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Vitor Boiadjan
Ao longo de décadas e décadas, os Estados Unidos construíram a maior máquina militar do planeta, uma força capaz de projetar poder em todas as partes do globo. Mais do que armas e soldados, essa máquina carrega uma ideia, a de que, em nome da segurança e dos interesses nacionais, e supostamente para defender outras democracias, é legítimo intervir em outros países. Ao longo da história, essa lógica se traduziu em invasões, ocupações e apoios para mudanças de regimes e em promessas de ordem, estabilidade e liberdade. Mas o que se viu na prática nem sempre foi isso. Iraque, 2003.
Narrator/Reporter
O conflito durou oito anos e nove meses e deixou uma conta altíssima. Quase 500 mil civis foram mortos durante a guerra, estima uma universidade americana. O estudo aponta também que cerca de 8.500 militares americanos foram mortos no conflito e outros 300 mil voltaram para casa sofrendo transtornos de estresse pós-traumático. A invasão também custou 2 trilhões de dólares aos cofres públicos dos Estados Unidos e desencadeou uma guerra civil no Iraque.
Expert/Analyst
Quando teve aqui o ataque do 11 de setembro, os países integrantes da OTAN interpretaram como um ataque a um país aliado e aí todos eles vieram defender os Estados Unidos aqui nessa invasão, então a OTAN é que foi para a superação na Afeganistão. Nesse meio tempo, os Estados Unidos conseguiram encontrar e matar Bin Laden, que não estava na Afeganistão mais, estava no Paquistão. Mas aí começa a decadência aqui dessa intervenção americana.
Commentator/Critic
Bush tentou tudo, aumentou tropa, diminuiu. Obama tentou de tudo. Aí o Trump chegou à conclusão que não é só dele, praticamente era um consenso dos Estados Unidos, que não tinha jeito, o Talibã inevitavelmente chegaria ao poder uma hora.
Vitor Boiadjan
Panamá, 1989.
News Update Reporter
Noriega acabou se desentendendo com Washington. Os Estados Unidos o acusaram de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. E invadiram o Panamá alegando que um soldado norte-americano tinha sido morto por tropas panamenhas. Noriega foi preso e levado para Miami, onde passou 20 anos numa prisão.
Vitor Boiadjan
Uma prática cujos estilhaços atingem povos, culturas e fronteiras.
Commentator/Critic
Achar que começou hoje o desrespeito, que agora mudam as regras internacionais porque os Estados Unidos violou a soberania da Venezuela. Os Estados Unidos desrespeitam há muito tempo. No século XXI, todos os presidentes americanos, sem exceção, desrespeitaram a legislação internacional.
Felipe Figueiredo
Da redação do G1, eu sou Nathuzaneri e o assunto hoje com Vítor Boedian.
Vitor Boiadjan
É o que o mundo aprendeu e o que esqueceu com as invasões americanas. Eu converso com Felipe Figueiredo, historiador pela USP, colunista do jornal O Estado de São Paulo e criador do podcast Xadrez Verbal. Segunda-feira, 12 de janeiro. Felipe, historicamente os Estados Unidos têm um movimento expansionista, partindo da independência das 13 colônias em direção ao Oeste, com vários episódios que levaram os Estados Unidos até mesmo a ilhas no Pacífico. Esse processo sempre foi associado a teorias que se misturam com a identidade do que é ser americano, o destino manifesto, doutrina moral. Agora o movimento maga, você vê isso como uma nova roupagem nesse processo, Como o governo Trump se equilibra em meio a essas visões aí? Expansionista clássica e a do Make America Great Again.
