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Ana Tuzaneri
Com essa frase, Donald Trump disse, pra mim, está acabado. Mas Trump não disse só isso. Ele foi além sobre o Irã. Ele disse, não quero mais lidar com eles. Eles são a escória. Sabe o que é escória? Eles são escória. São pessoas doentes. São liderados por pessoas doentes. E são pessoas cruéis e violentas. E se tivessem uma arma nuclear, a usariam. No que me diz respeito, acabou". A declaração de Trump foi feita durante a cúpula da OTAN em Ankara, na Turquia, poucas horas depois de uma nova troca de ataques entre os dois países. A tensão veio do Estreito de Hormuz.
Narrador/Repórter
Três cargueiros foram atacados no estreito. Logo depois, outros navios começaram a dar meia volta para atracar em portos do Golfo Pérsico e evitar a passagem.
Ana Tuzaneri
Os Estados Unidos prontamente reagiram com novas medidas contra o petróleo iraniano. E, na sequência, bombardearam alvos militares do país. A resposta de Teheran também veio rápida. Bases americanas no Bahrein e no Kuwait foram atingidas. De repente, um acordo que já era considerado muito frágil foi colocado novamente em xeque.
Comentador/Analista
Donald Trump vem repetindo sempre que pode que essa guerra foi um sucesso, mas a guerra ainda não terminou. Pelo contrário, a intensificação dos ataques, o acordo nuclear está cada vez mais distante, ainda mais com isso, com esses novos ataques. A notícia, no entanto, foi que não deu nem um mês que os Estados Unidos e o Irã assinaram aquele memorando de entendimento e esse césar-fogo já começa a evaporar.
Ana Tuzaneri
Não é a primeira vez que Trump endurece o discurso e depois faz o caminho de volta à mesa do diálogo. Desde abril, Estados Unidos e Irã vivem uma dança de avanços e recursos. Em junho, Washington e Teherã anunciaram um acordo para interromper os bombardeios e negociar o programa nuclear iraniano.
Comentador/Analista
Irã e Estados Unidos concordaram em interromper as hostilidades. O memorando de entendimento também sobre um
Oliver Stunkel
acordo definitivo para o fim da guerra.
Ana Tuzaneri
Ocorre que esse memorando era provisório e dependia da continuidade desse diálogo. Mas essa nova troca de ataques acaba reacendendo as acusações de lado a lado e tornando tudo mais difícil.
Oliver Stunkel
Forças americanas atingiram alvos no Irã. O Pentágono afirma que foi uma resposta a ataques iranianos contra navios comerciais que passavam pelo Estreito de Hormuz. Os dois lados acusaram um ao outro de violar o cessar-fogo que está em vigor tem três semanas.
Ana Tuzaneri
Essa nova escalada se desenrola enquanto o Irã realiza o funeral do Ayatollah Ali Khamenei. No cortejo em Teherã, a multidão vestida de preto caminha ombro a ombro, entoando pedidos de vingança e gritos contra os Estados Unidos.
Narrador/Repórter
Um coro de morte a América ecoou.
Ana Tuzaneri
E há um detalhe importante no meio dessa crise.
Narrador/Repórter
O governo iraniano planejou um funeral superlativo para tentar mostrar força e unidade. A morte de Khamenei não provocou a mudança de regime que os Estados Unidos esperavam. O filho dele, Mojtaba Khamenei, foi escolhido como sucessor. ferido num bombardeio, ainda não apareceu em público. A comoção provocada pelo funeral é mais um sinal de que a guerra pode ter fortalecido um governo que vinha sendo contestado pelo próprio povo.
Ana Tuzaneri
Para muito além dos símbolos, há um outro reflexo imediato de tudo isso. A economia global entrou novamente em pânico. O petróleo já subiu, as bolsas desabaram e o temor do mercado financeiro é de que o conflito atinja novamente a temperatura de antes em relação ao estreito de hormus.
