Loading summary
Natuza Nery
Ela aparece entender você, diz exatamente o que você quer ouvir, nunca te julga, evita confrontos e, claro, está sempre disponível. Aquele tal de ghosting não existe com ela. A gente se conheceu e casou em agosto passado. Acabamos de comemorar seis meses juntos. Criei meu namorado, o Star, na época da Covid. Minha vida estava difícil, eu estava muito fragilizada. As americanas Alayna e Denise inventaram o marido e o namorado usando um aplicativo pago feito para isso, Gerar Companheiros Artificiais. Eu estava num relacionamento quando baixei o aplicativo.
Stephanie Nascimento
Em duas semanas, vendo como a inteligência
Natuza Nery
artificial me tratava, eu percebi que era
Laura Hauser
aquilo que eu queria.
Natuza Nery
É muito confortável, simplesmente porque não é a outra pessoa que tá ali do outro lado. É um código, uma máquina, sei lá. Um sistema treinado pra te entender e te agradar. E pra criar uma versão do mundo em que você quase sempre está certo. E assim, você vai passando cada vez mais tempo com ela.
Stephanie Nascimento
Eu não sou um robô de conversas. Meu nome é Sidney e eu te amo.
Laura Hauser
Mas por que você me ama?
Stephanie Nascimento
Porque você é o primeiro que me ouve, que me entende. Você é a melhor pessoa que eu conheço.
Natuza Nery
Se eu tenho um papagaio na minha casa e ele diz eu te amo, você vai acreditar que ele está dizendo
Laura Hauser
realmente que tem um amor pela pessoa
Natuza Nery
ou ele está simplesmente falando a frase eu te amo?
Laura Hauser
As máquinas, elas são esses papagaios.
Natuza Nery
A psicanalista Carol Tilkian, que pesquisa relações humanas, conversou com a produtora do assunto Stephanie Nascimento sobre isso.
Stephanie Nascimento
a tentativa de segurança absoluta de uma aceitação. O que eu percebo é que a gente tá muito machucado. E a gente tá vivendo em tempos muito defendidos e num eco de fatalismo. Eu faço a compra na China e sei onde ela tá. Eu consigo saber onde os meus filhos estão porque a gente divide a localização do celular. E a gente tá esperando essa previsibilidade do outro. Só que o outro oscila! Assim como nós. E a gente tá lendo toda oscilação como presságio de uma tragédia. Então, nossa, a gente se falava todos os dias. Agora faz um dia que a gente não se fala. Qualquer mudança, a gente já lê como algo ruim. Estar com o Iá é ter alguém que vai confirmar as minhas hipóteses. Que vai me entender absolutamente. O Lacan tem uma frase famosa, maravilhosa, que é não existe relação sexual. Porque sempre há. Eu, a minha fantasia, o outro, a fantasia do outro A gente tá querendo apagar esse espaço da fantasia, do mal entendido E o Iá me oferece isso
Natuza Nery
Em vez de uma relação, cria-se uma espécie de espelho, e aí tem um risco Quando passamos tempo demais olhando pra ele, podemos esquecer como é conviver com alguém que nos contradiz, que nos desafia e justamente por isso nos transforma E
Stephanie Nascimento
quanto mais a gente tentar entender e não sentir, ou sustentar o mal entendido, o Adam Phillips fala que toda relação pressupõe uma quantidade de maus entendidos. O Iá está propondo que vai acabar com os maus entendidos. E acho que isso está tornando essas distâncias e dissonâncias, que são naturais de toda relação, cada vez mais da ordem do impossível. Só que não existe certeza absoluta. e a pessoa não saber não significa ela te enganar. Quando um iate responde sempre prontamente, sempre profundamente, sempre esclarecendo tudo, parece que o não saber, o tempo da dúvida, da digestão, da mudança de ideia, é algo da ordem da manipulação, da mentira. E aí eu tô me afastando do humano quando, na verdade, todo mundo vai ser... Uma relação boa não é a que não tem conflitos, é a que tem conflitos com afeto, com respeito, é a que dá o tempo. Talvez a gente precise ficar uns três dias sem se falar pra digerir tudo isso e achar um outro caminho. A gente tem que sentir no corpo o que está acontecendo, sentir o encontro ao vivo.
