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Este é o nosso hemisfério. Esta foi a frase estampada em uma publicação do Departamento de Estado junto a uma foto em preto e branco de Donald Trump. Só uma palavra estava colorida, um vermelho vibrante, o pronome possessivo nosso. Este é o nosso hemisfério e o presidente Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada. Uma frase que não é só retórica, mas um resumo de como o mundo volta a se organizar. Um mundo em que as grandes potências têm as suas áreas de influência, ou, em linguajar imperialista, seus quintais. Imagine um mapa-mundo aberto na sua frente. Um mapa em que as fronteiras não são linhas finas, mas sim manchas de poder. Nesse tabuleiro, os Estados Unidos cobrem toda a América, da Patagônia a Groenlândia. Do outro, a Rússia, que avança pelo leste europeu e Ásia Central sobre todo o território que um dia foi a União Soviética. Já a China se espalha pelo leste e sudeste asiático e estica as mãos até Taiwan. Nesse novo mapa de poder, a Europa parece menor do que já foi. A história já viu esse filme. Vamos voltar ao século XIX, no chamado Concerto Europeu. Depois das guerras napoleônicas, sob a justificativa de manter a paz, países da Europa criaram um sistema diplomático. Nesse arranjo, as grandes potências definiam até onde cada um podia ir. Eram domínios monárquicos, em que cada coroa tinha o seu reino, entre aspas. Aconteceu também na Guerra Fria, entre o fim da Segunda Guerra até o início da década de 90. Nesse período, a divisão entre dois blocos era bastante clara e definida. De um lado, os capitalistas. Do outro, os comunistas. Mas agora, em um mundo mais conectado, com fronteiras menos rígidas, a pergunta muda. O que define quem é que fica na esfera de influência de quem? É uma questão de geografia? De poder econômico? ou de força militar? Ou seria tudo isso junto? Da redação do G1, eu sou Nato Zaneri e o assunto hoje é o neoimperialismo e o mundo em revisão. Meu convidado é Guilherme Casarões, cientista político e professor da Florida International University. Quinta-feira, 8 de janeiro. Casarões, em dezembro de 2025, os Estados Unidos divulgaram o que eles chamam de Estratégia Nacional de Segurança. E aí vem um paradoxo. O governo americano afirmando que não pretende intervir em outros países, mas dizendo que é preciso alcançar a paz por meio da demonstração de força. Eu quero te pedir para nos explicar brevemente o que é esse documento e como ele ajuda a entender tudo o que está acontecendo nos últimos tempos.
B
Natuza, a cada mandato presidencial nos Estados Unidos é esperado que o presidente e a Casa Branca lancem uma estratégia nacional de segurança, estratégia de segurança nacional, que é um documento que sintetiza as grandes prioridades estratégicas globais dos Estados Unidos, falando de quem são os inimigos, de quais são as prioridades estratégicas, de quais serão as estratégias mesmo que cada governo vai utilizar para poder manter o poder global dos Estados Unidos intacto. E, geralmente, no fim do primeiro ano de mandato, a gente costuma ver esse documento. No caso do último documento que foi lançado no final de novembro de 2025, a gente tem algumas diferenças cruciais com relação aos documentos anteriores, inclusive aquele que foi publicado pelo próprio governo Trump no seu primeiro mandato em 2017. Curiosamente, Natuza, a expressão a passo pela força já tinha sido utilizada pelo Trump no primeiro mandato, então quase uma década atrás isso já estava lá no documento. A grande novidade que esse novo documento traz é o reconhecimento de um mundo dividido por grandes potências. E aqui, eu costumo dizer que a gente está de volta, de alguma maneira, à geopolítica do século XIX, porque lá no século XIX foi quando as grandes potências europeias partilharam o mundo de acordo com seus interesses. E é esta visão, que o Trump traz para esse novo documento, segundo o qual existe a esfera de influência norte-americana por um lado, mas existem outras potências que também vão poder perseguir a conquista de espaços naturais da sua influência geopolítica, e aí eu noto de maneira muito específica a Rússia e a China. Qual é a grande quebra que a gente tem com relação ao passado? Por décadas, por praticamente oito décadas, os Estados Unidos pleitearam uma espécie de hegemonia global, ou seja, os Estados Unidos tinham ali um interesse muito claramente de administrar a política mundial, de se envolver em regiões remotas, em termos geográficos americanos, como a Ásia, como o Oriente Médio, e pela primeira vez que a gente vê uma administração na Casa Branca que vai dizer, olha, meu interesse é menos aquilo que está distante de mim, e meu interesse está mais ligado àquela que é a minha esfera direta de influência, que são as Américas e o hemisfério ocidental como um todo. Então, esse documento traz essa inovação do reconhecimento da disputa de grandes potências, trata Rússia e China não mais como rivais, mas como países iguais que, de alguma maneira, vão dividir esse mundo de acordo com seus interesses. E o foco nas Américas, em particular, também chama atenção porque a gente está falando do primeiro governo americano, pelo menos em quase um século, que prioriza as Américas, o hemisfério americano, como, vamos dizer, centralidade absoluta da estratégia de política externa dos Estados Unidos.
