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Natuza Nery
Domingo de manhã em Beirute. No sul da capital do Líbano, um bombardeio deixou mortos e feridos. O ataque veio de Israel e rapidamente se tornou um empecilho para um cessar-fogo. E essa não é a primeira vez que isso acontece. Desde o cessar-fogo costurado pelos Estados Unidos, Irã e também Israel, firmado em abril, ocorreram mais de três mil ataques israelenses, segundo o Ministério da Defesa do Líbano. E o jornal americano The New York Times informa que há evidências até de que foi usado fósforo branco nesses ataques. Trata-se de uma substância química altamente incendiária e que causa queimaduras severas, tanto que convenções internacionais condenam o uso desse material em ataques a civis. Desta vez, a ofensiva israelense gerou reação imediata.
Lucenca Lu
O Irã voltou a atacar Israel depois de dois meses de cessa-fogo.
Natuza Nery
A guarda revolucionária iraniana confirmou que disparou mísseis balísticos contra uma base aérea no norte de Israel. Esse é o primeiro ataque iraniano a Israel desde o cessar-fogo no Oriente Médio envolvendo os Estados Unidos em abril. Mas a resposta veio também de Washington. Por telefone, Donald Trump pressionou Benjamin Netanyahu pela suspensão dos ataques israelenses. Segundo o jornal israelense Haaretz, o presidente
Lucenca Lu
avisou a Netanyahu que é ele, Trump,
Natuza Nery
quem dá as cartas em relação ao
Lucenca Lu
conflito e que o primeiro-ministro não tem
Natuza Nery
escolha além de aceitar as exigências do Irã para um cessar-fogo com os Estados Unidos. Trump teria exigido que Netanyahu não ataque
Lucenca Lu
o Irã em resposta aos mísseis.
Natuza Nery
Mas mesmo assim, Netanyahu atacou. Em retaliação a um ataque de mísseis lançado pelo Irã, Israel bombardeou alvos militares em várias cidades iranianas, como Isfahan e a capital Teheran. O apelo de Donald Trump era para que não houvesse uma nova escalada na guerra. E quando as hostilidades pareciam escalar, Israel e Irã anunciaram que interromperiam as operações militares, pelo menos por enquanto.
Narrator/Reporter
A decisão de Israel e Irã de suspender a escalada militar depois que o presidente americano, Donald Trump, exigiu que os
Lucenca Lu
dois lados parassem os bombardeios.
Natuza Nery
O presidente Donald Trump tem pressa para acabar com essa guerra que já dura mais de três meses, muito além das quatro, cinco semanas que ele disse que duraria, e ele não quer lidar com uma escalada militar nessa semana. Da redação do G1, eu sou Natu Zanelli e o assunto hoje é o fator Netanyahu na busca por um acordo de paz no Oriente Médio. Neste episódio, eu converso com Lucenca Lu, PhD em Política Internacional, professor de Relações Internacionais da USP, pesquisador da Universidade de Harvard e ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Terça-feira, 9 de junho. Bom Calu, esse conflito no Oriente Médio tem quatro atores principais de um lado Israel e Estados Unidos e do outro o Irã e o próprio Líbano. Eu quero a tua ajuda para a gente destrinchar os objetivos de cada um desses atores começando por Israel. Quais são os interesses israelenses nessa etapa do conflito?
Lucenca Lu
O Netanyahu e Israel, nessa etapa do conflito, têm procurado ampliar o escopo do confronto, por um lado com o Líbano, por outro lado, tentar implodir a negociação entre Estados Unidos e o Irã. O Netanyahu precisa de uma saída para o processo eleitoral israelense, com o qual ele se encontra debilitado. Então, o conflito no Líbano torna-se uma peça central em sua campanha eleitoral. Em termos objetivos, no Líbano, ele não há como ganhar nada. A explicação dele de que ele precisa ocupar uma faixa territorial denominada de Zona Amarela para garantir a segurança de Norte de Israel, ela, na prática, não garante a segurança do Norte de Israel porque o Hezbollah é capaz de atacar o Norte de Israel e provou isso nos últimos dias. No fim de semana, depois de novos
Natuza Nery
ataques do Hezbollah ao norte de Israel,
Lucenca Lu
hospitais transferiram pacientes para instalações subterrâneas O Netanyahu atacar Beirute faz parte de sua estratégia para, na verdade, colapsar o acordo entre o Irã e Estados Unidos Mas
Natuza Nery
ele não é aliado do Trump? Por que ele está querendo fazer isso?
