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Natuza Nery
Você se lembra como era o mundo três décadas atrás? A China, por exemplo, começava a ganhar relevância no mundo e passava por um processo de transição econômica se abrindo mais para o mercado global. A Europa apostava na integração econômica como forma de fortalecer os seus mercados. E os Estados Unidos estavam sob o governo Bill Clinton, uma economia americana em expansão e o PIB do país crescendo cerca de 3,8% em 1996. Nesses 30 anos, muita coisa de toda a ordem aconteceu. Foram oito Olimpíadas, quatro papas e o Brasil virou pentacampeão mundial de futebol. Foi justamente nesse mundo de três décadas atrás que um acordo imenso começou a ser costurado. Era o começo de uma negociação ambiciosa entre a América do Sul e a União Europeia. Um processo lento, muito lento.
Roberto Azevedo
A primeira ata foi assinada em 1995 e o primeiro esboço de um tratado de livre comércio foi em 1999. O plano era assinar o acordo no ano 2000, mas aí veio a gravíssima crise econômica de 2000 a 2002 e as conversas entraram no freezer. Em 2010 foram retomadas em clima de agora vai. mas tudo se estancou novamente até uma nova tentativa em 2014 e de novo tudo ficou paralisado até 2019 e deu errado mais uma vez. No ano passado o acordo ressuscitou e parecia que ia acontecer em dezembro, mas não foi possível.
Natuza Nery
Agora, 30 anos depois de intensas negociações, idas e vindas, a hora parece ter chegado para o Mercosul e para a União Europeia apertarem as mãos em sinal de acordo fechado. Na sexta-feira, 9 de janeiro, países da Comissão da União Europeia aprovaram finalmente o documento.
Roberto Azevedo
O objetivo é facilitar as trocas comerciais entre os dois blocos, os 27 países que fazem parte da União Europeia e quatro países do Mercosul, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. O acordo abrange um mercado de 720 milhões de consumidores, 450 milhões lá, 270 milhões aqui.
Natuza Nery
Era o aval que faltava para destravar o acordo de números superlativos. A assinatura final está prevista para sábado, 17 de janeiro.
Narrator/Reporter
Ele prevê a abertura comercial entre os 27 países do bloco europeu e quatro sul-americanos. Juntos, eles respondem por cerca de um quarto da riqueza produzida no mundo. um PIB conjunto de 120 trilhões de reais. As tarifas alfandegárias nesse superbloco serão reduzidas em até 90% de forma gradual.
Natuza Nery
Um tratado histórico com potencial para criar a maior zona de livre comércio do mundo.
Narrator/Reporter
Para a Europa, representa a busca por novos parceiros e menos dependência em um mundo instável. Para o Mercosul, abre as portas de um dos maiores mercados consumidores do planeta.
Natuza Nery
Se consolidado, o acordo vai fazer frente a um momento de tensões geopolíticas, protecionismo, fragmentações e disputa entre grandes potências em todo o globo.
Roberto Azevedo
O Mercosul andava fraco e era criticado por seus próprios sócios, mas este acordo com o Velho Continente dá chance de dar uma marombada no bloco do Conil Sul e promete colocar panos quentes nas brigas internas. O fato é que se encerra uma negociação interminável.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Onato Zaneri e o assunto hoje é o acordo entre Mercosul e União Europeia e as portas que se abrem para o Brasil. Minha conversa é com o embaixador Roberto Azevedo, ele foi diretor-geral da Organização Mundial do Comércio entre 2013 e 2020 e hoje é presidente da 9G Consultoria. Terça-feira, 13 de janeiro. Roberto, a título de curiosidade, há quanto tempo você acompanha essa novela de quase 30 anos das negociações entre Mercosul e União Europeia?
Roberto Azevedo
Há muito tempo. Você sabe que quando eu fui chefe do departamento econômico lá do Itamaraty, eu chefeei as negociações.
Natuza Nery
Isso era quando?
Roberto Azevedo
Em 2007, 2008.
