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A
Eu acho que eu cresci ouvindo histórias sobre a história e eu sempre quis que esse filme fosse um filme que eu faria com Wagner, então eu comecei a escrever pensando em Wagner. O próprio cinema é uma ferramenta extraordinária de história. Muito do que acontece no filme não saiu de moda ainda no mundo nem no Brasil, mas o tom do filme eu acho que ele é muito específico de 50 anos atrás.
B
Kleber Mendonça Filho, o diretor de O Agente Secreto, filme que acaba de conquistar quatro indicações ao Oscar, é o convidado deste episódio especial de O Assunto. Kleber fala após as indicações sobre sua profunda ligação com Recife, sobre memórias, cinema e sobre as referências que influenciam suas obras. Ele também conta detalhes da produção do filme, do roteiro, a parceria com o ator Wagner Moura. Da redação do G1, eu sou Natuza Nery e o assunto hoje é... O cineasta pernambucano que conquistou Hollywood. Segunda-feira, 26 de janeiro. O homem do momento, minha gente! Cleber, que alegria te receber aqui, feliz da vida.
A
Bom falar com você também, Natuza.
B
Poxa, estou muito, muito, muito feliz. Primeiro... Porque a gente compartilha a mesma terra, né? Eu não nasci, tenho esse desvio de caráter de não ter nascido em Recife, mas eu fui muito cedo pra Recife, aos dois anos de idade. Minha infância toda foi no Recife. Cinema São Luís eu fui muitas vezes, muitas, muitas vezes. E depois eu passei minha adolescência também. Estudei no Colégio Contato. Lembra do Colégio Contato?
A
Eu estudei no Contato.
B
Você estudou no Contato?
A
Pois.
B
Mentira!
A
Terceiro ano eu fiz lá.
B
Era o Galdêncio, né? Era o professor Galdêncio do centro? Era o Galdino? Era Galdino. O Galdêncio eu acho que era do Zona Sul.
A
É, Galdino era... ele era um bom amigo do meu pai.
B
Ele era demais.
A
É, eu voltei da Inglaterra com 17 anos e tive que fazer o terceiro ano no contato para fazer o vestibular.
B
Mas vamos lá, Kleber. Em primeiro lugar, é um prazer enorme te ouvir. Você é o cara do momento, você, Wagner, todo mundo do filme. Eu quero começar te pedindo para falar um pouco desta terra que é sua, mas que é um pouco minha também, porque morei em Recife durante muitos bons anos da minha vida. Qual é o valor para você de colocar a capital pernambucana num cinema que foi pro mundo, um cinema que tá bombando no Brasil, filme pra todos os brasileiros verem. Queria falar um pouco dessa sua relação com Recife.
A
A minha relação com Recife, ela é tão natural quanto a minha relação com pessoas, com coisas que eu gosto. Pra começar, eu sou daqui, nasci aqui, passei a maior parte da minha vida aqui. Eu acho que... Eu também vejo no Recife uma cidade que tem muita personalidade. Tem personalidade cultural, política, tem personalidade geográfica também. Fica uma bacia, cidade porto, mangue, verde. plana, praia. Então, é uma cidade que tem história também, uma cidade histórica, e que está sempre em conflito com a sua própria história, está em conflito com si própria, como tantas cidades no mundo e no Brasil e na América Latina. E Recife tem um talento muito grande para a cultura, para a literatura, tem grandes nomes. O cinema, 100 anos atrás, já existia no Recife. O Recife tem teatro, tem todo um submundo maravilhoso de cultura que eu cresci com... Eu fui para a Universidade Federal de Pernambuco e eu vi múltiplas aulas de espetáculo diária no Suacuna. Alguém que me ensinou muito sobre como ser simplesmente de onde você é. Às vezes eu recebo perguntas, por que Recife de novo? Porque eu sou daqui, né? E essa pergunta aqui já virou piada, assim, porque eu já tenho falado muito sobre isso. Mas eu cresci vendo filmes do mundo inteiro, do Rio de Janeiro, novelas feitas no Rio de Janeiro, o jornalismo Rio-São Paulo. Às vezes eu ouvia Recife na rede nacional. Eita, pô, Recife! Onde é que é isso? Ah, acho que é na Conde da Boa Vista. É muito bom que o cinema projete lugares.
