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Natuza Neri
As cenas eram de pânico. No aeroporto de Guadalajara, segunda maior cidade do México, pessoas se amontoavam assustadas entre cadeiras e mesas. Gritos, correrias na tentativa de se esconder de um alerta. Supostamente havia homens armados no local. A expectativa era falsa, mas a imagem que rodou o mundo retrata com precisão um país em alerta. Do lado de fora, pilares de fumaça escura diziam que o medo era compreensível.
Narrator/Reporter
Vinte estados mexicanos, mais da metade do país, registraram ataques. Em Puerto Vallarta, um importante destino turístico, moradores de turistas registraram nuvens de fumaça em diversos pontos da cidade, além da presença de navios militares e helicópteros sobrevoando a região. Durante a confusão, 23 criminosos fugiram da prisão. Os criminosos atearam fogo a carros e ônibus, vandalizaram lojas e prédios públicos e bloquearam as estradas.
Natuza Neri
Barricadas com frontos armados e baixas, muitas baixas. A conta até aqui ultrapassa os 70 mortos entre militares, policiais, agentes penitenciários e criminosos. Tudo em reação à execução de um homem. Emécio Ocegueira Cervantes, conhecido como El Mencho, um dos homens mais perigosos do país, líder do cartel Jalisco Nova Geração.
Narrator/Reporter
Em 2011, o cartel Jalisco Nueva Generación se tornou independente sob a liderança de El Mencho. É o cartel mais agressivo que cresce mais rapidamente no México. É uma multinacional altamente militarizada, com presença na Ásia, na América do Sul, por exemplo, no Equador. Nos últimos tempos, foi deixando de escanteio a produção de cocaína e tem apostado mais no fentanil.
Natuza Neri
Uma organização até que recente, mas que em pouco tempo rivalizou com as maiores e mais organizadas estruturas do tráfico. O diferencial? A violência e a audácia. Até mesmo organizações criminosas como o Sinaloa, com mais de 30 anos de atuação no México, não tinham o costume de entrar em embates pesados contra o exército. Mas o cartel liderado por El Mencho mudou tudo. A gangue costuma fazer ataques complexos a forças de segurança, com o uso de drones, lançadores de granada e outros armamentos pesados. As emboscadas e execuções também são comuns. O cartel lucra bilhões todo ano inundando os Estados Unidos e outros países com drogas altamente viciantes.
Narrator/Reporter
O Drug Enforcement Administration dos Estados Unidos classifica o Cartel Jalisco Nueva Geração como uma organização terrorista internacional. Forneceu-se a dor-chave de fentanil para os Estados Unidos. Essa organização se expandiu para além das fronteiras mexicanas e se estabeleceu em presença em mais de 40 países.
Natuza Neri
Com seus mais de 15 mil integrantes, o cartel manteve seu chefe blindado até então. Mas um deslize permitiu localizar El Mencho na última sexta-feira. Os passos da namorada do mega-traficante estavam sendo seguidos pelas autoridades. Na manhã de domingo, tropas especiais cercaram o local e entraram em ação. Oito criminosos que faziam a segurança do líder morreram. O chefe do bando chegou a fugir para uma região de mata. Lá, trocou tiros com os agentes e foi ferido gravemente antes de ser capturado. Emécio morreu na transferência do helicóptero para um hospital. Foi o gatilho para que cenas de caos e medo se espalhassem pelo México.
Marina Pera
O transporte público foi suspenso e escolas fecharam. O governo pediu que a população fique em casa. No dia seguinte à operação, o México continuou em estado de alerta. A presidente, Claudio Schenbaum, pediu calma à população e disse que as estradas não estão mais bloqueadas.
Natuza Neri
O governo mobilizou mais de 10 mil militares para conter os criminosos. A crise de segurança ainda deixa a população apreensiva. Isso porque ninguém sabe o que pode acontecer com o cartel e o seu domínio. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a morte de um mega traficante e a violência dos cartéis no México. Neste episódio, eu converso com Marina Pera, analista sênior de risco político na consultoria Control Risks, no México. Quarta-feira, 25 de fevereiro. Marina, eu quero entender um pouco mais sobre esse personagem, o narcotraficante, o Mentio, e por que a queda dele pode reconfigurar o cartel.
