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Vitor Boiadjan
interior de São Paulo, a cerca de duas horas da capital, uma cidade de pouco mais de duzentos mil habitantes, viu sua rotina mudar drasticamente com a presença de facções criminosas. Rio Claro está no meio do caminho de quase tudo. É o ponto de passagem pro Triângulo Mineiro, para o Paraná, para o Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, e também para rotas que ligam o Brasil ao Paraguai e à Argentina, um capital estratégico importantíssimo no caderno do crime organizado. Facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, transformaram a cidade num tabuleiro sangrento, onde a taxa de homicídios é quase três vezes maior do que a do estado de São Paulo.
Paulo Renato Soares
No ano de 2024, a cidade teve uma taxa de homicídios de quase 14 homicídios para cada 100 mil habitantes. O estado de São Paulo, para se ter uma ideia, fica na média de 7 homicídios, 6,5 homicídios para cada 100 mil habitantes. E em 2025, esse número já encosta em quase 11 homicídios para cada 100 mil habitantes aqui na cidade. Mas conversando com a polícia civil, boa parte desses crimes acontece dentro da própria criminalidade. São disputas entre facções, entre criminosos, que acabam gerando cenas de execução como as que foram contabilizadas nos últimos meses aqui em Rio Claro.
Vitor Boiadjan
Esse movimento não é isolado. O Atlas da Violência mostra que, enquanto capitais reduziram homicídios em mais de 60% na última década, cidades médias e pequenas viraram novos epicentros de violência. Por exemplo, Juazeiro, na Bahia, a 500 quilômetros de Salvador, chegou a 76 mortes por 100 mil habitantes, mais que três vezes a média nacional. Os 20 municípios mais violentos do Brasil têm, em média, 330 mil habitantes. E as taxas de homicídio quase três vezes maiores que no restante do país. Na Amazônia Legal, formada por nove estados, esse avanço também ganha escala. 45% dos municípios da região já registraram a atuação de facções. 17 grupos diferentes já foram listados, brasileiros, regionais e estrangeiros, como o Trem de Arágua. Nessa região, a disputa por rotas do tráfico se soma a conflitos antigos, como disputas por terra, por exemplo. E o conflito não é apenas por território, é pelo controle de rotas internacionais, como a do Rio Solimões, e de atividades ilegais, como o garimpo, em terras indígenas.
Samira Bueno
O estudo é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Instituto Mãe Crioula. A Amazônia Legal é geograficamente estratégica para o tráfico. O Brasil faz fronteira com os três principais produtores de cocaína do mundo, Colômbia, Bolívia e Peru. O narcotráfico tem usado, inclusive, as cadeias produtivas da madeira e do ouro para lavar dinheiro, porque, diferentemente da maconha e da cocaína, madeira e ouro são potencialmente legais. O estudo mostrou que ser indígena na Amazônia é mais perigoso do que fora dela.
Vitor Boiadjan
O fórum mostra outros dados de violência na Amazônia. Os feminicídios são 19% maiores na região do que a média nacional.
Paulo Renato Soares
Os estupros têm subido.
Vitor Boiadjan
Quase 80% das vítimas têm 14 anos ou menos. Além disso, as facções criminosas estão criando regras comportamentais para as mulheres, que chegam até à necessidade de autorização para terminarem relacionamentos. No meio disso, a juventude do interior do Brasil se torna mão de obra e alvo. Meninos aprisionados por dívidas do microtráfico. Comunidades indígenas esfaceladas por drogas baratas, como o oxi, um subproduto da cocaína. Bairros onde o direito de ir e vir depende da permissão de pessoas armadas. E o Estado precisa olhar para as facções não só na segurança pública, mas também ao pensar em habitação.
Paulo Renato Soares
Dois dos maiores conjuntos residenciais do Estado, construídos pelo programa Minha Casa Minha Vida do governo federal, se tornaram bases do crime organizado.
Vitor Boiadjan
Ao pensar em transporte e até nas eleições.
