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Natuza Nery
Para acompanhar o início do julgamento de Jair Bolsonaro na primeira turma do STF, jornalistas tiveram que acordar bem cedo no início da semana passada. E na fila de quem conseguiu o credenciamento, o português não era a única língua falada por lá. Dos 501 profissionais de imprensa inscritos para a cobertura em Loco, 66 eram estrangeiros.
Marcelo Lins
Em Brasil, a Suprema Corte abre a fase final do caso contra Jair Bolsonaro. Jair Bolsonaro. Jair Bolsonaro. Jair Bolsonaro.
Marina Dias
Jair Bolsonaro. Jair Bolsonaro.
Narrator/Reporter
Jair Bolsonaro. Jair Bolsonaro.
Marina Dias
Jair Bolsonaro.
Natuza Nery
Jair Bolsonaro. Jair não só a gravidade das acusações, mas também Bolsonaro. o poder da corte brasileira, além da chantagem econômica imposta por Donald Trump ao Brasil às vésperas do início do julgamento.
International Press Correspondent
A maioria dos veículos menciona as decisões do governo do presidente americano, principalmente o aumento de 50% na tarifa de importação de produtos brasileiros.
Natuza Nery
Enquanto o Brasil decide sobre o seu passado recente, países observam como a democracia se mantém viva diante de desafios sem precedentes. O britânico The Guardian cita que pela primeira vez na história do Brasil, figuras tão poderosas enfrentam a justiça por tentar derrubar a democracia.
Portuguese Media Correspondent
Vamos começar aqui pelo Reino Unido. A ITV pergunta se Donald Trump conseguirá salvar Jair Bolsonaro, frequentemente chamado de o Trump dos trópicos da prisão, e traça paralelos entre os dois, como por exemplo, serem conhecidos por dizer coisas bizarras e ultrajantes que raramente se ouviria da boca de um político, aspas aí, do artigo do jornal.
International Press Correspondent
O jornal francês Le Monde disse que o julgamento cria uma profunda divisão entre Lula e Trump e criticou o indiciamento do aliado Bolsonaro.
Portuguese Media Correspondent
Em Portugal, o público diz, chegou o julgamento mais importante da democracia brasileira e o jornal continua, o Brasil espera fechar em definitivo um capítulo que mostrou tanto a fragilidade como a resiliência da sua jovem democracia.
Natuza Nery
A revista britânica The Economist destacou que o julgamento de Bolsonaro é lição de democracia para os Estados Unidos. E que, pelo menos por enquanto, o papel de adulto democrático do hemisfério ocidental se deslocou para o Sul.
Narrator/Reporter
A revista afirma que o golpe fracassou por incompetência e não por falta de intenção. E que o Brasil virou um caso de teste para países que buscam se recuperar de momentos de populismo.
Natuza Nery
E nos Estados Unidos, o The New York Times fez uma comparação inevitável ao afirmar que nosso país está fazendo algo que eles não conseguiram. Levar um ex-presidente a julgamento por tentar se manter no poder após perder a eleição.
Guest Commentator
O New York Times traz uma reflexão. Ele destaca que muitos brasileiros e muitos americanos encaram o julgamento como um triunfo da democracia.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é o julgamento de Bolsonaro aos olhos do mundo. Eu converso com a jornalista Marina Dias, repórter do jornal The Washington Post em Brasília, e com Marcelo Lins, comentarista da Globo News e apresentador do Globo News Internacional. Segunda-feira, 8 de setembro. Marina, o julgamento de Jair Bolsonaro tem repercutido bastante mundo afora. A imprensa norte-americana está especialmente interessada no caso, então vou te pedir para explicar por quê. Depois do ataque ao Capitólio e com Trump de volta ao poder, os Estados Unidos de alguma maneira se veem no Brasil. Essa é a razão do interesse da imprensa americana aqui?
