O Assunto — "Neoimperialismo e o mundo em revisão"
Data: 8 de janeiro de 2026
Apresentação: Natuza Nery
Convidado: Guilherme Casarões (cientista político, professor na Florida International University)
Tema do Episódio
O episódio analisa o conceito de "neoimperialismo" à luz das recentes mudanças na geopolítica mundial, principalmente após a divulgação da nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA (2025), sob o governo Trump. A discussão aprofunda como as grandes potências (EUA, China, Rússia) redividem as esferas de influência, as consequências para regiões como América Latina, Europa, Oriente Médio e Ásia, e examina as margens de autonomia de potências regionais (Brasil, Índia) nesse novo cenário global.
Principais Pontos e Segmentos
1. O Retorno da Lógica dos Quinais e Esferas de Influência
[00:02 – 03:05]
- Natuza Nery inicia relembrando publicação oficial dos EUA (“Este é o nosso hemisfério”), destacando o termo “nosso” e o simbolismo de um mundo dividido por manchas de poder, não linhas finas.
- Referência histórica: século XIX (Concerto Europeu) e Guerra Fria — períodos de definição rígida de esferas entre potências.
- Nova dúvida do século XXI: “O que define hoje quem está na esfera de influência de quem? Geografia, economia, força militar, ou tudo isso junto?”
2. Nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA
[03:05 – 07:13]
-
Guilherme Casarões explica que o documento é lançado a cada ciclo presidencial e, neste caso, traz duas novidades:
- Reconhece explicitamente a “disputa de grandes potências”, marcando um retorno ao modelo europeu do século XIX.
- Prioriza, pela primeira vez desde a Segunda Guerra, as Américas como centro absoluto da política externa dos EUA — “Américas em primeiro lugar”.
-
“Trump traz para esse novo documento […] a esfera de influência norte-americana por um lado, mas existem outras potências que também vão poder perseguir a conquista de espaços naturais da sua influência geopolítica, notadamente Rússia e China.”
— G. Casarões [04:32] -
Campanha e pós-eleição: desde 2024, Trump reitera abandonar pretensões militares globais para enfatizar a defesa dos “interesses naturais” da América e fazer intervenções apenas em seu ecossistema regional.
3. A Retomada da Doutrina Monroe — O ‘Quintal’ das Américas
[07:13 – 09:59]
- A atual política representa “ruptura” com o padrão pós-1945.
- Sinais dados desde a campanha: piadas provocativas sobre anexações (Groenlândia, Canadá) e foco em América Latina (citação à nomeação de Marco Rubio como Secretário de Estado).
- Implicações:
- Risco de intervenção / pressão aumentada sobre a América do Sul.
- Por outro lado, oferece chance para uma potencial integração e cooperação regional inédita entre México, Brasil, Colômbia, Chile, diante de ameaça comum.
Quote:
“[Tivemos] sinais desde o começo do governo Trump de que México, Brasil, Colômbia, Chile teriam aí um motivo para poder juntar forças, para poder combater qualquer tipo de intervenção que, por ventura, viesse por parte dos Estados Unidos.”
— G. Casarões [09:47]
4. Venezuela e a Retórica do “Nosso Hemisfério”
[09:59 – 15:32]
- Trump usa discurso de “pacifista” e de fim de guerras, mas justifica intervenções regionais por questões internas (narcotráfico, migração, anticomunismo).
- Caso Venezuela:
- Argumento de combate ao narcotráfico foi usado para legitimar bombardeios a embarcações venezuelanas e a captura de Nicolás Maduro.
- Acusações contra Maduro foram abrandadas publicamente, mas ligação ao tráfico persiste como justificativa de ação dos EUA.
Quote:
“Esse vínculo com o narcotráfico dá alguma legitimidade pro combate ao narcotráfico extraterritorial, e a vinculação da Venezuela como se o Maduro fosse chefe de um grande cartel [...] foi o que justificou a sua captura na semana passada.”
— G. Casarões [13:27]
- Controle migratório: intensificação de deportações e acordos para envio de migrantes indesejados para países terceiros (El Salvador).
5. A China na América Latina e a Disputa Econômica
[15:32 – 18:42]
- Dinâmica EUA–China mudou:
- No governo Trump, pressão sobre Huawei e o 5G já existia.
- Atualmente, embate com a China é menos militar e mais econômico/comercial, com uso de tarifas e investimentos competitivos em setores estratégicos como minerais e petróleo.
- A China tornou-se o principal parceiro comercial da maioria dos países da América Latina (mudança drástica em 25 anos).
- Não há mais uma retórica de “choque” direto, mas sim um reposicionamento dos EUA para “abraçar” a região e disputar recursos.
6. O que é Neoimperialismo Hoje
[18:36 – 20:31]
- Casarões defende o uso do termo:
- “[Hoje] a principal forma de projeção de poder desses países […] tem sido econômica, como foi no imperialismo do século XIX e XX. Vivemos uma era de geoeconomia global.” [19:05]
- Os EUA (Américas), China (Ásia, África), Rússia (Leste Europeu) aplicam modelos de dominação via economia, não mais só pela força.
- A disputa por mercados e influência econômica é o principal mecanismo imperialista do momento.
7. Europa — Perda de Protagonismo e Dilemas
[20:31 – 24:45]
- A UE almejava ser potência “civil”, mas crises internas (Brexit, crise financeira) e subordinação militar aos EUA enfraqueceram o bloco.
