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Natuza Nery
Em seu quarto dia, as consequências do confronto entre Estados Unidos e Israel e Irã se expandem e ganham novas frentes. Nesta terça-feira, por exemplo, um general da Guarda Revolucionária Iraniana ameaçou atacar, palavras dele, todos os centros econômicos do Oriente Médio. Isso Caso os bombardeios continuem. Ebrahim Habari disse que a resposta iraniana pode mirar a infraestrutura econômica de toda a região. E as consequências disso, claro, vão muito além do campo de batalha. Cruzam fronteiras, chegam aos mercados, pressionam os preços.
José Roberto Mendonça de Barros
Petróleo e dólar são fatores de influência para todo um sistema econômico mundial. Aumentos em série levam a um efeito cascata no qual produtos influenciados por essas variáveis têm seus preços para o consumidor alterados. Isso é capaz de mexer com o seu orçamento pessoal, com o seu orçamento familiar.
Narrator/Reporter
Os preços do barril de petróleo já dispararam. Para a Ásia e parte da Europa, que compram muito petróleo da região, a preocupação é maior.
Natuza Nery
O motivo está, sobretudo, na geografia iraniana.
Market Analyst
É importante sempre lembrar da posição estratégica do Irã na produção e na distribuição de petróleo no mundo. Além de ser um dos principais produtores, o Irã está rodeado de países com grandes reservas, como a Arábia Saudita.
Natuza Nery
boa parte do petróleo que move o mundo está ali. O Oriente Médio é uma peça-chave no mercado global de energia. O Irã, por exemplo, guarda a terceira maior reserva do planeta. A Arábia Saudita tem a segunda e a Venezuela, essa por óbvio em outra região, tem a primeira.
Energy Sector Expert
São várias instalações paralisadas por causa do conflito. O Catar interrompeu a produção de gás natural liquefeito depois de ataques iranianos com drones ao seu principal complexo de processamento. O país produz 20% da oferta global desse combustível, usado principalmente para gerar energia elétrica e calefação. Na Arábia Saudita, o Irã atacou a maior refinaria de petróleo, que produz 550 mil barris por dia. Em Israel, o governo determinou a interrupção das atividades em grandes campos de gás no mar. No Irã, explosões foram registradas na ilha, de onde sai a maior parte das exportações de petróleo do país.
Natuza Nery
Grande parte desse petróleo precisa cruzar um corredor estratégico para abastecer o mundo.
Narrator/Reporter
O Estreito de Hormuz liga o Golfo Pérsico, onde estão cinco dos dez maiores produtores do mundo, ao Golfo de Omã. Os navios trafegam por rotas de três quilômetros de largura em cada sentido. Uma navegação considerada desafiadora.
Natuza Nery
Por lá passam 20% do petróleo comercializado no planeta. São 18 milhões de barris por dia, dez vezes mais do que o Brasil exporta.
Energy Sector Expert
O governo iraniano anunciou o fechamento do estreito de Hormuz.
Narrator/Reporter
O mercado mundial de petróleo é muito volátil e responde rapidamente a qualquer instabilidade. Fechar o estreito de Hormuz é como fechar uma torneira. E na dúvida sobre a disponibilidade do produto, o preço sobe.
Natuza Nery
O impacto é quase imediato.
Energy Sector Expert
Como efeito do que já aconteceu e das incertezas à frente, o preço do petróleo chegou a atingir o valor mais alto desde janeiro de 2025.
Natuza Nery
E pode piorar.