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Tinha pistas disso durante a campanha ou mesmo nos meses iniciais do governo Trump?
B
Eu diria que sim, porque desde a campanha de 2024, o Trump vem dizendo de maneira muito clara que os Estados Unidos têm que abandonar suas pretensões globais do ponto de vista militar. Não é tão diferente daquilo que o Trump fez na sua primeira passagem pela Casa Branca. mas em que ele teve uma postura sobretudo isolacionista, ou seja, num primeiro momento ele não queria se envolver em conflitos em outros lugares do mundo. Nesse caso, agora em particular, de 2025 pra frente, o que a gente observa não é o isolacionismo norte-americano como foi o discurso do passado, mas é uma ênfase nas intervenções dentro do espaço natural, digamos assim, de influência dos Estados Unidos.
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A estratégia faz, segundo a Casa Branca, uma correção de rumos.
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Um documento que tem como horizonte a ascensão da China, mas que no meio do caminho aponta a América Latina como região prioritária para os Estados Unidos numa retomada da doutrina Monroe.
B
A estratégia de segurança nacional de Trump é uma cisão, é uma ruptura com toda a tradição de política externa dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, a gente tem o resgate nesse discurso do Trump da ideia que pra gente sempre foi muito incômoda, de quintal dos Estados Unidos. Pensar as Américas, e sobretudo a América Latina, como um quintal onde os americanos poderiam intervir de acordo com o seu bel prazer. Então, essa é uma questão que aparece já desde a campanha de 2024. O Trump fazia piadas que a gente às vezes não sabe se tem que tomar a sério ou se tem que, de alguma forma, ignorar, mas ele fazia piadas com a anexação da Groenlândia já desde a campanha de 2024, ele fazia piada com o Canadá, sendo chamado de 51º estado norte-americano, que irritou muitos europeus e os canadenses, ele já falava de uma tentativa de retomar o canal do Panamá, então esses elementos da campanha que foram se materializando desde os primeiros passos da administração com a nomeação inclusive do Marco Rubio como secretário de Estado, que é um político republicano com uma vasta experiência na América Latina, filho de imigrantes cubanos, ou seja, toda essa soma de elementos que vinham desde 2024 apontavam para essa prioridade das Américas como o centro da política externa norte-americana a ponto de grandes jornais como o Financial Times terem brincado com a expressão de que a política externa do Trump não seria América em primeiro lugar, mas sim Américas em primeiro lugar. Isso, para países da América do Sul ou da América Latina, representa um elemento tanto de preocupação, porque afinal de contas a gente tem visto esse interesse intervencionista do governo americano se projetar sobre a América do Sul, Mas um elemento também de oportunidade que a América Latina já não tem há muito tempo, que é a possibilidade de, diante de uma ameaça externa ou diante de uma pressão vindo de fora, haver algum tipo de coordenação, de cooperação, de integração regional mais intensa. Pelo menos até aqui, infelizmente, a gente não está vendo isso, mas houve sinais desde o começo do governo Trump de que México, Brasil, Colômbia, Chile teriam aí um motivo para poder juntar forças, para poder combater qualquer tipo de intervenção que por ventura viesse por parte dos Estados.
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Unidos Interessante essa leitura, né, de potencialmente haver uma oportunidade de maior interação, se não integração entre essas nações sul-americanas. Eu queria... abordar um pouco mais essa história do hemisfério. A gente abriu o episódio com a frase, este é o nosso hemisfério, e não foi à toa que o Departamento de Estado publicou nas redes sociais essa expressão ao lado da imagem de Trump. Marco Rubio foi na mesma linha, inclusive. Como é que essa expressão dialoga com o que aconteceu na Venezuela no último sábado?
B
O Trump se alegeu com uma retórica de acabar com Gertz. Ele repetiu diversas vezes ao longo desse primeiro ano de mandato. que ele teria sido o presidente que, com mais guerras, acabou em tão pouco tempo. Ele falava em seis ou sete guerras, quase em 45 minutos, dentro do seu discurso. Na ONU ele falou isso também.