B
Conde da Boa Vista, que é uma das vias mais importantes da cidade, né?
A
Isso, no centro da cidade. Então, eu recebi um prêmio agora da Associação de Críticos de Los Angeles. Na minha fala lá, eu recebi o prêmio e ele disse que antes de ir a Los Angeles, eu já conhecia Los Angeles.
B
Eu vi.
A
Por causa do cinema. E hoje tem acontecido muito de pessoas que viram Recife nos meus filmes e desenvolveram a curiosidade de vir aqui. E quando vieram aqui, viram a cidade e viram a cidade também que tá nos filmes. Eu acho isso muito bonito.
B
E crescer no Recife tem uma espécie de botão que parece que você ativa e ele vai abrindo os seus olhos, a cidade vai abrindo os seus olhos, as manifestações do Maracatu, Caboclinho, Frevo.
A
É interessante ouvir isso. Eu acho que tem muitas cidades com personalidade muito forte. Eu acho que Salvador tem personalidade muito forte, o Rio de Janeiro, São Paulo é uma cidade que tem uma personalidade muito forte. Mas a personalidade do Recife não é a melhor. entre todas as outras, mas ela com toda certeza tem um sabor muito peculiar que talvez seja exatamente isso que você está construindo aí na sua colocação. Eu acho que o fato de ser na região Nordeste também, o Brasil é muito grande, é continental, então a região Nordeste tem todo um microclima que é o Brasil, mas é o Brasil da nossa maneira de ser. da mesma maneira que a região sul e a região centro-oeste têm suas maneiras de ser. Mas eu acho que há muita riqueza em todos os níveis no Nordeste. Para mim, os filmes, naturalmente, são daquilo.
B
Agora, de uma certa forma, a gente está falando de memória, e memória é um artigo em abundância no agente secreto, desde a memória individual, a memória coletiva, mas, sobretudo, a memória que passa por um imaginário político específico do Brasil da década de 70. A sua mãe se formou em história. É de lá que vem a gênese de tudo, desse desejo de não só olhar para o passado, mas de voltar. Enfim, eu queria que você localizasse um pouco melhor a tua relação com memória.
A
Bom, meus pais eram de humanos, os dois ensinaram história. Minha mãe, de fato, era uma historiadora, ela trabalhava com arquivo. Eu acho que eu cresci ouvindo história sobre a história. Talvez exista também um interesse nato meu, eu acho que o próprio cinema é uma ferramenta extraordinária de história. Mesmo que você faça uma comédia simples, adolescente, você pode ter está contribuindo com uma compreensão de uma história, e aquele filme guardado vai virar também uma peça de arquivo. Então, pra mim, o cinema sempre foi muitas coisas. Uma delas é esse filme aqui, ele será guardado. Esse filme aqui, por exemplo, é um disco do Thomas Crown Affair, feito em 1967. Eu tenho ele aqui na minha mão, porque ele pode ficar guardado aqui na minha casa, ou ele tá na nuvem. Então, a ideia do cinema como arquivo, ela é muito presente em mim. Então, contar um filme que se passa em 77, e que é contado a partir de artefatos de história, que são papéis, jornais, fotografias, desenhos, fitas de áudio. Para mim é muito interessante contar essa história a partir desses artefatos, porque essa é a nossa vida. Hoje eu vi várias capas de jornais que deram as quatro indicações ontem no Brasil, Jornais do Brasil inteiro. E depois eu soube que boa parte daquelas capas não foram publicadas em papel. Eu acho que é uma perda muito grande. Eu entendo, tecnologia, mas a guarda do jornal, ela se torna física. Eu acho que é uma salvaguarda muito importante. Pra mim, isso é o cinema.