Lucenca Lu
Olha o seguinte, o Netanyahu quer que o Líbano seja destacado para fora do acordo, seja dentro do entendimento entre Irã e Estados Unidos, que o Líbano não seja contemplado no acordo geral de paz entre os lados. O Irã não abre mão no âmbito do acordo que o Líbano não esteja presente. Do lado americano, os americanos concordaram que o Líbano esteja presente, em que o cessar-fogo e a paralisação da guerra seja entre todos os atores. O Netanyahu precisa separar o portfólio libanês dessa equação. A forma dele, Netanyahu, atrapalhar o acordo é atacar Beirute. Porque os iranianos haviam anunciado, na hipótese de Netanyahu atacar Beirute, os iranianos atacariam, revidariam, em contrarresposta ao Netanyahu, atacariam o território israelense, atacariam o norte de Israel. Isto significa que o Netanyahu, no fundo, desejava atrair os iranianos de volta para o conflito. E isso está plasmado na insatisfação do Trump na última ligação telefônica com o Netanyahu, cujo qual a Casa Branca vazou para Axios. Qual é o objetivo do Netanyahu? O Netanyahu, hoje, na corrida eleitoral, está atrás. Ele está em desvantagem significativa. Os três partidos de oposição se uniram numa coalizão contra ele e estão liderando a corrida eleitoral. Na hipótese, hoje, dado o cenário, se tivesse eleição hoje em Israel, ele perde. Quais são as consequências do Netanyahu? Ele vai imediatamente responder aos processos de corrupção. significa que ele está na iminência de ser preso. Mas, além disso, ele terá que responder às falhas securitárias de 7 de outubro, que, por ora, o seu governo e ele pessoalmente não respondeu.
Natuza Nery
Um ataque surpresa pelo ar e também por terra. Uma infiltração no território israelense sem precedentes no ataque mais pesado contra Israel desde os atentados suicidas da Segunda Intifada há cerca de duas décadas. Centenas de homens armados do grupo extremista Hamas entraram nos edifícios e cercaram uma base militar.
Lucenca Lu
Então, enquanto houver guerra, a posição do Netanyahu, ela fica protegida. Por isso que ele precisa arrastar o seu governo israel em guerra até outubro, até o período eleitoral. Sem guerra e sem o Irã engajado, a sua posição no contexto interno, ela fica bastante enfraquecida.
Natuza Nery
Só para dar um contexto aqui, para não ficar fora de esquadro, você disse que a Casa Branca vazou para o portal Axios uma conversa de Trump com Netanyahu. Só para esclarecer que nessa conversa o Trump teria dito para Netanyahu que se não fosse por ele, o Netanyahu estaria na cadeia. Ou seja, foi uma conversa, segundo o Axios, bastante tensa.
Lucenca Lu
Simplesmente, o que o Irã quer é estabelecer um novo padrão para as regras de engajamento com Israel. É limitar a capacidade de ação e de intervenção de Israel na região. Então, a proposição do Irã de que, se Israel atacar Beirute, Irã vai retalhar, se enquadra nesse novo marco, que é a busca do restabelecimento de um novo padrão e de novas regras de engajamento. Isso significa que Israel não terá, digamos, a mão livre para fazer o que bem entender no Oriente Médio. A leitura iraniana é que Netanyahu está afundado no Líbano. Ele, na verdade, ele está tendo perdas maiores do que se esperava no Líbano. A perspectiva iraniana é que, ao bombardear Israel, eles vão afundar Netanyahu no processo eleitoral, ao ponto que isso vai levá-lo a uma derrota. E que, uma vez consolidada a derrota do Netanyahu, aí sim vai ser muito mais fácil chegar-se a um acordo com os americanos, com o Netanyahu, fora do cenário.
