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Natuza Neri
Antes de começar um aviso. Este episódio contém descrição de violência contra a mulher. Se você é ou conhece alguém que é vítima, procure ajuda. Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher. A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. Em 1962, a sociedade brasileira fez um movimento que parece simples, mas que na prática transformou a vida das mulheres. A Lei 4.121 deu autonomia financeira, garantiu voz na guarda dos filhos e assegurou o direito ao voto sem depender de ninguém. Foi um passo que colocou as brasileiras dentro da própria vida. Mas e se tudo isso desaparecesse amanhã? E se de um dia para o outro essas portas se fechassem de novo? Isso já aconteceu antes. Não foi aqui. Mas é uma história bem recente. Agosto de 2021.
Narrator/Reporter
Os moradores do Afeganistão acordaram com uma nova realidade lá no país. Porque depois de 20 anos o país agora não tem mais o domínio americano e passou a ser integralmente comandado pelo Talibã.
Natuza Neri
Antes do Talibã, nas grandes cidades do Afeganistão, mulheres iam à universidade, trabalhavam e ocupavam cargos públicos. Desde 1965, as afegãs podiam votar. Todos esses direitos estão sendo apagados, linha por linha. O golpe mais recente é tão brutal que parece inacreditável. O Talibã legalizou o casamento infantil. Agora, meninas de 9 anos podem se casar. E ainda pior do que parece. Durante a cerimônia, para consentir com esse absurdo, basta o silêncio da criança, que no texto da lei é chamada de virgem, não de criança. Tudo isso está em um documento oficial chamado de princípios de separação entre cônjuges, escrito pelo Talibã.
Narrator/Reporter
O Talibã basicamente conseguiu destruir em um ano avanços em direitos humanos que os afegãos levaram duas décadas para conquistar. Com todas as limitações que enfrentam as meninas e as mulheres, metade da população do país se tornou excluída. quando dezenas de mulheres desafiaram a proibição e foram às ruas de Cabul protestar. Elas pedem pão, trabalho e liberdade. Mas em poucos minutos, recebem esse tratamento da polícia talibã. Tiros pro alto e violência.
Natuza Neri
Ao redor do mundo, especialistas têm usado outra palavra para essa mudança. Legalização do estupro infantil. Orya Mozadik, ativista afegã de direitos humanos, disse ao jornal britânico The Times que este é mais um exemplo de atrocidade do Talibã. Não é exagero. Mesmo que haja crueldade contra a esposa, mesmo que ela seja vendida, isso não basta para um divórcio. E tudo isso acontece em um país onde as mulheres já foram proibidas de frequentar escolas secundárias, universidades, parques, academias, salões de beleza e até de viajar sem um tutor masculino.
Adriana Carranca
Beneste se lembra bem do que sentiu quando se tornou juíza num país passando por tantas mudanças. Foi a sensação mais maravilhosa que tive na vida. Fomos a primeira geração, mas agora acho que tudo acabou. Nossas escolas foram fechadas para as meninas depois da sétima série e também as universidades estão fechadas. Na vitória do Talibã, as mulheres são as grandes derrotadas.
Natuza Neri
A tragédia que as afegãs vivem nos lembra que direitos humanos, como as nossas conquistas em 1962, não são perenes e que a vigilância constante é necessária para sua manutenção. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é o horror das meninas afegãs sob o Talibã. Neste episódio, eu converso com a jornalista e escritora Adriana Carranca. Ela foi correspondente internacional em países da África e da Ásia e tem livros publicados sobre o Irã e o Afeganistão. Sexta-feira, 22 de maio. Adriana, a gente vai ter uma conversa sobre algo que mais parece uma distopia ou um filme tenebroso de terror, mas que infelizmente é a realidade. Desde 2021, os direitos das mulheres afegãs foram simplesmente demolidos pelo Talibã. Só que nas últimas semanas, a situação piorou ainda mais, se é que isso era possível. Explica pra gente o que está acontecendo.