Marina Pera
Natuza, o Mentio é o fundador e o líder do cartel Jalisco Nova Geração, que é atualmente a principal e mais poderosa organização criminosa do México, que tem presença em quase todos os estados do México e também em alguns países da Europa, alguns países da Ásia. Então, é uma organização criminosa transnacional que se dedica não só ao tráfico de drogas nos Estados Unidos, mas também a uma série de atividades ilícitas, como extorsão, roubo de combustível, que no México é um problema muito importante, tráfico humano, tráfico de drogas, então é uma organização criminosa com muita capacidade econômica, muita capacidade operacional. e ele era quase uma figura messiânica para os membros dessa organização criminosa. Ele começou sendo um traficante de drogas de rua nos Estados Unidos, chegou a ser preso lá algumas vezes, aí voltou para o México, foi sicário ou matador de aluguel para um cartel que não existe mais, chamado Cartel do Milênio, isso lá nos anos 90, e depois ele passou para o Cartel de Sinaloa, que é o segundo maior, digamos, aqui no México. E aí, com isso, ele formou um braço armado do cartel de Sinaloa, chamado Cartel Jalisco Nova Geração, e essa aliança, quando se rompeu, deu origem ao que hoje é esse cartel tão poderoso. E ele tem um perfil muito baixo, tanto é que só tem umas três fotos dele disponíveis, circulando por aí, e ele estava escondido há muito tempo. Só se sabia que ele tinha algum problema de saúde, possivelmente uma insuficiência renal, mas ninguém sabia dele. E ele era essa figura messiânica para os membros da organização, porque ele construiu esse cartel em torno da figura dele. e seguiam ele com muita devoção. Tem, inclusive, os chamados narco-corridos aqui no México, que são músicas dedicadas ao crime organizado, que falavam sobre ele, faziam ódios a ele. E agora, com a morte dele, vem um vácuo de poder porque não tinha um sucessor muito claro. Agora o que a gente vai ver provavelmente são figuras mais sênior do cartel Jalisco Nova Geração, lutando por essa liderança a nível nacional. e uma reconfiguração interna, então uma mudança dos peões no tabuleiro agora. Um cenário possível agora dessa reconfiguração interna do cartel é que alguns grupos a nível estadual tentem se descolar um pouco da marca que virou o Cartel Jalisco Nova Geração para formar grupos menores. E a tendência é que essa fragmentação da cena criminal no México seja ainda mais violenta. E isso porque um diferencial do Cartel Jalisco Nova Geração, em comparação com outros, é que atua quase como franquias a nível estadual, em que os líderes dos estados têm relativa autoridade e autonomia, embora a figura central sempre tenha sido o mentio, e agora a gente pode ver, por um lado, algumas figuras sênior tentando manter a união, do cartel e outras figuras a nível estadual tentando se descolar um pouco e afirmar uma liderança. Ou seja, um momento de volatilidade e incerteza para o futuro do cartel.
Natuza Neri
Eu quero voltar para o personagem. Você disse que ele era um líder messiânico. Como? O que ele dizia? Como é que ele cultuava a própria figura? Como a figura dele era cultuada pelos demais? Queria entrar um pouco mais nesse personagem.
Marina Pera
Ele tinha 59 anos.
Natuza Neri
Elmentio viveu ilegalmente nos Estados Unidos. Foi preso por tráfico, deportado e, ao retornar ao México, chegou a trabalhar como policial, até voltar para o mundo do crime.
Marina Pera
O discurso dele não era muito público. Como eu disse, ele era uma figura de muito baixo perfil. que não era visto em público, mas que o Cartel Jalisco Nova Geração atuava quase como um estado paralelo em lugares em que o Estado não chegava. Então, distribuía presentes no Natal, distribuía comida para a população mais carente, isso é o que se sabe da atuação dele nos recônditos do México, em áreas rurais, por isso existia uma celebração da figura dele, como essa pessoa que estava lá para suprir carências.
Natuza Neri
E que práticas violentas são atribuídas a El Menchú e ao cartel que ele liderava?
