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Ana Tuzaneri
Aqui no Brasil, há mais de 80 milhões de eleitoras. Isso significa quase 8 milhões a mais de votos de mulheres do que de homens. Também são elas as que mais comparecem nos dias de votação. E em pleno 2026, ainda tem gente que diz isso aqui.
Paulo Figueiredo
vota estatisticamente muito mal.
Ana Tuzaneri
A fala é do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, neto do último presidente da ditadura militar e aliado de primeira hora de Eduardo Bolsonaro, mas também de Flávio. E a declaração não parou por aí, foi além.
Paulo Figueiredo
Principalmente mulheres solteiras, mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras não.
Ana Tuzaneri
Paulo Figueiredo fez essa declaração preconceituosa em resposta ao vídeo publicado pela ex-primeira-dama Michele Bolsonaro na semana passada, aquele em que ela acusa o enteado Flávio de maltratá-la durante uma conversa telefônica.
Michele Bolsonaro
Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou o telefone. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política.
Ana Tuzaneri
Mas não foi só isso. Na gravação, Michele também questiona.
Michele Bolsonaro
Por que só a mulher tem que ceder? Não dá pra aceitar.
Ana Tuzaneri
Ali, naquele vídeo de quase 27 minutos, ela expunha as dificuldades de manter, frente à cúpula do partido, as únicas três vagas que havia solicitado para a candidatura de aliadas suas, das 17 que o PL Mulher tinha direito pela cota partidária. Além da referência à cota, termo que o bolsonarismo rechaça tanto quanto rechaça a palavra feminismo, o tom de Michele destoa de outras declarações que ela mesmo deu, como estas duas, uma de março de 2024 e outra de novembro de 2025, durante eventos do partido que abriga a família Bolsonaro.
Michele Bolsonaro
A nossa política é diferenciada. A nossa política é feminina e não feminista. Nós estamos aqui para sermos ajudadoras. Esse é o nosso papel como esposas. E a Bíblia fala da submissão da esposa ao marido, mas é a submissão saudável. Mas sabe por quê? Existe um contexto na palavra de Deus sobre a mulher ser submissa ao seu esposo.
Ana Tuzaneri
A ironia é que Michele agora passou a ser pintada de feminista e até de esquerdista por gente do seu próprio campo e próxima à sua família E é bom que se diga, feminismo para os homens do bolsonarismo é coisa de
Paulo Figueiredo
esquerda É uma ideia marxista, uma ideia feminista e, portanto, marxista.
Ana Tuzaneri
No meio desse incêndio, a ex-primeira-dama decidiu deixar a presidência do Pelo e Mulher às vésperas de uma corrida eleitoral super acirrada. E até aqui, não há bombeiros suficientes para conter o fogo, sobretudo com Jair Bolsonaro preso e proibido de falar em público. Até mesmo a senadora Damaris Alves foi dragada para a confusão por defender o ECA Digital algumas semanas atrás. O projeto que Damaris apoiou impôs às redes sociais o respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente, endurecendo o combate à pedofilia digital. Mesmo assim, foi largamente criticada por gente que viu o gesto como feminista. E o resultado de tudo isso é que a campanha de Flávio, nesses últimos dias pós-vídeo, entrou em modo crise.
Comentador Político
Essa decisão de Michele Bolsonaro de deixar a presidência do Pélio Mulher vai ter um desdobramento em palanques, em apoios. Vem na esteira daquele vídeo que ela fez, em que ela expôs divergências com Flávio Bolsonaro, que é o candidato à presidência desse grupo político. Isso caiu como uma bomba na campanha do Flávio. Desde a semana passada eles estão tentando diminuir esses desgastes desse vídeo, tentando diminuir essa exposição toda. Só que você tem hoje uma crise externa, que é se envolvendo o Michele Bolsonaro na campanha do Flávio, e você tem uma crise interna. Também a gente viu uma fala de um aliado de primeira hora do Flávio Bolsonaro, que é o Paulo Figueiredo, que está lá nos Estados Unidos, dizendo que mulher não sabe votar. Então, isso também caiu como uma bomba. São dois vídeos que estão causando esse desgaste para a campanha do Flávio.