B
Agora, a gente também está falando de um tempo que não é um tempo qualquer, você retorna a um Brasil marcado pelo autoritarismo, mas é curioso porque você parece evitar uma construção convencional dessa remontagem, desse tempo. Que tipo de provocação política te interessou fazer nas entrelinhas, quando o passado não aparece como reconstituição, mas como atmosfera? Por que essa opção?
A
Porque eu acho que existem já grandes filmes no cinema brasileiro que abordam a ditadura de uma maneira frontal. Pra Frente Brasil, do Roberto Parias, por exemplo. Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, do Héctor Babé. O filme Duvalta, ano passado, ainda estou aqui, que é um belíssimo filme. E o filme Duvalta já é um pouco diferente, eu acho, do tratamento... Concordo. dos anos 80, já é uma outra coisa, na verdade. Eu acho que a reconstrução de uma época, em primeiro lugar, é um grande desafio para alguém que faz um filme, porque não é só uma questão técnica, é uma questão também ética e histórica. E você reconstruir a época a partir de personagens e como eles se comportam, elas se comportam, em relação ao que está acontecendo na sociedade, para mim, era um desafio que eu queria muito ter. E o regime militar não é só fruto de pessoas fardadas e armadas. O regime militar foi fruto também de toda uma rede de interesses empresariais que acharam bom, na verdade, o regime militar e que lucraram com aquilo. Então, essa ideia, eu acho que para mim ela sempre foi muito clara, há muitos anos, e eu queria utilizar exatamente isso no filme. E também uma rixa pessoal, ser amparada por toda uma estrutura social que ajudou muito essa rixa e aquilo tudo acontecer, aquela violência toda acontecer. Eu gosto muito desse clima espesso de corrução, de levar vantagem, que infelizmente faz parte do nosso Brasil, mas é claro que eu não faria um filme só sobre isso. Eu acho que o filme é também muito sobre amor, sobre carinho, afeição.
B
Não, sem dúvida. Quando eu saí da sala de cinema, eu fiquei me perguntando muitas vezes por que a ditadura era retratada dessa maneira mais sutil. A grande maioria dos brasileiros talvez tenham entrado, talvez tenham uma relação com o regime militar, como o filme mostra, de maneira mais aqui e ali.
A
Quando você fez a pergunta anterior, você usou provocação. Eu acho que até hoje no Brasil, eu acho que um efeito contínuo da ideia da ditadura na sociedade brasileira, na nossa vida como brasileiros, é certas coisas serem ditas e serem vistas como um ataque, quando na verdade é só um fato. E eu acho que lembrar no Brasil, se você lembra, se você tem uma compreensão da história, isso muita gente vê como uma ameaça. O próprio filme tem tido algumas reações negativas da extrema-direita pelo simples fato dele voltar 50 anos e falar de 1977. Isso aconteceu também com ele, estou aqui, ano passado, eu o observava. Se você lembra, você já é uma ameaça e você já está fazendo uma provocação. Não estou dizendo que é o que você usou da maneira como você fez a sua pergunta, mas O Brasil é muito... Não, não vamos falar sobre isso não, porque é assunto delicado. E isso tá no filme também. Há uma sequência muito importante na parte final, onde um personagem muito importante congela quando ele entende que o assunto é o assunto e ele diz, eu prefiro não falar sobre isso. E muitas famílias agem dessa forma, né? Não só no Brasil, agora viajando tanto com o filme, na Espanha, com o Franco, muitas famílias, eu não posso falar sobre isso, prefiro não falar sobre isso. No Chile, prefiro não falar sobre isso. Eu acho que a percepção do regime militar passa por uma compreensão histórica, que eu acho que a lei da amnistia meio que também passou o pano, né? E minha irmã Estela, Ela fala, graças a Deus que você era uma criancinha durante aquele momento. Graças a Deus. Porque nenhuma opinião contrária seria aceita. Você coloca a mão pra cima, eu acho que isso tá errado. Desce o pau nesse cara, tortura ou exílio. E foi isso que eu tentei recriar com o filme. Muito do que acontece no filme não saiu de moda ainda no mundo nem no Brasil, mas o tom do filme eu acho que ele é muito específico de 50 anos atrás.