Marina Dias
É sempre um desafio para o repórter de um jornal americano no Brasil, o Natuza, encontrar histórias que mostrem esse país como o único, histórias que só acontecem aqui ou que acontecem aqui pela primeira vez, mas também histórias que tenham algum link, alguma relação com os Estados Unidos e com os americanos. E eu acho que o julgamento do Bolsonaro desperta tanta curiosidade nos americanos justamente porque tem esses dois elementos. Então, tem o ineditismo, é a primeira vez que o Brasil julga um ex-presidente e militares por tentativa de golpe de Estado. e tem também as consequências que esse processo tem desencadeado e ainda pode desencadear na relação entre Brasil e Estados Unidos, que a gente sabe está numa crise sem precedentes. E como o Brasil e os Estados Unidos vivem muitas vezes uma dinâmica de espelho, tudo o que aconteceu nos Estados Unidos desde 2016 aconteceu no Brasil dois anos depois, Esse julgamento acaba sendo visto pelos americanos como um desdobramento do que não aconteceu lá depois do ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 21. Porque, para a gente lembrar, Natuza, nos Estados Unidos, pessoas foram julgadas e punidas pelo 6 de janeiro Mas eram pessoas que estavam lá no dia para tentar impedir a certificação da vitória do Joe Biden, que tinha vencido o Trump na eleição de 2020. Então eram os popcorns e ice cream sellers deles. Essas pessoas foram julgadas lá. Mas não houve um julgamento de autoridades. O Trump não foi punido por isso. E mais, assim que ele tomou posse, o Trump ainda deu o perdão para as 1.500 pessoas, absolutamente todo mundo implicado ali no Capitólio.
Narrator/Reporter
Você lembra do viking do Capitólio? Jake Angeli, com chifres, pele de urso e o rosto pintado, ficou conhecido ao invadir o Congresso dos Estados Unidos em 2021, junto com apoiadores de Donald Trump, tentando impedir a vitória de Joe Biden. Jake Angeli foi condenado a 41 meses de prisão, cumpriu parte da pena em solitária e, dois anos depois, passou ao regime aberto. Em janeiro de 2025, foi perdoado por Donald Trump, junto com mais de 1.500 pessoas envolvidas na invasão. Ao comemorar, escreveu nas redes, Ele também se identifica com o movimento MAGA e com teorias do grupo QAnon.
Marina Dias
Como os Estados Unidos nunca viveram uma ditadura, os americanos têm mais dificuldade para entender as salvaguardas da Constituição brasileira, as leis que protegem o Estado democrático de direito justamente para evitar a volta de um regime autoritário. Enfim, o Brasil já sofreu diversas tentativas de golpe, mas essa é a primeira vez que as autoridades e os militares estão sendo julgados por isso, e os Estados Unidos assistem a isso com interesse justamente por esse Só para dar uma.
Natuza Nery
Referência, quando você usa a expressão popcorn e ice cream sellers, que foi um discurso de Bolsonaro na Avenida Paulista, ele ensaia e arranha ali um inglês dizendo que quem foi preso nos atos de 8 de janeiro aqui no Brasil eram vendedores de pipoca e de sorvete, o que não foi o caso. A gente sabe hoje e a própria denúncia da PGR tratou de desfazer essa imagem.
Guest Commentator
Eu não falo inglês. Uma grande falha da minha formação. Mas quero dar um recado aqui para o mundo. E depois eu faço a tradução para vocês.
Natuza Nery
Você falou com o ministro Alexandre de Moraes em agosto, numa rara entrevista, ele quase não dá entrevista, é muito difícil isso acontecer. Você conseguiu essa entrevista, publicou um perfil do Alexandre de Moraes no jornal para o qual você trabalha, o The Washington Post. E eu queria te perguntar por que traduziu uma figura como o Moraes para os americanos? O que te inspirou a fazer esse perfil? E depois eu quero que você complemente, Marina, para nos contar o que você viu, qual foi a sua impressão de Alexandre de Moraes para além da entrevista.
