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Carol Prado
O.
Natuza Nery
Sotaque espanhol deve estar ainda mais presente nas telas, espetáculos e paradas de sucesso em 2026. É o que prevê a revista The Economist, que afirma que a cultura latino-americana será central no showbiz mundial este ano. Dos subúrbios às grandes capitais do mundo, artistas como Bad Bunny arrastam multidões que sequer falam espanhol. Ao mesmo tempo, gigantes do entretenimento redirecionam o mapa. Empresas de streaming prometem investimentos bilionários na América Latina até 2028. Uma fábrica criativa em funcionamento contínuo. Por trás desse movimento, uma base numérica difícil de ignorar. Um continente inteiro online. Soma-se a isso a diáspora. Só nos Estados Unidos são mais de 60 milhões de hispânicos, quase um quinto da população. Um público que puxa referências, línguas, sons e histórias para o centro do mercado global. No Brasil, a retomada da cota de tela garante espaço para filmes nacionais nos cinemas, que deve ser visto não como protecionismo, mas como incubadora de uma ideia simples. O que funciona em casa tem mais chance de viajar. Sucessos recentes, inclusive, comprovam essa percepção.
Isabela Boscov
Ainda Estou Aqui fez história aqui em Los Angeles. Pela primeira vez, um filme brasileiro levou um Oscar. A indicação, a principal categoria da premiação, a de melhor filme, também era inédita e significa que a Academia incluiu Ainda Estou Aqui entre os dez melhores longas do ano. São feitos históricos para o cinema brasileiro e que que certamente terão repercussão nas futuras produções nacionais.
Wagner Moura
O Brasil tem seis pré-indicações ao Oscar. O Agente Secreto disputa indicações a Melhor Filme Internacional e Melhor Elenco. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood pré-selecionou Apocalipse nos Trópicos e a Coprodução Internacional e a Nunes para a Melhor Documentária. O filme Amarela, para melhor curta-metragem. E o brasileiro Adolfo Veloso, para melhor fotografia por sonhos de trem. Foto de Tela vem para melhorar muito mais o lançamento dos nossos filmes, a exibição desses filmes e que eles alcancem um público ainda maior e que todo mundo agora tem acesso a essas histórias realizadas no Brasil todo.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a cultura latino-americana no centro do mundo. Neste episódio, eu converso com Carol Prado, repórter do G1, e com Isabela Boscovi, jornalista e crítica de cinema. Sexta-feira, 9 de janeiro. Carol, em 2025, a América Latina bombou no cinema e na música. Talvez tenha sido o nosso melhor desempenho, não sei, em termos globais. Com você, eu quero focar na música. O que fez a produção cultural latina ter tanto sucesso no ano de 2025?
Carol Prado
É, falando especificamente de música, Natuza, a gente tem um movimento que já vem ali desde meados dos anos 2010, né. A gente teve um movimento muito forte do reggaeton como influência da música pop. É, influenciando nomes gigantes, né, desse mercado. Justin Bieber, Drake, Ed Sheeran. Todo mundo lembra de Despacito, né, que foi um grande fenômeno do reggaeton. Todo mundo dançou, eu dancei muito. E Despacito ganhou muitos plays, né? Muita audição com uma versão remix do Justin Bieber. Então, até aquele momento ali, a música latina era vista muito nesse lugar, assim, de influência ou de parceria, né? Algo visto como regional, até um pouco exótico. E aí, no pós-pandemia, quando a gente chega em 2020, 2021, 2022, a música latina começa a ser vista como um grande player, né? Algo que pode competir, digamos assim, com o pop americano. Em 2020, o Bad Bunny lançou o Yo hago lo que me da la gana, álbum mais ouvido daquele ano, né? Do mundo, em 2020. Em 2022, ele lançou o verano Senti, que foi o mais ouvido em 2022 e 2023. Aí já tava, a coisa já tava feita, assim, a gente já sabia que a música latina tava chegando no topo, né? Paralelamente a isso, a gente tem o mexicano Pesopluma também, que começou a crescer em 2023, chegou a ser o artista mais ouvido do mundo. A Carol G, como uma das turnês mais lucrativas, também de 2023. E aí isso vem muito da busca pela autenticidade, né? Antes o pop, a música pop, ela buscava muito ser universal. Hoje ela parte do regional pra construir algo que tenha força global. A gente tá vendo em plataformas, as plataformas de streaming dão muitas opções do que ouvir, do que assistir, do que ler. E as pessoas querem algo que desafie o algoritmo, algo que seja diferente, né? Porque muita coisa é reproduzida, as trends nas redes sociais, tem a fórmula do que dá certo no TikTok. Então, nesse movimento as pessoas estão buscando o que é autêntico de verdade. Então, acho que a música latina que vai buscar nessas raízes, né? Uma sonoridade que causa identificação no mundo todo, acaba se beneficiando muito disso.
