O Assunto – "Irã: a crise inédita e a repressão do regime"
Data: 16 de janeiro de 2026
Host: Natuza Nery | Convidado: Demetrio Magnoli (comentarista da Globo News)
Duração total: ~27 minutos
Visão Geral
Neste episódio, Natuza Nery e o analista político Demetrio Magnoli examinam a explosiva crise no Irã, marcada por protestos inéditos, motivações econômicas profundas e uma repressão estatal brutal em 2026. O bate-papo contextualiza a severidade da repressão, as características únicas deste ciclo de manifestações, o isolamento geopolítico inédito do regime iraniano e as incertezas quanto ao futuro político do país. O episódio mistura reportagens de campo, análises históricas e provocações sobre o impacto regional da instabilidade iraniana.
Principais Pontos da Discussão e Análises
1. O Estopim e o Cenário Atual dos Protestos
- Abertura Impactante: Relatos de violência extrema nas ruas do Irã, corpos ensacados, necrotérios lotados, execuções sumárias (00:12–00:36).
- Restrição de Informação: O regime corta o acesso à internet para impedir a divulgação do massacre (00:36).
- Comparação Histórica: Protestos anteriores (2009, 2022) eram motivados por questões políticas e de costumes, como repressão de mulheres (00:54–01:56).
- Estopim Atual: A nova onda começa em 28 de dezembro de 2025 com uma greve de comerciantes, motivada inicialmente pelo colapso econômico e inflação devastadora (01:56–02:15).
- Motivações Ampliadas: Protestos se expandem para exigir o fim do regime dos aiatolás (02:31).
- Brutalidade da Repressão: Estimativas de 2.000 a 12.000 mortos, uso de munição real e execuções a sangue frio (02:42–02:55).
"Os números são incertos porque há um blackout geral de internet. [...] No mínimo, mais de 2.400 pessoas foram mortas nas ruas por munição real."
— Demetrio Magnoli (07:17)
2. Natureza e Composição dos Protestos de 2026
- Mudança de Perfil: As mobilizações não são lideradas por mulheres ou jovens, mas começam entre comerciantes do bazar — tradicional base do regime (05:24).
- Expansão dos Protestos: Apenas amplificados para cidades pequenas e regiões curdas, com caráter muito mais heterogêneo (05:24–06:58).
- Intensidade e Escala: Manifestações amplas abalam o próprio núcleo de sustentação dos aiatolás.
"As manifestações começaram no bazar de Teerã, entre os comerciantes de Teerã, que foram, no passado, uma base de apoio do regime teocrático, mas não são mais [...] produzindo uma onda de manifestações populares muito mais heterogênea do que as de 2022."
— Demetrio Magnoli (05:24)
3. Repressão Sem Precedentes
- Uso de Letalidade: Médicos relatam padrão de execuções — tiros nos olhos e na cabeça de manifestantes, muitos deles jovens (09:06–09:35).
- Guerra Interna: O regime utiliza a Guarda Revolucionária e milícias Basij para reprimir. Não há defecção de nenhum setor armado relevante (10:00–11:49).
"São jovens, adolescentes muitas vezes, adultos jovens com tiros na nuca, com tiros entre os olhos, com tiros na cabeça, são execuções a sangue frio."
— Demetrio Magnoli (09:35)
4. O Regime e o Medo de Ruptura nas Forças Armadas
- Forças Armadas x Guarda Revolucionária: O poder militar real está com a Guarda Revolucionária, não com o exército regular (10:40).
- Ausência de Fissuras: Ditaduras normalmente caem quando os militares desertam, o que não ocorre no Irã.
5. Isolamento Internacional e Mudança Geopolítica
- Antes e Agora: Em 2022, o Irã era visto como potência regional e tinha vínculos sólidos com Rússia, Hezbollah, Hamas e Houthis. Agora, esses elos enfraqueceram após derrotas na guerra contra Israel, isolamento regional e desengajamento russo por conta da Ucrânia (12:15–14:08).
