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Natu Zaneri
Telas e estímulos por todos os lados. São incontáveis notificações, mensagens, vídeos, tudo isso no meio de dias já tarefados, com trabalho, estudos e o cuidado da casa e dos filhos. Dias cheios de demandas, algumas delas que parecem urgentes e que se sobrepõem o tempo inteiro.
Podcast Narrator
Você vai no Instagram, por exemplo. Você fica ali, só passando o feed. Ou então os stories do povo. Você não acaba não. Se você não impuser um limite, você vai continuar ali. E vai fazer suas atividades, aí para o que você tá fazendo, entra ali, responde uma coisa, vai pro WhatsApp, responde outra. Atenção fragmentada.
Natu Zaneri
E nessa pressa do dia a dia, inventamos mitos. Como de que somos capazes de nos multiplicarmos. Que dá pra sermos dois, três, cinco ao mesmo tempo. Então, no automático mesmo, essa multitarefa, ter que cuidar de tudo, ter que dar conta de tudo, acaba entrando na rotina, né? Mas essa dinâmica cobra um preço alto. Como explica a neurologista Nancy Hwang.
Neurologist Nancy Hwang
Sobrecarrega demais o cérebro, isso causa, gera um quadro estressante para o cérebro. E o estresse, eu falo que é o causador do, entre aspas, desmatamento dos neurônios dentro do cérebro. Você já vai perdendo naturalmente neurônios, se ainda você vai desmatá-lo, com certeza você vai ter doenças neurais, neurodegenerativas.
Natu Zaneri
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é o cérebro multitarefa. Um episódio para explicar como funciona este órgão central para nossa existência e qual a importância do ósseo para mantê-lo saudável. Meu convidado é Fernando Gomes, neurocirurgião, neurocientista e professor livre docente da Faculdade de Medicina da USP. Sexta-feira, 2 de janeiro. Dr. Fernando, esse episódio está indo ao ar no dia 2 de janeiro, que é um período em que quase todo mundo está com aquela vontade de fazer tudo diferente, de mudar hábito, de começar novas rotinas, novos compromissos e por aí vai. Então eu começo te perguntando se o nosso cérebro é de fato capaz de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, como o senso comum diz.
Dr. Fernando Gomes
O cérebro humano é capaz de realizar coisas incríveis e uma delas é essa habilidade multitarefa. Qualquer pessoa pode ter na sua tela mental mais ou menos 5 até 9 itens diferentes abertos ao mesmo tempo. Numa média de mais ou menos 7 coisas que podem ser levadas em consideração do ponto de vista cognitivo. O grande fato é, quando você faz mais de uma coisa ao mesmo tempo, o seu cérebro faz uma mudança de padrão de atenção para cada uma dessas tarefas. E o produto final nem sempre é o melhor do que quando você entrega realizando apenas uma tarefa de cada vez.
Natu Zaneri
Entendi. E que tipo de tarefa dá pra fazer ao mesmo tempo? É qualquer coisa. Eu posso pegar sete projetos diferentes. A reforma da minha casa, um livro que eu tô escrevendo, o roteiro de entrevistas do assunto, pagamento de contas, enfim. Já tô até cansada só de dizer e nem cheguei a sete tarefas.
Dr. Fernando Gomes
Então, na verdade sim, porque o nosso cérebro gasta muita energia sempre que você está fazendo alguma coisa nova ou uma coisa de cada vez que demande um processo atencional maior. Nós recrutamos mais neurônios na região anterior do crânio, na verdade no lobo frontal, mais precisamente no córtex pré-frontal. Mas como existe um gasto energético muito grande quando você faz uma nova tarefa e principalmente quando você faz novas tarefas ao mesmo tempo, existe um processo relacionado à neuroplacidade e aprendizagem que se faz presente. Então se você vai fazer sete tarefas, por exemplo, que habitualmente você já está acostumado, é muito comum que você consiga dar conta do recado, mas existe um grande detalhe aí. Muitas vezes a pessoa que se diz, ou até se gaba, por ser uma pessoa multitarefa, e acha que faz isso com muita maestria, no fundo, na verdade, ela pode apresentar algumas alterações neuropsicológicas e nem sempre entregar tudo aquilo que poderia entregar na sua totalidade. Quando a gente faz coisas que são automáticas, tudo fica muito mais fácil. Eu vou dar um exemplo pra você. Se nós dois aqui estamos aprendendo a andar de bicicleta e queremos andar na praia de bicicleta e conversar ao mesmo tempo, provavelmente isso vai ser algo muito difícil de ser feito. Porque existe toda uma demanda o próprio cérebro em ajustar o equilíbrio, a força motora, a velocidade da perna, visualizar o caminho na frente, mexer com o guidão. Então uma conversa nesse momento, ela seria totalmente inadequada, poderia me tirar o foco e eu poderia cair. Mas depois que a gente passa pelo processo de treinamento e de aprendizagem, e quando a gente fala aprendizagem é a mudança no padrão, no circuito cerebral mesmo. Isso fica mais fácil porque o cérebro acaba entregando aquela tarefa de uma forma mais automática. E aí sim, ser multitarefa nesse contexto é muito mais fácil. Então quando você faz mais do mesmo, pra gastar menos oxigênio e menos glicose, o seu cérebro lança a mão da neuroplasticidade pra te entregar tudo isso que a gente sabe que o ser humano no mundo moderno deseja.
