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Natuza Nery
A morte do líder supremo Ali Khamenei ainda no primeiro dia de ataques teve um efeito simbólico, mas não desmontou o centro de poder iraniano, que é estruturado em vários núcleos e instituições. Em Teherã, 88 clérigos muçulmanos chiítas se reuniram a portas fechadas no fim de semana. Eles são membros da Assembleia dos Especialistas, o conselho responsável por escolher a autoridade máxima do regime iraniano. Não há votação popular, campanho, discursos públicos, nada disso. Os religiosos discutem e decidem o nome de quem deve assumir o posto. Um ayatollah é um alto cargo entre os religiosos muçulmanos chiítas Já o líder supremo é a autoridade máxima religiosa e política do Irã O eleito é quem tem a palavra final sobre a política externa, o programa nuclear e o comando das forças armadas Na prática, ele tem a palavra final sobre as principais decisões do país e pode permanecer no cargo por tempo indeterminado E o escolhido para a missão é o filho do homem que comandou o país por quase 37
Narrator/Reporter
anos Mostabaka Menei nasceu em 1969 na cidade de Mashhad, no leste do Irã. Cresceu vendo o pai atuar na liderança da oposição ao regime do Shah Reza Pahlavi, o monarca que assumiu o poder total do Irã em 1953 com a interferência americana e que governou o país até a Revolução Islâmica de 1979. Mojtaba é conhecido pela proximidade com a guarda revolucionária iraniana, a força militar e política do Irã, que age com violência contra opositores.
Natuza Nery
Depois que a Assembleia dos Especialistas terminou, um dos ayatollahs falou à imprensa iraniana que a decisão foi baseada em um conselho de Ali Khamenei. O recado dele era claro e conhecido, o de que o novo líder supremo do Irã deve ser sempre odiado pelo inimigo.
Narrator/Reporter
A escolha do novo líder supremo é um balde de água fria nas pretensões dos Estados Unidos, que queriam uma guinada pró-Ocidente no regime iraniano.
Commentator 1
Ele é conhecido por ter as mesmas opiniões do pai, chama Estados Unidos e
Commentator 2
Israel de Grande Satã e Pequeno Satã,
Commentator 1
respectivamente, ou seja, não há expectativa de diálogo.
Natuza Nery
A escolha de um líder de perfil linha dura reduz a expectativa de uma saída rápida para a guerra. Antes da escolha mesmo, Trump tinha dito que o filho de Khamenei é inaceitável. Primeira reação depois da escolha de Mostaba Khamenei como o novo líder supremo do Irã, o presidente Donald Trump disse apenas que não estava feliz e que nenhum líder que não fosse aprovado por ele, pelo presidente Trump, duraria muito tempo. Vamos lembrar que o Irã é um país de 90 milhões de pessoas, localizado no centro de algumas das cadeias de suprimento mais importantes do mundo. É a terceira maior reserva de petróleo e controla o Estreito de Hormuz, por onde passam 20 milhões de barris por dia, 20% do total comercializado globalmente. E é por isso que o preço do barril de petróleo disparou 25% da noite para o dia. Nessa segunda-feira, o barril do petróleo tipo Brent chegou a quase US$ 120 no mercado internacional.
Daniel Souza
Antes do início da guerra no Oriente
Natuza Nery
Médio, o petróleo estava cotado em torno de US$ 71. As bolsas de todo o mundo entraram em estado de alerta. O temor é que os custos da energia turbinem a inflação e afetem o bolso dos consumidores do mundo inteiro.