Paulo Renato Soares
Da redação
Samira Bueno
do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boedian
Vitor Boiadjan
é o avanço das facções criminosas pelo interior do Brasil. Neste episódio, eu converso com Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e com Paulo Renato Soares, jornalista da TV Globo e um dos repórteres que fizeram o documentário Territórios, do Globoplay. Segunda-feira, 4 de maio. Samira, você está há quase duas décadas no Fórum de Segurança Pública, e nesse tempo o crime organizado mudou muito aqui no Brasil. Agora ele não está só mais nas grandes capitais, mas se interiorizou, um processo de expansão de territórios. Por que isso está acontecendo?
Samira Bueno
A gente tem uma mudança muito profunda na forma como o crime organizado atua e se dissemina no Brasil ao longo dos últimos 20 anos. Eu diria que no início desse processo, no início dos anos 2000, isso acontece por um movimento dos dois grandes grupos, PCC e Comando Vermelho, que começam a visar uma nacionalização para ampliar o seu negócio e ampliar os seus lucros. o que acaba sendo beneficiado de algum modo por um processo de interiorização das unidades prisionais. Então, algo que começa em São Paulo e depois expande para vários estados é a construção de unidades prisionais fora dos grandes centros urbanos, na ideia de você ter presídios um pouco menores e facilitar um pouco o controle. Isso começa a gerar uma primeira difusão dessa lógica de de facções e do tráfico de drogas indo em sentido interior. Mas é em 2016, mais especificamente, que a gente tem uma mudança completa dessa dinâmica, porque até esse momento a gente tinha Comando Vermelho e PCC, que são os dois grandes grupos que hoje, eu diria, dominam esse mercado das drogas ilícitas, Eles compartilhavam uma rota que era a principal rota de entrada de drogas no Brasil, que é chamada de Rota Caipira, ali na região, na fronteira com o Paraguai. Em 2016, há uma cisão entre esses dois grandes grupos, é marcado pela morte do Rafa, que era chamado do rei da fronteira, ali na região de Ponta Porã.
Paulo Renato Soares
Jorge Rafati, um brasileiro de 56 anos que comanda o tráfico de drogas da região, descendente de libaneses, é conhecido como o rei da fronteira e tem um apelido, Saddam. Quem matou o rei do tráfico com uma metralhadora que derruba até avião? A principal suspeita é de que a ordem tenha partido de uma das maiores quadrilhas do Brasil, chefiada por Marcos Camacho, o Marcola.
Samira Bueno
Com o assassinato do Rafa, o PCC passa a exercer um controle quase que total pela rota caipira e o Comando Vermelho precisa buscar outras alternativas de fazer com que a droga que eles comercializavam, especialmente internamente, aqui para âmbito doméstico, entrasse no Brasil e eles começam a buscar essas rotas em novos mercados no Norte e no Nordeste. Especificamente na região Norte, o Alto Sorimões se torna a segunda maior rota de entrada de tráfico de drogas, especialmente cocaína, por conta da sua proximidade com dois países produtores. Então, Peru e Colômbia, ali na região da tríplice fronteira, passam a ser um território muito estratégico porque muito próximo ali da produção mesmo da folha de coca. Então eu diria que na última década a gente tem essa transformação completa por conta do Comando Vermelho que passa então a buscar o domínio dessa rota na região amazônica. Isso significa que o Comando Vermelho chega e passa a disputar o território com grupos que já existiam na região. Um dos grandes naquela época era a FDN, Família do Norte, que acabou sendo aniquilada pelo Comando Vermelho, que hoje já domina alguns estados praticamente com um monopólio nessa região. E isso fez com que essa violência que nos anos 90 e início dos anos 2000 fosse mais característica de grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro passasse a ser a rotina também em cidades pequenas e em locais afastados dos grandes centros urbanos As facções, Samira,
Vitor Boiadjan
poderiam usar a Amazônia Legal apenas como caminho para atravessar a droga, uma área relativamente pouco habitada e muito grande, para chegar nos grandes centros urbanos. Mas o que a gente vê é um aumento do crime organizado nessa região, que desperta interesse dos traficantes, das facções criminosas, nesses municípios dessa região da Amazônia Legal.
