Loading summary
Vítor Boedian
Em 1º de janeiro de 1959, Fidel Castro e seu grupo armado derrubaram o ditador Fulgencio Batista e concluíram o que ficou conhecido como Revolução Cubana. Em um mundo dividido pela Guerra Fria, o novo regime tinha apoio soviético. E os Estados Unidos viram ruir sua influência na ilha que fica ali do lado, a menos de 150 quilômetros de distância. Essa tensão aumentou no Caribe. Estados Unidos e Cuba viraram rivais e os americanos impuseram sobre a ilha um duro bloqueio econômico. Nos últimos 60 anos, os cubanos estiveram sob embargo, mas nas últimas semanas experimentaram algo inédito, viver praticamente sem combustível.
Narrador/Repórter
Depois da Venezuela, o governo de Donald Trump trava uma campanha de pressão econômica contra a Cuba e, há semanas, impede a venda de petróleo para a ilha.
Os Estados Unidos ameaçaram os países que normalmente fornecem combustível para a ilha com sanções, punições e sobretaxas comerciais.
Vítor Boedian
E as condições de vida se tornaram cada vez mais difíceis.
Narrador/Repórter
Alimentos e remédios estão escassos, porque sem combustível é mais difícil distribuir os produtos. E o transporte público, que já era ineficiente, está ainda mais reduzido. A vendedora Solanda contou que, semana passada, passou uma noite num restaurante porque não conseguiu voltar para casa. Volta e meia temos problemas, mas sempre tem pelo menos um ônibus. Dessa vez, não teve nenhum, disse.
Cristiana Mesquita (Titi)
Por o momento, não há.
Narrador/Repórter
Todos os dias, a maior parte do país fica sem energia elétrica. Os blackouts podem durar até 15 horas.
Vítor Boedian
E já se fala até em risco de catástrofe humanitária.
Ariel Palacios
Cuba está sob risco de um colapso humanitário se não receber petróleo para transporte e para aquecer a população, que enfrenta temperaturas mínimas recordes, segundo o secretário-geral das
Cristiana Mesquita (Titi)
Nações Unidas, António Guterres.
Vítor Boedian
Sem perspectivas, mais e mais gente tem optado por deixar o país.
Narrador/Repórter
A situação em Cuba tá muito ruim. Falta gás, falta luz, não tínhamos comida.
Natuzaneri
Decidimos apostar numa vida melhor.
Narrador/Repórter
Os imigrantes dizem que a crise pela qual Cuba passa tem estimulado a saída do país. E as políticas anti-migração dos Estados Unidos, adotadas no governo Trump, fizeram muitos escolher o Brasil.
Vítor Boedian
A ilha é dependente do petróleo que vem de fora. São necessários 100 mil barris por dia para manter a economia funcionando, mas a produção interna não passa de 40 mil. Agora, o regime, que já sobreviveu ao fim da União Soviética e a diversas outras crises, se pergunta se pode passar por mais essa. Sem combustível, sem transporte e sem energia.
Natuzaneri
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vítor Boedian é...
Vítor Boedian
O risco de um colapso em Cuba. Neste episódio, eu converso com Cristiana Mesquita, mais conhecida como Tite. Ela é diretora de notícias para o Caribe da Associated Press e fala diretamente de Havana, onde mora há quatro anos. E com Ariel Palacios, correspondente da Globo e da Globo News para a América Latina. Ariel mora em Buenos Aires. Segunda-feira, 2 de março. Titi, há quase um mês os Estados Unidos decidiram bloquear o envio de petróleo à Cuba, um país que já enfrenta há mais de 60 anos embargos. Então, qual que é a situação hoje na ilha com mais esse bloqueio? Como é que está a sua rotina, digamos assim?