Felipe Figueiredo
A sua pergunta é muito boa, muito interessante, porque o movimento maga, como o próprio nome diz, é Make America Great Again, ou seja, fazer a América grande de novo. Então ela foi grande em algum momento, ela já teria sido grande e precisa ser grande de novo. E essa visão idealizada, romantizada do passado dos Estados Unidos bebe diretamente na questão do destino manifesto, na questão do excepcionalismo dos Estados Unidos, E essas visões ideológicas, após o fim da Guerra Fria, elas vão ganhar também um contorno de política do Estado, do aparato de Estado dos Estados Unidos, e vão se consolidar no imaginário tanto do cidadão quanto, repito, do aparato de Estado, com a ideia de que agora os Estados Unidos são a superpotência vencedora da Guerra Fria. é a única superpotência que restou, digamos assim, nessa visão. Então, sendo a superpotência vencedora e que precisa ser grande de novo nessa visão ideológica, vão buscar esses referenciais especialmente do século XIX, início do século XX, até a Primeira Guerra Mundial, quando começa a ser construída uma ordem internacional, com a criação da Liga das Nações, que foi uma proposta do presidente dos Estados Unidos na época, embora os Estados Unidos não venham a participar. vai resgatar esses preceitos, e aí, eu junto nos exemplos que você citou, a questão da doutrina Monroe, que vai estabelecer o continente americano, ela inicialmente surge com um caráter, digamos assim, de apoio às independências dos países latino-americanos, mas especialmente após a guerra civil dos Estados Unidos. E com a guerra hispano-americana em 1898, quando os Estados Unidos anexa territórios no continente americano, no seu entorno estratégico do Caribe, para a construção do Canal do Panamá. E um desses territórios é território dos Estados Unidos até hoje, Porto Rico. Então, essa visão idealizada e ideológica do passado dos Estados Unidos vai beber diretamente nessas referências e, especialmente, no caso do governo Trump, na questão da doutrina Molo, a ideia de que o continente americano é esfera de influência dos Estados Unidos.
Vitor Boiadjan
Bom, já que você então chamou esse tema da doutrina Monroe, eu queria passar para um caso concreto muito emblemático, né? No Panamá, onde os Estados Unidos derrubaram um ditador que havia sido aliado de Washington. Curiosamente, a ação aconteceu também no dia 3 de janeiro, só que 36 anos antes da captura de Maduro na Venezuela, agora em 2026. Relembra pra gente como que foi a operação ali, quais foram as consequências do país, obviamente quais os interesses dos Estados Unidos no Panamá.
Felipe Figueiredo
A invasão do Panamá ocorre no final de 1989, Vitor, durante o governo de George Bush Pai, que durante o governo Reagan, durante a presidência anterior, ele ocupou inclusive o cargo de diretor da CIA. E, resumindo brevemente para o nosso ouvinte, o Panamá era governado por um ditador militar, o Noriega, que foi instalado no poder com o auxílio dos Estados Unidos. O Panamá, nós podemos dizer, embora os panamanhos muitas vezes não gostam desse termo, Mas o Panamá, nós podemos dizer que durante boa parte de sua história como um estado independente, foi um protetorado dos Estados Unidos. A própria independência do Panamá da Colômbia se deve a uma intervenção política dos Estados Unidos no processo de construção do canal como nós mencionamos antes.
Historical Context Narrator
E este embrólho todo começou no final do século XIX. Os Estados Unidos se ofereceram para construir um canal na atual região do Panamá, que na época não era Panamá, era parte da Colômbia. Os Estados Unidos patrocinaram grupos separatistas do Panamá que proclamaram a independência desse país em 1903 e imediatamente fizeram um acordo altamente vantajoso para Washington, que construiu e inaugurou o canal em 1914. Nos anos 70, depois de duras negociações, os Estados Unidos assinaram um acordo de devolução do canal ao Panamá, fato que se concretizou em 1999. Trump disse que o canal do Panamá deveria, abre aspas, ser o canal dos Estados Unidos, fecha aspas.
Felipe Figueiredo
Então, esse ditador, o Noriega, Ele, repito, era um aliado dos Estados Unidos, ele se envolvia com ações de narcotráfico, ele se envolvia com o crime organizado, e isso era sabido pelos Estados Unidos, os Estados Unidos tinham todas as provas, porém, durante muito tempo, ele foi um ditador militar conveniente para os Estados Unidos, como várias outras ditaduras militares pela América Latina no período da Guerra Fria.