Marina Dias
Eu acho que o nosso trabalho como repórter, sempre você é uma das melhores e sabe disso, é que a gente precisa relatar e contextualizar os fatos. E aí para uma repórter como eu, que trabalho para uma audiência americana, precisa ainda mais contextualizar para que eles entendam algumas nuances, algumas diferenças. Então, há mensagem nos Estados Unidos, principalmente por conta do Eduardo Bolsonaro, que está lá desde março, tentando convencer as autoridades americanas a aplicarem sanções sobre o Brasil para conseguir ou parar o julgamento, ou uma anistia para o pai dele, a mensagem ali nos Estados Unidos é que o ministro Alexandre de Moraes está destruindo a democracia brasileira. enquanto o ministro Alexandre de Moraes, ele mesmo, diz que, na verdade, ele está defendendo a democracia brasileira. Então, o nosso papel ali era tentar explicar quem é essa figura, quem é esse juiz que, sim, resolveu enfrentar o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos Estados Unidos, mas também explicar o contexto desse enfrentamento. Porque a gente está falando da punição inédita de um presidente de militares por uma tentativa de golpe, uma ameaça real e grave à democracia brasileira, e a gente também está falando da independência do judiciário brasileiro. Porque nessa entrevista, o ministro Alexandre de Moraes disse pra gente que os Estados Unidos nunca aceitariam que nenhum outro país tentasse interferir em um julgamento da Suprema Corte Americana, por exemplo. Isso feriria os princípios constitucionalistas históricos dos Estados Unidos. Então, o ministro Alexandre de Moraes disse que aqui no Brasil, a gente segue a Constituição Brasileira e a Constituição Brasileira prevê crime na tentativa de golpe de Estado.
Legal Expert
Golpe de Estado, 359M do Código Penal. Esse crime se caracteriza por tentar, de novo, por meio de violência ou grave ameaça, depor o governo legitimamente constituído. Aqui que é a pena mais alta, 4 ou 12 anos de reclusão. Só a Itália tem pena inferior de, no máximo, 5 anos. Estados Unidos, por exemplo, que viveu a invasão do Capitólio em 2021, pena máxima de 20 anos. Outros países, ainda mais rigorosos. Alemanha, Canadá e Reino Unido, os réus, gente, podem ser condenados à prisão perpétua.
Marina Dias
Então a gente tentou um pouco entender e explicar esse contexto para a audiência americana, inclusive com as críticas, Natuza, porque conversando com juristas, ministros, ex-ministros do Supremo, a gente conversou com mais de 10 pessoas ali próximas ao ministro Alexandre de Moraes, inimigos, amigos, enfim, Algumas críticas aparecem, claro, de alguns excessos, que inclusive alguns colegas deles chamam de medidas extraordinárias para períodos extraordinários, mas que na visão deles não abalam o processo como um todo, muito menos são atentados contra a democracia. Então, o governo americano tem esse entendimento de que as ações do ministro Alexandre de Moraes são uma ameaça à democracia, mas muito disso vem também porque a noção de liberdade de expressão nos Estados Unidos é bem mais elástica, digamos assim, do que no Brasil. Aqui, a definição de liberdade de expressão é feita de forma mais restrita, com proteção legal para o Estado democrático. Então, quando as autoridades no Brasil entendem que há ataque à democracia, aqui punições estão previstas por lei. Então, essas diferenças precisavam ser colocadas em contexto e acho que foi esse o nosso trabalho e a nossa inspiração de conseguir, claro que uma entrevista exclusiva, o interesse jornalístico é sempre muito importante, mas colocar tudo isso em contexto para entender o quadro geral também era fundamental para a gente como um jornal americano.
Natuza Nery
E é muito curioso, né, porque a percepção da Casa Branca sobre o que acontece no Brasil me parece bastante descolada do que aconteceu no 6 de janeiro de 2021, né, que é o 8 de janeiro americano. Naquela ocasião, eu me lembro do discurso do presidente Donald Trump mandando os seus seguidores, aquela plateia, marchar em direção ao Capitólio. Houve uma ordem, um comando direto dele naquela ocasião e o final da história a gente viu horas depois. Mas eu queria entender como é que estava Moraes quando você o encontrou, porque ali já era algum tempo depois, algumas semanas depois dele ter sido sancionado pela lei Magnitsky. Como é que você o encontra nessa entrevista?