Marina Pera
O cartel Jalisco, Nova Geração, mandou matar muitos juízes, muitos políticos, violência política muito alastrada, principalmente em épocas de campanha, mas não só, e inclusive teve um atentado em 2020 contra o atual ministro da da Segurança Pública Omar Garcia Harfoot aqui na Cidade do México, que o Cartel Jalisco Nova Geração tentou matá-lo, porque justamente ele estava tentando fazer frente com uma mão dura ao crime aqui na cidade. Então, o Cartel Jalisco Nova Geração tem essa audácia, digamos, de enfrentar as autoridades públicas, mas, além da esfera pública, a gente pode pensar, inclusive, em atividades predatórias do crime organizado contra empresas no México. Um problema muito grave é o da extorsão, e não só essa organização criminosa, muitas outras extorcionam empresas para elas poderem operar, para poderem ter acesso a estradas, e se as empresas não aceitam e não cumprem com essas demandas, sofrem consequências também violentas. Pode ser sequestro de funcionários, inclusive morte. E aí também, num outro nível, pensando nos rivais, uma violência muito marcada com matadores de aluguel, as decapitações, os corpos são deixados nas estradas também como uma demonstração de força e demonstração do poder e da inclemência, digamos, dessas organizações criminosas. Então, é um cardápio de violências que o cartel está envolvido já nesses quase 20 anos de atuação, envolvendo diversos atores aqui no México, tanto públicos quanto empresas privadas ou inclusive cidadãos.
Natuza Neri
O que mudou na política de segurança do México que permitiu a captura e a morte desse chefão do narcotráfico, do El Mencho?
Marina Pera
Em poucas palavras, o que mudou foi o Donald Trump. A política de segurança do governo mexicano anterior, do ex-presidente Andrés Manuel López Obrador, o AMLO, era muito mais reativa. Ele até tinha um slogan, abraços no balaços, abraços e não balas. Então, ele focava muito mais em prender líderes de meio escalão, ele focava também em algumas apreensões de droga, ele aumentou muito o orçamento para o exército e colocou o exército nas ruas para tentar fazer frente ao crime, mas a verdade é que ele não apresentou muitos resultados, pelo contrário. Quando a Sheinbaum entra com esse papel um pouco de dar continuidade ao legado do AMLO, mas ao mesmo tempo tentar deixar a marca dela, ela anunciou algumas mudanças na política de segurança. Por exemplo, ela criou um super ministério de segurança pública e colocou o braço direito dela, Omar Garcia Harfoot, para ser o líder, o super-ministro. E ele foi desenvolvendo um pouco as capacidades de inteligência do México para tentar desmantelar os grupos criminosos. Mas aí chega Donald Trump, no segundo O governo dele é colocando a segurança e o combate ao crime organizado no centro da relação bilateral com o México e, de maneira mais ampla, com a América Latina E ele começou a demandar, a pressionar o México para entregar mais resultados no combate ao crime organizado, de uma forma mais contundente E ele condicionou as relações comerciais com o México com esses resultados de segurança. Então, colocou a Sheinbaum numa situação um pouco desconfortável em que ela teve que tomar medidas mais drásticas de segurança para tentar fazer avançar as negociações, principalmente de suspensão das tarifas. Então, o governo começou a mandar mais tropas para a fronteira, para tentar conter o tráfico de drogas, principalmente de fentanil, e também de imigração irregular, e em muitos sentidos deu certo, ela conseguiu mostrar números de que, de fato, o tráfico de drogas estava reduzindo, e começou a prender alguns políticos, principalmente o governo municipal, que estavam envolvidos com o crime organizado, destapou um esquema de roubo de combustível, também um esquema transnacional de roubo de combustível, prendeu algumas pessoas que estavam envolvidas, autoridades do governo. mas não estava sendo suficiente, Trump estava pedindo mais, mais e mais. A informação de bastidor é que o próximo passo do governo Trump era pedir uma lista para o governo mexicano dos narcopolíticos, ou seja, políticos de todos os níveis do governo que estavam envolvidos com organizações criminosas, com tráfico de drogas, e isso colocou a Sheinbaum de novo numa posição entre a cruz e a espada. Ela não poderia entregar essa lista porque envolveria, muito possivelmente, várias pessoas do partido governista do Morena. E ela já tem uma liderança um pouco mais frágil no governo porque existem figurões do partido do Morena que contestam um pouco a liderança dela. Então, ao invés de entregar essa lista, ela foi com um golpe mais claro e entregou a cabeça do Manchin numa bandeja de prata para o Trump com esse objetivo de comprar oxigênio.
