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Vitor Boiagian
É assalto.
Natuzaneri
Eles entram na casa dos outros durante o dia, à luz do dia. A gente não tem segurança, eles roubam cadeado, eles roubam tudo. Você não pode ficar nem no seu quintal, que é bala perdida, assim, contra a munição no teu quintal, sabe?
Vitor Boiagian
Medo da violência. Esse é o sentimento que mexe com 96% dos brasileiros, segundo pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada nesta segunda-feira. Oito em cada dez pessoas temem não só o crime em si, mas o risco de serem mortas ao sofrerem um assalto.
Natuzaneri
A maioria dos entrevistados, quase 60%, mudou a rotina, mudou comportamentos por medo da violência.
Vitor Boiagian
À frente de saúde, educação e economia, a violência é o maior problema do Brasil, segundo as pesquisas de opinião. A série histórica da Quest mostra que a segurança pública disparou como principal preocupação dos brasileiros nos últimos anos. Em abril de 2023, era citada por 12% dos entrevistados. Em abril deste ano, é a resposta de 27%. Às vezes é uma bala perdida, né? É um assalto que você sofre pela rua, você não sabe.
Natuzaneri
É tiroteio o tempo todo, todos os dias.
Coronel José Vicente Silva Filho
Todos os dias, tiroteio.
Natuzaneri
Sabe? Todos os dias, tiroteio. E a gente vive nesse inferno.
Vitor Boiagian
Os números oficiais mostram que a situação está até melhorando. De acordo com o balanço divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, com dados enviados pelos estados, o primeiro trimestre desse ano registrou os menores números de homicídios dolosos e latrocínios da última década. Por outro lado, crimes como golpes digitais e violência contra a mulher vêm batendo recorde. Mas é o avanço de um tipo de crime que pode explicar a sensação generalizada de terror no Brasil.
Natuzaneri
O morador, que vive sob o efeito do medo, muitas vezes prefere se calar. Alguns aceitaram relatar como é morar em regiões dominadas pelos bandidos do Comando Vermelho. Tem boca de fuma em cada esquina. É muita gente passando com armamento de motos e carros. Tem umas ruas específicas que fazem o meio de estacionamento de carros roubados. Tem muito trabalhador, muitas pessoas honestas. Na sua maioria, gostaria muito que a gente voltasse a ter paz. Coisa que eu tinha 40 anos atrás.
Vitor Boiagian
A mesma pesquisa da Tafolha mostra que 41% dos brasileiros dizem notar a presença do crime organizado nos seus bairros. Desses, cerca de 80% avaliam que os criminosos influenciam nas regras de convivência e de onde vivem. Não à toa, esse é o ponto central do Plano Nacional de Segurança Pública, apresentado pelo governo federal nesta terça-feira.
Especialista em Segurança Pública
Esse programa Brasil contra o crime organizado, basicamente, ele é a regulamentação da lei antifacção, que foi aprovada algum tempo atrás no Congresso Nacional.
Vitor Boiagian
O programa prevê R$ 1 bilhão do orçamento público e de R$ 10 bilhões em empréstimos do BNDES para o enfrentamento do crime organizado em quatro frentes. Combate ao tráfico de armas, asfixia financeira das facções, qualificação das investigações e fortalecimento do sistema prisional.
Natuzaneri
O financiamento poderá ser usado para a compra de viaturas, drones, câmeras corporais, equipamentos de investigação, tecnologia de monitoramento, além de reformas e reforço na segurança dos presídios. O lançamento do programa ocorre no momento em que o governo enfrenta a pressão dos Estados Unidos para demonstrar empenho no combate ao crime organizado e dificuldades para aprovar a PEC da Segurança Pública no Congresso.
Vitor Boiagian
A pauta, que é de interesse nacional, já foi empurrada para o modo corrida eleitoral. Governadores da oposição criticam o programa e dizem que chegou tarde demais. O Palácio do Planalto fala em boicote ao projeto, que depende da adoção dos estados. Aliados de Lula apontam que essa mesma oposição trava a PEC da Segurança Pública, que está parada há quase dois meses no Senado Federal.