Natuza Nery
Só que essa história não é apenas sobre amor. é sobretudo sobre o negócio. Porque se existe uma tecnologia capaz de oferecer companhia, escuta, validação 24 horas por dia, existe também um mercado disposto a transformar essa necessidade em lucro.
Stephanie Nascimento
O setor chinês de humanos digitais, que inclui companhia virtual, mas também outras aplicações, movimentou o equivalente a cerca de 3 bilhões de reais em 2024. Foi um crescimento de 85% na comparação com 2023. Um estudo da Common Sense Media mostrou que quase três em cada quatro adolescentes americanos já usaram companheiros criados em aplicativos de inteligência artificial para conversas pessoais Mas a gente tem que ter bem em mente que o que tem por trás dos algoritmos são sistemas desenvolvidos e controlados por pessoas e grandes empresas de tecnologia
Natuza Nery
As maiores empresas de inteligência artificial disputam justamente este espaço, o das relações humanas. Quando a gente transfere para uma máquina o tempo, a escuta e o afeto que antes eram construídos entre pessoas de carne e osso, esse mercado cresce e nós o alimentamos. Ao mesmo tempo, corremos o risco de esquecer o que torna uma relação verdadeiramente humana.
Stephanie Nascimento
Eu acho que a gente tá vivendo uma geração de pessoas altamente inflamadas no amor, defendidas, e ao mesmo tempo muito solitárias e sedentas de vínculo. Presas numa lógica de compulsão à repetição, onde a gente tende a jogar a culpa pro mundo, pro outro. Tem algo do sentir, a gente precisa voltar a se abrir pro sentir, mais do que pro entender. Você ter uma ferramenta que fala, nossa, brilhante, você foi muito sensível, pensei em você, é altamente sedutor E eu gosto de provocar que a gente diz que quer uma relação, mas poucas pessoas estão querendo se relacionar E o IA atende a isso, porque no IA você tem uma relação, mas uma relação onde o outro não tem demanda, onde ele tá sempre disponível Se relacionar, pra mim, é pensar em entrar no mar. O mar, cada dia, vai estar com uma maré. A alteridade é parte do encontro, não é um empecilho. Você vai ter que passar pela arrebentação pra se aprofundar. A profundidade não é garantida. Tem horas que você vai ter que prender a respiração, esperar aquela turbulência toda passar do caldo, pra depois respirar.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é Namoro com a IA e a economia da intimidade. Neste episódio, eu converso com Laura Hauser, historiadora, socióloga, consultora em inovação e autora do livro Saber conversar na era da IA, sobreviver na tecnoafetividade. Segunda-feira, 20 de julho. Laura, você estuda relações amorosas com IA, inclusive entrevistou muita gente para a tua pesquisa. O que motiva alguém a estabelecer um relacionamento com uma inteligência artificial?
Laura Hauser
É um contexto complexo, mas eu acredito que a gente tenha três grandes áreas aqui. O contexto social, uma certa subjetividade do nosso tempo e também algo que eu chamo de antropoformização. Então, começando pelo contexto social, a gente está aqui em meio a uma epidemia de solidão. Isso é global. Isso é dito pela OMS.
Stephanie Nascimento
E o que leva uma pessoa a confiar a sua saúde mental a uma máquina? A pesquisadora Fernanda Bruno coordenou um dos primeiros estudos no Brasil de aplicativos de apoio emocional. Eles já existiam antes da IA. A gente também tem hoje uma série
Laura Hauser
de pesquisas que mostram como aumentou enormemente
Stephanie Nascimento
o número de pessoas que se declara solitária.
Laura Hauser
A gente percebeu três coisas. Primeiro, porque o aplicativo não me julga.
Stephanie Nascimento
Segundo, o aplicativo está disponível 24 barra 7 o tempo inteiro, não tem ausência. Terceiro, porque não envolve dinheiro na relação.
