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Ana Tuzaneri
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é o fôlego de Lula nas pesquisas. Neste episódio, eu converso com Felipe Nunes, cientista político, professor da FGV de São Paulo e diretor da Quest. Quinta-feira, 9 de outubro. Felipe, você veio ao assunto em julho e lá a aprovação de Lula tinha parado de cair. De maneira mais geral, o que aconteceu de lá para cá, para o resultado de agora da Quest?
Felipe Nunes
Natus, o principal resultado é uma combinação de notícias positivas e vitórias políticas que somadas produziram esse resultado completamente diferente daquele que a gente imaginava no começo do ano. Depois do tarifaço do Trump, o Lula aparece como um político que está tomando as decisões certas, que está do lado certo contra a família Bolsonaro. Soma-se a isso uma redução no preço dos alimentos, que foi importante nesse período para contribuir para que a população de baixa renda voltasse a dar uma oportunidade de aprovação para o governo. E agora, mais recentemente, todos esses gestos políticos a própria PEC da blindagem, a execução da soberanistia, a aprovação da isenção do imposto de renda, que deram ao Lula a agenda política que foi somando a esses outros elementos que eu disse e acabaram produzindo esse fenômeno de recuperação de popularidade.
G1 News Reporter
Em janeiro, 47% aprovavam o trabalho do presidente Lula. Em maio, 40%. E agora, em outubro, 48%. Desaprovavam 49% em janeiro. Em março, 56%. E agora, 49%.
Felipe Nunes
Se o primeiro ciclo do ano foi um ciclo de queda de popularidade, esse segundo semestre, esse segundo ciclo, está sendo de recuperação em função de uma série de fatores, como eu disse, que combinam economia, política e, claro, notícias vindas aí dos Estados Unidos.
Ana Tuzaneri
E o que a aprovação do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais tem a ver com essa melhora na aprovação do governo Lula?
Felipe Nunes
Tem muito a ver, Natuza. A ver pelo seguinte, primeiro, a população, principalmente aquela que tem renda mais alta, que não é a base do governo Lula, nesse momento está entendendo que pode ser beneficiada por esse projeto. Eu destaco que quando a gente olha para a pesquisa desse mês, fica muito evidente que esse público que ganha acima de 5 salários já está na expectativa de receber algum tipo de benefício político em torno dessa aprovação. Ou seja, o governo conseguiu furar a bolha com esse projeto, conseguiu uma aprovação, eu diria, inédita no Congresso Nacional, na Câmara dos Deputados, ali uma votação, mais de 490 votos a zero, então foi importante. E isso produz aquilo que na política é fundamental, produziu expectativa de resultados positivos no ano que vem, já que, no bolso, o imposto de renda ainda não impactou. Ele, por enquanto, está impactando só a expectativa que as pessoas têm em relação a esse projeto.
Ana Tuzaneri
Agora, olhando os segmentos por renda, tem algumas movimentações que eu queria checar contigo. A aprovação do governo, entre aqueles que ganham mais do que cinco salários mínimos, passou de 37% para 45% em um mês. Portanto, uma diferença de oito pontos percentuais. O que aconteceu para explicar esse movimento?
Felipe Nunes
Aí, o principal determinante é essa aprovação do imposto de renda. Só para explicar tecnicamente, Natuza, para quem está nos ouvindo.
Ana Tuzaneri
Só uma ideia já é capaz de fazer essa mexida?
Felipe Nunes
Por enquanto, o que a gente está vendo ali é o seguinte. A Quest trabalha com o segmento de renda familiar. A pergunta da Quest não é sobre renda individual das pessoas. Então, todo mundo que está no extrato acima de cinco salários são pessoas que têm família que recebem acima de cinco salários mínimos. O que significa que várias pessoas dentro desse segmento individualmente estão esperando uma melhora nas suas rendas individuais, já que elas compõem famílias que, somadas, têm rendas acima desses cinco salários. Esse ponto é importante, Natuza, porque a política é composta, claro, de resultados objetivos, mas também de expectativa em torno de resultados. Esses oito pontos parecem muito grandes, é bom olhar para eles com alguma cautela, já que a margem de erro nesse segmento é um pouco maior do que os dois pontos gerais, a margem aí chega a quase cinco pontos, então essa variação pode não parecer tão grande quanto ela é, mas é significativa por isso, porque ela está impactada por essa expectativa em torno do imposto de renda que, combinada com a expectativa de melhora na economia, acaba compondo aí um quadro positivo nesse grupo, que é o grupo mais arredio para o Lula desde a eleição de 2022.
