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Vitor Boiadjan
O café está no dia a dia, na mesa do café da manhã, no papo entre amigos. O cheiro da bebida e do grão faz parte da memória afetiva. Quase todo brasileiro tem uma lembrança ligada ao café. E essa fruta também ajudou a escrever a história do Brasil. Uma história de poder e de influência.
Milena Serafim
No.
Vitor Boiadjan
Século XIX, o café transformou o país. Foi o combustível da economia, como explica a historiadora Ana Luíza Martins.
Ana Luíza Martins
Então são esses primeiros grandes fazendeiros que vão abrir as primeiras indústrias e fazer os sacos para café, porque então os sacos eram importados da Inglaterra. Então eles começam primeiro fazendo sacos e depois vão para a indústria de tecidos, que é a nossa indústria pioneira em várias partes do Brasil.
Vitor Boiadjan
As cidades cresceram com a riqueza do ouro negro. Quem tinha café mandava. Alguns anos depois da Proclamação da República, os chamados barões financiaram até o comando do país. Daí a expressão política do café com leite, um rodízio de poder entre São Paulo, dos cafeicultores e Minas Gerais, dos pecuaristas. De novo, você ouve a Ana Luísa Martins, autora do livro História do Café.
Ana Luíza Martins
É aí que a gente vê como um certo egoísmo, um autocentrismo no caso de quem detinha o poder, e que por acaso eram os mineiros e paulistas, e que por acaso também, em geral, eles eram formados na faculdade de Direito do Lago São Francisco. Eles eram a elite cultural e econômica do país. e não queriam abrir mão daquele privilégio de serem os donos das grandes produções de café e das suas exportações. Embora falem café com leite para Minas, mas Minas tinha muito café também. A combinação dessa política dos governadores mineiros e paulistas era o seguinte, numa eleição nós fazemos a campanha do mineiro, na outra eleição é a campanha do paulista, e assim iam se revezendo no poder. até que Getúlio Vargas interrompeu esse ciclo.
Vitor Boiadjan
Foram momentos de altos e baixos com o fim da sua apoteose marcada pela quebra da Bolsa de Nova Iorque. Em 1929, o governo brasileiro queimou milhares de sacas para evitar uma crise ainda maior com o excedente estocado. E nas décadas seguintes, o setor passou por profundas transformações, da modernização das lavouras à abertura de novos mercados. Foi aí que, ao longo da década de 1970, o café voltou a ganhar força. O café brasileiro chega a diferentes cantos do mundo e tem nos Estados Unidos seu principal consumidor.
Peter Roberts
E apesar de consumir 8 bilhões de dólares por ano de café, os Estados Unidos não tem como produzir o grão por causa do clima. Um terço dos grãos de café moídos aqui é brasileiro. Quando o café brasileiro chega aqui, gera 2 milhões e 200 mil empregos.
Vitor Boiadjan
Só que uma medida do governo Trump começou a afetar esse mercado. A tarifa é de 50% contra vários produtos brasileiros, entre eles o café.
Peter Roberts
Peter Roberts é especializado no mercado de café artesanal. Ele explica que nos últimos cinco anos o preço do café no mercado internacional subiu 50 centavos por causa da crise climática. Mas para o público americano, nas lojas, o café subiu quase 5 dólares.
Economist/Market Analyst
A alta no mês de agosto foi mais de 4% em relação ao mês anterior. E aí, no comparativo do ano passado, o preço do café por lá aumentou em mais de 20%.
Vitor Boiadjan
A ligação entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu as negociações sobre as pesadas tarifas. Segundo a BBC News Brasil, Trump disse que os Estados Unidos estão sentindo falta de alguns produtos brasileiros. E citou justamente ele, o nosso café.
Economist/Market Analyst
Olha o que aconteceu. No mês de agosto, que foi o primeiro mês do tarifácio imposto ao Brasil, o preço do café no varejo americano subiu quase 4%, 3,6%. Foi a maior alta num mês em 14 anos. E aí, várias, várias publicações, jornais, sites, publicações especializadas, chamam a atenção para o impacto, em particular, do tarifaço sobre o Brasil. Então, quando vem a notícia de que Donald Trump comentou com o Lula sobre, ah, estamos preocupados com o café brasileiro, precisamos do café brasileiro, ele está percebendo uma pressão que vem do mercado consumidor. E a gente já aprendeu, e vale para o Brasil, aumento de preço de comida drena a popularidade de quem está no governo central, no governo federal.