Donald Trump
Os efeitos da guerra no Oriente Médio já são sentidos no mundo inteiro. Desde o início de outra guerra, a da Ucrânia, que afetou as exportações da Rússia, o preço do petróleo não chegava a esse patamar. Países como Iraque, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, atacados nos últimos dias, diminuíram a produção. Com o preço do barril do petróleo disparando, as bolsas começaram o dia em queda. Resultado da batalha naval no estreito de Ormuz. Ministros das sete democracias mais ricas do mundo fizeram uma reunião de emergência para discutir o assunto. O G7 estuda liberar 300 milhões de barris de petróleo de reservas de emergência coordenadas pela Agência Internacional de Energia. A nota acalmou o mercado. Depois disso, o preço do barril caiu um pouco. O presidente americano Donald Trump disse que o aumento é um preço pequeno a se pagar em troca da paz e da segurança. No fim do dia, uma reviravolta. Numa entrevista à rede americana CBS, Donald Trump disse que a guerra pode acabar em breve. Eles não têm marinha, comunicações nem força aérea. Acho que a guerra está praticamente concluída, disse Trump. O presidente americano também disse que está pensando em assumir o controle do estreito de Hormuz. Imediatamente, em Wall Street, a bolsa voltou a subir. E o preço do barril recuou novamente, abaixo dos 90 dólares.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Nath Uzaneri e o assunto hoje é o novo líder supremo do Irã e o aumento das tensões. Neste episódio, eu converso com Daniel Souza, comentarista da Globo News, professor do IBMec e criador do podcast Petit Jornal. Terça-feira, 10 de março. Meu caro Daniel, qual é o perfil do novo líder supremo do Irã?
Daniel Souza
Natuza, o perfil do novo líder supremo do Irã é um perfil radical. A gente está falando de alguém que é filho do líder supremo anterior, É alguém que se tornou clérigo já nos anos 90, depois que o pai tinha se tornado líder supremo, ou seja, é alguém que não é incontestável do ponto de vista religioso, mas é alguém bastante incontestável do ponto de vista político. Ele, inclusive, ganhou bastante força durante esse período onde o pai foi líder supremo. Passou a ter, inclusive, muita influência na parte de força do regime, ou seja, na parte repressiva do regime.
Commentator 2
O mais importante, a cartão de visita dele, na verdade, não é nem ser o filho tão somente do líder supremo, é ter essa proximidade tão grande com as quartas revolucionárias, e é quem está mandando lá junto com o Ali Larijane e outras figuras políticas.
Commentator 1
No presente, não é o Amaney que manda. Quem manda são outras figuras. É o Ali Larijani e o Mohammed Ghalibaf, acima de tudo, esses dois.
Daniel Souza
E, consequentemente, num momento como esse, a gente tem uma clara mensagem, que é uma mensagem de continuidade. Uma mensagem de que o regime iraniano não vai se dobrar, não vai recuar, não vai se render, mesmo diante de ataques de inimigos poderosos. Fora isso, a gente está falando de uma escolha que se torna mais palatável dentro do atual contexto, que é um contexto de guerra e um contexto onde o líder supremo anterior, o pai dele, foi assassinado, mas em condições normais de temperatura e pressão teria sido bem mais questionada, porque a Revolução nunca imaginou, nunca almejou ou desejou que você tivesse qualquer tipo de hereditariedade no poder. Então, a escolha de um líder supremo, filho do líder supremo anterior, é algo que gera, obviamente, incômodo e desconforto no Irã, mas me parece que dentro do atual contexto se tornou algo um pouco mais palatável e necessário diante da forte mensagem que acaba passando.
Natuza Nery
Diante do que o governo Trump já disse e que também já sinalizou, Seu sucessor do pai é ter um alvo na própria testa, não?
Daniel Souza
Apenas a verdade, qualquer novo líder supremo teria um alvo na própria testa. Afinal, o Trump, inclusive no discurso inicial, quando os ataques foram anunciados, ele colocou como um dos objetivos derrubar o regime, derrubar o regime dos ayatollahs.
Donald Trump
Eu vou ler exatamente o que disse Donald Trump, Khamenei, uma das pessoas mais perversas da história está morto. Esta é a maior chance para o povo iraniano recuperar seu país. Esperamos que a guarda revolucionária islâmica e a polícia se unam pacificamente aos patriotas iranianos. e trabalhem juntos como uma unidade.
