Loading summary
Natuza Neri
A semana começa com muita expectativa no mundo inteiro pela implementação do acordo entre Irã e Estados Unidos para acabar com a guerra no Oriente Médio. A gente já ouviu essa história de acordo antes. Será que dessa vez pode ser diferente? Vamos então aos sinais. Mediados pelo Paquistão, os Estados Unidos e o Irã dizem ter chegado a pontos comuns para uma pausa mais duradoura nessa guerra.
Narrator/Reporter
O primeiro-ministro paquistanês escreveu, ambos os lados declararam um encerramento imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano.
Economic Analyst
Os Estados Unidos e o Irã assinaram um memorando de entendimento.
Leonardo Trevisan
Foi uma assinatura digital, participou o vice-presidente norte-americano J.D. Vance e o presidente do parlamento do Irã, Mohammed Ghalibaf.
Narrator/Reporter
O comunicado de Shebas Sharif afirmou que a cerimônia oficial de assinatura do acordo vai ser na próxima sexta-feira, na Suíça, e que os mediadores vão ter uma série de reuniões nesta semana.
Natuza Neri
As partes concordaram em dar uma pausa de 60 dias nas hostilidades para negociar um fim de fato no conflito.
Narrator/Reporter
A Casa Branca disse que o acordo foi uma vitória do presidente Donald Trump, enquanto o Irã apresentou como uma vitória para o regime. Trump queria fazer o anúncio no dia do aniversário dele neste domingo, mas o Irã esperou o dia virar por lá para enfraquecer essa narrativa.
Natuza Neri
Mas apesar dos sinais, é bom que se diga. Irã e Estados Unidos têm exigências e versões diferentes para esse acordo. Os iranianos querem que as sanções contra o país sejam encerradas, que seus ativos bilionários sejam desbloqueados e que as tarifas comerciais voltem ao patamar pré-conflito. Já os americanos solicitam a abertura imediata do Estreito de Hormuz. Um esforço de Trump para resolver o problema que vem derrubando a sua popularidade interna.
Economic Analyst
Nos Estados Unidos, os preços ao consumidor avançaram mais uma vez. Subiram para quase 4%, nível mais alto em três anos. A meta de inflação por lá, vamos lembrar, é de 2%. Foram impulsionados pela elevação nos custos de alimentos e energia, principalmente gasolina, com impacto direto nas expectativas em relação aos juros.
Natuza Neri
Trump exige também uma velha pauta. que o regime do Zayatollah se comprometa a não desenvolver nenhum tipo de arma nuclear. E esse é um ponto particularmente importante para Trump. Ele precisa vender a versão de que esse seu acordo, o de agora, é melhor do que aquele firmado por Barack Obama com o mesmo Irã no ano de 2015.
Economic Analyst
Houve no passado um acordo nuclear em que o Irã concordava em restringir o enriquecimento de urânio um pouco abaixo de 4%. Isso é muito próximo, por exemplo, ao que o Brasil faz. O Brasil enriquece urânio em resende a 5% para gerar combustível para a energia nuclear, para as usinas nucleares. A proposta do governo Trump, no seu primeiro mandato, na década passada, é que mesmo esses 4% eram demais.
Natuza Neri
O conteúdo do documento vai ser apresentado na íntegra somente na sexta-feira, quando os líderes de Irã e Estados Unidos devem se encontrar para assinatura. E como quem se agarra a qualquer pedaço de boa notícia, o mercado já reage bem à nova fase de negociações.
Market Analyst
No Brasil, a gente percebe então o mercado mais otimista diante dessa expectativa. O Ibovespa, que é o principal índice da Bolsa de Valores, subindo 0,7%, mas o índice chegou a passar de 1% de alta. E o dólar também operando praticamente estável. O que os analistas projetam é que com essa expectativa da assinatura de acordo, a gente tem um impacto em relação aos preços de commodities que foram muito afetadas entre altos e baixos desde o início desse conflito no Oriente Médio. Estou falando, por exemplo, de petróleo. O barril tinha uma queda de quase 5%, cotado a quase US$ 84, mas a gente viu o barril do petróleo sendo negociado a mais de US$ 110 durante esse conflito.