Samira Bueno
Nessa última década, além dessa difusão desses grupos, tanto por novas rotas, mas também por novos mercados, então o negócio do varejo, do tráfico de drogas, passa a operar em outra escala no Brasil inteiro, que era algo também que a gente não via de forma tão disseminada. eles começam a perceber que eles podem ganhar dinheiro diversificando as suas atividades. Então, eles passam a migrar também os seus negócios, não necessariamente para atividades ilícitas, negócios que, na sua origem, eles podem até ser legais, mas que, quando operados por esses grupos criminosos, se tornam ilegais. E aí essa diversificação se dá de muitas formas, desde importando um modelo das milícias do Rio de Janeiro, que é prestação de serviços, por exemplo, de TV a cabo, de internet, que é algo que o Comando Vermelho, especificamente, tem explorado muito em outros estados, e especificamente na Amazônia, esses grupos vêm, por exemplo, no garimpo, uma forma tanto de gerar novas receitas, ganhar mais dinheiro, mas também de lavar o dinheiro oriundo do tráfico de drogas, já que o ouro é um ativo muito importante e muito difícil de ser rastreado. E isso é algo que tanto o Comando Vermelho quanto o PCC têm feito. O Comando Vermelho hoje tem uma presença muito mais forte na região amazônica do que o PCC. Em um relatório recente que nós divulgamos o Cartografias da Violência na Amazônia, a gente mostrou, por exemplo, como o Comando Vermelho não só dominou vários garimpos já no Mato Grosso, como nos que eles não têm necessariamente um domínio integral da extração do minério, eles cobram taxas para que os garimpeiros possam fazer a sua extração. e o PCC mais nos garimpos em Roraima. Então, cada grupo acabou controlando um território diferente, mas na prática, ambos entenderam que eles podem ganhar mais dinheiro se eles diversificarem as suas atividades. E isso tem acontecido em larga escala. Estou falando do garimpo, mas infelizmente a gente tem já hoje também uma série de outras atividades e negócios que o crime tem se infiltrado.
Vitor Boiadjan
E com relação à migração dessas facções para os interiores do país, para municípios pequenos, muitas vezes pouco atendidos pelas polícias militares dos estados, quais os impactos desse avanço pelo interior do país?
Samira Bueno
Esse impacto é brutal. Porque se a presença do crime organizado em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro já muda completamente a forma como a população se desloca e interage com a cidade, imagina isso numa cidade pequena de 10, 15, 20 mil habitantes, muitas vezes afastada de centros urbanos, entrecortada por rios. Isso muda dinâmicas de sociabilidade, então é a população que antes ficava conversando na porta de casa que não tem mais essa possibilidade, que fica com medo porque eventualmente são dois grupos que coexistem na mesma cidade e isso gera disputas. pelo controle do varejo da droga, tem conflitos que antes não existiam. Isso impacta a economia porque você passa a ter um recurso, uma receita que é gerada na cidade, mas que ela é oriunda de um negócio ilegal, do tráfico de drogas, mas que muda a dinâmica da cidade. Isso profundamente as políticas públicas, de modo geral. A gente tem dito no Fórum Brasileiro de Segurança Pública que, hoje, crime organizado é um tema transversal. Pra gente pensar qualquer política pública, a gente precisa considerar o fator crime organizado. Vamos pegar, por exemplo, o caso do Minha Casa Minha Vida. Nós temos acompanhado, em vários estados, como o crime organizado tem expulsado moradores dos seus imóveis, comprados em condomínios, do Minha Casa Minha Vida, para utilizar esses imóveis como base para armazenamento das drogas ou de armamento. Muitas vezes, porque o traficante e os seus familiares resolvem que querem mudar de onde eles estão residindo, e aí tem a expulsão desses moradores que ficam com uma dívida para pagar um imóvel e perdem a possibilidade de residir naquele território. A gente tem exemplos mais recentes, em São Paulo, por exemplo, uma concessão pública que é das linhas de ônibus com as denúncias todas do Ministério Público mostrando linhas de ônibus controladas pelo crime organizado.
Vitor Boiadjan
O Ministério Público de São Paulo fez uma operação para apurar o envolvimento do PCC em duas empresas de ônibus. Os promotores descobriram que a facção também compra e vende carros para esconder a origem do dinheiro ilícito.