Daniel Souza
Olha como nós não nos dobramos a você, não nos curvamos a você, não há qualquer tipo de concessão aos Estados Unidos ou a Israel, não há qualquer tipo de sinalização de fragilidade do regime. E é sempre importante destacar que a gente está falando de um regime que ao longo das últimas décadas criou um sistema de repressão poderosíssimo. A gente está falando de um regime em que membros estão espalhados por todos os povoados do Irã e muita gente deve a sua vida ao regime e todo o progresso econômico, material que teve ao longo da sua vida ao regime. Tem muita gente disposta a matar e morrer por esse regime, tem muita gente radicalizada e me parece que é para essas pessoas que o regime está sinalizando. Continuem conosco porque nós vamos vencer. A radicalização, ela sinaliza para os radicalizados e é essa escolha que está sendo feita quando o líder supremo novo é filho do anterior e mesmo que isso seja uma afronta direta ao presidente dos Estados Unidos. Aliás, talvez por conta disso, talvez seja até um bônus dessa escolha.
Commentator 2
Chega a ser risível a declaração do presidente Trump, não por nenhuma defesa do regime, nem nada disso, mas de achar que ele teria a influência sobre a escolha do sucessor.
Natuza Nery
Bom, consta que a mulher de Ali Khamenei também foi morta nos ataques. Ela é a mãe dele, é a mãe do novo Ayatollah?
Daniel Souza
Essa Inatus é a mãe do Novo Ayatollah, o que confere um aspecto ainda mais pessoal justamente a essa guerra. Quer dizer, estamos falando de alguém que lidera o Irã, alguém que é o comandante, que se torna o comandante supremo das forças armadas, alguém que tem ali poderes muito amplos no regime iraniano e que teve o seu pai e a sua mãe assassinados nessa guerra por ataques dos inimigos iranianos, por ataques de Israel e dos Estados Unidos.
Commentator 2
naqueles bombardeios iniciais do próprio sábado, perdeu não só o pai, mas também a mãe, a esposa, naqueles ataques iniciais, o que faz com que, para alguns analistas, isso mostre que ele realmente aceitou também, porque não tem absolutamente nada a perder do ponto de vista pessoal. O que ele tinha para perder do ponto de vista pessoal, ele já perdeu, e por isso ele seria, inclusive, talvez, mais determinado nessa linhadura.
Daniel Souza
Esse é um elemento ainda mais importante e que dá ainda mais gravidade para essa escolha que está sendo realizada. Quer dizer, a mensagem é muito clara. Nós não vamos recuar, nós estamos escolhendo, inclusive, alguém que teve os seus pais assassinados durante essa guerra.
Natuza Nery
Como a gente estava falando, Daniel, o Mojitaba tem ligações estreitas com a guarda revolucionária e com clérigos considerados mais radicais do regime. E analistas dizem que a escolha dele representa uma continuidade e você se junta, portanto, a esses analistas. O que a gente pode esperar em termos de estratégia militar e diplomática, se você achar que há linha diplomática aí para ser executada a partir de agora?
Daniel Souza
Olha Natuza, há estratégia claramente de continuidade, como a gente colocou há pouco. Então, nós temos, inclusive, o líder supremo, ele foi morto no início dessa guerra, o líder supremo anterior, o que significa que ele não teve, inclusive, envolvido nas principais decisões que foram tomadas de lá pra cá. E me parece, acima de tudo, que a estratégia iraniana é disseminar de maneira gradual e escalada o caos na região. Quer dizer, você tem tido ataques graduais e escalados a diferentes países vizinhos, você tem a questão do Estreito de Hormuz, a ideia é que gradualmente o regime iraniano vai escalando o problema para tentar envolver cada vez mais gente numa pressão contrária aos ataques Trump
Commentator 1
conversou mais cedo, por telefone, com o presidente russo Vladimir Putin, aliado do Irã. Conversa que ele descreveu como muito boa. A Rússia tem sido uma das grandes beneficiadas com a alta dos preços do petróleo e do gás porque é grande produtora, né? E agora pode se beneficiar mais ainda. É que Trump sinalizou que vai suspender algumas sanções americanas no setor do petróleo. Também não deu mais detalhes.
