O Assunto – "O que o mundo aprendeu (e o que esqueceu) com as invasões dos EUA"
Data: 12 de janeiro de 2026
Host: Vitor Boiadjan
Convidado: Felipe Figueiredo (historiador, colunista do Estadão, criador do podcast Xadrez Verbal)
Visão Geral do Episódio
Neste episódio, Vitor Boiadjan recebe o historiador Felipe Figueiredo para analisar o histórico e as consequências das intervenções militares dos Estados Unidos ao redor do mundo. O episódio revisita eventos do século XX e XXI (Panamá, Irã, Afeganistão, Iraque e Venezuela), buscando responder o que o mundo aprendeu e esqueceu com essas incursões. A discussão trata desde doutrinas fundacionais da política externa americana até as tendências contemporâneas sob o governo Trump, o desgaste da opinião pública, mudanças estratégicas e possíveis futuros para a política expansionista dos EUA.
Principais Temas e Discussões
1. O Expansionismo Americano e Ideologias Fundadoras
- [02:52-06:13]
Felipe explica como o expansionismo dos EUA tem raízes em conceitos como "Destino Manifesto" e excepcionalismo americano, permeando tanto a sociedade quanto o governo ao longo dos séculos. O movimento "Make America Great Again" (MAGA) de Trump seria uma continuidade dessa tradição, com roupagens ideológicas novas e antigas.- Quote:
"O movimento maga, como o próprio nome diz, é 'Make America Great Again', ou seja, fazer a América grande de novo. Então ela foi grande em algum momento, ela já teria sido grande e precisa ser grande de novo. [...] Essa visão idealizada, romantizada do passado dos Estados Unidos bebe diretamente na questão do destino manifesto, na questão do excepcionalismo dos Estados Unidos." — Felipe Figueiredo [03:45]
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2. Panamá: Caso Clássico de Intervenção
- [06:13-11:29]
Caso da invasão do Panamá em 1989: Noriega, inicialmente aliado dos EUA, torna-se inconveniente e hostil, levando à intervenção militar americana para garantir interesses estratégicos, especialmente o Canal do Panamá.- Quote:
"O Panamá, nós podemos dizer, durante boa parte de sua história como um estado independente, foi um protetorado dos Estados Unidos. [...] Essa intervenção era para mostrar como o canal era sua zona de influência, uma região estrategicamente importantíssima..." — Felipe Figueiredo [06:43]
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3. Irã: Da Interferência de 1953 à Revolução Islâmica
- [11:29-15:27]
O golpe de 1953 apoiado por EUA e Reino Unido, que derrubou o governo eleito iraniano, é usado para exemplificar como interesses econômicos (especialmente no petróleo) e geopolíticos justificaram intervenções, com consequências de longo prazo para a região.- Quote:
"No caso do Irã, não foi nem uma tentativa, foi um ato de fato. [...] O Irã, desde o início do século XX, se torna esse epicentro da indústria petrolífera global [...] então temos um golpe de Estado, em 1953, orquestrado por Estados Unidos e Reino Unido." — Felipe Figueiredo [11:48]
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4. Afeganistão e Iraque: Guerras Modernas, Frustrações e Legados
- [15:27-22:49]
O episódio revisita a intervenção no Afeganistão após o 11 de setembro, a presença dos EUA e da OTAN no país, a morte de Bin Laden e a abrupta retirada americana. Destaca a repetição de justificativas duvidosas (combate ao terrorismo, armas de destruição em massa no Iraque), o desgaste interno e os impactos sociais e políticos duradouros nos países invadidos.- Quote:
"No caso do Afeganistão pós 11 de setembro, estamos falando de uma ação militar que [...] teve, agiu sob um mandado da ONU. [...] O Talibã é um grupo que não é apenas um grupo extremista religioso, mas também une [...] questões tradicionais das tribos Pashtun." — Felipe Figueiredo [16:23] - Quote:
"A economia afegã não existe mais na prática. [...] Não tem Talibã soft, não. Segue um regime ultra extremista, terrorista medieval. O Afeganistão é o pior lugar do mundo para as mulheres." — Comentarista [20:53] - Quote:
"O Iraque foi uma guerra levada adiante com base em mentiras. O Iraque não tinha arma de destruição em massa. [...] Centenas de milhares de iraquianos mortos, quatro mil soldados americanos mortos, o dobro disso se suicidou..." — Comentarista [22:09] - Quote:
"A invasão no Iraque foi um erro dos Estados Unidos. E o maior legado é justamente o desejo de que isso jamais se repita lá ou em qualquer outro lugar." — Narrador [22:26]