Narrator/Reporter
Os economistas afirmam que o aumento no preço do petróleo pode pressionar os índices de inflação no mundo inteiro. Mas que a força desse impacto depende do tempo que o conflito vai durar.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Ana Tuzaneri e o assunto hoje é o efeito dominó do preço da guerra. Neste episódio, eu converso com José Roberto Mendonça de Barros, fundador e sócio da consultoria MB Associados. Ele foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 1995 e 1998. Quarta-feira, 4 de março. Zé Roberto, a guerra, como sabemos, tem provocado o fechamento do Estreito de Ormuz, uma importante passagem para grande parte do petróleo do mundo. Quais são os efeitos esperados no preço do barril? A gente já viu ontem o preço do barril aumentar, hoje essa escalada foi ampliada. Trump diz que essa guerra tem cinco semanas para durar, ninguém é capaz de dizer que termina antes disso, pode ser que dure mais tempo. A gente está falando de que cenário para o petróleo?
José Roberto Mendonça de Barros
Olha, é um cenário de pressão num mercado que estava relativamente oferecido, isto é, até antes da guerra, por isso que é uma mudança brusca e dramática, a oferta de petróleo tem crescido muito mais do que a demanda no ano passado e nesse ano. Então era para o petróleo estar indo na direção dos 60 dólares, era a expectativa dos mercados e dos futuros. E este choque, portanto, é brutal, porque há pouco, como você mencionou, o Brent estava acima de 80 dólares e o West Texas, que é o padrão americano, já estava em 74 dólares. E a gente sabe, pelas experiências do passado, que pode até subir mais. Depende exatamente desse jogo de oferta e procura.
Narrator/Reporter
No Brasil, a bolsa fechou em queda de 3,46%. O dólar subiu 1,91% e fechou em R$ 5,26. As cotações do ouro perderam um pouco de força e o barril do petróleo voltou a subir.
José Roberto Mendonça de Barros
Mas eu acho que o que dá para dizer é que enquanto durarem as hostilidades e a incerteza, o número do preço do petróleo será de 80 dólares, talvez para um pouco mais. Porque, como fortemente noticiado, você mencionou, pelo Estreito de Ormuz passa mais ou menos 20% do mercado global. É muita coisa, né, Natuza? Então a pressão vai ser forte mesmo enquanto durar essa guerra.
Natuza Nery
É factível a gente imaginar o barril alcançando a marca de 100 dólares no curto prazo?
José Roberto Mendonça de Barros
Curtíssimo prazo eu acho difícil, mas aí entra exatamente a duração. Por quê? Porque agora existem estoques no sistema, estão navios que não estão presos lá, estoques nos países, nos distribuidores, etc. Embora há que se lembrar, o inverno nos Estados Unidos, de janeiro pra cá, foi terrivelmente duro, o que significa que o país vem consumindo mais do que o normal em todo lugar do hemisfério norte. Com esse inverno duro, a mesma coisa. Então, por isso que o tempo é crucial. Imagina que fosse uma semana. Só tem pressão de preço, mas os estoques disponíveis são suficientes para guardar a volta da normalidade. Um mês já é muito complicado, porque os estoques não são desse tamanho. Um mês realmente começa a fazer falta o petróleo e o único jeito de ajustar é aumentar o preço. Se durar além de um mês, aí os níveis serão mais elevados ainda. Portanto, a resposta é Na hipótese de quatro, cinco semanas, como levantou o presidente americano, é pressão para valer e vai atrapalhar bastante o mundo.
Natuza Nery
Bom, inverno rigoroso me remete também a gás natural, porque é o que aquece as casas, por exemplo, as residências de países muito frios, mas não só isso. geração de energia via gás natural, uso comercial, uso industrial também. A gente sabe que o Catar foi atacado e o Catar é um importante produtor de gás natural. E aí, a gente está falando também de um cenário preocupante no caso do gás natural?
José Roberto Mendonça de Barros
Sim. É bastante preocupante. E aí o gás natural utilizado, seja como aquecimento, seja como feeder para a eletricidade, tende a afetar muito a Europa e a Ásia, que é o maior destino do gás do Catar. Há um efeito indireto, como você mencionou. O gás natural é o feeder dos produtos petroquímicos. assim como é também a náfita. E, além disso, ele é o maior matéria-prima para fazer fertilizantes nitrogenados. E, de novo, o golfo é muito importante nisso. E no estreito de Hormuz, em termos de fertilizantes, passa qualquer coisa entre 20% e 40% a cada momento da oferta mundial desses fertilizantes. Então, fertilizantes nitrogenados também vão sofrer aí, pega na agricultura do mundo inteiro, inclusive por nós aqui.
