O Assunto: Kleber Mendonça Filho – O Cineasta Pernambucano que Conquistou Hollywood
Podcast: O Assunto, G1
Data: 26 de janeiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidado: Kleber Mendonça Filho
Tema: A trajetória e visão artística do cineasta Kleber Mendonça Filho, diretor do premiado “O Agente Secreto”, sua relação com Recife, as memórias que movem suas obras e o impacto do cinema brasileiro no mundo.
Visão Geral do Episódio
O episódio celebra a trajetória de Kleber Mendonça Filho, um dos maiores nomes do cinema brasileiro contemporâneo, especialmente após o sucesso internacional e as quatro indicações ao Oscar de seu mais recente filme, “O Agente Secreto”. A conversa explora sua relação profunda com Recife, fontes de inspiração, decisões artísticas, visão sobre memória e história, contexto político, escolhas de elenco e influências cinematográficas.
Principais Pontos e Discussões
1. Raízes Pernambucanas & Representação de Recife no Cinema
- Kleber compartilha o quanto Recife é intrínseco à sua vida e obra, citando a riqueza cultural, histórica e o contraste da cidade:
- “A minha relação com Recife, ela é tão natural quanto a minha relação com pessoas, com coisas que eu gosto... Eu sou daqui, nasci aqui, passei a maior parte da minha vida aqui.” (02:54)
- Ressalta a importância de projetar os lugares de origem no cinema e reverter a lógica centralizadora do Sudeste:
- “O cinema projeta lugares.” (04:13)
- Fala ainda sobre o orgulho e impacto de ver estrangeiros se interessando por Recife ao assistirem seus filmes:
- “Hoje tem acontecido muito de pessoas que viram Recife nos meus filmes e desenvolveram a curiosidade de vir aqui.” (05:05)
2. Memória como Elemento Central
- Kleber explica como a memória – individual, coletiva, política – está no centro de “O Agente Secreto” e de sua própria formação, já que cresceu ouvindo histórias dos pais, ambos professores de História:
- “Eu acho que eu cresci ouvindo história sobre a história. Talvez exista também um interesse nato meu, eu acho que o próprio cinema é uma ferramenta extraordinária de história.” (07:07)
- Fala da importância do cinema enquanto arquivo, destacando o papel dos artefatos físicos das décadas passadas:
- “A ideia do cinema como arquivo, ela é muito presente em mim.” (07:56)
3. Retrato Político e Recriação Histórica Sutil da Ditadura
- O cineasta opta por tratar o Brasil dos anos 1970 não frontalmente, mas pela atmosfera, evitando o didatismo:
- “A reconstrução de uma época... não é só uma questão técnica, é uma questão também ética e histórica.” (09:44)
- “O regime militar não é só fruto de pessoas fardadas e armadas. O regime militar foi fruto também de toda uma rede de interesses empresariais que acharam bom... e lucraram com aquilo.” (10:37)
- Comenta sobre a recepção polarizada e os tabus em torno do tema:
- “No Brasil, se você lembra, se você tem uma compreensão da história, isso muita gente vê como uma ameaça.” (11:53)
- “[No fim do filme] um personagem congela quando ele entende que o assunto é o assunto e ele diz: ‘eu prefiro não falar sobre isso’.” (13:07)
Citação marcante:
“Muito do que acontece no filme não saiu de moda ainda no mundo nem no Brasil, mas o tom do filme eu acho que ele é muito específico de 50 anos atrás.”