A
Eu terminei sete guerras, sem presidente ou.
B
Primeiro-Ministro, e, por isso, nenhum outro país.
A
Já fez nada perto disso.
B
E, de fato, a base mais conservadora, mais ideológica do Trump, que é o chamado movimento Make America Great Again ou MAGA, sempre bancou essa postura não só isolacionista, mas também pacifista. O presidente que acabava com guerras e não fomentava guerras, como foi a trajetória de décadas dos Estados Unidos, intervindo em países muito distantes, como, por exemplo, no Oriente Médio. Então, o Trump, ele chega com essa retórica, mas, ao mesmo tempo, abre espaço para possíveis intervenções nas Américas e, sobretudo, na América Latina, mas, claro, falou de anexação da Greenland, inclusive tem voltado com esse assunto recentemente, brincou com a história do Canadá, mas, no caso específico da América Latina, o que eu chamo atenção aqui é que essa mesma base que rejeita guerras que, de alguma forma, preferia uma política externa isolacionista, é também uma base que é muito mobilizada por duas questões internas que o Trump tem tentado articular, que são, número um, a questão do narcotráfico, e número dois, a questão da migração. A gente poderia até colocar um terceiro elemento, que é o anticomunismo, que é um discurso que, aqui, por exemplo, onde eu estou, na Flórida, é muito forte, justamente pela comunidade cubana e venezuelana, que fugiram dos seus regimes de esquerda, mas vamos focar em narcotráfico e imigração. No caso venezuelano, a gente observou de maneira muito clara que a retórica do governo Trump, que culminou na ação contra a Venezuela e na captura do Nicolás Maduro, ela começa no Mar do Caribe com aqueles bombardeios a embarcações que, alegadamente, estariam traficando drogas para os Estados Unidos. Então, esse vínculo que foi construído entre narcotráfico e Venezuela é um vínculo que abriu caminho para que o Trump pudesse fazer bombardeios a essas embarcações ao longo de meses, que foram muito criticadas tanto pelo Congresso americano, pelo Partido Democrata, também criticados por uma série de especialistas em direito internacional que consideraram esses bombardeios ilegais perante a legislação internacional e que de fato foram. Então, esse vínculo com o narcotráfico dá alguma legitimidade pro combate ao narcotráfico extraterritorial, e a vinculação da Venezuela como se o Maduro fosse chefe de um grande cartel, essa tese foi já derrubada por muitos especialistas no assunto, mas basicamente essa ideia de que ele seria chefe do chamado Cartel de Los Soles, ela foi o que justificou a sua captura na semana passada.
C
Veio a público um recuo do governo americano no teor das acusações contra Nicolás Maduro. Segundo a análise do jornal The New York Times, o Departamento de Justiça reescreveu esse documento. O venezuelano continua respondendo por quatro crimes ligados a narcoterrorismo, mas os termos da acusação foram bastante amenizados. Antes, Maduro era acusado de ser o chefe de uma organização terrorista narcotraficante. Agora, o texto diz que ele é acusado de participar, proteger e perpetuar uma cultura de corrupção e de enriquecimento a partir do tráfico de drogas.
B
E, ao mesmo tempo, a questão migratória também é fundamental porque, de alguma maneira, uma das peças mais importantes da relação do Trump com a região é justamente impedir o fluxo de imigrantes para dentro dos Estados Unidos e, eventualmente, deportar imigrantes em situação ilegal dos Estados Unidos de volta para estes países e, quando não é possível deportar de volta para os países, mandam para El Salvador, por exemplo, um país com quem o Trump estabeleceu uma relação muito forte. Então, o que indica essa nova inflexão do Trump para a América Latina em particular tem a ver com geopolítica, tem a ver com, de alguma forma, constranger os recursos chineses na região, tem a ver com retomar uma influência norte-americana sobre a região do ponto de vista econômico, que é uma coisa que o próprio documento da Estratégia de Segurança Nacional também traz, mas é sobretudo essa junção de política externa e política interna. As questões internas também têm um peso muito grande para a gente entender como que os Estados Unidos têm se portado frente, por exemplo, a Venezuela.
A
Bom, quero bater então na tecla da China. Ao longo das últimas décadas, a gente viu crescer a influência da China aqui na nossa região. Como é que fica isso agora? Por exemplo, a China tem muitos investimentos no Brasil. Você vê um cenário de, em algum momento, Trump querer entrar com uma política, ou nós, ou eles, por exemplo?