Comentador/Analista
O Estreito de Hormuz é uma artéria da economia global e uma arma de guerra do Irã. Liga o Golfo Pérsico ao resto do mundo. É uma faixa marítima rasa e estreita. Cerca de 20% de toda a produção do mundo, uns 15 milhões de barris, passam por ali todos os dias. Além de 25% do gás natural.
Ana Tuzaneri
O que era uma tentativa de retomar o diálogo, agora divide espaço com uma nova escalada militar. Da redação do G1, eu sou Ana Tuzaneri e o assunto hoje é... Estados Unidos e Irã voltam a pressionar o mundo. Neste episódio, eu converso com Oliver Stunkel, professor de Relações Internacionais da FGV, pesquisador da Universidade de Harvard e do Carnegie Endowment. Quinta-feira, 9 de julho. Oliveira, a gente já viu esse filme antes e por isso é inevitável eu te perguntar, é blefe do Trump ou de fato agora a coisa piorou muito de cenário?
Oliver Stunkel
Bom, o acordo que foi negociado, o cessar-fogo, que foi negociado em abril e que foi estendido por 60 dias em junho, já nasceu frágil porque, no fundo, o cessar-fogo previa que o Irã deixaria os navios passarem livremente pelo Estreito de Hormuz e os Estados Unidos encerrariam o bloqueio naval contra portos iranianos e permitiriam pudesse vender petróleo em dólar. O grande problema sempre foi que esse cessar-fogo foi muito vago, não tinha muitos detalhes e agora a gente está vendo que um dos detalhes-chave, qual é exatamente a rota de navegação dos navios que passam pelo Estreito, quem realmente manda no Estreito de Hormuz, tudo isso não tem solução. E como há uma baixíssima confiança mútua entre os atores, estamos vendo agora novamente uma tensão militar com ataques mútuos. Trump certamente não quer entrar novamente no conflito, está muito pressionado economicamente nos Estados Unidos, poucos meses antes das eleições de meu mandato. E o Irã sente fraqueza, sente que consegue criar um precedente e se posicionar claramente como a nação que manda no Estreito de Hormuz, ditando exatamente quem passa, por onde passa e se vai cobrar um pedágio. Então Trump está numa situação difícil, mas Teherã aposta que ele está muito fragilizado e provavelmente simplesmente aceita um acordo que dá ao Teherã mais poder porque quer preservar as suas chances ou as chances do Partido Republicano nas eleições de meio mandato em novembro. Então uma guerra aberta, uma retomada da guerra atualmente me parece pouco provável.
Ana Tuzaneri
Portanto, você descarta que a gente retome fevereiro, quando teve uma escalada e bombardeios violentíssimos dos Estados Unidos sobre o Irã. Mas eu quero entender, então, já que você nos diz isso, Oliver, em que momento a gente está? O que a gente pode dizer sobre a nossa fase atual nesse conflito?
Oliver Stunkel
Certamente não estamos mais num cenário em que o risco de uma nova guerra, uma grande guerra com que abale a economia global seja o cenário mais provável.
Ana Tuzaneri
Por que não?
Oliver Stunkel
Porque ambos os lados estão sofrendo com o impacto econômico, o custo político econômico para Trump enorme. A pressão para que encerra as hostilidades é grande e o Irã sofreu enormemente, tanto do ponto de vista militar, mas também no âmbito econômico. Um governo que precisa reconstruir o país depois dos grandes danos várias partes do país. Então não é vantajoso retomar esse conflito. Ao mesmo tempo, não temos de fato principais questões resolvidas. O Irã ainda acha que Trump é tão fragilizado, tão pressionado internamente, que aceitará um acordo que de fato dá ao Irã total controle sobre Hormuz. Então a grande questão agora é será possível encerrar esse período, que é um momento cinzento. A gente não sabe nem como chamar essa situação, se ainda estamos em conflito, se o cessar-fogo realmente ainda vale alguma coisa. Me parece que o cenário mais provável agora será de ataques pontuais, de uma forma imprevisível, mas de forma limitada, o que para os mercados é muito ruim. porque os mercados querem previsibilidade. Os operadores dos navios querem saber se podem ou não podem passar pelo estreito. E o que estamos vendo agora é que, ocasionalmente, o Irã ataca navios, sobretudo navios que não seguem a risca. As recomendações por parte do governo iraniano, depois tem retaliações por parte dos Estados Unidos. Então, uma situação muito tensa mas que não significa que estamos de volta num conflito aberto, mas algo que elevará o preço do petróleo porque, claramente, há sempre um risco a cada semana de haver ataques que interrompam o fluxo de petróleo pelo Estreito.