Market Analyst
O ataque ao Irã já começou a provocar reflexos no mercado internacional de fertilizantes, nos preços especificamente. O país é um dos principais fornecedores globais de ureia. consumo nitrogenado amplamente utilizado em lavouras de grãos aqui no Brasil, mas também em outros países. Logo após o início do conflito, fornecedores do Oriente Médio já retiraram suas ofertas do mercado, aguardando maior clareza sobre os preços. A avaliação é de que há, neste momento, um enxugamento da oferta por decisão dos próprios vendedores, que tentam entender até onde as cotações podem subir. A preocupação se explica pelo peso na região, na produção global. O Oriente Médio responde por cerca de 40% das exportações mundiais de ureia, 28% das exportações de amônia e 29% das exportações de DAP. São todos esses insumos aí para a produção de fertilizantes.
José Roberto Mendonça de Barros
Como miséria pouca é bobagem, quer dizer, além do gás natural, a gente tem uma escassez grande de enxofre, que é matéria-prima de ácido sulfúrico que solubiliza fosfatos, então vai afetar o mercado de fosfatos também.
Natuza Nery
importante fertilizante, né?
José Roberto Mendonça de Barros
Que é o importante e indispensável fertilizante. E aí tem uma coisa curiosa, Natuza, o milho é o grande produto da agricultura americana e o milho é um enorme usuário do nitrogênio. Então, a agricultura americana, que já está mal das pernas e com o Trump piorou, vai levar uma pancada no aumento de custos bastante grande. É um efeito enorme esse conjunto e outra indicação do tamanho disso é essa estatística do início da semana da terça-feira, Tinha quase 800 navios presos, ou antes, ou de um lado, ou de outro, do Estreito de Hormuz. 10% da capacidade de containers. Também vai afetar o transporte de containers e todos os tipos de produtos. Ou seja, é um choque tanto para a economia global.
Natuza Nery
A cada dia que passa, a cada novo especialista que eu ouço e você de maneira tão contundente me diz que o estrago para os Estados Unidos pode ser tão grande, eu me surpreendo ainda mais com o fato de Trump ter entrado nessa guerra, porque do ponto de vista geopolítico pode ser um problema, mas do ponto de vista econômico o que está se desenhando É um quadro potencialmente dramático. Agora, não só para os Estados Unidos, né, Zé Roberto? Porque você falava dos países do Golfo. A China, que você também mencionou, precisa muito do petróleo, precisa muito do gás natural para abastecer a sua indústria, que alimenta o mundo inteiro, que abastece, que fornece para o mundo inteiro. A gente já consegue calcular algum impacto para o crescimento chinês neste ano? Ou ainda está cedo para dizer que vai abalar?