Samira Bueno
A gente tem política de proteção a mulher que muda completamente, então, uma mulher que sofre violência doméstica, se ela mora num território que é faccionado, como é que ela vai pedir ajuda pra polícia? Como é que ela vai denunciar o seu agressor? Então, na prática, o que eu tô querendo dizer é que a chegada do crime organizado muda totalmente o ecossistema em que as pessoas vivem o cotidiano, a forma como elas experimentam a cidade, porque o seu direito de ir e vir fica restrito a uma nova ordem, que é a ordem do crime que ela imposta pela violência.
Vitor Boiadjan
O que você está descrevendo é aquela cena mais, que a gente já conhece melhor, que, por exemplo, para levar uma política pública para dentro de uma favela, de uma comunidade, você precisa de autorização do chefe do tráfico. Isso é uma tendência que está acontecendo também no interior do país, em municípios urbanizados, a ponto de que, em breve, político só vai conseguir fazer política pública se tiver autorização da facção, é isso?
Samira Bueno
Precisamente, Vitor. Ou a gente é capaz de pensar um plano de enfrentamento a essas organizações criminosas, que seja capaz de descapitalizá-las de fato, enfraquecê-las no que para elas mais importa, que é o aspecto financeiro, e retomar o controle territorial, porque muitos desses grupos impõem essa lógica do controle territorial armado. Então, quem manda é o tráfico, e coloca barricada e põe uma série de restrições para os moradores. Se a gente não for capaz, no estado brasileiro, de implantar algum programa que seja capaz de reverter esse cenário, esse quadro se desenha, infelizmente, a passos largos. O controle no sentido de que nenhuma política pública, nenhuma liderança política vai ser capaz de implantar nenhum projeto, mesmo os projetos sociais, sem uma autorização do traficante local. Isso é muito grave, porque você cria uma espécie de Estado paralelo. E é isso que tem acontecido. O Estado perdeu a capacidade de regular a vida nesses lugares, mas não existe vácuo de poder, né, Vítor? Então, na ausência do Estado, o crime domina.
Vitor Boiadjan
Certo, Samira Bueno, muito obrigado pela sua participação aqui com a gente no assunto. A gente te espera mais vezes por aqui.
Samira Bueno
Eu que agradeço. Obrigada.
Vitor Boiadjan
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Paulo Renato Soares. Paulo, nós conversávamos agora há pouco com a Samira Bueno, do Fórum de Segurança Pública, e ela comentou bastante desse processo de interiorização das facções criminosas no Brasil. Então eu te pergunto, que Brasil que você conheceu nessas viagens para gravar o documentário?
Paulo Renato Soares
Então, o que a gente percebeu? Essa interiorização não é um acaso, é uma estratégia do crime organizado, que ele olha o mapa como quem escolhe um terreno. E cidade pequena, muitas vezes, oferece o que a cidade grande não oferece, que é, você não tem uma presença muito grande do Estado, você não tem uma estrutura policial, você não tem inteligência. Então, às vezes, parte da capital em associação com facções muito conhecidas no Brasil, como o PCC e o Comando Vermelho, e há essa associação com facções locais, e aí eles começam a praticar aquilo que se pratica nos grandes centros, como o Rio de Janeiro, como já tem acontecido na Bahia, como tem acontecido no Ceará, que é essa dominação do território não só para a venda de droga, não só para tráfico de armas, mas para pequenos negócios, para grandes negócios, para lavagem do dinheiro, e aí se aproveita de tudo para poder ter lucro. lucro traz poder também. Imaginando uma comunidade grande, quantas pessoas consomem droga ou quantas pessoas vão lá comprar droga. Mas a internet todo mundo usa. E aí você tem a internet que é do traficante, do dono daquele local. Então o território é lucro totalmente. Eles estão em busca de territórios e o território é menos fiscalizado, é mais fácil ele dominar esse território, melhor pra ele. Então eles se associam a uma empresa, oferecem internet, cobram pra essa internet, cobram pelo mototáxi, cobram pelo gás de cozinha. Isso eles aprenderam com a milícia aqui no Rio de Janeiro. E isso está sendo levado aos poucos para essas cidades pequenas. E aí começa também um outro movimento muito perigoso, que é a corrupção de agentes públicos. Polícia, corromper político, se associar a político. financiar campanha, como tem acontecido na Paraíba, como tem acontecido no Ceará. E o que eles ganham com isso? Muitas vezes o contrato público, que é uma maneira também de lavar dinheiro. Quanto mais inofensiva a cidade, aquele território, mais eles estão interessados nisso. Por exemplo, a região indígena ali no extremo sul da Bahia. A terra indígena não tem tanta fiscalização como tem a cidade. que a gente conhece normalmente. Na terra indígena é menos policiada, menos fiscalizada. Então eles podem fazer dessas terras rotas, podem esconder armas, como tem acontecido. É um risco.