Natuza Nery
Nossa, então há muito tempo.
Roberto Azevedo
Muito, muito tempo atrás. Chefe, naquele momento até houve uma decisão nossa de avançar o máximo possível com as negociações e tal. A Argentina estava de acordo que as coisas avançassem, porque sempre teve muito essa sincronia de Brasil e Argentina. Eles também estavam de acordo e tal, mas naquele momento os europeus não demonstraram nenhum interesse. em avançar. Aí, durante aquele período que eu estava lá chefiando a subsecretaria, eu até falei para eles, eu falei, olha, tem uma janela de oportunidade aqui, se a gente perder essa janela, eu não sei quando que vai aparecer de novo. Aquilo deve ter sido, como eu falei, 2007, 2008. Nós estamos reabrindo, estamos fechando essa janela agora, de maneira positiva, quem sabe, esperemos.
Narrator/Reporter
O parlamento de cada país também precisa dar a sua aprovação. O parlamento europeu, que reúne deputados eleitos nos países integrantes da União Europeia, também precisa aprovar o acordo. Depois passa pela ratificação no parlamento de cada um dos 27 países integrantes do bloco. Quando essas duas etapas forem concluídas lá na Europa, o acordo então entra em vigor.
Até lá a União Europeia vai aplicar um acordo interino que permite a implementação antecipada das regras de comércio e investimentos.
Natuza Nery
E por que o acordo foi assinado agora?
Roberto Azevedo
Em parte estava maduro, né? Já no governo Houve um anúncio de que as negociações estavam concluídas, eu acho que nós todos lembramos disso. anterior... Com a mudança de governo, este governo atual pediu alguns ajustes, mas a negociação comercial, as planilhas, as tarifas, os prazos de implementação estavam bem avançados, estavam basicamente fechados. Então, eu acho que o que faltou era o elemento político, e o elemento político se concluiu agora. E se concluiu agora, eu acho que em boa medida pela própria fragmentação global da área comercial, pela crise no multilateralismo, as ações do presidente Trump, da administração Trump, que fazem com que os países procurem mitigar um pouco os riscos de um fechamento de mercados, como está acontecendo no caso dos Estados Unidos. Então, agora, esse acordo significa um passo.
Narrator/Reporter
Adiante para quem acredita no multilateralismo, nas.
Regras internacionais de comércio, na negociação e no livre comércio.
Roberto Azevedo
O dado concreto é que nós do Brasil e nós do Mercosul trabalhamos muito para aceitar esse acordo e passar uma ideia nesse momento em que você tem um presidente dos Estados Unidos querendo fragilizar o multilateralismo e fortalecer o unilateralismo, nós queríamos fazer um acordo para mostrar ao mundo que Uma população de 722 milhões de habitantes e um PIB de 22 trilhões de reais estavam fazendo um acordo para defender o multilateralismo.
Então tudo isso eu acho que combina para dar aquele impulso político que faltava, eu acho, dos dois lados.
Natuza Nery
Bom, a gente está falando, portanto, de uma negociação que já se arrasta há muito tempo. Acho que vale a pena pedir para que você explique qual é a importância desse acordo do ponto de vista geral.
Roberto Azevedo
Eu acho que ele é muito importante, já era importante antes e agora muito mais ainda. Eu acho que a primeira mensagem que vai para o mundo é de que países importantes, blocos importantes, como é o caso do Mercosul e da União Europeia, que são responsáveis por 20% do PIB mundial, eles acreditam que o comércio internacional não é um jogo de soma zero. Que é um pouco a mensagem que vinha de Washington. Eu exportei, eu ganhei. Eu importei, eu perdi. Eu acho que não é assim. A lógica econômica não é essa. A lógica da integração das cadeias produtivas é um jogo de ganha-ganha. Acho que os dois lados ganham. Sobretudo quando há complementariedades. E há complementariedades importantes no caso de Mercosul e União Europeia. Há também um reforço, a mensagem que se dá, é um reforço para a noção de que regras são importantes, então não é apenas um acordo de abertura comercial, há regras que são colocadas na mesa, tanto que há um mecanismo de solução de controvérsia entre as duas partes, entre o Mercosul e a União Europeia, caso haja conflitos de interesse, caso haja algum tipo de desavenças comerciais, isso é normal, é natural, à medida que você vai adensando o relacionamento comercial isso acontece com maior frequência. Também se coloca a viabilização de investimentos, o risco regulatório diminui, a previsibilidade aumenta, tudo isso faz com que os investidores, as empresas, se sintam mais à vontade de apostar no projeto. Apostar num projeto, por exemplo, de uma cadeia produtiva, de um produto qualquer, onde uma parte da produção se dê no Mercosul, a outra parte se dê na União Europeia, e o produto final termina saindo um produto mais competitivo globalmente.
