O Assunto – O cérebro multitarefa (e a importância do ócio)
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 2 de janeiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidados: Dr. Fernando Gomes (neurocirurgião, neurocientista da USP), Dra. Nancy Hwang (neurologista)
Visão Geral do Episódio
Neste episódio, celebrando os 5 anos do podcast, Natuza Nery explora o tema do cérebro multitarefa em um mundo hiperconectado, saturado de telas e demandas constantes. Com especialistas, ela investiga se realmente somos capazes de "fazer tudo ao mesmo tempo" e discute o preço que essa rotina multitarefa cobra ao nosso cérebro. O episódio também aprofunda a necessidade do ócio e tédio para a saúde mental, desmontando mitos sobre produtividade e comentando efeitos neurais, emocionais e sociais do comportamento multitarefa.
Principais Pontos de Discussão & Insights
1. O Mito da Multitarefa
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Cenário atual:
Natuza descreve o cotidiano repleto de notificações, mensagens e a sobreposição incessante de tarefas.
"Telas e estímulos por todos os lados... Dias cheios de demandas, algumas delas que parecem urgentes e que se sobrepõem o tempo inteiro." (00:02) -
Atenção fragmentada:
Em apps como Instagram e WhatsApp, “tropea-se" entre tarefas, o que fragmenta a atenção e causa exaustão (00:20). -
Mito de eficiência:
Natuza observa que cultivamos o mito de sermos múltiplos ao mesmo tempo, como se isso fosse um superpoder, quando na verdade traz sobrecarga e irritabilidade.
"No automático mesmo, essa multitarefa, ter que cuidar de tudo, acaba entrando na rotina... Mas essa dinâmica cobra um preço alto." (00:41) -
Impacto neurológico:
Dra. Nancy Hwang alerta:“Sobrecarrega demais o cérebro... E o estresse, eu falo que é o causador do, entre aspas, desmatamento dos neurônios dentro do cérebro.” (01:05)
2. O Que o Cérebro Realmente Aguenta
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Limites da multitarefa:
Dr. Fernando Gomes esclarece que o cérebro pode manter de 5 a 9 itens “abertos”, mas ao alternar entre tarefas, muda o padrão de atenção e o resultado raramente é melhor do que focar em uma só.“O produto final nem sempre é o melhor do que quando você entrega realizando apenas uma tarefa de cada vez.” (02:34)
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Automatização facilita:
Realizar multitarefas só funciona melhor quando são tarefas já automatizadas pelo cérebro via neuroplasticidade. Ter de lidar com várias tarefas novas simultaneamente resulta em alto gasto energético e pior performance.“Quando você faz mais do mesmo... o seu cérebro lança a mão da neuroplasticidade pra te entregar tudo isso que a gente sabe que o ser humano no mundo moderno deseja.” (03:35)
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Atenção dividida e brain switch:
Quando uma demanda inesperada chega, há um “brain switch”, alternando rapidamente o foco. Isso ativa o sistema límbico, aumentando irritabilidade e comportamento ríspido.“Você vai ficar mais irritado... pode ficar nervoso, pode ter até comportamentos que usualmente não teria.” (06:26)
3. Consequências do Comportamento Multitarefa
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Impacto nas relações e saúde mental:
Pessoas multitarefas são mais propensas à irritação e suas relações podem ser afetadas. Estudos de Stanford mostram prejuízo em atenção seletiva e memória em multitarefas crônicos.“Fazer muita coisa ao mesmo tempo... é uma grande falácia... quando analisada com avaliações neuropsicológicas, mostrando que até mesmo critérios atencionais, de atenção seletiva, de memória, elas ficam aquém.” (08:44)
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Produtividade x Multitarefas:
A exigência profissional por multitarefa é um “perde-perde” – reduz produtividade e impacta negativamente a saúde mental.“Menos do que 2% da população realmente consegue fazer duas ou três tarefas muito bem ao mesmo tempo.” (16:36, especialista)
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Doenças relacionadas:
Multitarefa crônica leva a quadros de estresse, ansiedade, depressão e até impactos metabólicos (pressão alta, resistência insulínica, maior risco de diabetes).
4. Multitarefa: Diferenças entre Gêneros e Fatores Individuais
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Questões anatômicas e culturais:
Dr. Fernando explica que, apesar de algumas diferenças anatômicas cerebrais, a maior exposição feminina ao multitasking se deve a fatores culturais, não biológicos.“A estrutura cerebral e o funcionamento cerebral é igual de homem para mulher.” (12:22, Nancy Hwang)
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Neuroplasticidade e contexto social:
O cérebro pode ser treinado ao multitasking, mas o padrão é mais por exposição social do que genética.