B
Ele já fez isso no passado, né? Se a gente recuperar a relação do Trump com o Bolsonaro, ela foi tensionada durante um tempo ali, pelos idos de 2019, começo de 2020, justamente porque o governo americano, era o Trump o presidente dos Estados Unidos, não queria que o Brasil autorizasse a Huawei, a empresa chinesa Huawei, em participar do leilão do 5G no Brasil. Então, em alguns momentos, e principalmente no auge da chamada guerra comercial e tecnológica dos Estados Unidos com a China, a gente viu os Estados Unidos colocando essa escolha difícil entre dois países que, no caso do Brasil, são sempre muito centrais do ponto de vista comercial, do ponto de vista estratégico e geopolítico também. A gente não tem visto, nesse momento, uma dinâmica exatamente semelhante com aquela que a gente viu no primeiro mandato do Trump, seja com relação ao Brasil, seja com relação a outros países da região. O Trump tem optado por uma outra estratégia que está ligada a tarifas, a sobretarifas, em alguns casos. A gente mesmo viveu isso ao longo de alguns meses no ano passado. Essa estratégia está ligada também a ameaças militares pontuais, está ligada a uma renovação de alguns investimentos norte-americanos na região, sobretudo aqueles que dizem respeito a recursos estratégicos, a minerais estratégicos e a petróleo na América Latina. Então, a gente não vê uma retórica de confrontação direta com a China, porque o Trump de alguma forma reconhece que a China tem também direito ao seu espaço de influência geopolítico, mas a gente vê uma tentativa de abraçar a América Latina como uma região que é muito rica em recursos, é muito rica em minerais, em petróleo, em potencial agrícola, por exemplo, mas que esses recursos devem ir diretamente para os Estados Unidos de maneira mais específica. Uma coisa a respeito da China que é importante a gente destacar é que 25 anos atrás, ou 26 anos atrás, no ano de 2000, Os Estados Unidos eram o principal parceiro comercial de virtualmente todos os países da América Latina, Brasil incluso. 25 anos depois, a China é a principal parceira comercial de praticamente todos esses países que tinham essa relação especial com os Estados Unidos. Então, a sensação americana com relação à presença chinesa aqui, ela é menos de ordem militar, Ela é menos jovem estratégica, ainda que no caso de Venezuela, no caso de Cuba, de Nicarágua, talvez isso tenha algum peso, no cálculo, Panamá também, mas essa abordagem é sobretudo com relação à presença econômica chinesa.
A
Me ocorreu agora de te perguntar se neoimperialismo é uma expressão que cabe nesse momento.
B
Bom, se a gente volta no tempo, eu diria que sim, porque a postura que a gente viu hoje é uma postura imperialista por parte dessas potências que cada qual, com a sua estratégia, tem tentado redesenhar a forma como o mundo se organiza. Por que imperialismo cabe nesse caso? Porque a principal forma de projeção de poder desses países ainda que a gente leve em conta a dimensão militar, a dimensão da invasão, da ocupação, da agressão, a principal linguagem dos países tem sido econômica, como foi no caso também do imperialismo do século XIX e do século XX. A gente entra em uma era que, voltando ao passado, ela traz um elemento muito importante que a gente pode chamar de geoeconomia global. Por que eu falo geoeconomia? Porque hoje a gente tem uma geopolítica baseada na competição, baseada na disputa de poder, baseada em larga medida na força, mas cuja linguagem se manifesta principalmente pela dimensão econômica. E essa é a característica fundamental do imperialismo, a projeção de poder e de conquista de mercados por meio de instrumentos militares e também hiponômicos. É isso que a gente tá vendo na atuação dos Estados Unidos nas Américas, é o que a gente tá vendo na atuação da China em outros lugares do mundo, na África, na Ásia, o que a gente tá vendo, em certo sentido, também por parte da Rússia. A Rússia, ela tem uma questão econômica que é um pouco distinta, né, a relação econômica da Rússia com o mundo, ela é... ficou constrangida pelas sanções e por todo o sufocamento econômico a que ela vem sendo submetida desde a invasão da Ucrânia, mas basicamente é isso que a gente tem visto hoje, uma disputa de grandes potências a partir, sobretudo, da linguagem da disputa econômica.
A
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Casarões. Bom, nesse neoimperialismo a gente vê Estados Unidos, China e Rússia, cada um com o que enxerga como seu quintal de influência. E a Europa? Vai ser tutelada por quem ou por ninguém?