Operation Condor Expert
A Operação Côndor começou em novembro de 1975 e durou cerca de 4 ou 5 anos depois disso. Ela foi uma articulação entre os aparelhos de repressão de várias ditaduras do Cone Sul da América do Sul. Argentina, Chile estavam no centro dessa articulação, mas ela envolvia também a ditadura do Uruguai, a do Brasil, a do Paraguai e a da Bolívia. O governo americano de Nixon e depois de Ford contribuiu para a articulação, inclusive dando informações para a operação Condor. Os Estados Unidos não só sabiam parcialmente do que acontecia, sabiam de todos os detalhes do que acontecia. A CIA conhecia todos os detalhes da repressão internacional, do sequestro e assassinato de pessoas que as ditaduras faziam conjuntamente.
Felipe Figueiredo
Porém, estamos falando do momento final da Guerra Fria, em que o Noriega já deixa de ser conveniente, o receio de uma influência cubana na região do canal já está diminuído nos Estados Unidos, o Noriega, percebendo que a posição dele está enfraquecida, começa então, a usar um termo um pouco mais popular, querer colocar as manguinhas de fora, na visão de Washington. e começa a ameaçar e cogitar a possibilidade de nacionalização do canal do Panamá. Principalmente, em 1989, o Noriega se recusa a aceitar o resultado das eleições. Então, o governo do Bush pai invade o Panamá, ocupa o Panamá, o Noriega vai buscar refúgio na representação diplomática da Santa Sé, e ele vai demorar mais ou menos um mês para se entregar, depois ele vai ser levado de avião para os Estados Unidos, onde será julgado, condenado, depois ele também vai ser julgado pela França, ele morre na prisão, inclusive, E, nesse contexto, essa intervenção dos Estados Unidos no Panamá era para mostrar como o canal era sua zona de influência, uma região estrategicamente importantíssima, usa essa justificativa ideológica que sempre embala intervenções externas dos Estados Unidos de uma suposta ou defesa da democracia, ou então combate ao narcotráfico, E faz, naquele momento final da Guerra Fria, quando você já tinha ali um momento de negociações entre o governo do Buchipá e o governo Gorbachev da União Soviética, também faz uma grande demonstração de força na sua região.
Vitor Boiadjan
Bom, também falando do Irã, um outro caso em que houve uma tentativa dos Estados Unidos de intervir numa mudança de regime, só que, na verdade, um regime que acabou virando hostil aos Estados Unidos. Conta um pouco essa história do apoio ao golpe de Estado em 1953, Felipe.
Felipe Figueiredo
Então, Vitor, na verdade não foi nenhuma tentativa, foi um ato de fato. E esse caso do Irã é muito emblemático porque eu tô certeza que, infelizmente, algum dos nossos ouvintes deve estar pensando assim, ah, chamaram um historiador que tá falando essas coisas anti-Estados Unidos, alguma coisa assim. Quando não se trata de algo anti-Estados Unidos, nesse caso se trata de algo muitíssimo bem documentado e cujos documentos já são públicos, inclusive. Mas, resumidamente, O Irã, ele é um grande epicentro da exploração, da história da exploração de petróleo, certo? O Irã tem, além de muito petróleo, um petróleo de muita qualidade, facilmente explorável, ele está na superfície, não é como, por exemplo, o petróleo do pré-sal brasileiro, que demorou anos de pesquisa e investimento. E ele está perto de rotas marítimas que facilitam o escoamento desse petróleo. Então o Irã, desde o início do século XX, se torna esse epicentro da indústria petrolífera global, especialmente para os britânicos. A British Petroleum, ela é fundada como a Anglo-Persian Petroleum. