Loading summary
Natuza Nery
Tim Black, um plano exclusivo pra você descobrir a sua melhor versão. O ano era 1975. O regime militar já estava há mais de uma década no poder. No comando, Ernesto Geisel. Ele assumiu o país depois do período mais duro de repressão sob o governo Médici. Mesmo com um discurso de abertura lenta e gradual, a censura seguia, e órgãos como o DOI-COD e o DOPS mantinham as práticas de perseguição, prisões arbitrárias e torturas. Na Vila Mariana, região nobre de São Paulo, um prédio é o registro concreto desses anos de escuridão. O DOI-COD funcionava aqui, onde hoje fica esta delegacia de polícia. Pelo menos 56 militantes de esquerda foram mortos neste prédio, por fazerem oposição ao regime militar. Entre os que passaram por lá está a presidente Dilma Rousseff, na época estudante. Também foi naquele prédio que o jornalista Vladimir Herzog, então diretor do departamento de jornalismo da TV Cultura, foi torturado e morto. Dia 24 de outubro de 1975, Vladimir Herzog foi convocado a depor sobre a sua relação com o Partido Comunista Brasileiro. Ele se apresentou voluntariamente na manhã do sábado seguinte, 25. À tarde, já estava morto. O regime tentou encobrir o crime com uma mentira, dizendo que Vlado, como era conhecido, tinha cometido suicídio, o que a esposa, Clarice, sempre negou.
Clarice Herzog
Ele tinha muitos planos, ele tinha uma vida pela frente, ele tinha... ele pretendia fazer muita coisa pra esse país, ele nunca iria fazer com isso, ele amava os filhos e a minha.
Natuza Nery
A fotografia de uma cena armada entrou para a história. Na imagem, Exógi está com um cinto em volta do pescoço, de joelhos dobrados. Seus pés tocam o chão. Se o Valdo tinha 22 anos, era um novato em treinamento como fotógrafo da polícia quando foi chamado para registrar uma farsa que ele e muitos outros logo perceberam, a morte por tortura montada como suicídio.
Ivo Herzog
Passados.
Natuza Nery
50 anos, a certidão de óbito de Vlado foi alterada. Ele foi reconhecido, neste ano, como anistiado político pós-mortem e sua viúva começou a receber uma pensão. Mas até hoje, nenhum dos envolvidos na morte foi punido.
Clarice Herzog
Quem matou o Vlado? Quem torturou o Vlado? Quem eram essas pessoas? Eram mandadas por quem? E nós não temos essas respostas, ninguém teve essas respostas.
Natuza Nery
E a nossa democracia ainda vive à sombra de um passado mal resolvido. Da redação do G1, eu sou Ana Tuzaneri e o assunto hoje é o assassinato de Vladimir Herzog 50 anos depois. Neste episódio, eu converso com Ivo Herzog, filho de Vlado, um dos fundadores e presidente do Conselho do Instituto Vladimir Herzog, e com Rogério Gentili, que é diretor executivo do mesmo instituto. Sexta-feira, 24 de outubro. Ivo, o histórico da sua família com regimes autoritários é muito difícil. Os Herzog foram perseguidos pelos nazistas, alguns até foram mandados para campos de concentração na Segunda Guerra Mundial. E numa carta, o seu avô relatou a fuga da Iugoslávia quando seu pai tinha perto de 4 anos de idade. Como esse passado todo influenciou a vida de Vlado e a sua também?
Ivo Herzog
Eu acho que esse passado, essa vivência que meu pai teve com a família dele do pior lado do ser humano, esse lado cruel, do massacre, do genocídio, do holocausto, dessa violência bruta, fez ele ser um homem da paz e sempre acreditar que o único caminho para uma sociedade ser melhor é através do diálogo. Durante a época, inclusive da ditadura, que houve os movimentos armados tentando derrubar a ditadura, ele era contra esses movimentos, ele não se juntou a eles. Ele realmente nunca acreditou que a força bruta fosse o caminho para uma sociedade melhor. E eu herdei muito disso dele, ou melhor, herdei tudo. Eu também sou absolutamente contra qualquer força, qualquer forma de violência. E eu acho que essa é a grande diferença entre o ser humano e os animais. O ser humano é um ser com discernimento, com capacidade de construir um pensamento, articular um diálogo. E quando a gente usa força, a gente se iguala aos animais, aos irracionais.