Ana Tuzaneri
Entendi. Agora, na base da pirâmide, quando a gente olha para a base da pirâmide, a aprovação entre quem ganha até dois salários mínimos não mexeu, ela ficou estável. o governo anunciou e tem anunciado medidas para essa faixa de renda. Como é que você avalia essa estabilidade?
Felipe Nunes
Aí tem dois elementos muito importantes, Natuza. O primeiro, quando a gente olha o relatório dessa pesquisa com cuidado, a gente percebe, como você disse muito bem, que há uma estabilidade nesse público que tem renda familiar que soma até dois salários mínimos. Mas no público beneficiário de programas sociais, portanto aquele de renda muito mais baixa do que esse público geral, a gente viu melhora. O que isso significa? Primeiro, se no público que trabalha, que tem renda e que não tem benefício social há essa estabilidade, de aprovação. Por outro lado, o público que se beneficia dos programas sociais, do Bolsa Família, dos programas mais voltados ao Cade Único, nesses a aprovação continua melhorando. O que significa que os programas estão muito direcionados para esse público de renda individual abaixo de um salário. É ali que a mudança se dá, mas ela não é suficiente para movimentar o extrato maior de até dois salários de renda. Ou seja, ali a resistência ao governo ainda existe, que é o público pobre que trabalha e que não se sente tão beneficiado pelo governo quanto o próprio governo gostaria. Esse é um elemento importante desse público. O segundo, Natus, eu venho dizendo e vou repetir. não há mais gratidão automática. O eleitor de baixa renda no Brasil olha para os benefícios sociais como direitos e não como benefícios com dividendos eleitorais automáticos. As pessoas estão mais exigentes. É um cenário eleitoral no Brasil com muito mais dificuldade. O governo não tem aquela moleza. para, ao produzir resultados de programas, observar sua popularidade crescer tão rapidamente. Eu desconfio, inclusive, quando a gente olha grandes saltos, pulos em aprovação, porque a popularidade dos governos é quase um processo, ela se altera, positiva ou negativamente, com alguma vagarosidade. Ali, Natuza, eu acho que é a próxima fronteira que o governo tem, ele vai ter que conseguir de outra forma que não com programa social, agradar esse público de baixa renda. Eu desconfio que em novembro, com o início do gás do povo somado à energia elétrica, que vai estar isenta, o programa já está anunciado.
Ana Tuzaneri
Segundo o governo, cerca de 55 milhões de brasileiros terão desconto na conta de luz e 60 milhões ficarão isentos.
Felipe Nunes
Você tem ali um ganho de quase 200 reais na renda desse público de renda mais baixa e isso pode fazer a diferença. Vamos esperar esse novembro chegar.
Ana Tuzaneri
Eu queria olhar agora para gênero, homens e mulheres, mas sobretudo para mulheres, Filipe, porque a pesquisa mostra que a aprovação de Lula entre as mulheres voltou a ser maior do que a reprovação. Desde quando não se via um movimento assim? E isso te lembra de alguma forma o cenário eleitoral de Lula, quando ele disputou em 2022 para o terceiro mandato?
Felipe Nunes
Natuza, nós conversamos em um dos assuntos do passado sobre o gap de polarização de gênero, que na minha visão é o gap mais importante que o Brasil tem encontrado. Nesse ano, enquanto a popularidade do governo vinha sofrendo, a reprovação vinha alta, mesmo as mulheres que sempre foram importantes, desde a eleição de 22, um grupo importante pro Lula, nem nelas a gente via um resultado bom. Então, desde dezembro do ano passado, a gente não vê a aprovação entre as mulheres maior, como a gente tá vendo agora, eu considero essa mudança muito significativa, porque ela sinaliza que elas, que têm tido uma importância cada vez maior no mercado de trabalho, cada vez maior na tomada de decisão política dentro dos domicílios, até porque há um enorme contingente de domicílios brasileiros que não tem a presença masculina, basicamente a mulher e um filho, ou mesmo a mulher sozinha, isso pra mim molda o futuro, os prognósticos positivos do governo Lula pra 2026.