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando depois da Conferência de Teheran, no final de 1943, os líderes de União Soviética, Estados Unidos e Reino Unido, concordam em reconhecer a neutralidade iraniana, o Irã que até aquele momento ali foi um objeto de disputa de influência no chamado Grande Jogo do século XIX, concordam em reconhecer essa neutralidade, E estamos falando também do momento da descolonização, o início do fim dos grandes impérios coloniais pós Segunda Guerra Mundial. O governo iraniano, um governo eleito, um sistema parlamentarista, decide então a nacionalização das reservas de petróleo. para, com isso, financiar o desenvolvimento socioeconômico do país. E Estados Unidos e Reino Unido não gostam nem um pouco disso, e aí nós temos um golpe de Estado, em 1953, orquestrado por Estados Unidos e Reino Unido com apoio dos militares, linhadura locais e da monarquia, da dinastia Palave, que derruba o governo eleito e instaura uma monarquia autoritária, um bom português, uma ditadura. Esse governo iraniano, que vai existir por mais ou menos 25 anos, vai ser um governo que durante a Guerra Fria vai ser pró-Estados Unidos, era um governo que inclusive tinha muito boas relações com Israel, pois Irã e Israel vinham aos países árabes como um inimigo incomum, digamos assim, até que em 1979 nós vamos ter a revolução iraniana, que hoje nós associamos muito essa revolução aos setores religiosos da revolução, como Khomeini, porque foram setores que venceram, triunfaram na revolução e governam o Irã até hoje. Porém, é bom lembrar que a revolução iraniana, ela nasce com uma ampla coalizão de forças da sociedade iraniana, tanto esses movimentos religiosos, contra a monarquia secular e contra a influência corrupta, digamos assim, do ocidente, do chamado ocidente, mas também grupos socialistas, grupos comunistas, grupos de minorias nacionais como curdos, e aí esse processo que começa em 1953 resulta na Revolução Islâmica de 79, que aí sim nós vamos ter a nacionalização do petróleo iraniano.
Vitor Boiadjan
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Felipe Figueiredo. Vamos falar de um outro episódio que é o envolvimento dos Estados Unidos no regime político lá no Afeganistão. Os Estados Unidos apoiaram os movimentos que lutavam contra o exército ainda na década de 70 e já nos primeiros anos desse século, com o envolvimento de figuras políticas que viviam no Afeganistão, no ataque às torres gêmeas, aí se viabilizou uma invasão efetiva dos Estados Unidos no território afegão, que durou praticamente duas décadas, país que abrigava a Al-Qaeda de Osama Bin Laden. Qual o saldo dessa ocupação, agora com essa saída que já vai fazer cinco anos, qual que é a situação que a gente vê hoje no Afeganistão?
Felipe Figueiredo
Olha, Vitor, sobre o caso Afegão, é importante a gente fazer uma distinção muito importante, que é o seguinte, nós estamos tendo essa conversa no contexto da abdução do Maduro por uma ação militar, uma agressão ilegal dos Estados Unidos contra um país soberano. E nós falamos de outros casos, e nós temos casos recentes no histórico internacional, como a invasão da Ucrânia em 2022 pela Rússia, a invasão de Granada pelos Estados Unidos em 1983, que também foram casos ilegais perante o direito internacional. No caso do Afeganistão pós 11 de setembro, nós estamos falando de uma ação militar que teve, agiu sob um mandado da ONU, certo? O Conselho de Segurança da ONU autorizou que os Estados Unidos e seus aliados agissem no Afeganistão, considerando que os Estados Unidos foi atacado no 11 de setembro, né? Essa foi a consideração do documento, considerando nesse contexto que o agressor era uma organização para-estatal, a Al-Qaeda, que era abrigada pelo governo de fato do Afeganistão, o Talibã. Porque eu digo de fato porque era um governo pouco reconhecido, ele era reconhecido apenas por três países, um deles o Paquistão.
Expert/Analyst
11 de setembro, o ataque às Torres Gêmeas. E aí logo depois do 11 de setembro, no dia 7 de outubro, os Estados Unidos invadiam o Afeganistão. Dois detalhes aqui. Primeiro que quase a gente não tinha nenhum afegão participando desse plano de ataque aos Estados Unidos, mas os Estados Unidos vêm para cá porque os terroristas da Al-Qaeda estavam escondidos aqui, Bin Laden também. Porque eu falo, a invasão dos Estados Unidos, do Afeganistão, na verdade foi uma invasão da OTAN.