Natu Zaneri
Ou seja, o cérebro vai ser mais exigido se a tarefa que chegar para mim for uma tarefa que eu não estou esperando, for uma tarefa não automática. Te dou aqui um exemplo. A gente está aqui no meio dessa entrevista e aí chega no meu WhatsApp uma informação de uma notícia urgente que eu não estava esperando. Automaticamente eu preciso acionar a minha equipe para começar a ir atrás daquela informação enquanto eu estou fazendo a entrevista com você. O que vai acontecer com o meu cérebro para dar conta da entrevista e dessa mensagem urgente que acabou de chegar?
Dr. Fernando Gomes
Do ponto de vista neuropsicológico, a gente está trabalhando com atenção dividida. E disso acaba acontecendo até uma outra denominação que seria o brain switch. Ou seja, eu faço a transição de um foco atencional na minha consciência para outro foco atencional. Agora, dependendo do grau de exigência para conseguir dar conta daquela nova demanda, O sistema límbico, que é a parte emocional do cérebro, ela acaba sendo recrutada quase que involuntariamente. O que eu quero dizer com isso? Você vai ficar mais irritado, você pode ficar nervoso, você pode, na verdade, ter até comportamentos que usualmente não teria. Eu digo ficar mais ríspida. Imagina que a situação é ao contrário. Você está escutando um podcast e, de repente, chega um amigo, uma amiga, ou um filho, cônjuge, sei lá, com uma demanda que precisa conversar sobre alguma coisa que, no seu entendimento, não tem toda aquela aquela relevância. É natural que a sua parte emocional responda aquilo de uma forma até mesmo afastar aquela pessoa de perto naquele momento. Por quê? Existe um gasto metabólico muito grande. Você precisa de oxigênio, você precisa de glicose, E todo o fluxo sanguíneo cerebral para aquela tarefa terá que ser mudado conforme você permite que a sua atenção passe a funcionar não de uma forma concentrada e sustentada numa só tarefa, mas em duas, alternando então essa disposição. Isso cansa, isso leva o cérebro a um processo de exaustão se for feito não por um período curto ou por uma demanda emergencial, mas a longo prazo. E esse é o grande problema das redes sociais e sobretudo da tecnologia, celular, tablet, computador, que muitas vezes oferece algum recurso, porque a gente tá falando de produto, né? Então tá cada vez mais fácil, na verdade, você lidar com muitas coisas e telas ao mesmo tempo. Mas, por outro lado, você acaba fazendo mais do mesmo.
Natu Zaneri
Ou seja, as pessoas multitarefas, não que todo mundo não seja em si potencialmente multitarefa, mas as pessoas que realizam com frequência múltiplas tarefas ao mesmo tempo são pessoas mais irritáveis, são pessoas cujas relações acabam sendo afetadas por essa habilidade de fazer, de girar vários pratos ao mesmo tempo.