Comentador Político
O fato é que, neste caso, a oposição tem sim a sua culpa, a sua parcela de culpa pela demora do governo federal. Demora para o país adotar medidas eficazes no combate ao crime organizado. Então, se o governo tem a sua parcela de culpa, a oposição também tem uma responsabilidade muito grande nesse processo pela demora de você exatamente combater o crime organizado.
Natuzaneri
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri
Coronel José Vicente Silva Filho
e o assunto hoje com Vitor Boedian é...
Vitor Boiagian
O desafio de enfrentar o crime organizado no Brasil. Neste episódio, eu converso com José Vicente Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, coronel da Reserva da Polícia Militar de São Paulo e membro do Conselho do Instituto Brasileiro de Segurança Pública. Quarta-feira, 13 de maio. Coronel, quero começar nossa conversa buscando entender o que tem de novo nesse pacote apresentado pelo governo. O que diferencia esse plano dos anteriores e por que tantos programas nessa área acabam tendo dificuldade de trazer números, soluções para a questão do crime organizado, da violência no país?
Coronel José Vicente Silva Filho
Esses planos não funcionam porque não tem consistência e continuidade. consistência no sentido de estar vinculado às ideias de mobilizar recursos para afetar os problemas, e são mal calculados, não funcionam e também não tem continuidade. Esse deve ser o quarto rascunho de plano que aparece nesse mesmo governo do Lula 3.
Vitor Boiagian
Secretário, aqui nós temos o anúncio de quase 390 milhões de reais para o combate financeiro às facções criminosas, 330 milhões de reais para o sistema prisional, 201 milhões para a investigação de homicídios e 145 milhões de reais para o combate ao tráfico de armas. Isso além daquele pacote de cerca de 10 bilhões de reais disponíveis nos estados pelo BNDES para investirem em segurança pública. Há poucos meses do fim dos mandatos, não só federal, mas de muitos governos estaduais, o que é possível fazer com todos esses recursos para a gestão da segurança pública?
Coronel José Vicente Silva Filho
Melamente fazer licitações para comprar esses equipamentos. Na verdade, usar esses equipamentos, que é a grande questão, para produzir resultados, não vamos ter tempo suficiente para isso até o final do ano. Esse é um problema de plano que aparece num momento tão inoportuno como esse. Os planos para terem mais consistência, maior potencial de apresentar resultados, eles são apresentados no começo do governo. São até pré-trabalhados durante a campanha para fazer uma demonstração de intenções do governo para o setor durante as campanhas. E depois vão sendo mais rebustecidos para fazer o trabalho efetivo. E daí partir para uma gestão desse plano. Então, um plano começa agora para ser implantado, depois fazer a gestão dele, não temos tempo para nada. Os resultados não vão aparecer e há alguns equívocos, até muito ingênuos, posicionados como eixos estratégicos. A gente fala em eixos estratégicos, são as principais rotas de soluções vinculadas naturalmente aos principais problemas do setor, caso especificamente o crime organizado. Dar maior capacidade, por exemplo, para investigar homicídios não é um fator decisivo contra o crime organizado.
Natuzaneri
busca melhorar a investigação de homicídios, com mais investimento em perícia, institutos médico-legais, bancos de DNA e análise balística. Estão previstas, por exemplo, a compra de freezer científico, viaturas refrigeradas para transporte de corpos e kits de coleta de material biológico e de identificação genética.
Coronel José Vicente Silva Filho
Se desse maior capacidade das polícias civis, daí sim fazer todo o trabalho de investigação e inteligência nos seus territórios mais conflagrados. Então o Rio de Janeiro tem um problema sério da região da Zona Oeste, por exemplo, periferia de Fortaleza, ou áreas deflagradas também por oito facções na Bahia, Ceará. Esse trabalho dá capacidade à polícia civis, porque elas são ruins de maneira geral a investigar homicídios. Até uma taxa de pouco mais de 30% de esclarecimento de homicídios, deveríamos ter pelo menos 80%. Essa é uma questão. Outra questão seria a segurança dos presídios. É uma ingenuidade achar que um complexo de gestão ou de governança criminal como tem o PCC, operando praticamente a maioria dos estados, fazendo articulações de compra de drogas do Peru, Bolívia, Colômbia, levando até a Europa, África, Oceania, Ásia, um lucro fabuloso, articulando com facções internacionais. Achar que essa estrutura ainda é coordenada de dentro dos presídios é uma santa ingenuidade.