Felipe Figueiredo
Então, a partir do 11 de setembro de 2001, nós temos essa ação militar dos Estados Unidos no Afeganistão. O Talibã é um grupo que não é apenas um grupo extremista religioso, mas que também une na sua ideologia e no seu funcionamento no seu aparato, também questões tradicionais das tribos Pashtun do Afeganistão, pois bem, nós temos essa ação dos Estados Unidos, que nos primeiros meses destrói completamente a capacidade do Talibã, instaura uma república que é pra se desenvolver como uma república secular com investimentos e presenças de empresas especialmente dos Estados Unidos na exploração dos recursos minerais do Afeganistão, Esse cenário se desenrola por cerca de mais ou menos uma década, até o momento em que nós temos a morte do Osama Bin Laden durante o governo Barack Obama, no fim do seu primeiro mandato, e então, a partir da morte do Osama Bin Laden, a partir da operação que termina com a sua execução, nós vamos ter um questionamento no público dos Estados Unidos da presença militar dos Estados Unidos na região, não apenas no Afeganistão, mas também no Iraque, onde nós também tivemos uma agressão ilegal. A partir desse momento, nós vamos ter o início de uma pressão para a retirada dos Estados Unidos nessa região. Esse processo de retirada começa no primeiro governo Donald Trump. O então secretário de Estado dos Estados Unidos, o Mike Pompeo, se encontra com lideranças talibã no Catar, inclusive, como esse processo de negociação. E essa negociação, ela culmina em uma república fegã completamente fragilizada. que sem os seus aliados ela não subsistia, nós temos uma ofensiva talibã que derruba esse governo e a retirada às pressas das últimas tropas dos Estados Unidos, com aquelas imagens que nós vimos dos aviões decolando com as pessoas tentando se segurar no trem de pouso, aquelas imagens violentíssimas para o nosso público.
Expert/Analyst
E aí os Estados Unidos começam uma retirada gradual do Afeganistão, onde o talibã volta numa, talvez um dos piores erros de interpretação da inteligência americana, eles achavam que o governo seria capaz de resistir sozinho aqui, não esperaram nem os americanos saírem e o Talibã tomou conta.
Commentator/Critic
A economia fegan não existe mais na prática. A quase totalidade da população afegã passa fome. Então, isso, em primeiro lugar, no âmbito econômico. Em segundo lugar, não tem Talibã soft, não. Segue um regime ultra extremista, terrorista medieval. O afeganistão... É o pior lugar do mundo para as mulheres. É muito pior do que a Irã e a Arábia Saudita. Irã e Arábia Saudita que tem apartheid contra as mulheres, quer dizer, já é um caso extremo. No Afeganistão é muito pior.
Felipe Figueiredo
Juntando com a sua primeira pergunta lá atrás, é importante que parte importante do movimento maga, com perdão da redundância das palavras, é baseado na ideia de que os Estados Unidos não deveriam ocupar outros países, não deveriam estar presentes militarmente em outras regiões. Então tem que sair do Afeganistão, tem que sair do Iraque, etc. Parte do público que elegeu Donald Trump É contra a ideia de intervenções estrangeiras, é contra a ideia de tropas dos Estados Unidos correndo risco de vida.
Commentator/Critic
O Iraque foi uma guerra levada adiante com base em mentiras. O Iraque não tinha arma de destruição em massa. O fato é que o resultado foram centenas de milhares de iraquianos mortos, quatro mil soldados americanos mortos, o dobro disso se suicidou quando voltaram para os Estados Unidos.
Narrator/Reporter
Tão polarizada a política americana, esse é um dos raríssimos assuntos em que republicanos e democratas concordam. A invasão no Iraque foi um erro dos Estados Unidos. E o maior legado é justamente o desejo de que isso jamais se repita lá ou em qualquer outro lugar. Por isso, os políticos americanos vivem hoje uma crescente aversão à intervenção militar no exterior.
Felipe Figueiredo
Por isso que, desde o início, já se podia comentar como nós fizemos em outras abordagens, que uma invasão da Venezuela era muito improvável. Porque a Venezuela é um país que é o dobro do tamanho do Iraque, que mobilizou meio milhão de soldados. Então, parte desse público que queria o desengajamento dos Estados Unidos dessas regiões também é o público isolacionista que votou em Donald Trump.
