O Assunto
Episódio: O Agente Secreto e o Mais Brasileiro dos Oscars
Data: 23 de janeiro de 2026
Host: Natuzanera (Natuza Nery)
Convidado principal: Waldemar Dallenogari (crítico de cinema e historiador)
Participações: Kleber Mendonça Filho (diretor), Gabriel Domingues (diretor de elenco), outros especialistas
Visão Geral
O episódio celebra as impressionantes cinco indicações brasileiras ao Oscar 2026, com destaque especial para o filme “O Agente Secreto”, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, e sua trajetória histórica. Natuza Nery explora com convidados o novo status do cinema nacional, bastidores, o papel da memória e da regionalidade, desafios de distribuição e internacionalização, e as razões do sucesso recente do Brasil na premiação mais prestigiada do cinema mundial.
Principais Pontos e Discussões
1. O Marco Históricos das Indicações Brasileiras (00:33)
- O Agente Secreto recebeu quatro indicações ao Oscar 2026: Melhor Filme Internacional, Melhor Filme, Melhor Ator (Wagner Moura), e Melhor Direção de Elenco – um feito inédito.
- Apenas “Cidade de Deus” havia chegado a tantas indicações.
- Também há destaque para a indicação de Adolfo Veloso em Melhor Fotografia, com “Sonhos de Trem”.
"Dia Histórico para o Cinema Brasileiro. Mais um."
— Natuza Nery (00:33)
2. Atmosfera, Memória e Regionalidade em “O Agente Secreto” (00:55 – 02:50)
- O filme ambienta o Recife dos anos 70, explorando paranoia, vigilância e repressão sob o jugo da ditadura militar.
- Pirraça é um conceito-chave, mesclando resistência e humor diante da opressão.
- Kleber Mendonça Filho associa sua obra à memória do carnaval, à herança familiar, e à identidade cultural nordestina.
"A combinação... de vir de uma cidade que é o Recife, que tem um talento muito natural, um talento nato para a cultura, para a literatura, para o teatro, para a música e, claro, para o cinema."
— Kleber Mendonça Filho (00:55)
"Eu acho que cada filme é um pedaço de memória."
— Kleber Mendonça Filho (02:50)
3. Reconhecimento Internacional e Construção de Identidade (01:31, 05:19)
- “O Agente Secreto” foi o primeiro brasileiro a ganhar dois Globos de Ouro; Wagner Moura levou o prêmio de Melhor Ator.
- “Sonhos de Trem” também ganha destaque internacional.
- O cinema nacional é celebrado por transformar memórias e traumas coletivos em narrativas universais, conectando passado e presente.
"Viva o Brasil, viva a cultura brasileira."
— Waldemar Dallenogari (01:31)
"A memória se firma como o eixo do cinema brasileiro, movendo narrativas, construindo identidade e conectando passado e presente."
— Natuza Nery (05:19)
4. O Protagonista, Wagner Moura, e Seu Reconhecimento Sem Precedentes (04:10 – 04:33, 22:27 – 22:36)
- Wagner Moura é o primeiro brasileiro indicado ao Oscar de Melhor Ator, competindo com astros internacionais.
- O filme exemplifica como a performance e a temática local conquistaram a crítica global.
"Wagner Moura é o único na categoria de melhor ator que não nasceu nos Estados Unidos, e o primeiro brasileiro."
— Gabriel Domingues (22:27)
5. Bastidores e Estratégias de Internacionalização (07:34 – 10:56, 12:39 – 13:44)
- Nova fase do cinema brasileiro: campanha estruturada, festivais internacionais, sessões fechadas, e envolvimento de elenco/direção são fundamentais para a visibilidade.
- O sucesso de Kleber Mendonça Filho e Walter Salles reforça a importância de planejamento para conquistar o mercado estrangeiro.
- A estrutura de financiamento: investimento público (Fundo Setorial do Audiovisual, Lei Rouanet) e aportes internacionais.
"Não adianta só ter um grande filme se não tem campanha. Antigamente, os filmes brasileiros colocados para o Oscar, eles tinham uma visibilidade muito baixa nos Estados Unidos."
— Waldemar Dallenogari (09:32)
"O Brasil tem ferramentas, tem condições, precisa, eu acho, que refinar processos."