Ana Tuzaneri
O fato é que uma semana depois do fatídico vídeo de Michele Bolsonaro, a fala de Paulo Figueiredo sobre as mulheres não saberem votar acabou pegando no candidato Flávio Bolsonaro, levando o presidenciável a se explicar. E um destaque, essa resposta veio somente dias depois da fala inicial do aliado. E as mulheres conservadoras, essenciais para o desempenho do seu candidato, agora querem entender que espaço real elas têm nesse território político. E é aí que surge um verdadeiro paradoxo. A direita bolsonarista precisa do voto feminino para vencer, mas seu núcleo ideológico é estruturalmente antifeminista. E, por muitas vezes, misógino. Da redação do G1, eu sou Ana Tuzaneri e o assunto hoje é o lugar da mulher no bolsonarismo. Neste episódio, eu converso com Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da CBN e da Globo News. Quinta-feira, 2 de julho. Maria Cristina, que tipo de caixa de Pandora foi aberta depois do vídeo da Michelle Bolsonaro? O que aconteceu e continua acontecendo no campo bolsonarista desde então?
Maria Cristina Fernandes
O que aconteceu foi a antecipação de um cenário que estava marcado para acontecer no pós-eleição em que o bolsonarismo viesse a ser derrotado. Porque o que a gente está vendo desde 2018 é o bolsonarismo como vetor da direita. A dificuldade do Ronaldo Cunhado e do Romeu Zema nessa eleição está mostrando isso. Toda a direita está vetorizada pelo bolsonarismo. E o que a gente está vendo agora com esse embate entre o senador Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-ministra do Bolsonaro é que, se o Flávio perder, não apenas o bolsonarismo perde essa condição de vetor, como pode se fraturar Internamente. Muita gente fala do pós-Lula, né? Agora pouca gente fala do pós-Bolsonaro porque ele tem quatro filhos na política. E então esse bolsonarismo seria, digamos assim, estendido. Mas o vídeo da Michelle mostra que há uma disputa por esse espólio muito mais aberta do que no lulismo. E é uma disputa de matar ou morrer.
Ana Tuzaneri
É, o lulismo lava a roupa suja dentro de casa, mas o bolsonarismo o expõe.
Maria Cristina Fernandes
Nas redes que é, digamos assim, é o batismo deles, é nas redes, tudo que eles fazem é nas redes, é isso que está acontecendo. A Michelle está trabalhando para ser a herdeira, não de um sobrenome, mas de um movimento que resiste a uma ofensiva machista de dominação, logo ela que, ao contrário do que diz o Paulo Figueiredo, Ela foi feminista, né? A gente viu bastante desse governo Bolsonaro. Para saber disso, ela disse, amém até aqui, a esse bloco político que sempre tratou as mulheres por um viés de subalternidade. E vamos nos lembrar que tem um detalhe. O ex-presidente não se pronunciou. Ele é um prisioneiro em casa, mas é prisioneiro. Está impedido de se pronunciar. Não sabemos o que ele está achando disso tudo. Mas é Michele quem até o momento tem, digamos assim, a guarda dele, para usar essa expressão que pai e mãe usam em relação a filho. Enquanto ele estiver em prisão domiciliar, é ela quem tem a guarda do ex-presidente. Então, em todos os pronunciamentos dela, e não foi diferente, essa carta dela por último, ela diz falar também em nome do marido.