B
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Kleber Mendonça Filho. Tem uma expressão, quando você fala de um momento específico do filme, tem outro que me vem à cabeça agora quando você fala, que é o diálogo sobre a mangaba e refugiado. Não pode falar esse termo. Que termo? Mangaba? Não, refugiado. O tempo inteiro esse cuidado com o que se diz. Mas tem um aviso, algo de cara, que diz assim, essa história se passa no Brasil de 1977, uma época cheia de pirraça. Por que essa expressão?
A
Porque eu adoro essa palavra. Ela tem um ar muito literário, muito pernambucano. Ela subfatura de maneira gigante todo o horror pelo qual a sociedade brasileira passou no regime militar. Eu não queria abrir com uma explicação, digamos, séria e histórica e Wikipedia do que estava acontecendo naquela época no Brasil. E eu acho também que uma frase como essa no início de um filme ou de um livro, ela já te coloca num certo estado de espírito, sabe? Ela é como se fosse um efeito especial muito barato, que você abre o filme, já coloca aquilo ali e você já... uau! Ok, 1977, eu já tô calibrado pra ver e atiçado, né? Aí sim, é uma pequena provocação estética, assim. Nossa história se passa em 1977, uma época cheia de pirraça.
B
Você tem memória de como é que ela foi traduzida pro inglês?
A
Eles nunca conseguem, nunca conseguem realmente chegar lá. Em inglês é mischief, que é quase.
B
É, mas não é.
A
É quase, mas não é. Então, a coisa da tradução eu já desisti. A gente também, nós vimos filmes do mundo inteiro. iraniano, japonês, soviético. Eu tenho certeza que a gente não leu nem 60% do significado real daqueles diálogos, mas faz parte da natureza do cinema. Talvez na literatura seja mais fácil chegar mais perto, mas as legendas de cinema serão sempre imperfeitas.
B
Nem sempre. Os livros de Machado de Assis, já tive a oportunidade de lê-los, claro, em português e depois em inglês chega perto. Você vê a genialidade dele, mas não é como ler em português. Agora, você começou a escrever O Agente Secreto há muito tempo. Como é que foi o estalo desse roteiro? Porque você disse que começou a escrever para o Wagner, né? Você pensava no Wagner enquanto escrevia. Então, eu imagino que ele não seja de tanto tempo atrás assim.
A
Não, eu comecei a escrever no segundo semestre de 20. Tava na pandemia. E eu sempre quis que esse filme fosse um filme que eu faria com o Wagner. Então eu comecei a escrever pensando em Wagner.
B
Por quê?
A
Porque eu queria muito trabalhar com ele e ele queria trabalhar comigo. E eu gosto muito dele e ele também gosta de mim. Se você vai fazer certa coisa, você tem que realmente criar o roteiro específico pra que ele... E aí eu comecei a escrever. Eu, inclusive, escrevi sobre isso no livro que saiu do roteiro do Agente Secreto. De certa maneira, eu me sentia isolado e protegido ali nos anos 70, escrevendo essa história, mas aos poucos eu fui me dando conta que muito da lógica do que eu estava escrevendo estava vindo do Brasil contemporâneo, na era do ex-presidente, o Jair Bolsonaro. Porque eu realmente achei que, eu observei que o Bolsonaro, ele parecia estar trazendo toda uma memória da sua própria juventude, digamos, os seus anos dourados, os anos dourados dos seus amigos, homens, já na faixa dos 60 ou 70. e recriando todo um mundo de fantasia do regime militar no Brasil contemporâneo e democrático. Isso, para mim, foi um dos desenvolvimentos mais estranhos que eu, como brasileiro, observei. Não só coloca figuras militares enquanto chave do governo, mas palavras como tortura e pau-de-arara começaram a ser trazidas de volta de alguma maneira. e muito uma iconografia militar, que vem, claro, desse período pelo qual o Brasil passou nos anos 60, 70 e até 85. Então, foi muito curioso escrever o roteiro que se passa nos anos 70, mas observar que muita coisa, a lógica do regime militar meio que tinha voltado nas esferas de poder, nas esferas do governo. Isso, eu acho que a compreensão disso me fez me aprofundar, eu acho, no projeto.