Dr. Fernando Gomes
Sim, e ao mesmo tempo já existe evidência científica, por exemplo, tem um trabalho que foi feito em Stanford, já faz alguns anos, em 2009, mostrando que até mesmo a sensação que a pessoa tem de super eficiente, na verdade ela cai por terra quando analisada com avaliações neuropsicológicas, mostrando que até mesmo critérios atencionais, de atenção seletiva, de memória, elas ficam aquém quando a gente compara com pessoas que não têm esse mesmo comportamento. Então isso é uma grande falácia, fazer muita coisa ao mesmo tempo, como se diz do ponto de vista biológico, por exemplo, uma mãe consegue cuidar do filho, cuidar da casa, cuidar da agenda ao mesmo tempo e muitas vezes a gente leva isso como se fosse um atributo feminino heróico, mas na verdade existe uma demanda do cérebro muito maior do que o que naturalmente a gente consegue fazer. E quando você faz uma avaliação neuropsicológica, o que os trabalhos científicos mostram é que existe, na verdade, um problema relacionado até mesmo com a atenção e com a memória a longo prazo. E isso pode impactar até mesmo no aprendizado. Existe uma relação, por exemplo, no trabalho muito interessante. Você muitas vezes pode observar um chefe falando com um subalterno, passando muitas tarefas para que ele execute ao mesmo tempo. Mas olha que interessante, jamais um subalterno vai chegar para o chefe e simplesmente soltar um monte de informação ou de demanda ao mesmo tempo. Mesmo porque provavelmente o chefe vai falar, calma lá, uma coisa de cada vez, porque o que eu preciso decidir é muito importante.
Narrator on multitasking impact
A exigência de um profissional multitarefa é um perde-perde. Estudos apontam que ao fazer várias coisas ao mesmo tempo, a produtividade do colaborador cai, o que é ruim para a empresa. Já do ponto de vista do funcionário, há impactos na saúde mental.
Expert on brain multitasking limits
E essa é uma habilidade desejada, porém impossível, pelo menos até que a ciência prove o contrário. O nosso cérebro não tem essa capacidade de múltiplo foco. Então, isso acaba gerando problemas, erros, distrações, dificuldades de processamento justamente porque o nosso cérebro tem essa capacidade limitada de processamento de recursos, de informações.
Natu Zaneri
Você mencionou a mãe, que dá conta de muitas coisas ao mesmo tempo. É mito ou é verdade que a mulher tem mais condição de ser multitarefa que o homem?
Dr. Fernando Gomes
Nós sabemos que o cérebro feminino tem mais fibras de comunicação entre os dois hemisférios, direito e esquerdo, quando a gente compara com o cérebro masculino, que tem mais fibras de comunicação, axônios. intra-hemisférico, tanto direito como esquerdo. Então existiria aí uma explicação, um substrato anatômico até para justificar isso. Mas na prática, o que acontece quando a gente fala esse tipo de situação, é que a mulher, nesse contexto, ela é muito mais exposta e existe a necessidade de que ela faça essas coisas ao mesmo tempo, do que o homem, por exemplo. Então, como o nosso cérebro é neuroplástico, ele tem uma placidade, ele é passível da sua mudança microscópica do funcionamento, naturalmente, como a gente tem essa questão social e de jeito de viver, a mulher pode se mostrar até mais multitarefa do que o homem ao mesmo tempo. Mas, obviamente, um homem pode ser treinado e também fazer muitas coisas ao mesmo tempo. A neurologista Nancy Huang, mestre doutora pela faculdade de medicina da USP e médica de estilo de vida.
Neurologist Nancy Hwang
Existem estudos já mostrando que a estrutura cerebral e o funcionamento dos neurônios de uma mulher é muito, muito semelhante a de um homem. O que tem aqui por trás dessa crença é muito mais a cultura, é muito mais a criação. Na verdade, a estrutura cerebral e o funcionamento cerebral é igual de homem para mulher.
Dr. Fernando Gomes
O que existe sim é um padrão de resposta do sistema límbico, que é a parte emocional do cérebro, diferente. Geralmente o homem tende a ter uma resposta mais irritada, muitas vezes mais ríspida, que pode ser até mesmo interpretada como uma grosseria frente a essa demanda energética que o cérebro acaba consumindo. É como se fosse assim, Puxa vida, você está me pedindo para fazer isso?" O cérebro dizendo para o ser humano, não me venha com uma coisa que não é tão importante assim porque a tarefa não vai ficar muito bem feita. Ao ponto que geralmente o cérebro feminino acaba respondendo a uma demanda sobre a maneira como essa que eu estou falando, não sempre de uma forma irritada ou com grosseria, mas muitas vezes de uma forma um pouco mais pacata e que pode parecer que existe um equilíbrio muito maior com essa situação.
Natu Zaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Fernando Gomes.
Dr. Fernando Gomes
Tem.
Natu Zaneri
Gente que tem mais facilidade do que outras pessoas ou mais capacidade do que outras pessoas de fazer muita coisa ao mesmo tempo e isso dependeria de quê?