Adriana Carranca
No Afeganistão, tradicionalmente, pelo Código Pashtun, que vamos lembrar é um código tribal lá de 4 mil anos atrás, as mulheres são consideradas propriedade do homem. A mulher no Afeganistão, ela não herda o que o marido tinha, ela é herdada junto com o que ele tinha. Ela é herdada pela família dele, junto com a casa, com os animais, com a terra, com o que quer que ele tivesse. Muitas vezes elas são obrigadas a se casar com o irmão do marido que morreu. Então, o que acontece agora? Era muito comum já o casamento nas zonas rurais, casamento infantil. Muitas vezes na Tusa, as meninas são dadas como prêmio em disputas entre famílias. Então existe uma disputa por terra ou isso ou aquilo entre famílias e no acordo entre essas famílias, uma delas concorda em dar à outra cinco animais, uma menina virgem e tanto em dinheiro.
Natuza Neri
Ela é considerada uma coisa, né Adriana?
Adriana Carranca
Uma coisa, uma posse, como a terra, como os animais, como a casa, como tudo que é do homem. O que é pior agora? Eles estão transformando essa que é uma tradição milenar, que em outros países já existiu coisas medievais e que mudaram depois, eles estão transformando isso em lei. Uma vez que se torna lei, essas meninas que tiveram acesso à universidade, que têm contato com pessoas fora do país, elas não têm mais como lutar contra isso. Se o casamento infantil agora é lei, elas não têm mais a quem recorrer. Nenhum ativista vai poder contestar isso. Era uma tradição e se eles tivessem mantido a Constituição de 2004, que foi a primeira aprovada depois da invasão dos Estados Unidos e com a anuência dos Estados Unidos, ainda haveria uma brecha para você contestar tradições com base na lei, mas eles estão transformando o que era tradição passada de gerações para gerações, muitas vezes oralmente, eles estão transformando tudo isso em lei. Então, desde que eles tomaram o poder, eles transformaram em lei 250 novas emendas e decretos e dessas 157 especificamente restringindo direitos das meninas e das mulheres.
Natuza Neri
Mas você tem ideia de como essa nova forma da lei bateu para as mulheres lá?
Adriana Carranca
Elas já imaginavam isso, já era assim como tradição, mas hoje elas não têm mais os mecanismos de defesa legais, porque essas tradições milenares, tribais, brutais, que o Talibã já impunha, se transformaram em lei. E elas se casam até por proteção, se casam às vezes O pai as obriga a se casar com alguém que ele escolhe para que elas não sofram assédio do Talibã e elas não saem de casa. Essa é a realidade do Afeganistão hoje.
Natuza Neri
Eu queria dar uns passos para trás contigo para entender a realidade das mulheres no Afeganistão. Você que estuda esse tema, cobre ele, conversa com fontes, já escreveu um livro sobre o Afeganistão. Conta pra gente, Adriana, como era a vida das afegãs antes do primeiro governo Talibã.
Adriana Carranca
O Afeganistão é um lugar de passagem. Tem uma história que vai mais de 4 mil anos e aquela população vem ao longo desse tempo sofrendo uma série de invasões. As mais recentes na história moderna começaram com a invasão da União Soviética no Natal de 1979. Os soviéticos ocuparam o Afeganistão por 10 anos e por isso os Estados Unidos, durante esses 10 anos da invasão soviética, armaram e treinaram várias milícias. O Afeganistão é um país dividido por etnias. E os Estados Unidos, na época, com apoio logístico de Osama Bin Laden, que na época era um parceiro, um aliado dos Estados Unidos nessa missão contra a invasão dos soviéticos. Osama Bin Laden foi indicado como responsável
Narrator/Reporter
pelo pior atentado sofrido pelos Estados Unidos.