José Roberto Mendonça de Barros
Está cedo, porque como eu disse a vocês, agora depende crucialmente da duração da guerra e de quantos dias o fluxo comercial vai ficar afetado. Acima dos 30, 40 dias, sim. Aí não tem dúvida nenhuma e potencialmente é ruim. Olhando por países, Natuza, realmente chama a atenção o tamanho do estrago que vai fazer nos Estados Unidos. Por quê? Embora os Estados Unidos produzam muito petróleo, os preços desses produtos, da gasolina, do fertilizante, derivados de petróleo, nos Estados Unidos seguem os preços globais. Então, olha que coisa, o presidente americano corre o risco de se arrepender desse movimento, porque eu mencionei a agricultura. que é importante politicamente, Natuzela, como aqui, a bancada ruralista é muito maior do que o tamanho do setor. E a agricultura americana está numa situação muito difícil, mas muito difícil. A gente tem que lembrar que o ano passado, uma retaliação que a China fez foi não comprar soja dos Estados Unidos, comprou uma montanha de soja do Brasil. Então, eles estão apertados por vários lados. Você põe aumento no custo de fertilizantes e no custo do diesel, que vai subir também, você aperta mais esse setor. De outro lado, é reconhecido por todos os analistas políticos que a questão da capacidade de compra, da chamada affordability nos Estados Unidos, é central para explicar as várias derrotas do Partido Republicano nas eleições picadas nesse período recente. O presidente americano incorporou isso no seu discurso. Ele está preocupado, a afordabilidade vai ser essa questão, é a chave para o voto de 80% da população que está sofrendo. O custo do cartão de crédito é muito grande, porque o custo de comprar uma casa, a hipoteca está proibitiva e porque o custo de vida está subindo. Aí, destacando. supermercado e gasolina, e a gasolina vai subir. Então, vai ter um custo, eu reputo, de relevante no ponto de vista do presidente e eu acho que ele vai ficar nervoso se isso acontecer e se a guerra extrapolar para os 10 dias e mais e ir na direção de um mês, Natus.
Natuza Nery
Nossa, é muito importante o quadro que você pinta e eu queria olhar um pouco mais detidamente, Zé Roberto, para o preço de alimentos, isso no mundo inteiro. Você explicava que o aumento do preço do fertilizante afeta o mundo agrícola de maneira geral. é um grande produtor de ureia, um importante elemento da produção rural. Diante disso, a gente pode esperar que tipo de alimentos subindo. Você falou do milho, tem o trigo também, que são importantes para os Estados Unidos, mas olhando aqui para o que nos afeta, que tipo de alimentos podem subir e nos impactar aqui no nosso mercado brasileiro?
José Roberto Mendonça de Barros
Olha, nós temos uma grande diferença com os Estados Unidos a nosso favor, porque o que mais vai subir, porque é feito a partir do petróleo, são os nitrogenatos. E o milho é um grande usuário de nitrogenato. Agora, graças à ciência brasileira, a soja não usa nitrogênio, que é o nosso grande produto agrícola. Então, você veja que é interessante, vai sofrer menos. Mais do que isso, no caso da agricultura brasileira, a maior parte do fertilizante já foi comprada e aplicada para esta safra. Vai afetar mais a próxima safra, portanto, a partir do segundo semestre. Agora, o efeito para nós mais complicado é o efeito em cima do fosfatado. Aí afeta os grãos, não? O mais complicado já é a produção de grão. Mas eu acho que é um desconforto para a agricultura brasileira, que os custos de reposição vão subir, mas não é uma trombada tão grande quanto na agricultura do hemisfério norte, que eles estão no inverno agora e vão começar a plantar na primavera, a partir de abril, mais ou menos. Então, é agora que eles têm que comprar fertilizantes, é agora que vai... Por isso que vai machucar mais nos Estados Unidos do que no Brasil.
Natuza Nery
Ou seja, às vezes eu acho que Deus não é brasileiro, mas te ouvindo tô achando que sim.
José Roberto Mendonça de Barros
Nesse caso, Deus e a ciência, né? Porque o fato da soja não usar fertilizantes é resultado direto de pesquisa científica de uns 40 anos atrás e aí nós evitamos. Mas que teve uma ajuda de vida nisso aí? Teve sim.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com José Roberto Mendonça de Barros. Agora eu quero aproveitar todo o seu conhecimento para olhar para o câmbio, para o dólar e para o real. O que a gente pode esperar nesses dois cenários? Porque eu acho que a gente está ficando bem claro, a partir do que você nos conta, que a gente tem dois marcos aqui. O marco dos 10 dias e o marco dos 40 dias. Olhando para o câmbio no marco dos 10 e no marco dos 40, ou pra frente, ou acima disso.