Milena Serafim
Da redação do G1, eu sou Nath Uzaneri e o assunto hoje com Vítor Boedian é...
Vitor Boiadjan
O café como ativo político. Neste episódio, eu converso com Milena Serafim, professora de Administração Pública da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e com Marcos Matos, diretor-geral do Ccafé, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil. Quarta-feira, 8 de outubro. Milena, nós falamos aqui na abertura do assunto sobre a importância política e econômica do café. E num artigo recente, você e a pesquisadora Eugênia da Silva analisaram também o papel dessa commodity numa promoção cultural do país, promoção diplomática do país. Você pode nos explicar como o grão virou um cartão de visita do Estado brasileiro e quando isso começou?
Milena Serafim
Neste trabalho nós analisamos a relação entre a política externa e a diplomacia cultural do Brasil na primeira metade do século XX, em particular sobre a questão da propaganda comercial do café, uma espécie de uma narrativa, de um branding em que o governo brasileiro da época colocava para alguns países, em particular os Estados Unidos, que o consumo do café estava, de certa forma, ele se alinhava com um consumo de pessoas que tinham um estilo de vida, que tinham vitalidade, e se alinhava inclusive a narrativa da época de um Brasil moderno. Então, nessa perspectiva, a gente trabalha a ideia central de que o café, além de commodity, virou um símbolo cultural, mobilizado ali para projetar uma imagem de país moderno e fortalecendo, claro, os laços econômicos e interculturais entre os dois países. E fica bem evidente no contexto ali na primeira metade do século XX, apesar do Brasil já manter relações do final do século XIX, início do século XX, com os Estados Unidos, o que a gente percebeu nesse estudo foi uma estratégia muito bem organizada, a partir de uma janela de oportunidade em que o presidente Franklin Roosevelt, na época, culminou a política da boa vizinhança e buscou ali fortalecer laços com os países do continente americano. E nessa janela de oportunidade, vamos dizer assim, o Brasil pôde apresentar na Feira Internacional de Nova York, ele tinha lá um stand, um pavilhão do Brasil, e ele dedicou a maior parte do espaço desse stand para apresentar ali o café brasileiro. com degustações e, obviamente, trazendo a narrativa da cadeia produtiva, mostrando como esse produto se entrelaçava com a cultura brasileira.
Historical Expert on Coffee
O café vem, a onda verde, como se dizia, e vai tomar conta, então, primeiro do Rio de Janeiro, ali no sul, em já entra em São Paulo, ali no Vale do Paraíba Paulista, na cidade de Areias, onde tem uma fazenda belíssima chamada Paudalho, que é a primeira fazenda construída para ser produtora de café. Então, se dá primeiro verificando o que era o produto da hora e da vez e que o Brasil tinha condições ideais naquele momento, porque ele tinha dois fatores que são fundamentais para o café. Terras a perder de vista e mão de obra, naquela altura, praticamente grátis, porque assim, produtores de café do mundo.
Milena Serafim
E esse aspecto é bastante importante para reforçar realmente o movimento que se deu a partir dessa estratégia da diplomacia cultural, em que a partir deste momento o governo brasileiro definiu uma infraestrutura de propaganda contínua a partir do Brazilian Information Bureau, em que ele impulsionava ações, em particular, ele estava sediado em Nova York, ações de propaganda mesmo, algumas no sentido de ocupar alguns eventos, com espaços de degustação, exposições permanentes, também participaram, tivemos ali uma preocupação em apresentar a rádio, imprensa dos Estados Unidos, anúncios diretos sobre esse produto, enfim, houve diversas campanhas ligando o consumo do café a esse estilo de vida moderno.
Vitor Boiadjan
A gente sabe, Milena, que ninguém morre se ficar sem café, né? Mas é um produto que de fato já está impregnado na cultura nossa e principalmente dos países ocidentais, né? Como é que o Brasil seguiu fazendo essa promoção do produto e como que há aderência a esse consumo do café brasileiro?
Milena Serafim
É super interessante a sua pergunta, porque realmente o café não tem nenhum valor nutricional, como o arroz, o feijão, mas mesmo assim ele faz parte da nossa rotina, do nosso consumo. E você tem razão, em particular, com a predominância dos países do Ocidente. Faz parte mesmo da cultura, e aí que fica evidente esse aspecto cultural. Tanto no Brasil quanto em outros países, se a gente pegar também no caso dos Estados Unidos, mais de 70% dos adultos consomem pelo menos três porções ou xícaras de café. No Brasil, essa estatística é também um pouquinho até maior.