Narrator/Reporter
A União Europeia é o segundo parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. A expectativa é que também aumente o investimento europeu em empresas sediadas em países do Mercosul. Com essa nova corrente de comércio, a Apex, agência que promove produtos brasileiros no exterior, calcula que as exportações para o bloco europeu possam aumentar em 7 bilhões de dólares.
Roberto Azevedo
Acho que todas essas lógicas são reforçadas pelo acordo. Sem falar disso, você está apostando num projeto de longo prazo. E hoje em dia, sobretudo com a visão transacional dos Estados Unidos, eu acho que os projetos tendem a ser mais efêmeros, mais circunstanciais, e apostar no longo prazo é uma coisa importante.
Natuza Nery
Bom, quando eu te perguntei o que havia viabilizado finalmente, porque se a gente for olhar para o fim do ano, o fim do ano a coisa estava enterrada. O presidente brasileiro até deu uma declaração bastante dura até sobre isso.
Roberto Azevedo
E eu já avisei para eles, se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for precisar.
Natuza Nery
E aí, de repente, veio a notícia de que ele havia sido resgatado ou ressuscitado. Você citou Estados Unidos, citou Washington. Qual é o efeito ou o impacto do fator Trump e de seu protecionismo nesse momento atual? Como mola propulsora para esse resgate do acordo?
Roberto Azevedo
Então vamos inverter a resposta. Na verdade, eu respondi com o macro, que é essa pergunta, e o que viabilizou nos últimos momentos para você fechar o acordo, na verdade, foi, eu acho, que a conversa política interna na Europa. Havia uma disposição da grande maioria dos países da União Europeia de fechar o acordo, e essas salvaguardas que foram negociadas agora recentemente, Para superar a resistência de.
Narrator/Reporter
Parte dos países europeus, especialmente no setor agrícola, a União Europeia aprovou um sistema de salvaguardas. Essas medidas permitem que a União Europeia volte a aplicar tarifas caso os produtos do Mercosul fiquem mais de 5% mais baratos que os equivalentes europeus ou a entrada de produtos vindos do Mercosul aumente mais de 5% em três anos. Há também mecanismos para barrar produtos que não atendam às exigências sanitárias europeias.
Roberto Azevedo
Isso tudo eu acho que deu aquele conforto adicional necessário para os países que eram o fiel da balança, no fundo a Itália. Porque havia já oposição de algumas, da França, da Áustria, da Irlanda, Polônia, e a Itália se unindo a eles inviabilizava o acordo. Essas salvaguardas eu acho que deram um conforto adicional ao governo italiano e ele voltou a apoiar o acordo.
Narrator/Reporter
Era necessário o apoio de pelo menos 15 dos 27 países, representando 65% da população europeia. Foram 21 votos a favor. França, Irlanda, Polônia, Áustria e Hungria votaram contra e a Bélgica se absteve.
Natuza Nery
De uma certa maneira, você já desenhou para a gente as vantagens desse acordo. Eu queria entender melhor quais seriam, eventualmente, se houver os pontos de atenção ou até mesmo os pontos contrários para o Mercosul e, em particular, para o Brasil. Quer dizer, esse acordo será sempre bom para o Brasil ou há pontos em que pode não ser?