José Roberto Mendonça de Barros
Olha, no curtíssimo prazo, e nós vimos esses dias, o dólar se valorizou. Porque aquela velha história do porto seguro. O ouro também subiu, que é um porto dos aflitos, é chamado porto dos aflitos. O dólar é o porto seguro porque ele acomoda volumes grandes. Então, o índice do valor do dólar frente aos principais concorrentes aumentou. E é isso mesmo, na dúvida você vai e compra um papel do Tesouro Americano, mesmo que não seja a melhor alternativa. Deixa eu olhar um pouquinho mais adiante, mais 40 dias, aí a gente tem que colocar uma outra variável, porque aí a gente vai precisar saber, para ver o que vai acontecer com o dólar, o que vai acontecer com a inflação nos Estados Unidos. Digo isso por quê? Porque o Banco Central americano vem baixando os juros. com cautela, porque a inflação ainda está muito acima da meta deles, que é de 2%, a inflação está por volta de 3%, e o executivo muito contrariado, o presidente ataca o Banco Central com frequência porque não abaixou os juros com a velocidade devida. vai mudar o presidente do Banco Central em maio, e os mercados estão dizendo, olha, antes da guerra, e lá por junho dá para baixar de novo os juros. Só que daqui até lá, a gente tem que ver o que vai acontecer com a inflação e com as suas consequências. Se o Banco Central mudar a política monetária e sugerir até aumento de juros ou deixar de abaixar, o dólar se mantém um pouco fortalecido. Mas se ele, apesar da inflação, acabar seguindo a pressão do Presidente da República e abaixar juros, o dólar volta a se desvalorizar, como aconteceu o ano passado todo e até pré-guerra. O real subiu razoavelmente bem, chegou até estar acima de R$ 5,30. Nesta terça-feira está fechando a R$ 5,27. Ele subiu e assim vai continuar, assim continuar essa guerra. Agora, tem uma coisa de Brasil, Natuza, que é o seguinte, o nosso setor externo está muito robusto. no sentido de que o tarifácio não afetou o Brasil praticamente, afetou segmentos que não conseguiram se livrar das tarifas, tipo calçados e móveis. Aí machuca bastante. Mas do ponto de vista macro, os que foram negativamente afetados são muito pequenos. E o resultado, inclusive em termos do PIB, se você olhar o que saiu do PIB, o resultado das exportações foi muito positivo.
Narrator/Reporter
Depois daquele desânimo momentâneo, quando foram aplicadas as tarifas dos Estados Unidos, o Brasil teve que correr atrás de outros mercados. E conseguiu. A balança comercial teve superávit de 68 bilhões de dólares. Foram quase 350 bilhões em exportações, o maior número já registrado.
José Roberto Mendonça de Barros
Então, o setor externo brasileiro vai continuar, eu acho, mesmo com a subida, como nós somos exportadores de petróleo, nós temos ganho na balança comercial. E, além disso, a conta capital está favorável. Então, não deveria ter uma grande desvalorização adicional, a menos que o Cedar de 40 dias entre, porque aí o jogo vai ficar internacional um pouco complicado. O nosso problema de inflação aqui dentro, Natuza, é uma outra coisa, é que o preço do petróleo vai subir, isso é bom para a balança comercial, mas isso dá uma pressão inflacionária. E se você me permite lembrar, o dado é do dia 3 de março, saiu 3 de março, isto é, quando nós estamos gravando. A gasolina tem uma defasagem de 12% e o que é pior, o diesel está atrasado, porque o diesel não é registrado há mais de ano em 26%. Portanto, nós estamos introduzindo, se o setor externo em termos de exportação e importação não vai mexer muito, do ponto de vista de pressão da inflação, nós temos uma coisa nova, velha conhecida na realidade, mas nós temos novamente uma velha conhecida, que é a defasagem do preço do combustível. No ano da eleição, o que será que vai acontecer? Ninguém sabe, eu não sei, mas o fato é assim, haverá uma pressão para o aumento de preço de combustíveis. E isso, sim, vai afetar o curso da inflação aqui dentro. A inflação não deve ser tão favorável quanto a gente esperava. E não sendo assim, a pergunta que vale muito é, será que o Banco Central vai rever uma esperada trajetória descendente, uma velocidade razoável ou não?