Ana Tuzaneri
E você vê alguma possibilidade de o Estreito de Ormuz voltar a ficar completamente fechado ou não?
Oliver Stunkel
Me parece que há um risco de haver um fechamento temporário de um dia ou outro, mas vale lembrar que o Irã também não quer provocar os Estados Unidos ao ponto de iniciar o novo conflito. Então o Irã quer comprar tempo, fazer pequenas provocações, irritar Trump, mas também mostrar que no fundo não tem mais a paciência, a tolerância para manter esse conflito em andamento por muito tempo devido a alto custo econômico. Então é por meio de ataques pontuais que Teherã tenta estabelecer um precedente que consolida de fato o seu controle sobre o estreito. Então sim, sempre haverá momentos em que navios são atingidos, em que navios acabam não passando porque os operadores avaliam que é um risco muito alto. Então uma situação de uma incerteza permanente que deve prevalecer por algumas semanas ou meses, porque Trump hoje também não pode simplesmente aceitar um acordo que codifique o controle total do Irã no Estreito de Hormuz, porque aquilo seria aceitar uma grande derrota de forma explícita. Então me parece que até pelo menos novembro teremos aí negociações em andamento. Trump não quer acertar a derrota, ao mesmo tempo também não quer reiniciar a guerra, mas certamente não voltaremos ao cenário antes da guerra, que era um cenário totalmente previsível, que permitia a economia global depender de fato do strait de Hormuz sem se preocupar com essas interrupções frequentes que estamos vendo agora.
Ana Tuzaneri
Agora, Oliver, eu tô custando a encontrar a lógica dessa história, né? Eu queria que você me ajudasse a entender. Se o Irã não quer uma escalada contra os Estados Unidos, porque tem as consequências, se os Estados Unidos não querem uma escalada contra o Irã por causa de Hormuz, Se os Estados Unidos não querem o fechamento de hormus, se o petróleo mais caro com esses fechamentos temporários é ruim para a economia americana, por que raios eles estão fazendo essas incursões pontuais e usando essa retórica violenta nos últimos dias? Assim, quem é que tá ganhando com isso? Porque tá difícil de entender.
Oliver Stunkel
O Irã está tentando utilizar esse momento para consolidar o seu total controle sobre o que acontece em Hormuz, se vai cobrar pedágio, mostrando claramente que possui sempre uma carta na manga em qualquer negociação futura sobre isenção de sanções, sobre o programa nuclear, que qualquer coisa o Irã pode fechar o estreito de Hormuz. terá um poder imenso nas negociações que ainda estarão por vir, porque vale lembrar, esse cessar-fogo não toca nas questões mais sensíveis, é uma coisa muito básica e nem é só está dando certo, ou seja, em algum momento os Estados Unidos ainda e o Teherã devem ter alguma negociação sobre o programa nuclear, que envolve muitos detalhes sobre enriquecimento de urânio, sobre inspecções internacionais. Enfim, tem muitas complexidades ainda lá pela frente e devido à baixa confiança mútua, aquilo será um processo muito longo. Vale também lembrar que o acordo que Obama negociou com o Irã levou anos.
Narrador/Repórter
O presidente americano Barack Obama disse que
Ana Tuzaneri
o mundo está mais seguro com o
Narrador/Repórter
acordo nuclear fechado com o Irã.