Roberto Azevedo
É curioso, Natuza, porque eu ouço muito, as pessoas me perguntam muito assim, quem é que ganha e quem é que perde em um acordo desse tipo, sobretudo para o Brasil, quais são os setores ganhadores, quais são os perdedores, e eu sinto que a pergunta vem carregada com a percepção de que ganha quem vender mais.
Natuza Nery
Você até citou a expressão que eu gostei muito do ganha-ganha, né?
Roberto Azevedo
Exato, exato. Eu acho que é um pouco isso, ganhar no sentido mais tradicional de vamos vender mais. Eu acho que aí o setor agrícola é o setor que se sobressai, até porque é competitivo, é muito competitivo. Apesar de barreiras que possam aparecer e tudo mais, se não forem barreiras proibitivas, é um setor que vai crescer.
Natuza Nery
Com um mercado de 270 milhões de consumidores na América do Sul e 450 milhões na Europa. Ganham espaço os produtores sul-americanos de carne, açúcar, arroz, mel e soja. O Brasil avança com as exportações de café, suco de laranja, milho, algodão, celulose, frutas tropicais, minério de ferro, etanol e biodiesel. Da Europa, devem chegar contêineres com automóveis, máquinas, bebidas alcoólicas, chocolate, azeite e queijos. Produtores de proteína animal do Mercosul ganham.
Narrator/Reporter
Prioridade no mercado europeu.
Roberto Azevedo
O Brasil complementa a indústria local com aquilo que eles não têm. O ponto especial, por exemplo, no frango.
É o peito de frango que vai para lá.
Ele vai criar mais valor e o Brasil terá, sim, oportunidades de fazer produtos com valor agregado. Esse setor é um setor que tem muito a ganhar, do ponto de vista de vendas. Aí se falar, mas no setor industrial a gente vai perder, porque vai importar mais. Eu não acredito nisso. Eu acho que o setor industrial, francamente, é um outro grande ganhador, por outros motivos. Por quê? Não é que vai exportar de repente, de uma hora para outra, mas é porque são oportunidades que se descortinam. São oportunidades que se descortinam num setor de alto valor agregado. A União Europeia é o segundo maior comprador de produtos industrializados e de valor agregado do Brasil, das primeiras Estados Unidos e segunda União Europeia. A China, por exemplo, não compra quase nada. As Uniões Europeias, sim.
Natuza Nery
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria, para cada R$ 1 bilhão exportado.
Narrator/Reporter
Do Brasil à União Europeia, são gerados cerca de 21 mil postos de trabalho no país. O presidente da CNI afirma ainda que deve ocorrer um grande volume de novos investimentos no parque industrial brasileiro.
Roberto Azevedo
Além disso, você tem a possibilidade de integração de cadeias. O Brasil tem capacidade produtiva, tecnológica, competitividade suficiente para integrar essa cadeia produtiva, seja fornecendo as etapas finais do processamento, seja fornecendo insumos para o processamento, ou até fornecendo a energia limpa necessária para determinados tipos de processamento. Os europeus estão colocando barreiras, exigindo e demandando cada vez mais que o setor industrial deles produza produtos com baixa pegada de carbono. Isso é inviável na Europa muitas vezes pelo próprio teor de carbono que existe na matriz elétrica europeia e no Brasil não. Nós temos uma capacidade de energia renovável extraordinária. Quase 90% do nosso da nossa rede elétrica é composta de energia limpa. Então essas complementaridades vão se oferecendo, se abrindo para a indústria brasileira. O produtor industrial brasileiro com frequência está olhando para o mercado brasileiro ou para o mercado do Mercosul, para o mercado regional da América do Sul. Ele olha primeiro para o entorno geográfico mais imediato. Até porque tem proteção tarifária e tudo mais. Então ele coloca o produto dele ali. Ele mira esse mercado. Se ele chegar a ser competitivo o suficiente, se ele tiver um excedente de produção ou alguma coisa assim, aí ele vai vender para os mercados mais competitivos, mais distantes etc. Acho que essa mentalidade tende a mudar nesse acordo com a União Europeia. Quando você começa a ver oportunidades na União Europeia, você começa a pelo menos ter a meta de ter uma competitividade compatível com os mercados mais sofisticados. E isso permite que essa lógica de produzir ou de mirar o mercado interno primeiro e o externo se der, muda para vamos olhar para o mercado global, será que eu sou competitivo globalmente? E isso muda completamente o jogo que nós temos por diante. Mas não é uma coisa que está só nas mãos do setor privado, acho que o governo tem seu papel nisso também.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com Roberto Azevedo. Eu fico imaginando aqui como fica a percepção de quem não é produtor de algo, um produtor de soja, por exemplo, que vende para o mercado externo. Ele consegue traduzir claramente quais são as vantagens para ele dessa coisa chamada acordo entre Mercosul e União Europeia. Para quem não produz e não vende lá para fora, para quem não é diretamente impactado por essa notícia. Como explicar a importância disso para o dia a dia, por exemplo, dos brasileiros?
