Transcript
Natuza Neri (0:00)
Um aviso. Este episódio aborda histórias sensíveis relacionadas à violência contra animais. Uma morte que mobilizou manifestações em todas as regiões do Brasil. De Belém ao Rio Grande do Sul. A vítima dessa história é a Orelha, um cachorro comunitário que vivia na Praia Brava, em Florianópolis. Toda a comunidade realmente cuidava dele no dia a dia.
Carlos Frederico Ramos de Jesus (0:27)
Orelha tinha aparecido no bairro, havia pelo menos 10 anos. Andava pra lá e pra cá, com moradores e turistas. E participava pra valer da rotina de quem vive aqui.
Natuza Neri (0:35)
Orelha morreu depois de ser covardemente agredido no dia 4 de janeiro.
Carlos Frederico Ramos de Jesus (0:39)
Lesões na cabeça, no olho, principalmente no lado esquerdo, e desidratado, sem quase nenhum movimento, não tinha reflexo. Foi tentado dar os primeiros procedimentos, a soloterapia, e tentar levantar ele, mas como ele estava muito grave, ele veio a óbito, e do óbito em seguida.
Natuza Neri (1:04)
A polícia apura se um grupo de adolescentes foi responsável pelas agressões. Uma investigação que ganhou novos contornos. Há suspeitas, inclusive, de coação e até de ameaça a testemunhas.
Carlos Frederico Ramos de Jesus (1:14)
Na busca por informações sobre os agressores do cão-orelha, a polícia já ouviu mais de 20 testemunhas e analisa cerca de mil horas de imagens registradas por câmeras de segurança na Praia Brava. Há registro, há imagem registrada da agressão contra o cachorro?
Natuza Neri (1:30)
Não há imagem do momento exato da agressão, não.
Carlos Frederico Ramos de Jesus (1:33)
Há testemunhas?
Natuza Neri (1:35)
Do momento da agressão, não. Alguém viu o momento exato da agressão, nós não temos. A comoção em torno do caso também nos mostra como nós nos relacionamos com os animais de estimação. Um cachorro, um gato ou até mesmo um coelho, quem sabe? Os pets deixaram de ser algo que a gente tem. Tanto que o termo dono não existe mais, foi trocado por tutor. E pra muita gente, agora eles são realmente parte da família. Por isso que casos assim como o do Orelha, o do Sansão, Eles cortaram as patas do animal com uma foice. O cachorro também foi amordaçado com arame farpado. Do Manchinha, Manchinha foi golpeado com uma barra de ferro por um segurança terceirizado. O do Joca. Joca não resistiu ao vai e vem da longa viagem e foi entregue já morto para o João. E o cachorro tá aqui dentro, morto. Mobilizam tanta gente. A legislação mudou para atender essa demanda da sociedade. Mas será que tem sido o suficiente? Da redação do G1, eu sou Natus Aneri e o assunto hoje é o caso do cão-orelha e o direito dos animais. Neste episódio, eu converso com Carlos Frederico Ramos de Jesus. Ele faz pós-doutorado na Faculdade de Direito da USP e é coordenador do Grupo de Estudos de Ética e Direito Animal na mesma instituição. Integra o Diversitas e também é membro do Oxford Centre for Animal Ethics. Carlos é autor do livro Direitos Animais entre Pessoas e Coisas. Terça-feira, 3 de fevereiro. Carlos, o Conselho Nacional de Justiça afirma que foram quase 5 mil casos no ano passado de maus-tratos e violência contra animais. E o aumento é muito grande, 1.400% na comparação com 2021. A gente está diante do quê? De um aumento de casos de maus-tratos, de um aumento de denúncia ou notificação ou as duas coisas juntas?