Opposition Commentator
O governo consegue crescer em setores importantes, onde sempre teve uma força maior, entre os segmentos das mulheres, no Nordeste especialmente, também entre os católicos.
Felipe Nunes
Sem o apoio das mulheres, o Lula estaria em maus lençóis na eleição de 26. Esse resultado que a gente publica essa semana é um resultado que dá um alívio, eu diria, enorme pro governo, porque ele passa a ter possibilidade de poder contar novamente com um público que é muito arredio a Bolsonaro, que olhou para toda a dinâmica da Covid e da pandemia com maus olhos, mas também não estava gostando do governo. Essa recuperação é uma mudança de chave bastante determinante para 26.
Ana Tuzaneri
A gente está a um ano das eleições de 2026 que você acaba de mencionar. O que dá para tirar, fazendo essa ressalva de que temos muito tempo até lá, mas o que a pesquisa demonstra em relação à capacidade ou à competitividade do atual presidente da República.
Felipe Nunes
Eu acho essa pesquisa, Natuza, muito simbólica, ela é muito importante para a gente, eu e você que fazemos análise política e todo mundo que acompanha o assunto e que gosta de política. Porque a eleição do ano que vem, o primeiro turno vai ser no dia 4 de outubro, esse campo foi feito entre os dias 2 e 5, portanto é exatamente um ano. E por que isso é significativo? Porque em 2021, em outubro de 2021, quando a gente estava também há um ano da eleição, aquela eleição tão importante de 1922, o cenário era muito mais claro. Você tinha um ex-presidente e um presidente prestes a disputar uma eleição pela primeira vez na história. O quadro de 1926 é muito diferente. Bolsonaro cada vez vê sua rejeição mais aumentada, o clã Bolsonaro cada vez aparece com rejeição maior, ou seja, ao invés de serem importantes na eleição, a cada novo ciclo parece que eles têm, a cada novo ciclo de pesquisas eu digo, parece que eles têm mais problemas a oferecer à oposição. A oposição tá muito desorganizada nesse momento, essas primárias da direita não estão levando a oposição a um lugar bom, enquanto isso o governo se organiza. E hoje, Lula está num patamar muito melhor do que Bolsonaro estava quando a gente compara essa pesquisa de outubro de 25 com a pesquisa de outubro de 21. Então, Natuza, tem um ano pela frente, tem muita água pra passar ainda debaixo dessa ponte, mas os dados de hoje mostram que o Lula voltou pro jogo. Se em maio as pesquisas da Quest apontavam pra um governo com muitos problemas na comunicação, na política, na falta de estratégia, em outubro de 25 dá pra dizer que Lula está no jogo, é um candidato competitivo e a gente ainda vai ter muita emoção pela frente, porque como eu disse, A opinião pública brasileira está muito calcificada, difícil de ser alterada, as opiniões mudam muito lentamente e isso, obviamente, é um desafio enorme, gera muita ansiedade na oposição e, claro, no governo.
Ana Tuzaneri
Bom, e sobre a opinião pública calcificada você tem um livro sobre isso, diga-se de passagem. Duas considerações sobre o que você disse acerca das condições de governo e oposição para as eleições. A primeira é que quando você fala em primárias do campo da oposição é a disputa, na verdade são as disputas entre os candidatos do campo da direita que são vários, não tem um candidato claro. E a outra coisa é que quando você diz o seguinte, olha, em 2021 o cenário era um cenário bem mais desafiador para o então presidente Bolsonaro, eu me lembro da dificuldade que foi Não foi fácil aquela eleição para o candidato do PT, né? Tendo em vista que a diferença entre os dois foi uma diferença de o quê? Um milhão e meio de votos no final da eleição?