Roberto Azevedo
Um excelente ponto que você levanta, porque quando a gente fala de ganhadores e perdedores, a gente deixa de pensar que um dos grandes ganhadores é a sociedade brasileira, é a economia brasileira. Como um todo. Por quê? Primeiro porque a qualidade dos produtos, à medida que você começa a atender padrões muito estritos, padrões bastante elevados de qualidade, de sanidade animal, vegetal, etc., para poder entrar no mercado europeu, isso em si já é uma melhora para o consumidor brasileiro, que tem uma garantia de um produto de alta qualidade. Já tem hoje, não é que a gente esteja botando no mercado brasileiro produto de baixa qualidade, não, mas você sobe ainda mais o sarrafo.
Narrator/Reporter
Com o acordo, a exportação de mais produtos, como café, milho, minério de ferro, tende a ser incrementada. Da Europa, chegam para cá, principalmente, automóveis e máquinas, além de chocolate, azeite, queijos e bebidas alcoólitas.
Roberto Azevedo
Os produtos também entram mais baratos, eles são mais competitivos, porque você está aumentando a competição nos produtos que são ofertados ao consumidor brasileiro. Isso, por definição, faz com que os preços tendam a ser mais competitivos, então ganha o consumidor. Além disso, tem alguns setores, por exemplo, compras públicas. O setor de saúde foi excluído pelo Brasil. SUS, por exemplo, não entra nesse acordo na área de compras públicas. Mas compras públicas é importantíssimo. Agora você tem a competição dos fornecedores europeus. Isso não só oferece produtos de boa qualidade a preço mais competitivo nas compras públicas, como também tem o efeito de desincentivar a corrupção. Isso existe e acontece, não vamos fechar os olhos para isso, existe e acontece. E com a entrada do competidor de estrangeiro nas licitações internas, isso tende a diminuir o componente da corrupção. Tanto que o acordo de compras governamentais da OAMC, da Organização Mundial do Comércio, foi rotulado com o título do Acordo Anticorrupção. E o Brasil não era parte, então não estamos falando disso de Brasil apenas, estamos falando do mundo inteiro. E um terceiro ponto muito importante é que com a integração dessas cadeias de produção, você tende a ter mais empregos. Mais empregos no setor industrial, por exemplo, que são empregos de boa qualidade, que remuneram bem, Isso tudo multiplica os ganhos da economia, o crescimento econômico tende a crescer, há várias estatísticas, cada uma com um número um pouquinho diferente, mas o fato é a economia cresce mais, a economia cresce mais, são mais empregos, mais dinheiro no bolso, melhores condições para a sociedade brasileira, para o consumidor brasileiro.
Natuza Nery
E demora muito para sentir esses efeitos?
Roberto Azevedo
Depende da velocidade de integração das cadeias produtivas. Quanto menos óbices, quanto menos barreiras não tarifárias forem colocadas em vigor, mais rápido essa integração acontece. Pode ser relativamente rápido, sim. Agora, tem alguns setores que têm 15 anos até eles serem totalmente liberalizados em termos de tarifa. Então, é um processo gradual, não vai acontecer da noite para o dia, mas o sentido é um sentido positivo. O Brasil vai crescer melhor e mais rápido nos próximos anos.
