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Natuza Nery
Os Estados Unidos divulgaram os primeiros resultados de uma investigação sobre práticas comerciais do Brasil. Como resultado dessa investigação, o governo americano propõe um novo tarifaço contra os produtos brasileiros, desta vez de 25%. Na decisão, o governo americano ataca o PIX e o judiciário brasileiro.
Natu Zaneri
A Casa Branca voltou à carga contra o Brasil mais uma vez. É um novo tarifaço, mas bem diferente daquele imposto por Donald Trump em abril do ano passado.
Brian Winter
Essa tarifa é muito mais perigosa do que a outra. A outra foi mais alta, chegou a 50%, como se sabe. Que foi uma coisa intempestiva de Donald Trump, com aquela cartolina na porta da Casa Branca, uma coisa improvisada. Tanto que houve condenação, a justiça americana condenou o tarifaço.
Natu Zaneri
Aquele tarifaço de Trump foi esvaziado ao longo do tempo. Aumento da inflação dentro dos Estados Unidos, negociações com os setores produtivos e até a decisão da Suprema Corte deram conta de reduzir o poder daquela medida. Agora, a roupagem é outra. A imposição de taxas sobre mercadorias brasileiras é uma punição. É o resultado de uma investigação que acusa o Brasil de práticas desleais no comércio com os americanos.
Natuza Nery
Entre os pontos citados estão o uso
Brian Winter
do PIX, desmatamento, falha na aplicação de
Natuza Nery
leis anticorrupção e acesso ao mercado de etanol.
O cronograma daqui para frente é o seguinte, dia 6 de julho vai ser feita uma nova audiência pública para debater as ações propostas. Enquanto isso, o representante de comércio dos Estados Unidos disse que vai continuar o diálogo com o governo brasileiro. 15 de julho é o prazo final para definir a aplicação das medidas contra o Brasil. O representante de comércio aqui nos Estados Unidos sugeriu uma tarifa de 25% sobre praticamente todos os produtos brasileiros, não apenas aos setores investigados.
Natu Zaneri
O resultado dessa investigação dá a Trump mais poder para decidir o que fica e o que sai da lista de produtos sobretaxados.
Natuza Nery
Uma lista de exceções que inclui itens que o governo americano considera estratégicos ou que também tem uma oferta doméstica insuficiente, como matérias-primas e também produtos que os Estados Unidos não conseguem produzir em quantidade suficiente nem obter de outras formas, entre eles algumas carnes, frutas, minerais, Café, chá, cereais, também aeronaves e peças, além também de terras raras e farmacêuticos estão incluídos também entre os isentos. E também os produtos já sujeitos a outras tarifas aqui no país.
Natu Zaneri
Em Brasília, ministros do governo fizeram uma reunião de emergência com o vice-presidente Geraldo Alckmin para discutir uma resposta. O Tarifácio 2.0 de Donald Trump é mais um capítulo da influência americana nos meses que antecedem a eleição brasileira. Ela ocorre depois que Flávio Bolsonaro se encontrou com Trump na Casa Branca e após os Estados Unidos designarem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Donald Trump
publicação de Donald Trump na rede social dele sobre a visita à Casa Branca do pré-candidato à presidência aqui no Brasil, Flávio Bolsonaro. A postagem foi feita uma semana depois do encontro entre os dois. O Trump posta essas duas fotos e aí ele escreve assim, foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca, um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil.
Natu Zaneri
No Palácio do Planalto, Lula já tem um discurso pronto.
Lula
O que eu quero dizer com isso é que esse filho do Bolsonaro consegue ser pior do que ele. E são, na verdade, vendedores da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores.
Natu Zaneri
E Flávio Bolsonaro foi instado pela imprensa a dar explicações.
Flávio Bolsonaro
Eu pedi expressamente, nas três reuniões que nós tivemos, com o presidente Trump, o vice-presidente David Vence e o secretário de Estado Marco Rubio, eu pedi expressamente, não taxem as empresas brasileiras.
Natu Zaneri
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é... O novo tarifaço de Trump contra o Brasil às vésperas das eleições. Neste episódio, eu converso com Brian Winter, editor-chefe da revista America's Quarterly e analista político especializado em América Latina. Quarta-feira, 3 de março. Para a gente começar, o que os Estados Unidos estão querendo em relação ao Brasil? Qual é a estratégia?