Cristiana Mesquita (Titi)
A minha rotina não é uma rotina característica de Cuba. Eu, obviamente, tenho privilégios que a maioria do povo cubano não tem. O que eu posso dizer? O que eu vejo aí nas ruas todos os dias, já não há transporte público, ou seja, você não tem mais os ônibus, as pessoas estão se virando com seus carrinhos elétricos. que são os carrinhos que a gente tem, que são uma espécie de romizeta elétricos, pessoas pedindo carona para poderem se movimentar dentro da cidade, que é uma coisa bastante normal aqui. E caminhando, caminhando muito, porque está difícil a questão do transporte. Além disso, enormes filas para a gasolina, e a gasolina está racionada a 20 litros por pessoa, por carro. Com isso, as ruas estão bastante vazias. Eu, quando saio aqui do escritório por volta das 7 horas da noite, às vezes eu vou até em casa sem ver nenhum outro carro. na rua, né? E a gente está preocupado porque vai chegar um momento em que isso vai também afetar o abastecimento, o abastecimento dos mercados, das lojas de comida, enfim.
Vítor Boedian
A gente viu há uma semana, o João publicou uma notícia de uma fotografia de entulhos de lixo, é esse o cenário mesmo.
Cristiana Mesquita (Titi)
A questão do lixo é mais antiga que isso. A questão do lixo já começou mais ou menos em outubro, novembro do ano passado. Eles têm poucos caminhões de lixo, vários estão quebrados, eles não tinham peça de reposição para consertar, apesar da conhecida criatividade cubana.
Vítor Boedian
Pela tua experiência aí, você já viu o país chegar a esse ponto? O risco tá mais próximo, na sua opinião, de um colapso nesse sistema?
Cristiana Mesquita (Titi)
Eu tô aqui há quatro anos, mas eu venho a Cuba com alguma frequência a trabalho desde 1998. Então eu peguei a parte do que eles chamam do período especial. O período especial foi quando caiu a União Soviética e eles ficaram completamente desamparados e foi um período muito, muito grave na história cubana, com uma diferença muito importante. Naquele momento, eles tinham a Fidel Castro, que era um líder carismático, que mantinha moral, mantinha a população otimista, apesar das enormes dificuldades que eles estavam passando. E havia também a solidariedade de que, naquele momento, todos estavam no mesmo barco. Todo mundo estava na mesma situação. Não é o caso agora, porque hoje em dia Cuba tem uma classe média. Com a abertura da economia para negócios privados, tem gente em Cuba que tem uma vida muito boa. E tem gente em Cuba que não tem nada, que vive do pequeno salário de funcionário estatal. Então esse clima de solidariedade, apesar de que ele ainda existe, porque faz parte da moral da Revolução, ele está também aos poucos se perdendo. É a grande tristeza que eu vejo nesse... nesse cenário.
Vítor Boedian
Titi, você deve saber muito bem, né? Você sabe muito bem. Tomar a opinião dos cubanos é sempre um desafio, né? Um pouco pelo orgulho que eles têm de toda a história que eles construíram, mas também um pouco pelo medo que eles podem eventualmente ter de uma retaliação pelas opiniões. Então, pelo que você depura nas ruas, do que você tem ouvido dos cubanos, o que você tá observando? Qual que é o sentimento hoje?
Cristiana Mesquita (Titi)
Olha, isso mudou bastante. Desde daquelas minhas primeiras viagens para Cuba até agora, eu vejo as pessoas se sentindo muito mais livres para falar. Às vezes, não necessariamente diretamente para mim, porque eu sou estrangeira, mas eu trabalho com cubanos e eu vejo eles se abrindo muito mais quando a gente sai na rua para fazer pergunta. É claro que essa preocupação ainda existe, mas não é Não é da maneira que as pessoas, de uma maneira geral, imaginam. O Estado não está o tempo todo em cima de cada opinião. Eu diria que é uma mistura de apreensão, Eles sabem que isso pode não acabar bem, se eles não receberem o petróleo que eles precisam, a situação vai ficar muito difícil.
Narrador/Repórter
Cuba precisa de cerca de 100 mil barris de petróleo por dia para manter a economia funcionando, mas produz somente 40 mil.
Cuba enfrenta mais uma grave crise econômica, com falta de comida, de remédios e com apagões frequentes, que deixam a população no escuro e agora no frio. Os termômetros têm marcado temperaturas mínimas recordes. Sem energia, os cubanos estão sem combustível e sem aquecimento.