Natuza Nery
E em português teve algo, assim, Estrondoso?
Carol Prado
É, aqui no Brasil a gente vê um movimento muito interno, assim, né? A gente tá vendo nomes, por exemplo, como o do João Gomes. O João Gomes é um artista de forró, que já fazia muito sucesso no nicho do forró, que não é um nicho, o forró é um dos gêneros mais populares do Brasil, mas ele estava ali dentro do movimento do forró. A partir do momento em que ele adota uma linguagem mais acessível para outros movimentos, ele passa a ser abraçado pelo país inteiro. Então hoje o João Gomes transita na MPB, ele transita no meio do rap, no meio do funk, é um nome aceito por todo mundo. E muito a partir dessa sonoridade que é muito enraizada, né? No piseiro, no movimento das vaquejadas, né? Que ele fala muito. E a partir dessas raízes, ele constrói uma sonoridade que é universal pro nosso país, né? E acaba chamando a atenção também de fora. Outro exemplo é o rock doido da Gabi Amarantzo. Um álbum que saiu. nesse ano, que é um álbum de Tecnobrega, que também vai na mesma linha. A partir de um movimento regional, ela constrói uma sonoridade que é uma sonoridade essencialmente pop, assim, essencialmente popular e que tem força internacional. O Rock Doido foi avaliado pelo Anthony Fantano, que é um dos críticos de música mais influentes dos Estados Unidos.
Wagner Moura
Foi.
Isabela Boscov
Muito.
Carol Prado
Bem avaliado, justamente porque ele parte dessa autenticidade para criar algo que tenha uma força global.
Natuza Nery
Agora, nós, os latinos, somos superativos no digital? em vários aspectos, tanto de usar o digital pra ouvir coisas novas ou pra ver coisas novas, mas também pra nos posicionarmos. Eu lembro da avalanche dos Brazucas, como eles nos chamam lá fora, no Oscar. A gente postaram recentemente uma foto do Wagner Moura E essa foto evidentemente recebeu muito engajamento. Isso ajuda a colocar a produção latina em mais destaque, esses dois condimentos, o fato da gente usar, consumir muito o digital e também pelo fato de o streaming ser esse veículo pra expansão desse mercado cultural, digamos assim.
Carol Prado
Sim, a América Latina, ela tem muita intimidade com as redes sociais, né? E o Brasil tem uma relação muito particular com as redes, né? A gente é um país muito sociável, gosta de conversar, gosta do debate.
Natuza Nery
Não, e tem os haters brasileiros.
Carol Prado
Pois é, pois é. Os fãs e os haters brasileiros são igualmente poderosos assim, né? Dentro das redes. E o mercado da cultura, né? O mercado da cultura pop, falando especificamente de música, tá prestando muita atenção nisso. Então você tem, por exemplo, artistas que vêm pra cá e fazem quase que residências, né? Tem o Coldplay, que veio pra cá, fez muitos shows seguidos. Aí o Bruno Mars, muitos shows seguidos. O Shawn Mendes, passando semanas, semanas aqui, né? Indo na casa da Ivete, indo na Bahia.
Natuza Nery
E com o coração fechado pro Brasil.
Carol Prado
Pois é, pois é. A Doa Lipa também, dando rolê em todo lugar. Então, isso não é por acaso. Isso é porque o Brasil é um país muito engajado na cultura, né? Então, essa coisa, o engajamento é a palavra de ouro do mercado hoje em dia, né? A cultura pop, ela precisa desse engajamento, esse engajamento das redes sociais, isso gera gera renda para os produtos culturais, isso gera marketing. Você tem, por exemplo, Todo Mundo no Rio, que é um projeto muito pautado nisso, né? Grandes artistas que vêm para o Brasil e usam a visibilidade de um evento desse tamanho, Copacabana, as imagens do Gagacabana correram o mundo muito a partir desse engajamento brasileiro.