Natuza Nery
Bom, foi justamente em 1946 que a sua família se estabeleceu no Brasil e, décadas depois, veio outro choque com o regime autoritário que você já começa a descrever. Em 1975, o teu pai, jornalista, acabou sendo preso por militares do DOE-CODE em São Paulo. Você tinha, me corrija se eu estiver errada, a idade de 9 anos. O que você se lembra desse dia? Você tem memória desse dia?
Ivo Herzog
A memória que eu tenho é do dia anterior, do dia 24 de outubro, uma sexta-feira, que minha mãe pega o meu irmão e leva a gente na TV Cultura para buscar o meu pai para irmos para o sítio que a gente tem no interior de São Paulo. Para mim, para o meu irmão, era um outro final de semana como qualquer um que a gente iria para o sítio. E eu lembro que a gente ficou bastante tempo na redação, eu e meu irmão brincando, redação de jornal, naquela época bem diferente de hoje, né? Fazia muito barulho, das máquinas de telex, aquela coisa toda, as máquinas de escrever e tal. E depois voltamos pra casa. E a próxima lembrança que eu tenho é o dia 26, na realidade, quando minha mãe vem contar pra gente que meu pai tinha ido embora, né? Tinha falecido. O dia 25, Com certeza foi um dia como qualquer outro da nossa infância, muito provavelmente o último dia dessa primeira infância que a gente teve, que a partir do dia 26 é um novo mundo pra gente.
Natuza Nery
Bom, então só para recapitular esses dois dias. No dia 24 de outubro de 1975, seu pai é convocado a depor por agentes do Exército. No dia 25, seu pai se apresenta voluntariamente ao doicóde de São Paulo e é preso junto com o jornalista Jorge Duque Estrada e Rodolfo Cônder. E aí, no depoimento, claro, seu pai nega vínculos com o Partido Comunista Brasileiro. No dia 25, também, ele é torturado nas dependências do DOE-CODE e morre em decorrência de tudo, de toda violência, de toda selvageria que ele sofreu nos porões da ditadura.
Rogério Gentili
Clarice estava casada com o jornalista Vladimir Herzog. Havia 11 anos quando ele morreu.
Clarice Herzog
Eu queria ir junto, não me deixaram ir. E eu fiquei sabendo, comecei a achar, fui avisar a mãe do Vlado. A mãe do Vlado ficou desesperada, obviamente, a dona Zora. Ela falou, vou matar meu filho, vou matar o filho da dona Zora, não vai acontecer nada, não vai acontecer nada, não tem mais tortura, acabou isso, não tem tortura nesse país mais. 10 horas da noite eu estava lá outra vez para contar que eu estava morto. Foi terrível.
Natuza Nery
Alguns dias depois, no dia 31 de outubro, houve um ato ecumênico na Catedral da Sé, reunindo mais de 8 mil pessoas. E esse ato se torna um marco de resistência. Você pode relembrar para nós como foi esse culto?
Ivo Herzog
O culto acontece numa sexta-feira. A semana toda foi bastante intensa, a começar com o velório do meu pai, com muita gente presente, muitas pessoas famosas, atores. que a gente via na televisão. Então, eu, meu irmão, crianças, a gente começou a perceber que tinha alguma coisa muito diferente acontecendo. Muito tumulto também durante o enterro do meu pai, pois tentaram apressar o enterro dele e minha avó ainda não tinha chegado. E minha mãe, aos berros, impediu que ele fosse enterrado antes da minha avó chegar.