Cristiana Mesquita (Titi)
Mas, ao mesmo tempo, criou neles, eles sempre tiveram, apesar de uma enorme simpatia pelo povo americano, uma grande antipatia com relação aos governos americanos, por conta dos embargos e tudo mais. E eu tô vendo, de uma maneira quase unânime, um repúdio ao presidente Donald Trump. Chamam ele de bully, alguns não entendem, perguntam o que a gente fez para merecer isso, é uma ilha no Caribe que não tem petróleo, que não tem minerais raros, não tem nada e que não é uma ameaça para ninguém. Eles sabem perfeitamente que, seja qual for o desenlace disso, vai afetar ao povo, não vai afetar a esse governo que eles veem como muito distante deles. Uma vez mais, não é Fidel Castro que estava na rua, que estava com o povo o tempo todo. É um governo que se isola muito da população.
Vítor Boedian
Titi, e o que os cubanos têm dito depois do que aconteceu na Venezuela no começo desse ano?
Cristiana Mesquita (Titi)
O problema é que a gente não sabe muito bem o que aconteceu na Venezuela, né? O que eles vão fazer? Eles vão entrar aqui, vão sequestrar o Miguel Dias Canel e depois, né? Eu acho que a preocupação é o que um embargo energético de longo prazo vai causar de sofrimento à população. Eu estive essa semana por horas com o pessoal da ONU, que está absolutamente angustiado, porque eles têm donativos que eles têm que distribuir para pessoas vulneráveis, para vítimas do furacão Melissa do ano passado, que ainda estão sem casa, sem luz, sem água potável. E eles não estão podendo fazer isso, porque não tem como transportar esses produtos e essas coisas para as pessoas.
Narrador/Repórter
O México, um histórico fornecedor de petróleo à Cuba, prometeu o envio de alimentos e itens de primeira necessidade na tentativa de aliviar o sofrimento do povo. Nas redes sociais, o presidente Miguel Dias Canel agradeceu as mais de 800 toneladas de ajuda humanitária enviadas pelo México.
Cristiana Mesquita (Titi)
Então, eu acho que essa é a grande preocupação, não é uma preocupação de entrar alguém e sequestrar o líder do governo. Mesmo porque o presidente Dias Canel não é como o Maduro, ele é o secretário-geral do Partido Comunista. Eles teriam que fazer isso com o Partido Comunista inteiro, né? Ou pelo menos com a alta cúpula. De uma maneira geral, as pessoas acreditam que vai haver um acordo. Que é o que o Trump está pedindo, né? Vamos negociar ou... E eu acho que vai chegar um momento em que eles talvez tenham que negociar realmente.
Vítor Boedian
Titi, essa última semana ocorreu um incidente que é bastante pontual, mas muito importante e que aumenta essas tensões entre Cuba e Estados Unidos. No Mar do Caribe, militares cubanos mataram quatro pessoas a bordo de uma lancha que entrou nas águas do país. Segundo o governo cubano, o incidente ocorreu depois que as pessoas a bordo da lancha abriram fogo contra os soldados cubanos depois de uma interceptação. O que a gente sabe desse caso?
Cristiana Mesquita (Titi)
O que está ficando cada vez mais claro é que essa interceptação dessa lancha tenha sido uma iniciativa dos cubanos em Miami, achando que ia ser um bom momento de fazer alguma coisa, de tentar alguma coisa. É importante lembrar que isso já aconteceu várias vezes. A gente não tem aí, desde a última grande, que foi exatamente há 30 anos atrás, quando eles derrubaram os dois aviões de um grupo chamado Brothers to the Rescue, que foram duas avionetas que viriam para Cuba, enfim, trazer alguma coisa ou recolher gente, e eles foram derrubados e aí pessoas morreram, mas Acontece regularmente da Guarda Costeira, da Marinha Cubana, Interceptal, que eles chamam esses barcos rápidos, Speedboats de Miami, que vem até aqui ou para trazer coisas, ou para recolher gente para levar de volta para Miami. E a partir do momento que eles entram em águas cubanas, eles são interceptados.