— Waldemar Dallenogari (13:03)
- Discussão sobre o desafio de produção fora do eixo Rio-São Paulo e o impacto de “O Agente Secreto” ao celebrar Recife como personagem.
6. A Nova Categoria do Oscar e o Papel da Direção de Elenco (19:46 – 20:57)
- Estreia da categoria de Melhor Direção de Elenco (casting).
- Falta de precedentes torna a disputa ainda mais aberta, mas a escolha do elenco em “O Agente Secreto”, sobretudo Tânia Maria, é largamente elogiada.
"Sempre quando eu vejo pessoas comentando de O Agente Secreto, a gente chega no nome da Tânia Maria com uma facilidade incrível, porque ela tá muito bem."
— Waldemar Dallenogari (19:46)
7. Memória, Ditadura e Narrativas Populares (25:59 – 28:59)
- A presença de lendas urbanas, como a “perna cabeluda”, chama atenção de plateias internacionais e se revela como linguagem para abordar traumas históricos e violência institucional.
- Discussão sobre como obras com temas regionais conseguem se tornar universais ao explorar angústias humanas fundamentais.
"...os estrangeiros, quem não era brasileiro, estavam totalmente envolvidos em saber mais sobre as lendas urbanas, em saber mais sobre contexto. Então é um filme que eu acho que ele desperta essa curiosidade."
— Waldemar Dallenogari (27:26)
8. O Futuro do Cinema Brasileiro e a Significância da Memória (28:59 – 31:38)
- A memória como força motriz no sucesso recente (“Ainda Estou Aqui”, “O Agente Secreto”, “Cidade de Deus”).
- Pluralidade de gêneros e estilos como caminho, aliando histórias pessoais, arquivos, e narrativas orais.
- Importância de expandir oportunidades para novos diretores e roteiristas.
"...a forma como existe a estrutura de Um Agente Secreto, numa relação da memória com a história... dão uma camada extra que eu penso que faz com que mesmo a pessoa que não está envolvida no contexto [...] consiga lidar com as angústias do protagonista."
— Waldemar Dallenogari (29:39)
Timestamps de Segmentos Importantes
- 00:33: Fato histórico das indicações ao Oscar
- 00:55 & 02:50: Kleber Mendonça Filho fala sobre memória, carnaval e construção do filme
- 05:19: Cinema nacional como eixo de memória e identidade
- 09:56: Estratégias de internacionalização e campanha de Oscar
- 12:39: Estrutura de financiamento e políticas públicas
- 19:46 – 20:57: Inovação do Oscar: categoria Direção de Elenco
- 25:59 – 28:59: Lendas urbanas, violência e recepção internacional
- 29:39: Memória como diferencial artístico e estratégico
- 31:38: Encerramento e agradecimentos
Frases Marcantes
-
"O Agente Secreto é uma combinação de muitas outras coisas. [...] Um talento nato para a cultura [...]."
— Kleber Mendonça Filho (00:55) -
"Pirraça é um termo fundamental para O Agente Secreto. Representa o argumento do filme e sintetiza esses contrastes."
— Natuza Nery (01:55) -
"O cinema brasileiro nunca deixou de produzir bons filmes, mas [...] faltava uma base pra internacionalização, visibilidade."
— Waldemar Dallenogari (10:56) -
"Eu penso que a partir de agora nós vamos entrar num outro tópico para o futuro da indústria de cinema do Brasil: como tornar essas indicações possíveis para um jovem diretor."
— Waldemar Dallenogari (11:43)
Notas sobre o Tom
O episódio alterna entre celebração e análise crítica, mantendo um tom de orgulho nacional, reconhecimento das dificuldades superadas e otimismo quanto ao futuro. As falas são informativas, coloquiais e emotivas, ressaltando tanto o impacto no imaginário brasileiro quanto a crescente repercussão internacional do nosso cinema.
Conclusão
Este episódio de “O Assunto” contextualiza um dos momentos mais significativos da história do cinema brasileiro, analisando os fatores que levaram ao recorde de indicações ao Oscar em 2026. A discussão resgata o papel transformador da memória, o valor da regionalidade como força universal, a importância de estratégias e políticas públicas, e aponta os desafios e esperanças de uma nova geração de cineastas brasileiros em diálogo com o mundo.