Natuza Neri
O problema é que há um fator de risco para o sucesso do acordo. E ele tem nome e sobrenome. Benjamin Netanyahu.
Israeli Official
disse que as tropas israelenses não vão sair do território ocupado no sul do Líbano e que inclusive vão retaliar se o Irã voltar a atacar. Além disso, o ministro de segurança nacional israelense afirmou que o acordo não é vinculante à Israel, ou seja, não inclui a Israel, não vale para Israel porque não garante a segurança ao país. O presidente Donald Trump disse que o Primeiro Ministro de Israel é um Palavras dele, é um cara muito difícil e que Netanyahu deveria ser grato pelo que Washington está fazendo, pois se o Irã já tivesse uma arma nuclear, disse Trump, Israel não estaria de pé.
Natuza Neri
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é... O acordo entre Estados Unidos e Irã. Neste episódio sobre a guerra, eu converso com Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM. Terça-feira, 16 de junho. Professor Trevisan, antes de entrar nos termos desse acordo, eu lhe pergunto se agora dá para considerar que ele é para valer.
Leonardo Trevisan
É um primeiro passo. Estamos caminhando no sentido da paz. É paz, é isso mesmo. Vamos com calma. Na verdade, quando a gente olha para isso, a gente tem que dar razão para quem todo mundo ficou de nariz virado para ela. sustentou. Não é um tratado de par, é um compromisso de se continuar negociando. É disso que nós estamos falando. E sente clareza de que o que aconteceu é que os dois pontos absolutamente negociáveis para os dois lados foram colocados.
Narrator/Reporter
Presidente Donald Trump declarou que o acordo com o Irã estava concluído. Autorizo plenamente a abertura do Estreito de Hormuz sem cobrança de taxas e, simultaneamente, autorizo a imediata suspensão do bloqueio naval dos Estados Unidos.
Leonardo Trevisan
Então, primeiro de tudo, o que é que os Estados Unidos queriam? A abertura de Hormuz. Para estancar a sangria de petróleo. Hoje se estima a falta entre 14 a 20 milhões de barris dia. Tem que repor os estoques. Então, estava todo mundo olhando para isso, o inverno vai chegar, como é que vai fazer? Então, de algum modo, estava todo mundo olhando para a realidade de reabrir hormus e dar algum equilíbrio no mercado. O agradecimento por Xi Jinping é nessa direção, porque o Xi estava igualzinho ao Trump, também querendo que o mercado se equilibrasse. Sem petróleo, tem inflação. Com inflação, você cresce menos. Se você cresce menos, você compra menos produtos exportados chineses. O Xilinguim não quer ouvir falar disso. Então, para eles, o que eles queriam era efetivamente a reabertura de Hormuz.
Joe Kent
Só que para sair do papel, ele depende de uma lista com 14 exigências apresentadas pelo governo iraniano. Uma das principais é o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano. O Irã também quer que os Estados Unidos respeitem a soberania do país e parem de interferir em assuntos internos. Na lista também estão a retirada das forças americanas dos arredores do Irã, a suspensão completa do bloqueio naval e a reabertura do Estreito de Hormuz em até 30 dias. Outro ponto é o fim das sanções sobre a venda de petróleo, produtos petroquímicos e derivados. O governo iraniano também quer que os Estados Unidos e os aliados apresentem um plano de reconstrução de pelo menos US$ 300 bilhões e liberem US$ 24 bilhões em recursos iranianos bloqueados.
Natuza Neri
Então, deixa eu entender aqui só um ponto. A gente não está falando de um acordo de paz estrito-senso. A gente está falando de um acordo para o fluxo comercial do petróleo ser retomado e ganhar tempo.
Leonardo Trevisan
E o Irã seja, de certa forma, respeitado naquilo que são os princípios básicos dele. Tem um óbice nessa história, tem um obstáculo. Chama Líbano essa pedra.