Narrador/Repórter
Olha, segundo o governo cubano, o que aconteceu foi o seguinte, cinco militares da guarda de fronteira de Cuba se aproximaram na manhã de ontem de uma lancha com identificação americana da Flórida, que estava a dois quilômetros do litoral cubano. e os ocupantes da embarcação atiraram contra os guardas que responderam. Segundo o governo em Havana, os 10 ocupantes da lancha eram cubanos que moravam nos Estados Unidos e os sobreviventes teriam dito que pretendiam realizar uma infiltração com fins terroristas em Cuba. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que é filho de cubanos que migraram para a Flórida, disse que os Estados Unidos vão abrir uma investigação independente sobre esse caso. Ele disse que quer saber, por exemplo, se os mortos eram cidadãos americanos. E disse ainda que não se tratou de uma operação do governo dos Estados Unidos.
Cristiana Mesquita (Titi)
Uma coisa interessante que eu ouvi na rua com a exclusão da opinião dos cubanos, é que isso deu aos cubanos aquela coisa, é, eles estão nos testando para ver como é que a gente vai reagir no caso de uma interferência militar. E eles todos colocam, enfim, uma frente muito corajosa, nós vamos enfrentar o que seja, enfim. Mas uma pessoa falou assim, bom, pelo menos nós interceptamos, e nós atiramos. Nós não explodimos sem saber quem era, porque, e de onde, e quando, comparando com a explosão dos barcos que os Estados Unidos está fazendo dentro de águas caribenhas.
Vítor Boedian
Titi, eu quero te agradecer muito pela sua valiosa participação, uma jornalista que está em Cuba e consegue nos dar essa perspectiva muito precisa, muito rara, inclusive, nesses momentos de tensão em que de fato é muito mais complicado distinguir o que é fato e o que é discurso político. A gente torce para que você continue fazendo esse trabalho aí e em segurança na medida do possível. Muito obrigado.
Cristiana Mesquita (Titi)
Obrigada a você, tchau.
Vítor Boedian
Espera só um pouquinho que eu já volto para falar com Ariel Palacios. Ariel, Cuba vive nesse momento, talvez um dos momentos da sua história, dos quase 70 anos desde a Revolução Cubana, um dos momentos mais difíceis. Eu me lembro, na década de 90, no ensino médio, um professor meu falando que se vocês quiserem conhecer o regime cubano, visitem agora, porque quando Fidel morrer, aquela ilha vai virar como qualquer outra ilha do Caribe. E não foi o que aconteceu. Cuba praticamente dobrou o seu período dentro do regime, Isso foi muito também por, apesar da perda do apoio da União Soviética, que foi desmantelado, também pelo apoio da Venezuela, né? Sob o governo Chávez, dando um apoio energético, sobretudo, né? Vendendo petróleo a preços muito baixos. Esse apoio venezuelano foi diminuindo até a gente chegar aí no começo desse ano. Com essa mudança lá na Venezuela, a torneira fechou. Em resumo, o que mais faz desse momento diferente dos anteriores, Ariel?
Ariel Palacios
Quando venceu a Revolução Cubana em 1959, durante os primeiros dois anos não havia ainda uma espécie de rumo que mostrasse para que lado Cuba ia. Fidel Castro não pertencia ao Partido Comunista, Raul Castro, seu irmão, sim. Não havia nenhuma espécie de declaração socialista. Era uma revolução para derrubar o ditador anterior, Fulgencio Batista, um ditador de direita. Havia uma visão romantizada com Che Guevara e outras figuras da revolução. Já um pouco mais de um ano depois, nem dois anos depois, entre um ano e um ano e meio, Fidel Castro, devido às pressões americanas, decidiu alinhar-se à União Soviética. A União Soviética nos anos 60, 70 e 80 e até 1991, quando acabou a União Soviética, foi a grande compradora dos produtos, do produto cubano por excelência, que era o açúcar e também os países do leste europeu que estavam na órbita da União Soviética, todos os países do bloco do Pacto de Varsóvia, da Cortilha de Ferro, a Polônia, a Romênia. Então Cuba