Marina Dias
Ele estava relativamente tranquilo na Tusa, mas também tentando entender ainda quais eram as extensões da Lei Magnitsky. Ele contou pra gente que ele estava usando reservas. financeiras para conseguir manter ali o dia a dia funcionando normalmente, porque ele ainda não sabia até que ponto ele poderia usar um cartão de crédito, qual dinheiro dele seria retido ou não, qual transação seria bloqueada ou não. Depois de um tempo, uma matéria da Folha de São Paulo, mostrou que um dos cartões dele do Banco do Brasil de bandeira internacional foi bloqueado, mas ali naquele dia ele ainda não sabia, ele estava tentando entender o que iria acontecer. Mas ele estava muito focado em passar para a gente, como ali um jornal que levaria a mensagem para os Estados Unidos, que as autoridades americanas estão recebendo as informações erradas sobre o julgamento do Bolsonaro e sobre os crimes que o Bolsonaro cometeu. E que quando isso fosse esclarecido e que isso era função do governo brasileiro e do judiciário brasileiro com o julgamento também ia mostrar isso, tentar esclarecer, as autoridades americanas reverteriam as medidas.
Natuza Nery
E como essas medidas, como essas sanções ao Brasil, em particular o tarifaço, foram vistas pela audiência americana?
Marina Dias
Natuza, desde o começo, o Brasil tem sido tratado pela imprensa americana e pela audiência americana de forma diferente. Desde que o Trump impôs as tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros, Todo mundo ali entendeu que não era um caso comercial, que era um caso político. É claro que o Trump escreveu isso na carta que ele endereçou ao presidente Lula, quando ele avisava sobre as tarifas.
Donald Trump (quoted)
A carta começou. A maneira como o Brasil tratou o ex-presidente Jair Bolsonaro é uma desgraça internacional. Ele se referiu ao julgamento no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito e afirmou, esse julgamento não deveria estar acontecendo, é uma caça às bruxas que deve terminar imediatamente.
Marina Dias
Mas isso realmente foi entendido como algo diferente e fez com que a imprensa americana fizesse matérias sobre todos os outros países no mesmo texto e um texto separado sobre o Brasil. Isso marcou bastante a diferença de cobertura desde a época das tarifas. E a partir de agora, a imprensa americana e, consequentemente, a audiência americana notou que, por mais que haja pressão do Trump para tentar interferir no judiciário brasileiro, a Suprema Corte do Brasil não cedeu. Pelo contrário, marcou o julgamento depois das sanções anunciadas pelo Trump e o julgamento está acontecendo normalmente deve terminar até o dia 12 de setembro com a provável condenação do Bolsonaro E aí, uma informação interessante é que em Washington já existe gente com trânsito na Casa Branca começando a questionar até que ponto o Trump vai permanecer engajado com a atenção voltada ao Brasil e disposto a fazer várias outras coisas. Tem até uma matéria muito importante e interessante sobre isso na Bloomberg nessa semana. Porque, é claro, a gente vai ter um fato concreto na semana que vem, que é a possível condenação do Bolsonaro. E aí o Trump pode reagir, de repente com mais sanções econômicas, ele já colocou as tarifas sobre os produtos brasileiros, caçou visto americano de ministros do Supremo, colocou a Magnitsky sobre o Alexandre de Moraes, de repente vai colocar a Magnitsky sobre outros ministros que votarem pela condenação do Bolsonaro? Pode ser. Mas e depois? O Trump é um líder com um foco bastante voátil, ele muda rápido de assunto, ele cansa, ele passa para a próxima. Então, até onde vai o apetite dele quando ele entender que não está adiantando nada em termos de parar o julgamento do Bolsonaro ou impedir a condenação do Bolsonaro? Essas sanções dele não estão adiantando sobre isso, então até onde ele vai quando ele entender que as medidas estão sendo inócuas nesse sentido de proteger o aliado dele de uma condenação?
Natuza Nery
Marina Dias, foi um prazer imenso receber você aqui no assunto. A gente se encontrou alguns dias no julgamento, sentamos ali bem pertinho uma da outra durante o julgamento da tentativa de golpe e agora estamos juntas de novo no assunto. Muito obrigada, bom trabalho para você.
Marina Dias
Obrigada, Natuza. Um beijo, bom trabalho.