Natuza Neri
Quero chegar lá, mas eu não quero avançar o sinal ainda. Você cita o Estreito de Hormuz. O Irã divulgou uma lista de exigências para formalizar esse pacto, vamos chamar assim. Queria lhe perguntar quais são eles e o que está previsto para o Estreito de Hormuz nesse acordo.
Leonardo Trevisan
Qual é o ponto de diferença fundamental no Estreito de Hormuz entre Estados Unidos e Irã? Pedágio. O Irã diz o seguinte, vocês destruíram 40% das construções do meu país. Eu quero repor isso aí. Eu preciso de recurso para repor isso aí. Para isso, eu vou passar a fazer vocês pagarem aquilo que vocês estragaram. É disso que nós estamos falando, Nantuso. O Irã exige o pedágio com essa função. Os Estados Unidos dizem que, com o pedágio, o petróleo fica mais caro. Porém, alguns fatos das exigências do Irã foram atendidos. Primeiro fato, fim do bloqueio naval dos produtos iranianos. Estava ficando caro para o Irã se alimentar por terra, via Paquistão e tudo mais. Dois, o programa nuclear é objeto de um retorno a 2015. Goste Trump disso ou não? O Irã permanece com o direito de enriquecer urânio como todos os países que o fazem. São mais de 40 no mundo, incluindo o Brasil, viu Natuso? É só ir aí na USP e pensar. e vê. Vigiado pela IEA, nós também enriquecemos o Urânio, como 40 países no mundo. O Irã diz que nós temos essa estrutura e queremos ser respeitados nisso. Al tem o compromisso de não fazer uma bomba atômica. Nós já dissemos isso, que nós não queremos fazer bomba atômica. O terceiro ponto tem a ver com o que nós estamos falando. Então, o primeiro, para de bloquear os portos iranianos com a Marinha Americana. Dois, programa nuclear nós vamos sentar para conversar com um adulto. Três, os fundos que o Irã tem nos países árabes moderados, especialmente no Catar, nos Emirados Árabes Unidos, Bolívia, Dubai, eles querem de volta. Não é pouca coisa. Então, eles querem usar isso para, de certa forma, voltar a andar num ritmo que é o iraniano. Alguns pontos seguem pendentes. O principal desses pontos, você mencionou já, é quem é, como será administrado o ormuz. Sabe o que aconteceu na Tusa? Deu tudo errado. Na ausência de planos de trânsito, o Irã percebeu que ele consegue, do mesmo jeito que ele faz com drones, com lanchas rápidas e com minas locadas, ele consegue bloquear ormuz.
Natuza Neri
É como se o Irã tivesse, através do Trump, descoberto o poder que tem.
Leonardo Trevisan
Perfeita frase. É exatamente disso que nós estamos falando. O Irã saiu dessa refrega toda, desses três meses de guerra, muito mais fortalecido do que ele estava. Hoje, os países árabes moderados, este é o ponto mais grave, batem na porta de Pequim a conversar com o Irã e não na porta de Washington para serem protegidos. Esta situação é muito séria. Tem um giro geopolítico, tem uma mudança no xadrez geopolítico no Oriente Médio que importa para o mundo inteiro. No último mês, todos Os países árabes moderados mandaram os seus canceleres para Pequim, todos foram lá, incluindo Mohammed Bin Salman. O próprio príncipe, herdeiro da Arábia Saudita, visitou o Xi e conversaram, porque O fator China é hoje um dado, um ponto essencial na equação de poder no Oriente Médio. Isso nós temos que cumprimentar a ausência de planos do senhor Donald Trump. Foi ele que permitiu que isso acontecesse.