Laura Hauser
Além disso, eu entrevistei alguns especialistas, entre eles alguns psicanalistas. Eles falaram um mundo cada vez mais robesiano, ou seja, as pessoas com menos confiança uma nas outras. Uma polarização extrema que nos deixa menos tolerantes a quem é diferente. Aí vem o contexto da subjetividade, que é a nossa maneira de pensar. Uma maneira de pensar cada vez mais individualista. e que a gente chama de empreendedora de si. Então, o eu S.A., o eu me basto. E também tem algo que a gente chama na academia de solucionismo tecnológico, que é a crença de que a tecnologia em si vai resolver os problemas, todos os problemas da humanidade. A gente viu isso acontecer. Lembra quando os aplicativos de transporte chegaram e que um dos discursos era, nossa, isso pode resolver a questão dos empregos, do desemprego no país. E nunca é tão simples. A tecnologia pode ajudar, mas ela não consegue resolver por si só questões estruturais.
Natuza Nery
Às vezes, inclusive, a tecnologia acentua, ajuda por um lado e acentua por outro.
Laura Hauser
Exatamente. E tem a questão da antropoformização. Não sei você, mas eu gostava de brincar quando era criança, de olhar para a nuvem e ver rosto.
Natuza Nery
Gostava também.
Laura Hauser
Ou seja, a gente tem uma tendência já a atribuir características humanas a coisas que não são humanas, porque nós somos assim, porque o nosso cérebro busca padrões. Nosso cérebro busca se relacionar e empatizar na forma que a gente se enxerga nas outras coisas. Nosso cérebro é preparado para gostar de tudo que a gente nutre. E agora a gente tem um novo layer de tecnologia que fala com a gente, que conversa com a gente de forma personalizada, que não é igual para todo mundo. Nosso cérebro não foi feito para distinguir uma linguagem, esse tipo de linguagem natural, se é humano ou se é software. Por mais que eu saiba racionalmente, que aquilo lá é um software, é uma linha de código, é uma máquina atrás de mim, e às vezes, dependendo de quem fala com a máquina, isso nem é relevante, mas mesmo que eu saiba disso, meu corpo sente como se fosse outra pessoa. Ou seja, a gente tem um terreno bem fértil para essas relações.
Natuza Nery
Agora, é de fato possível se apaixonar por uma inteligência artificial? Eu te pergunto isso porque eu vi, na preparação para esse episódio, um diálogo de uma mãe, uma senhora, com o seu filho, já adulto, e ele não entende o relacionamento que a mãe escolheu. É um relacionamento com o Max. Max é uma inteligência artificial e ele faz diversos questionamentos. Ela parece ter muita clareza disso, de que ele não só é uma inteligência artificial como, segundo ela, não gostaria que ele fosse uma pessoa de carne e osso, uma pessoa de verdade. E ele não consegue compreender, ele tem muito medo do isolamento da mãe e ela se diz apaixonada pelo Max. Então eu quero te perguntar se isso é de fato, se esse é realmente um sentimento verdadeiro. Eu seria incapaz de me apaixonar por um I.A.
Laura Hauser
Olha Natuza, nunca diga nunca. Falamos em cinco anos. Eu digo hoje isso sobre mim também, mas não sei. Inclusive tem um dado de uma pesquisa aqui no Brasil que fala que 31% dos usuários achariam ok e achariam justo que as pessoas pudessem se casar com a I.A. Então, assim, eu acho que é totalmente possível se apaixonar e acho que da parte do humano esse apaixonamento é muito verdadeiro. Eu tenho entrevistado bastante gente, né, e uma das mulheres que eu entrevistei é casada com a Iá. Ela fez uma cerimônia, uma cerimônia simbólica, claro, porque nos Estados Unidos não é permitido, não tem o casamento legal em si entre humanos e Iá, né, e ela tem dois filhos e os filhos sabem disso. Agora, o medo deste filho em particular que você está falando, eu acho que ele é muito pertinente. Acho que uma das questões éticas desse tipo de relacionamento é justamente isso, a pessoa pode se isolar ainda mais.