Market Researcher
Uma pesquisa a pedido da ABIC ouviu mais de 4 mil pessoas no país e apontou que a cada 100 consumidores, 39 preferem buscar marcas mais baratas. Neste ano, 24% dos brasileiros reduziram o consumo do café, a maior taxa da série histórica do levantamento. Mesmo em menor quantidade, a bebida ainda está presente na rotina de 98% da população.
Marcos Matos
Já 39% disseram que compram a marca mais barata no supermercado. Na pesquisa anterior, em 2023, esse índice era de 16%. A escolha por marcas mais baratas, mas que dobrou nos últimos dois anos. Isso é reflexo direto do cenário econômico e da alta dos preços.
Milena Serafim
É o momento, inclusive, que as pessoas se encontram, tomam um café junto, então faz parte desse aspecto mesmo da nossa cultura, do nosso estilo de vida.
Vitor Boiadjan
E mais especificamente da vida do norte-americano, da população dos Estados Unidos, que consome massivamente o café, não só em produtos in natura, digamos assim, o café simplesmente filtrado, mas em outros produtos industrializados e até mesmo em suplementos alimentares. A cafeína é muito presente na cultura alimentar e suplementar do norte americano. Como é que você vê a importância? Acho que eu já dei a resposta, mas vá adiante, o que você pode acrescentar?
Milena Serafim
Sem sombra de dúvida o café entrou no gosto do norte-americano. O Brasil tem os Estados Unidos como o principal importador do nosso café. E isso vai ao encontro exatamente do que você comentou, quer dizer, existe um consumo desse produto, por boa parte, mais de 70% dos adultos norte-americanos consomem pelo menos três vezes ao dia. Isso nesse consumo direto, que é você pegar o café nessas empresas, então isso faz nas cafeterias, é até bem interessante porque a gente observa nas séries, nos filmes, como o café faz parte, você tomar aquela bebida, você portar essa bebida faz parte ali da forma como o norte-americano, enfim, desempenha suas funções, interage, então tem aquela figura até, aquela imagem que sempre aparece e é real mesmo, as pessoas saem de casa, a primeira coisa que elas fazem é passar numa cafeteria, seja a pé, seja de carro Agora.
Vitor Boiadjan
Falando especificamente do episódio que nós estamos vivendo hoje, o quanto que ele vai ficar na história como mais um episódio em que o café brasileiro salvou a nossa política? Você sente que isso pode acontecer? O café ser um instrumento da diplomacia brasileira, mais uma vez, para conseguir quebrar barreiras que estão sendo impostas circunstancialmente por um governo?
Milena Serafim
Sem dúvida, eu acho que a gente observa, assim como teve na década de 30, uma estratégia definida partindo, obviamente, dessa commodity, a gente retorna no atual contexto, pós-tarifaço do governo Trump, sentando à mesa, porque um dos produtos mais consumidos pelos norte-americanos é um produto brasileiro. E saiu recentemente uma informação de que já houve, a partir do tarifaço, um aumento no preço do café nos Estados Unidos, um aumento de quase 30%. Isso quer dizer que o consumidor final está sentindo no bolso, e isso nos leva realmente a voltar a conversar, e o café, de certa forma, o nosso famoso cafezinho, está possibilitando uma nova rodada de conversa.
Vitor Boiadjan
Milena, muito obrigado pela conversa, por compartilhar os seus conhecimentos e estudos aqui com a gente no assunto.
Milena Serafim
Eu que agradeço, Vitor, é um prazer, eu sou muito fã do assunto.
Vitor Boiadjan
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Marcos Matos. Marcos, a gente conversa na esteira da ligação entre Lula e Trump, uma conversa que trouxe de volta o protagonismo do café nas negociações entre os dois países. Segundo informações da BBC Brasil, na conversa com Lula, o presidente americano afirmou que os Estados Unidos estão sentindo falta de alguns produtos brasileiros e citou especificamente o café. Então, qual que é a importância do café brasileiro para os Estados Unidos, para a vida do americano e como que esse tarifácio está sendo sentido pelo consumidor de lá? Como é que é esse café brasileiro exportado para os Estados Unidos?
