O Assunto – “O Diário do Julgamento de Bolsonaro – Parte 2”
Data: 4 de setembro de 2025
Host: Natuza Nery
Convidados: Reinaldo Turolo Júnior (Repórter G1), Tiago Bottino (Professor de Direito, FGV-RJ)
Visão Geral do Episódio
O episódio acompanha o segundo dia do julgamento histórico do ex-presidente Jair Bolsonaro e militares de alta patente no Supremo Tribunal Federal (STF), envolvendo acusações de tentativa de golpe. O podcast detalha as estratégias de defesa, questiona provas usadas no processo, contextualiza a relevância das minutas apreendidas e debate a atmosfera do julgamento em contraste com a retórica pública bolsonarista. Também discute a dinâmica do acesso às provas pelas defesas e antecipa os próximos passos do julgamento.
Principais Pontos e Discussões
1. Destaques e Estratégias das Defesas
Tese Central:
- As sustentações orais centraram-se na ausência de provas materiais ligando Bolsonaro diretamente ao 8 de janeiro e às tentativas de golpe.
- Estratégia das defesas: argumentar que discussões e planejamentos não configuram crime sem a efetiva execução de atos violentos.
Resumo das Linhas de Defesa:
- Celso Villardi (Bolsonaro):
- Bolsonaro foi “dragado” para o processo sem provas concretas de envolvimento (01:02, 02:46).
- Defende que as minutas golpistas atribuídas a Bolsonaro não correspondem aos documentos apreendidos pela PF.
- “Não há uma única prova de ligação de Bolsonaro com o 8 de janeiro…” (02:46 - Reinaldo Turolo Júnior).
- Paulo da Cunha Bueno (Bolsonaro):
- Atos preparatórios não são puníveis criminalmente sob a legislação brasileira.
- Estados de sítio e defesa têm previsão constitucional e protocolos a seguir, que não foram seguidos.
- “Se houve alguma cogitação, ela não foi posta em marcha…” (07:19 - Reinaldo Turolo Júnior).
Destaque para defesa do Ex-Ministro Paulo Sérgio Nogueira:
- Tentou demonstrar que agiu para demover Bolsonaro de “adotar qualquer medida de exceção” (11:15 - Min. Cármen Lúcia, 11:20 - Tiago Bottino), o que foi interpretado como um reforço à acusação contra Bolsonaro ao admitir a intenção golpista.
2. As Minutas: Quais, Onde e Por Quê
- Foram encontradas múltiplas versões de minutas golpistas:
- No gabinete de Bolsonaro no PL;
- No celular de Mauro Cid (com previsão de GLO e estado de sítio);
- Na casa de Anderson Torres (prevendo intervenção no TSE).
- As versões foram sendo “editadas” e aprimoradas até chegar à do Anderson Torres.
- O argumento central da acusação é que a elaboração/revisão destas minutas configura preparação concreta para golpe, não mero “debate” (07:19, 07:53).
3. Hierarquia das Provas
- Tese central: Diferentes “pesos” para os tipos de provas no processo penal:
- Palavra do delator tem pouco valor isoladamente (“vale quase zero”), pois há interesse em obtenção de benefícios (06:32).
- Palavra do réu tem valor limitado, já que não é obrigado à verdade.
- Testemunhas têm peso superior, especialmente se compromissadas (Ex: Freire Gomes).
- Provas materiais diretas (documentos, mensagens) têm maior valor (06:32 - Reinaldo Turolo Júnior).
4. Discussões Sobre o Acesso às Provas
- Advogados reclamaram do curto prazo e do imenso volume (70-80TB), dificultando análise apropriada das evidências (15:49 - Reinaldo Turolo Júnior).
- A PGR e o STF consideraram que as queixas visavam atrasar o processo.
- Defesas desejavam acesso irrestrito, buscando possíveis elementos favoráveis não utilizados na denúncia:
- “Me parece bastante razoável que as defesas queiram, solicitem acesso integral ao material apreendido por essa razão…” (18:16 - Reinaldo Turolo Júnior).
5. O Clima no STF vs. Retórica Pública Bolsonarista
- Nenhum advogado recorreu à tese da perseguição política no STF, apesar da forte retórica bolsonarista nos EUA e nas redes (25:23 - Natuza Nery).