Natuza Neri
Já houve na história do México, ou pelo menos na história recente, um narcotraficante, um líder de uma organização cujo resultado tenha sido essa onda de violência? Algo parecido na história?
Marina Pera
Sim, tem casos parecidos, acho que a gente pode citar, em 2019, a prisão do Ovidio Guzmán, que era um filho do Tchapo, que atuava no cartel de Sinaloa, e a reação de violência foi tão forte, com tantos tiroteios, ameaças às forças de segurança e às autoridades do governo, bloqueios de estradas, ataques incendiários, foi tão forte que o governo acabou voltando atrás, soltando o Ovidio Guzmán, E voltaram a prendê-lo em 2023 e já extraditaram para os Estados Unidos, onde ele está hoje. Então, pra gente ver que a reação das organizações criminosas em operações dessa natureza são tão fortes que realmente pressionam o governo e criam uma instabilidade no ambiente de segurança. Mas essa operação que levou à morte do Menchio é mais mais importante, maior do que outros casos, primeiro porque foi uma morte, não foi a detenção, e segundo porque o Cartel Jalisco Nova Geração, como a gente estava comentando, é atualmente muito poderosa e foi um golpe um tanto inesperado. Foi o principal golpe na história recente do México, para o crime organizado aqui no país.
Natuza Neri
Você entende como golpe, uma espécie de desmantelamento da estrutura do cartel, tal qual é conhecido hoje. Mas por que a queda de uma figura desse tamanho pode desencadear essa mudança, essa movimentação de placas tectônicas. O que muda exatamente na estrutura do cartel e o que muda exatamente nas instituições que combatem o narcotráfico?
Marina Pera
É uma avalanche para a organização criminosa porque nesse caso não tinha uma sucessão, não tinha um uma figura para substituir essa liderança de uma organização criminosa, bilionária, e que está tão penetrada em todas as esferas de poder aqui no México. Então, no fim do dia é sobre dinheiro e sobre poder. E agora a preocupação é a continuidade das operações do Cartel Jalisco Nova Geração, que se expandiu muito ao longo desses últimos quase 20 anos, e fica a incerteza de quem vai ser o líder e como vai ser a estrutura de liderança do cartel para permitir a continuidade dessas operações.
Natuza Neri
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Marina Pera. Bom, a gente viu uma onda de violência assustadora, gente em pânico, ruas vazias, fumaça preta, estradas bloqueadas, voos cancelados, mais de 70 mortos. É algo inimaginável. Eu quero te ouvir, Marina, sobre um ponto. A morte dele fortalece o governo? Porque você nos explicava que a presidente do México quis entregar a cabeça do líder do narcotráfico desse cartel numa bandeja de prata. Mas eu queria te perguntar como é que isso está sendo percebido internamente? Está sendo percebido como força do Estado para combater o narcotráfico ou como fragilidade do Estado diante das cenas que o mundo inteiro viu nas últimas horas?