Rogério Gentili
No próprio dia do enterro, Uma reunião foi convocada. Partimos para pedir o apoio do Dom Paulo Evaristo Arnes, que uma comissão de sindicato foi a cúria metropolitana e ele aceitou na hora a ideia e começou a trabalhar para que participassem representantes de outras religiões.
Clarice Herzog
Eu fui ameaçado. Dois generais do governo militar naquela época vieram aqui.
Ivo Herzog
Para me convencer que o meu lugar não era lá na Catedral. Eles disseram, é, você indo lá, todos que foram mortos, porque tem 500 praças espalhadas na Sé, Com qualquer grito que alguém dê ou qualquer manifestação que haja, eles têm a obrigação de atirar. E atirar para matar. E esse filme tenso, com toda essa intensidade de emoções, entra no dia, no ato que você fala, na Catedral da Sé. Eu lembro de estar na primeira fila com a minha mãe, com a minha avó, com o meu irmão e com outras pessoas da família, tentando entender o que está acontecendo. Era uma enxurrada de informações. E eu acho que tanto eu quanto meu irmão éramos como os telespectadores de um filme passando em alta velocidade, quase que num estado de choque, porque não tínhamos capacidade de absorver tudo aquilo lá. Eu lembro muito que a imprensa da época, a gente tem que lembrar, 50 anos atrás, com aquelas câmeras enormes, flashes, eu não sei o quê, eles faziam uma parede na nossa frente e a gente nem conseguia ver direito o ato. Eu tenho uma lembrança muito forte disso. E a última lembrança que eu tenho desse ato, que pra mim foi muito especial e marcou a minha vida toda, foi o momento que Dom Paulo Evaristo Arns, com a minha mãe chorando muito, muito emocionada, ele acolhe, abraça a minha mãe. Ele acorde a minha mãe, acho que é isso, né? A palavra é muito simples, mas ela é muito significativa, o acolhimento.
Clarice Herzog
Quando terminou a missa, eu lembro que eu saí chorando, aos becos, e eu comecei a berrar, berrar, e o Dom Paulo falou, calma, calma, e o Dom Paulo falou, deixa ela berrar, Paula, deixa ela berrar, ela tem que pôr esse ódio pra fora, deixa ela berrar.
Ivo Herzog
E isso ficou muito marcado na minha lembrança, e eu acho que ali eu comecei a conhecer Dom Paulo, assim como eu também comecei a conhecer muito o Henry Sobel, que esteve presente em vários outros momentos de lembrança da morte do meu pai.
Rogério Gentili
No cemitério israelita. Uma atitude do Rabino, Henri Sobel, representou o primeiro ato público de repúdio à versão oficial para a morte de Herzog. Quando ele, na qualidade de Rabino, determina que Vladimir Herzog seja enterrado, não no campo de suicidas. E no seu lugar natural das pessoas que não eram suicidas. Isso teve uma importância significativa, sem dúvida alguma, porque isso não deixava de ser o reconhecimento através... ambos eram judeus, né? O reconhecimento de que Vladimir Herzog não era suicida.
Natuza Nery
Quando a sua mãe conta para você e para o seu irmão no dia 26 que o seu pai havia morrido, você se lembra do que você sentiu?
Ivo Herzog
Primeiro que ela não conta circunstâncias, eu não lembro o que ela falou exatamente, mas eu entrei num estado de negação, de não acreditar que aquilo pudesse estar acontecendo, porque a morte é uma coisa muito definitiva e eu não conseguia conceber que que tudo tinha acabado, tudo que eu era aquele. que meu pai não existia mais, que os momentos de vida com ele, as interações, a presença dele deixava de existir. É um processo, Natuza, é um processo que, como eu te falei, começa no velório, por conta de toda aquela intensidade, toda aquela presença de gente. Eu acho que naquele momento eu já sabia que não era um acidente que tinha acontecido com meu pai, era um assassinato, porque isso era falado de maneira explícita para todos que estavam ali presentes, nas conversas, nas demonstrações de indignação, no processo do enterro, no próprio velório houve uma, como eu posso dizer, houve uma denúncia de Dom Paulo nas palavras que ele usou lá de que o Estado tinha sangue em suas mãos, essa coisa toda. Então, desde essa primeira semana, do dia 27, fomos entendendo, eu e meu irmão, que as circunstâncias da morte do meu pai era de uma tremenda injustiça, de um assassinato, de uma coisa brutal. Sem saber, obviamente, minha mãe procurou nos poupar o máximo possível dos detalhes das circunstâncias, da questão da tortura, essa coisa toda que a gente foi conhecendo ao longo do tempo e, sinceramente, até hoje eu não sei de todos os detalhes e faço questão de não querer saber.