Natuza Nery
E não só isso, porque se a inflação aumentar, o Banco Central vai ter que reavaliar suas projeções e a gente vem numa trajetória, como você disse, de queda nos juros e num ritmo importante, não tão importante quanto quem produz, quem emprega gostaria no Brasil, mas num ritmo descendente.
Narrator/Reporter
Juros estão altos demais. 15% é uma taxa de juros muito alta e ela é restritiva do crescimento, quis derrubar a taxa de inflação e conseguiu. A inflação está bem menor agora. Agora, quando você olha nos setores, é impressionante que continuem crescendo, apesar dessa taxa de juros tão alta.
Natuza Nery
Na segunda-feira, o ministro Fernando Haddad fez uma avaliação de que a economia brasileira está num momento bom de atração de investimento e mesmo que haja turbulência de curto prazo, e é que curto prazo, precisa entender o que ele entende por curto prazo, não deve impactar as variáveis macroeconômicas, mas o cenário, embora seja não dramático em muitas áreas, tem uns pontos de atenção aí que você levanta. E aí, Zé Roberto, não dá pra deixar de te perguntar sobre o resultado do PIB do ano passado, né? Alta de 2,3%, um número puxado por um bom desempenho do agro. Eu quero te ouvir sobre esse dado e a perspectiva para 2026. Eu estou entendendo que está tudo um pouco suspenso, que as previsões precisam entrar um pouco em compasso de espera porque a gente não sabe o que vai acontecer com esse conflito no Oriente Médio, né?
José Roberto Mendonça de Barros
Está acontecendo uma coisa que nós não tivemos assim facilmente no passado. O que eu quero dizer com isso? A situação das empresas é muito pior que a situação das famílias. É curioso isso, porque normalmente, todas as vezes que o Banco Central puxa muito a taxa de juros, por causa para conter a inflação, o que acontece? Naturalmente as empresas se atrapalham, quem deve se atrapalha, quem é pequeno é sempre difícil. E nesse quadro aqui agora, as empresas estão realmente muito atrapalhadas, inclusive com uma coisa que nunca tinha tido no passado. O setor agropecuário está apertado de dinheiro, muita RJ no setor, muita inadimplência no setor. Então, isso é normal quando você puxa a taxa de juros. Mas o que acontece? Que o normal é que quando você faz isso, as empresas desempregam. E aí a taxa de desemprego sobe e as famílias ficam pior. Não é o que está acontecendo. por razões que desafiam a explicação. Não só a taxa de desemprego está na mínima histórica, vocês sabem disso, como a massa de renda das famílias, aí não é só mercado de trabalho e transferências do governo, o ano passado inteiro e atualmente continua assim, está crescendo bem acima da inflação. E o emprego está alto e todos os setores queixam-se de escassez de mão de obra.
Narrator/Reporter
A taxa de desocupação entre os meses de setembro e novembro ficou em 5,2%, uma queda de 0,2 ponto percentual em relação a 5,4% registrados no trimestre encerrado em outubro. Os dados foram divulgados agora pelo IBGE. Mais uma vez foi registrada a menor taxa de desemprego desde 2012, o início da série histórica da PNAD contínua.
José Roberto Mendonça de Barros
Já do lado do consumo das famílias, houve também aí um crescimento, mas em um ritmo menor nesse resultado fechado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. As famílias gastaram mais em ritmo menor uma alta de 1,3%. Mas, se de fato a inflação vai ficar um pouco mais pressionada, uma parte dessa coisa boa das famílias vai voltar para trás.