Isabela Boscov
O show reuniu 2 milhões e 100 mil pessoas, segundo a prefeitura, o maior público da carreira de Lady Gaga. A prefeitura estima que o evento tenha injetado mais de 600 milhões de reais na economia da cidade, em hotéis, restaurantes, meios de transporte e comércios.
Carol Prado
Então isso ajuda tanto os artistas, os artistas latinos, isso ajuda a exportar a nossa cultura pra fora, essa presença brasileira nas redes sociais e também ajuda os fãs brasileiros a terem mais acesso a shows ou a artistas que antes não tinham.
Natuza Nery
E tem política nessa história? Eu olho pro caso do próprio Bad Bunny. Ele foi o escolhido pra se apresentar no Super Bowl, que é um... Talvez o maior evento esportivo nos Estados Unidos. Até Donald Trump entrou na história dizendo que não deveria ser ele, que ele não era muito conhecido e tal. Onde é que a política se insere nesse estado de coisas?
Carol Prado
Esse exemplo do The Beat e Tirar Mais Fotos, que é o álbum do Bad Bunny, o álbum que o Bad Bunny lançou agora em 2025, é muito emblemático porque, apesar do que o Trump falou, dele não ser tão conhecido, foi o fenômeno musical mais consumido do planeta em 2025. Dá pra ver que o Trump tá totalmente equivocado no que ele falou.
Wagner Moura
O governo Donald Trump afirmou que vai enviar agentes de imigração no estádio para fiscalizar o público. A informação foi dada por um assessor do Departamento de Segurança Interna, que chamou a escolha do cantor de uma vergonha e disse que Bad Bunny é alguém que parece odiar os Estados Unidos. A escolha de um artista que canta principalmente em espanhol deixou muitos integrantes do movimento maga irritados. Eles defendem que a escolha vai contra os valores americanos. O que é irônico, considerando que Porto Rico faz parte dos Estados Unidos. A ilha no Caribe é um território não incorporado americano.
Carol Prado
E o conceito desse álbum, o Debi Tirar Mais Fotos, é muito bem amarrado e muito bem encaixado no momento político que os latinos estão vivendo nos Estados Unidos.
Natuza Nery
Que é o movimento anti-migração, né?
Carol Prado
Exatamente. O que é esse álbum? Ele é uma carta de amor a Porto Rico, que é um território dos Estados Unidos, né?
Wagner Moura
Estrangeira é.
Carol Prado
A partir dessa declaração de amor que ele faz a Porto Rico, ele cria ali elementos que são muito identificáveis por outros países da América Latina. Então, a festa, os afetos, a necessidade de você sair da sua terra natal, o desejo de voltar pra sua terra natal, as pressões políticas. Isso tá muito bem exemplificado na capa do disco, que são aquelas duas cadeirinhas de plástico num quintal. E aí muita gente olha, a gente olha e pensa, a casa da minha avó tinha um quintal assim, as cadeiras de plástico e as festas que rolavam ali.
Isabela Boscov
E.
Carol Prado
Esse sentimento de unidade, essa sensação, eu mesma Sempre que eu ouço essa música, eu lembro de Salvador, a minha terra, onde eu cresci. E aí, me emociona muito, porque eu também tive que sair de lá, e aí eu fico pensando naquele sentimento de nostalgia. Então, esses símbolos afetivos, assim, criaram esse sentimento muito forte de unidade entre os latinos, que nesse contexto político de embate com o governo americano acabou ganhando uma força política muito grande. Isso não tá só nas músicas e na identidade visual do disco, mas tá também na forma como ele foi trabalhado depois. o Bad Bunny anunciou uma turnê mundial, com uma residência muito grande em Porto Rico, e shows pelo mundo inteiro, mas não foi anunciado nenhum show nos Estados Unidos. E muito se falou, ele mesmo deu a entender em entrevistas, que o motivo é que ele não queria criar uma aglomeração de latinos ali no show dele, que poderia, exatamente, que pudesse oferecer algum risco para aquelas pessoas. Então o único show que ele vai fazer nos Estados Unidos é o show do Super Bowl, um show totalmente controlado. Eu acho que isso também acaba criando um símbolo político muito forte.