– Kleber Mendonça Filho (00:02 e 13:44)
4. Expressões Regionais e Tradução da Cultura
- Kleber destaca o uso da palavra “pirraça” na abertura do filme:
- “Ela tem um ar muito literário, muito pernambucano. Ela subfatura de maneira gigante todo o horror pelo qual a sociedade brasileira passou no regime militar.” (14:51)
- Reflete sobre as limitações da tradução cultural:
- “…em inglês é mischief, que é quase, mas não é. Então, a coisa da tradução eu já desisti.” (15:55)
5. Processo Criativo & Parceria com Wagner Moura
- O roteiro de “O Agente Secreto” foi concebido desde o início para Wagner Moura, escrito principalmente durante a pandemia:
- “Eu sempre quis que esse filme fosse um filme que eu faria com o Wagner. Então comecei a escrever pensando em Wagner.” (17:10)
- Kleber relata como a atmosfera política contemporânea influenciou sua escrita:
- “…observei que o Bolsonaro, ele parecia estar trazendo toda uma memória da sua própria juventude... e recriando todo um mundo de fantasia do regime militar no Brasil contemporâneo e democrático.” (17:54)
- Processo: Aproximação lenta ao enviar o roteiro pronto a Wagner, longas conversas e ensaio conjunto no Recife:
- “Era muito importante que ele sacasse exatamente... A reação dele foi extraordinária.” (20:03)
6. Escolha e Preparação do Elenco
- Kleber valoriza a riqueza do elenco diverso e o processo demorado de seleção:
- “É tudo o que eu quero, na verdade. Eu gosto muito dos meus personagens e gosto igualmente do elenco. Eu adoro trabalhar com atores.” (21:22)
- Destaca a generosidade de Wagner Moura e o painel humano do filme:
- “Talvez o aspecto de mais pretensão minha nesse filme foi realmente tentar fazer um painel humano, um panorama humano de como eu vejo o nosso país.” (21:54)
Momento divertido:
- Sobre a atriz que interpreta Sebastiana:
- “A gente tá o dia inteiro apaixonado por essa mulher.” (23:10) – Natuza
- “É, eu não acredito nessa pessoa. Que pessoa incrível é essa? Tá no cara dele.” (23:23) – Kleber
7. Filmografia e Preferências Pessoais
- Kleber evita apontar um “filho favorito” entre seus filmes, valorizando o tempo dedicado e o reconhecimento de cada obra:
- “Para responder a sua pergunta, eu amo todos eles, eu estou em relação super saudável com eles.” (24:44)
8. Inspirações e Influências Artísticas
- Cita influências do cinema mundial, especialmente americano, francês e nomes do cinema brasileiro:
- “Cada filme que ajudou a me formar, de alguma maneira, tá nos filmes que eu faço, de maneira inevitável.” (27:31)
- “O Glauber Rocha é uma influência intransponível pra quem é brasileiro e faz filmes.” (28:48)
Citação importante sobre dieta cultural:
“Você é o que você... você é a sua dieta, né? Se você se alimenta de um determinado tipo de coisa, isso vai ter um impacto em quem você é.”
– Kleber Mendonça Filho (29:13)
Momentos e Timestamps de Destaque
- Raízes e infância em Recife, ligação com a cidade:
02:54–05:05 - Memória, família e função do cinema como arquivo:
06:28–08:58 - Tratamento do passado político e tabus:
09:28–13:44 - O significado de “pirraça” no filme:
14:51–15:52 - Processo de roteiro e influência do contexto Bolsonaro:
17:10–19:21 - Seleção e preparação do elenco:
21:22–24:14 - Relação afetiva com sua filmografia:
24:40–25:54 - Influências de outros cineastas e da cultura pop:
26:10–29:13
Notáveis Citações
- “O cinema, 100 anos atrás, já existia no Recife. O Recife tem teatro, tem todo um submundo maravilhoso de cultura que eu cresci.” (03:34)
- “[O filme] é também muito sobre amor, sobre carinho, afeição.” (11:19)
- “Se você lembra, você já é uma ameaça e você já está fazendo uma provocação.” (11:58)
- “Os filmes, naturalmente, são daquilo. Eu não faço força para ser do Recife, eu sou do Recife.” (06:14)
- “Fazer um filme é um desafio muito grande.” (25:55)
- “Eu acho que você é a soma de partes que lhe formaram, na melhor das hipóteses, eu acho.” (29:36)
Conclusão
O episódio revela não apenas a genialidade artística de Kleber Mendonça Filho, mas sua sensibilidade política, respeito pela memória e a preocupação em refletir o Brasil real, diverso e plural. “O Agente Secreto” é símbolo de orgulho nacional no Oscar, mas também é um convite à reflexão sobre história, identidade e resistência. A conversa flui com afeto, nostalgia e senso crítico, mostrando por que Kleber é um dos pilares do novo cinema brasileiro – homenageando o passado, questionando o presente, e inspirando o futuro.