Natuzaneri
No sistema prisional, o objetivo é reforçar a vigilância em 138 presídios estaduais, que passarão a ser de segurança máxima. A ideia é impedir que líderes criminosos continuem comandando ações de dentro das cadeias, com o uso de scanners, bloqueadores de celular, drones e monitoramento Os presídios precisam
Coronel José Vicente Silva Filho
de segurança, sim, mas devia estar cuidando disso desde o dia 1º de janeiro do ano de 2023, quando começaram os governos, o federal e os estados também.
Vitor Boiagian
Agora, coronel, qual que é a responsabilidade dos governos estaduais para essa realidade que nós temos hoje, dado que as facções criminosas só cresceram nos últimos anos também?
Coronel José Vicente Silva Filho
A população não está preocupada com o poder do PCC lá na Amazônia, levando droga do Peru para a Europa. O problema dela é o roubo do celular na esquina. São Paulo registrou 3 milhões de crimes em 2025. Desses 3 milhões, a área de inteligência da PM calcula que 1 ou 3% apenas esteja diretamente ligado ao crime organizado, ao PCC aqui. Pode ter quadrilhas atuando em vários lugares. São mais de 200 mil assaltos que acontecem por todo o ano no estado de São Paulo. E esse é o grande drama que leva à percepção da insegurança por parte da população. Então nós temos 80,7% da população em termos de Brasil com medo de morrer em assalto. Que na verdade é um crime bastante raro, apesar da sua grande gravidade que tem. São Paulo, 3 bilhões de crimes, 129 mortes e assaltos. É pouco, apesar da gravidade, evidentemente. Mas essa é uma questão. Claro, se o Rio Grande do Sul tem 13 facções criminosas, a Bahia tem 8 ou 9, essas facções foram crescendo, assumindo territórios. E essa é uma questão importante, a gestão de territórios, libertar territórios para a população. Isso é um problema da polícia local. Também não se pode simplesmente culpar o governo federal pelo estrago das drogas que entram. Essa é uma questão importante. Quando nós falamos em combater o crime organizado, sim, nós temos que verificar a inteligência para ver todo o fluxo que entra os produtos que dão poder para as facções. Drogas, armas, munições, contrabando. Mas, a partir daí, o lucro que entra é lavado através de laranjas, empresas laranjas, pessoas laranjas, entram de uma forma bastante hábil no sistema para lavar dinheiro, postos de gasolina, ou entrando numa área gigantesca do crime organizado, que é a agronegócio. Essas áreas todas, elas estão vinculadas a setores mal cuidados, descuidados, desregulados, mal fiscalizados, que mostram, inclusive, que o problema não é apenas a polícia reagir aos problemas que estão acontecendo. Nós não temos um sistema de inteligência para interferir efetivamente nas oportunidades que oferecem condições para a entrada. Não só a de PCC como a do Vermelho. Entra aí todo um grupo gigantesco de crimes que estão vinculados aí aos insumos dos agronegócios. Estão falsificando, contrabandeando insumos de uma maneira impressionante. Ou então, todo o sistema que está lidando com os 45 mil postos de gasolina, que oferecem enormes oportunidades de evitar o crime organizado, uso de negócios imobiliários e assim por diante. Nós não temos, além da reação policial, depois que as coisas acontecem, fazer o grande trabalho de prevenção. E isso tem implicações muito mais amplas do que um plano meramente policial de ficar gastando dinheiro em viatura e drones. Então é uma ingenuidade achar que não vamos melhorar a segurança dos presídios e afetar o crime organizado. Não vamos.
Vitor Boiagian
Uma das características desses últimos quatro anos foi a dificuldade de integração entre os entes federativos. A gente teve por muitos meses até mesmo embates entre governo e interesses dos estados na discussão dos projetos de lei, do projeto de lei antifacção.