Daniel Souza
Do ponto de vista diplomático, eventuais conversas podem acontecer, é claro, como mecanismo de interrupção das hostilidades. Mas se as exigências dos Estados Unidos continuarem sendo as exigências iniciais, não vai ter conversa possível. Afinal, as exigências iniciais passavam pela eliminação do programa nuclear iraniano, o que o novo líder supremo não fará, e também passavam pela eliminação do programa de mísseis do Irã, o que o novo líder supremo não fará. Qualquer um desses dois movimentos exigidos inicialmente pelos Estados Unidos seriam vistos como uma capitulação do regime iraniano, e ele tem dado todos os sinais de que isso não será feito. Portanto, a gente está falando de um ambiente de radicalização e um ambiente de radicalização onde a ideia é que outros países, ao serem envolvidos no conflito, pressionem Israel e Estados Unidos a parar. Nós tivemos já ataques no Bahrein, tivemos ataques no Iraque, tivemos nos Emirados Árabes Unidos, até no Azerbaijão, que é um país vizinho do Irã. É o Irã passando mensagens muito claras. Olha, se a coisa continuar piorando, eu vou arrastar mais gente e eu tenho mecanismos para tornar a vida de vocês um inferno. Não só a vida de quem está aqui na região, por conta justamente de ataques que eu sou capaz de fazer e vocês não são capazes de se defender, como a vida do planeta todo, na medida em que eu tenha a possibilidade de controlar o estreito de Hormuz e trazer consequências para a economia mundial de muita profundidade.
Natuza Nery
Mas não era o mesmo regime que estava pedindo desculpas por ter atacado territórios vizinhos?
Daniel Souza
É exatamente o mesmo regime, Natuza.
Natuza Nery
O presidente iraniano, Massoud Pezesquian, afirmou que Israel e Estados Unidos estão tentando colocar os países islâmicos em guerra. Num discurso transmitido pela TV estatal, Pezesquian afirmou que o país jamais vai se render. Mas ele também se desculpou com os países vizinhos, atingidos por mísseis e drones nos últimos dias. Disse que as Forças Armadas iranianas foram instruídas a não atacar mais os países do Golfo Pérsico, a menos que ele desataquem primeiro.
Daniel Souza
Agora você vê que é um regime que pede desculpas, mas ao mesmo tempo tem essa postura dúbia no que diz respeito à realização desses ataques. Porque o fato de você pedir desculpas não impede você de ter passado a mensagem de que o ataque pode ser realizado e que novos ataques podem ser realizados caso você seja oprimido. Portanto, é uma estratégia que o regime iraniano tem adotado e que não me parece que será descartada, apesar do pedido de desculpas que acabou sendo formalizado. É uma estratégia um pouco de morde-a-sopra. Você avança, depois recua, avança mais um pouco, recua. E esse tipo de mecanismo parece bastante recorrente em diferentes momentos daquela região.
Natuza Nery
Bom, você já explicou que esse caráter dinástico da sucessão em outros tempos não pegaria bem.
Commentator 2
E o próprio pai dele já havia declarado que preferia que não fosse feita uma escolha hereditária. Essa decisão vai na contramão de tudo que a Revolução Islâmica pregava em 79.
Natuza Nery
Mas em razão da guerra e dos ataques do governo Trump, isso acabou sendo colocado em segundo plano e foi o filho dele mesmo o nome que se tornou líder supremo. Você também disse que A repressão violentíssima do regime e as manifestações do início do ano tiveram apoio do novo líder supremo, do filho do Khamenei. Como é que fica a recepção popular a essa escolha?