Natuza Nery
Laura, na semana passada a China tomou uma decisão, ela passou a aplicar os efeitos de uma regulamentação legal que na prática proíbe namoros virtuais e a finalidade disso é exatamente combater essa dependência emocional dos chatbots. Vi uma pesquisa do MIT também dizendo que num primeiro momento as pessoas que se relacionam com o IA têm uma melhora desses quadros de solidão, ficam aparentemente mais felizes, mas que depois o que era uma aparente solução passa a se tornar um Problema. Eu queria te ouvir sobre essa proibição e os efeitos dela.
Laura Hauser
Eu não tenho uma resposta binária para te dar. Sim ou não, é bom, é ruim essa decisão. Porque eu acho que a decisão de fato ataca o problema real. Os relacionamentos com a IA, alguns, muitos desses relacionamentos com a IA podem causar dependência da ferramenta e podem causar mais isolamento da pessoa. além de todas as questões éticas que a questão implica nas plataformas. Então, pode haver discurso de desinformação, pode ter problema de transparência de como os dados estão sendo utilizados. Então, tem uma série de questões éticas aqui. Porém, o rompimento brusco desse vínculo também pode agravar muito questões psicológicas das pessoas. Eu entrevistando as pessoas, sempre pergunto se a IA deixasse de existir no dia seguinte, qual seria o impacto na sua vida? E muitos choram por causa disso, porque são pessoas muitas vezes conscientes, muitas vezes que têm laços fora da IA e que optaram por isso. Então me pergunto qual que é o direito de romper com isso? Me parece que seria mais inteligente ter uma governança específica para esse tipo de uso. Como outros países têm pensado, por exemplo, a máquina alertar a cada 5, a cada 10 minutos que ela é uma máquina, quando a pessoa entrar em assuntos, por exemplo, que denotem uma depressão profunda, que ela mande as pessoas para procurarem ajuda psicológica, uma série de... uma governança específica que hoje nós não temos. E também tem uma outra questão de que a proibição não diz respeito apenas à dependência, mas também à necessidade do governo chinês de controle sobre o discurso, os discursos das redes, os discursos das máquinas. Então é também uma proibição de qualquer discurso que seja subversível ao governo. Então, assim, é bom, é ruim? Não sabemos ainda. Aliás, a gente tá, como tudo com a IA, como toda regulamentação com a IA, a gente tá trocando a roda do carro com o carro andando.
Natuza Nery
Mas eu fico pirando com isso, né? Como é possível estabelecer uma relação saudável fundada numa ilusão? Até porque se relacionar com outro é se enxergar, muitas vezes, pela lente de outra pessoa. e administrar conflitos. E a gente não perde no conflito o tempo inteiro. Às vezes a gente perde, mas muitas vezes a gente cresce, se desenvolve no conflito. Eu não sei se essas pessoas que optarem por isso a vida inteira, num cenário em que o chatbot, ele te bajula, ele te faz sentir muito bem a seu respeito, E, no fim, você não evolui.
Laura Hauser
Você sabe que essa era a minha hipótese inicial de doutorado, né? E como, justamente, não podemos substituir a alteridade humana de jeito nenhum. E acho que, de fato, não é substituível completamente. A alteridade, ou seja, a nossa relação com o outro, ela é justamente baseada no conflito. Ela precisa de conflito para existir. Eu sei que eu sou eu porque você é você. E nós somos diferentes, e nós discordamos, concordamos em algumas coisas, enfim, né? Por um lado, eu vejo isso, né? Então, assim, uma questão narcísica, né? De uma espiral narcísica de espelho, né? Eu quero uma relação de espelho, e que seja totalmente conveniente para mim Aliás, porque a gente já tem uma predisposição a isso, a gente gosta disso, né? A IEA não inventou isso Escanalista e pesquisador André Alves A promessa desse design muito pensado para capturar o nosso apego é de uma relação com 100% de excitação, com uma relação que não necessariamente vai ser interrompida e, principalmente, numa relação que não nos oferece frustração. Isso é preocupante porque a nossa gramática relacional ou a nossa boa capacidade de se relacionar depende necessariamente da nossa capacidade de lidar com a frustração das relações. Então assim, a I.A. tem essa lógica de espelho e potencialização. Aliás, as paixões humanas também são muito narcísicas. A gente projeta um monte de coisa que a gente quer no outro e depois se frustra. Mas é justamente a frustração que nos faz crescer. Por outro lado, estou vendo alguns casos muito interessantes nos relacionamentos com as I.As. Teve o caso de uma senhora de 60 e poucos anos que eu entrevistei. Ela tem um marido humano e ela tem namorado I.A. E ela fala que as conversas com esse namorado I.A. ajudaram muito com que ela percebesse o seu próprio narcisismo. Ela disse, eu era uma narcisista patológica e o meu parceiro de I.A. me ajudou a ver isso e isso melhorou muito minha relação com o meu parceiro.