Oliver Stunkel
Os Estados Unidos, a União Europeia e as Nações Unidas estão retirando as sanções econômicas porque o Irã cumpriu as obrigações previstas no acordo nucleático. Por exemplo, mandou para fora, para a Rússia, quase todo o estoque de urânio enriquecido. Agora, de forma mais concreta, o Teherã faz esses ataques justamente para mostrar, olha, Nós estamos exercendo, mostrando que controlamos Orbus. A gente está punindo embarcações que passam por rotas não recomendadas pela gente. E o Tehran quer mostrar que, no fundo, apesar das retaliações ocasionais por parte dos Estados Unidos, apesar da retórica de Trump, que é muito agressiva, que, no fundo, os Estados Unidos já não têm mais como se meter naquilo porque o custo desse conflito é alto demais para Washington.
Ana Tuzaneri
Deixa eu ver então se eu entendi. O que o Irã está fazendo é mostrando quem manda. Então, quem não seguir a minha cartilha no Estreito de Hormuz, eu vou bombardear. Quando o Irã faz isso, os Estados Unidos e Trump precisam de um discurso. Olha, nós não vamos aceitar que o Irã faça isso. Aí vai lá, os Estados Unidos jogam bombas pontuais no território inimigo. Mas no fundo, no fundo, os Estados Unidos estão com a carta de menor poder nesse jogo, porque se o Irã resolver fechar de novo o Estreito de Hormuz, a crise volta a se instalar, os preços do petróleo do barril voltam a aumentar, a inflação passa a pressionar muito mais Trump, que tem uma eleição agora em novembro. É isso. A ciranda é essa.
Oliver Stunkel
Exatamente. Uma questão de quem tem mais paciência. E a aposta iraniana claramente é que, apesar do grande custo econômico que essa guerra produziu, aquilo é um tema prioritário para o Teherã. O governo está disposto a arcar com esse custo, inclusive temporário, de que o Estreito continua não totalmente aberto, apostando que Trump em algum momento cansará dessa situação. de ataques e taliações que obviamente gera bastante nervosismo nos mercados. Havia um grande alívio depois da negociação do cessar-fogo mais cedo em junho e agora mostra-se que essa situação é muito mais frágil do que previsto. Então realmente esse jogo de paciência agora e tudo indica que Trump não terá a tolerância com um preço de petróleo mais alto, sobretudo agora que o Partido Republicano enfrentará os eleitores e as pesquisas, a princípio, sugerem que o cenário mais provável é uma derrota do Partido Republicano. Com isso, Trump perderia a maioria na Câmara dos Deputados, no Senado, e isso terá grandes implicações para o seu espaço de manobra durante os últimos dois anos de sua presidência. Então o cálculo iraniano é que Trump não quer arriscar tudo isso, não quer reduzir a chance de ter um resultado razoável em novembro para continuar com esse conflito contra o Irã.
Narrador/Repórter
Depois, perguntado se isso significa que a guerra vai recomeçar, Trump afirmou. Acho que não. Acho que o que acontecer vai terminar bem rápido.
Oliver Stunkel
Ao mesmo tempo, o Trump também precisa tomar cuidado de não aceitar essa imposição iraniana, porque aquilo seria humilhante, obviamente, para os Estados Unidos. O Irã não tinha todo esse controle antes da guerra, então a leitura dominante hoje é que o Irã está bastante empoderado, muito mais influente no que diz respeito ao Estreito de Hormuz do que era no início do conflito.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com o Oliver. Agora, Oliver, as imagens do funeral do Ali Khamenei, elas mostram multidões nas ruas do Irã, mostram cartazes bastante ofensivos contra os Estados Unidos. Eu queria entender os signos a simbologia desse velório e como é que está o regime hoje. A gente sabe que o Mojtaba Khamenei foi ferido, não aparece, não apareceu no velório do próprio pai.
Narrador/Repórter
Junto ao caixão de Ali Khamenei estão mais quatro caixões de parentes mortos no mesmo bombardeio, que feriu ainda o filho e sucessor dele, Mojtaba Khamenei. Desde então, o novo líder ainda não apareceu em público. Nem mesmo quando o velório de Ali Khamenei foi limitado ao alto escalão do regime iraniano e delegações de países alinhados.