Felipe Nunes
E é por isso que essa ponderação, Natuza, que você está fazendo é tão importante, né? Se a gente olhar para outubro de 21, a distância que Lula tinha em relação ao incumbente, então Bolsonaro, era enorme. A gente viu Bolsonaro recuperando popularidade, recuperando o prestígio político e o capital político ao longo do processo eleitoral, e no fim, Lula e Bolsonaro acabaram, se fosse só por pesquisa de opinião, tecnicamente empatados. A última pesquisa da Quest, em outubro de 1922, era um empate técnico quase numérico entre os dois candidatos, Lula e Bolsonaro. De fato, tem muito caminho pela frente. A oposição ainda tem espaço para se reorganizar. O governo, embora tenha recuperado popularidade, não conseguiu mudar o rumo de um indicador que eu acho fundamental, que é o Brasil está indo na direção certa ou errada. Hoje, a maioria dos brasileiros continua achando que o Brasil está indo na direção errada. É uma oportunidade enorme da oposição se organizar apresentando uma pauta alternativa de Brasil, olhando pra isso. Mas, como eu disse, o Lula voltou a ser competitivo. Se não fosse essa retomada que mistura economia, boas notícias e, óbvio, os erros da oposição, principalmente de Eduardo e da família com os Estados Unidos, o cenário podia não ser tão promissor assim pro governo como aparece hoje.
Ana Tuzaneri
E acho que a minha memória não tá boa, porque a diferença foi de dois milhões de votos, mas acho que o percentual foi de um e meio, um ponto, alguma coisa de diferença entre os dois. Presidentes da República, incumbentes normalmente têm muita força, né, Felipe?
Felipe Nunes
Sim, eu tô muito curioso, Natuza, pra entender como vai ser essa disputa de 26, porque no mundo inteiro os incumbentes estão vivendo uma certa maldição. 75, 76% dos incumbentes não foram reeleitos no mundo nos últimos seis, sete anos. Tem um novo pós-pandemia, o processo inflacionário acabou dificultando a vida dos incumbentes. O Brasil é um desses casos, em que o Bolsonaro não consegue a reeleição. Mas Lula, com essa recuperação de popularidade, tem obviamente espaço para mudar essa regra momentânea, vamos dizer assim, até porque ele conseguiu recuperar a popularidade antes do ano eleitoral, vamos ver se ele agora consegue sustentar essa recuperação, que vai depender, como eu disse, claro, das suas políticas, da sua organização de comunicação, mas também vai depender de quanto a oposição consegue se organizar até lá e apresentar um projeto alternativo que seja competitivo em relação à Lula. Eu continuo muito cauteloso, Natuza, você sabe disso, em relação à eleição, acho que vai ser uma eleição muito apertada, muito competitiva, embora Lula hoje leve vantagem sobre os seus adversários. Mas acho cedo para fazer qualquer prognóstico definitivo se a moeda vai cair para um lado ou se vai cair para o outro.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Felipe Nunes. Agora, quais são, olhando agora para as dificuldades de Lula, quais são os desafios dele segundo essa quest?
Felipe Nunes
Primeiro é não ter conseguido mudar a direção que o país está caminhando. Como eu ressaltei há pouco, a maior parte dos brasileiros não acredita que o Brasil está indo na direção certa e isso é matador. Você que acompanha a eleição há tanto tempo sabe disso. A eleição é um exercício retrospectivo, claro, o eleitor olha para trás, para o retrovisor, para ver se o governo cumpriu suas promessas, mas também é um exercício prospectivo. O eleitor quer saber o que vem daí pra frente, o que vai fazer diferença na vida dele. E não tendo conseguido ainda, Lula, mudar a percepção de futuro sobre direção do país, ele pode ter dificuldade em relação a isso. Além desse aspecto, Natuza, tem outros dois que são importantes. O primeiro É que o Brasil se divide quando eu pergunto se Lula é bem intencionado como político, se ele faz bem porque é bem intencionado, metade diz que sim, metade diz que não, então é óbvio que tem uma rejeição acumulada em relação ao presidente. Quando eu pergunto, Lula tem conseguido cumprir suas promessas de campanha? A maior parte dos brasileiros ainda diz que não. Ou seja, tem três grandes indicadores que eu considero fundamentais e que estão no horizonte dos estrategistas do governo, daqueles que trabalham não só com a ação política, mas com a comunicação e que vão ter que ser trabalhados para criar um cenário, aí sim, mais favorável ao atual presidente.