Adriana Carranca
Estou falando do ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque no dia 11 de setembro de 2001. E o que eles fizeram? Depois que os soviéticos se retiraram, em 1989, os Estados Unidos também se retiraram, perderam o interesse no Afeganistão. E o país caiu numa guerra civil, que foi um dos períodos mais violentos da história do Afeganistão. e que deu, então, espaço para a emergência do Talibã. Quem são os Talibãs? Talibã significa estudante. Eles eram jovens, principalmente de zonas rurais. O Mullah Omar, que foi o fundador do grupo, ele era analfabeto, ele cresceu numa madraça, que é uma escola religiosa. Essas madraças também tinham o papel, com o apoio da Arábia Saudita, Osama Bin Laden, etc., de treinar militarmente essas crianças. Então entrevistei vários talibãs que quando criança foram entregues por essas famílias a essas baladraças e cresceram aprendendo nada além de religião e de estratégia militar e uso de armas. Quando eles emergem ao poder porque você imaginou afeganistão estava numa grande sangrenta guerra civil entre sete facções que tinham sido armadas pelos Estados Unidos e que brigavam entre si pelo poder. Talibã acende ao poder prometendo ordem que era o que todos os afegãos queriam. Então naquela época eles olhavam para esse grupo como puxa são jovens religiosos que querem a paz e a ordem. Eles ascenderam ao poder com grande parte de apoio da população, só que eles eram pessoas extremamente religiosas que só haviam aprendido a lutar e que viveram, realmente foram para a guerra e lutaram, ainda criança, contra os soviéticos e que não tinham crescido na Tusa, com nenhum contato com mulheres. E as madrassas são só para meninos. Então, as meninas, durante a guerra civil, foram para dentro de casa, porque era muito perigoso sair, ou se refugiaram, e os meninos cresceram lutando. Então, essa é a background que permite a ascensão de um grupo como o Talibã. E eles simplesmente não sabiam o que fazer. É preciso entender também, Natuza, que o Afeganistão é um país extremamente tribal. Tem o seu próprio código de honra, código de conduta, que se misturou com o Islã quando o Islã conquista aquela região. Ele é muito mais restritivo às mulheres, até mesmo do que as leis islâmicas.
Natuza Neri
E o que acontece com a mulher afegã nesse primeiro governo talibã que vai de 96 a 2001?
Adriana Carranca
Elas são banidas da vida pública. É isso que acontece. Elas são proibidas de ir para a escola, elas são proibidas de trabalhar, a música é proibida, os esportes são proibidos. O Mullah Omar só permitia, eventualmente, jogos de futebol e isso me beneficiou muito porque o Brasil é muito querido, né? Então muitas das entrevistas que eu consegui com talibãs foi começando uma conversa sobre futebol e entradas em lugares. Quando eu entrei na casa da Malala, que estava cercada pelo exército, a Malala já não estava lá, estava em coma.
Narrator/Reporter
O talibã controlava a área e proibia o acesso de meninas à escola. Malala desafiou essa ordem e denunciou publicamente os extremistas. Um dia, quando voltava da escola, dois militantes do talibã abalearam na cabeça. Ela foi levada para a Inglaterra, foi
Adriana Carranca
conversando sobre futebol, porque o Mullah Omar gostava de futebol, então ele permitia, eventualmente, partidas de futebol. E o buskashi, que é um esporte nacional que foi levado ao Afeganistão, para você ver como eles são medievais. Eu assisti uma partida desse esporte na casa do vice-presidente do Afeganistão na época, que era da etnia Tajik, o Marshal Fahim, e são vários times que disputam A carcaça de uma cabra sem cabeça, que é decatada no campo, é uma arena. Os jogadores jogam sobre cavalos. É um esporte medieval e era a forma como o Gengis Khan treinava esses cavaleiros para lutar e para proteger as suas terras nas montanhas.
Natuza Neri
Uma dúvida me surgiu. Você, uma mulher, não teve nenhum problema de assistir a essa partida na casa do vice-presidente?