Dr. Fernando Gomes
Veja, nós temos diferenças do ponto de vista do funcionamento cerebral que são herdadas geneticamente. mas elas se misturam com a nossa própria vivência, a forma com que a gente estimula o nosso cérebro, ou que o nosso cérebro é estimulado desde a infância, de propósito ou por uma demanda do próprio ambiente. Então, pessoas que treinam mais, fazer mais coisas ao mesmo tempo, elas começam a executar essas mesmas tarefas, geralmente, com uma melhor facilidade e com, entre aspas, menor sofrimento do que aquela pessoa que usualmente faz apenas uma coisa e de repente precisa fazer ou quer fazer mais de uma coisa simultaneamente. É lógico que o mundo moderno ele traz alguns artifícios, bengalas, muletas ou até mesmo facilitadores, né? Então, podemos falar que a própria inteligência artificial ou a maneira que nós nos relacionamos com os aplicativos e com as telas, elas estão cada vez mais fáceis para justamente entregar para você a sensação de que você está fazendo mais de uma coisa ao mesmo tempo.
Neurologist Nancy Hwang
O cérebro acaba, entre aspas, se viciando pelo movimento da tela, o movimento do rolar da tela e isso a gente vai recebendo pequenas recompensas de tudo que a gente vai vendo nesse rolar da tela. Isso acaba viciando cada vez mais o nosso sistema dopaminérgico, que é o sistema de vícios, de dependência. Com isso, a gente acaba não conseguindo ficar sem nada, porque ficamos viciados desse rolar da tela.
Dr. Fernando Gomes
Mas mais uma vez eu falo, a gente tá lidando com um produto que justamente quer passar pra você, quer transmitir pra você essa sensação. E que, de fato, acaba tendo ali um grande problema guardado, né? Porque você imagina, você começa a acelerar um determinado processo e você sabe que o desfecho não é o melhor possível, primeiro, você não está estimulando o seu cérebro de verdade, você não está entregando o melhor da sua curiosidade, da sua criatividade ou até mesmo da sua memória e você está criando um ambiente ansiogênico. Então se você já tem uma predisposição genética para ansiedade, depressão ou burnout, às vezes é aquilo que falta do comportamento para você abrir um quadro bem complicado do ponto de vista neuropsiquiático.
Health Specialist on multitasking effects
Menos do que 2% da população realmente consegue fazer duas ou três tarefas muito bem ao mesmo tempo. Os 98% podem até entregar um resultado, mas com certeza o resultado não é tão bom quanto se a pessoa conseguir focar com atenção bem focada naquela única tarefa. Uma pessoa que é multitarefa, de hábito, pode gerar um quadro de estresse crônico, ansiedade, depressão, a pressão arterial acaba ficando num nível mais elevado, isso aumenta a resistência insulínica, então tem um risco maior para, por exemplo, doenças metabólicas, diabetes, por exemplo.
Natu Zaneri
Doutor Fernando, num artigo recente no Estadão, você cita um estudo de Stanford sobre o cérebro das pessoas que são consideradas multitarefas crônicas. O que esses dados mostram? O que mostra esse estudo?
Dr. Fernando Gomes
Esse estudo lhe mostra que, apesar de conseguirmos realizar mais de uma coisa ao mesmo tempo, a pessoa que faz muitas coisas ao mesmo tempo tende a apresentar problemas relacionados com atenção seletiva e também com processo de memorização.
Natu Zaneri
Sou eu, doutor Fernando, o senhor está falando de mim.