Samira Bueno
Está chegando aqui uma coisa que a gente achava que nunca chegaria dentro do nosso território. Era uma fazenda, como se fosse uma fazenda abandonada, mas quando a gente chegou lá era uma sede, como se fosse a sede do comando do tráfico que estava lá dentro. E a partir daí a gente recebe essas represálias.
Paulo Renato Soares
Treinando aqui os guerreirinhos aqui, ó. A gente observa, principalmente aqui nessa região, é que a maior parte da morte dos indígenas são em decorrência do avanço do tráfico de droga na região. Eles utilizam as terras indígenas, em regra, para ter tipo um apoio logístico para suas atividades criminosas, né? Seja para esconder armas, seja nas terras indígenas, onde são utilizadas como corredores para transporte de droga. Tem dois movimentos, ou se associam com o Comando Vermelho ou com outra facção e começam a crescer e ter armamento pesado para dominar território a partir dessa associação, porque compra mais facilmente armas dessas grandes facções. E aí há casos em que essa pequena facção é engolida e passa a ser essa facção que a gente tanto ouve, o Comando Vermelho, o PCC ou o terceiro comando que já está fazendo esse movimento. Também território é lucro, mas aí desse lucro se ganha o poder e se começa um movimento de entrar na economia formal, de estar próximo de grupos políticos. Esse é o risco que a gente está correndo.
Vitor Boiadjan
Essa permeação que você descreveu que ocorre, está ocorrendo preocupantemente em pequenas cidades e no interior do país, também ocorre nas grandes cidades, grandes centros urbanos de onde muitas dessas facções surgiram. Mas eu queria pontuar especificamente aqui em São Paulo, em que a gente viu no ano passado a operação da polícia chegando naquele endereço que virou sinônimo de mercado financeiro, encontrando agentes infiltrados do PCC. na Faria Lima e também vários relatos que também se encontra, por exemplo, no Rio de Janeiro, de integrantes, de pessoas ligadas a facções na política, por exemplo, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Então eu gostaria agora de falar desse crescente poderio político e financeiro das facções criminosas no país.
Paulo Renato Soares
Muitos dos nossos entrevistados consideram o seguinte, não é que o crime está se infiltrando na economia ou na política. Já há uma simbiose da usa da corrupção para poder fazer o lucro ilegal circular. E como é que ele faz esse lucro ilegal circular? Ele precisa entrar na economia formal. E aí o que ele faz? Mercado Imobiliário, o Grits Bar, você lembra desse caso do Grits Bar? É um caso muito Exemplar disso? Empresas de fachada, setor de serviços, transporte, comércio. A gente tem uma desembagadora que nos disse que o PCC lava hoje dinheiro até na ração de cachorro. As facções que já existiam tinham que arrumar outra forma de conseguir dinheiro para comprar armas, para comprar drogas e para continuar mantendo os seus territórios. Foi um laboratório aquilo que ensinou o tráfico de drogas, ensinou o crime organizado, como potencializar os seus lucros. Essa empresa de consultoria chamada Milícia, Ela foi o ponto de virada do domínio de território.
Samira Bueno
Agora é business.