Natuza Nery
A imagem que eu tô fazendo na minha cabeça, te ouvindo, é abrimos a porta, agora só falta entrar, né? Essa entrada, o ritmo dessa entrada é que vai ser determinado pelos dois grupos.
Roberto Azevedo
E aí nós vamos ter a participação de todos nisso, dos governos, dos legislativos, dos setores produtivos, da academia, da opinião pública em geral, da imprensa, a maneira como as coisas vão ser veiculadas. Tudo isso depende de um clima político e econômico, evidentemente, que permita essa integração acontecer de maneira o mais rápido possível. Integração econômica é sempre difícil, ela não é fácil não, não é fácil porque tem dores, a dor do parto. Mas sempre vem de uma maneira geral, quando a integração é bem feita, quando ela é equilibrada e as partes se preparam para essa integração, o resultado é sempre muito positivo, o bebê é saudável e uma boa notícia.
Natuza Nery
A Europa sempre demonstra preocupação com a política ambiental brasileira e isso normalmente soa como desculpa justamente para impedir que produtos agrícolas brasileiros cheguem na Europa com mais facilidade. Como é que fica o agro nessa história, o agro brasileiro, Roberto?
Roberto Azevedo
Não vai ficar pior. Claramente não vai ficar pior, porque esse protecionismo que a gente chama no meio comercial do protecionismo verde, que no fundo é usar uma agenda legítima de sustentabilidade, de proteção ambiental, para esconder o protecionismo. Então os argumentos, as desculpas são ótimas, são muito legítimas, mas a finalidade é ilegítima, porque é de proteger de maneira disfarçada o seu setor doméstico. Eu acho que, com o passar do tempo, nós vamos aumentar e melhorar os mecanismos de rastreabilidade, de transparência. Muito no Brasil é transparência. Agora, essas coisas têm um custo e têm um tempo. Tanto que a própria União Europeia colocou no ar a lei anti-desmatamento e tudo mais, e colocou exigências tão draconianas, tão difíceis de serem implementadas, que eles mesmo não conseguem implementar. Então estão atrasando a entrada em vigor já há um ano, dois anos, porque não conseguem colocar em vigor, as exigências são muito onerosas. E no fundo quem se prejudica com isso é o pequeno produtor. Então a gente tem que tomar cuidado para o pequeno produtor não ficar excluído do mercado por exigências esdrúxulas e desnecessárias. Mas para isso também, Natuza, tem o próprio mecanismo de solução de controvérsias do acordo. A União Europeia preza tanto o meio ambiente. Mas eu me lembro, porque eu era na época chefe da área de contenciosos do Itamaraty, Eu era litigante na época quando a União Europeia entrou com um contencioso contra o Brasil, porque a gente não queria importar mais pneu usado da União Europeia. E a nossa alegação, evidentemente, era de que aumenta o passivo ambiental você importar o pneu velho, que tinha mais um ciclo de vida, o recalçotado, enquanto o pneu novo tem dois ciclos de vida. E os europeus lutaram até o final querendo exportar lixo para o Brasil, Perderam, nós ganhamos o contencioso, então isso sempre vem muito atrelado a interesses comerciais muito imediatos e a solução de controvérsias, os painéis com peritos conseguem entender a lógica e separar o joio do trigo. o que que é um padrão que efetivamente faz sentido, é legítimo e aquele que é protecionismo totalmente, às vezes muito mal disfarçado.
Natuza Nery
Bom, e no limite, né, a depender da velocidade da entrada depois dessa porta aberta? Essa parceria, esse acordo pode fazer com que a nossa dependência em relação aos Estados Unidos reduza? Porque agora me parece que virou uma questão de ordem para diversos países, né? Porque passou a ser tão instável a relação comercial com os Estados Unidos que reduzir essa dependência pode ser uma boa ideia. A gente pode olhar esse acordo também sob essa lente?