Comentador Político
Essa demora também tem uma parcela de culpa muito forte da oposição. Por conta da oposição, dos governadores da oposição. Na avaliação da equipe de Lula, desde o ano passado a União já poderia estar fazendo operações coordenadas se a PEC da Segurança já tivesse sido aprovada. Ela foi aprovada na Câmara com algumas modificações, mas mantendo essa integração. só que está engavetada ali no gabinete do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Vitor Boiagian
Existe como fazer o combate ao crime organizado da maneira como ele é hoje aqui no Brasil, interestadual, sem a capacidade de integração? E existe algum ente que não seja o governo federal, dado que é o único acima dos governos estaduais? Existe alguma alternativa para essa integração que não passe pelo governo federal?
Coronel José Vicente Silva Filho
Não há possibilidade disso. Quando a gente fala em integração, não é a sua polícia federal e as polícias civis militares dos estados. A integração vai buscar outras agências, outras instâncias que podem contribuir desde o diagnóstico até a execução dos trabalhos. Quando fala asfixiar, por exemplo, as finanças do crime organizado, e são muitos os crimes organizados no país, nós estamos falando da necessidade de articular outras entidades, como é o caso do COAF, a Receita Federal, eventualmente o Banco Central, que estabelece regulações de fiscalização no sistema bancário. São todas entidades importantes. Além disso, existem estruturas que não estão sob autoridade do governo federal, como é o caso dos estados, como é o caso dos ministérios públicos, além desses outros órgãos que a gente menciona aqui. Para que se possa coordenar órgãos que não são subordinados a você, o governo federal precisa de uma refinada capacidade de coordenação. Uma estrutura para essa coordenação seria o Ministério da Segurança Pública. Todos os governos relutam muito, com exceção do governo Temer, que fez essa experiência. Os governos relutam em criar essa estrutura. O governo fala em apostar um bilhão de reais. Ora, o custo da violência no Brasil é de dois e meio bilhões por dia. Esse um bilhão de reais é praticamente oito horas de um dia no custo de violência no país. É um drama muito grande que requer, naturalmente, um pacote de soluções relativamente adaptado ao tamanho do problema. Tem um bilhão de reais de investimento em equipamentos. Um bilhão para tratar de segurança pública como extra é um dinheiro muito pouco. É muito pouco. Para combater o crime organizado vai precisar de um orçamento ainda maior. Mas mesmo assim, mesmo com esse pouco, é preciso ter efetividade na ponta. Se não tiver uma ação. Na ponta, se esse equipamento não for bem utilizado, não tiver uma fiscalização, uma monitoração e uma coordenação de inteligência nacional, não vai ter serventia esse equipamento.
Vitor Boiagian
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o coronel José Vicente. Presidente Lula, no lançamento do programa condicionou a criação desse Ministério à aprovação da PEC da Segurança Pública, que está parada lá no Congresso Nacional.
Especialista em Segurança Pública
Atualmente o Ministério da Justiça engloba também o tema da Segurança Pública, é o Ministério da Justiça e Segurança Pública, então o presidente está dizendo o seguinte, que se o Senado aprovar a PEC ele vai ter condições para desmembrar esse Ministério, criando um Ministério só para Justiça e o outro Ministério de Segurança Pública. não deixa de ser um instrumento de pressão em cima de Davi Alcolumbre para que a PEC da Segurança, que já passou na Câmara dos Deputados, avance no Senado Federal, mas os bastidores, avaliação de auxiliares do presidente e também de integrantes do Ministério da Justiça, é que dificilmente seria possível criar, estruturar e colocar para funcionar o Ministério na reta final do mandato, há poucos meses das eleições, a ver como isso vai se desenrolar e se de fato a PEC da Segurança Pública vai ser aprovada no Senado Federal ainda esse ano.
Vitor Boiagian
Essa PEC, na sua opinião, ela pode ser a bala de prata no combate à violência aqui no país?