B
Essa é uma grande questão que os analistas, seja na Europa ou nos Estados Unidos, também têm se colocado com alguma frequência. A Europa sempre pleiteou um lugar singular nessa ordem internacional. A Europa sempre quis ser uma espécie de polo de poder também. E desde os anos 90, com o fim da Guerra Fria, a própria configuração da União Europeia apontava nessa direção de a Europa se tornar uma espécie de grande potência civil. Civil aqui em oposição à militar. Porque a Europa teria valores, a Europa teria instituições, a Europa teria um arranjo democrático que a colocaria como um dos grandes atores nesse mundo que se abria depois da queda do muro de Berlim O destino da Europa infelizmente não foi esse, o que a gente observou sobretudo desde a grande crise financeira de 2008 foi uma tendência centrífuga na Europa, a União Europeia. Ela se enfraquece, ela se desmantela em algumas contas, como por exemplo o Brexit, que aconteceu em 2016. As pesquisas apontam que os britânicos se arrependeram do Brexit, que foi a saída da União Europeia oficializada em 2020. 62% dizem que a decisão levou mais ao fracasso do que ao sucesso. E 55% afirmam que topariam voltar para o bloco. Existem muitas pressões hoje na Europa que paralisam o bloco completamente. E existe um debate entre os europeus hoje sobre em que medida a Europa deve continuar submetendo aos interesses norte-americanos do ponto de vista militar, ou seja, se devem continuar sob o guarda-chuva militar americano representado pelo OTAN, pela Organização do Tratado do Atlântico Norte, ou se a Europa deve seguir um caminho próprio buscando a sua própria segurança por meio de investimentos próprios em defesa, em aumentar a sua presença militar no mundo e assim por diante. Mas ainda não há uma clareza sobre que rumo a Europa vai tomar nesse momento. O que a gente tem observado desde a volta do Trump para a Casa Branca é uma Europa muito subserviente às ameaças dos Estados Unidos, ou seja, tudo aquilo que o Trump quis negociar com base nas tarifas, na ameaça tarifária, que vem sendo a estratégia principal do governo americano, os europeus acabaram fazendo concessões ao longo desse período. Mas quando a gente olha tanto o documento da Estratégia de Segurança Nacional Quanto à própria ênfase do governo Trump em termos da sua superioridade política externa, a gente percebe que a Europa está completamente deslocada. Entre os europeus, uma das impressões que se tem é que, no médio prazo, os Estados Unidos deixariam a Europa, ao Deus dará, deixariam a Europa sozinha para ter que ela mesma administrar as ameaças representadas pela outra grande potência que está ali às portas da Europa, que é a Rússia de Vladimir Putin. Os europeus têm muito medo de que isso aconteça, de que os Estados Unidos abram mão dessa gestão da segurança europeia e a Rússia acabe engolindo pedaços da Europa para fazer valer a sua própria esfera de influência no leste europeu. E esse debate, claro, ele tem uma série de nuances, mas Basicamente, o que a gente pode dizer em resumo é que a Europa não conseguiu encontrar o seu lugar nessa nova ordem semelhante ao século XIX, o que não deixa de ser irônico, porque foi a Europa que desenhou a ordem do século XIX, da Europa saíram as grandes potências que dominaram o mundo ao longo de séculos, e hoje a Europa ficou reduzida a um papel de coadjuvante o adjuvante muito incomodado porque não consegue se projetar internacionalmente e porque acaba ficando na mão dos interesses tanto dos Estados Unidos de um lado quanto da Rússia de outro.
A
Bom, você citou uma expressão ao Deus dará ao se referir à Europa. E o Oriente Médio? Porque também não tem uma tutela clara ali, né?
B
O que a gente observa da estratégia dos Estados Unidos é que, por muito tempo, os americanos se sentiram responsáveis por administrar diretamente a geopolítica do Oriente Médio. É claro, por meio de alianças regionais, por meio de intervenções pontuais, como a gente viu no Iraque desde 2003, mas, ao mesmo tempo, havia uma percepção de que o controle do Oriente Médio deveria ser exercido de maneira na medida direta pelos Estados Unidos. Essa percepção tem desaparecido. É claro que o Trump teve uma posição muito clara com relação à Gaza, inclusive fez uma piada de mau gosto em algum momento, que foi a ideia de transformar a Gaza num grande resort no Oriente Médio. O presidente americano publicou nas redes sociais um vídeo gerado por inteligência artificial que mostra o que ele sonha para a faixa de Gaza.