Adriana Carranca
Eu era a única. E eu fui acompanhada pelo tradutor, insisti pra ele me levar. Ele até comentou, mas nunca vai mulher, não tem mulher. Mas eu queria tentar. Não tive problema, fui até bem recebida. Teve um momento que o tradutor foi tirar umas fotos pra mim, assim, porque eu tava tentando ficar num canto que as pessoas não me vissem muito. Um soldado veio, com a arma, assim, apontou a arma para mim, mas ele estava tentando me levar para um outro lugar, onde eles me ofereceram uma cadeira, porque os homens todos estavam sentados em umas arquibancadas de pedra, e ele me ofereceu uma cadeira. Eu era a única mulher, só havia homens ali, de fato. Como estrangeira natusa, a gente tinha certas regalias, e eu fui, obviamente, não durante o período do Talibã, mas depois da invasão americana.
Natuza Neri
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Adriana Carranca. A gente chega em 2001. O que acontece então?
Adriana Carranca
Em 2001, há o 11 de setembro, e a notícia que se tinha é que o Osama Bin Laden estava abrigado no Afeganistão. Os Estados Unidos invadem o Afeganistão em outubro, Bin Laden foge para o Paquistão, assim como praticamente toda a cúpula do Talibã, Então começa uma nova era cheia de esperança, Natuza. Quando os Estados Unidos entram no Afeganistão, os afegãos celebram com festa na rua, em casa. Eu tenho amigos que fizeram festa mesmo, com bolo, comemorando realmente a entrada dos Estados Unidos. Só que os Estados Unidos ficam 20 anos no país, já a partir de 2003. as tropas americanas e o governo se distraem com o Iraque, eles invadem o Iraque, então eles se dividem entre a Feganistão e o Iraque, em grande parte acreditando que o Talibã estava vencido, os Pashtuns, que é a etnia do Talibã, fogem para as montanhas e aguardam o momento certo para retomar o poder. E aí os Estados Unidos ficam 20 anos, mas focam seus investimentos principalmente na luta militar, na parte de defesa, na parte militar. Se esquecem da parte de desenvolvimento, de educação. Então muda muita coisa, porque as crianças, as meninas voltam para a escola, né? Essa foi a grande mudança realmente da entrada dos Estados Unidos. A maior mudança foi para as meninas, para as mulheres e principalmente as meninas, Tiveram a oportunidade de ir pra escola nesses 20 anos e elas agarraram essa oportunidade na Tuz, com unhas e dentes. Era muito bonito e emocionante ver a dedicação das meninas afegãs. Um dos meus livros, o Entre Sonhos e Dragões, é baseado na história de três histórias reais. Uma que se tornou a primeira afegã a disputar um campeonato mundial de boxe feminino representando o Afeganistão. Depois a Shamsia, que foi a primeira grafiteira, a primeira artista de rua africana, que hoje se tornou uma grande artista plástica, mora em Los Angeles. E depois a Mina, que eu conheci com oito aninhos ainda, pequenininha, aprendendo o instrumento musical, se tornou uma grande violoncelista e precisou, quando o Talibã retoma o poder em 2021, ela foge. E hoje ela está cursando o Harvard na Tulsa.
Natuza Neri
E a partir de 2021, os direitos das mulheres foram demolidos por lá. E aí, nas últimas semanas, a situação ficou ainda pior. Ela já era tenebrosa e ela ficou ainda pior. E aí, o documento, Adriana, Princípios da Separação entre Cônjuges, formaliza em lei. Os princípios, eles representam uma escalada real de perda desses direitos em relação à mulher e à infância também.
Adriana Carranca
principalmente, Natuza, para essas meninas que, durante esses 20 anos da ocupação americana, elas migram para os grandes centros urbanos, que era onde havia estrangeiros, e elas se formam, vão para a escola, e de repente o sonho acaba. E quando o Talibã retorna, porque houve uma negociação, não houve nem guerra, o Talibã resistiu por 20 anos com atentados terroristas, fazendo atentados contra bases militares americanas, muitas vezes contra civis também, E então chega 20 anos depois, os Estados Unidos resolvem que já matamos o Bin Laden, o Bin Laden nem estava no Afeganistão, os Estados Unidos resolvem se retirar e começam essa retirada a partir de 2014. Aí já vem se deteriorando ali, os afegãos já temiam, já achavam que o Talibã ia voltar. E aí há um acordo, de fato, com o Talibã em que no dia do prazo final para que os Estados Unidos retirassem as suas tropas, o Talibã aparece na entrada de Cabu e marcha vitorioso até o Palácio Presidencial. É uma cena medieval também. Eles entram como um triunfo. Eles praticamente desfilam por Cabu. Eles já tinham tomado outras duas grandes cidades. E aí, imediatamente, quando eles tomam o poder, eles proíbem as meninas de ir para a escola.