Natuza Nery
Você citou o quadro eleitoral em Israel e a Netanyahu interessa estar constantemente em guerra para se fortalecer lá internamente. Mas o Trump também tem uma eleição. A eleição em Israel você citou em outubro. O Trump também tem uma eleição que é a eleição de meio de mandato que é em novembro. E aí eu te pergunto como é que esses interesses conflitantes dos Estados Unidos e de Israel vão se encontrar.
Lucenca Lu
Uma pergunta chave. Por isso que o Irã opera de forma, digamos, confortável. Os iranianos não têm pressa pra nada. Eles sabem que o Trump tem as eleições no meio de um mandato em novembro. Eles sabem que o Netanyahu terá que disputar as eleições em outubro. Eles não têm pressa nenhuma para fechar o acordo. Entende? Quanto mais demora, na visão iraniana, melhor. Essa visão, você mencionou muito bem, ela é conflitante entre os interesses do Italião e do Trump. O Trump, de fato, precisa de um acordo viável em que ele, digamos, saia com uma imagem de vitorioso no contexto do acordo, em que o acordo possa ser digamos, é vendido para a opinião pública americana e para o eleitorado republicano como um acordo melhor, digamos, do que o acordo assinado pelo Barack Obama em 2015 com o Irã.
Political Analyst
Os republicanos, por exemplo, e até alguns democratas, inclusive, temem que o Irã possa trapacear e continuar enriquecendo urânio, por exemplo, a ponto de produzir a temida bomba atômica. Com o fim das sanções, os iranianos vão ter acesso a bilhões de dólares que estavam congelados em bancos do exterior. E com mais dinheiro, podem, em tese, comprar mais armas, aumentar o poder na região. O Irã já exerce uma influência crescente no Iraque e na Síria. Agora, os apoiadores de Obama, os aliados de Obama, lembram que o presidente fez o que prometeu. Investiu na diplomacia, costurou um acordo com a comunidade internacional, já que os Estados Unidos não queriam entrar em mais uma guerra.
Lucenca Lu
Só que o marco temporal, ou seja, a régua temporal do Trump, ela não pode chegar até outubro. O Trump precisa de um acordo logo. Então o Trump precisa de um acordo mês que vem, em agosto. Ele não pode esperar até outubro ou novembro, porque até lá isso lhe gerará enormes custos para sua base de apoio e por isso a irritação dele com o Netanyahu, entendeu? Porque o Trump já entendeu que o Netanyahu quer. A tentativa do Netanyahu de atrapalhar o acordo entre Irã e Estados Unidos e a tentativa do Netanyahu de separar da negociação o Líbano como se fosse um assunto à parte e não como um assunto que engloba o todo, Isso faz com que os iranianos não queiram assinar um acordo, e isso atrapalha o plano político do Trump, entendeu? Então, essa é a razão pela qual os atritos entre esses dois aliados, Israel e Estados Unidos, acabam se sobressaindo e acabam vazando para a mídia americana e para a mídia internacional. Agora, tem que se ver até que ponto o Trump terá a capacidade de pressionar o Netanyahu a aceitar esse acordo com a inclusão do Líbano no contexto do acordo geral que vai se firmar com os iranianos.
Natuza Nery
Mas se o Trump não consegue impor a sua vontade ao Netanyahu, a imagem de força que ele gosta tanto de exibir, ela se deteriora. Porque se você não consegue convencer o seu aliado, que depende, diga-se de passagem, de você abater em retirada, a recuar, significa que o Trump vai ser visto como um líder fraco.