Natuza Neri
Está bem claro o raciocínio de que os Estados Unidos, com essa guerra sem planejamento, acabou fazendo com que o Irã se tornasse mais forte. Eu quero só fazer uma ressalva aqui. O Irã foi bastante destruído. Militarmente, os Estados Unidos não tem comparação com com a força bem menor do Irã, mas do ponto de vista da importância para o comércio global, o Irã acabou aumentando de importância. Isso está bastante claro. Agora eu quero te ouvir sobre as exigências americanas nessa história, porque a gente sabe que Trump busca um discurso de vitória. Explica para a gente o que os Estados Unidos colocaram na mesa e se isso que foi colocado à mesa é o suficiente para dar essa retórica para o presidente dos Estados Unidos.
Leonardo Trevisan
Natuza, quando a gente olha para o comportamento do Trump para responder o que os Estados Unidos querem, a gente tem que observar aquela imagem que foi o jornalista Bob Woodward que criou num livro de 2018. Tiraram os adultos da sala. Não tem planejador. Tem só gente obediente a Trump. Ninguém o questiona de nada. Toda capacidade que você tem de um secretário de criar argumentos não existe. É isso que explica a entrega da guerra contra o Irã. Três pontos eram iniciais. O primeiro ponto era vamos encerrar o programa nuclear iraniano. Desculpa, isso É impossível com força militar. Israel já tentou e não conseguiu. Dois, nós vamos de alguma forma encerrar o regime, acabar com o regime iraniano. Eu matei todas as lideranças iranianas e elas que nem Cabeça, rabo de jararaca! Elas voltavam! O que está acontecendo? O que está acontecendo é que o Irã percebeu o risco e todas as autoridades no Irã terem pelo menos duas ou três autoridades já nomeadas se elas morrerem. Isso vale para todos, incluindo Ayatollah. Não adianta nada matar. Precisa entender que não tem um fator cultural nesse processo. Os mesmos oposicionistas que em janeiro perderam 7 mil pessoas com um tiro na cabeça da guarda revolucionária iraniana, passaram a apoiar o regime quando os Estados Unidos começaram a bombardear. Presta atenção nisso. Quando olhamos para esse quadro, temos a primeira exigência, o programa nuclear não era possível, acabar com o regime não era possível. Terceira exigência, diminuir o poder dos mísseis iranianos, como se isso fosse mágica. Quando a gente olha para o poder militar iraniano, nós temos que olhar para um quadro político completamente novo do ponto de vista militar. O Irã descentralizou toda a sua potência militar. O Irã fez um mundo de várias empresas militares pelo Irã inteirinho, muitas. A guerra na Ucrânia mudou de jeito com os drones iranianos. O primeiro país que mais produz engenheiro é a China. Segundo é os Estados Unidos. O Irã é hoje o quinto país que mais produz engenheiro. É uma mentalidade diferente. Eles se prepararam para a guerra desde a guerra com Saddam Hussein em 1980. A guerra não parou. Os mísseis Shahed, dos 5 ao 16, mudaram o curso da guerra na Ucrânia. A Rússia compra deles. E que destruição dos mísseis iranianos você está falando? 2. Os mísseis iranianos, em plena guerra, agora, há um mês atrás, o Irã deu um recado ao mundo. A base militar de Diego Garcia, que é americana e inglesa, 3.800 quilômetros de Teheran foi atacada por um míssil iraniano. Opa, quer dizer que os mísseis iranianos romperam a barreira dos 2.000 e estão em 4.000 quilômetros de alcance? Quando a gente olha para esse quadro, a gente percebe que foi mal planejada ou não houve planejamento algum. Um senhor chamado Joe Kent era o diretor do setor antiterrorista do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, maga de carteirinha, totalmente apoiador do Trump e diretor do contra-terrorismo do Conselho de Segurança. Ele renunciou. A renúncia dele veio acompanhada de uma série de frases. Era quem era? Chefe do setor contra-terrorismo. Dizendo que a guerra do Irã foi começada, foi iniciada sem nenhuma provocação do Irã para os Estados Unidos. Que a guerra do Irã foi iniciada por razões políticas de apoio a Israel e não havia razão nenhuma Joe Kent,
Joe Kent
do partido republicano do presidente Donald Trump, publicou numa rede social a carta de demissão. E ficou claro que começamos esta guerra por pressão de Israel e de seu
Benjamin Netanyahu
poderoso lobby nos Estados Unidos", escreveu.