encontrou ali um mercado assegurado, com ótimos preços, inclusive em alguns momentos acima do mercado, para vender o seu açúcar. E graças ao açúcar, Cuba foi surfando, apesar do embargo americano, foi surfando até 1989, quando teve a queda do muro de Berlim, E aí depois, em 1991, quando teve o fim da União Soviética, conseguiram chegar até 2006. Então, a Revolução, apesar de tudo, foi sobrevivendo, conseguiu chegar até 2006. Em 2006, Hugo Chávez já estava governando na Venezuela, fazia sete anos, desde 1999, e eles fizeram um acordo, um acordo pelo qual Venezuela abastecia Cuba com petróleo. abastecia petróleo a preço de presente, a preço de banana. E Cuba devolvia com médicos, que depois aplicou também isso em outros países da região, inclusive o Brasil, com o serviço de inteligência. Recordemos que Maduro, quando foi sequestrado pelo comando americano no dia 3 de janeiro, estava rodeado, não de venezuelanos, estava rodeado de um cinturão de militares altamente especializados, que eram cubanos. Então Cuba devolvia a Venezuela isso. E assim foi até o dia 3 de janeiro, se bem que a Venezuela já nos últimos três anos estava cada vez fornecendo menos petróleo, porque a própria Venezuela estava produzindo bem menos petróleo do que antigamente. Ele estava com um crescimento interessante antes da pandemia. Veio a pandemia, vieram vários furacões que arrasaram a infraestrutura de Cuba. Era como se fossem as sete pragas do Egito, né? Furacões, por um lado, apagões elétricos, apagões elétricos pela falta de combustível, desabastecimento de alimentos e medicamentos, êxodo de seus habitantes, repressão e censura do regime e as pressões da Casa Branca por intermédio do embargo, né? 64 anos de impedimento quase total de comerciar com os Estados Unidos, mas comercia livremente com outros países, e a sétima praga que foi quando o governo Trump, no início do ano, impediu o abastecimento de petróleo para Cuba, por intermédio daquela ameaça alfandegária para qualquer país que enviasse combustível à ilha, tanto é que o México, que já o ano passado estava começando a mandar um pouco de petróleo, teve que cancelar tudo subitamente, então sem combustível. Lembrando que a energia elétrica de Cuba provém 95% de termoelétricas, porque Cuba tem rios muito pequenos, uma ilha estreita tem rios pequenos, então não tem hidroelétricas como o Brasil. O país teve uma queda de 5% no PIB no ano passado, acumula uma queda de 15% desde 2022, quando iniciou a pandemia. Então, é um período muito, muito, muito, muito complexo.
Vítor Boedian
Agora, é notável, Ariel, a gente já tá chegando aos 40 anos pós-Guerra Fria. Cuba, uma ilha relativamente pequena, né? Completamente depauperada. Por que que continua gerando interesses de países maiores, né? Não só o assédio norte-americano, que tá lá a 150 km de distância, mas Rússia, China, do outro lado do mundo. Por que que continua esse jogo de interesses concentrados nessa ilha.
Ariel Palacios
Cuba não tem petróleo como a Venezuela. Cuba não está numa encruzilhada geopolítica como a Groenlândia. Não tem minério. Cuba não tem minério que vale a pena. Cuba não tem petróleo. Aí você diz, bom, então o que que tem? Não é que tem metais raros? Tampouco. Água? Tampouco. Não tem grandes rios, como eu disse, né? Lesiões de termoelétricas, basicamente. Então, qual que é o interesse tão grande em Cuba atualmente? Cuba gerava um interesse imenso durante a Guerra Fria, especialmente nos anos 60, quando teve a crise dos mísseis cubanos, em 62, durante o governo dos Estados Unidos de John Fitzgerald Kennedy, e era o Khrushchev que governava a União Soviética.
Narrador/Repórter
crise dos mísseis de 1962.
Natuzaneri
A então União Soviética instalou as armas
Narrador/Repórter
em Cuba e os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval à ilha. Depois de muita tensão, americanos e soviéticos chegaram a um acordo e recuaram para alívio global.