Natuza Nery
Pode ser corroída, né?
José Roberto Mendonça de Barros
É, pode ser corroída. Então, isso também tem a sua importância. Por quê? Uma das razões da renda das famílias estar alta é exatamente o que você mencionou há pouco. O custo de alimentação no domicílio caiu muito. E caiu o custo de alimentação e imediatamente isso se traduz num aumento do poder de compra, especialmente nas famílias de menor renda, que é onde a participação do alimento é muito importante na renda. Agora, para esse ano, o que eu acho que dá para dizer? Primeiro, também porque está acontecendo agora, o setor agrícola, a produção agrícola é a mais bem defendida. Nós temos uma projeção, nós, MB, de 4% no crescimento da produção agrícola para esse ano. A safra de verão foi muito boa. A segunda safra, chamada safrinha, está sendo plantada, começando o plantio, mas aí depende de clima. A área cultivada vai ser muito boa, que é isso que a agricultura conta. Então, a agricultura, em princípio, exceto pelo eterno risco climático, vai ter um bom desempenho. O grande problema com esse cenário que está aí está, um, na indústria, dois, na própria construção civil, porque aí os juros caíram menos rápido e isso atrapalha a construção civil. E aí você tem razão, nós vamos depender de quanto tempo vai durar essa situação difícil lá fora, qual o impacto disso na inflação, no câmbio, e aí sim, o desempenho no resto do ano. De qualquer forma, a projeção universal é que o PIB desse ano cresce um pouco menos que o ano passado. Passado 2,3%, a nossa projeção para esse ano é 1,8%, pode ser um pouquinho mais, 1,9%. Não é recessão. De jeito nenhum, mas é menor que o ano passado. E, portanto, essa é uma insegurança com relação à projeção para o resto do ano.
Natuza Nery
Zé Roberto, eu só não te perguntei no setor agrícola de um produto que a gente exporta para países do Oriente Médio. que é o frango halal, porque exige um tipo de abatimento diferente, né? Então, de abate diferente, melhor dizendo. Como é que ficam esses produtores de frango que exportam para lá?
José Roberto Mendonça de Barros
Olha, fica o seguinte, primeiro... Esses e todos os outros que exportam para aquela região, de todos os produtos, estão, nesse momento, tentando ver quais são as alternativas de entrega. Mas, em princípio, vai ficar mais caro vender para aquela região. Ficando mais caro, provavelmente diminui um pouco a demanda, embora seja uma região relativamente rica, especialmente os governos são muito ricos naquela região. Eu acho que está ainda em observação, talvez a demanda não caia muito, mas o desafio do risco de entrega da logística vai ser muito grande. No curto prazo, do que eu sei, tem algum estoque para ser consumido lá nas pontas, mas não dura muito tempo. Então, pode sim ter alguma dificuldade, desde que demore muito a questão da guerra e, portanto, a logística fique bastante complicada. Vale para o frango, mas vai valer para todos os produtos.
Natuza Nery
José Roberto, que prazer enorme ouvi-lo de novo aqui no assunto. Eu desconfio que vamos precisar conversar mais algumas vezes ao longo desse período de conflito. Te agradeço enormemente a disposição de conversar com a gente aqui no assunto.
José Roberto Mendonça de Barros
Natuza, o prazer é meu, estou à disposição e vamos torcer para um cenário melhor, mas que está preocupante.
Natuza Nery
Sem dúvida nenhuma. Obrigada, Zé Roberto.
José Roberto Mendonça de Barros
Um abraço.
Natuza Nery
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catellan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Natu Zaneri e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
O Assunto – "O preço da guerra e o efeito dominó na economia"
Data: 04/03/2026 · Host: Natuza Nery · Convidado: José Roberto Mendonça de Barros
Neste episódio especial, Natuza Nery aprofunda as consequências econômicas globais do recente confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã, com foco na escalada de preços do petróleo, volatilidade dos mercados, impacto nos fertilizantes e alimentos, além dos desafios para o Brasil e para as principais economias mundiais. José Roberto Mendonça de Barros, consultor econômico e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, traz uma análise detalhada dos efeitos em cadeia, destacando tanto ameaças quanto singularidades do contexto brasileiro.
