.
Ana Tuzaneri
E você vê a possibilidade de um retorno da monarquia dos Palevi, não?
Demetrio Magnoli
Veja, essa é uma alternativa muito improvável. O filho mais velho do antigo Charles Palevi, ele se apresenta do exterior como uma alternativa de poder, só que ele não tem a estatura, a popularidade e um consenso nacional suficientes para se apresentar como uma alternativa de poder. A maioria da população iraniana não quer um retorno à monarquia, quer o fim da teocracia.
Ana Tuzaneri
Quer democracia, né?
Demetrio Magnoli
A maioria quer democracia, o Irã é um país, isso pouca gente sabe no ocidente, muito mais sofisticado do que parece, é uma sociedade muito mais sofisticada do que parece e que embora tenha vivido Aros períodos de liberdades, né? É uma sociedade moderna em vários aspectos. Bastante mais moderna do que diversos vizinhos árabes. É o antigo Império Persa. Então, a sociedade iraniana, ela quer as liberdades do Ocidente. Ela conhece as liberdades do Ocidente. O Shah, o filho do Shah Reza Pahlavi, ele não tem as condições para gerar um consenso político sobre o caminho a seguir.
Geopolitical Analyst
O principal negociador do governo Trump, Steve Whitkoff, teve uma reunião secreta no fim de semana com o herdeiro do último monarca do Irã. Reza Parlevi vive exilado nos Estados Unidos e tem se apresentado como possível líder caso o regime dos aiatolás iranianos entre em colapso. O pai dele, Ushah Reza Parlevi, foi derrubado durante a Revolução Islâmica de 1979.
Demetrio Magnoli
É por isso que nesse momento não dá para ver uma alternativa. A oposição iraniana é muito ampla, mas é muito fragmentada. Ela não tem uma estrutura organizativa. Não aconteceu no Irã algo que aconteceu na Venezuela. Uma eleição onde a oposição foi vencedora e existem Pessoas, figuras, personalidades, rostos que representem a alternativa política ao regime.
Ana Tuzaneri
Demétrio, foi muito bom conversar contigo. Como sempre, obrigada e bom trabalho. Espero poder te chamar de volta a depender dos desdobramentos lá no Irã.
Demetrio Magnoli
Sempre um prazer, Natuza.
Ana Tuzaneri
Antes de terminar um recado, se você ouve o assunto no Spotify e gostou do episódio, é Assunter mesmo, dá 5 estrelas e compartilha esse episódio com quem você quiser. Você pode nos ouvir no G1, no YouTube e em todas as plataformas de áudio. Este episódio usou áudio da AFP. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva e Carlos Catellan. Neste episódio colaborou também Paula Paiva Paulo. Eu sou Ana Tuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 16 de janeiro de 2026
Host: Natuza Nery | Convidado: Demetrio Magnoli (comentarista da Globo News)
Duração total: ~27 minutos
Neste episódio, Natuza Nery e o analista político Demetrio Magnoli examinam a explosiva crise no Irã, marcada por protestos inéditos, motivações econômicas profundas e uma repressão estatal brutal em 2026. O bate-papo contextualiza a severidade da repressão, as características únicas deste ciclo de manifestações, o isolamento geopolítico inédito do regime iraniano e as incertezas quanto ao futuro político do país. O episódio mistura reportagens de campo, análises históricas e provocações sobre o impacto regional da instabilidade iraniana.
"Os números são incertos porque há um blackout geral de internet. [...] No mínimo, mais de 2.400 pessoas foram mortas nas ruas por munição real."
— Demetrio Magnoli (07:17)
"As manifestações começaram no bazar de Teerã, entre os comerciantes de Teerã, que foram, no passado, uma base de apoio do regime teocrático, mas não são mais [...] produzindo uma onda de manifestações populares muito mais heterogênea do que as de 2022."
— Demetrio Magnoli (05:24)
"São jovens, adolescentes muitas vezes, adultos jovens com tiros na nuca, com tiros entre os olhos, com tiros na cabeça, são execuções a sangue frio."
— Demetrio Magnoli (09:35)
"O regime iraniano passou a ser visto como um regime impotente militarmente. Tudo isso contribui para uma situação mais crítica do que nunca na história da República Islâmica."
— Demetrio Magnoli (13:52)
"A queda do regime do Irã será bem vista em quase todo o Oriente Médio, mas o que todos se perguntam é, no lugar do regime teocrático vem o quê?"
— Demetrio Magnoli (23:40)
"A maioria quer democracia, o Irã é um país [...] muito mais sofisticado do que parece, é uma sociedade muito mais sofisticada do que parece [...]. A sociedade iraniana, ela quer as liberdades do Ocidente."
— Demetrio Magnoli (24:41)
"Quando essa história for contada até o fim, nós vamos estar diante de um dos maiores e mais cruéis massacres da história contemporânea."
— Demetrio Magnoli (09:35)
"Não há indícios de defecções na alta cúpula do regime [...] essa fissura ainda não aconteceu. Isso não quer dizer que o regime tenha um fôlego histórico. O regime perdeu as condições de estabilidade que um dia teve. Essa onda de manifestações marca o início do fim."
— Demetrio Magnoli (19:52)
"O Irã é um país [...] muito mais sofisticado do que parece, é uma sociedade muito mais sofisticada do que parece [...]. A sociedade iraniana, ela quer as liberdades do Ocidente."
— Demetrio Magnoli (24:41)
O episódio oferece um panorama chocante e detalhado sobre o colapso da legitimidade do regime iraniano diante da crise econômica e da rearticulação da oposição, ao mesmo tempo em que revela o isolamento internacional do país. Destaca o ineditismo do ciclo atual de protestos, a ausência de líderes ou alternativas claras e o temor de um vácuo de poder no caso de queda dos ayatolás. Os ouvintes terão uma compreensão ampla dos dilemas internos e regionais, das incertezas sobre o futuro e da brutalidade da repressão, conforme discutido pelos especialistas.