Marcos Matos
Estados Unidos é o maior consumidor de café do mundo, número um, com 25,5 milhões de sacas, e o Brasil, ele oscila, isso antes do Terefaço, de 32% a 34% daquele mercado. 76% da população norte-americana toma café, e dessas pessoas que tomam café, a média de três xícaras por dia. Lembrando que Estados Unidos, na época da independência, abraçou o café e baniu o chá como símbolo cultural. E falando em símbolo cultural, é o símbolo também cultural do Brasil, o maior produtor, o maior exportador e, segundo, o maior consumidor de bebida. Exportamos para os Estados Unidos cerca de 36% de todas as nossas vendas externas. Então, como país, Estados Unidos é o mais importante. Em 2024, que é um ano fechado, sem influências de tarifas, nós exportamos 8,1 milhões de sacas, com 2 bilhões de dólares na receita cambial. Então, posto tudo isso, existe uma relação muito íntima entre os exportadores brasileiros e as empresas norte-americanas. Empresas que nós temos relações por década, século, às vezes mais de 100 anos, e é sede de grandes empresas globais. Marcas icônicas têm, em referência no mercado de café, têm nos seus blenders o café brasileiro de forma majoritária. E o que acontece com o tarifácio? O tarifácio mexe com o equilíbrio, causa um desarranjo no mercado global. Por quê? O Brasil é muito importante e o Brasil colheu uma safra de 2025 num volume menor que 2024. E desde 2020, o Brasil não sabe o que é uma safra cheia devido a questões climáticas. Novamente, questões climáticas impactaram a nossa safra, principalmente café arábica, que é o que a gente exporta de forma majoritária para os Estados Unidos.
Vitor Boiadjan
Em números, 10 milhões de sacas foram vendidas no mesmo período no ano passado, contra 9,5 milhões vendidas este ano. E o preço médio do quilo também disparou. Hoje está custando 63 reais e a previsão é de que isso aumente em 15% nas próximas semanas.
Agricultural Expert
A safra brasileira, conforme foi chegando, foi sendo colhida, então se aumenta ali a oferta de café, isso reduziu o preço. No entanto, principalmente por questões climáticas, a qualidade do café veio abaixo do esperado. Resultado disso, o pessoal está precisando moer um volume maior de café para conseguir ter aquela qualidade desejada. Ou você está perdendo uma fração dos grãos colhidos porque não tem as características adequadas para o processamento. Resultado disso, o preço do café está ficando mais elevado.
Marcos Matos
Pra você ter uma ideia, no mês de agosto, no varejo lá do norte americano, o preço do café aumentou, a inflação do café foi nove vezes maior que a média da inflação norte-americana. Nós estamos na média de todos os produtos. Em setembro, ainda não fechou os dados de inflação, mas tende a ser ainda mais acentuado. E o repasse de preço para os consumidores vai ser maior, pensando já no feriado de ação de graças que está chegando em novembro. Então, tudo isso causa um impacto muito grande nesse mercado. Se a gente olha as contratações internacionais, vamos dar o exemplo aqui da Bolsa de Nova Iorque, que rege os contratos do café arábica. No dia 31 de julho desse ano, quando o Trump formalizou a publicação da ordem executiva contra o Brasil, que passaria a valer a partir de 6 de agosto, de 50%, O café estava cotado a 284 dólares por libra-peso, 2,84. Hoje, ele oscila de 390 a 400 dólares por libra-peso, ou seja, mais de 40%. E se você aplica... a tarifa de 50% vai pra praticamente 600 dólares, ou seja, inviabiliza completamente qualquer negócio dos Estados Unidos com o Brasil. Por isso, a gente viu em agosto os Estados Unidos reduzir 46% das compras do café brasileiro, indo pra segundo lugar no nosso ranking, a Alemanha passou na primeira posição, e em setembro os Estados Unidos deram pra terceira posição, retraindo 56%. Ficou Alemanha em primeiro, Itália em segundo, Estados Unidos em terceiro. Por que que nós não zeramos as exportações? Porque naquela ordem executiva dizia, os produtos que começaram o processo de despacho aduaneiro, a exportação, antes do dia 6 de agosto, tinham até o dia 5 de outubro, que foi agora, vinte de semana passada, pra chegar nos Estados Unidos, sem a tarifa. Então, aqueles volumes que ainda chegaram é por conta desse prazo que nós tínhamos. Praticamente inviabiliza tudo isso.