B
E você demorou quanto tempo pra terminar?
A
Eu levei um ano e meio pra terminar. Eu escrevi boa parte na França, porque nós fomos morar um ano na França. Escrevi, inclusive, num cinema, cinema Utopia, em Bordeaux. Bom, aí eu terminei o Retratos Fantasmas, que é um projeto que me deu muito sentimento, muita sensação de história para o Agente Secreto. E a partir de 2023, o projeto com a Emily estava na rua para a gente ver como seria a produção. E aí começou a coprodução com França, depois Holanda e depois Alemanha.
B
E como é que se apresenta o loteiro para o Wagner? O que ele diz? Como é que foi essa conversa?
A
Foi excelente. Levou um tempo pra eu mandar pra ele, porque eu não queria mandar uma versão... Eu queria realmente mandar o roteiro final pra ele. Era muito importante que ele sacasse exatamente, que ele tivesse uma visão muito clara do filme que a gente paria. E a reação dele foi extraordinária. Tivemos longas conversas de Zoom sobre esse filme e foi em 2000 e... Outubro de 2023 ele veio aqui pra essa sala onde eu tô, no Recife, e a gente fez a leitura juntos pela primeira vez.
B
Ele se depara com o texto na sua frente?
A
Não, ele tinha lido já, mas ele veio pra cá pra gente ler juntos, eu já, com a Emily, alguns membros importantes da equipe.
B
Já que você citou esse momento com a Emily e com outras pessoas que participaram do filme, eu queria te ouvir um pouquinho sobre o elenco. O elenco é extraordinário e não é à toa que a preparação desse elenco também está concorrendo ao Oscar. 60 personagens, me corrija se eu estiver errada. E eles são todos muito bons, dos que falam pouco aos que falam muito. É algo realmente impressionante. É muito habilidosa a escolha desses atores de atrizes.
A
Eu tô muito feliz com esse reconhecimento do casting do filme, do elenco do filme. É tudo o que eu quero, na verdade. Eu gosto muito dos meus personagens e gosto igualmente do elenco. Eu adoro trabalhar com atores. O processo de escolha é um processo bem longo, pode até durar um ano. Quando você entra na sala de elenco, de direção, tem um quadro com muitas interrogações e aí, de repente, numa terça-feira, vem uma foto e chega para cobrir a interrogação. É uma nova pessoa que entrou para o filme. Mas eu acho que tem uma coisa tão incrível do reconhecimento do Agente Secreto pelos atores que é talvez o aspecto de mais pretensão minha nesse filme foi realmente tentar fazer um painel humano, um panorama humano de como eu vejo o nosso país. Eu acho que as caras do filme são muito brasileiras no que há de mais diverso. Você tem de traços indígenas brancos, branco europeu, branco brasileiro, traços negros, todo tipo de corpo, todo tipo de personagem que eu acho que representa muito um painel do Brasil. E essas pessoas são incríveis, são grandes atores e que alguns não tinham tanta experiência e outros têm muita experiência. Isso não importa pra mim, não importa pra mim. é trabalhar com eles da mesma maneira. E Wagner, ele é um ator profissional que tem carreira internacional, é uma celebridade. Wagner foi tão incrivelmente generoso com todas as pessoas. Você vê as cenas dele com o Tânia, que interpreta Sebastiano no filme.
B
Maravilhosa. A gente tá o dia inteiro apaixonado por essa mulher.
A
Ela é incrível. E, Wagner, a cena que ela tá mostrando o apartamento pra ele, dá pra ver que ele tá...
