O Assunto – O Café Como Ativo Político
Data: October 8, 2025
Host: Vitor Boiadjan
Convidados: Milena Serafim (Unicamp), Marcos Matos (Cecafé), especialistas de mercado
Tema: Como o café, além de motor econômico, torna-se instrumento e símbolo da diplomacia internacional do Brasil, especialmente em cenários de crise e disputa comercial.
Visão Geral do Episódio
Neste episódio, o podcast “O Assunto” mergulha no papel multifacetado do café brasileiro, alinhando sua trajetória como principal commodity agrícola do país à sua força como ativo de poder político, diplomático e cultural — especialmente frente às recentes tarifas impostas pelos Estados Unidos durante o governo Trump. O episódio integra análises históricas, depoimentos de estudiosos sobre a construção do "soft power" do grão, e o impacto concreto das tensões comerciais no cenário global atual, tanto para produtores quanto nos mercados consumidores.
Estrutura e Destaques do Episódio
1. O Café Como Força Econômica e Política na História do Brasil
Tópicos:
- O café é parte central da cultura e da afetividade nacional, mas sobretudo, foi alicerce do desenvolvimento brasileiro, notadamente no século XIX.
- Historiadora Ana Luíza Martins descreve o surgimento das indústrias ligadas ao café e a formação da elite política brasileira:
“Quem tinha café mandava. Alguns anos depois da Proclamação da República, os chamados barões financiaram até o comando do país. Daí a expressão política do café com leite.” (Vitor Boiadjan, 01:02)
- A chamada “política do café com leite” e o rodízio de poder entre São Paulo (cafeicultores) e Minas Gerais (pecuaristas), interrompida apenas por Getúlio Vargas.
“Eles eram a elite cultural e econômica do país. e não queriam abrir mão daquele privilégio de serem os donos das grandes produções de café e das suas exportações.” (Ana Luíza Martins, 01:38)
- Crises históricas: queda da Bolsa de NY em 1929 levou o governo brasileiro a queimar estoques para valorizar o produto.
2. O Café na Modernidade e as Relações Internacionais
Tópicos:
- Anos 1970: modernização e nova força do café brasileiro enquanto produto global.
- Estados Unidos se consolidam como principal consumidor de café brasileiro, gerando 2,2 milhões de empregos relacionados.
“Um terço dos grãos de café moídos aqui é brasileiro. Quando o café brasileiro chega aqui, gera 2 milhões e 200 mil empregos.” (Peter Roberts, mercado de café, 03:09)
- Impactos recentes:
- Tarifas de 50% impostas pelo governo Trump afetam cafés e outros produtos brasileiros (03:26).
- Aumentos acentuados no preço do café nos EUA, atingindo diretamente o consumidor americano:
“No mês de agosto, que foi o primeiro mês do tarifácio... o preço do café no varejo americano subiu quase 4%, 3,6%. (...) aumento de preço de comida drena a popularidade de quem está no governo central, no governo federal.” (Economista, 04:23)
3. Café, Soft Power e Identidade Nacional
Tópicos:
- A professora Milena Serafim detalha o uso estratégico do café como ferramenta de diplomacia cultural na primeira metade do século XX, projetando o Brasil como moderno e vital.
“O café, além de commodity, virou um símbolo cultural, mobilizado ali para projetar uma imagem de país moderno e fortalecendo, claro, os laços econômicos e interculturais.” (Milena Serafim, 06:18)
- “Branding” nacional do café em feiras internacionais, distribuição de degustações, e propaganda alinhada ao estilo de vida moderno americano.
- O Brazilian Information Bureau, sediado em Nova York, atuou como núcleo da propaganda do café brasileiro, aproximando o produto ao imaginário estadunidense.
“Houve diversas campanhas ligando o consumo do café a esse estilo de vida moderno.” (Milena Serafim, 09:20)
4. Café: Consumo, Cultura e Diplomacia na Atualidade
Tópicos:
- O café faz parte do cotidiano de 98% dos brasileiros.
“Mesmo em menor quantidade, a bebida ainda está presente na rotina de 98% da população.” (Market Researcher, 11:27)
- Dados mostram mudanças no consumo devido à inflação: aumento na opção por marcas mais baratas e redução no volume consumido (39% buscam marcas mais baratas – Marcos Matos, 11:56).
- Nos EUA, consumo altíssimo: 76% consomem regularmente, em média 3 xícaras por dia — o café adentra até produtos industriais e suplementos.