Vitor Boiadjan
Mas vai zerar então?
Marcos Matos
Fazerá, se não mudarmos essa situação, inviabiliza qualquer negócio com o Brasil 50%.
Vitor Boiadjan
Quer dizer, então vocês estão esperando que, embora tenha havido alguma exportação dentro do período do tarifácio, daqui pra frente podemos ver zerando, se nada for feito, zerando as exportações do Brasil para os Estados Unidos do café.
Marcos Matos
Sem dúvida, e aí entra o porquê para nós é um tema prioritário. Primeiro, contratos. Nós temos muitos contratos sem abertos que estão sendo postegados para o próximo ano. Vai ter custos de juros, custos administrativos, jogando para o próximo ano, porque o mercado acredita que em algum momento isso vai ser revisto. E a gente entende que aí aquele estudo da National Coffee Association, né, Vitor, que nos ajudou e muito nas reuniões em Washington, a gente teve missão em Washington, tivemos reuniões no Departamento de Estado, sempre ao lado da National Coffee Association, dos nossos importadores, a gente mostrou lá o estudo que a National Association patrocinou. Cada um dólar que o Estado desgasta importando cafés, ela agrega A economia americana agrega 43 dólares, ou seja, 1 para 43. São 343 bilhões de dólares de faturamento da economia em todo o mundo do café, cafeterias, supermercados. 8% do food service se deve ao café e produtos que são conectados ao café. 2,2 milhões de empregos. Então, veja, quem mais ganha na história é o café. E essa ação de levar esse conhecimento para as autoridades resultou de estar ali nas argumentações do presidente Trump, quando ele disse que sente falta do café brasileiro. Foi feito um trabalho, a diplomacia do setor privado almejando isso.
Economist/Market Analyst
Tem parlamentares americanos apresentando projeto bipartidário, veja, um republicano e um democrata, para, a partir de um projeto legislativo, eliminar a tarifa do café. Por fim, nunca vai ter café nos Estados Unidos. Tem uma faixa entre o Trópico de Câncer e de Capricórnio. É ali que o café se produz. Nos Estados Unidos tem uma produção residual no Havaí, mas que nunca dará conta do consumo americano.
Marcos Matos
E a gente está mais próximo agora do que antes em termos de estratégia, né? Hoje existe um jogo para ser jogado, um jogo de xadrez. Mas não existia esse jogo, porque numa outra ordem executiva, dia 5 de agosto, os Estados Unidos já reconheceram o café como recurso natural não disponível e de importância econômica para as empresas norte-americanas, e isentavam já o café de todas as tarifas, desde que os países tivessem relação bilateral pronta, que era o nosso caso, que nós não tínhamos. Então agora a gente passa a ter argumentações para já entrar e pedir isenção para todos os cafés.
Vitor Boiadjan
Marcos, ao longo desses dois meses praticamente de tarifaço valendo, o café brasileiro encontrou outros mercados, foi buscando outros mercados, foi redirecionado. Para onde foi esse café brasileiro que falta no mundo o café? Para onde está indo o café brasileiro enquanto o mercado americano está desfalcando?
Marcos Matos
Em valores, a gente tem números muito expressivos por conta dessa alta, né, formou aí quase 40% do preço médio do café que nós exportamos no mês de agosto, por exemplo, e setembro, é importante mencionar que o volume está mais baixo, né, então antes da gente falar de cada país e blocos econômicos, né, A gente tem que lembrar que os volumes estão cerca de 20% mais baixos do que o ano passado pela dificuldade em nossa safra. Portanto, parte do conceito, do princípio de que a disponibilidade de café é menor. Posto isso, mencionei ali que a gente teve uma queda abrupta para os Estados Unidos e países europeus aparecendo em primeiro lugar. Por que eu falo isso? Quase mais de 40% das exportações... Vamos pegar aqui o grande concorrente do Brasil no mercado de cafés arábitas, porque é o que a gente exporta de forma majoritária para os Estados Unidos. Colômbia, 45% das suas exportações vão para os Estados Unidos e quase 30% vão para a Europa. O que tende a acontecer com as tarifas? Os colombianos tendem a focar mais no mercado norte-americano. E a gente, os Estados Unidos, costumava ser 16% e a Europa, 50%. Então, a gente perde aqui e foca mais na Europa. Mas nós exportamos para cerca de 120 países por ano. A gente foca nos países asiáticos, países árabes, países asiáticos, a gente viu o Japão também com números muito expressivos, Coreia do Sul, China voltando a crescer em relação a 2024. Veja, com volumes mais baixos, certos países como China aumentam em volume, que é uma coisa abrupta, não esperada, digamos assim. Mas é que o consumo lá pegou para as novas gerações.