Paulo Renato Soares
Eu não uso o termo traficante, porque eles têm todo um portfólio de atividades ilícitas. Qualquer negócio que tenha alto giro em dinheiro vivo também, que você possa fazer movimentação, interessa. E aí vem as Fintechs, e aí vem a Faria Lima. E aí tem uma preocupação hoje, a gente ouviu de muita gente ligada à Receita, à Polícia Federal, de usar fundos de investimento pra fazer isso, que aí ficaria mais difícil rastrear. Então você vê, a diversificação de atividades é o que interessa pra eles. Logística, carga, rota, armazenagem, exploração ilegal, garimpo, madeira, pesca, serviços locais aí nos territórios, se é gás, internet, qualquer coisa que possa lavar o dinheiro, porque eles estão ganhando muito dinheiro com a droga. Então eles têm que lavar esse dinheiro. Aí tem dois movimentos. Você tem o Comando Vermelho que é um pouco mais preso ao território. Não que esse cara também não invista, não saia, não faça. Mas ele fica um pouco mais preso no território. Esse cara não circula muito. O PCC tem outra característica. Porque o PCC tá agindo como uma empresa. Eu ouvi de alguns entrevistados, de algumas pessoas, que o PCC é um hub. Tá lá pronto pra te atender no que você quiser. O PCC não atua só como PCC, o integrante do PCC também pode fazer o que eles costumam falar do corre deles. Então esse cara que ganha muito dinheiro, ele vai fazer os investimentos dele, entende? Ele é o cara que tá circulando, que tá tomando vinho em restaurante caro, que tá os filhos na mesma escola do investigador, do promotor, do juiz, do desembagador, que tá comprando carro caro, que tá frequentando a sociedade como um todo.
Vitor Boiadjan
Para fazer uma operação tão diversificada como essa que você está descrevendo, você precisa de mão de obra extremamente qualificada em diversos setores, segmentos da economia. Como que há esse processo de cooptação de profissionais qualificados em setores que possam servir, de uma certa forma, como soldados dessas facções criminosas que buscam formas diferenciadas de lavar dinheiro?
Paulo Renato Soares
Se você tem a expansão como lógica de negócio, e se ele está se apresentando como um hub para você fazer negócios, normalmente não precisa essa facção contratar pessoas como você está imaginando. São pessoas, às vezes, que vão até a facção, porque tem muito dinheiro aqui. Você imagina, no mercado imobiliário, para ficar nesse exemplo, tem lá uma construtora, tem lá uma imobiliária, um corretor, como era o caso do British Bar, ele procurou o PCC para ter, ele procurou um integrante, não o PCC, mas o PCC estava envolvido, porque esse integrante também deve satisfação para o PCC. A história do Vinícius Kritzbach começou assim, ele era um lavador do PCC, começou a lavar através de meios imobiliários, de imóveis, e ele acabou depois migrando para lavar dinheiro para essa quadrilha através de criptomoeda. Vinicius fazia negócios imobiliários com algumas pessoas ligadas ao PCC. Todas as testemunhas descreveram como uma pessoa
Vitor Boiadjan
extremamente encantadora, charmosa, que levava todo mundo
Paulo Renato Soares
para jantar, que promovia grandes festas.
Samira Bueno
No maior e mais movimentado aeroporto do país, em Guarulhos, Grande São Paulo, à luz do dia, 29 tiros.
Paulo Renato Soares
Vinicius Gritsbach foi atingido por 10 tiros. Então, você entende? Quando eles se apresentam como uma empresa, como o Hummer, eles são procurados para negócios. Pode ser os dois caminhos, mas pode ser alguém de uma fintech que procurou o PCC para ter dinheiro grosso, para fazer frente aos concorrentes, entende? Isso pode se aplicar em qualquer área. Não que o PCC não vá, não domine uma cadeia inteira como do combustível, ou pode ser a força, pode ser com violência, pode ser tomando, mas pode ser fazendo o negócio. Então, por isso que é o desafio. Eu acho que o documentário mostra que não dá pra enfrentar isso com ideias simples, nem desorganizado como tá se enfrentando. Eu ouvi de muitos entrevistados, de autoridades, dizendo assim, olha, nós temos respostas. O problema é que as respostas cada um tá tentando dar a sua, quando todo mundo precisa sentar na mesma mesa e discutir isso seriamente. Não dá pra inteligência. da Polícia Civil de um Estado, não falar com a inteligência da Polícia Federal, a Receita Federal tem que estar junto, o Judiciário tem que estar junto, tem que estar todo mundo junto, senão você não consegue responder a isso. Você citou o caso do TH Joias aqui no Rio de Janeiro, a Polícia Federal acusa o TH Joias de ser do Comando Vermelho. TH Joias foi preso por tráfico de drogas, corrupção e lavagem de dinheiro, suspeito de negociar armas para o Comando Vermelho. Ou seja, o TH Joias, durante a fuga, manda uma filmagem para o presidente da Lerje, Rodrigo Bacelar, dizendo que os policiais, a quem ele se refere com palavrão, iam roubar as carnes. O Bacelar, na sequência, diz, tá doido, cara, vai embora, foge aí. Então, assim, não é alguém que foi seduzido. Por isso que o Federal tá dizendo. Ele é do Comando Vermelho. 20 anos atrás ele já tinha condição de conseguir ser eleito deputado. Então, assim, a gente faz sempre uma pergunta. A gente tá num momento de perdemos o controle ou pode ser um momento de inflexão? E todos apostam que a gente tá num momento de inflexão. Olha, é hora de todo mundo sentar na mesma mesa e a gente tem respostas pra dar. Mas a gente precisa trabalhar junto.