Dr. Fernando Gomes
Porque muitas vezes passa aquela falsa sensação de que você deu conta do recado, e eu posso dizer para você, isso ainda pode ser potencializado com a intrusão da inteligência artificial. A gente está falando de um estudo que foi publicado em 2009. Imagina, hoje em dia, 2025, muita coisa mudou. Então antes, por exemplo, se eu entrasse na sua rotina e pedisse para que você me escrevesse um texto sem a inteligência artificial, isso daria um pouquinho mais de trabalho. Isso pode criar uma falsa sensação de, utilizando alguns aplicativos ou recursos, que você conseguiria me entregar o que eu estou te solicitando de uma forma praticamente mágica. Mas na verdade o que acaba acontecendo é que certamente esse texto não vai ser a sua melhor entrega em termos de tarefa. Então existe uma sensação, mas quando se faz a avaliação neuropsicológica se percebe que o cérebro está entregando bem menos do que realmente ele poderia. E é lógico, quem detém o poder para que isso não evolua para alguma coisa muito ruim é a própria pessoa, de saber parar, saber entender que a gente pode, se for necessário para uma questão de sobrevivência, fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, mas fazer muitas coisas ao mesmo tempo sempre podem aumentar o nosso grau. de alerta e isso acaba impactando no funcionamento do cérebro com um maior acionamento do eixo hipotálamo, hipófise adrenal, então é mais adrenalina, que faz com que a pessoa fique com aquela percepção de maior atenção, que a longo prazo se transforma numa liberação crônica e mais elevada do cortisol. E a gente está falando aqui de estresse, né? E a longo prazo, até esse cortisol um pouco mais alto, ele pode ter um impacto deletério em algumas regiões do cérebro, como, por exemplo, hipocampo, área extremamente importante para a consolidação da memória. Então é algo que muitas vezes a gente se engana, a gente acha que fazer muita coisa ao mesmo tempo é um sinal de heroísmo e, na verdade, a gente está subutilizando o nosso cérebro e estamos nos ajoelhando, na verdade, a um elemento externo que nos cobra algo que só a gente mesmo pode falar, não, eu vou até aqui e está tudo bem.
Natu Zaneri
Esse é o ponto. Existe uma romantização, né, da pessoa multitarefa. É quase esse ser, como você disse, heróico que dá conta de muita coisa ao mesmo tempo. Talvez por um traço, uma demanda da sociedade pelo ser eficiente. Mas pelo que eu tô entendendo, no espírito geral do que você nos conta, A pessoa multitarefa crônica, ela tem mais predisposição para não dormir bem? Ela tem mais predisposição para desenvolver problemas de saúde mental? E ela tem mais predisposição ao envelhecimento? Os multitarefas crônicos podem envelhecer mais rápido?
Dr. Fernando Gomes
Tudo depende da forma que se utiliza essa capacidade de multitarefa. No passado, muitas pessoas me perguntavam o seguinte, Dr. Fernando, se eu fizer bastante palavra cruzada, eu vou ter a chance menor de ter Alzheimer? Realmente, quando você estimula o seu cérebro, você está estimulando a neuroplasticidade. Mas quando você faz muita palavra cruzada, por exemplo, você simplesmente vai ficar muito bom em fazer palavra cruzada. Se proteger da demência, do envelhecimento, é algo muito mais complexo. Então se você faz muita coisa ao mesmo tempo, muita coisa superficial e não se aprofunda em nenhum assunto, perfeito. O que você pode esperar é conseguir fazer muitas coisas ao mesmo tempo no mesmo grau de superficialidade. Ou com alguma outra ilusão que acaba sendo alimentada pelo que a tecnologia nos oferece. Como por exemplo, essa demanda que eu te falei. Eu te peço para fazer um texto e aí você joga ali para a inteligência artificial escrever para você. Bom, vamos combinar? Não foi você que escreveu. Então na verdade você conseguiu sim dar um comando para que alguém fizesse aquilo que você não é capaz de fazer ao mesmo tempo e simultaneamente. Então lidar com isso é muito importante, porque conforme a gente diminui a entrada no nosso cérebro, através de problemas, principalmente nesse recurso que é a entrada mental, a atenção, você pode simplesmente esperar que a aprendizagem ela fica comprometida, que a memória ela fica comprometida e que as emoções ainda por cima, elas sofrem um processo que não é muito legal, na verdade, de equilíbrio e de retroalimentação. Falando mais principalmente nesse comportamento mais ansioso. E às vezes a pessoa entra nesse processo e não precisa, porque ela poderia ter as suas pausas naturais acontecendo, mas mesmo na pausa ela não respeita essa pausa e não curte uma coisa de cada vez.
Narrator on benefits of boredom
O tédio faz bem para o seu cérebro. Sabe quando a criança fica sem nada para fazer e simplesmente inventa alguma coisa? Você não é diferente só porque cresceu. É nos momentos de vazio que a gente aprende a regular as próprias emoções, a refletir sobre o que acabou de acontecer, a planejar o que nós vamos fazer em seguida e até a aproveitar melhor o momento presente. Então, da próxima vez que você sentir aquele vazio, não corra para o celular.
Natu Zaneri
Dá para dizer que a gente vive uma espécie de epidemia do cérebro sobrecarregado?
Dr. Fernando Gomes
Dá, dá. E a gente tem a chave para sair disso a todo momento.