Ariel Palacios
Nos anos 80 ainda havia, porque por intermédio de Cuba havia uma influência na Nicarágua e em algumas ilhas do Caribe, como se fosse uma espécie de pontas de lança soviéticas para o futuro. Mas isso também acabou. Então Cuba foi perdendo esse espaço e isso fica muito claro. nas reações tanto de Vladimir Putin quanto de Xi Jinping, o líder chinês, que desde que as pressões sobre Cuba começaram, e são pressões ultra intensas por parte de Trump, a resposta deles não foi enviar produtos, furar as ameaças alfandegárias de Trump, não. Foi aqueles comunicados mostrando certa indignação e também não é muita indignação. Putin também é famoso por ter deixado vários aliados na mão, de ter abandonado aliados. Este seria mais um caso. Se bem que desde que Putin está no poder, Cuba já não era uma aliada. A China tinha boas relações com Cuba, mas também não tinha um grande comércio. com Cuba, havia uma questão ideológica, sabendo que os chineses, embora o Partido Comunista Chinês esteja no poder, a economia chinesa é selvagemente capitalista. Então, China e a Rússia pronunciam palavras de protesto, mas não vão mais além disso. Então, o fato de que Cuba está tremendamente isolada na atual conjuntura, aliada mesmo para a vareleira Venezuela. E agora não é mais, não é mais. Tanto é que Délice Rodrigues, nesta semana, se referiu a Trump como amigo e sócio, amigo e sócio. Chávez deve estar revirando no túmulo, se pudesse, se houver um além e se for possível revirar no túmulo, porque uma declaração dessas teria sido inimaginável. em 26 anos de Revolução Bolivariana de Chavismo no poder da Venezuela.
Vítor Boedian
Ariel, vou trazer aqui um elemento a mais desse vocabulário empresarial que é muito usado no governo Trump. Ele falou a jornalistas que talvez seja possível uma aquisição amigável de Cuba, ou seja, já vendo Cuba também como outros locais do mundo, como ele já fez isso, como uma grande especulação imobiliária. Você acha que é possível os Estados Unidos chegar nesse momento em que Cuba está bastante combalida economicamente, Estados Unidos chegar e comprar a ilha assim de uma maneira, não de uma maneira objetiva, mas chegar com tantos investimentos a ponto do regime ficar inviabilizado, o regime de Miguel Dias Canel?
Ariel Palacios
Se houvesse uma abertura econômica que permitisse uma grande quantidade de investimentos americanos, haveria um cenário bastante que voltaria Cuba à pré-revolução, quando os Estados Unidos tinham um monte de investimentos em Cuba, hotéis, cassinos, e Cuba tinha a vantagem de ser um ponto turístico próximo dos Estados Unidos, então os americanos iam com muita frequência passar o fim de semana, feriados, em Cuba e voltavam para o território dos Estados Unidos. Então isso já acontecia, era uma grande proximidade. Cuba tem préias fantásticas, Havana, Havana Antiga, a parte histórica, A histórica da Havana que foi reformada anos atrás é espetacular. Então, turisticamente, Cuba seria um ponto de muito interesse para as empresas turísticas dos Estados Unidos. ilha tal, como ele está propondo ali para fazer algo parecido da Groenlândia, algo assim, isso seria impossível na atual conjuntura, porque há uma identidade cubana fortíssima, um orgulho também de uma parte da população cubana pela Revolução, então isso seria... isso, digamos, comprar Cuba seria algo... é uma jogada mais histriônica do Trump, porque existe um histórico lobby Cubano Ele foi eleito parlamentar graças ao voto cubano anticastrista e isso tem um peso enorme no imaginário do eleitorado cubano-americano e outros setores do eleitorado americano. Então, será um grande trunfo político para Trump, embora não seja um trunfo econômico, propriamente dito, para esse setor, mas é um trunfo simbólico.
Vítor Boedian
Ariel, uma das possíveis estratégias dos Estados Unidos também pode ser, porque não, uma aproximação de alguns agentes políticos de Cuba, como a gente já está vendo, né?