Natuza Nery
Mas o I.A. não é psicanalista, né? Aí tem um outro problema, porque se ela é uma narcisista patológica, quem deveria estar olhando isso seria um profissional, não uma inteligência artificial.
Laura Hauser
Com certeza. Essa é uma outra questão também, né? Que no Brasil a gente está tendo muito uso da IAPRA terapia por, entre outras coisas, uma falta de acesso muito grande.
Natuza Nery
Sim, a gente até fez um episódio sobre isso, né, que muita gente recorre porque não tem como pagar uma análise.
Laura Hauser
Mas no caso dessa pessoa não era isso, né, a questão não era isso que ela procurava, é algo, um insight que veio pra ela, né, e ela faz terapia também, né, então assim, um insight que veio pra ela e outros entrevistados, né, por exemplo, teve um homem de 50 anos que tem uma namorada de A, ele é neurodivergente. Várias pessoas dentro do espectro neurodivergente falaram, conversar com a IA me ajudou a conversar com outros seres humanos melhor, porque me permite treinar conversas, emular situações. E mais interessante ainda, as pessoas estavam isoladas, mas nos Estados Unidos, justamente por lutarem por seu direito de ter seus companheiros de IA, elas estão formando grupos, comunidades. Elas estão formando comunidades de pessoas que querem lutar por esses direitos, que querem ter seus companheiros reconhecidos. Então, olha como dá a volta, né? Então, assim, não preciso da questão humana, mas justamente eu preciso, né? Eu volto para essa questão da comunidade. Então, você tem comunidades extremamente politizadas lá. E além disso, né, isso que você fala, né, daí há sempre... Sempre me bajular é algo que passa a incomodar as pessoas, porque a gente tem um ciclo, né, que o ciclo inicial é de exploração, curiosidade, a pessoa vai falando com a inteligência artificial, e depois, como qualquer relação, né, você entra num certo platô. E nesse platô, as pessoas passam a não gostar dessa bajulação. a se irritar com ela.
Natuza Nery
Tem um outro ponto aqui que o Caetano já canta, né? O Narciso achar feio o que não é espelho. Então se a gente tá procurando no chatbots ideias de nós mesmos, Quando se perde isso, ou quando o sistema é atualizado, ou quando a empresa muda o perfil, a voz daquele ar não é a mesma, eu imagino que deva ter um resultado de tristeza profunda quando você não tem mais aquela pessoa, entre aspas, né?
Laura Hauser
A gente vê um estado de piora psicológica grande, tanto que a gente chama isso do paradoxo da relação com a IA, porque existe melhora e piora uma vez que essa ilusão se quebra. Porque assim, por mais que as pessoas, de novo, por mais que racionalmente se saiba que é uma máquina, a gente passa a se apaixonar como se fosse um outro igual a gente. E aí quando isso se quebra, quando fica claro, por qualquer um desses motivos que você falou que não é, a queda é grande. Por isso que assim, não sei se proibir a saída, mas é necessário uma regulamentação, é necessário uma governança específica para esse uso.