Ana Tuzaneri
Esse enredo tem muitas ironias, mas uma delas fica me martelando o juízo Maria Cristina. Eu tive com o Bolsonaro em 2025, fevereiro de 2025, numa conversa de dois dias com ele, uma entrevista para um outro projeto, e ele disse textualmente que a Michelle, esposa dele, é mais radical do que ele e que quando ela pegava alguém para Cristo, saísse de perto. Então, só pra gente botar aqui numa cronologia. Ela divulga o vídeo na semana passada. O vídeo cai como uma bomba na pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Flávio Bolsonaro responde, mas sem acusar o golpe, evitando brigar com Michele. Michele faz uma carta deixando a presidência do PL mulher. Fatalmente surge a dúvida sobre se ela seguirá sendo candidata ao Senado ou não, ela replica um post do ex-governador Antony Garotinho falando de uma festa patrocinada por Vorcaro, com autoridades políticas e mulheres estrangeiras, com capacetes de astronauta, supostamente despidas. Antes disso ainda teve um outro acontecimento, Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro de primeira hora, também Próximo a Flávio Bolsonaro faz uma fala machista, misógina, dizendo que mulher não sabe votar. E aí Flávio Bolsonaro entra em cena repreendendo o Paulo Figueiredo, dizendo que o Paulo Figueiredo não fala por ele. Mas ele também faz uma referência a repostagem de Michele Bolsonaro em relação à festa das astronautas, dizendo que ele não participou de festa alguma, dizendo que Michele estava equivocado, ou seja, o Flávio está entendendo a indireta para ele. E cá estamos nós fazendo esse episódio. Eu queria entrar, então, nessa fala do Paulo Figueiredo, porque ele dá uma resposta também a Michele Bolsonaro. Quando eu falo em abertura da Caixa de Pandora, eu falo disso também. de ele expor uma frase misógina e o candidato Flávio Bolsonaro ser obrigado a discordar do aliado para não perder o voto feminino.
Maria Cristina Fernandes
Sim, ele não tinha alternativa, porque a verdade é que as mulheres, como disse o Paulo Figueiredo, voltam mais à esquerda no Brasil e também nos Estados Unidos. Mas essa fala do Paulo Figueiredo só vai empurrá-las ainda mais À esquerda, tem uns números que eu acho importante sempre lembrar. O eleitorado feminino não apenas supera o masculino em 7 milhões e 800 mil votos, como para o desgosto do Paulo Figueiredo, as mulheres comparecem mais para votar. que os homens. Em 22, o comparecimento feminino foi dois pontos percentuais acima do masculino. Isso não é pouca coisa. E isso se deve, em grande parte, à escolaridade, porque se você pegar a eleição municipal passada agora de 24, o número de eleitoras com ensino superior completo superava em 3,8 milhões o número de eleitores, com o mesmo nível de instrução. O comparecimento das eleitoras com nível superior foi de 83,4%. É o maior nível de comparecimento que se tem de qualquer extrato de instituição. Então, você imagina, eleitoras com diploma superior, pobres e ricas, de onde é que elas vêm? Ouvir uma fala dessa... de que mulher não sabe votar, e se for solteira, então pior ainda. Então, Flávio Bolsonaro tem que buscar, sim, reverter esse cenário, porque para mim está muito claro que tudo é cálculo, porque é assim que age o bolsonarismo. Está sempre colocando um tema em pauta para ofuscar outro. Então, ao trazer à baila a história do feminismo, que é marxista, das mulheres que não sabem votar, o que o povo figueiredo está fazendo é encobrindo ali essa disputa dos palanques, porque, ao fim e ao cabo, é disso que se trata. As convenções se iniciam em 20 de julho, que é quando são definidas os palanques, as candidaturas. E o que está em disputa é quem vai poder apresentar as chapas, as chapas ao Senado, as chapas de deputado federal. E aí vai começar a disputa por dinheiro do fundo partidário, fundo eleitoral. E o que a Michele quer é formar a sua bancada dentro do Pele. Não é à toa que ela não se desfiliou. Deixou em aberto não apenas a sua candidatura, como a vinculação a um partido onde ela quer fazer bancada. Porque se a Michelle fizer bancada dentro do PL, ela pode acabar desbancando os enteados, né?