Brian Winter
Natuza, eu imagino que muita gente deve estar coçando a cabeça e pensando, mas espera aí, a visita do Lula foi há um mês e parecia ter sido um sucesso. Como chegamos a esse ponto tão rapidamente? Eu acho que tem duas explicações. Primeiro, é uma casa branca que sempre improvisa, com grupos diferentes procurando diferentes prioridades. E segundo, ninguém em Washington entende o Brasil. Isso não é de hoje, é um problema antigo.
Natu Zaneri
Nesse caso, não é culpa só de Washington, né?
Brian Winter
Claro, porque quem coloca o PIX no centro do caso claramente não entende o Brasil.
Febraban Representative
Sobre as críticas ao PIX, a Febraban disse em nota que trata-se de uma infraestrutura e pagamento, não um produto comercial, e que não há qualquer restrição à entrada de novos participantes, desde que operem no mercado nacional, já que é um sistema de pagamentos que usa o real.
Brian Winter
O governo não vai ceder nunca nesse ponto.
Natu Zaneri
O governo brasileiro, você está falando.
Brian Winter
Exatamente. E também é verdade que essas tarifas claramente acabam prejudicando o senador Flávio Bolsonaro.
Natu Zaneri
Por quê?
Brian Winter
Bom, olha o distanciamento que ele já fez, dizendo que pediu para o presidente Trump fazer exatamente o contrário. Ele lembra da experiência do ano passado, quando o primeiro tarifaço de 50% acabou ajudando o Lula, os números de aprovação dele. Então, acho que a reação do Flávio foi imediata.
Natu Zaneri
Você já disse, então, que tem várias Casas Brancas, né? Tem uma Casa Branca de Pendor Brumaga, que é o grupo ideológico que dá sustentação a Trump. Marco Rubio, o secretário de Estado, me parece o principal exemplar disso.
Political Analyst
Marco Rubio é senador de carreira, ele foi eleito em 2010 pelo Estado da Flórida, quando então se tornou secretário de Estado do governo de Donald Trump, conhecido por uma posição linhadura em relação Cuba, Venezuela e também China. Você sabe que aí a gente tem um triângulo bastante importante para esse debate. A China, inclusive, tem sido o seu principal alvo desde que assumiu o comando da política externa dos Estados Unidos. E o Rubio, enquanto senador, inclusive chegou a criticar essa relação do Brasil com os chineses. O Rubio tem mostrado uma posição combativa em relação ao governo brasileiro. Lembrando que ele fez vários tweets. O secretário liderou as sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, o Alexandre de Moraes, foi ele quem traz essa informação a público, vai lá nas redes sociais. Teve na frente também da revogação de vistos de outras autoridades brasileiras, como a gente sabe do ministro da Saúde por causa do programa Mais Médicos. O Rubio criticou o presidente Lula no passado e não visitou o Brasil desde que se tornou o secretário de Estado. E também a gente sabe que ele não tem muita simpatia, vamos dizer assim, pelo presidente Lula. O presidente chegou a dizer que o ex-senador não tem o conhecimento real do Brasil, não conhece a realidade brasileira.
Natu Zaneri
Tem uma Casa Branca à Trump, em que Trump conversa diretamente com grupos empresariais. Então, o lobby antes feito no mundo da diplomacia, agora ele entra direto dentro do salão oval. O presidente conversa com esses empresários. Conversa, por exemplo, com o Joesley Batista, o empresário do Império da Carne, o empresário brasileiro. A outra Casa Branca, mais pragmática, aquela que acha que empurrar os Estados Unidos mais pra perto da China seria um erro estratégico, quem que tem mais peso em todas essas versões da Casa Branca?
Brian Winter
Depende do dia e depende da hora. Eu não vejo uma coordenação, eu vejo um presidente bastante indeciso, que para ser justo, está com duas prioridades um pouco contraditórias. Por um lado, a prioridade de ajudar essa onda conservadora da direita que estamos vendo em praticamente toda a América Latina desde o ano passado. É um grupo que quer que essa onda continue. Tem grandes possibilidades de líderes de direita ganharem eleições ainda esse mês em Peru e na Colômbia. Esse grupo vê Lula, talvez não exatamente como uma ameaça, mas como um aliado de figuras como Nicolás Maduro, que já está numa prisão aqui nos Estados Unidos, de Cuba. E bom, tem outro grupo que está pensando, mais pragmático talvez, que está olhando para o mundo, vê a ameaça, que é a China, e viu a ameaça chinesa de não mandar mais terras raras para os Estados Unidos. Essa ameaça foi no ano passado.