Ana Tuzaneri
Bom, quero te fazer uma pergunta sobre uma pauta cara à oposição bolsonarista, que é a anistia ou redução de pena. Entre setembro e outubro, a pauta da anistia, segundo a Quest, perdeu mais fôlego. 47% dos brasileiros desaprovando o projeto e 35 aprovando o projeto. A maioria também é contra a redução de penas dos condenados pelo 8 de janeiro. Então, são duas pautas muito importantes ali, sobretudo para Bolsonaro. A gente ainda não tem dados sobre o cenário eleitoral, mas o que a gente pode dizer acerca dessa lupa em particular, da pauta da anistia?
Felipe Nunes
Esse ciclo de recuperação de popularidade do governo veio acompanhado também de um ciclo de aumento de rejeição, principalmente da família Bolsonaro. E essa rejeição, Natuzza, é uma função de dois elementos. Um, das escolhas políticas erradas que eles fizeram, e aqui eu estou chamando a atenção claramente não só para o tarifácio, mas também para a agenda da anistia e para a agenda da dosimetria. A sociedade brasileira abertamente é contrária a essas três pautas, acham primeiro que o Trump não pode fazer o que fez em relação ao Tarifaço, acham que o Eduardo está defendendo seus interesses pessoais acima dos interesses da nação e, como você muito bem acabou de descrever, não tem apelo nenhum a pautas de anistia ou de redução de pena. Então, as escolhas políticas desse grupo claramente estão equivocadas.
Opposition Commentator
O governo no seu pior momento, que foi em maio, você tinha uma diferença de aprovação e reprovação de 17 pontos, agora existe um empate, a diferença de um ponto, ou seja, empate técnico, sim. Eu fui ouvir também a oposição agora pela manhã. A percepção é que o presidente Lula saiu das cordas. Você teve, sim, acertos do governo em vários movimentos e teve, sim, erros que a própria oposição reconhece. Esses erros da oposição são muito direcionados ao tarifácio e a todo o movimento da família Bolsonaro em relação às sanções ao Brasil.
Felipe Nunes
O outro problema é que, embora eles tenham tomado decisões erradas no curto prazo, eles ainda são o grupo politicamente mais coeso e organizado na oposição. Por isso, Natuza, o trauma do Dória, eu gosto de usar essa expressão, continua tão presente. Qual que é o trauma do Dória? Os governadores de oposição têm medo de abandonar Bolsonaro e sofrerem o mesmo destino político do ex-governador de São Paulo, Teve até que sair da política tamanha rejeição que ele acumulou depois de ter defendido, ganhado eleição no campo bolsonarista e depois defendido a vacina no governo de São Paulo. Então eu acho que esse dilema de ficar com o Bolsonaro ou sair do Bolsonaro, ele vai ficando cada vez mais claro. A direita não-bolsonarista é maior do que o bolsonarismo, mas é menos coesa. Isso acaba interpelando e fazendo com que esses governadores da oposição fiquem ali acuados entre defender as pautas de anistia, dosimetria e tudo mais que interessam mais ao bolsonarismo do que o resto do Brasil, ou caminharem sozinhos. O momento da decisão, o timing da decisão, se ficam ou não com o Bolsonaro, é uma dessas perguntas que também vai acompanhar o processo de análise dessa eleição de 26 e a gente vai ter que acompanhar com muito cuidado, porque até aqui, Natuza, essa pauta não tem conseguido gerar resultados positivos para a oposição.
Ana Tuzaneri
A pesquisa consegue capturar a percepção dos brasileiros sobre o contato, primeiro com a química e depois com a conversa entre Lula e o presidente dos Estados Unidos?