Natuza Nery
Bom, e é importante falar aqui que na quarta-feira, dia 7 de janeiro, Um agente do ICE, que é justamente a agência de controle de imigração dos Estados Unidos, atirou e matou uma mulher que estava dirigindo um carro na cidade de Mineápolis. E o que a gente sabe até aqui é que ela era americana e tinha 37 anos. Depois dessa ação, tanto o presidente Donald Trump quanto o vice-presidente J.D. Vance expressaram apoio aos agentes do ICE. Agora, pra gente, né, é um desafio. A gente falava, eu te perguntei no começo se havia algum artista em língua portuguesa que tivesse quebrado tudo, né, em termos de sucesso. A exemplo do que fez o Bad Bunny. Mas embora nós sejamos latino-americanos, nós falamos uma língua que a América Latina não fala, que é o português. Isso pode ser considerado uma barreira em muitos aspectos. E aí, como é que a gente tá nessa história? Como é que a música brasileira eventualmente pode influenciar esse grande movimento global de ascensão da música latino-americana?
Carol Prado
A música do Brasil é muito respeitada, mundo afora, né? O Brasil é visto como sinônimo de música boa por muitas pessoas no mundo, mas sempre, isso é sempre associado a movimentos do passado, principalmente a bossa nova. Então você tem, por exemplo, a Billie Eilish, que já gravou uma bossa nova, o próprio Bad Bunny já sampliou a Garota de Ipanema e esse movimento latino que tá rolando agora, ele é muito forte com artistas atuais, artistas jovens, recuperando raízes do passado, né, e criando a sua própria identidade sonora. No Brasil é um pouco diferente, eu acho que A Bossa Nova não é tão vista por artistas mais jovens quanto é fora do Brasil. Quando você pensa em artistas do pop atual, a Marina Senna ou a própria Anitta, você pensa muito mais numa relação com a Tropicalia do que com a Bossa Nova. Mas fora do Brasil a Bossa Nova é muito mais vista. Só que aí... Paralelamente a isso também, você tem movimentos como o da Gabi Amarantos, que eu acabei de falar, que é o rock doido, que aí pega um movimento regional, um movimento que tem uma cultura muito consolidada, né, no Pará. E aí, a partir disso, ela vai criar uma sonoridade que vai começar a chamar atenção fora do país.
Natuza Nery
Qual seria o estrelato possível pro Brasil neste momento? Já que você fala que você enxerga algo que tá começando a se desenvolver. Onde é que a gente pode chegar no curto prazo?
Carol Prado
Olha, eu acho que artistas como o próprio João Gomes, por exemplo, tem muito potencial pra criar algo que chegue no nível do Bad Bunny, assim, eu sempre brinco, já brinquei até pro próprio João Gomes, que ele veio aqui no G1, ouviu da entrevista, eu falei, você é o Bad Bunny brasileiro, porque ele... A lógica é um pouco parecida, né? É um artista muito brasileiro, tem muita brasilidade. O trabalho dele é uma declaração de amor, assim, à música do Nordeste, à Luiz Gonzaga, tem muito dessas raízes, você percebe na música dele que é muito fiel, né? Às origens do forró, ao baião, enfim. Mas, ao mesmo tempo, ele consegue criar algo muito atual. Isso não é fácil, né? Você reverenciar o passado olhando pro futuro, né? Sem tentar imitar uma outra época, né? Você criar uma coisa que tem a cara do Brasil de hoje e respeitando as suas raízes, assim. Acho que o Bad Bunny faz isso e o João Gomes faz isso muito bem. Então, eu acho que o futuro dele aí talvez seja internacional.
Natuza Nery
É isso aí. Estamos torcendo. Carol, muito obrigada por ter topado conversar com a gente.
Carol Prado
Eu que agradeço, Natuza.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Isabela Buscov.
Carol Prado
Isabela.
Natuza Nery
Eu conversava com a Carol Prado sobre esse boom cultural da música latina. Com você, eu quero focar em outro boom, o do cinema, que muito nos deu alegria. Que momento deve ser o do cinema brasileiro em 2026?
Isabela Boscov
Essa é uma grande questão, Natuza. Tanto Ainda Estou Aqui quanto Agente Secreto, a gente pode encarar como casos pontuais em que a produção brasileira, a qualidade dela, consegue furar a bolha e chegar a outros países, chegar ao reconhecimento, em grande parte, por causa dos grandes festivais internacionais. Eles é que fazem a fama de um movimento cinematográfico. A gente secreto ganhou os prêmios de direção e de melhor ator por Wagner Moura, em Cannes. Ainda estou aqui, ganhou o prêmio de melhor roteirista em Veneza. E a partir daí foram se construindo as outras indicações e até a premiação do Oscar.