Guest Commentator
São centenas de mulheres que têm ido às ruas para pedir que os direitos sejam preservados, educação, trabalho, posições no governo. Eu lembro que até quatro semanas atrás as mulheres ocupavam assentos no governo do Afeganistão, mas esse governo já não existe mais. O presidente Ghani fugiu do país quando o Talibã invadiu a capital Kabul, tomou conta do país inteiro, assumiu o controle do país. Precisa a gente destacar em primeiro lugar a coragem dessas mulheres que agora estão indo pra rua fazer essas reivindicações e também que o mundo em 2021 não é o mesmo que em 96. No mundo todo as mulheres passaram a ocupar mais os passos de poder. No Afeganistão esse desejo não é diferente. Claro que lá o risco é muito maior.
Adriana Carranca
Então, as meninas que em 2021 tinham 12 anos, até hoje elas estão sem escola, elas banem as mulheres das universidades Depois, logo em seguida, do mercado de trabalho, com algumas exceções, que eram organizações humanitárias internacionais que continuavam no Afeganistão mas eles recentemente baniram também as mulheres dos empregos na ONU e em organizações como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Eles baniram as mulheres de parques, academias, clubes, baniram os esportes, escola de música. As mulheres não podem sair mais sem estarem acompanhadas de um homem da família, não podem viajar. Então, praticamente tudo que era antes voltou, como se esses 20 anos não tivessem existido, Natuza.
Natuza Neri
Agora, com a experiência que você tem, você que entrevistou mulheres afegãs, mães afegãs, estudantes afegãs, qual é o tamanho desse trauma pra essas famílias, pra essas meninas? Eu queria que você ilustrasse isso pra gente.
Adriana Carranca
É desesperador. A maioria das pessoas que eu conhecia se refugiaram. Só que, claro, isso se tornou muito mais difícil porque aí os talibãs voltaram ao poder. E a mina, naquele dia que eles voltaram, eu liguei pra ela e ela chorava. Ela falava, nunca mais vou poder sair de casa. A minha vida acabou. Um mês depois, com a ajuda de algumas pessoas, ela conseguiu fugir com a ajuda de coiotes, né? Que isso existe também lá. E depois, no Paquistão, ela foi resgatada. É muito emocionante a história dela, Matuza, porque ela tinha 15 anos. E o pai dela falou pra ela, filha, se você resolver ir embora, eu te dou a minha bênção. Eles nunca vão aprovar que a família inteira migre. Ela era a única que tinha ido pra escola, que tinha seguido uma carreira em música e ele falou, a decisão é sua, mas se você ficar, você precisa saber que nunca mais você vai sair do Afeganistão e eu vou precisar seguir as regras do Talibã. Então ele tava querendo dizer até que assim, se você ficar, eu vou ter que casar você, porque não é aceito mulheres com essa idade dela que não estejam casadas. E ela decidiu fugir. Hoje ela tá estudando em Harvard.
Natuza Neri
Você conversou com alguma dessas mulheres com quem você tinha contato sobre o que está acontecendo neste momento?
Adriana Carranca
É um pavor real, Natuza. Real. Então, as mulheres que ficaram pra trás, elas estão em casa. Elas têm feito protestos silenciosos, elas têm feito protestos em que elas se filmam cantando, sob a burca, né? Mas é muito difícil hoje.
Natuza Neri
Não tem quem lute nem por elas e nem elas podem lutar pelas crianças que vão ser obrigadas a se casar aos nove anos de idade.