"O regime iraniano passou a ser visto como um regime impotente militarmente. Tudo isso contribui para uma situação mais crítica do que nunca na história da República Islâmica."
— Demetrio Magnoli (13:52)
6. EUA, Donald Trump e o "red line"
- Ameaças de Trump: O presidente americano ameaça represálias caso o regime siga matando, mas não cumpre (03:01, 14:42–17:11).
- Movimentação Militar, mas sem ação: Estados Unidos deslocam navios e retiram funcionários, mas limitam-se a sanções e elogiam adiamentos de execuções (15:04–16:29).
- Efeito Contraproducente: Mesmo uma ação americana poderia unir setores da população ao regime, prejudicando ainda mais a oposição (17:55–19:30).
- Oscilação do Regime nas Execuções: O caso de Erfan Soltani ilustra o uso de execuções como moeda de negociação (17:27–17:55).
7. Riscos, Futuro e Possíveis Alternativas
- Sobrevivência do Regime: Não há sinais sólidos de fratura interna, ainda que a legitimidade esteja visivelmente erodida (19:52–21:41).
- Sem Alternativa Organizada: Oposição plural e dispersa. Não há liderança ou símbolo como aconteceu na Venezuela ou outros contextos (24:01–26:04).
- Risco Regional: Todo o Oriente Médio teme uma explosão de caos caso o regime caia abruptamente, já que o Irã não tem sucessão clara de poder (21:57–24:01).
"A queda do regime do Irã será bem vista em quase todo o Oriente Médio, mas o que todos se perguntam é, no lugar do regime teocrático vem o quê?"
— Demetrio Magnoli (23:40)
- Retorno Monárquico é improvável: Reza Pahlavi, filho do último xá, não tem apoio ou legitimidade suficientes (24:08–24:40).
- Desejo: Democracia: Sociedade iraniana é sofisticada, conectada e deseja liberdade. O futuro pós-aiatolás é incerto, mas não passa pelo retorno à monarquia (24:41).
"A maioria quer democracia, o Irã é um país [...] muito mais sofisticado do que parece, é uma sociedade muito mais sofisticada do que parece [...]. A sociedade iraniana, ela quer as liberdades do Ocidente."
— Demetrio Magnoli (24:41)
Momentos-Chave com Timestamps
- Impacto Visual dos Massacres: 00:12–00:36
- Apresentação dos fatores econômicos: 01:56–02:15
- Escalada da repressão com números de mortos: 02:42–02:55, 07:17
- Análise sobre Guarda Revolucionária: 10:40–11:49
- Isolamento do regime na geopolítica: 12:15–14:08
- Trump e linha vermelha/ameaças frustradas: 14:42–17:11
- Discussão sobre alternativas políticas e falta de liderança na oposição: 24:01–26:04
Notas Finais e Frases Memoráveis
-
"Quando essa história for contada até o fim, nós vamos estar diante de um dos maiores e mais cruéis massacres da história contemporânea."
— Demetrio Magnoli (09:35) -
"Não há indícios de defecções na alta cúpula do regime [...] essa fissura ainda não aconteceu. Isso não quer dizer que o regime tenha um fôlego histórico. O regime perdeu as condições de estabilidade que um dia teve. Essa onda de manifestações marca o início do fim."
— Demetrio Magnoli (19:52) -
"O Irã é um país [...] muito mais sofisticado do que parece, é uma sociedade muito mais sofisticada do que parece [...]. A sociedade iraniana, ela quer as liberdades do Ocidente."
— Demetrio Magnoli (24:41)
Conclusão
O episódio oferece um panorama chocante e detalhado sobre o colapso da legitimidade do regime iraniano diante da crise econômica e da rearticulação da oposição, ao mesmo tempo em que revela o isolamento internacional do país. Destaca o ineditismo do ciclo atual de protestos, a ausência de líderes ou alternativas claras e o temor de um vácuo de poder no caso de queda dos ayatolás. Os ouvintes terão uma compreensão ampla dos dilemas internos e regionais, das incertezas sobre o futuro e da brutalidade da repressão, conforme discutido pelos especialistas.