Roberto Azevedo
Sem dúvida, eu acho que mais do que isso, não só reduzir a dependência, seja dos Estados Unidos, seja de quem quer que seja, ou dos outros também, mas eu acho que o que também ajuda a... a criar uma cultura de parcerias econômicas e estratégicas. Então, eu espero muito que esse acordo, que aliás foi acompanhado pouco antes do acordo com o EFTA, foi precedido do acordo com o Singapura, eu espero que venham outros, que venham vários outros acordos, que isso não seja o fim da trilha, que isso seja apenas um ponto de partida ainda mais efetivo e claro para outros acordos, para outras parcerias econômicas, porque na minha opinião, pelo menos, eu acho que muitos acompanham ela, o melhor remédio para um mundo fragmentado, desglobalizado, com o protecionismo em ascendência, é você diversificar, é você ter oportunidades e parcerias comerciais em várias geografias, em vários países, isso é fundamental no século XXI, Sem dúvida.
Natuza Nery
Nenhuma, me parece o único caminho possível em termos atuais. A gente vem de meses em que nós aqui no Brasil passamos por um fortíssimo tarifácio americano e agora começamos 2026 com a notícia desse acordo. Olhando para a conjuntura atual, qual é o tamanho do Brasil no comércio global, Roberto? classifica o potencial brasileiro a essa altura do campeonato.
Roberto Azevedo
A participação do Brasil no começo mundial como um todo é desproporcionalmente pequeno se comparado ao tamanho da nossa economia. Pelo tamanho da economia brasileira, nós deveríamos ter uma participação muito maior no mercado internacional e isso não acontece. E não acontece em boa parte pelo próprio protecionismo brasileiro, essa é a realidade, vamos ser muito claros. É um país ainda protecionista, as tarifas médias são tarifas elevadas, sobretudo na área não agrícola, na área industrial, as nossas tarifas fecham muito o mercado, o que significa que há também uma baixa competitividade nesses setores. Esse é o problema que nós vínhamos falando antes. O Brasil é pouco competitivo, saindo das commodities, onde nós somos extremamente, tanto nos alimentos quanto em outras commodities, commodities minerais, por exemplo. Mas no setor industrial, de produtos processados, finalizados, transformados, etc., nós somos muito pouco competitivos e isso significa que o Brasil Vende pouco, participa pouco do mercado global e internacional. E isso, de uma certa forma, diminuiu a exposição do Brasil aos choques de comércio externo. Então muita gente diz, ah, tá vendo só, olha aí, os Estados Unidos fechou lá e... nós não entramos em recessão. Isso não é uma coisa boa. Isso não é uma coisa boa. Uma coisa boa seria ter uma integração muito mais efetiva no comércio internacional, só que mitigando os riscos, não estando dependentes de um país apenas, mas sim participando de vários mercados, tendo uma participação bastante horizontal, espalhada, pulverizada. Isso é que dá segurança às nossas exportações, ao nosso comércio, à nossa economia, de uma maneira saudável. E é um trunfo do governo Lula, agora pro ano eleitoral. Abriu mais de 500 novos mercados. O ideal é você estar pouco suscetível a choques externos, porque aí você mitigou riscos, mas participando de maneira... A única maneira de você se desenvolver em termos econômicos, sociais, tecnológicos, é se integrando com as economias mais avançadas. Não tem outra forma.
Natuza Nery
Roberto, que excelente ouvir você. Muito obrigada pelo teu tempo e bom trabalho.
Roberto Azevedo
Obrigado, Natuza. Foi um prazer estar com você de novo. Tchau, tchau.
