O Assunto – “O cerco à alta nos preços dos combustíveis”
Data: 24 de março de 2026
Host: Natuza Nery
Convidado principal: Fábio Couto (repórter do Valor Econômico, especialista em energia)
Tema: A alta dos combustíveis no Brasil, o impacto da crise internacional de petróleo, medidas do governo federal e estadual, e perspectivas para a autossuficiência nacional
Visão Geral do Episódio
Neste episódio especial, Natuza Nery e uma equipe de repórteres e analistas examinam a disparada dos preços dos combustíveis no Brasil, impulsionada pelo aumento internacional do petróleo devido à guerra no Irã e à instabilidade no Oriente Médio. O episódio foca nas medidas emergenciais do governo brasileiro para conter aumentos, investiga possíveis práticas abusivas no mercado interno, detalha o papel de Petrobras e estados, e discute as perspectivas estruturais para o país superar sua dependência de derivados importados.
Principais Pontos da Conversa
1. Impacto da Crise Internacional e Guerra no Irã
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Subida abrupta dos preços:
- “Desde o início da guerra no Irã, o preço subiu quase 40 centavos por litro.” (Natuza Nery, 00:01)
- O diesel já ultrapassa R$7,30/litro, com efeitos em cascata sobre outros setores (00:00-01:02).
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Falta de oferta global:
- “O barril chegou a quase 120 dólares, de 30% a 40% a mais do que antes da guerra.” (Sara Rezende, 01:12)
- Episódios de bombardeios e bloqueio do Estreito de Hormuz agravaram a situação.
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Oscilação dos preços pela volatilidade internacional:
- Breves quedas quando há sinais de negociação, mas sem estabilidade concreta.
- “Hoje, a cotação do barril do tipo Brent, referência internacional, caiu mais de 10% para menos de U$100.” (Carlos Catelan, 01:47)
- Avaliação de Fatih Birol (AIE): impacto pior que os choques do petróleo de 1973 e 1979 (01:47)
2. Efeitos no Brasil: Aumento de Preços, Inflação e Cadeia Logística
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Transmissão dos custos ao consumidor:
- Todos os entrevistados destacam a transferência do aumento para o custo do frete e, em seguida, para os preços dos alimentos e outros produtos.
- “Aumenta o diesel, aumenta o preço do frete, aumenta o custo dos produtos… boa parte da nossa produção gira em torno de subrodas.” (Luiz Felipe Silva, 00:32)
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Pressão nos alimentos e fertilizantes:
- “Os agricultores já sentem os efeitos dessa crise, porque a energia também é a base da produção de alimentos.” (Sara Rezende, 00:56)
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Inflação generalizada:
- O diesel afeta todos os ramos da economia, e a alta do combustível é amplamente sentida na cadeia de suprimentos.
3. Medidas Governamentais para Conter a Alta
- Pacote de R$30 bilhões para evitar disparada (02:13):
- “O governo decidiu zerar os dois impostos federais que incidem sobre o preço do diesel, pis e cofins, o que representa uma redução de 32 centavos por litro. e subsidiar outros 32 centavos...” (Luiz Gabriel Franco, 02:26)
- Multas pesadas para postos e distribuidoras que subirem abusivamente os valores (até R$ 500 milhões).
Citações-chave:
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“A medida provisória publicada hoje prevê ainda multa de 50 mil reais a 500 milhões para postos e distribuidoras que aumentarem os preços do combustível de forma abusiva.” (Luiz Gabriel Franco, 02:26)
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Participação dos estados:
- Proposta de zerar ICMS sobre importação de diesel até maio, governo federal compensaria metade da perda – mas estados resistem por risco à arrecadação (Juliane Moretti, 02:59 e 16:22).
- “O ICMS é o principal meio de arrecadação dos estados… perder receita para os estados hoje é um ponto sensível.” (Fábio Couto, 16:22)
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Fiscalização reforçada:
- Megaoperação de órgãos como ANP, Secretaria Nacional do Consumidor e Polícia Federal para coibir preços abusivos (Nayara Felizardo, 03:38).
- Suspeitas de formação de cartel nacional e de oportunismo de donos de postos (Luiz Felipe Silva, 03:48).
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Tabela de frete e caminhoneiros:
- Tabela do frete será reajustada sempre que o diesel oscilar mais de 5% (Natuza Nery, 19:18).
4. Análise do Especialista: Fábio Couto expõe as complexidades
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Por que a baixa nos impostos nem sempre chega ao consumidor?
- Cadeia de preços dos combustíveis é complexa, depende do preço internacional, logística e da parcela de importação (Fábio Couto, 07:47–09:19).
- “Mesmo que a Petrobras não reajuste nas refinarias… há um descasamento ali de parte do mercado nos preços.” (Fábio Couto, 07:47)
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Estratégia de preço da Petrobras:
- Mudança da política de PPI (paridade internacional) para uma “estratégia comercial”, considerando outros fatores além do preço externo, buscando evitar volatilidade para o consumidor.