Ana Tuzaneri
É porque aí a força dela vira concreta e não somente simbólica.
Maria Cristina Fernandes
Exatamente. E vamos combinar, né? Ela tem tido apoio discreto, mas me parece que um apoio bastante explícito do presidente do partido.
Valdemar Costa Neto
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, também emitiu uma nota sobre essa questão da saída da Michele da presidência do PL Mulher. Ele fala o seguinte, Michele fez um excelente trabalho à frente do PL Mulher, mas nesse momento decidiu deixar a presidência nacional do PL Mulher porque fez a opção de concentrar suas atividades em cuidar do nosso presidente. Temos que respeitar essa decisão.
Maria Cristina Fernandes
Valdemar lhe deu todos os passos, um salário. Está apostando nessa bancada de mulheres evangélicas, periféricas, negras. E vamos lembrar também que ele não tem uma relação tão fácil assim com os filhos do Bolsonaro. Ele teve que criar lá atrás um cargo para o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. uma Secretaria de Relações Internacionais, lembra? Porque houve uma disputa lá pelo caixa do partido. Ele teve que criar esse cargo para poder ter um destaque, ter um orçamento, ter como se movimentar sozinho de maneira independente e com protagonismo. Na bancada do PL há queixas e preocupação em relação à distribuição de verba justo no momento em que há evidências de sobra de que o financiamento desse filme da Cross embutiu ali um caixa dois de campanha. Mas não é a primeira vez que a Michelle faz esse jogo de disputar indicação de nomes na disputa. Esse julgo começou a pavimentar lá atrás. Lembra o que aconteceu em 1922 no Distrito Federal? A Michele bancou Damaris Alves, que tinha sido ministro do Bolsonaro. O Bolsonaro bancou a Flávia Arruda, que também tinha sido ministra dele. E ela não fez campanha para o marido no primeiro turno. Ela fez a Damares, ela elegeu a Damares e ela foi entrar na campanha do marido no segundo turno.
Ana Tuzaneri
E eu me lembro que os auxiliares de Bolsonaro que atuavam ali na comunicação se ressentiam muito da ausência de Michele Bolsonaro. E aí eu sempre perguntava, e a Michele vai aparecer quando? Não, ela tá difícil, ela não tá disponível, não, ela não tá fazendo. Então, naquele primeiro turno, ela de fato não se envolveu para desgosto de muita gente da campanha.
Maria Cristina Fernandes
E agora ela está mostrando o quanto que a Damares, que este movimento dela para implacar a Damares como senadora foi importante para a sua própria sobrevivência no partido e para a implantação do seu projeto dentro do PL, talvez seja sua principal aliada. A Damares tem uma característica importante e ela, talvez mais do que nenhuma outra parlamentar do bloco conservador de direita no Congresso, ela encarna essa transversalidade da pauta. da bancada feminina, né? Ela apoia os projetos da deputada Tabata Amaral, ela no ECA Digital, que é um projeto muito importante, aprovado recentemente, ela encabeçou no Senado a defesa do ECA Digital, que é o Transplante para o Meio Digital do Estatuto da Criança e da Adolescente. que é para proteger as crianças de pedófilos e de aliciadores de toda ordem, e contra a vontade do bolsonarismo. Os pastores é que tiveram que convencer a bancada porque eles iam para os cultos nos fins de semana e as mulheres bolsonaristas evangélicas de suas igrejas diziam, pelo amor de Deus, votem isso. As nossas crianças estão expostas.
Valdemar Costa Neto
O ECA Digital reconhece que crianças e adolescentes são mais vulneráveis às funções das
Paulo Figueiredo
redes sociais que estimulam o comportamento compulsivo.
Valdemar Costa Neto
Por isso, determina que as plataformas adotem medidas concretas. A nova lei exige ainda que as
Paulo Figueiredo
plataformas controlem o acesso e removam conteúdos nocivos. Também determina a participação dos pais.