Marina Pera
As duas coisas, Natuza. Num primeiro momento, a opinião pública vê com bons olhos esse desenvolvimento, como uma mensagem que o governo está comprometido com o combate ao narcotráfico e que o governo tem agora vontade política de ir atrás desse líder da organização criminosa do Cartel Jalisco Nova Geração. Isso era o que faltava nos governos anteriores, vontade política, porque capacidade de encontrar e de prender, enfim, de capturar esse líder sempre existiu, mas agora o governo da Sheinbaum, por pressão dos Estados Unidos, mostrou esse compromisso. Então, num primeiro momento, a população entende como algo positivo, porém, no segundo momento, o que vem depois dessa operação? Por causa das ondas de violência que seguiram operações dessa natureza no passado, já se espera um pouco de pânico, de caos, de medo, de instabilidade, dessas mudanças de peça, como a gente estava comentando. Então, embora isso fortaleça o governo no primeiro momento, no segundo momento a gente tem que ver qual vai ser a capacidade do governo de fazer frente a essa onda de violência. O governo pediu que a população fique em casa. A presidente, Claudia Steinbaum, pediu calma à população e disse que as estradas não estão mais bloqueadas. como que o governo vai conter possíveis ondas de violência, incidentes de alto perfil no país inteiro. Como o Cartel Jalisco Nova Geração tem esses tentáculos espalhados por todo o território mexicano e a gente está antecipando focos de violência localizados no país inteiro, o governo vai ter que estar preparado para lidar com esses episódios de violência. O que vem por aí, provavelmente, é o Cartel Jalisco Nova Geração se recolhendo um pouco para entender quais são os próximos passos e avaliando as estratégias para o futuro. E o governo já colocou muito exército na rua, aproximadamente 10 mil militares já estão na rua para tentar prevenir essas ondas de violência, os governos estaduais também já estão com as medidas preventivas, mas mesmo assim, como a gente estava comentando, a capacidade material e econômica do cartel é tão grande que consegue, sim, fazer frente às capacidades do governo. Então, a gente vai ver um embate em todos os lados, entre o governo e o cartel Jalisco Nova Geração, também entre os grupos rivais e o cartel, e internamente o cartel para definir quem é a próxima liderança.
Natuza Neri
Mas nesse caos que a gente viu nas imagens, a gente estava falando de que? De reação dos comparsas do Eumentio para mostrar para o governo quem manda mais, numa briga de gangues, de organizações ou da própria organização pelo comando do cartel, pela liderança do cartel ou outra coisa? Eu queria entender a das imagens que a gente viu. Foram os bandidos que fizeram isso? Foi o confronto entre bandidos e as forças do Estado ou entre bandidos e bandidos?
Marina Pera
Essa reação imediata que ocorreu no domingo logo depois da morte do Mencho foi uma retaliação do cartel Jalisco Nova Geração contra as forças de segurança. Começaram no estado de Jalisco, que é o bastião do cartel, e já se espalharam para os estados ali ao redor de Jalisco, onde o cartel também exerce dominância, muita influência.
Natuza Neri
E Marina, a cena da captura e morte dele é uma cena muito impressionante, porque a gente dizia na abertura do podcast que eles monitoraram a namorada e foi por meio do monitoramento da namorada que se chegou até ele. Mas eu queria entender se já se sabe se os Estados Unidos tiveram participação na captura, na localização do Eumantium.
Marina Pera
Foi um plot digno de novela mexicana, né? Seguir a amante para encontrá-lo. E a versão oficial, tanto do governo mexicano quanto do governo americano, é que Estados Unidos proporcionou inteligência para localizá-lo. E esse foi o apoio que deram antes da operação. A narrativa oficial do governo mexicano é que ele foi capturado com vida depois de um enfrentamento entre o exército e o cartel Jalisco Nova Geração e que ele seria transportado para a cidade do México para ser futuramente julgado, né? Mas eu acho importante dizer isso, ele foi morto, ele não foi capturado com vida, porque se ele abrisse a boca, enfrentasse um julgamento e compartilhasse a informação, também provavelmente comprometeria muitos níveis de poder aqui no México.
Natuza Neri
Quando eu vi as cenas do México, a primeira... O primeiro temor que eu tive foi me perguntar se isso poderia acontecer no Brasil, um país em que no histórico recente a gente viu um crescimento abissal das organizações criminosas, das facções criminosas. Nós temos aqui instituições criminosas fortíssimas e organizadas, PCC, Comando Vermelho, para citar as duas maiores. É possível traçar paralelos entre o que está acontecendo no México agora e o Brasil de alguma maneira?