Joe Kent
A imprensa americana já citava que Kent apoiava teorias da conspiração, era ligado a associações de supremacia branca e extrema-direita e
Benjamin Netanyahu
um representante ferrenho dos apoiadores de Trump
Joe Kent
do grupo MAGA, que significa Faça América Grande Novamente.
Leonardo Trevisan
E aí ele toca no ponto mais grave. A guerra começou no dia 28 de fevereiro, que foi um sábado. No dia 26 de fevereiro, o Whitkoff e o Jared Kushner, que eram os negociadores do Trump, vieram com a proposta iraniana de exatamente fazer o que está feito agora, de que eles iriam negociar para entregar para algum país os 440 quilos de urânio enriquecido, iriam aceitar a presença da IEA no controle do programa nuclear, iriam de alguma forma iniciar um processo de aceitar vigilância internacional no serviço de mísseis deles. Tudo isso foi jogar terra a quem interessava. Para mim, Espera um pouquinho que eu
Natuza Neri
já volto para falar com Leonardo Trevisan. No começo das suas respostas, você fala do fator Líbano. Quero entender o que você queria dizer em relação ao fator Líbano e quero te perguntar como é que está a relação entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, tendo em vista os relatos de Donald Trump, de que Donald Trump tem feito críticas bastante duras ao seu aliado.
Leonardo Trevisan
um sujeito muito difícil. O que nós temos que entender quando a gente começa a falar dessa situação é que Netanyahu pressionou Trump para que ele o ajudasse a ganhar a guerra eleitoral em Israel. A guerra do Irã não foi uma guerra feita para os Estados Unidos, foi uma guerra feita para que Netanyahu pudesse continuar no poder na Tusa. Se a guerra acabar amanhã, efetivamente, de Israel, se Israel ficar sem guerra amanhã, isso já não é mais possível. Mas se Israel, estamos falando de 100 dias atrás, ficasse sem guerra, Netanyahu perderia fatalmente a eleição. Ele deve perder a eleição. Todas as pesquisas do Hara, do Jerusalém Post, dão o mesmo canal de que Netanyahu perde a eleição. Quando a gente fala disso, nós temos que falar de Líbano. Israel tem a KB. A sustentação política de Netanyahu é feita pelos ultra-ortodoxos. Eles têm na cabeça o plano de uma grande Israel. Não é só a Israel-Israel, é a Israel que inclui a Gaza, que inclui partes da Síria e que inclui o sul do Líbano. com o desaparecimento do Irã. Você vai me perguntar, mas isso é impossível. É impossível para você. Para eles, eles acham e eles perseguem isso como razão de existência. E aí, quanto que Netanyahu obedece a Trump? Nada. O que vai acontecer? Os fatos estão provando. No domingo de madrugada, o Steven Sharif, que é o primeiro-ministro do Paquistão, anunciou o acordo quatro horas depois, a área sul de Beirute, onde estão os rios Molasto, são bombardeados.
Natuza Neri
Então a gente está numa situação muito parecida com as outras vezes em que se falou de acordo. Se Trump não exerce controle sobre Israel, se o fator Líbano pode desandar esse acordo que está previsto para sexta, então a gente está falando de um potencial acordo, As coisas continuam muito parecidas com o que eram antes e que não viabilizaram um cessar-fogo.
Leonardo Trevisan
Você começou a sua conversa no ponto exato. O que é que os Estados Unidos querem? O fim da guerra? Algum equilíbrio no posto de petróleo para que o eleitor americano, quando for a primeira semana de novembro, não chegue na urna para votar muito bravo?
Natuza Neri
Ah, então Trump pode conseguir uma suspensão na guerra e voltar a atacar o Irã depois das eleições de meio de mandato.