- O café brasileiro segue símbolo de intercâmbio e poder de barganha:
“O nosso famoso cafezinho está possibilitando uma nova rodada de conversa.” (Milena Serafim, 14:40)
5. O Impacto das Tarifas e o Futuro do Café Brasileiro
Tópicos:
- Marcos Matos (Cecafé) detalha as consequências do “tarifaço”:
- Previsão de eventual “zeragem” das exportações brasileiras para os EUA caso nada mude (21:13–21:36).
- Redução drástica do volume exportado: EUA de líder passa a terceira posição, atrás de Alemanha e Itália.
- Relações econômicas profundas Brasil-EUA (36% das exportações de café brasileiro vão para os EUA em ano típico, 16:31).
- A importância da defesa do setor por meio de estudos: a cada US$ 1 de café importado, a economia americana gera US$ 43, impactando milhões de empregos (21:36).
- Mobilização política:
- Tramita no Congresso americano projeto bipartidário para remover tarifas sobre o café, reconhecendo sua essencialidade e a impossibilidade de produção doméstica suficiente.
“Nunca vai ter café nos Estados Unidos. Tem uma faixa entre o Trópico de Câncer e de Capricórnio. É ali que o café se produz.” (Economista, 22:52)
- Abertura e diversificação de mercados: esforços visam China (183 novas empresas exportadoras habilitadas), Japão, Coreia, países árabes.
6. Perspectivas do Produtor e do Setor
Tópicos:
- O setor agrícola aponta produtividade crescente e resiliência às crises.
“Nas últimas décadas a nossa produtividade aumentou 400%.” (Marcos Matos, 27:24)
- Embora a cadeia produtiva se mostre otimista, os maiores riscos recaem sobre indústria e exportadores devido à volatilidade, inadimplência e contratos postergados.
- O produtor sente de perto os impactos do clima, mesmo com expectativas positivas em função do crescimento do consumo global e da reputação do café brasileiro.
Notáveis Quotes e Momentos Memoráveis
-
Sobre o poder da elite cafeicultora:
“Eles eram a elite cultural e econômica do país. e não queriam abrir mão daquele privilégio de serem os donos das grandes produções de café e das suas exportações.”
Ana Luíza Martins (01:38) -
Sobre a influência do café na política de preços:
“Aumento de preço de comida drena a popularidade de quem está no governo central, no governo federal.”
Economista (04:23) -
Sobre o café como cartão de visita do Brasil:
“O café, além de commodity, virou um símbolo cultural.”
Milena Serafim (06:18) -
Sobre o impacto do tarifaço e a ameaça de ruptura:
“Praticamente inviabiliza tudo isso... zerando as exportações do Brasil para os Estados Unidos do café.”
Marcos Matos (21:13–21:36) -
Sobre a impossibilidade de autossuficiência dos EUA:
“Nunca vai ter café nos Estados Unidos. Tem uma faixa entre o Trópico de Câncer e de Capricórnio. É ali que o café se produz.”
Economista (22:52) -
Sobre a resiliência e otimismo do setor:
“É importante mencionar que nas últimas décadas a nossa produtividade aumentou 400%... O produtor, ele vê com otimismo.”
Marcos Matos (27:24)
Principais Timestamps
- [00:02] – Introdução: Café como símbolo cultural e histórico
- [01:02] – "Política do café com leite" e elite econômica
- [03:09] – Mercado americano e empregos dependentes do café brasileiro
- [04:23] – Impacto das tarifas americanas e alta dos preços
- [06:18] – Café como ferramenta de diplomacia e branding nacional
- [11:27] – Dados sobre o consumo brasileiro e impacto da inflação
- [14:40] – Café brasileiro como instrumento diplomático em negociações atuais
- [16:31] – Marcos Matos: importância econômica e cenário dos EUA
- [21:13–21:36] – Ameaça de colapso nas exportações para os EUA
- [24:22] – Redirecionamento do café brasileiro para novos mercados
- [27:24] – Perspectiva produtiva e otimismo do setor agrícola
Conclusão
O episódio ilumina o papel estratégico do café nas relações internacionais e na construção do soft power brasileiro, especialmente perante as oscilações do cenário global. Mais que uma commodity, o café é símbolo, moeda diplomática e motor econômico. Mesmo em contextos adversos, como o da tarifa americana, o setor mostra resiliência, inovação e busca pela manutenção do protagonismo brasileiro no mercado internacional.