Natuza Nery
Espero um pouquinho que eu já volto para falar com Marcelo Lins. Lins, eu conversava agora há pouco com a Marina Dias sobre os paralelos entre Brasil e Estados Unidos no enfrentamento ao autoritarismo. Com você, eu quero olhar para outros casos, começando pela Europa, onde tem avanço da extrema-direita também e até ruptura democrática, se a gente for olhar, por exemplo, para a Hungria. Por que a Europa está de olho no Brasil e o que o Brasil tem a ensinar ao continente?
Marcelo Lins
No caso específico da crise política brasileira, porque não dá para dizer que não haja uma crise, vide a mobilização de um congresso majoritariamente conservador em torno de um projeto de anistia muito esquisito, já que não há nem condenados ainda nesse processo contra o ex-presidente Bolsonaro e os outros golpistas condenados, mas enfim, é um momento que mistura muitas coisas. E é um momento em que a democracia representativa no mundo todo está em xeque, está sendo desafiada. Seja aqui mais perto da gente, por exemplo, em El Salvador, do governo Bukele, onde houve uma tomada da Suprema Corte, uma mexida na legislação eleitoral, dando mais poderes ao presidente, poderes quase que imperiais.
Guest Commentator
Pela primeira vez na história, um único partido irá governar um país eleito completamente pelo sistema democrático. Pulverizamos a oposição, declarou Bukele. A oposição denuncia que Bukele usa métodos antidemocráticos. Numa rede social, Bukele escreveu também que o partido dele teria um mínimo de 58 cadeiras das 60 da Assembleia Nacional. o que significa que ele terá pela frente mais cinco anos de poder absoluto.
Marcelo Lins
Ou mais longe, como você mencionou, a Hungria do Orbán, mas também na Torquília do Erdogan, em todos esses casos com ataques à justiça partindo de um líder com características autoritárias. E claro, o exemplo maior desses últimos tempos, Donald Trump nos Estados Unidos. Se é bem verdade que aquele país não tem um sistema autoritário, é também necessário reconhecer que as decisões de seu presidente caminham cada vez mais para configurar uma autocracia. É nesse momento que acontece um julgamento político, que tem também implicações econômicas, de um ex-presidente num país que é famoso não pelos julgamentos de políticos e lideranças militares acusadas de malfeitos, é um país que é tem como tradição a anistia. Uma anistia que, muito mais do que perdoar, é quase como se ela apagasse crimes. E isso é um exemplo que nos diferencia de outros vizinhos aqui latino-americanos que encararam essa questão. É por isso que lá na Europa os olhos estão voltados para o Brasil também, porque há os ataques contra a democracia por lá e há os desafios à democracia por aqui. E aqui, diferentemente de outros momentos da nossa história, há uma resistência do aparato democrático em aceitar mais uma vez baixar a cabeça e apagar a história. Me parece que essa é a encruzilhada que nos encontramos, Natuso.
Natuza Nery
Pois é, Marcelo. Durante o julgamento, a gente notou muitos jornalistas de outros países cobrindo aquela sessão, as duas sessões, os dois dias de sessão. Mas tem países, inclusive, com tradição não democrática interessados nesse julgamento. Eu cito a China. Por quê?
Marcelo Lins
Pois é, Natuza. Sobre a primeira parte da sua pergunta, a presença de jornalistas estrangeiros, é impressionante constatar como esse momento turbulento na justiça e na política e na economia do Brasil vem ganhando espaço nos principais veículos do mundo ocidental. seja nos Estados Unidos, já falamos disso brevemente, mas também na Europa, no Reino Unido, na França, na Espanha, em Portugal, na Itália, muita gente de olho.
Portuguese Media Correspondent
No site da RTP, Principal Canal de TV Portuguesa, um artigo ilustra o nível de interesse nesse julgamento. 3.357 pessoas, entre advogados e cidadãos comuns, solicitaram credenciamento para acompanhar presencialmente as sessões.
International Press Correspondent
O La Repubblica da Itália completou com outra frase a do relator do processo, ministro Alexandre de Moraes. A impunidade não é uma opção. Para o espanhol El País, um julgamento histórico. Por fim, a edição em português do Le Monde Diplomatique conclui. O julgamento de Bolsonaro é o encontro do Brasil com sua própria história.