Marco Rubio
O governo americano convocou 54 países, mais a União Europeia, para uma reunião. O Brasil era um deles. O secretário de Estado, Marco Rubio, disse que os minerais estão muito concentrados num único país, a China, que usa essa dominância como ferramenta de influência geopolítica. Atualmente, a China controla 70% da extração e 90% do processamento mundial de minerais críticos e terras raras. E os Estados Unidos agora tentam reverter esse cenário, buscando um domínio maior sobre a produção, o refino e, é claro, os preços. O Ministério das Relações Exteriores chinês criticou o que denominou de iniciativas que prejudiquem a ordem econômica e comercial internacional.
Brian Winter
Eles olharam o mapa e, bom, quem tem as segundas reservas de terras raras no mundo é o Brasil. E esse grupo que quer uma posição mais pragmática com o Brasil, seja quem for o presidente, porque acham que é importante para a segurança nacional dos Estados Unidos, porque sem essas terras raras tem um problema terrível com a produção de várias coisas, telefones móveis e também aviões. E é nocivo para a defesa dos Estados Unidos não ter essas terras raras. Então, estamos vendo uma batalha entre esses dois grupos com ações totalmente contraditórias num período de um mês, com a visita do presidente Lula e poucas semanas depois não só a visita do Flávio Bolsonaro, mas agora esses anúncios.
Natu Zaneri
Tem alguém que represente esse grupo mais pragmático? Porque se o Marco Rubio representa a turma do Maga dentro da Casa Branca, quem é o exemplar que fala por essa corrente mais pragmática?
Brian Winter
Não sabemos com certeza, são vozes do Pentágono, por exemplo, ligados à segurança nacional, forças armadas, talvez alguns no Tesouro, que tem uma visão mais econômica das coisas, talvez um pouco menos ideológica. Mas não quero exagerar, porque é um governo, é uma Casa Branca que tem contradições por todos os lados, começando com o presidente Trump. E eu acho que é importante aqui sair um pouco da relação bilateral e entender que houve essa postura de avançar com um pé e recuar com o outro com outros países, como a Índia, por exemplo, ou com o México, que também teve essas decisões contraditórias. E eu vejo Natuza tudo isso como produto de um país onde as instituições pesam menos, o poder de toma de decisões está muito concentrado na Casa Branca e com o mesmo presidente Trump, e isso torna tudo muito menos previsível.
Natu Zaneri
Bom, vamos então viajar aqui no tempo e voltar a abril de 2025, no chamado, entre muitas aspas, dia da libertação. Naquele momento, os produtos brasileiros passaram a ser tarifados em 10%. E aí, meses depois, após uma articulação de um dos filhos do presidente Bolsonaro e o aliado dele, Paulo Figueiredo, houve um anúncio de que o Brasil seria taxado bem acima de outros países, em 50%.
Natuza Nery
Já a correspondente Raquel Krahenbou encontrou o deputado licenciado do PL Eduardo Bolsonaro perto da Casa Branca, em Washington. O deputado licenciado voltou a defender a taxação de 50% de produtos brasileiros. Relacionou a sobretaxa de Trump a decisões tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, e manifestou opinião pessoal sobre uma possível aplicação de outras sanções de Donald Trump contra o Brasil. Ele chamou essas medidas de alavancas.
Flávio Bolsonaro
Eu não falo em nome de nenhuma autoridade. Mas, desse jeito, muito provavelmente o Trump também vai utilizar, vai apertar outras alavancas para responder ao Brasil.
Natuza Nery
Que outras alavancas seriam essas? O que você está ouvindo por aqui?
Flávio Bolsonaro
A disposição dele, né? Você tem lei Magnitsky, você tem IEPA, você tem congelamento de bens, você tem cancelamento de vistos.