Vitor Boiadjan
Então você chegou num ponto, Felipe, que era onde eu queria chegar falando dos dias atuais, né? A gente vê aí, historicamente, os Estados Unidos justificando suas ações como a ameaça do comunismo, ameaça de armas de destruição em massa, ameaça do narcotráfico, agora inclusive na Venezuela, né? Ameaça do terrorismo, né? Embora essa seja muitas vezes o que é levado à sociedade norte-americana para justificar as suas operações, às vezes e na maioria delas não se confirmam essas suspeitas. Mas eu queria falar sobre como que fica essa política diante dessa preocupação do governo americano de não comprometer suas tropas em operações que possam ser mais arriscadas. Você acha que daqui pra frente os Estados Unidos vão só entrar em projetos, em empreitadas que sejam menos onerosas do ponto de vista da opinião pública? Por que eu pergunto isso? Porque agora, além da Venezuela, a gente vê uma exposição muito grande de Cuba, do regime cubano. cujo líder muita gente nem sabe o nome, ou seja, já não é mais o regime de Fidel num contexto de Guerra Fria. Temos também a Groenlândia, que tem uma população muito pequena e é parte da OTAN, ou seja, um país aliado. E até mesmo o México, onde a gente ouviu declarações do presidente Trump disposto a entrar com tropas justamente para combater o narcoterrorismo. Você acha que agora, daqui para frente, com essa preocupação com a opinião pública, a gente só vai ver operações mais simples do governo norte-americano nesse processo expansionista?
Felipe Figueiredo
Os Estados Unidos, o governo Trump, O próprio Trump já disse numa entrevista recente que ele não precisa seguir o direito internacional, apenas o julgamento moral dele mesmo. Então ele deixa muito claro de que ele seguia apenas por ele mesmo e por e também tem suas políticas influenciadas por seu entorno, e no caso da América Latina, especialmente o Marco Rubio, que é filho de cubanos e que tem como projeto a derrubada do regime cubano por vários motivos, inclusive razões eleitorais, já que recentemente os democratas venceram em Miami um reduto dos conservadores e do voto cubano conservador, Os democratas venceram pela primeira vez em 30 anos, então você tem uma série de questões ali que deixam muito claro que o raciocínio Donald Trump é baseado apenas nele mesmo. Quando a gente olha para esses sinais do Donald Trump e quando nós olhamos para esse cenário que você desenhou, muito provavelmente o que nós teremos são ações como bombardeios com drones, operações de ataques aéreos como a que nós vemos contra embarcações tanto no Pacífico quanto no Caribe, que também são ilegais, ou então uma operação de decapitação como nós tivemos com a abdução do Maduro.
Narrator/Reporter
A invasão começou com a justificativa falsa do então presidente americano George Bush de que o Iraque tinha um arsenal de armas de destruição em massa. A mentira veio à tona um ano depois. A coalizão de tropas americanas, inglesas e de outros países rapidamente já tinham invadido e derrotado as forças iraquianas. Isso provocou uma violenta guerra civil no Iraque, além de alimentar movimentos de insurgência, que anos depois deram origem ao grupo terrorista Estado Islâmico. Os americanos tiraram Saddam Hussein do poder, mas o governo iraquiano ainda é alvo de graves denúncias de corrupção e sofre forte interferência do vizinho, Irã.
Felipe Figueiredo
Agora, quem está governando a Venezuela, pelo menos nesse momento, é a vice-presidente do Maduro, a Dulce Rodrigues. Nós temos hoje, o polo mais importante na Venezuela é o polo dos militares, do Vladimir Padrino Lopes, por isso que muitos especulam que o Maduro teria sofrido algum tipo de traição, que houve algum tipo de negociação. Então você tem ali uma frente, governando, administrando de fato a Venezuela, porém agora agindo sob coerção, sob tutela, digamos assim, de acordo com os interesses de Washington, especialmente em relação à presença chinesa e russa na indústria do petróleo venezuelana, além da presença do Irã, em outros setores da economia venezuelana, etc. No caso da Groenlândia, como você mencionou, É muito improvável que nós tenhamos uma espécie de conflito, não impossível, é improvável. O que nós provavelmente teremos é alguma forma de demonstração de força para buscar uma espécie de compra da Groenlândia. Lembrando que os Estados Unidos já compraram território de dinamarqueses no continente americano. O que hoje são as Ilhas Virgens americanas eram dinamarquesas e no contexto da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos temendo que os submarinos alemães usassem essas bases, foram lá e adquiriram território. Resumindo toda essa questão, o cenário que você desenhou, é que salvo alguma questão muito estratégica, muito importante, nós não teremos esse governo dos Estados Unidos comprometendo uma grande quantidade de tropas dos Estados Unidos, até porque o grande foco estratégico de Donald Trump está no Pacífico em relação à China.