Carol Prado
E o Oscar vai para... Eu ainda estou aqui, Brasil!
Wagner Moura
O que realmente preocupa todo mundo é.
Isabela Boscov
Que esse não seja apenas um momento, como já houve outros momentos, que isso ganhe alguma espécie de continuidade. E aí é que entra a grande questão, a política de Estado. Pois é.
Natuza Nery
E aí olhando um pouco um pouco para isso, também para isso na verdade, a revista The Economist fala em uma espécie de renascimento da cultura latina e cita legislações, incentivos locais como a gente tem aqui no Brasil. O Brasil acaba sendo exemplo para o mundo. E aí eu quero te perguntar, O que a legislação brasileira tem que tem funcionado bastante para impulsionar o nosso cinema lá fora?
Isabela Boscov
O que ela tem de positivo é o mecanismo de renúncia fiscal de patrocinadores. Corre a ideia que é errônea de que o governo destina dinheiro à produção. Poderia fazer isso, muitos dos países fazem, a França faz, a Espanha faz com excelentes resultados, mas não é assim que acontece. Esse é um exemplo de algo que.
Wagner Moura
Tem funcionado, A Lei Rouanet tem 30 anos e funciona por incentivo fiscal. Uma empresa financia projetos culturais e depois desconta parte do dinheiro no valor dos impostos que tem a pagar para o governo federal.
Isabela Boscov
Mas o que é o problema? Aqui é a distribuição primeiro que faz com que o cinema brasileiro... seja mal conhecido, fora as comédias que fazem muito sucesso, os filmes que ganham fama internacional, fora isso a dificuldade de exibir esses filmes para um grande público. A gente tem um mecanismo de cota de tela, Essa assinatura do decreto feito pelo Presidente da República e também pela Ministra da Cultura, Margarete Menezes, foi feita no dia 24 e regulamenta, então, a cota de exibição para o cinema brasileiro em todas as salas de cinema do país. uma nas produções nacionais. Mas ele é posto em prática de maneira, eu diria, perfuntória. O circuito exibidor costuma empurrar os filmes nacionais que não estão destinados a fazer grande sucesso para as sessões mais vazias, que são vazias por um motivo. São muito tarde ou são longe, as pessoas têm trabalho, não vão poder ir ao cinema naquele horário, tudo mais. Então, não chega a ser um incentivo grande.
Natuza Nery
Quer dizer, não é desimportante, mas não é a panaceia, né?
Isabela Boscov
Não, de maneira nenhuma. Não da maneira como é praticado, pelo menos. A gente tem um gargalo muito grande na exibição, que é o fato de que a maior parte dos municípios brasileiros não tem uma sala de cinema. Se um público não conhece o próprio cinema, se ele não tem a oportunidade de conhecê-lo, como é que ele vai ganhar corpo? Como é que esse cinema vai ganhar corpo? Então essa é uma questão dificílima de resolver. Teria que haver um programa mesmo muito sério de Exibição itinerante pelos municípios, de exibição para o público escolar e tudo mais. E isso é feito apenas por iniciativa de produtores ou diretores que querem que o seu filme seja visto por públicos que normalmente não têm acesso ao cinema. que é um passatempo muito caro, mas não como uma política propriamente. E outro problema está nessa palavra política. Política de Estado é uma coisa, política de governo é outra. Se cada governo pode mexer no que seria uma política de Estado, um desfinancia completamente, daí o outro tenta reorganizar, mas daí vem mais um e desorganiza de novo. A gente vai indo sempre aos trancos e barrancos, a gente tem que renascer a cada dois, três, quatro anos.
Natuza Nery
Bom, e a gente vem de uma quadra histórica em que a legislação brasileira, especificamente a Lei Rouanet, virou objeto de disputa política e de muita crítica, né?