5. A Adicção à Multitarefa e ao Estímulo
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Recompensas dopaminérgicas:
Dra. Nancy Hwang aponta como o scroll infinito das telas nos “vicia” devido à descarga de dopamina, criando dependência de estímulos constantes.“O cérebro acaba... viciando pelo movimento da tela... a gente vai recebendo pequenas recompensas... isso vicia nosso sistema dopaminérgico.” (15:13)
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Falsa sensação de produtividade:
Dr. Fernando adverte contra a ilusão de eficiência gerada pela tecnologia e ferramentas como IA.“Existe uma sensação... mas quando se faz a avaliação neuropsicológica se percebe que o cérebro está entregando bem menos do que realmente ele poderia.” (18:02)
6. Ramificações para Memória, Sono e Envelhecimento
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Prejuízo à aprendizagem e memória:
Multitarefas crônicos tendem a aprender superficialmente muitos assuntos, sem aprofundamento nem consolidação.“Conforme a gente diminui a entrada no nosso cérebro... a aprendizagem ela fica comprometida, que a memória ela fica comprometida e que as emoções ainda por cima, elas sofrem um processo que não é muito legal.” (21:10)
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Sono como reparador essencial:
Dr. Fernando ressalta que manter sono de qualidade é o pilar para saúde cerebral:“O sono é sagrado. O período do sono é um período mágico para o cérebro, é um momento em que o cérebro não para...” (24:00)
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Consequências de longo prazo:
O excesso de multitarefa acelera o processo de envelhecimento cerebral, pode levar a burnout, doenças neurodegenerativas e transtornos psiquiátricos.
7. A Importância do Ócio e Tédio
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O papel benéfico do tédio:
O episódio enfatiza a necessidade de “vazio existencial” para que o cérebro regule emoções, reflita e planeje.“É nos momentos de vazio que a gente aprende a regular as próprias emoções, a refletir... a planejar o que nós vamos fazer em seguida...” (23:08, narrador)
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Faxina mental e meditação:
Dr. Fernando sugere práticas simples, como atenção à respiração e pausas, para descarregar o excesso de informação e melhorar a saúde mental.“Uma dica prática e com evidência neurocientífica é o hábito de meditar [...] por 3 a 5 minutos, com olhos fechados ou não, simplesmente sentindo meu corpo...” (26:31)
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Perigos das soluções erradas:
O uso de psicoestimulantes para “aumentar performance” sem diagnóstico é condenado e pode desencadear ou agravar quadros psiquiátricos.
Citações e Momentos Notáveis
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Sobre “desmatamento de neurônios”:
“O estresse, eu falo que é o causador do, entre aspas, desmatamento dos neurônios dentro do cérebro.”
— Dra. Nancy Hwang (01:05) -
Sobre a falsa eficiência multitarefa:
“Essa sensação que a pessoa tem de super eficiente, na verdade ela cai por terra quando analisada com avaliações neuropsicológicas.”
— Dr. Fernando Gomes (08:44) -
Sobre o poder do sono:
“O período do sono é um período mágico para o cérebro... sagrado.”
— Dr. Fernando Gomes (24:00) -
A defesa do tédio:
“O tédio faz bem para o seu cérebro [...] da próxima vez que você sentir aquele vazio, não corra para o celular.”
— Narrator (23:08) -
Importância de dar pausas e não fazer tudo ao mesmo tempo:
“Eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular [...] um trabalho de cada vez, por favor.”
— Natuza Nery (29:17)
Tópicos-Chave por Timestamps
- 00:02–01:37 – Introdução ao tema, apresentação da rotina multitarefa e impactos iniciais no cérebro
- 02:34–06:26 – Capacidade real do cérebro, alternância de foco e limitações biológicas
- 08:44–10:32 – Estudos sobre multitarefa, produtividade e falácia da eficiência
- 11:16–12:50 – Diferenças de gênero: cultura x estrutura cerebral
- 13:53–16:36 – Diferenças individuais, vício em telas e recompensas dopaminérgicas
- 17:24–20:23 – Prejuízos do multitasking: atenção, memória, papel da IA, estresse
- 21:10–23:08 – Memória superficial, envelhecimento cerebral, romantização do multitasking
- 23:08–24:00 – O benefício do tédio e ócio criativo
- 24:00–29:03 – Sono, pausas e dicas práticas; perigos dos estimulantes
- 29:03–29:17 – Encerramento com apelo ao equilíbrio e meditação
Resumo Final
Este episódio desmistifica o glamour da multitarefa, mostrando, com bases neurocientíficas, que a capacidade de “fazer tudo ao mesmo tempo” é limitada, superficial e prejudicial. A busca por eficiência extrema tem custo alto: esgotamento, piora de memórias e emoções, saúde mental abalada. O descanso, o sono de qualidade, o ócio mental e práticas de meditação são colocados como essenciais para o equilíbrio e longevidade do cérebro. A mensagem final: menos multitarefa, mais profundidade e presença nas tarefas diárias.