Natuza Nery
Entendo. E quem era o seu pai, o Vlado, para além do jornalismo e da história trágica?
Ivo Herzog
O meu pai era filho único de uma família judia, né? Filho do Vojega e da Vozora, que vieram da Iugoslávia, fugindo do nazismo. Se casou com a minha mãe por volta de 64. Era uma pessoa que gostava, tinha vários hobbies, gostava muito de pescar, astronomia, muito de fotografia. gostava de estar no sítio com a família, criava alguns bichos e tinha uma relação também de olhar muito pela minha avó, porque minha avó já era viúva nessa época, meu avô havia falecido três anos antes, em 72. Então a gente sempre estava muito com a minha avó Zora e quando a gente estava junto, uma lembrança que eu tenho muito interessante é que eles falavam na língua materna deles, original lá da Yugoslávia, que eu, meu irmão, ninguém entendia nada. e de vez em quando saía um português no meio, né? Então, a taça, ok. Então, era uma coisa muito folclórica pra gente, muito instigante. E ele era, além de jornalista, tem um outro lado que pouca gente conhece, mas que era a verdadeira paixão profissional dele, que era o cinema. O sonho dele era trabalhar com cinema. Ele tinha um projeto de fazer um documentário sobre canudos, Já tinha feito a pesquisa lá em Canudos, já vinha escrevendo o roteiro e ele tinha combinado com a minha mãe que no ano seguinte, em 76, ele ia fazer um ano sabático para produzir esse documentário.
Natuza Nery
Bom, o nome da sua família, o seu sobrenome, Herzog, virou símbolo da luta contra a ditadura militar. Mas só em 2012 o atestado de óbito dele foi retificado e só agora, em 2025, foi o ano em que o seu pai teve declarado, foi declarado anistiado político pós-mortem. Como é que foi todo esse processo na justiça até aqui?
Ivo Herzog
O processo na justiça até aqui, que ainda não terminou, porque a justiça ainda não foi alcançada, na realidade ela começa logo após a morte do meu pai, quando a minha mãe resolve entrar na justiça comum, com um processo responsabilizando o Estado brasileiro pela morte do meu pai.
Clarice Herzog
Eu não estava atrás de dinheiro, eu queria provar para a sociedade que havia tortura nesse país e que ele foi assassinado, ele não se suicidou.
Ivo Herzog
Que já foi uma coisa... de muita coragem dela, a gente via aquele estado de exceção, aquele estado de terror, mas ela teve coragem, persistiu e nós vencemos com a histórica sentença do juiz Márcio Moraes, que declarou o Estado responsável pela morte do meu pai e ordenou que fosse investigado.
Rogério Gentili
67 páginas datilografadas nesta máquina de escrever simples. E uma sentença surpreendentemente audaciosa e também grandiosa pelo seu significado.
Clarice Herzog
A sentença do Márcio foi absolutamente uma surpresa. Ele foi de uma coragem, de uma audácia que nós não esperávamos naquele momento.
Rogério Gentili
Foi a coragem de, mesmo sob a ameaça de ter a sua carreira truncada, a coragem de prolotar uma sentença que condenou a União pela prisão ilegal, tortura e morte de Vladimir Zoghi. O juiz Márcio José de Moraes recebeu uma carta em que a mãe do jornalista, Dona Zora, expressava a sua gratidão.