B
Ele tá babando por ela.
A
É, eu não acredito nessa pessoa. Que pessoa incrível é essa? Tá no cara dele.
B
Tá no olhar dele. É muito engraçado.
A
Ele deu a mesma atenção à Robson, que faz Clóvis, o menino que Dona Sebastiana acolhe. A mesma atenção que deu à Maria Fernanda Kahn, do Gabriel Leone, que são atores muito estabelecidos. Não só é uma sinfonia de instrumentos muito sofisticados que são os atores e os personagens, mas você ter um ator principal que quer todo mundo esteja bem. Eu já ouvi histórias, nunca aconteceu em nenhum filme meu, mas eu já ouvi histórias de atores e atrizes que é eu, eu, eu, eu, eu e até uma rivalidade com outros atores. Nunca jamais isso aconteceu e Wagner foi incrível na sua generosidade no Agente Segreto.
B
Agora, Kleber, você dirigiu filmes incríveis. Eu sou apaixonada por Bacurau, Som Redor, Aquários, você citou Retratos Fantasmas, Curta Recife Frio, enfim, é uma filmografia pra ninguém botar defeito. Mas de todos aí, qual é o seu preferido?
A
Ah, pergunta difícil.
B
É escolher um filho, né?
A
A melhor maneira de responder é da seguinte forma. Eu sempre dei todo o tempo que eu precisava para trabalhar nesses filmes. Nenhum filme ficou pronto antes da hora ou ficou enviesado ou ficou faltando peça. E cada um desses filmes me deu também muito reconhecimento e muito prazer, muita satisfação. Nenhum desses filmes foi ignorado, foi incompreendido. Eu acho que eles todos tiveram o seu momento de muita admiração. Não estou dizendo que todo mundo 100% gostou desses filmes, não. É normal que alguém não goste, faz parte, não tem nenhum problema. Mas o Som Redoso, que foi um filme que se tornou importante, o Aquário se tornou encantante, o A Coral, que eu fiz com Juliano Dornelles, um grande amigo, e o Retratos Fantásticos do Seu Jeito, que é um filme pequeno, é um ensaio, um documentário. Então, para responder a sua pergunta, eu amo todos eles, eu estou em relação super saudável com eles. Eu estou muito feliz com O Agente Secreto, como eu já estive com o Retratos Fantásticos, que é completamente diferente. Acho que O Agente Secreto hoje é o filme que está em evidência e eu estou ainda viajando com o filme. Com os curtas também, Recife Frio é um filme que eu respeito muito e cada um foi uma grande batalha, um grande desafio. Sempre são. Fazer um filme é um desafio muito grande.
B
Eu fiquei curiosa com alguns elementos, né? Me parece, eu vi um pouco de outros cineastas, eu vi um pouco de Fellini ali, acho que sobretudo na formação do elenco. Apaixonada, eu não consigo parar de ouvir aquela música do Morricone. Eu não consigo, eu tô obcecada. O que tem de inspiração no Agente Secreto de outros lugares, seja de músicos que produziram músicas incríveis, usadas até em outros filmes eventualmente, ou de outros diretores consagrados que você ama ou admira?