Daniel Souza
Me parece, Natuza, que protestos grandes acontecendo, como aqueles que nós vimos há pouco tempo, se tornam bastante perigosos dentro de um contexto de guerra, até porque você tem um regime que está em alerta máximo diante dessa possibilidade. É claro que você tem uma parte, principalmente uma parte de classe média urbana, em grandes centros urbanos no Irã, que não gosta do regime e que comemorou a queda, ou melhor, a morte do Khamenei há poucos dias. Mas você tem uma parte que não é pequena, principalmente em regiões mais pobres, principalmente em regiões mais interioranas, que acaba apoiando o regime ou no qual o regime tem um pouco mais de força. Portanto, é claro que novos protestos são possíveis, são atos de profunda coragem dessas pessoas ao realizá-los, mas dentro de um contexto de guerra, dentro de um contexto onde o regime está em alerta máximo, não me parece estranho que você tenha um certo arrefecimento, pelo menos por enquanto, desse tipo de manifestação.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Daniel Souza. Bom, e aí a gente chega no aspecto econômico que você já citou, o fechamento do Estreito de Hormuz, por onde passa uma porção muito significativa, mais de 20% do petróleo mundial. Eu entrevistava aqui há alguns dias o José Roberto Mendonça de Barros, que fez um panorama muito rico das consequências e potencial que a duração dessa guerra poderia trazer para o mundo. Então, ele dividiu em dois marcos. Se a guerra durar 10 dias, o impacto pode ser assimilado em termos de ajuste de estoques de petróleo, em termos de fornecimento, por exemplo, de fertilizantes para produção agrícola, sobretudo no Hemisfério Norte, que já está no momento disso acontecer. Mas se a guerra durar 40 dias e passar disso, aí a gente vai ter um problema sério. Por hora, no momento em que a gente gravava, o petróleo não tinha batido 100 dólares. o petróleo agora, o barril bateu, o Brent bateu em 100 dólares. Foi rápido demais, nesses primeiros dias da guerra, atingir essa marca dos 100 dólares? Você espera o quê? O que os analistas estão vislumbrando para o preço do barril?
Daniel Souza
Natusa, não foi rápido. Na prática, a gente está falando de uma escalada de petróleo, do preço de petróleo, que se intensificou nas últimas horas pela percepção de que o conflito vai se alongar. A escolha do novo líder supremo como sendo o filho do líder supremo anterior deixou muito claro para o mundo que, olha, o regime do Irã não está a ponto de cair, o regime do Irã está muito forte e deve continuar lutando por bastante tempo. Do outro lado, a gente tem Israel e Estados Unidos que também tem ali poucos incentivos para recuar. Ou seja, a gente está falando de um contexto onde o que está se considerando agora como cenário mais provável, e o barril de petróleo reflete isso, é que a gente vai ter um conflito mais longo. E se a gente vai ter um conflito mais longo, o impacto sobre a oferta mundial de petróleo vai ser sentido. você vai ter uma elevação consistente do preço do petróleo, o mercado, na prática, está antecipando isso. Projetando o futuro, tudo depende do tempo e da intensidade de duração desse conflito. O tempo, porque, claro, quanto mais tempo dura, maior o impacto sobre a oferta e, consequentemente, sobre o preço. E intensidade, porque se você tiver novas estruturas de petróleo atingidas na região do Golfo Pérsico, Essas estruturas levarão mais tempo para serem reconstituídas, para serem refeitas, para serem reformatadas e isso acaba trazendo um impacto mais alongado sobre o preço do barril de petróleo. Portanto, me parece que nesse momento o cenário é de escalada do preço e isso, em parte, se alinha à estratégia urbaniana. Vocês estão me bombardeando, vou fazer a vida de vocês um inferno. Afinal, o preço do bairro de Petróleo vai ficar alto, isso vai trazer inflação para todo mundo e vai trazer impactos sobre o crescimento mundial. Isso coloca ainda mais gente a pressionar os Estados Unidos e a Israel para que algum tipo de interrupção das hostilidades seja alcançada.
Natuza Nery
A gente já está no décimo dia de guerra. Se for nesse ritmo, é factível pensar num cenário em que o petróleo chegue a 200 dólares?
Daniel Souza
200 eu não digo, Natuza, mas bem mais alto do que ele está hoje é bastante factível, quer dizer, nós podemos ter aí um petróleo caminhando para as suas máximas históricas. É claro que hoje a gente tem cada vez mais novas alternativas de produção de petróleo fora do Oriente Médio, alternativas importantes, mas o grosso do petróleo do Oriente Médio, isso é um fato, é produzido justamente na região do Golfo Pérsico, região onde o escoamento da produção envolve navios petroleiros passando pelo Estreito de Ormuz. E, consequentemente, me parece que o impacto tende a ser bem forte ao longo dos próximos tempos, se esse conflito continuar e se não houver uma normalização no fluxo de petróleo da região. Não sei se alcança 200, mas buscar as máximas históricas me parece bastante razoável.