Natuza Nery
Meu filho não voltará, mas seu bom nome não ficará manchado se seu desaparecimento não foi em vão para o país.
Ivo Herzog
Logo em seguida, em 79, nós temos a família gerada, a Lei da Amnistia, no Brasil. que por um entendimento muito triste e lamentável do STF, estendeu essa amnistia para os agentes do Estado que cometeram crimes comuns de tortura, assassinato e sequestro. Então, as tentativas de dar continuidade, de buscar investigação de quem participou, fazer o devido processo judicial, penal, foi sempre impedido usando-se como desculpa a questão da lei do amnistia. Em 2018, a gente ganha na Corte Interamericana de Direitos Humanos o processo movido contra o Brasil e a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos ordena uma série de ações de reparação Sendo duas muito importantes, uma muito simbólica, que é o Estado brasileiro pedir perdão pelos crimes cometidos durante a ditadura num ato público com a presença de representantes, inclusive das Forças Armadas. E a segunda coisa muito importante, que o Estado brasileiro investigue todas as mortes em circunstâncias semelhantes à que aconteceu com o meu pai. dizendo que os crimes que o Brasil cometeu durante a ditadura foram crimes de lés a humanidade. É a primeira vez que o Brasil é condenado por crimes de lés a humanidade e são crimes imperdoáveis e imprescritíveis, são como crimes de guerra. Esses dois pontos que eu trouxe para ti, ainda estamos aguardando o cumprimento por parte do Estado brasileiro.
Natuza Nery
50 anos depois, né, Grosso Moto?
Ivo Herzog
Mas a gente não vai desistir. Se precisar esperar mais 50 anos, a gente vai esperar, vai lutar. Essa luta não é uma luta da família Zog, é uma luta de todos os familiares de motos desaparecidos. um bem conhecido recentemente, Família Paiva, que também luta por justiça, no caso do desaparecimento do Rubens Paiva, e tantos outros. A gente tem que virar esta página da nossa história, mas primeiro a gente precisa escrever essa página para que as pessoas conheçam, as novas gerações conheçam os erros cometidos no passado para que eles não voltem a ser cometidos no futuro. E trazendo para o contexto atual, eu tenho dito muito que acho que a luz no fim do túnel está um pouco mais forte com a recente condenação de militares por conta da tentativa de golpe do 8 de janeiro. A gente começa a ter um fio de esperança que o Brasil em que vivemos realmente está tendo mudanças estruturais em relação ao país que existiu até então. Uma coisa importante que acho que pouca gente sabe é que no Brasil houve mais de uma dezena de tentativas de golpes de Estado ou golpes de Estado. E em todas as ocasiões, o mais famigerado é o de 64, que todo mundo se lembra, porque a gente vem falando muito disso, mas em todos eles tem dois elementos comuns, a participação dos militares e a total impunidade. Nunca ninguém foi julgado e condenado pelos golpes bem-sucedidos ou mal-sucedidos. E a gente finalmente rompeu esse ciclo de impunidade com a recente condenação dos participantes da tentativa de golpe de 8 de janeiro.
Natuza Nery
Você, inclusive, se sentou na primeira fila da sala de audiências da primeira turma do Supremo Tribunal Federal quando do início do julgamento de militares ex-presidente da República por tentativa de golpe de Estado. Como é que foi acompanhar esse momento tanto tempo depois da morte do seu pai?