Isabela Boscov
Essa também é uma visão muito errônea. A produção cultural gera emprego, gera renda, gera reconhecimento no exterior, ou seja, ela atrai turismo, ela atrai investimento, ela atrai interesse, ela é um setor muito estratégico de uma economia. Coisas que países como os Estados Unidos, que subsidiam muito fortemente o próprio cinema por meio de abatimento fiscal, reconhecem. Países como a Coreia do Sul, que tem um programa fortíssimo de incentivo à produção cultural, esses países reconhecem que esse é um setor estratégico. E aqui a gente fica debatendo se deveria ou não, entendeu? sempre foi considerado um setor estratégico, é um braço muito importante do soft power americano, exportar conceitos, ideologia, modo de vida, aspirações, Então, desde sempre, os estudos americanos têm condições fiscais muito, muito, muito colher de chá. E tem, além disso, estados que incentivam de maneira, com incentivo fiscal, com abatimento fiscal, de maneira muito forte a produção. Por exemplo, a Geórgia, que hoje concentra muito a produção americana porque oferece incentivos fiscais muito grandes. O Novo México também faz isso, né? Então, são mecanismos que não chegam a mexer no dinheiro público, mas é assim, você paga um pouco menos de imposto.
Natuza Nery
Entendi. Agora, E os streamings? Qual é o papel dos streamings nessa disseminação da produção cinematográfica brasileira? Como são as formas de se consumir cinema hoje como trampolim pra essa ampliação de mercado mesmo?
Isabela Boscov
Os streamings costumam financiar aquilo que vai dar muita visualização na plataforma. Eventualmente tem projetos que são projetos de ambição mais artística e tudo mais, até por uma questão de prestígio da plataforma. Por exemplo, a Netflix investiu muito na produção colombiana, uma produção, aliás, esmeradíssima, muito apurada, de uma adaptação em forma de minissérie em duas partes, de 100 Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marques. Não necessariamente eles vão sempre investir na ambição artística, eles vão produzir aquilo que vai dar muita audiência. Nem sempre isso é o que traz projeção para uma cinematografia. Por outro lado, tem esse papel muito importante de ir a um país com um circuito exibidor tão falho, tão pouco capilarizado como o brasileiro, de levar essa produção a quem não tem acesso à sala de cinema. Nesse sentido, é muito importante também. Também é interessante e lógico ter mais um espaço de produção para um cinema estourar. Como o cinema iraniano estourou nos anos 90, como o cinema mexicano estourou no início dos anos 2000, o absolutamente essencial são os festivais. Tem que ter presença em festival. Por isso que é muito positivo o que aconteceu com Ainda Estou Aqui e o que está acontecendo com O Agente Secreto também.
Wagner Moura
É um recorde para um filme brasileiro. Três indicações ao Globo de Ouro. O Agente Secreto vai concorrer nas categorias de melhor filme de drama e melhor filme de língua não inglesa. E Wagner Moura é o primeiro brasileiro indicado como melhor ator em filme de drama.
Isabela Boscov
A presença em festival é isso que leva a um circuito maior no mundo. É aí que se chama a atenção da produção internacional, da exibição internacional, do investimento.
Natuza Nery
Para isso acontecer precisa ter dinheiro. pra aumentar, essa pra garantir, melhor dizendo, essa presença da produção brasileira lá fora. Isabela, sempre bom te ouvir aqui no assunto. A gente tinha falado da última vez antes do Oscar, ou seja, você é pé quente. Tô querendo trazer você algumas vezes antes do próximo. Um beijo.
Isabela Boscov
Eu espero que a gente tenha muitos motivos ainda até março, natuza, para conversar sobre isso.
Natuza Nery
Teremos. Um beijo grande.
Isabela Boscov
Um beijo grande. Muito obrigada.
Natuza Nery
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catelan. Eu sou Ana Tuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Neste episódio, Natuza Nery investiga o papel central da cultura latino-americana no cenário global em 2026, conversando com jornalistas especialistas sobre os impactos no cinema e na música, o engajamento digital dos latinos, a influência das políticas culturais e o desafio brasileiro de romper barreiras linguísticas. O programa contextualiza o “boom” latino à luz de recordes recentes, conquistas no Oscar e interesse internacional nas expressões culturais da região.
“Um continente inteiro online. Soma-se a isso a diáspora... um público que puxa referências, línguas, sons e histórias para o centro do mercado global.”
— Natuza Nery (00:33)
“Em 2020, o Bad Bunny lançou o Yo hago lo que me da la gana, álbum mais ouvido daquele ano, né? ...a música latina começa a ser vista como um grande player.”