Commentator 1
Donald Trump voltou a sinalizar agora há pouco que a guerra vai acabar muito em breve. Mas ele não quis cravar uma data, não. Quando perguntado se ela terminaria nesta semana, ele disse que não. O presidente americano afirmou que os Estados Unidos estão muito à frente do cronograma inicial, mas que a guerra só acaba quando o Irã não tiver mais capacidade de usar armamento contra os Estados Unidos, Israel e seus aliados, por muito tempo.
Natuza Nery
Eu ouvi diferentes reações sobre o que haveria de alternativa. O próprio Trump disse que poderia escoltar navios, gente do setor dizendo, a gente pode dar a volta. Como é que fica esse impacto global do ponto de vista da inflação? Porque a gente pode estar diante de um choque inflacionário em escala planetária, mas mais do que isso? aproveitando essa sua dupla cidadania, né, na economia e na geopolítica, em assuntos internacionais. A gente tem que tipo de efeito aqui no Brasil? Por exemplo, alguém vai abastecer. Em que momento vai ter uma parcela do preço do combustível que vai ser debitada da conta da guerra?
Daniel Souza
O Brasil tem uma especificidade, né, Natuza, que é a presença da Petrobras, uma empresa estatal que acaba decidindo quando é o melhor momento de repassar reajustes do preço internacional do petróleo e também altas no dólar. Esses dois movimentos têm acontecido paralelamente nesse momento. Não existe uma transparência, como já houve no passado, sobre qual é esse momento. Só mais que é isso, o fato do Brasil estar no ano eleitoral e reajuste do preço dos combustíveis ser um tema extremamente impopular. Que a Petrobras terá que repassar esse aumento em algum momento, ou em algum tempo, me parece certo. A grande questão é quando. Isso a gente não tem como ter certeza, porque existe uma variável aí que não é econômica, que é política. E a Petrobras, ela é suscetível à influência política, me parece inegável isso. A Petrobras tem tido a política de não repassar reajustes imediatamente, o que tem o seu valor, tem o seu mérito, ela só repassa quando é algo mais permanente ou algo mais estrutural. Agora, se nós tivermos essa alta tão intensa ao longo de várias semanas, ela vai ficar muito pressionada a conceder esses reajustes, a não ser que haja algum tipo de direcionamento político para não fazê-lo. Mas me parece que um horizonte de algumas semanas, caso essa situação permaneça, me parece incontornável do ponto de vista técnico, que a Petrobras realmente autorize algum tipo de reajuste para os combustíveis no Brasil, E, consequentemente, isso vai bater no bolso de cada um de nós, seja diretamente abastecendo o carro, seja indiretamente através da compra de produtos que vão pagar um frete mais caro, porque o diesel vai estar mais caro.
Natuza Nery
O risco de uma contaminação global não impediu Trump de agir e de atacar. Eu imagino que ele deva possuir conselheiros que digam, olha, pode ser que o regime não caia, tá? Se o regime não cair no tempo que você está esperando, a coisa pode ficar feia e uma inflação global também pega nos Estados Unidos, se tem um problema inflacionário lá já contratado. Se o risco de uma contaminação global não foi motivo para impedir Trump de fazer o ataque, pode ser motivo para dissuadir Trump de continuar essa ofensiva?
Daniel Souza
Pode, claramente pode. Me parece que o Donald Trump apostou numa solução relativamente rápida. que a Venezuela seria um caso de inspiração para o Irã. Só que o Irã não é a Venezuela, o Irã não é a Síria, o Irã não é o Iraque, o Irã não é o Afeganistão. E o erro de cálculo do governo americano me pareceu grosseiro nesse caso. Se a solução não vier no curto prazo, como não está vindo e não me parece que virá, a coisa vai se alongando, o impacto vai se alongando no tempo. E isso pode sim levar o Donald Trump a buscar algum tipo de subterfúgio, algum tipo de justificativa para sair desse atoleiro. Porque o impacto sobre a economia americana e sobre a economia mundial será incontornavelmente sentido. E sim, pode ser que o governo Trump acabe recuando por conta justamente dessas consequências internas que aconteceram sobre a inflação, sobre a atividade econômica e sobre a popularidade dele.
Natuza Nery
Como é que está a situação inflacionária hoje nos Estados Unidos?