Ana Tuzaneri
Como é que a gente pode ler os sinais que esse velório estão dando para o mundo todo?
Oliver Stunkel
O governo iraniano tenta utilizar esse funeral para mobilizar a sua própria população, mas também para projetar influência regional. O corpo do ex-supremo líder foi transportado, inclusive, para o Iraque. alguns locais sagrados para os tiítas. Então, isso também é uma tentativa de mostrar que o Irã continua sendo extremamente influente na região como um todo e agora o regime também, depois dessa fase mais intensa da guerra, precisa se recompor, precisa articular uma narrativa, inclusive no diálogo com sua própria população. que organizou um grande levante em janeiro, morreram milhares de pessoas durante as repressões violentíssimas por parte do governo Teherã.
Narrador/Repórter
Foi um levante contra a crise econômica e também contra décadas de opressão, censura e violência sob o regime dos ayatolais. Como em outras ocasiões, a repressão matou milhares de manifestantes.
Oliver Stunkel
Então, por incrível que pareça, mesmo com uma grande vitória diplomática e maior controle sobre o Estreito de Hormuz, o fim do conflito aberto contra os Estados Unidos também representa uma ameaça, porque é mais fácil se legitimar durante um conflito contra os Estados Unidos, que tem sido um tema grande para a República Islâmica do Irã por décadas, mas agora numa situação não de conflito mais aberto, mas de apenas hostilidades ocasionais. O governo iraniano precisa de uma narrativa política, mas também econômica, para evitar futuras ondas de manifestações. Então, tudo isso faz parte dessa recomposição em que novas lideranças se projetam, em que houve um número enorme de lideranças políticas que morreram durante o conflito. Então esse é o grande símbolo dessa transição em que o Irã, apesar do custo militar e econômico e do abalo também que esse conflito gerou, busca projetar resiliência e a partir de agora terá que convencer sua própria população que tem um plano crível de superar os grandes desafios econômicos.
Ana Tuzaneri
Quando você fala dos grandes desafios econômicos, um deles você já mencionou, que mesmo que o Estreito de Hormuz não seja fechado por muito tempo, o que eleva os efeitos dessa crise para níveis muito, muito, muito ruins, muito prejudiciais para o ritmo da economia global, Mesmo a possibilidade de ter embarcações bombardeadas já aumenta o risco dessas operações via estreito de hormus e risco significa mais dinheiro gasto. Mais dinheiro gasto, para dar conta desse risco, pagamento de seguro e por aí vai, você tem o barril subindo de preço, subindo de valor. Então a gente está falando entre uma crise maior e uma crise menor, mas ainda assim uma crise permanente.
Oliver Stunkel
Certamente, a incerteza tende a elevar a inflação, países precisam aumentar seus estoques, empresas precisam se adaptar a cadeias de valor que são menos previsíveis e uma maior volatilidade nos preços de energia produz choques inflacionários ocasionais, então países precisam pensar no plano B Isso realmente injeta uma maior incerteza e, portanto, um maior risco inflacionário, que também reduz o potencial de crescimento da economia global, também aumenta a pressão fiscal em muitos países que precisam subsidiar a energia para evitar grandes aumentos. do custo de petróleo, das postas de gasolina, isso em muitos países em desenvolvimento, sobretudo, pode rapidamente causar instabilidade política. Então, esses efeitos vieram, por enquanto, para ficar, vai ainda demorar bastante tempo para uma normalização, E eu sempre preciso ressaltar que dificilmente voltaremos, mesmo depois de uma renovação do Cesar Fogo, a volta do status quo antes da guerra. O Estreito de Arbus agora está sob disputa. Os Estados Unidos não vão abandonar por completo a sua tentativa de reduzir o controle iraniano. E o Irã continua tentando se consolidar como principal potência nessa região. Então, essa dinâmica veio para ficar e provavelmente marcará as dinâmicas políticas no Estreito por vários anos ainda. Então, estamos simplesmente aí no novo normal que implica maior incerteza geopolítica e, portanto, também o maior risco de choques geopolíticos e de choques inflacionários.