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5. Mudança de Paradigma: Isolacionismo, Avanço Tecnológico e Foco Estratégico
- [22:49-26:30]
Felipe discute o impacto do desgaste público e política interna americana: operações de larga escala são cada vez menos populares — o isolacionismo ganha força entre republicanos e parte significativa do eleitorado Trumpista. O futuro aponta para ações mais seletivas: drones, ataques aéreos, operações "cirúrgicas", em vez de ocupações prolongadas.- Quote:
"Muito provavelmente o que nós teremos são ações como bombardeios com drones, operações de ataques aéreos como a que vemos contra embarcações tanto no Pacífico quanto no Caribe, que também são ilegais, ou então uma operação de decapitação como tivemos com a abdução do Maduro." — Felipe Figueiredo [25:03]
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6. O Caso Venezuelano e Perspectivas Futuras
- [26:30-32:37]
Análise da situação venezuelana após a recente intervenção dos EUA, o papel do petróleo, a geopolítica de atores como China e Rússia, e o futuro incerto da transição de poder. Felipe também aponta para possíveis movimentos em Cuba, Groenlândia e México, destacando o pragmatismo americano.- Quote:
"No caso da Venezuela, o principal interesse dos Estados Unidos é tirar China e Rússia dali e, possivelmente, usar esse petróleo para suprir mercados que hoje adquirem da Rússia, como por exemplo a Índia. E vamos lembrar que o petróleo também não é tudo igual." — Felipe Figueiredo [29:21]
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7. Possível Reversão ou Consolidação das Políticas de Trump
- [32:37-35:48]
Questões sobre possíveis mudanças de rota em administrações futuras dos EUA, incluindo a permanência da política expansionista atual em caso de sucessão Republicana (J.D. Vance) ou possíveis nuances em caso de vitória democrata.- Quote:
"J.D. Vance jamais voltaria atrás dessas políticas porque elas o colocaram no poder. No caso de uma vitória democrata, isso depende muito, porque hoje nós temos um partido democrata muito pulverizado." — Felipe Figueiredo [33:16] - Quote:
"Os Estados Unidos, independente de republicanos ou democratas, vai mover sua política externa baseado também naqueles princípios que nós conversamos lá no início, do excepcionalismo..." — Felipe Figueiredo [35:20]
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Citações Memoráveis
- "Os Estados Unidos construíram a maior máquina militar do planeta. Mais do que armas e soldados, essa máquina carrega uma ideia." — Vitor Boiadjan [00:03]
- "Os Estados Unidos desrespeitam há muito tempo. No século XXI, todos os presidentes americanos, sem exceção, desrespeitaram a legislação internacional." — Comentarista [02:27]
- "O ataque às Torres Gêmeas. Quase a gente não tinha nenhum afegão participando desse plano." — Analista [17:50]
Timestamps de Segmentos Importantes
- [02:52] — Felipe Figueiredo entra no episódio: teorias expansionistas americanas e MAGA.
- [06:13] — Caso Panamá como exemplo da doutrina Monroe e interesses estratégicos.
- [11:29] — Intervenção dos EUA no Irã, golpe de 1953 e consequências.
- [15:27] — Afeganistão: razões, legitimidade, ocupação e saída caótica.
- [22:09] — Impactos sociais e políticos das guerras do Iraque e Afeganistão.
- [25:03] — Tendências atuais: menor apetite público por intervenções militares.
- [29:21] — Futuro da Venezuela sob tutela americana.
- [33:16] — Debate sobre reversibilidade de políticas externas americanas.
- [35:57] — Encerramento do episódio.
Resumo Final
O episódio oferece uma análise densa e histórica da intervenção americana sob vários ângulos: militares, ideológicos, econômicos e políticos. Felipe Figueiredo mostra como justificativas mudam — de comunismo a terrorismo, do narcotráfico à "defesa da democracia" — mas o padrão de defesa de interesses estratégicos permanece constante. O pano de fundo da opinião pública americana crescentemente cansada de aventuras externas sinaliza uma era de estratégias menos onerosas porém igualmente impactantes para a geopolítica mundial.
Ideal para quem deseja compreender as linhas de continuidade e mudança das intervenções dos EUA, bem como os fatores internos e externos que determinam sua política externa hoje e no futuro próximo.