Adriana Carranca
A comunidade internacional abandonou essas meninas. Os Estados Unidos cortou toda a assistência para o fedelistão agora em março. Já vinha diminuindo e cortou agora em março. Por muitos anos, Natuzzo, os Estados Unidos e os países europeus usavam a ajuda humanitária como moeda de troca para liberdades como democracia, direitos humanos, direitos das mulheres. Então se fazia, né, olha, eu te dou essa ajuda, mas você precisa deixar as meninas irem para a escola. Depois da morte do Bin Laden, quando os Estados Unidos resolvem sair do Afedemistão, não há mais isso. O Talibã, nenhum país reconheceu o Talibã como um governo oficial. E a gente entende que, claro, é uma forma de fazer pressão, mas ao mesmo tempo é a população que sofre, porque a população está completamente abandonada e não tem nenhum país fazendo essa moeda de troca com o Talibã, em troca de benefícios de direitos humanos e direitos principalmente das meninas e mulheres.
Natuza Neri
Nossa, Adriana, é impactante te ouvir, primeiro pelo seu recuo histórico e segundo pelo estado de coisas e o abandono absoluto dessas crianças, dessas meninas e mulheres. Eu te agradeço profundamente por ter topado conversar com a gente sobre esse assunto.
Adriana Carranca
Eu te agradeço pela oportunidade de falar aqui sobre as afegãs que moram no meu coração.
Natuza Neri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast: O Assunto
Host: Natuza Nery (G1)
Data: 22 de maio de 2026
Convidada: Adriana Carranca – jornalista e escritora, especialista em Afeganistão
Neste episódio especial de "O Assunto", Natuza Nery conversa com a jornalista Adriana Carranca para analisar em profundidade a situação das mulheres e meninas afegãs sob o regime do Talibã, que voltou ao poder em 2021. O episódio discute o abrupto retrocesso dos direitos femininos no Afeganistão, contextualiza historicamente as raízes desse horror e ilumina, por meio de relatos e exemplos pessoais, o impacto devastador dessas políticas na vida cotidiana de milhões de afegãs.
Quote:
"O golpe mais recente é tão brutal que parece inacreditável. O Talibã legalizou o casamento infantil. Agora, meninas de 9 anos podem se casar. [...] Basta o silêncio da criança."
— Natuza Neri (01:25)
Quote:
"O Talibã basicamente conseguiu destruir em um ano avanços em direitos humanos que os afegãos levaram duas décadas para conquistar."
— Narrador/Repórter (01:54)
Quote:
"A mulher no Afeganistão [...] é herdada junto com o que ele tinha. [...] Eles estão transformando isso em lei."
— Adriana Carranca (04:47 e 05:39)
Quote:
"Claro que lá o risco é muito maior."
— Comentário de convidado/jornalista (18:28)
Quote:
"O pai dela falou pra ela: filha, se você resolver ir embora, eu te dou a minha bênção. [...] se você ficar [...] eu vou ter que casar você."
— Adriana Carranca (20:36)
Quote:
"A comunidade internacional abandonou essas meninas."
— Adriana Carranca (21:54)
"O golpe mais recente é tão brutal que parece inacreditável. O Talibã legalizou o casamento infantil. Agora, meninas de 9 anos podem se casar."
— Natuza Nery (01:25)
"Eles estão transformando essa que é uma tradição milenar [...] em lei."
— Adriana Carranca (05:39)
"A comunidade internacional abandonou essas meninas."
— Adriana Carranca (21:54)
Esse episódio lança luz sobre o sofrimento extremo das mulheres afegãs sob as leis do Talibã, reforçando a urgência do olhar internacional sobre o tema e a importância da defesa constante dos direitos humanos. Pelos relatos emocionantes de Adriana Carranca, percebe-se como décadas de avanços podem ser apagadas em meses – e como a luta das mulheres afegãs hoje se limita à sobrevivência silenciosa diante de uma sociedade, governo e comunidade internacional que parecem tê-las deixado à própria sorte.