Milena Serafim
Para os exportadores de café, um respiro veio da China. 183 novas empresas foram habilitadas para vender no mercado chinês. Essa habilitação vale por cinco anos.
Market Researcher
A China ocupa o 11º lugar na lista de países que compram o nosso café. Foram pouco mais de 500 mil sacas enviadas para lá nesse ano. Ainda bem distante dos Estados Unidos, o principal comprador, com mais de 3 milhões de sacas só em 2025. o que.
Marcos Matos
Não muda a nossa agenda de buscar a isenção, porque abrir mercados, diversificar mercados, tudo isso é uma agenda paralela. A gente sempre fez, a gente fez ações de promoção da imagem, da sustentabilidade, abrir mercados em 50 países para o café nos últimos oito anos. Então, veja que são agendas, para nós, a agenda prioritária é Colocar o café como isenção porque a relação Estados Unidos e Brasil é uma relação de países insubstituíveis.
Vitor Boiadjan
Bom, em que pese esse mercado mais restrito em função do tarifaço? A gente vê os preços no mercado internacional numa alta bastante expressiva, o preço na Bolsa de Nova York está nessa alta bastante expressiva, no café. Como é que está o clima entre os produtores nesse cenário? Eles estão entusiasmados para continuar ampliando as áreas cultivadas ou eles estão mais receosos esperando ver o desfecho dessa situação?
Marcos Matos
Essa pergunta é muito interessante, Vitor, porque se a gente olhar o nosso desempenho como cadeia produtiva, em produtividade, investimento em irrigação, novas variedades, ela é uma linha crescente. E nesse período a gente teve momentos de alta e momentos de baixa. Então qual que é o diferencial do Brasil? O produtor segue investindo. E para isso ele precisa de uma estrutura e de uma razão. É importante mencionar que nas últimas décadas a nossa produtividade aumentou 400%, isso devido por as práticas agrícolas, que lhe conferem maior resiliência às anomalias climáticas. E também é importante mencionar que mesmo em momentos de com preços mais baixos, às vezes, para o Brasil, mesmo com preços mais baixos, poderia ser remuneratório. Por quê? A gente tem um índice, que a gente calcula há 20 anos, que é o índice que mede o preço da exportação, que é repassado ao produtor como renda. Então, daquilo que a gente consegue vender, E aí quanto melhor a gente agrega valor, maior é o recebimento dos nossos produtores. A gente tem um índice que no café arábica dos últimos quatro anos, médio, a gente tá com índice de 91,2% no café arábico e 93,9% no café conilon. Ou seja, daquilo que a gente vende, preço free on board, colocar com porto, A maior parte é renda para o produtor. Então, isso ajuda o produtor a seguir investindo. O que ele vê? O café crescendo no mundo, virando referência cultural na China, vindo pessoas do mundo todo conhecer os cafés do Brasil, o Brasil ganhando concursos de qualidade, indo ganhando concursos das fazendas mais sustentáveis do mundo. conceito de bebida, se fortalecendo as novas gerações. Então ele obviamente vê com preocupação essa geopolítica complexa, vê com preocupação os desafios logísticos e principalmente as anomalias climáticas que ele sente na pele, mas ele vê os preços subindo, é competitivo, a cadeia é eficiente e ele sabe que vai poder seguir investindo. Então eu digo que o produtor, ele vê com otimismo, numa visão mais ampla possível. Quem mais sofre nessa hora é a indústria, que não consegue repassar essas altas de forma imediata, você sabe como funciona o supermercado, os aumentos são muito... são diluídos ao longo do tempo. e os exportadores que estão ali com os contratos abertos, postergando, default, né? Então, o risco para o comércio é muito maior do que para o produtor, mas o produtor é o que sente na pele as anomalias climáticas e tudo que a gente também está vivendo.
Vitor Boiadjan
Marcos, muito obrigado pela sua participação aqui no assunto.
Marcos Matos
Muito obrigado, Victor. Conte sempre conosco, a gente está esperançoso com toda essa nova movimentação e tenho certeza que a gente vai poder compartilhar informações muito mais positivas em breve.