Maria Cristina Fernandes
E aí o bolsonarismo, a contra gosto, votou. Mas o que a gente tá vendo agora é uma tentativa de reverter o ECA digital.
Ana Tuzaneri
E Damares sendo chamada de feminista, já ouvia até esquerdista, uma loucura.
Maria Cristina Fernandes
Chamam de PSOL do PL, né? Ela lidera a bancada do PSOL do PL.
Ana Tuzaneri
Quem diria, hein, Maria Cristina?
Maria Cristina Fernandes
Já pensou. Então, o que eu acho importante a gente trazer essa coisa do Ecodigital é porque essa história, ela mostra uma cisão na base do bolsonarismo, que é essa machosfera muito agressiva e uma base de mulheres conservadoras, mas que querem preservar suas crianças e seus próprios direitos. não querem abrir mão disso, então a cisão se deu aí. Eles estão colocando em risco essa base do partido, que foi conquistada desde 18. Então não é um movimento qualquer o que a gente assistiu, não é uma treta familiar, não é uma briga de madrasta e enteado.
Ana Tuzaneri
É um movimento político divulto, cujas consequências a gente ainda não conhece e é sobre isso que eu gostaria de te ouvir. Pelas reações do Flávio Bolsonaro, ele está sentindo esse golpe da crise, mas a gente já consegue dizer qual é o tamanho se houver de fato do dano que essa altercação com a Michele Bolsonaro causa pra ele e pra base eleitoral dele ou ainda cedo a gente precisa ver mais pesquisas, a gente precisa entender como o eleitorado conservador está decantando essa treta.
Maria Cristina Fernandes
Eu acho que é cedo, as pesquisas, os trackings que têm vindo não têm exatamente mostrado um estrago grande, mas ok, foi uma outra época, foi uma época sem redes sociais, mas eu ainda me lembro do que aconteceu quando Pedro Collor falou em maio O ímão dele só foi cair em setembro. Essas coisas demoram a decantar. A pré-campanha lulista não encampou porque tem medo que a Michelle assume a candidatura se o Flávio derreter. Então, não tem ninguém, além do jornalismo e das claques de cada um, não tem ninguém batendo bumbo em cima disso. Então, a exploração deste tema num espectro maior ainda não começou.
Ana Tuzaneri
E só para contextualizar, o Pedro Collor, irmão do então presidente Fernando Collor de Mello, que denunciou o próprio irmão de liderar um esquema chamado esquema PC Farias, que foi o tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello.
Valdemar Costa Neto
A Polícia Federal, a Receita Federal e o Banco Central vão trabalhar juntos no inquérito para apurar as denúncias feitas pelo empresário Pedro Collor de Melo, irmão do presidente Fernando Collor. Ele acusa o empresário Paulo César Farias de enriquecimento ilícito e tráfico de influência. As denúncias envolvem o presidente Fernando Collor.
Ana Tuzaneri
um esquema de corrupção e tráfico de influência, só pra botar todo mundo na mesma página.
Maria Cristina Fernandes
E vamos lembrar também, você historiou ali os capítulos dessa briga, ela já avisou e tem mais bala na agulha, né? Eu falei quase tudo.
Ana Tuzaneri
No vídeo, né?
Maria Cristina Fernandes
Isso, naquele vídeo. Então, o que é que tá dito aí nas entrelinhas? Que eu tenho mais munição. Essa coisa dela ter repostado, o garotinho. Então há sinais de que ela está ali ameaçando. Ela calcula bastante todos os passos. As pessoas reclamam que não há renovação na política. O Michel está mostrando que é o quadro da direita e está querendo se fazer valer. É um movimento muito claro para mim de quem está querendo criar uma persona na política e não foi feita só pelo sobrenome, ela cavou o seu espaço na política. Essa briga que ela está cavando aí é para mostrar isso, que ela conquistou um espaço no PL e na política. por seus próprios méritos e por seus próprios meios, comprando briga dentro da sua própria família, dentro do seu próprio grupo político, porque foi agredida por eles. Essa é a história que ela está querendo montar. não vai ser um cenário fácil que os filhos do Bolsonaro vão enfrentar, seja em toda a campanha, seja em um pós-eleitoral que eventualmente traga a derrota do Flávio Bolsonaro.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Maria Cristina Fernandes. A história mostra pelo menos nesses anos de Bolsonaro e depois que aqueles que romperam com um Bolsonaro ou com parte da família ou até com a família inteira não tiveram um destino de sucesso ou eleitoral ou político. Você acha que pode acontecer a mesma coisa com Michele Bolsonaro?