C
Com praias tomadas por resortes e outros empreendimentos imobiliários, a Gaza fake de Trump se parece com Dubai. Tem dançarinas e dinheiro caindo do céu. E nada de palestinos, o povo ao qual pertence o território.
B
Isso pegou muito mal, inclusive, para os negociadores de um eventual cessar-fogo entre Israel e Hamas naquele momento. Mas a gente vê que os Estados Unidos têm se distanciado das grandes questões do Oriente Médio. Qual é a tendência hoje? Uma transferência por parte dos Estados Unidos de muitas das responsabilidades geopolíticas para os atores sejonais do Oriente Médio, especificamente a Arábia Saudita, Israel e o Egito. A gente tem visto uma crescente influência econômica chinesa na regional, que também muda um pouco a dinâmica, mas que não afeta, vamos dizer, a lógica geopolítica que sempre prevaleceu no Oriente Médio, e a Rússia, que teve um papel no Oriente Médio, principalmente desde a Guerra Civil Síria, a Primavera Árabe, no começo da década de 2010, com a derrubada do regime Assad e com o enfraquecimento do Irã, a Rússia acaba se distanciando um pouco da região. Então, hoje, o Oriente Médio, eu não diria que ele está o deus da Ará, mas ele está sendo articulado, organizado, sobretudo pelas potências regionais e menos pela interferência direta de uma grande potência, seja ela quem seja, mas especialmente os Estados Unidos, não tem feito parte do dia a dia dessas negociações, dessa dinâmica que a gente acompanha hoje no Oriente Médio.
A
Bom, nessa história de os Estados Unidos deixarem a China com as coisinhas dela, né, deixa a China fazer o que ela bem entende no seu quintal, tem um ponto aí de interrogação que é Taiwan. Porque a China ficaria com Taiwan, mas Taiwan é super importante para o setor de tecnologia americana. E aí, vai ser exatamente assim?
B
Natuza, desde a invasão da Rússia à Ucrânia em 2022, a gente ouve muitos analistas manifestando temores sobre uma eventual anexação de Taiwan por parte da China. Quem se dedica ao estudo da China costuma dizer que os chineses têm estratégias que são muito dilatadas no tempo. Os chineses não têm pressa com relação as suas próprias questões geopolíticas e que, portanto, a China não teria nenhuma urgência em anexar Taiwan de um dia para o outro, como foi apregoado desde a invasão da Ucrânia e agora com a Venezuela também volta essa história de Taiwan. O que eu posso dizer sobre isso é o seguinte. Os chineses têm manifestado seu interesse em se aproximar de Taiwan e o objetivo da anexação de Taiwan é um objetivo histórico da China que os chineses não negam. A própria China impõe, quando estabelece relações diplomáticas com outros países do mundo, a chamada política da uma só China. Ou seja, quem reconhece hoje a China no cenário internacional tem que desreconhecer Taiwan. É o caso do Brasil e de outros países do mundo. Taiwan hoje é reconhecido por mais ou menos 13 países, então é uma nação que tem um reconhecimento muito tênue, que tá diminuindo justamente em função do crescimento da projeção da presença chinesa no mundo. Então, no caso de Taiwan, a impressão que eu tenho é que, de fato, se o Trump enxerga o mundo a partir dessa divisão planetária entre grandes potências, Taiwan seria parte natural da esfera de influência chinesa e os Estados Unidos abdicariam, portanto, de um objetivo que volta lá nos anos 1950, que seria o objetivo de defender Taiwan e o Japão de qualquer ameaça vinda por parte da China. Então, isso é uma preocupação para os taiwaneses hoje, mas é uma preocupação também para os japoneses. O que a gente vê como até sintoma dessa possível mudança na lógica da geopolítica asiática é que o Japão recentemente, agora com a nova primeiro-ministro, declarou que Taiwan é parte do interesse nacional japonês. Essa é uma declaração nova, quer dizer, o Japão nunca negou a importância de Taiwan, mas colocar isso de maneira explícita mostra que o Japão tem pensado na possibilidade de se militarizar para poder defender os seus interesses, não só no território japonês, mas também além mar, interesses esses que alcançariam Taiwan em função da importância estratégica da ilha para a questão, sobretudo, da tecnologia, para as cadeias globais tecnológicas, como a gente sabe. 90% dos chips mais avançados do mundo, necessários para desenvolver inteligência artificial, por exemplo, saem dessa única empresa. E essa empresa fica aqui em Taiwan. Por isso que a ilha se tornou o centro de uma disputa política e econômica entre China e Estados Unidos. Para a China, Taiwan é parte do país. É uma província apenas temporariamente rebelde. O assunto Taiwan é problema da China e só da China. Nosso esforço é por uma reunificação pacífica, mas nós nunca prometemos renunciar ao uso da força. E nós nos reservamos à possibilidade de tomar qualquer medida necessária. Isso se dirige a forças externas e não, de forma alguma, aos compatriotas de Taiwan. Isso tem, na realidade, acirrado uma disputa entre China e Japão no leste da Ásia, e talvez esse seja um foco de tensão importante para a gente acompanhar nesse ano de 2026, que é justamente um crescimento, um recrudescimento do nacionalismo japonês, que já vem de algum tempo, numa eventual disputa com a China por um espaço que agora os Estados Unidos não estão mais lá para proteger e que caberia o Japão de alguma maneira tentar proteger, com um problema que é o seguinte, o Japão não tem exército, o Japão não tem uma projeção militar considerável, de modo que vai ser muito difícil para os japoneses, caso queiram defender Taiwan, atuarem de maneira isolada, solitária, naquele contexto do leste asiático e por isso que a ajuda dos Estados Unidos sempre foi muito importante e agora o Trump parece menos interessado em garantir essa ajuda no longo prazo.