"A resposta iraniana pode mirar a infraestrutura econômica de toda a região." (Natuza Nery, 00:13)
"Fechar o Estreito de Hormuz é como fechar uma torneira. [...] Na dúvida sobre a disponibilidade do produto, o preço sobe." (Narrador, 02:47)
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Notável:
"O número do preço do petróleo será de 80 dólares, talvez para um pouco mais. [...] A pressão vai ser forte mesmo enquanto durar essa guerra."
— José Roberto Mendonça de Barros (05:45)
"No Estreito de Hormuz, em termos de fertilizantes, passa entre 20% e 40% da oferta mundial desses fertilizantes." (José Roberto Mendonça de Barros, 08:08)
Timestamps:
Notável:
"Miséria pouca é bobagem... além do gás natural, temos uma escassez grande de enxofre, matéria-prima do ácido sulfúrico."
— José Roberto Mendonça de Barros (10:04)
"O milho é o grande produto da agricultura americana e é um enorme usuário do nitrogênio." (José Roberto Mendonça de Barros, 10:21)
Timestamps:
Notável (tom descontraído):
"Às vezes eu acho que Deus não é brasileiro, mas te ouvindo tô achando que sim."
— Natuza Nery (16:31)
"Deus e a ciência, né? Porque o fato da soja não usar fertilizantes é resultado direto de pesquisa científica de uns 40 anos atrás."
— José Roberto Mendonça de Barros (16:36)
"A gasolina tem uma defasagem de 12%. [...] O diesel não é reajustado há mais de ano, em 26%." (José Roberto Mendonça de Barros, 21:49)
Timestamps:
Timestamps:
"Talvez a demanda não caia muito, mas o desafio do risco de entrega da logística vai ser muito grande."
— José Roberto Mendonça de Barros (29:04)
Sobre o choque geral:
"É um choque tanto para a economia global." (10:51, José Roberto Mendonça de Barros)
Sobre a diferença do impacto EUA x Brasil:
"O efeito para nós é menos complicado, porque a soja não usa nitrogênio." (15:16, José Roberto Mendonça de Barros)
Sobre o caráter imprevisível do cenário:
"A resposta é: Na hipótese de quatro, cinco semanas, [...] é pressão para valer e vai atrapalhar bastante o mundo." (06:22, José Roberto Mendonça de Barros)
| Tópico | Timestamps | |------------------------------------------------|--------------| | Contexto do conflito e ameaças | 00:01–03:31 | | Choque do petróleo/Estreito de Ormuz | 02:44–05:45 | | Mercado brasileiro, dólar e exportações | 05:28–06:15, 16:55–22:42 | | Cadeias globais de energia/fertilizantes | 07:36–10:19 | | Impacto no agro dos EUA x Brasil | 14:31–16:36 | | Política monetária e inflação | 22:42–25:46 | | PIB, desemprego e consumo das famílias | 24:17–28:40 | | Exportações de frango halal e logística | 28:40–30:11 |
O episódio deixa claro que o prolongamento da crise do Oriente Médio pode reescrever as expectativas globais para o preço do petróleo, fertilizantes, alimentos, câmbio e inflação. O Brasil, embora protegido em alguns pontos (soja, saldo externo), não estará imune aos desafios internacionais. A mensagem de José Roberto Mendonça de Barros ecoa ao final:
"Vamos torcer para um cenário melhor, mas que está preocupante." (30:27)
Relevância: Episódio essencial para entender as conexões entre geopolítica, mercado de energia e economia real, com tradução clara de um cenário complexo para o cotidiano dos brasileiros e para a economia global.