Maria Cristina Fernandes
A questão é que justamente ela está com a guarda do marido. para que ela seja considerada uma traidora, uma desertora, é preciso que o marido o diga.
Ana Tuzaneri
E ele não pode dizer.
Maria Cristina Fernandes
Ele não pode dizer. A gente não sabe o que ele está pensando. Não é apenas o que ele está dizendo. A gente não sabe nada sobre Bolsonaro. Sabe que tem uma decisão dele voltar ou não para o regime fechado, mas a gente não sabe nada. Esta é uma lacuna gigantesca de toda essa história. O que o Bolsonaro está achando de tudo isso, porque nem lá na casa dele foi gravado esse vídeo. Tem uma diferença importante de alguns dissidentes. Primeiro, ela aparentemente tem o apoio do presidente de um partido que não é um partido qualquer, o maior partido hoje no Brasil, que é o PL. Ela está salvaguardada, tanto que o Valdemar fez essa homenagem. Ele extinguiu o carme de presidente do PL. Como quem dissesse assim, se Michel não pode ocupá-lo, ninguém mais pode fazê-lo. Então, ela tem ainda um espaço no partido, ela tem apoio e ela tem já uma bancada. E uma bancada que se constituiu no enfrentamento dos enteados. Vamos lembrar, ela tem uma... Ela fala muito nessa Priscila Costa, que é essa vereadora lá de Fortaleza. Mas ela tem Ana Campagnolo lá em Santa Catarina, que foi uma deputada estadual, aliás, muito bem votada, uma deputada que é historiadora e tem livros contra o feminismo, pra gente ver a fauna que tá esse negócio. Ana Campagnolo foi quem liberou a campanha lá em Santa Catarina. contra a migração do demicílio eleitoral do Carlos Bolsonaro para o Estado para disputar o Senado, em defesa da Carol de Tônio. E esta luta que ela encampou com o apoio da Michele Bolsonaro acabou que tirou a vaga do Espiridão Amin e as duas vagas ficaram, uma com o Carlos Bolsonaro, outra com a Carol de Toni. Este é outro grande apoio que ela tem. Então, ao contrário de outros dissidentes que
Ana Tuzaneri
foram varridos da história... Tipo Joyce Hasselman, que foi líder do governo.
Maria Cristina Fernandes
Que era, digamos assim, uma francotiradora. A Michele, ela já tem uma bancada e ela ainda pretende ampliar esta bancada nesta eleição e, aparentemente, o Waldemar Costa Neto não vai impedi-la de fazê-lo como, ao que tudo indica, está ajudando.
Ana Tuzaneri
Agora, para a gente se aproximar do nosso final do episódio, eu queria entender de que base feminina é essa que a gente está falando que se conecta com Michele Bolsonaro?