— Carol Prado (04:30)
“A partir dessas raízes, ele constrói uma sonoridade que é universal pro nosso país, e acaba chamando a atenção também de fora.”
— Carol Prado (07:31)
“Os fãs e os haters brasileiros são igualmente poderosos assim, né? Dentro das redes. E o mercado da cultura pop tá prestando muita atenção nisso.”
— Carol Prado (11:00)
“Pela primeira vez, um filme brasileiro levou um Oscar. ...Significa que a Academia incluiu ‘Ainda Estou Aqui’ entre os dez melhores longas do ano.”
— Isabela Boscov (01:55)
O Brasil é apontado como caso de sucesso por mecanismos de renúncia fiscal (Lei Rouanet), embora haja restrições e gargalos na distribuição dos filmes.
“O mecanismo de renúncia fiscal de patrocinadores... é um exemplo de algo que tem funcionado.”
— Isabela Boscov (23:53)
A “cota de tela” obriga exibição de filmes nacionais nos cinemas, mas a aplicação é limitada porque os melhores horários são reservados a blockbusters.
“Não é desimportante, mas não é a panaceia, né?”
— Natuza Nery (26:16)
“O problema... é a distribuição. O cinema brasileiro seja mal conhecido, fora as comédias...”
— Isabela Boscov (24:33)
Falta de salas de cinema nos municípios e ausência de uma política de Estado consolidada prejudicam a construção de público.
“O absolutamente essencial são os festivais. Tem que ter presença em festival. Por isso que é muito positivo o que aconteceu com Ainda Estou Aqui...”
— Isabela Boscov (30:32)
Escolha de Bad Bunny para o show do Super Bowl provocou reação política nos EUA, especialmente do ex-presidente Trump.
O álbum “Debí Tirar Más Fotos” reforçou a identidade porto-riquenha e ressoou com toda a América Latina, tornando-se símbolo de resistência cultural em meio a políticas anti-imigração nos EUA.
“O conceito desse álbum... é muito bem amarrado e muito bem encaixado no momento político que os latinos estão vivendo nos Estados Unidos.”
— Carol Prado (14:26)
“A escolha de um artista que canta principalmente em espanhol deixou muitos integrantes do movimento maga irritados.”
— Wagner Moura (13:49)
Bad Bunny limitou shows nos EUA para “não criar aglomeração de latinos” e evitar perseguição num contexto de endurecimento migratório.
A música brasileira possui reconhecimento internacional, mas ainda é vista sob a ótica da bossa nova do passado.
Novos artistas brasileiros, com mistura de estilos regionais e modernos, começam a conquistar espaço, mas a barreira do idioma persiste.
“A música do Brasil é muito respeitada, mundo afora, né? O Brasil é visto como sinônimo de música boa por muitas pessoas no mundo...”
— Carol Prado (18:33)
“Você criar uma coisa que tem a cara do Brasil de hoje e respeitando as suas raízes, assim. Acho que o Bad Bunny faz isso e o João Gomes faz isso muito bem.”
— Carol Prado (20:41)
Sobre a autencidade:
“Hoje a música pop parte do regional pra construir algo que tenha força global...”
— Carol Prado (06:16)
Sobre engajamento digital:
“O engajamento é a palavra de ouro do mercado hoje em dia.”
— Carol Prado (11:32)
Sobre política e cultura:
“A produção cultural gera emprego, gera renda, gera reconhecimento no exterior, ou seja, ela atrai turismo, ela atrai investimento... ela é um setor muito estratégico de uma economia.”
— Isabela Boscov (27:57)
Sobre a continuidade das conquistas:
“Que esse não seja apenas um momento... que isso ganhe alguma espécie de continuidade. E aí entra a grande questão: política de Estado.”
— Isabela Boscov (23:03)
Sobre cinema nacional e festivais:
“A presença em festival é isso que leva a um circuito maior no mundo. É aí que se chama a atenção da produção internacional, da exibição internacional, do investimento.”
— Isabela Boscov (31:55)
O episódio demonstra como a cultura latino-americana, impulsionada por autenticidade, engajamento digital, festivais internacionais e políticas de fomento, ocupa o centro das atenções do entretenimento mundial. O Brasil colhe frutos mas ainda enfrenta desafios estruturais e de idioma, enquanto o boom latino redefine referências globais, mesclando resistência política e expressão artística em um cenário de crescente protagonismo.