- “A Petrobras mudou a fórmula de cálculo, ela adota uma nova fórmula que não considera só o preço externo…” (Fábio Couto, 14:28)
- Mas refinarias privadas e importadores continuam seguindo preços internacionais, o que limita o efeito da intervenção estatal.
- Mudança da política de PPI (paridade internacional) para uma “estratégia comercial”, considerando outros fatores além do preço externo, buscando evitar volatilidade para o consumidor.
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Limites das medidas e fiscalização:
- Fiscalizações e multas podem coibir abusos, mas só parte do aumento pode ser evitado pois parte do diesel é importado.
- “...foi detectado ali indícios, segundo a própria NPDs, indícios de abuso. Isso é feito com base nas notas fiscais.” (Fábio Couto, 11:05)
- Fiscalizações e multas podem coibir abusos, mas só parte do aumento pode ser evitado pois parte do diesel é importado.
5. Questões Estruturais: Por que o Brasil é vulnerável?
- Autossuficiência em petróleo x derivados:
- “Exportamos petróleo, se tornou o principal item da balança de exportações, mas combustíveis não. E combustíveis a gente realmente precisa, principalmente no diesel, trazer de fora...” (Fábio Couto, 23:35)
- O Brasil depende de importação de quase 25% do diesel consumido; falta capacidade de refino é gargalo estrutural.
- O etanol e os biocombustíveis ajudaram a diminuir dependência, mas ainda falta autossuficiência em derivados.
- Projetos como ampliação das refinarias e o Complexo COMPERJ poderiam melhorar esse quadro.
6. Fatores Políticos e Eleitorais
- Resistência dos estados à renúncia de ICMS tem componente eleitoral:
- “Pode ter um pouco, sim, de visão eleitoral, até porque alguns desses estados são de oposição ao governo.” (Fábio Couto, 17:52)
- Dificuldade dos governadores em abrir mão de receita em ano eleitoral.
Timestamps de Momentos-Chave
- 00:01 – Natuza Nery introduz o impacto direto da guerra no Irã nos preços da gasolina e do diesel.
- 01:47 – Avaliação internacional: Fatih Birol diz que crise é pior que choques anteriores do petróleo.
- 02:13 – Anúncio do pacote de 30 bilhões e medidas emergenciais do governo.
- 03:30 – Primeiros relatos sobre operações de fiscalização para coibir abusos.
- 05:20 – Fábio Couto detalha os mecanismos de subsídio e isenção de impostos.
- 09:19 – Juliane Moretti destrincha a formação do preço do diesel e os múltiplos agentes envolvidos.
- 14:28 – Explicação sobre a mudança da política da Petrobras pós-PPI.
- 16:22 – Fábio Couto explica a resistência dos estados em zerar o ICMS.
- 19:18 – Atualização da política de valorização do frete dos caminhoneiros.
- 22:01 – Fábio Couto comenta as estratégias de longo prazo para autossuficiência nacional.
- 23:35 – Reflexão estrutural: exportamos petróleo, mas dependemos de importações de derivados.
Citações Memoráveis
“Quando o governo Lula entra, o governo muda isso, a Petrobras muda a fórmula de cálculo, ela adota uma nova fórmula que não considera só o preço externo, considera outros fatores, inclusive logística, concorrência interna...”
— Fábio Couto (14:28)
“Nós somos autossuficientes em petróleo, mas não somos autossuficientes em derivados.”
— Fábio Couto (23:35)
“Perder receita para os estados hoje é um ponto sensível... mesmo compensada em 50%... os estados não querem abrir mão dessa receita.”
— Fábio Couto (16:22)
“Com a crise que nós estamos vendo no mundo, com a guerra no Oriente Médio, elevar preços que não correspondam a custos pode ser uma abusividade e é importante fazer esse combate.”
— Sara Rezende (10:36)
“O álcool não é feito de petróleo. Por que a gasolina aumentou se nós somos autossuficientes? É porque está cheio de gente... que gosta de tirar proveito da desgraça.”
— Sara Rezende e Fábio Couto (04:14–04:21)
Encerramento e Reflexão
O episódio destacou o peso das crises internacionais sobre o Brasil, a complexidade da cadeia de preços dos combustíveis – agravadíssima por fatores internos e externos –, e os desafios de equilibrar proteção do consumidor com viabilidade fiscal para estados, Petrobras e distribuidores. Ficou clara a urgência de modernizar o parque de refino brasileiro e investir em alternativas para fortalecer a posição do país frente a choques globais, além de reforçar transparência e fiscalização no mercado interno.
“Nós somos autossuficientes em petróleo, mas não em derivados.” – frase que resume o desafio central discutido neste episódio.
