Transcript
A (0:02)
Este é o nosso hemisfério. Esta foi a frase estampada em uma publicação do Departamento de Estado junto a uma foto em preto e branco de Donald Trump. Só uma palavra estava colorida, um vermelho vibrante, o pronome possessivo nosso. Este é o nosso hemisfério e o presidente Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada. Uma frase que não é só retórica, mas um resumo de como o mundo volta a se organizar. Um mundo em que as grandes potências têm as suas áreas de influência, ou, em linguajar imperialista, seus quintais. Imagine um mapa-mundo aberto na sua frente. Um mapa em que as fronteiras não são linhas finas, mas sim manchas de poder. Nesse tabuleiro, os Estados Unidos cobrem toda a América, da Patagônia a Groenlândia. Do outro, a Rússia, que avança pelo leste europeu e Ásia Central sobre todo o território que um dia foi a União Soviética. Já a China se espalha pelo leste e sudeste asiático e estica as mãos até Taiwan. Nesse novo mapa de poder, a Europa parece menor do que já foi. A história já viu esse filme. Vamos voltar ao século XIX, no chamado Concerto Europeu. Depois das guerras napoleônicas, sob a justificativa de manter a paz, países da Europa criaram um sistema diplomático. Nesse arranjo, as grandes potências definiam até onde cada um podia ir. Eram domínios monárquicos, em que cada coroa tinha o seu reino, entre aspas. Aconteceu também na Guerra Fria, entre o fim da Segunda Guerra até o início da década de 90. Nesse período, a divisão entre dois blocos era bastante clara e definida. De um lado, os capitalistas. Do outro, os comunistas. Mas agora, em um mundo mais conectado, com fronteiras menos rígidas, a pergunta muda. O que define quem é que fica na esfera de influência de quem? É uma questão de geografia? De poder econômico? ou de força militar? Ou seria tudo isso junto? Da redação do G1, eu sou Nato Zaneri e o assunto hoje é o neoimperialismo e o mundo em revisão. Meu convidado é Guilherme Casarões, cientista político e professor da Florida International University. Quinta-feira, 8 de janeiro. Casarões, em dezembro de 2025, os Estados Unidos divulgaram o que eles chamam de Estratégia Nacional de Segurança. E aí vem um paradoxo. O governo americano afirmando que não pretende intervir em outros países, mas dizendo que é preciso alcançar a paz por meio da demonstração de força. Eu quero te pedir para nos explicar brevemente o que é esse documento e como ele ajuda a entender tudo o que está acontecendo nos últimos tempos.
B (3:05)
Natuza, a cada mandato presidencial nos Estados Unidos é esperado que o presidente e a Casa Branca lancem uma estratégia nacional de segurança, estratégia de segurança nacional, que é um documento que sintetiza as grandes prioridades estratégicas globais dos Estados Unidos, falando de quem são os inimigos, de quais são as prioridades estratégicas, de quais serão as estratégias mesmo que cada governo vai utilizar para poder manter o poder global dos Estados Unidos intacto. E, geralmente, no fim do primeiro ano de mandato, a gente costuma ver esse documento. No caso do último documento que foi lançado no final de novembro de 2025, a gente tem algumas diferenças cruciais com relação aos documentos anteriores, inclusive aquele que foi publicado pelo próprio governo Trump no seu primeiro mandato em 2017. Curiosamente, Natuza, a expressão a passo pela força já tinha sido utilizada pelo Trump no primeiro mandato, então quase uma década atrás isso já estava lá no documento. A grande novidade que esse novo documento traz é o reconhecimento de um mundo dividido por grandes potências. E aqui, eu costumo dizer que a gente está de volta, de alguma maneira, à geopolítica do século XIX, porque lá no século XIX foi quando as grandes potências europeias partilharam o mundo de acordo com seus interesses. E é esta visão, que o Trump traz para esse novo documento, segundo o qual existe a esfera de influência norte-americana por um lado, mas existem outras potências que também vão poder perseguir a conquista de espaços naturais da sua influência geopolítica, e aí eu noto de maneira muito específica a Rússia e a China. Qual é a grande quebra que a gente tem com relação ao passado? Por décadas, por praticamente oito décadas, os Estados Unidos pleitearam uma espécie de hegemonia global, ou seja, os Estados Unidos tinham ali um interesse muito claramente de administrar a política mundial, de se envolver em regiões remotas, em termos geográficos americanos, como a Ásia, como o Oriente Médio, e pela primeira vez que a gente vê uma administração na Casa Branca que vai dizer, olha, meu interesse é menos aquilo que está distante de mim, e meu interesse está mais ligado àquela que é a minha esfera direta de influência, que são as Américas e o hemisfério ocidental como um todo. Então, esse documento traz essa inovação do reconhecimento da disputa de grandes potências, trata Rússia e China não mais como rivais, mas como países iguais que, de alguma maneira, vão dividir esse mundo de acordo com seus interesses. E o foco nas Américas, em particular, também chama atenção porque a gente está falando do primeiro governo americano, pelo menos em quase um século, que prioriza as Américas, o hemisfério americano, como, vamos dizer, centralidade absoluta da estratégia de política externa dos Estados Unidos.