Natu Zaneri
E aí, na ocasião, o Trump justificou a medida com uma motivação política. Ele dizia que havia uma caça às bruxas contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Brasília reagiu, buscou negociação, não deu muito certo e aí teve aquele encontro de Lula e de Trump na Assembleia Geral da ONU, e Trump acaba dizendo que rolou química entre ele e Lula. Bom, a relação vai para um outro lugar, passa-se o tempo, o Brasil consegue reverter, depois de muito esforço, depois de prejudicar muitos setores da economia brasileira, isso pareceu ter ficado para trás. Ato contínuo, a eleição, o processo eleitoral começa, Flávio Bolsonaro vai ao encontro de Donald Trump, consegue o que queria, não dá para a gente não ter elementos para dizer que Flávio pediu e Trump aceitou, já estava tudo meio que escrito nas estrelas para Trump aceitar a proposta de considerar Comando Vermelho e PCC como crime organizado, algo que tem consequências para o sistema financeiro ainda em avaliação, mas que tem uma consequência potencialmente ruim. E agora veio esse tarifaço 2.0. Eu queria entender isso no âmbito de uma investigação, que é chamada de investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio Americana. Qual é a diferença entre o tarifaço do dia da libertação e o tarifaço baseado nessa legislação, nessa Seção 301?
Brian Winter
Natuza, é uma grande telenovela essa história, né? Mas para responder a sua pergunta, basicamente a Seção 301 é uma lei, um código que vem dos anos 70 e dá um sustento mais sólido legalmente para as tarifas do presidente Trump. E isso se tornou importante a partir da decisão da Corte Suprema nossa em fevereiro deste ano, que disse que o presidente Trump não tinha autoridade para impor tarifas sozinho. E ele está usando esse mecanismo para reimpor essas tarifas a vários países no mundo. E o Brasil não é o único, mas fica entre os primeiros onde vemos o resultado do caso, o que também implica ou sugere, no mínimo, um elemento político. Também é verdade que essas aligações que o caso faz são bastante amplas. Tem aqui questões, eu já mencionei o PIX, mas também fala de propriedade intelectual,
Natu Zaneri
25 de março, quando fala de propriedade intelectual, são os produtos vendidos na 25 de março. Se o Trump soubesse como a 25 de março é popular, não só em São Paulo, mas para muita gente que vende fora do estado para comprar e vender nas suas regiões, ele saberia do quão impopular é falar mal da 25 de março.
Brian Winter
É, nem o Pix, né?
Natu Zaneri
Exato, assim como o Pix.
Government Official
O governo americano afirma que a 25 de março é, há décadas, um dos maiores mercados mundiais de produtos falsificados. No documento diz, o Brasil não conseguiu abordar de forma eficaz a importação, distribuição, venda e uso generalizado de produtos falsificados, consoles de jogos, dispositivos de streaming ilegais e outros dispositivos de violação. Quanto ao Pix, o documento afirma, O Brasil também parece se envolver em uma série de práticas desleais com relação aos serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a tirar vantagem dos serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo.
Brian Winter
Outras coisas como o etanol, a suposta leniência do governo brasileiro com a corrupção e até o desmatamento, que é uma grande surpresa ver esse reclamo aqui. nessa decisão porque, digamos, o meio ambiente não tem sido exatamente uma prioridade dessa Casa Branca.
MapBiomas Representative
O Brasil registrou em 2025 a menor área desmatada nos últimos sete anos, segundo um novo relatório do MapBiomas ao todo. O país teve menos de um milhão de hectares desmatados no ano passado. Foi uma queda de 20%, um pouquinho mais de 20% de queda em relação a 2024. Todos os biomas do país tiveram uma redução na área desmatada, com destaque para o Pantanal, quase 50% de redução em relação ao ano anterior.
Brian Winter
Mas enfim, esse é o mecanismo que eles estão usando agora? E eu interpreto tudo isso como que esse grupo mais focado no Departamento de Estado, que tem o hábito de ver a América Latina em grupos de esquerda e direita, que está mais preocupado em temas como o crime organizado e menos na economia, acho que esse grupo está em ascenso de novo. É notável que o secretário de Estado, Rubio, não esteve presente para o encontro do presidente Lula. Eu achei, naquele momento, que era uma coincidência. Agora estou começando a achar que não foi e que ele votou e que houve uma série de pressões por parte de aliados bolsonaristas também para reverter um pouco o sucesso dessa visita. E também outro fator foi todo esse caso do banco Master. Basicamente, o Flávio Bolsonaro precisava de uma vitória, precisava mudar a narrativa. E, de fato, aqui estamos agora falando do presidente Trump e não do caso Master, que implica que talvez essa estratégia produza alguns efeitos.