Coronel José Vicente Silva Filho
Essa PEC não é nem a bala de borracha, usando o linguajar de polícia. Porque essa PEC, ela coloca apenas detalhes, que na verdade ela não vem acrescentar ou incrementar a capacidade das estruturas federais e estaduais. para lutar contra o crime de maneira geral. As incumbências do governo federal estão lá no artigo 144 da Constituição desde 1988. Está lá muito claro o papel que o governo federal tem em relação à segurança das fronteiras, em relação ao crime transestadual, transnacional. Isso é incumbência da Polícia Federal desde aquela ocasião. E isso não vem sendo cuidado. Quando nós vemos a expansão do crime organizado, o PCC sai de uma prisão, uma cadeia aqui de Taubaté, no interior de São Paulo, e de repente está negociando com facções da Itália. Alguma coisa aconteceu para dar esse crescimento. Mérito organizacional das facções, comando vermelho também é outra grande facção, não. Elas ocuparam espaços deixados pelos órgãos que deviam estar cuidando da sua expansão. que é a Polícia Federal, em âmbito nacional, e as polícias estaduais, à medida que essas manifestações iam acontecendo. Muitos governos relatam o seguinte, se não entrar a droga e a arma aqui no meu estado, a segurança vai ser muito tranquila para eu cuidar dos meus bandidos aqui. Mas drogas, armas, também o contrabando, dão poder para as facções. Esse poder, a maioria deles, vem do exterior. Mas essas são feitas a um problema típico do Rio de Janeiro, que são as milícias. É um produto 100% nacional.
Vitor Boiagian
Coronel, na discussão dos projetos de lei relacionados à segurança pública, dois pontos eram muito disputados entre estados e o governo federal. Recursos e informação, integração no sentido de compartilhamento de informações. A gente teve no ano passado uma operação a carbono oculto, que foi um modelo, uma tentativa de integração, entre Ministérios Públicos de Estado, Polícia Federal, Polícias Militares e aconteceu uma característica dessa operação que havia suspeita de vazamento pelo fato de que dos mandados de prisão uma quantidade relativamente pequena deles foram de fato cumpridos. Então houve aí uma suspeita de que houve vazamentos. como garantir a integração, preservando a qualidade da informação para evitar que infiltrados não acabem jogando por terra todo esse esforço de integração entre os entes.
Coronel José Vicente Silva Filho
É problema de integração com integridade. Esse é um velho problema, porque quando nós temos um crime organizado tão pujante, com tanta capacidade financeira, pode estar certo que está comprando muita gente boa, está comprando muitos agentes. E compra o quê? Compra informação. Nós tivemos um caso recente de um pessoal da Rota, unidade de elite da PM, que estava vendendo informações sobre operações para o PCC. E isso aparece em todas as linhas possíveis de aplicação do trabalho, da atuação no crime organizado. Essa é uma questão. Não dá para ter um controle absoluto das questões. Nós tivemos, nos últimos quatro anos, duas grandes operações exitosas para servir de referência. Uma acabou no culto. Ali nós tínhamos oito agências diferentes, desde o Ministério Público Estadual, que começou, na verdade, que fez todo o planejamento do trabalho, Polícia Federal, Polícia Civis Militares, Ministério Público Federal, COAF, Banco Central, Receita Federal, Percebe-se a necessidade de articulação dessas estruturas, que elas têm informações relevantes e instrumentos relevantes de atuação. O monitoramento de movimentações financeiras atípicas pelo COAF é fundamental para identificar movimentos de ações criminosas. Ele é um parceiro extremamente importante.
Natuzaneri
Para os investigadores, a ação integrada potencializa o resultado das operações.
Coronel José Vicente Silva Filho
Ainda que as investigações sejam autônomas, é muito importante essa deflagração conjunta para que a gente possa atingir os nossos objetivos de coleta de provas, de prisões, de apreensões, uma vez que esses grupos estão interrelacionados. A gente potencializa a força de cada uma das instituições que participam, troca essas informações e consegue resultados mais efetivos nas nossas investigações e na desarticulação desses grupos criminosos. Essas estruturas, elas mostram muita competência quando articuladas, só que nós não podemos depender delas ocorrer esporadicamente. Nós precisamos que isso seja um planejamento global do país, de uma refinada coordenação federal.
Vitor Boiagian
Outra característica dessa dificuldade do poder público em combater a criminalidade, que é a politização da segurança pública. O governo, inclusive nesse contexto de lançamento de programa, está propagando a versão que os governadores da oposição boicotam as medidas federais de combate à violência. Já a oposição diz que nada do que o governo tenta provar dá conta do problema e dos dois lados há acusações de que o que está sendo lançado essa semana tem um cunho eleitoreiro. como filtrar a política do combate à violência e garantir o sucesso dessa articulação entre representantes de poderes?