Lucenca Lu
Na minha visão, acho muito difícil o Netanyahu ceder e recuar em relação ao Líbano. Ele só irá recuar em relação ao Líbano numa única possibilidade, se o Trump conseguir oferecer ao Netanyahu uma alternativa que consiga catapultá-lo dentro do cenário eleitoral israelense. E essa alternativa hoje não está disponível. O que poderia ser essa alternativa? Desmantelamento do programa nuclear iraniano por inteiro. Essa possibilidade não está disponível. Fora essa possibilidade, não vejo o Netanyahu recuar. E obviamente que o Trump, nessa equação, ele terá que confrontar o seu aliado. Porque o seu aliado, nessa equação, Nessa circunstância, ele só está pensando na sua sobrevivência política. Ele não está preocupado com os interesses estratégicos dos Estados Unidos. Ele não está preocupado com o interesse político eleitoral do seu aliado político, que é o presidente Trump. Ele só está preocupado com a sua sobrevivência. Foi capaz de arrastar os Estados Unidos para uma guerra, sob, digamos, o guarda-chuva de que eles seriam capazes de derrubar o regime iraniano em questão de dias. Ele vendeu a possibilidade para o seu aliado que, eliminando a cadeia de comando, assassinando o Ayatollah Ali Khamenei, mais as lideranças políticas, mais as lideranças militares, o regime ruiria. Isso não aconteceu. E hoje, da perspectiva estratégica, os Estados Unidos perderam a guerra com o Irã. E o Irã, na verdade, acabou se reposicionando no contexto regional e global a partir de uma posição de força, a partir de uma posição em que o Irã se tornou um player capaz de impactar a economia global e um player capaz de impactar a segurança energética internacional. A diretora-geral do FMI, o presidente do Banco Mundial e o chefe da Agência Internacional de Energia alertaram que a guerra está tendo um impacto substancial na economia, principalmente nos países que importam energia Também alertaram sobre o efeito cascata que o bloqueio do Estreito de Hormuz tem provocado Reforçaram que a crise aumenta o preço do petróleo, do gás, dos fertilizantes e de outras commodities, o que tem consequências para a segurança alimentar e para o mercado de trabalho Portanto, o erro estratégico que o Trump cometeu, induzido por Netanyahu a se encaixar nessa operação militar, acabou impingindo graves custos estratégicos para os Estados Unidos.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com você em Canalu. Agora eu queria falar do Líbano, mas dividindo o Líbano entre o governo central do país e o Hezbollah, porque eles estão longe de serem a mesma coisa.
Lucenca Lu
Primeiro, o Hezbollah é parte do governo. O Hezbollah tem dois ministros no contexto do governo libanês. O governo libanês é um governo de coalizão nacional. Tem tanto oposicionistas, quer dizer, quanto partidos de centro, quanto partidos aliados do presidente e do primeiro-ministro. Estão todos dentro da mesma coalizão e da mesma formação ministerial. No que diz respeito à dissonância entre, digamos, Hezbollah e o governo central, é que, na percepção do governo central, o uso da força só deve pertencer ao governo. O uso constitucional da força deve pertencer ao exército libanês e o Hezbollah não deveria ser o ator, detentor, digamos assim, do processo decisório de paz e guerra. Essa é a principal divisão.
Narrator/Reporter
Esse grupo extremista, assim como os terroristas do Hamas, recebe financiamento e armas do Irã. O Hezbollah surgiu nos anos 1980, quando o regime iraniano de muçulmanos chiítas tentava ampliar a influência no Oriente Médio. O Irã decidiu apoiar um grupo, também chiíta, no Líbano, que pegou em armas para se opor à presença dos israelenses que tinham invadido o sul do território libanês em 1982. Nos anos seguintes, o grupo extremista foi responsável por uma série de ataques e atentados. O Hezbollah, que significa Partido de Deus, tem ainda um braço político, que ganhou força no Líbano em 2000, depois da retirada do Exército de Israel.