Natu Zaneri
Essa é a minha dúvida, Brian, porque o tarifaço não foi bom politicamente para a família e é possível que esse novo tarifaço não seja bom para Flávio Bolsonaro não à toa. Flávio Bolsonaro escreveu agora um ofício em inglês como senador da república pedindo Prática para dizer que ele é contra, pedindo ajuda ao governo americano. Essa é uma sinalização de que ele pode sentir esse golpe também, assim como o bolsonarismo sentiu no primeiro tarifaço de Trump. Os Estados Unidos estão tão difíceis de serem entendidos quanto o Brasil e a gente já viu que nessa história do Trump, Cada passo que ele der rumo ao processo eleitoral brasileiro, talvez ele mais prejudique Flávio Bolsonaro do que ajude, não?
Brian Winter
Atuza, eu alertei no momento da visita do Flávio Bolsonaro para a Casa Branca que era um risco, porque quando você entra no salão oval, Você nunca sabe o que o presidente Trump vai fazer. Ele tentando ajudar pode acabar te prejudicando. Aconteceu na primeira visita, nessa primeira ocasião do primeiro tarifaço no ano passado, onde aparentemente o Eduardo Bolsonaro naquele momento não pediu tarifas. Foi uma ideia do presidente Trump e, bom, deu no que deu. E essa vez é verdade. Parece que a família Bolsonaro está entendendo mais rapidamente que realmente pode ter um efeito contrário a eles como consequência desse novo tarifazo, esse segundo tarifazo. Embora haja mais elementos, talvez técnicos, e uma estratégia global por trás, o timing, no mínimo, cria a impressão de uma decisão política por parte do governo do presidente Trump. E eles entendem que o efeito pode ser negativo mesmo.
Internet Commentator
E o tarifaço pro Flávio é ruim. A internet já tá chamando de tariflávio. Como é que ele vai justificar que ele foi o responsável por classificar Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas, mas essa parte da tarifa que a família Bolsonaro já comemorou, dessa vez eu não quero, eu sou contra. Então, acredito que o governo americano deu sinais claros com fatos de que tirou o título de eleitor para participar das eleições brasileiras.
Natu Zaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Brian Winter. Se a gente for entrar um pouco mais nessa segunda versão do tarifácio, tem alguns setores que ficaram fora da taxação. Frutas, e aí tem laranja, tem outros itens como café, carne bovina, minerais, terras raras você citou, né? Combustíveis, produtos químicos e farmacêuticos, componentes da aviação civil, metais preciosos, papel, madeira. Por que esses produtos ficaram de fora? É para não causar nenhum risco de desabastecimento ou um risco inflacionário que possa se reverter contra o Trump?
Brian Winter
Voltando um pouco no tempo, eu acho que houve dois fatores que explicaram o recuo do presidente Trump no primeiro tarifaço. O primeiro foi o que já mencionei sobre a necessidade das terras raras. Esse encontro entre o presidente Trump e Lula nas Nações Unidas foi uma coisa orquestrada. A decisão estratégica já tinha sido tomada. Essa química entre eles Eu acho que foi mais uma narrativa para vender um pouco o que já foi acordado, o que já foi feito, o que foi uma decisão de deixar o tarifaço para começar a negociar um acordo sobre as terras raras. O segundo ponto era o efeito do tarifaço contra o Brasil sobre a inflação aqui nos Estados Unidos, no momento quando a popularidade do presidente Trump estava, e ainda está, em queda. É uma queda lenta, mas contínua. É pressionada principalmente pela inflação, pelo aumento dos custos. É o que nós chamamos aqui de agenda da affordability. E então esse novo tarifazo, esse segundo tarifazo, possível tarifazo agora, porque não foi oficializado ainda, tenta evitar esse risco isentando ou deixando alguns produtos por fora. Tem outro motivo também na Tusa, que acho importante falar de maneira direta, que é o lobby. Tem muito negócio aqui, tem vários interesses que procuram essas isenções e muitos grupos que ganham ao procurar o acesso necessário para garantir essas exceções. Então, isso também é um fator.