Marina Pera
Sim, com certeza dá pra traçar paralelos. Tem especialistas em segurança que falam que as organizações criminosas no Brasil estão pelo menos duas décadas atrás das organizações criminosas do México em nível de sofisticação, de ordem hierárquica, da organização do crime organizado, né? Mas o que a gente tem visto recentemente no Brasil, principalmente do PCC, a diversificação das atividades econômicas e também a gente tem visto a penetração do PCC, principalmente nos governos municipais, ganhando contratos com aliados lá dentro, né, Câmara de Vereadores, enfim, algo que aqui no México também já acontece há bastante tempo. Então, existem paralelos, acho que o Brasil ainda está um pouco atrás do México nesse sentido, Mas toda essa operação no México gera um alerta também para o Brasil, como as coisas podem caminhar quando o país fomenta uma cultura de impunidade em que as instituições não fazem frente, de fato, às organizações criminosas e permitem a expansão dessas organizações em diversas frentes na economia ilícita e também na economia lícita. Acho que é um prelúdio do que pode acontecer no Brasil, inclusive essa onda de violência aqui no México. A violência é mais forte do que no Brasil, em muitos sentidos, se o Brasil continuar por esse caminho.
Natuza Neri
Marina, muito obrigada por explicar pra gente todos os aspectos do que está acontecendo no México. Bom trabalho pra você.
Marina Pera
Muito obrigada, Natuza. Foi um prazer. Tchau!
Natuza Neri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Este episódio usou áudio da Fox News. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catelan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Nath Zaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
O Assunto – “México: a morte de 'El Mencho' e a violência dos cartéis”
Host: Natuza Neri (G1)
Guest: Marina Pera (Control Risks)
Date: 25 de fevereiro de 2026
Neste episódio, Natuza Neri explora o assassinato de El Mencho, poderoso líder do Cartel Jalisco Nueva Generación, e o impacto imediato e futuro na escalada do narcotráfico, violência e política de segurança no México.
Cenas de pânico no México: A abertura descreve o caos após a execução de El Mencho: pânico no aeroporto de Guadalajara, ataques em 20 estados, fugas em massa de presídios, barricadas incendiárias e confrontos armados.
"No aeroporto de Guadalajara... pessoas se amontoavam assustadas entre cadeiras e mesas. Gritos, correrias na tentativa de se esconder..." — Natuza Neri [00:00]
O poder de El Mencho: Líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), El Mencho comandava a organização criminosa mais agressiva e expansiva do México, com atuação multinacional, especialmente no tráfico de fentanil.
Trajetória:
"Ele era quase uma figura messiânica para os membros dessa organização criminosa." — Marina Pera [04:36]
"Tem inclusive os chamados narco-corridos aqui no México, que são músicas dedicadas ao crime organizado, que falavam sobre ele..." — Marina Pera [07:30]
Estratégia de liderança:
"O Cartel Jalisco Nueva Generación atuava quase como um estado paralelo..." — Marina Pera [08:31]
"Mandou matar muitos juízes, muitos políticos, violência política muito alastrada..." — Marina Pera [09:19]
"Ela foi com um golpe mais claro e entregou a cabeça do Mencho numa bandeja de prata para o Trump..." — Marina Pera [14:28]
Precedentes históricos:
"É uma avalanche para a organização criminosa porque nesse caso não tinha uma sucessão..." — Marina Pera [16:30]
Desafio à governabilidade:
"Embora isso fortaleça o governo no primeiro momento, no segundo momento a gente tem que ver qual vai ser a capacidade do governo de fazer frente a essa onda de violência..." — Marina Pera [18:14]
"Estados Unidos proporcionou inteligência para localizá-lo... ele foi morto, ele não foi capturado com vida..." — Marina Pera [22:24]
Organizações criminosas brasileiras (PCC, Comando Vermelho) seguem modelo de diversificação e penetração estatal vistos no México, embora ainda atrasadas em sofisticação e violência.
"O que a gente tem visto no Brasil, principalmente do PCC, a diversificação das atividades econômicas e também a penetração... em governos municipais..." — Marina Pera [23:48]
O episódio serve de alerta sobre o futuro possível do crime organizado, caso haja impunidade e falta de resposta institucional efetiva.
"...é um prelúdio do que pode acontecer no Brasil... se o Brasil continuar por esse caminho." — Marina Pera [24:30]
Este episódio mergulha no universo do narcotráfico mexicano, contextualizando a morte de um dos maiores chefes do crime do século XXI, os bastidores políticos e as consequências explosivas para a segurança pública. Uma análise essencial para entender não só a dinâmica dos cartéis, mas também o risco de “mexicanização” do crime organizado no Brasil.