Vitor Boiadjan
Para terminar, o presidente Donald Trump disse em entrevista ao New York Times que só o tempo vai dizer o período que os Estados Unidos vão controlar a Venezuela. Quais condições você vê para uma transferência de poder na Venezuela? Talvez o horizonte de duração do petróleo como um grande ativo no mercado de energia ou pode ser antes, digamos assim?
Felipe Figueiredo
Olha, são vários fatores envolvidos nisso, o primeiro deles é a conveniência. Enquanto essa situação estiver conveniente, e o que eu quero dizer com conveniente? Países protestando, criticando, mas sem poder fazer, sem poder agir muito em relação ao Washington, e os atores venezuelanos agindo de acordo com essas imposições, com essas tutelas. Porque além do núcleo da Daci Rodrigues e além do núcleo do Vladimir Padrino Lopes, vamos lembrar que nós temos no estado venezuelano um terceiro núcleo, de Osdado Cabejo, que ele não necessariamente vai colaborar com os Estados Unidos, e ele tem muita influência perante os coletivos e as milícias populares. Então o primeiro cenário é esse, da conveniência. O segundo cenário é uma transição não apenas do petróleo ser conveniente ou não, mas uma transição de afastar atores extra-hemisféricos, nas palavras do Marco Rubio, da indústria do petróleo venezuelana. Os Estados Unidos hoje são o maior produtor de petróleo do mundo. O principal interesse dos Estados Unidos no petróleo venezuelano é tirar China e Rússia dali e, possivelmente, usar esse petróleo para suprir mercados que hoje adquirem da Rússia, como, por exemplo, a Índia. E vamos lembrar que o petróleo também não é tudo igual. Você tem diferentes níveis de qualidade de petróleo. O petróleo venezuelano oscila bastante nesse sentido. Em terceiro, existe uma outra questão que é Esse ano nós teremos eleições presidenciais na Colômbia e no Peru, que são os dois países que mais receberam imigrantes e refugiados venezuelanos na última década. Estamos falando de 2,5 milhões na Colômbia e quase 2 milhões no Peru. Essas eleições serão importantíssimas, assim como as eleições chilenas recentes também tiveram essa pauta, de governos que eventualmente defendam que os venezuelanos precisam retornar para o seu país. Então esse eventual fluxo de retorno de pessoas que fugiram do país nessa última década, também pode influenciar pressões locais na Venezuela, pensando numa dinâmica, por exemplo, de eleições. Além disso, agora nós tivemos um processo, um início tímido de um processo de libertação de presos políticos. Isso também pode impactar eventuais futuras eleições.
News Update Reporter
O presidente do congresso venezuelano, Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina, Delce Rodríguez, surpreendeu quando mais cedo anunciou a libertação. Disse que muitos presos políticos do país, e também estrangeiros, seriam soltos imediatamente. Segundo a organização Foro Penal, que monitora os abusos aos direitos humanos na Venezuela, até o início da semana, o governo venezuelano tinha 806 presos políticos. Entre eles, 175 militares, 105 mulheres e um adolescente.
Felipe Figueiredo
Então, não é um cenário de curto prazo, mas eu também não acho que seja um cenário tão de longo prazo assim como se especula.
Vitor Boiadjan
Felipe, antes de terminar, eu queria só fazer um exercício de imaginação aqui, diante dessa empreitada do governo Trump. Você consegue imaginar um novo presidente lá na frente dos Estados Unidos com um cenário, digamos assim, se o governo Trump conseguir atingir todos os seus objetivos nesse contexto geopolítico, deixando os Estados Unidos numa situação muito mais confortável do que tem hoje. Você sente que um futuro presidente iria se acomodar nessa situação ou pode haver uma reversão desse processo que está sendo feito com muita resistência do resto do mundo?