Coronel José Vicente Silva Filho
Isso é muito difícil, porque nós falamos segurança, é uma área que tem um conteúdo emocional muito forte. Quando nós falamos que 80% da população está com medo, não há motivo para 80% estar com medo de jeito nenhum. Afinal de contas, os homicídios atingem um percentual mínimo. Pessoas pesaram a gravidade do problema, claro. Mas para situações de população com medo, a população pede pela de morte, pede para matar bandido, pede para bater o bandido. E governos que falam grosso, eles ganham votos com isso. Daí acaba contaminando a seriedade e qualquer planejamento de segurança. Então falava grosso tanto o Paulo Maluf quanto o Caiado aqui no Brasil. A realidade é que os governos não vão aplaudir um plano do governo federal que está sendo feito naturalmente dentro da sua planilha de conveniências eleitorais. Não é hora de se colocar um plano, evidentemente. A inoportunidade desse plano agora é uma coisa absurda. Mas o fato é que o melhor momento para se colocar de pé um plano decente de segurança pública é o começo de governo. Ainda há a boa vontade do começo e os governos vêm com todo o seu potencial político de eleito. É uma força muito grande para executivos. Esse é o momento de usar uma chave fundamental para a segurança pública que vai abrir o balcão ou o galpão de soluções. Essa chave chama-se prioridade. Nós não vimos prioridade para a segurança pública, tanto que não foi nem criado o Ministério para isso. Esse é um fato importante. A seriedade, portanto, de construir um plano junto é outra questão, porque simplesmente tirar o plano de uma gaveta ou de uma sala fechada e apresentar, o plano é esse, compram. Isso os governadores não vão fazer mesmo. Qualquer área, inclusive privada, de planejamento, se você não trazer para o planejamento, para identificar os problemas, soluções, recursos, principalmente com aqueles que serão afetados por esse plano, o plano não vai funcionar.
Vitor Boiagian
Daí a importância de um governante aproveitar o capital político de começo de governo para angariar os apoios dos governadores, sejam eles até mesmo da oposição, num plano nacional. Essa é a tua ideia, é isso?
Coronel José Vicente Silva Filho
Exatamente. O presidente Cedillo, do México, lembro-me faz muito tempo, até assistia na televisão, ele estava lançando um plano nacional para a segurança pública, convocando os governadores dos Estados mexicanos, o Congresso Nacional, o Judiciário, uma conjunção muito grande de grandes autoridades, reconhecendo em conjunto a gravidade e a prioridade do problema. Isso cria facilidade, porque atrai talentos, cria prioridades, atrai recursos, atrai soluções, e isso é muito importante. Só que isso só dá para ser feito nos dois primeiros anos do governo. A partir daí, nos dois anos finais, ainda mais com reeleição, a gente tem muita dificuldade de tocar qualquer coisa séria de segurança no Brasil.
Vitor Boiagian
A gente corre o risco agora tendo em vista as eleições de entrar numa discussão tão profunda e radical da questão da segurança pública a ponto de ter candidatos aí defendendo uma espécie de buquelização do sistema de segurança ou seja uma quantidade imensa de pessoas presas assim antes mesmo de julgamento em nome de um justiçamento da sociedade que está se sentindo vítima do crime organizado.
Coronel José Vicente Silva Filho
Isso já acontece. A gente percebe o teor e o calor das redes sociais mostrando os bandidos que se saem mal. Nunca saem quando a vítima se sai mal. Mas os bandidos saindo mal, tomando tiros, essas coisas todas, acabam invadindo o discurso. A questão da segurança, ela tem um fortíssimo componente emocional. Aliás, segurança vem do latim, dos palavrinhos securi, quer dizer, sem medo. E com medo é muito difícil de lidar de uma forma racional. Racionalidade era só vai acontecer, infelizmente, depois das eleições. A partir daí, a gente espera que todas as entidades públicas, mas também as privadas, nós temos instituições hoje que estão fazendo bons trabalhos, fazendo análise, fazendo pesquisa, que ajudam a fazer reflexões, ajudam a debater soluções para a segurança pública, elas devem participar também. Esse é um aspecto importante que, de alguma maneira, representa a sociedade. Nós precisamos entrar num novo momento, Victor, de se pensar uma estrutura de segurança pública não meramente reagindo aos crimes. Uma estrutura capaz de pensar também a todo o sistema de prevenção.