Ivo Herzog
Foi uma coisa difícil de descrever, Natuza, porque a gente vê o filme da nossa história, eu vejo muito o filme da história da minha mãe, eu acho que a gente um dos grandes erros que nós, eu, você, muitos jornalistas e muitas outras pessoas, a gente esquece de falar das mulheres, do papel das mulheres nessa luta, as verdadeiras heroínas dessa história que com coragem, não desistindo jamais, buscaram a verdade e a justiça. E naquele momento, naquele dia lá na primeira turma, a gente estava vendo essa luta Vem sendo uma batalha dessa luta, uma batalha muito importante, histórica. A gente não se cansa dessa luta, mas a gente sofre muito. Ela causa muito sofrimento, ela gera muitas feridas e muito esgotamento emocional. Não esgotamento físico, como eu disse, a gente nunca vai desistir, mas emocionalmente realmente é muito pesado. Nos últimos anos eu tenho estado à frente dessa luta, pelo lado da nossa família. Minha mãe está doente, está com o Zarma. se retirou desse processo e eu tô começando a entender muito o porquê que minha mãe é do jeito que ela é. É o resultado desse sofrimento, dessa coisa. Contar essa história não é fácil, mas é nossa obrigação contar essa história. A gente tem que contar essa história para que as pessoas conheçam, e como eu disse aqui, esses erros do passado não se repitam.
Natuza Nery
Ivo, eu não tenho como te agradecer por sua presença aqui, contando essa história que, como você acaba de nos falar, é uma história difícil de contar, mas importantíssima de ser contada. Muito obrigada pela sua participação e eu desejo boa sorte na sua jornada por justiça.
Ivo Herzog
Eu agradeço, Natuza. Não quero jogar confete, mas realmente eu também tenho que te agradecer. Eu acompanho o seu trabalho muito na Globo News e eu acho que vocês, jornalistas, foram que possibilitaram, que viabilizaram, que pela primeira vez na história do Brasil, militares estejam presos. Muito obrigado.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Rogério e sua tia. Sotile, a gente viu ecos do passado do período da ditadura militar não faz muito tempo atrás, né? A gente viu todos os atos apontados pela Polícia Federal na trama golpista, uma parte dos responsáveis já foi julgada, condenada, outra parte segue em julgamento, os personagens principais foram condenados, militares inclusive estão no rol de réus. Mas, ao mesmo tempo, o Congresso tenta, ou parte do Congresso, para ser mais precisa, aprovar uma anistia para os envolvidos na tentativa de golpe de 2022 ou dos anos que se encerraram em 2022, começo de 2023. Como é que você enxerga esse momento?
Rogério Gentili
Eu sou otimista, Natuza. Eu acho que nós estamos vivendo um momento muito importante para o Brasil e para o mundo, pela importância que o Brasil tem para o mundo também. É fato de que as democracias estão em crise, porque as democracias não responderam a várias questões importantes para a sociedade do mundo todo e produziu crises, fissuras e abriu espaço para que movimentos autoritários, antidemocráticos viessem à tona. E isso a gente está assistindo um crescimento muito grande da extrema direita no mundo todo. Mas o Brasil conseguiu resistir, por mais que a gente desconfiasse dessa capacidade de resistência democrática, as instituições resistiram e muito. O Supremo Tribunal Federal e a Justiça Brasileira demonstraram um papel muito forte, muito importante na defesa da democracia. E pela primeira vez na história do Brasil, nós estamos vendo generais no Banco dos Reais, generais condenados a mais de 20 anos de prisão e um ex-presidente da República também condenados a mais de 20 anos de prisão. Isso é histórico, isso é fundamental, porque isso sinaliza de que nós não vamos tolerar impuridade contra crimes, contra a Constituição Brasileira, contra o Estado Democrático Direito e contra a democracia brasileira. Agora, também é verdade, Natuza, que o que você fala, de que nós temos um parlamento ainda muito avesso à defesa das instituições. Por incrível que pareça, o Congresso tem uma parcela bastante significativa do Congresso que defende o próprio rompimento democrático. Ela defende a sua própria destruição da sua própria instituição. E essa é uma batalha muito grande que a gente está travando contra o Congresso que tenta provar humanistia contra esses crimes. Eu tenho muita esperança de que a anistia, essa anistia, defendida por esses setores golpistas do Congresso, não terá sucesso. E a Quest também quis saber como os eleitores veem a proposta para diminuir as penas de quem foi condenado por golpe de Estado. Essa possibilidade é rejeitada por 52% dos entrevistados. Você pega assim, nas últimas pesquisas, a grande maioria da sociedade brasileira condena os atos golpistas do 8 de janeiro. Eles podem ser críticos ao atual governo, eles podem ser críticos à própria justiça, mas eles condenam os atos golpistas. Então assim, isso sensibiliza o Congresso. Então nós estamos aproveitando esse momento como uma forma de fazer aquela lição que nós não fizemos no passado, que era dar um fim à impunidade no Brasil. E o 8 de janeiro nos ofereceu esta possibilidade.