Natu Zaneri
O que seria essa chave? Por exemplo, eu me recusar a realizar duas tarefas ao mesmo tempo? Não, eu vou primeiro terminar uma.
Dr. Fernando Gomes
Eu vou falar do maior para o menor, tá? O maior é a gente entender que existe um pilar da saúde que cada vez ele se mostra fundamental, mais importante até do que outros, que é o sono. O período do sono é um período mágico para o cérebro, é um momento em que o cérebro não para, ele continua a funcionar. E muitas coisas acontecem nesse momento. Durante o período do sono, as experiências do dia anterior, elas são organizadas no hipocampo e nos circuitos neurais. Durante o período do sono, o sistema glinfático, que basicamente faz a limpeza do tecido cerebral, entra em ação com mais vigor, levando neurotoxinas e produtos do metabolismo para fora da caixa craniária. Então a primeira coisa é entender que o sono é sagrado. E se a gente faz, quem geralmente tem esse comportamento multitarefa, ele não tem esse comportamento multitarefa só de manhã ou de tarde, geralmente é de noite e entra até mesmo invadindo um período que deveria ser considerado sagrado, que é o período da noite. Aí falando num processo menor, circadiano, Durante o período do dia, você pode entender que os nossos hormônios são liberados de formas diferentes e até o nosso nível atencional e performance mental é diferente. Você há de convir comigo que depois de um almoço muito copioso, se eu faço uma reunião com muita demanda, que eu preciso da atenção de todo mundo, da presença de espírito ativa nesse encontro, ela não vai ter a mesma performance do que se eu faço essa reunião às 9 ou 10 horas da manhã, com todo mundo descansado, alimentado e sem fome, pensando na região hipotalâmica sendo estimulada próximo da hora do almoço. Então entender essa estrutura do nosso dia, esse ciclo biológico, é extremamente importante, porque em alguns momentos do dia, da nossa tarefa, é inexorável. Todos nós somos e seremos mais estimulados a atuarmos dessa forma multidarefa. E está tudo bem, só que está na nossa chave quando você para, por exemplo, uma pausa para tomar um café, para para tomar um copo d'água, para para ir para o banheiro, realmente realizar uma desconexão com essa demanda multitarefa ao mesmo tempo e tentar se conectar com o que está acontecendo.
Natu Zaneri
Por que o nosso cérebro precisa de momentos de tédio, de vazio? Qual a importância de se fazer uma faxina mental, por exemplo?
Dr. Fernando Gomes
É como se a gente pudesse, de alguma maneira, descarregar toda aquela entrada que nós tivemos de dados, de informação, no plano consciente, porque do ponto de vista inconsciente, a gente não consegue nem filtrar isso. A informação está chegando a todo momento. mas pelo menos o que chega no meu plano consciente, no meu ponto de foco, que isso possa ser de alguma maneira higienizado. É algo que pode parecer etéreo, mas não é. É bem concreto mesmo. Por isso, uma dica prática e com evidência neurocientífica é o hábito de meditar. E a meditação pode simplesmente começar com o entendimento de que um ato reflexo, que é fundamental para a nossa vida, que é a respiração, ele acontece automaticamente, mas eu posso prestar atenção nele. por 3 a 5 minutos, com olhos fechados ou não, simplesmente sentindo meu corpo e trazendo essa minha conexão mental para a percepção da minha existência física em um determinado ambiente físico. Isso é uma dica boa, a gente pode incorporar no nosso dia a dia. Mas tem um alerta muito pior que eu gostaria de fazer aqui. Nessa vontade de aumentar cada vez mais a eficiência multitarefa, muitas pessoas que não têm sequer o diagnóstico de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, muitas vezes estão sendo medicadas com psicoestimulantes, com efetaminas, e isso tem a sensação, causa a sensação de que elas ficam mais poderosas do ponto de vista de clareza mental e de conseguir realmente ser ainda mais multitarefa. Isso é um grande engano e um grande problema, porque você desregula totalmente o funcionamento do cérebro, as custas de ter essa percepção, essa sensação de entrega e, muitas vezes, abrindo brecha para uma manifestação clínica de algo que estava ali sob controle. Então, de repente, a pessoa tem a predisposição a um transtorno de ansiedade, ao pânico, à depressão, mas que não vai se manifestar e, de repente, isso era o que faltava, uma intoxicação por um remédio que é desnecessário para ela naquela situação, leva na verdade a um problema de saúde. E aí a pessoa entra num burnout, entra numa situação de crise e não é simplesmente as telas ou a proposta de se viver sendo multitarefa simples. É um pouquinho a mais, a pessoa quer buscar uma performance e por isso que a gente está aqui para alertar Isso é totalmente inadequado para a manutenção da saúde do cérebro, do corpo e da mente de qualquer pessoa.