Daniel Souza
É uma situação onde o FED não está conseguindo trazer a inflação para a meta. A meta de inflação nos Estados Unidos é de 2% ao ano e a inflação anual nos Estados Unidos tem girado na casa de 3%. É isso que explica, inclusive, essa hesitação por parte do FED de reduzir a taxa de juros. uma hesitação que tem colocado ali o Trump e o presidente do Fed, o Jerome Powell, em rota de colisão. Portanto, a situação inflacionária não está resolvida nos Estados Unidos, mesmo sem o petróleo, mesmo sem a questão do oriente médio. Mesmo assim, você já tinha ali uma pressão inflacionária, que em parte é causada pelas tarifas que o Trump colocou no ano passado, em parte é causada ali por um encarecimento do preço dos alimentos, que aliás tem acontecido em muitas partes do mundo. E em parte é causada também por essa energia que agora ficou mais cara e que já está impactando os Estados Unidos, porque nos Estados Unidos os reajustes acabam sendo quase instantâneos em função realmente de alterações no preço internacional do petróleo.
Natuza Nery
Bom, e a inflação é o maior cabo eleitoral do adversário de governantes, em qualquer lugar do mundo, e nos Estados Unidos em particular, tirou os democratas do poder e deu o poder a Donald Trump. Então, imagino que a memória dele não esteja ruim.
Daniel Souza
Não, não está ruim, mas a gente está falando de um Donald Trump que estava em busca de vitórias no cenário internacional. Do ponto de vista interno, ele não estava conseguindo baixar a inflação como prometeu, não estava fazendo a economia americana bombar como prometeu, estava enfrentando o problema de Mineápolis. que gerou um desgaste enorme até junto aos republicanos por uma percepção de que o governo estava indo longe demais no caso do combate à imigração dos indocumentados, isso sem falar também no caso Epstein. E ele olha para o cenário internacional e resolve que, bom, por aqui eu posso conquistar uma grande vitória e mostrar que eu sou completamente diferente de todos os meus antecessores que eram os incompetentes. Dentro de um contexto onde internamente ele está com a sua imagem bastante desgastada e com a sua popularidade em queda.
Natuza Nery
É um paradoxo, né, Daniel, porque Trump sempre buscou um poder ilimitado. ele conquistou um poder que talvez presidente nenhum dos Estados Unidos tenha conquistado, seja pela imposição, seja porque ele tem uma parte expressiva do eleitorado, mas no caso de Trump, muito pela imposição e pouca reação. Mas talvez o maior adversário de Trump, além da inflação que é de todos, seja justamente o excesso de poder que ele anda tendo.
Daniel Souza
É, o excesso de poder que ele anda tendo e que ele tem buscado sistematicamente. Ele adotou como estratégia esse alargamento do seu poder. E ele faz isso através de um tensionamento institucional. Quando ele deliberadamente mata um chefe de estado estrangeiro, isso é ilegal nos Estados Unidos. Você tem ali limitações a esse poder presidencial já há algumas décadas, explicitando que o presidente dos Estados Unidos não pode autorizar esse tipo de operação. A gente está claramente falando de uma guerra onde não se sabe qual é a estratégia dos Estados Unidos. Você sabe qual é a estratégia de Israel? Israel claramente que enfraqueceu o poder militar iraniano porque considera que o Irã é um perigo existencial ao Israel. O Irã dos Ayatollahs é um perigo existencial ao Israel. Agora, o que os Estados Unidos estão fazendo ali? O que os Estados Unidos querem com aquela guerra? Passa para os trumpistas, inclusive, que a lógica é de uma submissão aos interesses de Israel. Então você já tem muitos trumpistas dizendo nesse momento que a preocupação do Trump é make Israel great again, não é make America great again. Quer dizer, o Trump estaria subordinado aos interesses de Israel, o que para aquele trumpismo mais raiz é algo imperdoável, é algo absolutamente inaceitável. Na semana passada, a porta vazia da Casa Branca teve que vir a público dizer quais eram os objetivos dos Estados Unidos na guerra. Objetivos ali muito gerais, né? Acabar com o programa nuclear iraniano, acabar com o programa de mísseis iraniano, etc. Mas o público não está conseguindo entender o que os Estados Unidos estão fazendo ali, qual é o seu real objetivo. E na medida em que o Irã escolhe o filho do líder supremo anterior para novo líder supremo, isso desmoraliza o Trump. Porque o questionamento que vai ficar é muito claro. Presidente, você nos colocou nessa guerra, matou o líder supremo iraniano para eles trocarem o líder supremo anterior por um novo que é o filho dele? A gente esteve fazendo o que ali? O que a gente fez ali durante todo esse tempo, diante de tanto dinheiro que a gente gastou, diante de tantos riscos que a gente correu e diante de um processo inflacionário que foi causado? É uma aposta muito arriscada que o Trump fez e me parece que ele pode trazer consequências muito ruins pra ele mesmo num futuro não muito distante.