Vitor Boiadjan
Você passou um ano na apuração para produzir esse material, mais de 100 entrevistas, diversos especialistas, repórteres envolvidos. Queria aprofundar um pouco mais esse ponto raio-x que vocês fizeram no Brasil. Então há possibilidade de haver uma solução a tempo do Brasil como Estado reagir a essa tendência crescente das facções pelo país?
Paulo Renato Soares
Eu acho que é possível dar uma resposta. Por exemplo, retomar território é possível, mas é preciso um esforço maior do que só mandar polícia fazer esse trabalho. E a gente tem gente pra fazer isso. E força pra fazer isso. Agora, não dá pra cada um fazer o seu. Todo mundo tem que fazer junto. A gente escolheu até esse nome, territórios, porque a gente acha que esse é o ponto. É grave a dominação armada de territórios, que acontece muito no Rio de Janeiro e tá se espalhando por tudo quanto é lugar. No sul do país tem mais de 20 facções. Então, esse domínio territorial armado Isso subjuga milhões de pessoas. Tem outros territórios sendo dominados. Uma parte da economia, o território do sistema penitenciário já é dominado há muito tempo e não se olha para isso. Então quando a pessoa defende que vão prender todo mundo, mas prender como? Onde? Nesses lugares onde são dominados pelo crime organizado? A gente tentar pedir para as pessoas falarem mais abertamente do que falam no dia a dia, e todos eles, quase todos eles toparam fazer isso, e de maneira de apontar onde falharam e de apontar o que dá para fazer. Então assim, a gente percorreu 27 cidades, 7 estados brasileiros, 3 países na América do Sul, para ouvir essas pessoas. Eu ouvi de muitas autoridades dizendo assim, olha, tem saída, tem resposta, já tem lei, já tem muita coisa que dá pra usar, pra fazer Mas tem que sentar na mesma mesa, então alguém precisa fazer esse convite Todo mundo precisa sentar, porque o que a gente aponta é, sem integração, sem trabalho coordenado, sem trabalho conjunto não consegue se dar resposta a isso, tá muito intrínseco, tá muito dentro.
Vitor Boiadjan
Paulo Renato Soares, em seu nome, parabenizo toda a equipe responsável por esse grande documentário importante para o nosso país nesse momento e agradeço a sua presença aqui com a gente no assunto.
Paulo Renato Soares
Eu que agradeço a boa conversa, um abraço.
Vitor Boiadjan
Este episódio usou áudio do documentário Territórios, sob o domínio do crime, do Globoplay. Este foi o assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou para este episódio Paula Paiva Paulo. Eu sou o Vitor Boiadjan e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 04/05/2026
Convidados: Samira Bueno (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), Paulo Renato Soares (TV Globo, documentário "Territórios")
Host: Vitor Boiadjan
Neste episódio especial de "O Assunto", o podcast aprofunda a discussão sobre a expansão e interiorização das facções criminosas pelo Brasil, abordando como cidades médias, pequenas e regiões afastadas estão se tornando epicentros de violência. A partir de dados, experiências em campo e análise de especialistas, o episódio revela o impacto do crime organizado em múltiplas esferas da sociedade, mostrando como as facções têm dominado territórios, diversificado negócios ilícitos e penetrado nas estruturas políticas e econômicas do país.
"Os 20 municípios mais violentos do Brasil têm, em média, 330 mil habitantes. E as taxas de homicídio quase três vezes maiores que no restante do país."
— Vitor Boiadjan (01:25)
"O estudo mostrou que ser indígena na Amazônia é mais perigoso do que fora dela."