- Debate intenso: continuar sob proteção EUA/OTAN, ou buscar caminho de defesa própria.
Quote:
“Quando a gente olha tanto o documento da Estratégia de Segurança Nacional quanto à própria ênfase do governo Trump, a gente percebe que a Europa está completamente deslocada.”
— G. Casarões [23:44] - Medo europeu: eventual desamparo frente à Rússia caso EUA deixem de garantir a segurança do continente.
8. Oriente Médio — Descentralização da Tutela
[24:45 – 27:28]
- EUA estão se afastando da administração direta da região, delegando protagonismo a potências locais (Arábia Saudita, Israel, Egito).
- China expande influência econômica, mas não militar direta.
- Rússia esfria sua presença desde a queda de Assad e o enfraquecimento do Irã.
- Exemplo controverso: Trump sugere transformar Gaza num resort (vídeo IA), visualizado como apatia ante o drama local.
Quote:
“A gente vê que os Estados Unidos têm se distanciado das grandes questões do Oriente Médio.”
— G. Casarões [26:09]
9. China, Taiwan e o Novo Xadrez Asiático
[27:28 – 32:14]
- China mantém estratégia de longo prazo para Taiwan — “Não tem pressa com relação às suas próprias questões geopolíticas.”
- Trump tenderia a aceitar Taiwan como parte natural da esfera chinesa, renunciando o compromisso defensivo dos EUA para com Taiwan e Japão.
- Japão reage: declara explicitamente que Taiwan é interesse nacional japonês, acenando para possível militarização (mas há limitações estruturais).
- Disputa sobre Taiwan é central para cadeias globais tecnológicas (chips).
10. Potências Regionais: Índia, Brasil e o Fim do Multilateralismo
[32:14 – 35:32]
- Índia e Brasil sempre buscaram autonomia via liderança multilateral (ONU, BRICS, IBAS).
- Multilateralismo está enfraquecido; com a lógica “imperial” de grandes potências dominando, países intermediários perdem espaço.
- Índia: “boia de salvação” nuclear; fronteiras compartilhadas com China e Paquistão.
- Brasil: sem poderio militar ou nuclear, enfrenta um dilema — caminho próprio via renovação de agendas multilaterais (meio ambiente, fome, pobreza) ou aceitação de subordinação à esfera dos EUA.
- Décision que pode definir o futuro brasileiro no mundo e influenciar eleições de 2026.
Quote:
“O mundo do século XIX, o mundo da geoeconomia, é um mundo muito ruim para potências regionais ou intermediárias.”
— G. Casarões [34:06]
Timestamps de Momentos Importantes
- 00:02 — Introdução ao tema: imagem do hemisfério e conceito de esferas de influência
- 03:05 — Guilherme Casarões explica a nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA
- 07:13 — O retorno do discurso do "quintal" e as Américas como centro da política externa dos EUA
- 13:27 — Caso Venezuela: narcotráfico como pretexto para ação dos EUA
- 15:57 — Análise da disputa econômica EUA-China na América Latina
- 18:42 — Definição e pertinência do termo "neoimperialismo"
- 20:56 — Debate sobre a posição marginal da Europa no novo cenário global
- 24:55 — Redefinição das tutelas no Oriente Médio
- 27:54 — Dilema sobre Taiwan, tecnologia e reações do Japão
- 32:37 — Potências regionais e a crise do multilateralismo (Brasil/Índia)
- 35:32 — Encerramento e últimas reflexões
Memórias & Citações Notáveis
-
“Trump traz para esse novo documento […] a esfera de influência norte-americana por um lado, mas existem outras potências que também vão poder perseguir a conquista de espaços naturais da sua influência geopolítica, notadamente Rússia e China.”
— Guilherme Casarões [04:32] -
“O mundo do século XIX, o mundo da geoeconomia, é um mundo muito ruim para potências regionais ou intermediárias.”
— Guilherme Casarões [34:06] -
“A Europa ficou reduzida a um papel de coadjuvante — um coadjuvante muito incomodado porque não consegue se projetar internacionalmente.”
— Guilherme Casarões [24:33] -
“O assunto Taiwan é problema da China e só da China. Nosso esforço é por uma reunificação pacífica, mas nós nunca prometemos renunciar ao uso da força.”
— Discurso interpretado de representante chinês [30:36] -
“É uma disputa de grandes potências, a partir — sobretudo — da linguagem da disputa econômica.”
— Guilherme Casarões [20:16]
Tom e Linguagem
A conversa combina análise histórica, geopolítica e contextualização jornalística, com metáforas acessíveis ("manchas de poder", "quintal", "tabuleiro mundial") e linguagem clara, sem jargões excessivos, sempre com olhar crítico às decisões das grandes potências e às consequências para o Brasil e o mundo.
Resumo Final
Este episódio disseca como o "neoimperialismo" está reorganizando o mundo em esferas de influência mais rígidas e, ao mesmo tempo, mais econômicas do que militares. A nova centralidade das Américas na política externa dos EUA coloca desafios e oportunidades para a região. China avança em sua lógica de presença econômica e influência. Europa e potências regionais como Brasil e Índia se mostram perdidas em meio ao declínio do multilateralismo e à ascensão das disputas entre gigantes. Quem quiser entender o mundo de 2026 — seus riscos, dilemas e possíveis caminhos — tem aqui um roteiro esclarecedor, direto ao ponto e sem perder a profundidade analítica.