Vitor Boiagian
Coronel, o senhor na nossa entrevista falou da dificuldade de dar continuidade às políticas de segurança pública no país. Digamos que um governante instaure um programa de segurança pública logo no começo do seu governo. Essa política, então, ela pode durar quatro ou no máximo oito anos caso haja reeleição. Isso é suficiente, num critério de continuidade, oito anos é suficiente para a realidade que nós temos da violência no país?
Coronel José Vicente Silva Filho
Dá para fazer muita coisa assim, Victor. Se a gente pegar os indicadores aqui de São Paulo, por exemplo, dos anos 2000 para cá, nós tivemos uma redução de homicídio de mais de 80%. Redução de roubo de veículos, que é o roubo que você tem 100% de registro praticamente, também da hora de 90%. Nós temos barcos periféricos, como o Jardim Ângela aqui em São Paulo, que há 30 anos atrás tinha 200 homicídios, hoje tem 20, apesar de ter aumentado a população, uma área que tem 350 mil habitantes. É possível, é sim, só que nós estamos de continuidade. Quando há continuidade, boas soluções, a gente percebe que a coisa vai funcionando. Eu acompanhei Nova York desde 1991, fui cinco vezes acompanhando a evolução da segurança lá, uma cidade de altíssima complexidade. A gente percebe que um planejamento bem feito, dando condições de trabalho, se pode alcançar bons resultados. É sempre importante lembrar que o papel da polícia e da segurança pública é melhorar a qualidade de vida da população, não é simplesmente prender bandidos.
Vitor Boiagian
Coronel José Vicente, muito obrigado por compartilhar suas experiências e muito obrigado pela sua entrevista.
Coronel José Vicente Silva Filho
Obrigado pela oportunidade, Vitor. Boa sorte para nós todos.
Vitor Boiagian
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou o Vitor Boiagian e fico por aqui, até o próximo Assunto.
O Assunto – O desafio de enfrentar o crime organizado no Brasil
Data: 13 de maio de 2026
Host: Vitor Boiagian
Convidado principal: Coronel José Vicente da Silva Filho (Ex-secretário nacional de Segurança Pública, PM da reserva/SP, membro do Instituto Brasileiro de Segurança Pública)
Este episódio de O Assunto explora em profundidade o avanço e desafios para o enfrentamento do crime organizado no Brasil. A conversa se fundamenta em dados recentes sobre percepção de insegurança, discute o pacote apresentado pelo governo federal para a segurança pública e analisa as limitações, disputas políticas e dificuldades históricas na formulação de uma política consistente contra as facções criminosas que atuam no país.
Percepção generalizada de medo:
Contraste entre estatísticas e percepção popular:
Lançamento do programa “Brasil contra o crime organizado”:
Investimentos previstos:
Uso dos recursos:
Carência de consistência e continuidade em políticas públicas:
Limites dos investimentos e da implementação tardia:
Problemas estruturais e de foco:
Expansão e rotina das facções:
Descompasso entre crimes violentos e facções:
Sisitema prisional:
Problemas crônicos de coordenação:
Necessidade de coordenação:
Críticas à PEC e à estrutura ministerial:
Investimento insuficiente:
O episódio conclui destacando que, apesar de avanços pontuais, o combate ao crime organizado no Brasil esbarra na descontinuidade das políticas, na falta de integração federativa, na politização excessiva da segurança pública e nas reações emocionais da sociedade. O coronel José Vicente reforça que a prioridade e a coordenação estratégica, começando na largada dos governos, são chaves para políticas realmente eficazes.
“Nós precisamos entrar em um novo momento, Victor, de se pensar uma estrutura de segurança pública não meramente reagindo aos crimes, mas capaz de pensar também todo o sistema de prevenção.” (25:27 – Coronel José Vicente Silva Filho)
Resumo produzido a partir da íntegra da conversa, preservando a linguagem, tom e principais argumentos dos entrevistados.