Vitor Boiadjan
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catellan. Eu sou o Vitor Boiadjan e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: October 8, 2025
Host: Vitor Boiadjan
Convidados: Milena Serafim (Unicamp), Marcos Matos (Cecafé), especialistas de mercado
Tema: Como o café, além de motor econômico, torna-se instrumento e símbolo da diplomacia internacional do Brasil, especialmente em cenários de crise e disputa comercial.
Neste episódio, o podcast “O Assunto” mergulha no papel multifacetado do café brasileiro, alinhando sua trajetória como principal commodity agrícola do país à sua força como ativo de poder político, diplomático e cultural — especialmente frente às recentes tarifas impostas pelos Estados Unidos durante o governo Trump. O episódio integra análises históricas, depoimentos de estudiosos sobre a construção do "soft power" do grão, e o impacto concreto das tensões comerciais no cenário global atual, tanto para produtores quanto nos mercados consumidores.
Tópicos:
“Quem tinha café mandava. Alguns anos depois da Proclamação da República, os chamados barões financiaram até o comando do país. Daí a expressão política do café com leite.” (Vitor Boiadjan, 01:02)
“Eles eram a elite cultural e econômica do país. e não queriam abrir mão daquele privilégio de serem os donos das grandes produções de café e das suas exportações.” (Ana Luíza Martins, 01:38)
Tópicos:
“Um terço dos grãos de café moídos aqui é brasileiro. Quando o café brasileiro chega aqui, gera 2 milhões e 200 mil empregos.” (Peter Roberts, mercado de café, 03:09)
“No mês de agosto, que foi o primeiro mês do tarifácio... o preço do café no varejo americano subiu quase 4%, 3,6%. (...) aumento de preço de comida drena a popularidade de quem está no governo central, no governo federal.” (Economista, 04:23)
Tópicos:
“O café, além de commodity, virou um símbolo cultural, mobilizado ali para projetar uma imagem de país moderno e fortalecendo, claro, os laços econômicos e interculturais.” (Milena Serafim, 06:18)
“Houve diversas campanhas ligando o consumo do café a esse estilo de vida moderno.” (Milena Serafim, 09:20)
Tópicos:
“Mesmo em menor quantidade, a bebida ainda está presente na rotina de 98% da população.” (Market Researcher, 11:27)
“O nosso famoso cafezinho está possibilitando uma nova rodada de conversa.” (Milena Serafim, 14:40)
Tópicos:
“Nunca vai ter café nos Estados Unidos. Tem uma faixa entre o Trópico de Câncer e de Capricórnio. É ali que o café se produz.” (Economista, 22:52)
Tópicos:
“Nas últimas décadas a nossa produtividade aumentou 400%.” (Marcos Matos, 27:24)
Sobre o poder da elite cafeicultora:
“Eles eram a elite cultural e econômica do país. e não queriam abrir mão daquele privilégio de serem os donos das grandes produções de café e das suas exportações.”
Ana Luíza Martins (01:38)
Sobre a influência do café na política de preços:
“Aumento de preço de comida drena a popularidade de quem está no governo central, no governo federal.”
Economista (04:23)
Sobre o café como cartão de visita do Brasil:
“O café, além de commodity, virou um símbolo cultural.”
Milena Serafim (06:18)
Sobre o impacto do tarifaço e a ameaça de ruptura:
“Praticamente inviabiliza tudo isso... zerando as exportações do Brasil para os Estados Unidos do café.”
Marcos Matos (21:13–21:36)
Sobre a impossibilidade de autossuficiência dos EUA:
“Nunca vai ter café nos Estados Unidos. Tem uma faixa entre o Trópico de Câncer e de Capricórnio. É ali que o café se produz.”
Economista (22:52)
Sobre a resiliência e otimismo do setor:
“É importante mencionar que nas últimas décadas a nossa produtividade aumentou 400%... O produtor, ele vê com otimismo.”
Marcos Matos (27:24)
O episódio ilumina o papel estratégico do café nas relações internacionais e na construção do soft power brasileiro, especialmente perante as oscilações do cenário global. Mais que uma commodity, o café é símbolo, moeda diplomática e motor econômico. Mesmo em contextos adversos, como o da tarifa americana, o setor mostra resiliência, inovação e busca pela manutenção do protagonismo brasileiro no mercado internacional.