Natu Zaneri
Bom, Brian, sobre as falas que aconteceram nesta terça-feira, que é quando a gente grava, Lula disse que o secretário Marco Rubio é anti América Latina. Também neste dia em que a gente grava, o próprio Marco Rubio listou países amigos dos Estados Unidos, deixando o Brasil como uma exceção. E eu queria tentar entender o que você acha que vai acontecer a partir de agora. O Lula também disparou contra Flávio Bolsonaro, chamando-o de párea, diz que os filhos de Bolsonaro são piores do que ele, que vendem o Brasil, etc. Enfim, muito sumo pra disputa eleitoral. O que você acha que acontece a partir de agora?
Brian Winter
Tem um mês agora para evitar a implementação desse segundo tarifazo. E será interessante ver quem se soma a esse grupo que está tentando evitar a sua implementação. Eu pergunto se o senador Flávio Bolsonaro vai fazer um grande esforço para evitar as tarifas. Com certeza, câmaras de comércio dos Estados Unidos e outros grupos também vão tentar evitar essas novas tarifas. Mas, por outro lado, como você falou, tem o secretário Marco Rubio, que tem uma longa carreira antes de ser o secretário de Estado, de conhecer bem a América Latina, de viajar muito pela região e de perceber a região como dividida entre grupos de líderes de esquerda e direita, sem fazer muita diferença entre o grupo de esquerda, ou seja, ele sempre associava Presidente Lula e Nicolás Maduro ou o atual presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, como ele fez agora no seu testemunho no Senado, hoje. Então, eu acho que é uma visão mais ideológica das coisas. É importante destacar que esse grupo acha que teve muito sucesso nos últimos 18 meses. Eles estão conseguindo eleger aliados em países como Chile, Costa Rica, Bolívia e talvez veremos agora nas próximas três semanas se eles conseguem também na Colômbia e no Peru, onde os dois candidatos líderes nas pesquisas são também de direita. Eles também conseguiram negociar com o governo mexicano uma postura muito mais dura contra o crime organizado e contra a migração irregular. E eu acho que está claro que eles sentem, não sei se sentem invencíveis nesse momento. Mas acham que essa estratégia mais agressiva está produzindo efeitos positivos para os interesses dos Estados Unidos. Querem aplicar uma estratégia parecida ao Brasil. O tema é, e aqui volto à minha provocação anterior de que ninguém entende o Brasil, o Brasil tem uma história de não se comportar como países como Honduras. México também é um país grande, mas está muito exposto aos Estados Unidos porque manda mais de 80% das suas exportações para os Estados Unidos. Então o governo Sheinbaum não tem outra alternativa. O Brasil tem. O Brasil tem peso próprio. Quer aliança com os Estados Unidos? Eu acho que quer. mas também está procurando diversificar. Eu acho que essa falta de entendimento foi o que ajuda a explicar o que levou a esse episódio o ano passado. E quem sabe se agora estamos repetindo, pelo menos parcialmente, essa história.
Natu Zaneri
E você acha que essa conduta da Casa Branca empurra mais o Brasil pra perto da China, por exemplo? Eu te pergunto isso porque o Mauro Vieira, que é o chanceler brasileiro, ministro do Itamaraty, está nesse momento em Pequim. Celso Amorim já estava num evento na Rússia até a semana passada. Que tipo de movimentação pode haver com esses gestos de Trump?
Brian Winter
Acho que é um fenômeno que estamos vendo mundialmente. O responsável pela assinatura do acordo entre o Mercosur e a União Europeia depois de 25 anos de negociação foi o Donald Trump. México também está procurando diversificar. Acabou de assinar um acordo também com a Europa. Lula está viajando o mundo. Ele esteve em Washington. mas também nos últimos dois anos esteve no Japão, Vietnã, na China, entre outros lugares. Então, eu acho que quase todos os países do mundo estão fazendo duas coisas ao mesmo tempo. Tentando atender os reclamos do presidente Trump, tentando evitar a raiva dos Estados Unidos e as consequências, Mas ao mesmo tempo, meio com a outra mão, estão tentando diversificar e minimizar o risco de lidar, de negociar com Estados Unidos e procurar outros parceiros para o comércio, investimento e outras coisas.
