O Assunto – O poder das facções no Nordeste
Data: 4 de novembro de 2025
Host: Natuza Nery
Convidados:
- Gabriela (repórter do G1 Ceará)
- Francisco Eleonardo de Melo Nascimento (professor e coordenador do COVIO, UECE)
Visão Geral do Episódio
Este episódio do podcast "O Assunto" investiga o avanço e o crescente poder das facções criminosas no Nordeste do Brasil, com foco especial no estado do Ceará. A apresentadora Natuza Nery conduz conversas profundas com a jornalista Gabriela, que reportou de dentro de regiões afetadas, e com o pesquisador Francisco Leonardo de Melo Nascimento, que analisa o fenômeno do ponto de vista estrutural e político. Os tópicos incluem a expansão dos grandes grupos criminosos do Sudeste para o Nordeste, práticas de expulsão de moradores, o impacto social nas comunidades locais, conexões com a política regional e as razões estratégicas que tornam o Nordeste um terreno fértil para o crime organizado.
Principais Pontos de Discussão e Insights
A Origem e a Expansão das Facções (00:02-01:06)
- Facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), criadas no Sudeste, migraram para outros estados, principalmente o Nordeste.
- “As 10 cidades mais violentas do Brasil estão no Nordeste, 5 delas na Bahia” (Narrator, 00:18).
- No Nordeste, essas facções aliaram-se ou disputam território com grupos locais, compondo 44 facções ativas na região, que representa 52% das 88 catalogadas no país.
O Impacto nas Comunidades e os Serviços Paraisos (01:06-01:50)
- A ação das facções ultrapassa o tráfico de drogas. Elas oferecem “serviços”, cobram taxas, monitoram passos da população e impõem suas próprias regras de convivência.
Infiltração Política e Casos Emblemáticos (01:50-02:24; 24:21-27:24)
- As facções têm poder suficiente para influenciar eleições locais, como em Santa Quitéria, onde o mandato do prefeito foi cassado por ligação ao Comando Vermelho.
- “A combinação de dinheiro e poder atrai facções criminosas.” (Francisco Eleonardo, 01:52)
- O domínio se dá tanto na base da força quanto na manipulação eleitoral, atingindo as estruturas políticas e a governança municipal.
A Vila Fantasma e o Medo Coletivo (03:34-12:47)
Denúncia in loco
- Gabriela reporta diretamente de Jacarezal, a “vila fantasma” em Pacatuba-CE, ilustrando o terror imposto às comunidades.
- “Quando eu cheguei eu fiquei muito surpresa pelo contraste (...), na vila não existia nada, assim, eu lembro de ficar muito chocada com esse cenário de onde é que estão todas as pessoas que moravam aqui.” (Gabriela, 03:34)
- Pixações de diferentes facções sobrepostas evidenciam a violência da disputa territorial.
Expulsão e silêncio
- Moradores foram ameaçados e expulsos em massa entre 22 e 25 de setembro de 2025.
- O medo paralisa e impede até mesmo a procura por justiça.
- “Eu ouvi relatos de pessoas que estavam com medo de ir para o trabalho porque têm que passar por ali (...)” (Gabriela, 05:46)
- Casas, comércios e igreja local foram completamente abandonados e permanecem “como se as pessoas tivessem saído às pressas”.
Dinâmica da Expulsão (08:36-12:47)
- Expulsões coletivas não são pontuais; há registros frequentes em diversas cidades do Ceará e outros estados nordestinos desde 2015.
- “Esse movimento de expulsão tem sido observado aqui no estado desde 2015.” (Gabriela, 10:54)
- Situação similar em Uiraponga (Morada Nova) expôs mais de 300 famílias.
Violência Estrutural e Mortalidade (12:47-15:48)
- Casos recentes, como o confronto em Canindé onde sete membros do CV (entre 15 e 22 anos) foram mortos, revelam tanto o grau da disputa quanto a juventude dos envolvidos.
- “O governo diz que a guerra de facções é o que causa 90% dos homicídios no Estado.” (Narrator, 05:02)
- O Ceará apresenta a maior taxa de homicídios por 100 mil habitantes no Brasil.
Estratégia Logística e Rotas (09:12; 13:05-15:48; 30:17-30:40)
- Regiões próximas a rodovias, aeroportos e portos são alvos prioritários, facilitando o escoamento de entorpecentes e mercadorias ilícitas.