Felipe Figueiredo
Primeiro, o Donald Trump quer muito um terceiro mandato. Eu acho muito difícil que ele consiga ser candidato para um terceiro mandato, mas ele quer. Vamos supor que o Donald Trump faça o seu sucessor, que possivelmente seria o J.D. Vance. O J.D. Vance jamais voltaria atrás dessas políticas porque elas o colocaram no poder. No caso de uma vitória democrata, isso depende muito, porque hoje nós temos um partido democrata muito pulverizado. Isso, inclusive, é parte da razão pelo qual os democratas tiveram um resultado péssimo nas últimas eleições dos Estados Unidos. Então você tem uma ala do Partido Democrata, cujo principal nome hoje é Ocácio Cortez, que possivelmente reverteria essas políticas. Mas o nome mais forte hoje do Partido Democrata é o Gavin Newsom, que nada mais é do que parte do chamado Establishment Democrat, em que ele provavelmente pediria desculpas, tentaria negociações, talvez políticas de compensação, mas muito improvável que nós tenhamos uma reversão muito grande do que aconteceu. Para pensarmos, por exemplo, na virada do século XIX para o século XX, no final do século XIX para o século XX, a compra do Alaska ou a anexação do Havaí foram muito criticadas por políticos que estavam na oposição, que depois, quando se tornaram situação, não reverteram essas políticas. Então, eu acredito que há uma possibilidade aí, mas ela hoje é um pouco ínfima e mesmo assim ela é bastante longo prazo. É muito mais provável que nós temos alguma espécie de negociação para os Estados Unidos voltarem a serviços de forma crível por seus aliados do que uma reversão completa, até porque os Estados Unidos, independente de republicanos ou democratas, vai mover sua política externa baseado também naqueles princípios que nós conversamos lá no início, do excepcionalismo, a ideia de ser militar do planeta, é a maior potência econômica do planeta, então você tem que, infelizmente, aceitar. A Europa está ali observando de forma quase passiva esse cenário, mas não tem muito o que alguém possa fazer. A Europa não vai à guerra com os Estados Unidos pela Groenlândia.
Vitor Boiadjan
Do jeito que as coisas vão, certamente nós voltaremos a nos falar muito em breve. Filipe Figueiredo, muito obrigado, por enquanto, pela sua participação.
Felipe Figueiredo
É isso, Victor. Eu que agradeço.
Vitor Boiadjan
Um abraço. Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski, se despedindo do Assunto, e Carlos Catellan, colaborou neste episódio, Paula Paiva Paulo. Eu sou o Vitor Boiadjan e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 12 de janeiro de 2026
Host: Vitor Boiadjan
Convidado: Felipe Figueiredo (historiador, colunista do Estadão, criador do podcast Xadrez Verbal)
Neste episódio, Vitor Boiadjan recebe o historiador Felipe Figueiredo para analisar o histórico e as consequências das intervenções militares dos Estados Unidos ao redor do mundo. O episódio revisita eventos do século XX e XXI (Panamá, Irã, Afeganistão, Iraque e Venezuela), buscando responder o que o mundo aprendeu e esqueceu com essas incursões. A discussão trata desde doutrinas fundacionais da política externa americana até as tendências contemporâneas sob o governo Trump, o desgaste da opinião pública, mudanças estratégicas e possíveis futuros para a política expansionista dos EUA.
O episódio oferece uma análise densa e histórica da intervenção americana sob vários ângulos: militares, ideológicos, econômicos e políticos. Felipe Figueiredo mostra como justificativas mudam — de comunismo a terrorismo, do narcotráfico à "defesa da democracia" — mas o padrão de defesa de interesses estratégicos permanece constante. O pano de fundo da opinião pública americana crescentemente cansada de aventuras externas sinaliza uma era de estratégias menos onerosas porém igualmente impactantes para a geopolítica mundial.
Ideal para quem deseja compreender as linhas de continuidade e mudança das intervenções dos EUA, bem como os fatores internos e externos que determinam sua política externa hoje e no futuro próximo.