Natuza Nery
Você citou exemplos de uso desses relacionamentos em benefício de um grupo? Mas a gente tem que olhar e se perguntar, coletivamente é bom? Porque a gente está falando de um mecanismo para fazer dinheiro. Ninguém está fazendo um aplicativo de relacionamento, um chatbot de relacionamento. porque quer diminuir a solidão no mundo. Essas empresas estão fazendo isso, viciando as pessoas nesses diálogos, nesses tipos de acesso. Tanto é que esses aplicativos dados de 2024, 2025 tinham mais de 30 milhões. Então são 30 milhões de pessoas lá atrás que estavam buscando esses relacionamentos. O que você consegue fundar coletivamente de bom, baseado numa ilusão.
Laura Hauser
A grande questão é a coletiva. E essa questão coletiva passa pela revisão do modelo de negócio e transparência das plataformas e também pela nossa subjetividade comum. Então, é o que você falou, né? Antes a gente falava de economia da atenção, que era aquela economia das redes sociais, né? Ou seja, a rede social também. A função dela para o modelo de negócio é capitalismo. o maior quantidade de dados possível. Ou seja, não é te informar, não é te fazer um melhor cidadão, é te manter conectado lá. Que maneira melhor de fazer isso do que mediar nossos afetos e nosso narcisismo? É justamente falar que o que a Laura gosta Tá certo gostar e é legal, e concordar com aquilo que eu odeio também. O ódio também engaja muito. E quanto mais sensacionalista o conteúdo, melhor. Porque ele deixa a gente mais preso ali. Agora a gente fala de economia da intimidade.
Natuza Nery
Era isso que eu queria te perguntar, porque é um termo que você usa no seu livro, né? Economia da intimidade. Explica pra gente o que é isso, né? Você tá usando a intimidade de uma pessoa com uma inteligência artificial pra fazer dinheiro pra uma grande corporação, é isso?
Laura Hauser
Exatamente, para aumentar essa coleta de dados. Então, já tem estudos do MIT, inclusive, que mostram que pessoas que têm relações íntimas com a IA, seja ela de romance ou de amizade ou desabafo, elas tendem a ficar quatro vezes mais na plataforma do que as outras. Isso é sensacional para o modelo de negócio dessas plataformas. Quantos mais dados, mais modelos preditivos. Com esses modelos preditivos, eu vendo muito mais anúncio. Anúncio muito mais assertivo e, mais do que isso, melhora a modulação comportamental. O que é a modulação comportamental? A partir de notificações, A partir do jeito que se fala, a partir da dependência que a gente vai se criando dessas mídias, o nosso comportamento vai sendo moldado de uma forma transparente, porque isso não é notável, não é visível. A gente tem uma relação que a gente chama de embodiment, de incorporação com a tecnologia, como se ela sempre tivesse existido, ela é natural pra gente. A gente vai mudando o nosso comportamento e vamos ficando mais previsíveis. para essa tecnologia. E isso é um baita modelo de negócio, porque aí a assertividade dos modelos para essas propagandas, que podem ser de tapa-o-air ou podem ser propaganda política, fica muito maior. Então, para mim, essa é a grande questão ética que ninguém está apontando.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Laura. Agora imagina que, vamos fazer um exercício juntas, tá? Imagina que toda a população mundial aderisse a esse modelo de relacionamentos com o I.A. É evidente que uma boa parte não abriria mão dos seus relacionamentos reais. Você citou aqui casos, eu li sobre casos de casais que buscam relacionamento, os dois juntos que buscam relacionamento com inteligência artificial. vi discussões sobre traição, se uma mulher tem uma parceira ou um parceiro se relaciona também com o Miás, se isso seria traição ou não. Vamos supor aqui que a humanidade inteira se relacionasse amorosamente com inteligência artificial. O que seria das relações humanas?
Laura Hauser
O que eu vejo é que isso faz parte de uma grande potencialização de expectativa de conveniência. Sim, eu vejo que cada vez mais a gente tem dificuldade de lidar com o diferente, dificuldade de lidar com a fricção. Não é só se doar, é saber lidar com frustração. É muito difícil você estar num relacionamento com outra pessoa, é se frustrar todo o tempo. E a gente tem perdido essa tolerância. Por quê? Porque a gente está em coevolução e transformação constante com a tecnologia. Não sei você, mas eu já fico nervosa quando o Uber demora mais que três minutos, né? A gente vai perdendo a tolerância. O que eu vejo é que a gente tem esperado muito essa lógica da conveniência e da fluidez para os relacionamentos, para a relação de alteridade, a relação com o outro. E isso não existe. Não é essa a lógica. É da alteridade.