Natu Zaneri
Já vou baixar um programa aqui de meditação, porque senão meu cérebro não aguenta até o final de 2026. Doutor Fernando, muito obrigada pela entrevista, bom trabalho.
Dr. Fernando Gomes
Muito obrigado.
Natu Zaneri
Um trabalho de cada vez, por favor.
Dr. Fernando Gomes
Com certeza, vamos em frente.
Natu Zaneri
Este episódio usou áudios da TV Cultura e do canal do Dr. Drauzio Varela no YouTube. Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Natuzaner e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 2 de janeiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidados: Dr. Fernando Gomes (neurocirurgião, neurocientista da USP), Dra. Nancy Hwang (neurologista)
Neste episódio, celebrando os 5 anos do podcast, Natuza Nery explora o tema do cérebro multitarefa em um mundo hiperconectado, saturado de telas e demandas constantes. Com especialistas, ela investiga se realmente somos capazes de "fazer tudo ao mesmo tempo" e discute o preço que essa rotina multitarefa cobra ao nosso cérebro. O episódio também aprofunda a necessidade do ócio e tédio para a saúde mental, desmontando mitos sobre produtividade e comentando efeitos neurais, emocionais e sociais do comportamento multitarefa.
Cenário atual:
Natuza descreve o cotidiano repleto de notificações, mensagens e a sobreposição incessante de tarefas.
"Telas e estímulos por todos os lados... Dias cheios de demandas, algumas delas que parecem urgentes e que se sobrepõem o tempo inteiro." (00:02)
Atenção fragmentada:
Em apps como Instagram e WhatsApp, “tropea-se" entre tarefas, o que fragmenta a atenção e causa exaustão (00:20).
Mito de eficiência:
Natuza observa que cultivamos o mito de sermos múltiplos ao mesmo tempo, como se isso fosse um superpoder, quando na verdade traz sobrecarga e irritabilidade.
"No automático mesmo, essa multitarefa, ter que cuidar de tudo, acaba entrando na rotina... Mas essa dinâmica cobra um preço alto." (00:41)
Impacto neurológico:
Dra. Nancy Hwang alerta:
“Sobrecarrega demais o cérebro... E o estresse, eu falo que é o causador do, entre aspas, desmatamento dos neurônios dentro do cérebro.” (01:05)
Limites da multitarefa:
Dr. Fernando Gomes esclarece que o cérebro pode manter de 5 a 9 itens “abertos”, mas ao alternar entre tarefas, muda o padrão de atenção e o resultado raramente é melhor do que focar em uma só.
“O produto final nem sempre é o melhor do que quando você entrega realizando apenas uma tarefa de cada vez.” (02:34)
Automatização facilita:
Realizar multitarefas só funciona melhor quando são tarefas já automatizadas pelo cérebro via neuroplasticidade. Ter de lidar com várias tarefas novas simultaneamente resulta em alto gasto energético e pior performance.
“Quando você faz mais do mesmo... o seu cérebro lança a mão da neuroplasticidade pra te entregar tudo isso que a gente sabe que o ser humano no mundo moderno deseja.” (03:35)
Atenção dividida e brain switch:
Quando uma demanda inesperada chega, há um “brain switch”, alternando rapidamente o foco. Isso ativa o sistema límbico, aumentando irritabilidade e comportamento ríspido.
“Você vai ficar mais irritado... pode ficar nervoso, pode ter até comportamentos que usualmente não teria.” (06:26)
Impacto nas relações e saúde mental:
Pessoas multitarefas são mais propensas à irritação e suas relações podem ser afetadas. Estudos de Stanford mostram prejuízo em atenção seletiva e memória em multitarefas crônicos.
“Fazer muita coisa ao mesmo tempo... é uma grande falácia... quando analisada com avaliações neuropsicológicas, mostrando que até mesmo critérios atencionais, de atenção seletiva, de memória, elas ficam aquém.” (08:44)
Produtividade x Multitarefas:
A exigência profissional por multitarefa é um “perde-perde” – reduz produtividade e impacta negativamente a saúde mental.