Natuza Nery
Antes de terminar esse episódio, eu preciso dizer que ele marca uma despedida aqui na nossa equipe. O Thiago Kazurowski, o nosso Kazoo, editor de áudio, vai partir para novos desafios profissionais. Então eu quero, em nome de toda a equipe do assunto, desejar todo o sucesso do mundo para o Kazoo. A gente tem certeza que você, Kazoo, vai arrebentar onde quer que você esteja. Só que a gente tá triste, porque você vai deixar muita saudade por aqui. A gente também quer agradecer por esses quase seis anos de parceria aqui na equipe de podcasts do G1 e te dizer, Kazuh, que você fez história e que você deixou a sua marca aqui no assunto. Muito obrigada. Em nome de todos nós aqui, seus amigos, obrigada por tudo. Um beijo e boa sorte. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva e Carlos Catellan. Neste episódio colaborou também Paula Paiva Paulo. Eu sou Nath Zaneri e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Podcast: O Assunto (G1)
Host: Natuza Nery
Data: 13 de janeiro de 2026
Convidado: Roberto Azevedo (ex-diretor-geral da OMC)
Este episódio aborda, em tom de celebração e análise crítica, a assinatura histórica do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que encerra quase 30 anos de negociações. Natuza Nery entrevista Roberto Azevedo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio e profundo conhecedor da "novela" das relações Mercosul-Europa. Juntos, eles destrincham as principais etapas da negociação, o conteúdo e impacto do acordo, os desafios e as oportunidades abertas para o Brasil e o Mercosul, bem como as implicações globais e setoriais desse movimento inédito no comércio internacional.
“A primeira ata foi assinada em 1995 e o primeiro esboço de um tratado de livre comércio foi em 1999... um processo lento, muito lento.” — Roberto Azevedo [01:04]
“Agora, 30 anos depois de intensas negociações, idas e vindas, a hora parece ter chegado...” — Natuza Nery [01:40]
“O objetivo é facilitar as trocas comerciais entre os dois blocos...” — Roberto Azevedo [01:59]
“O parlamento europeu... também precisa aprovar o acordo. Depois passa pela ratificação no parlamento de cada um dos 27 países integrantes do bloco.” — Narrator/Reporter [05:24]
“Esse acordo significa um passo adiante para quem acredita no multilateralismo, nas regras internacionais de comércio...” — Roberto Azevedo [07:17]
“Países importantes, blocos importantes… acreditam que o comércio internacional não é um jogo de soma zero... a lógica da integração das cadeias produtivas é um jogo de ganha-ganha.” — Roberto Azevedo [08:15]
“O setor agrícola é o setor que se sobressai, até porque é competitivo, é muito competitivo...” — Roberto Azevedo [14:37]
“Um dos grandes ganhadores é a sociedade brasileira, é a economia brasileira como um todo...” — Roberto Azevedo [20:10]
“Essas salvaguardas... deram um conforto adicional ao governo italiano e ele voltou a apoiar o acordo.” — Roberto Azevedo [12:54]
“Esse protecionismo... o protecionismo verde, que no fundo é usar uma agenda legítima de sustentabilidade... para esconder o protecionismo.” — Roberto Azevedo [25:25] Pequenos produtores podem ser penalizados por regras ambientais excessivas. Mecanismos de solução de controvérsias previstos para lidar com disputas.
“Tem alguns setores que têm 15 anos até serem totalmente liberalizados em termos de tarifa...” — Roberto Azevedo [23:18]
“Os produtos também entram mais baratos... ganha o consumidor.” — Roberto Azevedo [21:14]
“Mais do que reduzir a dependência... o que também ajuda a criar uma cultura de parcerias econômicas e estratégicas.” — Roberto Azevedo [28:43]
“A participação do Brasil no comércio mundial... é desproporcionalmente pequena se comparada ao tamanho da nossa economia. E não acontece em boa parte pelo próprio protecionismo brasileiro...” — Roberto Azevedo [30:34]
Este episódio é um guia essencial para compreender a dimensão histórica, o significado político e econômico e os caminhos abertos pelo acordo UE-Mercosul, especialmente para o Brasil. O tom é informativo, didático e equilibrado, pontuado por visões práticas, análises técnicas e provocações lúcidas sobre o futuro da integração brasileira ao comércio global.