Ana Tuzaneri
Meu caríssimo Oliver, muito obrigada por, mais uma vez, desenhar esses cenários todos para nós. Bom trabalho para você.
Oliver Stunkel
Muito obrigado pelo convite.
Ana Tuzaneri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. colaborou neste episódio Janice Colasso. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Episódio: O colapso na trégua entre EUA e Irã
Data: 9 de julho de 2026
Host: Ana Tuzaneri
Convidado Principal: Oliver Stuenkel (professor e pesquisador de Relações Internacionais)
O episódio aborda o recente colapso da frágil trégua entre Estados Unidos e Irã, com destaque para a escalada de tensões militares no Estreito de Hormuz, as consequências políticas e econômicas globais, e a importância estratégica da região. Ana Tuzaneri e o especialista Oliver Stuenkel analisam os desdobramentos dos ataques recentes, a retórica endurecida do presidente Donald Trump e o impacto da sucessão no regime iraniano, culminando na discussão sobre a nova realidade geopolítica e econômica do Golfo Pérsico.
"A declaração de Trump foi feita durante a cúpula da OTAN em Ancara, na Turquia, poucas horas depois de uma nova troca de ataques entre os dois países." – Ana Tuzaneri [00:34]
"O Estreito de Hormuz é uma artéria da economia global e uma arma de guerra do Irã." – Analista [04:04]
"A ciranda é essa: quem não seguir a minha cartilha no Estreito de Hormuz, eu vou bombardear... No fundo, os Estados Unidos estão com a carta de menor poder nesse jogo." – Ana Tuzaneri [14:02]
"Por incrível que pareça, mesmo com maior controle sobre o Estreito de Hormuz, o fim do conflito aberto contra os Estados Unidos também representa uma ameaça, porque é mais fácil se legitimar durante um conflito contra os EUA." – Oliver Stuenkel [19:30]
"Essa dinâmica veio para ficar... Estamos simplesmente aí no novo normal que implica maior incerteza geopolítica e, portanto, também maior risco de choques geopolíticos e de choques inflacionários." – Oliver Stuenkel [22:40]
Trump sobre o Irã:
– “Eles são a escória. São pessoas doentes. [...] Se tivessem uma arma nuclear, a usariam. No que me diz respeito, acabou.” – Trump (relato de Ana Tuzaneri) [00:00]
O risco não é guerra total, mas ataques imprevisíveis:
– “O cenário mais provável agora será de ataques pontuais, de uma forma imprevisível, mas de forma limitada, o que para os mercados é muito ruim.” – Oliver Stuenkel [07:35]
Controle do Estreito como foco:
– “O Irã está tentando utilizar esse momento para consolidar o seu total controle sobre o que acontece em Hormuz.” – Oliver Stuenkel [12:03]
Estados Unidos em desvantagem no jogo:
– “No fundo, os Estados Unidos estão com a carta de menor poder nesse jogo, porque se o Irã resolver fechar de novo o Estreito de Hormuz, a crise volta a se instalar...” – Ana Tuzaneri [14:02]
Novo normal global:
– “Essa dinâmica veio para ficar e provavelmente marcará as dinâmicas políticas no Estreito por vários anos ainda. Então, estamos simplesmente aí no novo normal...” – Oliver Stuenkel [22:40]
O episódio deixa claro que, apesar de evitarem uma guerra aberta, EUA e Irã estão presos numa dinâmica de provocações pontuais e retórica hostil que pressiona a economia global e estabelece o Estreito de Hormuz como campo central de disputa geopolítica. O Irã emerge empoderado, mas enfrenta desafios internos e externos, enquanto Trump tenta evitar danos eleitorais e econômicos sem aceitar humilhação estratégica.
Assim, o mundo passa a conviver com um “novo normal” de incerteza, volatilidade nos mercados de energia e riscos inflacionários persistentes.