Felipe Nunes
É, eu acho esse um dos temas mais fascinantes que a gente tem estudado. Eu, como cientista político, Natuza, confesso que não via relações internacionais impactando eleições nacionais no Brasil. Esse é um tema que a gente sempre deixou de lado. Na vida americana, a política internacional sempre foi importante, porque eles sempre foram... Guerrearam no mundo inteiro. O caso brasileiro era a política doméstica, que era a mais importante na eleição presidencial. Mas a gente tá vendo esse ano uma novidade. Os brasileiros não só sabem do que tá acontecendo, estão muito informados, como têm opinião sobre isso. Então eu vou dar aqui dois exemplos. Primeiro, os brasileiros viram o discurso do Lula e acham que o Lula fez um bom discurso na ONU. Um percentual alto de brasileiros tomou conhecimento disso. Os brasileiros também ficaram sabendo, a maioria, mais de 50% ficou sabendo do elogio que Trump fez à Lula e acham que Lula sai fortalecido deste processo. Tão fortalecido que os brasileiros sugerem que Trump e Lula tendem a se dar muito bem depois que fizerem um encontro. presencial, que é uma coisa que estava sendo especulada quando a pesquisa foi a campo. Então, acho que os efeitos dessa dinâmica internacional, Natuza, são muito interessantes para quem analisa política. Primeiro porque Trump num primeiro momento parecia o vilão da história, na vida do Lula. Podia ser aquele presidente que atrapalharia a vida do Lula com as tarifas, mas na verdade agora ele sai como alguém que na verdade pode produzir benefícios políticos para Lula. Não só Lula resistiu à ameaça que Trump fez ao Brasil, como agora parece conseguir aí um quase acordo, inclusive objetivamente, beneficiando esse eleitorado, que nem é muito lulista, que é o eleitorado do centro-oeste, o eleitorado do interior de São Paulo ou do sul do Brasil, que, por exemplo, negocia carne, que é um dos elementos que ainda está na pauta. Eu estou muito curioso para ver o desdobramento dessa conversa. Até aqui é uma conversa que tem gerado benefícios políticos para o governo Lula, em especial para o presidente.
Ana Tuzaneri
Por fim, Filipe, queria te perguntar de um movimento que está acontecendo hoje, quer dizer, já de alguns dias, mas hoje há notícias a respeito, que são ministros do Centrão, que são auxiliares de Lula, ficando no governo, decidindo, contrariamente às lideranças dos seus partidos, ficar no governo. André Fufuca, dos esportes, e Celso Sabino, do turismo. Eles são do centrão. O centrão está mais para o lado contra o governo do que para o lado a favor. O que você imagina à luz da pesquisa que você fez ou das pesquisas que você vem fazendo que esteja acontecendo a ponto desses ministros optarem, contrariar os seus partidos para permanecerem no governo?
Felipe Nunes
A recuperação de popularidade do governo é claro que é um fator determinante do que a gente está vendo no cenário político. Eu explico isso. A partir do momento que estes ministros percebem que suas bases eleitorais começam a ver Lula como um candidato competitivo com chances de vitória no ano que vem, eles fazem um cálculo que os partidos pragmáticos sabem fazer há muito tempo, que é É melhor a gente se dividir em blocos do que sermos um monolito pesado demais.
G1 News Reporter
Depois de um dia inteiro de negociação, a oposição impôs uma derrota ao governo e retirou da pauta da Câmara a medida provisória criada para substituir parte do aumento do IOF. O ministro Fernando Haddad chegou a dizer que havia um acordo para a aprovação, mas a intensa articulação não deu o resultado esperado. No início da noite, os deputados aprovaram a retirada da medida provisória da pauta. A MP nem chegou a ser discutida. A derrota foi expressiva. 251 votos pela retirada da MP e 193 a favor. O governo considera que a oposição decidiu antecipar a eleição do ano que vem e, por isso, se posicionou contra a medida provisória.
Felipe Nunes
O que eu tô tentando explicar com essa figura que eu tô usando aqui é que dentro desses partidos, União Brasil, do PP, do próprio PSD, o que a gente vai ver daqui pra frente é o bloco desses partidos governista, provavelmente formado por políticos e deputados senadores do Nordeste, que sabem que suas chances eleitorais são maiores ao lado de Lula, E do outro lado, um outro bloco formado por políticos, deputados e senadores dentro desses partidos, mas que olham para suas bases eleitorais e pensam, a minha sorte é maior se eu estiver contra o Lula. Provavelmente a gente está falando aqui dos políticos deputados do centro-oeste, do sul do Brasil. Acho que essa recuperação de popularidade ajudou os políticos a se dividirem internamente e construírem blocos que, na verdade, os favorecem, porque os partidos continuam crescendo, não tendo necessariamente que escolher apenas um dos lados. Embora, concordo com você, as lideranças políticas do União, do PP, e mesmo do PSD hoje são muito claras, preferem um projeto de oposição ao projeto do governo. Mas é que dentro desses partidos enormes não há coesão e eles sabem que são mais fortes quando eles se dividem, um fica um pé na canoa do governo e outro pé na canoa da oposição.