A
Eu não sei se acontece com todo mundo ou se acontece com algumas pessoas, mas quando eu vejo um filme, mas quando eu falo vejo um filme, eu quero na verdade dizer quando eu via um determinado filme, mas eu acho que acontece ainda, mas é raro. Mas nos meus anos de formação, que podem ter durado até os meus 30, Quando eu via um filme que me deixava arrepiado, isso me dava uma vontade muito grande de fazer cinema. Quando eu ouvia um disco, uma música, eu tinha vontade de tocar alto. Ou um livro, ou um poema. Tudo isso me ajudou, me colocou num desejo de fazer minhas próprias coisas. O movimento mangue, por exemplo, nos anos 90 no Recife foi muito... me energizou muito aquilo. de ter um Chicouça ensinação zumbi na sua cidade e você poder andar um quilômetro aqui perto e ver um show deles e você sentir o arrepio que eu senti vendo, sei lá, Prince. Isso me deu uma energia muito grande de fazer cinema e desenvolver minhas coisas. E eu acho que cada filme que ajudou a me formar, de alguma maneira, tá nos filmes que eu faço, de maneira inevitável. Eu cresci muito vendo o cinema do mundo inteiro, com uma queda forte para o cinema dos Estados Unidos, e eu acho que eu tive muita sorte que a minha geração viu grandes filmes comerciais americanos, que não eram ruins, na verdade eram muito bons, e eram até autorais. A ideia de você ser um autor e ao mesmo tempo você fazer um filme popular é muito interessante. E nada contra os autores que não fazem filmes populares, também existem coisas maravilhosas aí. Mas eu acho que tem muito do cinema americano, tem o cinema francês, tem o cinema brasileiro de Nelson Pereira dos Santos, do Joaquim Pedro de Andrade, O Glauber Rocha é uma influência intransponível pra quem é brasileiro e faz filmes. Não significa que você vai tá medindo o seu filme com a régua de Glauber. Claro. Não, eu fiz Igual a Coral e eu não pensei em nenhum momento em Glauber Rocha. É mentira, isso não existe. Então, eu acho que você é o que você... você é a sua dieta, né? Se você se alimenta de um determinado tipo de coisa, isso vai ter um impacto em quem você é. E toda a nossa formação, você como jornalista, eu tenho certeza que você é a soma de partes que lhe formaram, na melhor das hipóteses, eu acho.
B
Todos somos. Eu queria só te dizer que a gente tá na maior torcida do mundo, que a gente quer o melhor pro Agente Secreto, porque querer o melhor pro Agente Secreto é querer o melhor pra nós mesmos, brasileiros. Muito obrigada por essas alegrias todas que vocês têm nos dado e boa sorte pra nós.
A
Obrigado, muito bom falar com você, Natuza.
B
Antes de terminar um recado, se você ouve o assunto no Spotify e gostou do episódio, é Assunter mesmo, dá cinco estrelas e compartilha esse episódio com quem você quiser. Você pode nos ouvir no G1, no YouTube e em todas as plataformas de áudio. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva e Carlos Catellan. Neste episódio colaborou também Paula Paiva Paulo. Eu sou Ana Tuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast: O Assunto, G1
Data: 26 de janeiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidado: Kleber Mendonça Filho
Tema: A trajetória e visão artística do cineasta Kleber Mendonça Filho, diretor do premiado “O Agente Secreto”, sua relação com Recife, as memórias que movem suas obras e o impacto do cinema brasileiro no mundo.
O episódio celebra a trajetória de Kleber Mendonça Filho, um dos maiores nomes do cinema brasileiro contemporâneo, especialmente após o sucesso internacional e as quatro indicações ao Oscar de seu mais recente filme, “O Agente Secreto”. A conversa explora sua relação profunda com Recife, fontes de inspiração, decisões artísticas, visão sobre memória e história, contexto político, escolhas de elenco e influências cinematográficas.
“Muito do que acontece no filme não saiu de moda ainda no mundo nem no Brasil, mas o tom do filme eu acho que ele é muito específico de 50 anos atrás.”
– Kleber Mendonça Filho (00:02 e 13:44)
“Você é o que você... você é a sua dieta, né? Se você se alimenta de um determinado tipo de coisa, isso vai ter um impacto em quem você é.”
– Kleber Mendonça Filho (29:13)
O episódio revela não apenas a genialidade artística de Kleber Mendonça Filho, mas sua sensibilidade política, respeito pela memória e a preocupação em refletir o Brasil real, diverso e plural. “O Agente Secreto” é símbolo de orgulho nacional no Oscar, mas também é um convite à reflexão sobre história, identidade e resistência. A conversa flui com afeto, nostalgia e senso crítico, mostrando por que Kleber é um dos pilares do novo cinema brasileiro – homenageando o passado, questionando o presente, e inspirando o futuro.