A
Bom, e como é que fica? Você estudou o Japão, mas eu tenho um particular interesse em saber como é que ficam as outras potências regionais. Coloco aí nesse role Índia, coloco o próprio Brasil. Que margem de autonomia esses países vão ter ou que margem esses países têm sob um guarda-chuva de uma potência maior, por exemplo?
B
Eu diria que esse vai ser o grande dilema das potências regionais ou intermediárias daqui pra frente. Veja que no caso do Japão, não, desculpa, da Índia e do Brasil, a projeção desses dois países, ela tem um componente econômico, tem um componente demográfico importante, mas essa projeção, ela se deu principalmente por meio da liderança multilateral. Índia faz parte dos BRICS, tem uma aliança com o Brasil no chamado Fórum Ibas, que é Índia, Brasil e África do Sul. A Índia tem uma participação histórica muito relevante na ONU, assim como o Brasil. Então, esses dois países conseguiram obter alguma margem de autonomia na política internacional ao longo das últimas décadas justamente em função dessa liderança multilateral. Qual é o grande problema do mundo de hoje? O multilateralismo está acabando, está muito enfraquecido. As Nações Unidas têm perdido protagonismo nas grandes questões internacionais. E justamente por isso, se a gente olha para o caso brasileiro, o presidente Lula tem insistido, desde que ele volta à presidência em 2023, numa renovação do multilateralismo, na reforma das Nações Unidas, na ênfase global em temas que são multilaterais por excelência, como o meio ambiente, como o combate à fome e à pobreza, justamente porque são nessas agendas que países como Índia e Brasil conseguem exercer algum tipo de protagonismo. O mundo do século XIX, o mundo da geoeconomia, o mundo da disputa dos gigantes, das grandes potências, é um mundo muito ruim para essas potências regionais ou intermediárias. A Índia ainda tem uma espécie de boia de salvação, que é o fato de ser um país com bombas nucleares. A questão nuclear da Índia é histórica, já tem mais de 60 anos, mas no caso específico indiano, a questão nuclear está muito ligada a uma disputa regional que a Índia tem com o Paquistão, com quem divide fronteira. A Índia também divide fronteira com a China, isso também é um dado importante para a gente pensar. No caso do Brasil, que não tem projeção militar, que não tem bomba atômica e que não tem nenhuma perspectiva de se remilitarizar para ele próprio se tornar uma grande potência, esse mundo que se abre é particularmente negativo, em que o Brasil vai ter que fazer uma escolha em algum momento muito difícil entre buscar caminhos da sua autonomia, e eu acredito que o governo atual tem buscado esses caminhos justamente por meio da tentativa de revitalizar essas agendas multilaterais, ou se submeter ao quintal dos Estados Unidos. Então, é um diema muito importante, que eu acho que vai ser crucial pra gente pensar, inclusive, o debate eleitoral de 2026, mas que vai definir, em larga medida, o futuro do Brasil daqui pra frente, no mundo, e as possibilidades que o Brasil de fato vai ter nessa nova realidade que se abre diante dos nossos olhos.
A
Casarões, que aula você nos deu. Muito obrigada. A gente estava morrendo de saudade de te ter aqui no assunto e você veio no dia certo para nos explicar esse novo momento cheio de desafios. Muito obrigada e um excelente trabalho para você.