Ana Tuzaneri
Bom, aguardamos então a próxima Pesquisa Quest para a gente ver se esses movimentos se mantêm, se recuam, se avançam. Felipe, como sempre, um enorme prazer receber você aqui no Assunto, sua casa.
Felipe Nunes
Prazer é todo meu. Estava com saudade de a gente fazer assunto. Que bom que deu certo. Obrigado pelo convite e parabéns pelo ótimo trabalho que você conduz aqui e na Globo News.
Ana Tuzaneri
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto Podcast Diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catellan. Neste episódio colaborou também Bervelin Albuquerque. Eu sou Ana Tuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Neste episódio de “O Assunto”, Natuza Nery recebe Felipe Nunes para analisar a nova virada nas pesquisas de opinião: a recuperação da popularidade do presidente Lula em 2025. Com base nos dados da pesquisa Quest, o episódio detalha os fatores que influenciaram essa retomada, como vitórias políticas, questões econômicas, atuação internacional e a reorganização dos segmentos da sociedade em relação ao governo. O debate também projeta os possíveis cenários para 2026 e os desafios enfrentados tanto pelo presidente quanto pela oposição.
Citação
“Uma combinação de notícias positivas e vitórias políticas... acabou produzindo esse fenômeno de recuperação de popularidade.” — Felipe Nunes (00:36)
Citação
“O governo conseguiu furar a bolha com esse projeto [...] produziu expectativa de resultados positivos no ano que vem.” — Felipe Nunes (02:18)
Citação
“O eleitor de baixa renda no Brasil olha para os benefícios sociais como direitos e não como benefícios com dividendos eleitorais automáticos.” — Felipe Nunes (07:00)
Citação
“Sem o apoio das mulheres, o Lula estaria em maus lençóis na eleição de 26.” — Felipe Nunes (10:17)
Citação
“Hoje, Lula está num patamar muito melhor do que Bolsonaro estava quando a gente compara essa pesquisa de outubro de 25 com a pesquisa de outubro de 21. Mas... tem muita água pra passar debaixo dessa ponte.” — Felipe Nunes (11:50)
Citação
“O Brasil se divide quando eu pergunto se Lula é bem intencionado […] metade diz que sim, metade diz que não.” — Felipe Nunes (17:50)
Citação
“As escolhas políticas desse grupo [familia Bolsonaro] claramente estão equivocadas.” — Felipe Nunes (19:43)
Citação
“Os brasileiros não só sabem do que tá acontecendo, estão muito informados, como têm opinião sobre isso.” — Felipe Nunes (22:56)
Citação
“É melhor a gente se dividir em blocos do que sermos um monolito pesado demais.” — Felipe Nunes (26:00)
Felipe Nunes sobre populismo e expectativas sociais:
“Não há mais gratidão automática. O eleitor de baixa renda no Brasil olha para os benefícios sociais como direitos e não como benefícios com dividendos eleitorais automáticos.” (07:00)
Sobre apoio feminino:
“Sem o apoio das mulheres, o Lula estaria em maus lençóis na eleição de 26.” (10:17)
Sobre desafios ao governo:
“Quando eu pergunto, Lula tem conseguido cumprir suas promessas de campanha? A maior parte dos brasileiros ainda diz que não.” (17:50)
Sobre a oposição:
“As escolhas políticas desse grupo [família Bolsonaro] claramente estão equivocadas.” (19:43)
Sobre política internacional:
“Os brasileiros não só sabem do que tá acontecendo, estão muito informados, como têm opinião sobre isso.” (22:56)
Sobre pragmatismo político:
“É melhor a gente se dividir em blocos do que sermos um monolito pesado demais.” (26:00)
O episódio oferece uma análise detalhada e multifacetada da evolução da popularidade de Lula e dos fatores que explicam seu “fôlego” renovado nas pesquisas, além de expor os dilemas internos dos partidos e da oposição em meio a um cenário volátil e ainda indefinido para 2026. O tom é de análise política séria, com pitadas de cautela e realismo — sempre partindo de uma leitura embasada dos dados de pesquisa e das tendências do eleitorado brasileiro.
Recomendação: Episódio essencial para quem quer entender o estado atual da política nacional e as expectativas para o próximo ciclo eleitoral.