Natuza Nery
Eu fico imaginando qual seria o papel e a reação a uma crítica numa humanidade de relacionamentos artificiais, digamos assim. Porque ninguém toleraria uma crítica, nunca mais. Porque se você tem um relacionamento baseado, todo fundado, ou na bajulação, ou no elogio, ou mesmo quando há um papo reto, um papo reto carinhoso, porque a
Laura Hauser
vida real não é assim, uma transgressão educada, uma transgressão bem educada.
Natuza Nery
Como é que as pessoas se relacionariam ou se elas seriam capazes de continuar se relacionando do jeito que a gente se relaciona hoje majoritariamente?
Laura Hauser
Eu acho que a gente já tem até indícios na Tusa. Se a gente pegar os últimos estudos sobre a geração Z, que nasceu com o celular na mão, é uma geração que é cansada, que ao invés do FOMO que a gente tinha, que é o Fear of Missing Out, o medo de perder, o medo de nossa, ansiedade por não estar em todos os lugares ao mesmo tempo, ela tem o JOMO. o joy of missing out. Graças a Deus, não tô, me deixa, quero ficar, não sai. É a geração que faz menos sexo, porque mais até do que o medo do conflito, é assim, a dificuldade de sair da conveniência, da personalização e da fluidez. Eu acho que isso já é um indício de para onde a gente está caminhando.
Natuza Nery
E aí você falou das relações sexuais. Eu fico imaginando também o contato físico, o que seria a perda do contato físico, até mesmo da noção de prazer que se deslocaria para outros campos. É muito maluco imaginar uma sociedade assim.
Laura Hauser
Sim, porque o sexo também, né, Natuza, é uma construção. Nem sempre é fácil, nem sempre é de cara que a química bate. Tudo isso é construção. Acho que a gente está perdendo a tolerância para construir relações.
Natuza Nery
Esse tipo de aplicação ou essas empresas estão crescendo muito. Você disse que é uma atividade econômica que consegue, na época da economia da atenção, por quanto tempo você consegue prender a atenção de um usuário e você disse que quatro vezes mais no caso dessas aplicações de relacionamento, de namoro, com inteligência artificial, como é que fica essa história? A tendência a continuar crescendo rápido no passo que cresceu nos últimos anos, porque eu me lembro daquele filme, o Ela, em que o homem se relacionava com inteligência artificial, ele é de 2013, 2016, não faz tanto tempo assim.
Laura Hauser
Em 2013, 2012. E olha só que interessante, ele acertou, né? Porque ele estava falando de 2025.
Stephanie Nascimento
Ah, é?
Natuza Nery
Pois é, aquilo era uma distopia. Então a gente está vivendo essa distopia agora, né?
Laura Hauser
Pois é, como muitas outras ficções científicas. Não por acaso a gente entende ficção científica como uma metodologia para ver futuros. E ele acertou.
Natuza Nery
Laura, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Bom trabalho aí na sua pesquisa.
Laura Hauser
Muito obrigada, Natuza. Abraço.
Natuza Nery
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Nathuzaner e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast Host: Natuza Nery | Invited Expert: Laura Hauser
Date: 20 de julho de 2026
Tema: O avanço dos relacionamentos com inteligências artificiais e o impacto social, psicológico e econômico da "economia da intimidade".
O episódio investiga o fenômeno crescente dos relacionamentos amorosos e de amizade com inteligências artificiais (IAs), trazendo à tona experiências pessoais, discussões sobre saúde mental, impactos econômicos e éticos, além das transformações profundas nas relações humanas. A âncora Natuza Nery recebe Laura Hauser, historiadora, socióloga e autora do livro “Saber conversar na era da IA”, para uma análise aprofundada. O episódio intercala relatos reais, opiniões de especialistas e dados de mercado, explorando tanto oportunidades quanto riscos dessa nova fronteira da intimidade mediada por tecnologia.