Marcelo Lins
Agora, a China, que nem democracia é, por que esse interesse sobre o Brasil que é refletido em declarações oficiais do Ministério das Relações Exteriores e mesmo na cobertura sobre os embates do Brasil com os Estados Unidos por conta daí o interesse da questão econômica? Como Donald Trump resolveu colocar uma exigência absolutamente inaceitável e descabida, que tem a ver com economia, mas tem a ver com política, naquela publicação oficial sobre o tarifaço, os 50% de sobretaxa contra o Brasil, isso transformou uma questão que deveria ser uma discussão apenas comercial em uma discussão política. E a China tem todo o interesse de estar mais presente no Brasil, na América do Sul, na América Latina. Daí, é estar atenta aos rumos da atual crise. A China demonstrou seu apoio na questão das tarifas em relação aos Estados Unidos, dizendo que estaria sempre aberta. A mesma China que, há poucos dias, realizou um encontro de países da Ásia Central e do Sul da Ásia, da Organização de Cooperação de Xangai, e recebeu, inclusive, o presidente Xi Jinping, um velho, se não desafeto, pelo menos um líder que estava afastado, Narendra Modi, da Índia. A Índia, que pelas mesmas razões do Brasil, foi jogada no colo da China. A Índia, que vinha se constituindo como um importante aliado dos Estados Unidos no campo comercial, se viu obrigada a buscar a China depois de também ver uma tarifa de 50% imposta. É essa mistura entre o econômico e o político que faz com que esse processo, que deveria se resolver na justiça brasileira, já que vem correndo dentro dos trâmites legais, com direito à ampla defesa, com acusação formulando o que acha que merece ser punido e responsabilizado, mas acabou entrando no meio de um turbilhão que mistura comércio, economia, política, Vamos chegar então.
Natuza Nery
Aqui mais perto de nós, nos nossos vizinhos. A cobertura parece estar mais morna, ou pelo menos o interesse não parece tão alto assim nesse julgamento e cito dois países, Argentina e Chile, que passaram por ditaduras ferozes como a ditadura brasileira. Está mais morno por lá? Por quê?
Marcelo Lins
Esses dois países que você citou, o Chile e a Argentina, vivem momentos políticos importantes. No Chile, trabalha-se já em discussões sobre como se dará a sucessão do governo Boric. Na Argentina, há uma crise se aprofundando o pior momento do governo de Javier Millet, desde que ele chegou ao poder, com acusações, inclusive, de corrupção, não apenas contra ele, no chamado CryptoGate, o caso das criptomoedas que ele fez propaganda, tiveram alta valorização, depois despencaram e muita gente ganhou dinheiro, ou pelo menos um pequeno grupo de pessoas ganhou muito dinheiro, mas agora, mais recentemente, acusações de desvio de verbas para compra de remédios de pessoas com deficiência. que envolvem a irmã dele, a poderosa Carina Millet, secretária da Presidência. Com tantos problemas, eleições regionais na Argentina acontecendo, olho também nas eleições legislativas de outubro, me parece que o espaço para estar mais atento ao Brasil ficou um pouco menor. Além disso, tanto Chile quanto a Argentina já nos deram lições de como lidar com antigos ditadores, levando a julgamento, levando à justiça aqueles que usurparam o poder e feriram a ordem constitucional.
Historical Narrator
Jorge Rafael Videla liderou o golpe de Estado em 24 de março de 1976, que derrubou o governo de Isabelita Perón. Ficou no poder até 1981. Foi o pior período da repressão militar, que resultou no desaparecimento de mais de 30 mil pessoas, de acordo com organizações de direitos humanos. Com o retorno da democracia, em 1983, Videla foi condenado à prisão perpétua.
Marcelo Lins
O Brasil nunca fez isso. Talvez, a partir de agora, essa situação mude e nós tenhamos, inclusive, direito a um espaço maior na cobertura desses dois países.