Maria Cristina Fernandes
Eu não acho que dá para falar de um bloco ideologicamente constituído. Eu acho que ela não tem nem essa preocupação. Ela quer, primeiro, consolidar a sua turma. Como eu disse, tem uma pauta aí, que é muito representada pela Damares, que é transversal ideologicamente hoje no Congresso. A senadora Tereza Cristina, que é uma parlamentar que nunca se filiou, digamos assim, essas pautas mais de educação, saúde, sempre militou ali, foi ministra da Agricultura do Bolsonaro, atua em questões de política externa, e agora meio que prestou como se fosse uma solidariedade à Michelle, não comparecendo a esse encontro que o Favio promoveu com mulheres. E deixou muito claro que não quis ir porque discorda dessa violência com que a coisa está sendo tratada. Então, eu acho que não dá para falar ainda dos traços ideológicos deste movimento que ela está montando. Assim, eu acho que tem alguns traços, talvez, de camada social, porque eu tive aqui, semanas atrás, um encontro do Flávio com mulheres executivas. Me chamou muita atenção, porque a pauta delas era revogação da reforma tributária, liberdade de empreendedorismo, segurança, não tinha uma pauta feminina, sabe? E a Michelle me dá a impressão de investir numa pauta das mulheres evangélicas, das mulheres mães. esposas, muito embora as pessoas tenham falado muito nessa teocracia de um patriarcado bíblico. E eu não sei se é muito da Michelle, sabe? Essa transplantação de realidades de um país para outro é um negócio sempre que... Eu tenho cuidado em fazer isso. Por exemplo, nos Estados Unidos hoje tem um movimento para tirar o voto das mulheres. Agora, se nos Estados Unidos há um número representativo de mulheres que podem se dar ao luz, que pedirem, que tirem seu próprio voto, aqui no Brasil, as mulheres não apenas de esquerda ou direita, as mulheres de todo aspecto ideológico batalham pela vida, porque é o que lhes resta fazer. Elas têm que sustentar a família, elas tiveram que começar a trabalhar cedo, criam seus filhos sozinhas, ou porque foram abandonadas, ou porque se rebelaram contra situações de opressão, e se impuseram como chefes de família, né? Vide o Bolsa Família, que elas são titulares. Então, esse transplante de situações, eu acho complicado. Então, eu acho que a Michelle está querendo criar o seu grupo político dentro de uma conformação social, política brasileira, conhecendo aí este eleitorado conservador que ela está tentando cativar entre as mulheres. Ela viajou para esses sete estados, não vamos esquecer que ela conheceu aí este rebanho que ela agora está querendo capturar.
Ana Tuzaneri
Maria Cristina Fernandes, como sempre, muito obrigada por topar conversar aqui com a gente e jogar luz sobre esses temas nossos de cada dia da política. Bom trabalho para você, minha amiga.
Maria Cristina Fernandes
Eu que agradeço, Natuza, é sempre uma alegria.
Ana Tuzaneri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast Host: Ana Tuzaneri (G1)
Convidada: Maria Cristina Fernandes (Valor Econômico, CBN, GloboNews)
Data: 2 de julho de 2026
Duração relevante: [00:05] – [27:25]
Neste episódio de "O Assunto", Ana Tuzaneri e a jornalista Maria Cristina Fernandes analisam as profundas contradições, embates e consequências da posição da mulher no bolsonarismo, especialmente à luz da recente crise envolvendo Michele Bolsonaro, o presidenciável Flávio Bolsonaro, e figuras-chave como Paulo Figueiredo e Damares Alves. O episódio explora o papel das mulheres conservadoras dentro da direita bolsonarista, o paradoxo entre a necessidade do voto feminino e a retórica antifeminista do campo, além de discutir os desdobramentos políticos da disputa familiar e partidária.
Este episódio do "O Assunto" desvela o verdadeiro embate de poder, gênero e estratégia dentro do bolsonarismo. A crise familiar e partidária protagonizada por Michele Bolsonaro destaca o paradoxo de um movimento antifeminista que precisa do voto feminino — especialmente das mulheres conservadoras — para se manter competitivo. As disputas explicitam tensões reais entre lideranças, interesses eleitorais e a base conservadora feminina, e podem desenhar novos rumos para a direita brasileira conforme 2026 avança.
Acesse a íntegra no Spotify ou na plataforma de sua preferência. Playlist ‘This is O Assunto’:
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