“Menos do que 2% da população realmente consegue fazer duas ou três tarefas muito bem ao mesmo tempo.” (16:36, especialista)
Doenças relacionadas:
Multitarefa crônica leva a quadros de estresse, ansiedade, depressão e até impactos metabólicos (pressão alta, resistência insulínica, maior risco de diabetes).
Questões anatômicas e culturais:
Dr. Fernando explica que, apesar de algumas diferenças anatômicas cerebrais, a maior exposição feminina ao multitasking se deve a fatores culturais, não biológicos.
“A estrutura cerebral e o funcionamento cerebral é igual de homem para mulher.” (12:22, Nancy Hwang)
Neuroplasticidade e contexto social:
O cérebro pode ser treinado ao multitasking, mas o padrão é mais por exposição social do que genética.
Recompensas dopaminérgicas:
Dra. Nancy Hwang aponta como o scroll infinito das telas nos “vicia” devido à descarga de dopamina, criando dependência de estímulos constantes.
“O cérebro acaba... viciando pelo movimento da tela... a gente vai recebendo pequenas recompensas... isso vicia nosso sistema dopaminérgico.” (15:13)
Falsa sensação de produtividade:
Dr. Fernando adverte contra a ilusão de eficiência gerada pela tecnologia e ferramentas como IA.
“Existe uma sensação... mas quando se faz a avaliação neuropsicológica se percebe que o cérebro está entregando bem menos do que realmente ele poderia.” (18:02)
Prejuízo à aprendizagem e memória:
Multitarefas crônicos tendem a aprender superficialmente muitos assuntos, sem aprofundamento nem consolidação.
“Conforme a gente diminui a entrada no nosso cérebro... a aprendizagem ela fica comprometida, que a memória ela fica comprometida e que as emoções ainda por cima, elas sofrem um processo que não é muito legal.” (21:10)
Sono como reparador essencial:
Dr. Fernando ressalta que manter sono de qualidade é o pilar para saúde cerebral:
“O sono é sagrado. O período do sono é um período mágico para o cérebro, é um momento em que o cérebro não para...” (24:00)
Consequências de longo prazo:
O excesso de multitarefa acelera o processo de envelhecimento cerebral, pode levar a burnout, doenças neurodegenerativas e transtornos psiquiátricos.
O papel benéfico do tédio:
O episódio enfatiza a necessidade de “vazio existencial” para que o cérebro regule emoções, reflita e planeje.
“É nos momentos de vazio que a gente aprende a regular as próprias emoções, a refletir... a planejar o que nós vamos fazer em seguida...” (23:08, narrador)
Faxina mental e meditação:
Dr. Fernando sugere práticas simples, como atenção à respiração e pausas, para descarregar o excesso de informação e melhorar a saúde mental.
“Uma dica prática e com evidência neurocientífica é o hábito de meditar [...] por 3 a 5 minutos, com olhos fechados ou não, simplesmente sentindo meu corpo...” (26:31)
Perigos das soluções erradas:
O uso de psicoestimulantes para “aumentar performance” sem diagnóstico é condenado e pode desencadear ou agravar quadros psiquiátricos.
Sobre “desmatamento de neurônios”:
“O estresse, eu falo que é o causador do, entre aspas, desmatamento dos neurônios dentro do cérebro.”
— Dra. Nancy Hwang (01:05)
Sobre a falsa eficiência multitarefa:
“Essa sensação que a pessoa tem de super eficiente, na verdade ela cai por terra quando analisada com avaliações neuropsicológicas.”
— Dr. Fernando Gomes (08:44)
Sobre o poder do sono:
“O período do sono é um período mágico para o cérebro... sagrado.”
— Dr. Fernando Gomes (24:00)
A defesa do tédio:
“O tédio faz bem para o seu cérebro [...] da próxima vez que você sentir aquele vazio, não corra para o celular.”
— Narrator (23:08)
Importância de dar pausas e não fazer tudo ao mesmo tempo:
“Eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular [...] um trabalho de cada vez, por favor.”
— Natuza Nery (29:17)
Este episódio desmistifica o glamour da multitarefa, mostrando, com bases neurocientíficas, que a capacidade de “fazer tudo ao mesmo tempo” é limitada, superficial e prejudicial. A busca por eficiência extrema tem custo alto: esgotamento, piora de memórias e emoções, saúde mental abalada. O descanso, o sono de qualidade, o ócio mental e práticas de meditação são colocados como essenciais para o equilíbrio e longevidade do cérebro. A mensagem final: menos multitarefa, mais profundidade e presença nas tarefas diárias.