- “O Ceará é um estado muito estratégico para esses grupos por dois motivos principais. O primeiro pela posição geográfica... O segundo porque a gente tem boa infraestrutura de portos, aeroportos, rodovias...” (Gabriela, 14:38)
- A proximidade do Nordeste à Europa através do mar torna-o peça central do tráfico internacional.
O Novo Modelo de "Governança" das Facções (16:43-21:37)
- A chegada de mega-facções do Sudeste reformulou a lógica do crime nos territórios locais, agregando gangues menores sob uma nova forma de controle social, inclusive em zonas rurais.
- “Elas conseguiram a adesão de gangues locais... e implementaram um novo modo de governança de práticas criminais.” (Francisco Eleonardo, 18:03)
- Diferenças geográficas tornam o controle e o policiamento diferentes em relação ao Sudeste, aumentando a letalidade nas disputas.
Interiorização e Nacionalização do Crime (23:09-24:21)
- O domínio criminoso foi além das capitais e chegou a cidades pequenas e zonas rurais.
- Facções originárias do Nordeste, como “Guardiões do Estado” no Ceará e “Bonde dos 40” no Maranhão, surgiram espelhando-se nas grandes do Sudeste.
Controle Político e Intimidação (24:21-27:47)
- Relatos de candidatos e campanhas forçados por facções, além de votos direcionados pelo medo e ameaça direta.
- “Essa lógica se dá por uma série de ameaças e que interfere a vida e a lógica de fazer campanha no Nordeste Brasileiro. Me parece muito semelhante a lógica do coronelismo.” (Francisco Eleonardo, 27:24)
Medo, Silêncio e Impedimento de Justiça (28:24-30:08)
- Facções usam o medo como instrumento central de dominação. O silêncio da população obstaculiza denúncias e facilita o domínio territorial.
- “Esse medo provoca o silêncio. E um dos principais efeitos desse medo é impedir que essas vítimas busquem acesso à justiça.” (Francisco Eleonardo, 28:24)
- Em alguns estados, mulheres são desencorajadas a denunciar violência doméstica para evitar a presença policial.
Notáveis Citações & Momentos-Chave
- “Vila Fantasma define bem, assim, essa região que se chama Jacarezal… O que era para ser Pacato não é mais, né?”
— Gabriela (03:34) - “A guerra de facções é o que causa 90% dos homicídios no Estado.”
— Narrator/Reporter (05:02) - “A combinação de dinheiro e poder atrai facções criminosas.”
— Francisco Eleonardo (01:52) - “Esse medo provoca o silêncio. E um dos principais efeitos desse medo é impedir que essas vítimas busquem acesso à justiça.”
— Francisco Eleonardo (28:24) - “Me parece muito semelhante à lógica do coronelismo, que por muito tempo vigorou aqui no Nordeste Brasileiro.”
— Francisco Eleonardo (27:24) - “O Ceará é um estado muito estratégico para esses grupos…”
— Gabriela (14:38)
Timestamps de Segmentos Relevantes
- 00:02-01:06 – Panorama da evolução das facções do Sudeste para o Nordeste
- 03:34-10:17 – Relato sobre a vila fantasma em Pacatuba e o cotidiano dos expulsos
- 10:54-12:47 – Explicação sobre frequência e impunidade em casos de expulsão coletiva
- 13:05-15:48 – Relato da operação policial em Canindé e análises sobre a atratividade do Ceará para o tráfico
- 16:43-18:43 – Histórico da expansão criminosa e sua rápida disseminação por territórios urbanos e rurais
- 21:37-22:38 – Cenas de violência letal em escolas e comunidades
- 24:21-27:24 – Interferência política das facções, com exemplos de prefeitos eleitos sob ameaça
- 28:24-30:08 – Análise das consequências do medo social e do silêncio imposto pelas facções
- 30:17-30:40 – Questões logísticas e a rota Nordeste-Europa como fator-chave
Conclusão
O episódio revela um retrato alarmante e complexo do poder das facções no Nordeste, mostrando como o domínio vai além do tráfico, se infiltra na política e no cotidiano das comunidades, utilizando o medo como arma de controle social. O território nordestino – estratégico para o tráfico e rico em variações geográficas – converte-se em campo de disputa sangrenta, cujas consequências envolvem mortalidade recorde, deslocamento de populações e grave desafio à democracia regional. A ausência de soluções estruturais do poder público e a eficiência das redes criminosas para cooptar ou silenciar atores locais tornam o combate à criminalidade ainda mais árduo.