Natuza Nery
Bom, Rogério, neste sábado, agora dia 25, o Instituto Vladimir Herzog vai recriar um ato que foi, em 75, o ato interreligioso na Catedral da Sé em homenagem ao Herzog. Por que voltar naquele momento? Por que reviver esse momento? Qual foi a avaliação que vocês fizeram?
Rogério Gentili
Primeiro que o Vlado foi assassinado em 1975, e a repercussão da morte do Vlado naquele momento provocou uma certa comoção nacional e uma certa indignação, e que levou sobre a liderança de Dom Paulo Arnes, do Rabino Henri Solbi e do Gemma Wright, e com a liderança do jornalista e do sindicato, dos jornalistas Aldálio Dantas, levou uma multidão na Praça da Sé e se construiu o primeiro ato público de enfrentamento à ditadura militar. Antes, todos os atos eram reprimidos e não conseguiam acumular pessoas. E aquele ato virou história e ficou conhecido como um dos principais atos que que deu origem, quer dizer, ao início iniciou o processo de derrocada da ditadura militar. 50 anos depois, nós estamos vivendo num momento muito importante que nós conversávamos aqui há pouco, sobre as ameaças à democracia, Mas há oportunidade que nós estamos vivendo de colocar um fim a esses processos de tentativa golpista, porque não vamos tolerar esses impulsos golpistas de quem quer que seja. Então assim, nós fazermos esse ato 50 anos depois, É pra lembrar do Vlado, da morte do Vlado, mas não só do Vlado. É lembrar de todos aqueles que tombaram em defesa da democracia, em defesa dos direitos humanos, em defesa do Estado Democrático Direito. É lembrar também de todos aqueles familiares de mortos e desaparecidos políticos que transformaram a vida delas numa luta por justiça pra gente construir esse Brasil que resiste aos ataques golpistas de hoje. mas é também para que a gente possa dizer de que estamos atentos e que temos muito por fazer. Então, esse é um ato de memória, é um ato de reparação, é um ato de esperança e de construção de paz e de solidariedade.
Natuza Nery
Sotile, muito obrigada por ter topado conversar com a gente.
Rogério Gentili
Natuza, obrigado a você, obrigado a todos os ouvintes e continuamos aqui lutando pela democracia.
Natuza Nery
Este episódio usou áudio da TV Cultura. Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catelano. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 24 de outubro de 2025
Host: Natuza Nery (G1)
Entrevistados: Ivo Herzog (filho de Vladimir Herzog, presidente do Instituto Vladimir Herzog)
Rogério Gentili (diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog)
Clarice Herzog (viúva de Vladimir Herzog, em depoimentos de arquivo)
No episódio especial em alusão aos 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog, a jornalista Natuza Nery reconstrói os acontecimentos em torno da morte do jornalista vítima da ditadura militar, analisa seu impacto na luta pela democracia e revisita como o luto familiar se transformou em um movimento nacional por verdade, justiça e memória. Em conversas profundas com o filho de Herzog, Ivo, e com Rogério Gentili, a narrativa atravessa temas como impunidade, resistência, luto público e os impactos recentes dos julgamentos de militares por tentativa de golpe no Brasil.
Clarice Herzog:
Ivo Herzog:
Rogério Gentili:
O episódio mescla jornalismo informativo de alta densidade histórica com falas emocionais dos afetados diretos. O tom é grave, respeitoso e engajado, especialmente nas falas de Ivo Herzog, com momentos de indignação, mas também esperança e compromisso com a educação das futuras gerações. Momentos de indignação e denúncia convivem com uma exortação à esperança e à resistência democrática.