Leonardo Trevisan
Ele já avisou que pode fazê-lo. E esse ponto é essencial. Não é um acordo de paz, é uma conversação, é um compromisso de que as negociações continuam na Tusa. Se nós não entendermos isso, nós não entendemos o central desse ponto. Tem uma distância brutal entre os dois grandes aliados. E é simples entender. É efeito vital para Donald Trump que a guerra termine, para que o petróleo volte. Mesmo assim não vai acontecer de imediato, mas para que fique a sensação de que ele vai controlar a inflação. Ele precisa que a guerra termine. Netanyahu precisa que a guerra continue. O fato real é que os três maiores concorrentes, o Yad Lapid, o Bennet, o Yad Lapid é um centro progressista, o Bennet é um ex-ministro do Netanyahu que foi mais para o centro, e o general Netaveh, os três dizem o nosso problema não é a guerra, o nosso problema é quem é o gerente da guerra, nós vamos trocar o gerente, nós vamos trocar o general. Netanyahu não pode sonhar com essa hipótese, porque ele tem uma possibilidade de sair do poder direto para a cadeia muito real. Então, quando nós olhamos para esse quadro, a sobrevivência política dos dois, de Netanyahu e de Trump, está condicionada ao Oriente Médio. Só que, desculpe Natuza, a dureza das palavras. O Irã, todo mundo presta atenção, porque o Irã tem petróleo, envolve o emprego e a renda de qualquer cristão ou pagão. É completamente diferente com o Líbano, as pessoas sequer prestam atenção lá. Mas o Líbano é vital para a ultra-ortodoxia israelense. Ele quer fazer, de alguma forma, que isso continue, que as regras do jogo permaneçam as mesmas. Como é que as regras do jogo vão permanecer as mesmas? Qual é o sentido disso? Qual é a função disso? O Líbano é hoje uma equação muito mais difícil de ser resolvida do que Irã. O Líbano é mais tenso.
Benjamin Netanyahu
O primeiro-ministro de Israel disse que a luta não acabou. Temos que continuar de guarda para nos defender como for necessário, afirmou Benjamin Netanyahu. O premier disse que vai manter militares dentro do Líbano para proteger Israel do Hezbollah, o grupo extremista apoiado pelo Irã. Netanyahu disse ainda que o acordo com o Irã é de Donald Trump e que nem sempre concorda com o presidente americano. Um alto funcionário da Casa Branca afirmou que se o Irã não controlar o Hezbollah, Israel terá o direito de se defender.
Leonardo Trevisan
É por isso que o Irã diz, não tem conversa sobre os meus mísseis, porque ele sabe que o jogo é mortal. O jogo, se Israel avançar e dominar o sul do Líbano, construir a Grande Israel, o próximo passo é ir pra cima com toda a força militar e 90 bombas atômicas. Desculpe, precisa lembrar disso, Israel é um país nuclear. Eles vão pra cima do Irã e não é delicadamente. A outra, o Artur de Vailense, não fala delicadamente. A equação geopolítica no Oriente Médio mudou. Essa equação, Trump está muito aquém de compreendê-la. Aqueles brilhantes escolares americanos que são capazes de compreender isso, não tem qualquer espaço de discussão. Um homem como Blinken, que era o secretário de Estado, Antony Blinken, que era o secretário de Estado de Biden, não consegue de forma nenhuma que seja ouvido, e é nesse ponto que de algum modo a A equação Líbano engole a equação Irã e engole a proposta de paz. É complexo mesmo, Natuza. É complexo e é desesperante, porque hoje já tem mais mortos na guerra no Líbano do que no Irã. 3.900 contra 3.400. A potencialidade do estrago no Líbano é maior para a paz mundial por causa do jogo de contra-forças do que aquela proposta inútil.
Natuza Neri
Professor Trevisan, muito obrigada pelas explicações. Vamos aguardar a sexta-feira com um otimismo cuidadoso, digamos assim, que não haja tanta decepção caso essa suspensão, porque o que eu estou entendendo não é um acordo para acabar com a guerra, pelo que você nos conta, e sim um acordo para suspender a guerra. E aí a gente tem que ver por quanto tempo seria essa suspensão se ela de fato se viabilizar. Torcendo para que sim. Professor, muito obrigada. Bom trabalho para você.