— Samira Bueno (02:38)
"Meninos aprisionados por dívidas do microtráfico. Comunidades indígenas esfaceladas por drogas baratas, como o oxi..."
— Vitor Boiadjan (03:16)
"Em 2016, há uma cisão entre esses dois grandes grupos, é marcado pela morte do Rafa, que era chamado do rei da fronteira..."
— Samira Bueno (05:11–06:39)
"A chegada do crime organizado muda totalmente o ecossistema em que as pessoas vivem o cotidiano, a forma como elas experimentam a cidade, porque o seu direito de ir e vir fica restrito a uma nova ordem, que é a ordem do crime que ela imposta pela violência."
— Samira Bueno (13:37)
"O controle no sentido de que nenhuma política pública, nenhuma liderança política vai ser capaz de implantar nenhum projeto... sem uma autorização do traficante local. Isso é muito grave, porque você cria uma espécie de Estado paralelo. [...] Na ausência do Estado, o crime domina."
— Samira Bueno (14:32)
"Cidade pequena, muitas vezes, oferece o que a cidade grande não oferece, que é, você não tem uma presença muito grande do Estado, você não tem uma estrutura policial, você não tem inteligência."
— Paulo Renato Soares (16:18)
"Eles utilizam as terras indígenas, em regra, para ter tipo um apoio logístico para suas atividades criminosas."
— Paulo Renato Soares (18:40)
“Eu não uso o termo traficante, porque eles têm todo um portfólio de atividades ilícitas. [...] O PCC tem outra característica. Porque o PCC tá agindo como uma empresa."
— Paulo Renato Soares (21:30)
"Não dá pra enfrentar isso com ideias simples, nem desorganizado como tá se enfrentando. Eu ouvi de muitos entrevistados, de autoridades, dizendo assim, olha, nós temos respostas. O problema é que as respostas cada um tá tentando dar a sua, quando todo mundo precisa sentar na mesma mesa e discutir isso seriamente."
— Paulo Renato Soares (24:23)
"A gente percorreu 27 cidades, 7 estados brasileiros, 3 países na América do Sul, para ouvir essas pessoas. Eu ouvi de muitas autoridades dizendo assim, olha, tem saída, tem resposta, já tem lei, já tem muita coisa que dá pra usar, pra fazer... Mas tem que sentar na mesma mesa, então alguém precisa fazer esse convite."
— Paulo Renato Soares (26:39)
Sobre a Amazônia Legal:
"O narcotráfico tem usado, inclusive, as cadeias produtivas da madeira e do ouro para lavar dinheiro, porque, diferentemente da maconha e da cocaína, madeira e ouro são potencialmente legais."
— Samira Bueno (02:38)
Sobre o Estado paralelo:
"O Estado perdeu a capacidade de regular a vida nesses lugares, mas não existe vácuo de poder, né, Vítor? Então, na ausência do Estado, o crime domina."
— Samira Bueno (14:32)
Sobre a necessidade de ação conjunta:
"Não dá pra inteligência da Polícia Civil de um Estado, não falar com a inteligência da Polícia Federal, a Receita Federal tem que estar junto, o Judiciário tem que estar junto, tem que estar todo mundo junto, senão você não consegue responder a isso."
— Paulo Renato Soares (24:23)
Sobre o crime ter se tornado 'negócio':
"Agora é business."
— Samira Bueno (21:28)
Este episódio escancara a profunda transformação do crime organizado brasileiro: do domínio das grandes capitais para a expansão pelo interior, Amazônia e pequenas cidades, com impacto direto na violência, economia, política e até na vida cotidiana das populações mais isoladas. O crime se apresenta hoje não só como traficante, mas como estrutura empresarial diversificada, forjando um estado paralelo e infiltrando-se de forma preocupante em todos os níveis da sociedade. O grande desafio brasileiro, segundo os entrevistados: reagir com integração e coordenação entre todos os órgãos e níveis de governo para romper a lógica da dominação territorial e econômica das facções.
Episódio altamente recomendado para quem busca entender o Brasil contemporâneo e a complexidade do enfrentamento ao crime organizado, além das repercussões sociais e políticas desse fenômeno que já não conhece territórios restritos.