Lucenca Lu
Segundo ponto de inflexão diz respeito ao processo de negociação com Israel. Da perspectiva do Hezbollah ou da coalizão aliada ao Hezbollah, eles entendem que não há problema em negociar com Israel, desde que as negociações sejam negociações indiretas, enquanto o governo central optou por negociações diretas. com Israel sob a mediação americana. Qual é a leitura? O bloco pro Hezbollah entende que negociações diretas significam reconhecer a legitimidade de Israel. Negociações indiretas significam não reconhecer a legitimidade. Esse é um ponto. De acordo com a Constituição libanesa, em guerra são países inimigos, portanto não se pode negociar de forma direta. Essa é a visão do bloco pro Hezbollah. No entanto, no que diz respeito às demandas, as demandas, o que o Estado libanês deve demandar de Israel, aí os dois lados concordam. Aí são cinco itens, basicamente, esses cinco itens, Tanto o ex-Golá quanto o governo central, eles concordam com as demandas. A retirada das forças israelenses de todo o território invadido e ocupado por Israel. Retorno dos refugiados libaneses aos seus vilarejos. Reconstrução das áreas destruídas libanesas. retomada do exército do sul do Líbano para exercer o controle de fronteira e desmilitarização da margem do sul do Rio Litano. Quanto a isso, há uma concordância quanto a esses cinco pontos centrais. Agora, Obviamente que há uma discordância que aí é maior, que é quanto à desmilitarização de Rosbolá ou não. Partidos políticos que apoiam o governo central entendem que o Rosbolá tem que se desmilitarizar.
Narrator/Reporter
Os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha consideram o Hezbollah uma organização terrorista. É uma das forças paramilitares mais bem equipadas do mundo, considerada mais poderosa que o próprio exército do Líbano. O grupo extremista tem um arsenal de 150 mil foguetes e mísseis. A maior parte é de curto alcance. São foguetes que alcançam algumas dezenas de quilômetros, como o norte de Israel. O grupo também tem mísseis de longo alcance que podem atingir todo o território vizinho.
Lucenca Lu
O Hezbollah não aceita a desmilitarização. A alegação do Hezbollah e dos outros partidos políticos que apoiam o Hezbollah entendem que o exército libanês é muito fraco. Ele é um exército que não tem armamentos capazes de fazer frente a Israel e as pressões internacionais, especialmente dos Estados Unidos, impedirão o exército libanês de defender o território libanês se Israel decidir invadir o Líbano no futuro. Portanto, esse grupo aliado ao Hezbollah entende que o Hezbollah não deverá depor azar. Tem um fator agregado. A base popular do Exbolar, quer dizer, aí não estamos falando da base, digamos, sociopolítica, base popular, base de apoio, ela não admite em nenhuma circunstância que o grupo se desarme, porque ela entende que não dá para confiar no governo central, porque o governo central, ele é um governo subserviente aos Estados Unidos, que por conseguinte não é um mediador neutro. ele é um mediador que defende primeiro os interesses de Israel e não defende os interesses do Líbano e que sem a força da resistência o sul do Líbano todo estaria hoje ocupado se não fosse o Hezbollah. Essa leitura dessa massa populacional e o Hezbollah já declarou inúmeras vezes que não irá se desmilitarizar. A proposta americana hoje está na mesa é o Hezbollah se desmilitariza, depois Israel sai. Bom, essa proposta da perspectiva que o governo central apoia, da perspectiva dos apoiadores do Hezbollah, seja eles a base popular, seja a base, digamos, política dos outros partidos políticos que apoiam o Hezbollah. Essa proposta não é confiável. Os Estados Unidos não são atores em que se pode confiar em suas garantias, porque no passado ofereceram garantias e as garantias não foram cumpridas. Em outubro de 2024, houve um cessar-foco estabelecido sob a mediação americana. Os israelens, naquele momento, deveriam se retirar no Líbano no prazo de 90 dias. E durante 15 meses, ao largo de 15 meses, ou seja, desde aquele período de novembro, outubro de 2024 até a presente guerra, durante todo esse período, Israel não se retirou do território libanês, pelo contrário, expandiu a ocupação E ao invés de haver cessar fogo, Israel durante esse período de 15 meses atacou diversas posições, não só do Hezbollah, mas atacou a infraestrutura civil do Estado libanês, que é a propriedade da população libanesa, levou a assassinato de mais de 500 civis libaneses, durante esse período, efetuando ataques praticamente diários. Esse acordo foi mediado, negociado, sob a tutela americana. Então, e naquele momento, foram dadas garantias ao Líbano de que Israel se retiraria. Naquele momento o Hezbollah se comprometeu a entregar as armas que tinha na margem sul do rio Leitani e se retirar, e comprometeu-se em não atacar Israel. Hezbollah cumpriu com todo esse combinado. Então se a gente olha esse cenário hoje, Hoje, essa base de apoio do Hezbollah diz o seguinte, olha, este grupo cumpriu, os americanos deram garantias que Israel não faria isso, Israel furou as garantias. Se você olhar para Gaza, hoje Israel se comprometeu em Gaza com uma série de acordos, Israel segue bombardeando Gaza. Israel se comprometeu a não invadir o território sírio e hoje ocupa, digamos, cerca de quase 10% do território sírio. Então, na visão, digamos, dos apoiadores do Hezbollah, a leitura que se faz é que Israel não cumpre nenhum acordo e os americanos, qualquer garantia que eles venham a oferecer, são garantias falsas.