B
Obrigado, Natuza. Obrigado de novo pelo convite.
A
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catelan. Neste episódio colaborou também Paula Paiva Paulo. Eu sou Ana Tuzaneri, fico por aqui, até o próximo assunto.
Data: 8 de janeiro de 2026
Apresentação: Natuza Nery
Convidado: Guilherme Casarões (cientista político, professor na Florida International University)
O episódio analisa o conceito de "neoimperialismo" à luz das recentes mudanças na geopolítica mundial, principalmente após a divulgação da nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA (2025), sob o governo Trump. A discussão aprofunda como as grandes potências (EUA, China, Rússia) redividem as esferas de influência, as consequências para regiões como América Latina, Europa, Oriente Médio e Ásia, e examina as margens de autonomia de potências regionais (Brasil, Índia) nesse novo cenário global.
[00:02 – 03:05]
[03:05 – 07:13]
Guilherme Casarões explica que o documento é lançado a cada ciclo presidencial e, neste caso, traz duas novidades:
“Trump traz para esse novo documento […] a esfera de influência norte-americana por um lado, mas existem outras potências que também vão poder perseguir a conquista de espaços naturais da sua influência geopolítica, notadamente Rússia e China.”
— G. Casarões [04:32]
Campanha e pós-eleição: desde 2024, Trump reitera abandonar pretensões militares globais para enfatizar a defesa dos “interesses naturais” da América e fazer intervenções apenas em seu ecossistema regional.
[07:13 – 09:59]
Quote:
“[Tivemos] sinais desde o começo do governo Trump de que México, Brasil, Colômbia, Chile teriam aí um motivo para poder juntar forças, para poder combater qualquer tipo de intervenção que, por ventura, viesse por parte dos Estados Unidos.”
— G. Casarões [09:47]
[09:59 – 15:32]
Quote:
“Esse vínculo com o narcotráfico dá alguma legitimidade pro combate ao narcotráfico extraterritorial, e a vinculação da Venezuela como se o Maduro fosse chefe de um grande cartel [...] foi o que justificou a sua captura na semana passada.”
— G. Casarões [13:27]
[15:32 – 18:42]
[18:36 – 20:31]
[20:31 – 24:45]
[24:45 – 27:28]
Quote:
“A gente vê que os Estados Unidos têm se distanciado das grandes questões do Oriente Médio.”
— G. Casarões [26:09]
[27:28 – 32:14]
[32:14 – 35:32]
Quote:
“O mundo do século XIX, o mundo da geoeconomia, é um mundo muito ruim para potências regionais ou intermediárias.”
— G. Casarões [34:06]
“Trump traz para esse novo documento […] a esfera de influência norte-americana por um lado, mas existem outras potências que também vão poder perseguir a conquista de espaços naturais da sua influência geopolítica, notadamente Rússia e China.”
— Guilherme Casarões [04:32]
“O mundo do século XIX, o mundo da geoeconomia, é um mundo muito ruim para potências regionais ou intermediárias.”
— Guilherme Casarões [34:06]
“A Europa ficou reduzida a um papel de coadjuvante — um coadjuvante muito incomodado porque não consegue se projetar internacionalmente.”
— Guilherme Casarões [24:33]
“O assunto Taiwan é problema da China e só da China. Nosso esforço é por uma reunificação pacífica, mas nós nunca prometemos renunciar ao uso da força.”
— Discurso interpretado de representante chinês [30:36]
“É uma disputa de grandes potências, a partir — sobretudo — da linguagem da disputa econômica.”
— Guilherme Casarões [20:16]
A conversa combina análise histórica, geopolítica e contextualização jornalística, com metáforas acessíveis ("manchas de poder", "quintal", "tabuleiro mundial") e linguagem clara, sem jargões excessivos, sempre com olhar crítico às decisões das grandes potências e às consequências para o Brasil e o mundo.
Este episódio disseca como o "neoimperialismo" está reorganizando o mundo em esferas de influência mais rígidas e, ao mesmo tempo, mais econômicas do que militares. A nova centralidade das Américas na política externa dos EUA coloca desafios e oportunidades para a região. China avança em sua lógica de presença econômica e influência. Europa e potências regionais como Brasil e Índia se mostram perdidas em meio ao declínio do multilateralismo e à ascensão das disputas entre gigantes. Quem quiser entender o mundo de 2026 — seus riscos, dilemas e possíveis caminhos — tem aqui um roteiro esclarecedor, direto ao ponto e sem perder a profundidade analítica.