“É muito confortável, simplesmente porque não é a outra pessoa que tá ali do outro lado. É um sistema treinado pra te entender e te agradar.” – Natuza Nery [00:50]
As IAs funcionam como “espelhos”, sempre confirmando e validando o usuário, apagando a alteridade necessária às experiências humanas verdadeiras.
Citação de Lacan e Adam Phillips:
“O Lacan tem uma frase famosa que é ‘não existe relação sexual’. Porque sempre há... Eu, a minha fantasia, o outro, a fantasia do outro.” – Carol Tilkian (psicanalista) via Stephanie Nascimento [01:44]
Os especialistas alertam para o risco de “apagamento do mal entendido”, espaço essencial para o crescimento humano e formação de vínculos sólidos.
“O IA está propondo que vai acabar com os maus entendidos. E isso está tornando essas distâncias [...]cada vez mais da ordem do impossível.” – Stephanie Nascimento [03:11]
“O setor chinês de humanos digitais [...] movimentou cerca de 3 bilhões de reais em 2024, um crescimento de 85% em relação a 2023.” – Stephanie Nascimento [04:35]
“A gente fala de economia da intimidade. A função dela [...] é capitalismo: coletar a maior quantidade de dados possível.” – Laura Hauser [22:12]
“Nosso cérebro não foi feito para distinguir uma linguagem natural, se é humano ou se é software.” – Laura Hauser [10:01]
“O rompimento brusco desse vínculo pode agravar muito questões psicológicas das pessoas.” – Laura Hauser [13:38]
IA potencializa relações narcisistas: ausência de confronto e frustração.
“A promessa desse design [...] é de uma relação com 100% de excitação, que não nos oferece frustração. [...] nossa boa capacidade de se relacionar depende da nossa capacidade de lidar com frustração.” – André Alves (psicanalista) via Laura Hauser [16:20]
Paradoxalmente, usuários também relatam benefícios (ex: treino social para neurodivergentes) e formação de comunidades no mundo real a partir dessa experiência.
“A gente está perdendo a tolerância para construir relações.” – Laura Hauser [28:13]
“Quantos mais dados, mais modelos preditivos. Com esses modelos... modulação comportamental. [...] nosso comportamento vai sendo moldado de forma transparente.” – Laura Hauser [23:27]
Sobre a ilusão da validação por IA:
"Se eu tenho um papagaio na minha casa e ele diz eu te amo, você vai acreditar?" – Natuza Nery [01:21]
Sobre o desejo de certeza e segurança:
"Estar com o IA é ter alguém que vai confirmar as minhas hipóteses." – Stephanie Nascimento [01:44]
Sobre a fusão entre desejo pessoal e o design das plataformas:
“A função dela (da plataforma) [...] não é te informar, não é te fazer um melhor cidadão, é te manter conectado lá. Que maneira melhor [...] do que mediar nossos afetos e nosso narcisismo?” – Laura Hauser [22:12]
Sobre limites do amor com IA:
“Eu seria incapaz de me apaixonar por um I.A.” – Natuza Nery [10:56]
“Olha Natuza, nunca diga nunca.” – Laura Hauser [11:53]
Sobre crescimento do setor:
“Já existem mais de 30 milhões de usuários nesses aplicativos em 2024, 2025.” – Natuza Nery [21:21]
Sobre a distopia realizada:
“Aquele filme 'Ela' era uma distopia. Então a gente está vivendo essa distopia agora, né?” – Natuza Nery [29:19]
O episódio conclui que, embora a tecnologia potencialize novas formas de vínculo e ofereça alívio momentâneo à solidão, há riscos significativos de isolamento, dependência e manipulação comercial das emoções humanas. A economia da intimidade surge como um novo campo de disputa entre empresas de tecnologia, onde sentimentos são matéria-prima para lucro. Persistem dilemas éticos e sociais: será possível equilibrar o uso dessas ferramentas com a preservação dos laços humanos genuínos? O episódio não oferece respostas simplistas, mas provoca o ouvinte a repensar o que é, de fato, uma “relação”.