Natu Zaneri
Brian Winter, meu caro amigo, muito obrigada por topar mais uma vez conversar aqui com a gente no assunto.
Brian Winter
Obrigado, como sempre, Natuza.
Natu Zaneri
Este episódio ou áudios da Rádio Itatiaia. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 03 de junho de 2026
Host: Natuza Nery, G1
Convidados: Brian Winter (editor-chefe da America's Quarterly), representantes da Febraban, MapBiomas, e declarações de Lula, Flávio Bolsonaro, Marco Rubio, entre outros.
O episódio analisa, em profundidade, a decisão do governo Trump de propor um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, resultado de uma investigação comercial norte-americana. O podcast aborda o contexto político, econômico e diplomático dessa medida, explorando seus impactos sobre as relações Brasil-EUA, a dinâmica da eleição brasileira de 2026, e o papel de atores como Flávio Bolsonaro, Lula, o secretário de Estado Marco Rubio e outros.
[00:00 – 01:52]
"A imposição de taxas sobre mercadorias brasileiras é uma punição. É o resultado de uma investigação que acusa o Brasil de práticas desleais no comércio com os americanos."
— Natuza Nery [00:48]
[00:22 – 01:12 / 12:01 – 14:55]
"Essa tarifa é muito mais perigosa do que a outra... aquela foi improvisada. Tanto que a justiça americana condenou o tarifaço."
— Brian Winter [00:31]
"A Seção 301 é uma lei dos anos 70 que dá um sustento mais sólido legalmente para as tarifas do presidente Trump."
— Brian Winter [14:55]
[02:36 – 06:02 / 12:33 – 14:55]
"O que eu quero dizer com isso é que esse filho do Bolsonaro consegue ser pior do que ele. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores."
— Lula [03:25]
"Eu pedi expressamente, nas três reuniões que nós tivemos, [...] não taxem as empresas brasileiras."
— Flávio Bolsonaro [03:45]
[01:12 – 01:17 / 05:04 – 05:27 / 16:00 – 17:26]
"Quem coloca o PIX no centro do caso claramente não entende o Brasil."
— Brian Winter [05:04]
"A 25 de março é, há décadas, um dos maiores mercados mundiais de produtos falsificados."
— Governo dos EUA, relido por comentarista [16:25]
[06:02 – 10:58]
"Depende do dia e depende da hora. Eu não vejo uma coordenação, vejo um presidente bastante indeciso..."
— Brian Winter [08:04]
[09:13 – 10:58 / 21:47 – 24:24]
"Tem outro motivo também... o lobby. Tem muito negócio aqui, tem vários interesses que procuram essas isenções."
— Brian Winter [24:24]
[02:36 / 24:24 – 25:06 / 28:08 – 29:44]
"Celso Amorim já estava num evento na Rússia até a semana passada. Que tipo de movimentação pode haver com esses gestos de Trump?"
— Natuza Nery [28:08]
[19:13 – 21:47 / 25:06 – 29:44]
"Eu alertei no momento da visita do Flávio Bolsonaro para a Casa Branca que era um risco... Você nunca sabe o que o presidente Trump vai fazer."
— Brian Winter [20:03]
"O que ajuda a explicar o que levou a esse episódio o ano passado... quem sabe se agora estamos repetindo, pelo menos parcialmente, essa história."
— Brian Winter [27:35]
O episódio detalha as múltiplas camadas políticas, econômicas e ideológicas por trás do novo tarifaço, mostrando como decisões dos EUA afetam não só a economia brasileira, mas também a cena política nacional, podendo inclusive contrariar interesses de aliados de Trump no Brasil. Os participantes avaliam que a medida, embora tecnicamente respaldada, é permeada por motivações políticas e pode ter o efeito oposto ao desejado, tanto para Flávio Bolsonaro quanto para a relação EUA-Brasil, incentivando o Brasil a diversificar suas alianças globais.
[Nota: Trechos de anúncios, abertura, encerramento e créditos foram omitidos.]