Natuza Nery
Bom, e para a gente terminar, uma análise tua mais ampla. Que lições o mundo democrático está tirando da abordagem brasileira ao colocar no banco dos réus um ex-presidente e militares de alta patente acusados de tramarem um golpe de Estado?
Marcelo Lins
Natuza, talvez a principal lição que o mundo tira, mas a própria democracia brasileira em construção também tira, é que não adianta fingir que o que aconteceu não aconteceu. Então, no caso do Brasil, uma tentativa clara de ruptura com maquinação, com planejamento, com a ideia de executar algumas lideranças políticas importantes entre elas, um presidente eleito democraticamente, isso tudo não pode passar impune. E para que não passe impune, é necessário haver poderes independentes que tenham uma relação harmoniosa, sim, mas que cada um leve adiante o que está previsto em suas prerrogativas constitucionais. Ao mesmo tempo, com uma crise de múltiplas facetas, como chegamos a mencionar, Há desafios também para o Brasil superar ainda, porque não faz muito sentido imaginar um processo em andamento e já em andamento no legislativo uma tentativa de deslegitimizar esse processo ou de anistiar pessoas que nem condenadas foram ainda. Então me parece que é daqui para frente que o mundo vai de fato olhar para ver se há lições a tirar ou se mais uma vez o Brasil vai acabar inscrevendo o seu nome no rol daqueles países que não conseguem lidar com os grandes problemas, as grandes crises da sua história. E para não lidar com eles, acaba promovendo anistias absolutamente descabidas.
Natuza Nery
Marcelo Lins, sempre muito bom te ouvir. Eu ouvi dizer que você está de férias, é isso?
Marcelo Lins
Estou de folga. Estou de férias, não. Nunca estou de férias. Estou de folga.
Natuza Nery
Bom, então a medalha de assunto honorário precisa ser feita em maior diâmetro, porque trabalhar na folga para o assunto...
Marcelo Lins
Dependendo para quem a gente trabalha, Natuza. Para você pode contar comigo sempre, fique tranquila.
Natuza Nery
Muito obrigada, Marcelo. Foi um prazer te ouvir aqui.
Marcelo Lins
Prazer meu e boa sorte na jornada, tá?
Natuza Nery
Este episódio usou áudios da TV Cultura e da Rádio Tatiaia. Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catelan. Eu sou Natuzaner e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Episode: O julgamento de Bolsonaro aos olhos do mundo
Host: Natuza Nery (G1)
Guests: Marina Dias (The Washington Post), Marcelo Lins (GloboNews)
Date: September 8, 2025
This episode of “O Assunto” analyzes how the world is viewing the historic trial of former Brazilian president Jair Bolsonaro and his allies for their attempt to overturn democratic order. Host Natuza Nery is joined by journalist Marina Dias, based in Brasília for The Washington Post, and international affairs commentator Marcelo Lins, to discuss the international press coverage, diplomatic consequences, and broader lessons for global democracy.
Unprecedented International Media Interest:
Quotes from Major Outlets:
Comparison with the U.S. Capitol Riot:
Bolsonaro vs. U.S. Legal Precedents:
Profile of Minister Alexandre de Moraes:
Legal Commentary:
Trump’s Economic Retaliation:
Diplomatic Tensions:
On International Coverage:
“No site da RTP... 3.357 pessoas, entre advogados e cidadãos comuns, solicitaram credenciamento para acompanhar presencialmente as sessões.”
— Portuguese Media Correspondent (23:12)
On Judging Authoritarian Acts:
“A impunidade não é uma opção.”
— La Repubblica, cited by International Press Correspondent (23:29)
On the Democratic Lesson:
“Talvez a principal lição que o mundo tira... é que não adianta fingir que o que aconteceu não aconteceu.”
— Marcelo Lins (28:34)
On the Uniqueness of Brazil’s Step:
“O julgamento de Bolsonaro é o encontro do Brasil com sua própria história.”
— Le Monde Diplomatique (23:45)
The episode maintains a rigorous yet accessible analysis, with personal anecdotes from journalists, legal backgrounders, and a frank look at the intersection between justice and politics. The discussion balances the perspectives from within Brazil with those from abroad, inviting listeners to consider what is truly at stake for the country and for democracies everywhere.