Natuza Nery
Bom, então o que você relata pra gente neste episódio é um grande impasse, muito difícil de ser resolvido, e enquanto isso civis vão morrendo, perdendo as suas casas, e aí eu falo majoritariamente dos civis do Líbano, mas também de civis israelenses.
Lucenca Lu
Infelizmente para a população civil do Levante, por assim dizer, vai acabar sendo vítima da violência, vai acabar sendo vítima da irracionalidade dos atores políticos.
Lebanese Commentator
A questão do Líbano, onde Israel tem realizado fortes bombardeios ao Líbano porque o Hezbollah lançou, naquele começo da guerra, mísseis em direção a Israel. O Líbano como país, o governo libanês, a sociedade libanesa, é contra o Hezbollah atacar Israel, mas também é contra os bombardeios israelenses ao Líbano, que já provocou o deslocamento de quase um milhão de pessoas, que representa cerca de 15% da população libanesa, matou centenas de libaneses, incluindo crianças, nesses bombardeios que alvejam A região de Dar, que é uma região majoritariamente ita do Irã e dos países árabes ao redor, também tem essa outra guerra no chamado Levante, ali no Líbano, e Israel entre os israelenses e o Hezbollah. Para deixar claro, o governo do Líbano não quer essa guerra, é contra tanto o Hezbollah como também contra os ataques israelenses.
Lucenca Lu
Repito, eu acho que hoje está claro que o acordo nuclear iraniano, que era uma peça central para a estabilidade do Oriente Médio, foi rompido por Donald Trump. Lembrando que esse acordo assinado por Obama teria colocado o Oriente Médio dentro de uma outra lógica talvez hoje. Todo mundo percebeu que a guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã foi um fracasso, não resultou em nada. Israel hoje entra praticamente no quarto ano em guerra, permanente praticamente, com pouquíssimos espasmos de momentos de paz, são espasmos de paz, praticamente em guerra permanentemente. Eu atribuo a Netanyahu a grande responsabilidade porque foi ele que induziu Trump a romper o acordo nuclear naquele momento, quando o Trump assumiu o poder em seu primeiro mandato, logo em 2016. E logo quando Trump assume seu segundo mandato, foi ele que convenceu Trump de que era possível derrubar o regime iraniano e, portanto, deveria bombardear o Irã. E hoje o resultado provou-se ser contraproducente. Portanto, eu acho que o Trump percebeu também que Netanyahu que aparentemente se colocava como seu aliado, hoje Israel pode ser um ativo estratégico para os Estados Unidos. Não há dúvida que Israel é um ativo estratégico para os Estados Unidos, mas o governo itanial passou a ser um passivo para o governo Trump. Israel é um ativo estratégico para os Estados Unidos, mas o governo itanial é um passivo para o Trump no atual momento. É um passivo, porque hoje a conduta estratégica do Netanyahu no teatro geopolítico militar no Oriente Médio pode culminar no colapso das negociações entre Estados Unidos e Irã, que avançaram de forma significativa, e pode acabar levando Donald Trump a uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato. Portanto, esse é o cenário que se desenha hoje nessa intrincada equação que envolve Líbano, Israel, Irã e Estados Unidos. E mais, os americanos hoje são vistos com maior desconfiança hoje no Golfo Pérsico. Por quê? Vários dos países árabes do Golfo abriram o seu território para a instalação de bases militares. Tem base militar americana no Kuwait, nos Emirados, no Catar, no Bahrein e na Arábia Saudita. A presença de bases americanas nesses países tornaram-se um risco para esses países. Então, muitos desses países hoje estão recalculando a necessidade de terem essas bases em seu território. Então, esse é o cenário que a gente tem hoje dentro do quadro geopolítico regional.