Natuza Nery
Daniel, meu amigo, muito obrigada pelas explicações todas. Bom trabalho pra você.
Daniel Souza
Obrigado, Dona Tusa. Um abraço a todos. Até a próxima.
Natuza Nery
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luís Filipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luís Gabriel Franco. Colaborou neste episódio Arthur Stabile. Eu sou Natu Zaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast: O Assunto
Host: Natuza Nery (G1)
Guest: Daniel Souza (GloboNews commentator, IBMec professor, Petit Jornal founder)
Date: March 10, 2026
Episode Theme:
This episode explores the rapid ascent of Mojtaba Khamenei—the son of the slain Ali Khamenei—as Iran's new Supreme Leader in the midst of war, and examines the ripple effects on global security, the economy, and geopolitics. Host Natuza Nery and guest Daniel Souza break down the Iranian succession process, Iran’s internal dynamics and external posture, shifting oil markets, and the broader consequences for the world, particularly in the context of Donald Trump’s U.S. presidency.
The podcast analyzes the implications of Mojtaba Khamenei's appointment as Iran’s Supreme Leader following the killing of his father and mother in targeted attacks tied to the ongoing conflict with Israel and the United States. The conversation investigates Iran’s political continuity, its hardened stance, the strategy behind the regime's escalations, and the impact on global oil prices and geopolitics. The episode also places these developments within the framework of Donald Trump’s foreign policy and the current economic situation in the U.S. and globally.
"Não há votação popular, campanha, discursos públicos, nada disso. Os religiosos discutem e decidem o nome de quem deve assumir o posto." — Natuza Nery [00:16]
"Mojtaba é conhecido pela proximidade com a guarda revolucionária iraniana, a força militar e política do Irã, que age com violência contra opositores." — Reporter [01:28]
"A escolha de um líder supremo, filho do líder supremo anterior, é algo que gera, obviamente, incômodo e desconforto no Irã, mas me parece que dentro do atual contexto se tornou algo mais palatável..." — Daniel Souza [06:56]
"O que ele tinha para perder do ponto de vista pessoal, ele já perdeu. E por isso ele seria, inclusive, talvez, mais determinado nessa linhadura." — Commentator 2 [10:16]
"Qualquer um desses dois movimentos exigidos inicialmente pelos Estados Unidos seriam vistos como uma capitulação do regime iraniano, e ele tem dado todos os sinais de que isso não será feito." — Daniel Souza [12:57]
"É claro que novos protestos são possíveis... mas dentro de um contexto de guerra, onde o regime está em alerta máximo, não me parece estranho que você tenha um certo arrefecimento..." — Daniel Souza [16:54]
"Com o preço do barril do petróleo disparando, as bolsas começaram o dia em queda. Resultado da batalha naval no estreito de Ormuz." — Reporter [03:22]
"É uma aposta muito arriscada que o Trump fez e me parece que ele pode trazer consequências muito ruins pra ele mesmo num futuro não muito distante." — Daniel Souza [31:32]
This episode of “O Assunto” offers a comprehensive look at a watershed moment for Iran and the world: the hereditary, hardline succession in Iran at a time of profound crisis, and the shockwaves this sends through geopolitics, energy markets, and global economies. Through in-depth analysis, the podcast unpacks not only immediate reactions, but also the deeper forces shaping Iran’s domestic and international posture—and the uncertain calculations facing its adversaries.