Leonardo Trevisan
Eu é que agradeço o convite e a excelente conversa, Natuza. Muito obrigado por ela, muito agradecido.
Natuza Neri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.
O Assunto – "O acordo de paz entre EUA e Irã: agora é pra valer?"
Data: 16 de junho de 2026
Host: Natuza Neri
Convidado: Leonardo Trevisan (Professor de Relações Internacionais da ESPM), analistas de mercado e especialistas
Tema: Análise do novo acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, seus desdobramentos, riscos e limitações
Neste episódio, Natuza Neri conduz uma discussão detalhada sobre a recente assinatura de um memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, mediado pelo Paquistão, que promete uma pausa de 60 dias nas hostilidades no Oriente Médio. O programa explora se finalmente há chances reais de paz ou se tudo não passa de mais um armistício temporário em meio a disputas profundas, trazendo análises de especialistas, impressões do mercado financeiro e o impacto da postura de Israel sob Benjamin Netanyahu.
“A gente já ouviu essa história de acordo antes. Será que dessa vez pode ser diferente?” [00:01]
"Trump exige também uma velha pauta. Que o regime do Zayatollah se comprometa a não desenvolver nenhum tipo de arma nuclear. E esse é um ponto particularmente importante para Trump." [02:19]
“O Ibovespa subindo 0,7%... analistas projetam impacto positivo nas commodities." [03:18]
“O acordo não é vinculante à Israel, não vale para Israel porque não garante a segurança ao país.” [04:12]
“Netanyahu deveria ser grato pelo que Washington está fazendo, pois se o Irã já tivesse uma arma nuclear, Israel não estaria de pé.” [04:35]
"É um compromisso de se continuar negociando... não é um tratado de paz." [05:25]
"O Irã saiu dessa refrega toda, desses três meses de guerra, muito mais fortalecido do que ele estava." [11:12]
“Tiraram os adultos da sala. Não tem planejador. Tem só gente obediente a Trump.” [13:17]
“...começamos esta guerra por pressão de Israel e de seu poderoso lobby nos Estados Unidos.” [17:09]
“A guerra do Irã... foi feita para que Netanyahu pudesse continuar no poder.” [19:12]
“Não é um acordo de paz, é uma conversação, um compromisso de que as negociações continuam.” [21:45]
“O Irã saiu dessa refrega toda, desses três meses de guerra, muito mais fortalecido do que ele estava.”
– Leonardo Trevisan, 11:12
“Tiraram os adultos da sala. Não tem planejador. Tem só gente obediente a Trump.”
– Leonardo Trevisan, 13:17
“Netanyahu pressionou Trump para que ele o ajudasse a ganhar a guerra eleitoral em Israel.”
– Leonardo Trevisan, 19:12
“Não é um acordo de paz, é uma conversação, um compromisso de que as negociações continuam.”
– Leonardo Trevisan, 21:45
“A equação Líbano engole a equação Irã e engole a proposta de paz.”
– Leonardo Trevisan, 24:28
O episódio mantém um tom realista, analítico e por vezes crítico, principalmente ao comentar os objetivos e limitações das decisões americanas e israelenses. Trevisan enfatiza a complexidade e as ambiguidades envolvendo o acordo, sem otimismo ingênuo: a principal conclusão é que há mais razões para ceticismo do que para acreditar em uma paz duradoura.
Resumo Final:
O acordo anunciado entre Estados Unidos e Irã representa muito mais um armistício pragmático, motivado por pressões econômicas e políticas tanto em Washington quanto em Teerã, do que uma resolução definitiva para o conflito no Oriente Médio. O fator Israel e, sobretudo, a instabilidade no Líbano permanecem como obstáculos centrais, tornando a paz, pelo menos por ora, uma esperança remotamente possível – e profundamente condicionada ao xadrez geopolítico e às disputas eleitorais de seus principais atores.