Natuza Nery
Senkalu, muito obrigada por topar conversar mais uma vez com a gente sobre os aspectos desse conflito. Bom trabalho para você.
Lucenca Lu
Muito obrigado, Natuza. Sempre é um prazer falar no seu programa.
Natuza Nery
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 9 de junho de 2026
Host: Natuza Nery
Convidado: Lucenca Lu (PhD em Política Internacional, professor da USP, pesquisador em Harvard, ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência)
Neste episódio, Natuza Nery conversa com o professor e analista Lucenca Lu sobre o papel central de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, nos rumos do atual conflito no Oriente Médio. A abordagem envolve tanto a dinâmica interna de Israel e sua liderança quanto o contexto regional, analisando o impacto das ações e decisões de Netanyahu sobre as tentativas internacionais de alcançar um cessar-fogo e acordo de paz — especialmente diante das pressões dos Estados Unidos e do Irã, além da complexa situação no Líbano. O episódio destrincha motivações eleitorais, interesses estratégicos e impasses que tornam a paz uma perspectiva distante.
Timestamps: 00:11 - 02:26
“O que o Irã quer é estabelecer um novo padrão para as regras de engajamento com Israel.”
— Lucenca Lu (08:04)
Timestamps: 02:26 - 08:04
“Enquanto houver guerra, a posição do Netanyahu fica protegida. Por isso que ele precisa arrastar seu governo israelense em guerra até outubro, até o período eleitoral.”
— Lucenca Lu (07:18)
"Se não fosse por ele, o Netanyahu estaria na cadeia... foi uma conversa, segundo o Axios, bastante tensa."
— Natuza Nery (07:39)
Timestamps: 09:13 - 12:52
“O Trump precisa de um acordo mês que vem, em agosto. Ele não pode esperar até outubro ou novembro, porque isso gerará enormes custos para sua base de apoio — e por isso a irritação dele com o Netanyahu.”
— Lucenca Lu (11:11)
Timestamps: 12:52 - 15:36
“Hoje, da perspectiva estratégica, os Estados Unidos perderam a guerra com o Irã.”
— Lucenca Lu (14:32)
Timestamps: 16:02 - 20:02
“O Hezbollah já declarou inúmeras vezes que não irá se desmilitarizar... a proposta americana hoje é: o Hezbollah se desmilitariza, depois Israel sai.”
— Lucenca Lu (20:02)
“Essa base de apoio do Hezbollah diz o seguinte: este grupo cumpriu, os americanos deram garantias que Israel não faria isso, Israel furou as garantias.”
— Lucenca Lu (22:40)
Timestamps: 23:54 - 24:26
“Infelizmente para a população civil do Levante... vai acabar sendo vítima da irracionalidade dos atores políticos.”
— Lucenca Lu (24:13)
Timestamps: 25:25 - 27:56
“O governo Netanyahu passou a ser um passivo para o Trump... a conduta estratégica do Netanyahu pode culminar no colapso das negociações entre Estados Unidos e Irã, e pode acabar levando Donald Trump a uma derrota acachapante nas eleições.”
— Lucenca Lu (26:44)
Episódio obrigatório para quem quer entender o drama contemporâneo do Oriente Médio sob o prisma das decisões de Netanyahu e suas consequências globais.