- Postura dos advogados é técnica e “urbana”, elogiando a Corte e respeitando o processo — em contraste com o discurso radical externo.
- “Nenhum deles repetiu os argumentos de Eduardo Bolsonaro e nem do trumpismo…” (27:29 - Reinaldo Turolo Júnior).
- Tiago Bottino explica que há dois discursos distintos: técnico para os ministros e retórico para o público.
- Diferenciação com a defesa de Lula no passado: lá, alegou-se parcialidade judicial internacionalmente; aqui, não há esse movimento (28:15 - Tiago Bottino).
6. Próximos Passos do Julgamento
- Votação inicia na próxima terça-feira iniciando pelo relator Alexandre de Moraes, seguido de Flávio Dino, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin (19:09 - Reinaldo Turolo Júnior).
- Cada voto deve individualizar a conduta de cada réu, fundamentando condenação ou absolvição para cada um dos cinco crimes.
- Propostas de pena já serão debatidas nos votos, com a dosimetria sendo especificada ao final do julgamento, previsto para 12 de setembro (20:36).
Notas e Momentos Notáveis
-
Min. Cármen Lúcia questiona objetivamente a estratégia da defesa do general Paulo Sérgio:
“Cliente de vossa senhoria, aspas, estava atuando para demover o presidente da república. Demover de quê? Porque até agora todo mundo diz que ninguém pensou nada.” (11:06) -
Tiago Bottino ressalta realismo das defesas:
“Não faz sentido negar fatos documentados. O que faz sentido para a defesa é tentar colorir com determinadas cores os fatos provados…” (21:11) -
Discussão sobre penas previstas:
“É muito pouco provável que você tenha penas menores do que aquelas que foram estabelecidas nos julgamentos anteriores…” (22:52 - Tiago Bottino) -
Ausência total de alegações de perseguição judicial:
“Ninguém falou em perseguição, nenhum advogado chegou lá e falou, olha, esse tribunal é espúrio…” (27:29) -
Bolsonaro recua de ataques anteriores ao STF durante o interrogatório
“Antes de fazer essa brincadeira, ele pede desculpas pelos ataques…” (30:26 – Tiago Bottino)
Timestamps de Segmentos-Chave
- [02:46] – Explicação inicial das teses da defesa de Bolsonaro
- [06:32] – Hierarquia das provas no processo
- [07:19] – Recapitulação e diferença das minutas golpistas
- [10:39] – Episódio da fala do advogado de Paulo Sérgio como potencial reforço à acusação
- [15:49] – Reclamações das defesas acerca do acesso às provas
- [19:09] – Como será a votação do STF na próxima semana
- [21:11] – Bottino comenta estratégia de não negar fatos
- [22:52] – Discussão sobre penas e pedido da defesa
- [25:23] – Debate sobre ausência de alegações de perseguição no plenário
- [30:26] – Citação sobre arrependimento de Bolsonaro por ataques anteriores
Conclusão
O episódio oferece um retrato detalhado do segundo dia do julgamento de Bolsonaro, revelando estratégias jurídicas sofisticadas, o peso institucional do processo, e a clara distinção entre as posturas públicas e jurídicas das defesas. O clima no STF mostra respeito institucional, focado em argumentos técnicos e análise de provas, enquanto a retórica de perseguição permanece fora do ambiente do julgamento. As próximas decisões dos ministros serão fundamentais para estabelecer entendimentos sobre o envolvimento de Bolsonaro e dos militares no episódio do 8 de janeiro.
“Todas as palavras dos advogados de defesa. Nenhum deles repetiu os argumentos de Eduardo Bolsonaro e nem do trumpismo…”
— Reinaldo Turolo Júnior (27:29)
“Você tem uma manifestação dele, no 7 de setembro de 2021, onde ele diz que o ministro Alexandre Moraes é um canalha... E quando estava sentado num depoimento, pediu desculpas...”
— Tiago Bottino (30:44)
Para quem quer entender o que está em jogo – e o que houve de mais relevante – neste julgamento, este episódio traz um panorama essencial, equilibrando os detalhes estratégicos jurídicos, o peso das provas e o contexto político-institucional.