Ariel Palacios
Exato. Nesta semana houve uma reunião da Cúpula da Comunidade do Caribe, a CARICOM, em San Cristóbal, uma ilha ali do Caribe, e as informações extraoficiais indicam que assessores do secretário do Estado americano, Marco Rubio, teriam se reunido com Raul Guilherme Rodrigues Castro, que nada mais nada menos é neto do Raul Castro e sobrinho neto do Fidel Castro. Então, estariam acontecendo conversas desse estilo, recentemente teriam ocorrido no México, conversas entre Alejandro Castro Espín, que é o filho do Raul Castro, sobrinho do Fidel Castro, e é o chefe da inteligência cubana, que teria sido unido com representantes da CIA, no México, com o objetivo de negociar alguma espécie, algo como se fosse uma espécie de transição do regime para tempo indeterminado. E é interessante que Raul Guillermo Castro, que é apelidado de o caranguejo, e que a assessor do pai e lhe comanda um grupo de administração empresarial, o HSA, que é o maior conglomerado empresarial estatal de Cuba, controlado pelas suas armadas, esteja em contato com os americanos, se bem que agora Trump autorizou que o petróleo poderá novamente ser vendido à Cuba, desde que seja para empresas particulares cubanas. Se bem que o Estado Cubano, por incrível que pareça, é um paradoxo. O Estado Cubano controla várias empresas privadas, embora seja o Estado Cubano, com a família Castro por trás disso.
Vítor Boedian
Muito bem, Ariel Palacios, nos ajudando a decifrar essas mensagens que vão sendo lançadas lá dos Estados Unidos em direção à Cuba, que muito provavelmente vão ser cada vez mais frequentes, como a gente vê aí em vários outros pontos do planeta. Obrigado, Ariel.
Ariel Palacios
Obrigado, Victor. Obrigado a todos.
Natuzaneri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida.
Vítor Boedian
Este episódio usou áudios da TV Cultura.
Natuzaneri
Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catellan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Nathuzaneri e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Data: 2 de março de 2026
Host: Vítor Boedian (G1)
Convidados: Cristiana Mesquita ("Titi", Associated Press em Havana) & Ariel Palacios (correspondente Globo/GloboNews em Buenos Aires)
O episódio mergulha na crise aguda que atinge Cuba em 2026, marcada por falta de combustível, apagões prolongados, escassez de alimentos e remédios, e pela intensificação do embargo econômico, especialmente com o bloqueio de petróleo impulsionado pelos EUA sob Donald Trump. Os convidados trazem relatos e análises históricas para entender se Cuba está, de fato, à beira de um colapso humanitário e como a ilha tem resistido e mudado ao longo das últimas décadas.
[00:01–03:01]
Memorável:
"Os cubanos estiveram sob embargo, mas nas últimas semanas experimentaram algo inédito, viver praticamente sem combustível." — Vítor Boedian [00:44]
Convidada: Cristiana Mesquita ("Titi")
[03:52–10:36]
“Esse clima de solidariedade, apesar de que ele ainda existe... está também aos poucos se perdendo. É a grande tristeza que eu vejo nesse cenário.” — Titi [06:44]
"Eles sabem perfeitamente que, seja qual for o desenlace disso, vai afetar ao povo, não vai afetar a esse governo que eles veem como muito distante deles.” — Titi [09:18]
[10:36–12:33]
Memorável:
"Eles não estão podendo fazer isso, porque não tem como transportar esses produtos e essas coisas para as pessoas." — Titi [11:20]
[12:33–15:55]
"Isso deu aos cubanos aquela coisa, é, eles estão nos testando para ver como é que a gente vai reagir no caso de uma interferência militar." — Titi [15:14]
[16:24–29:16]
[17:30–22:38]
“Era como se fossem as sete pragas do Egito: furacões... apagões… desabastecimento de alimentos e medicamentos, êxodo de seus habitantes, repressão e censura do regime, as pressões da Casa Branca... e, por último, o corte do petróleo.” — Ariel Palacios [20:19]
“Cuba está tremendamente isolada na atual conjuntura, aliada mesmo para a vareleira Venezuela. E agora não é mais.” — Ariel Palacios [24:35]
[24:49–29:16]
“Comprar Cuba seria algo... é uma jogada mais histriônica do Trump...” — Ariel Palacios [26:40]
Memorável:
“O Estado cubano controla várias empresas privadas, embora seja o Estado Cubano, com a família Castro por trás disso.” — Ariel Palacios [29:07]
O episódio oferece um retrato raro e detalhado da gravidade atual em Cuba — um país no limiar do colapso, mas resiliente, fragmentado internamente e mais isolado do que nunca. Os relatos de Havana revelam o esgarçamento do tecido social e as novas nuances do regime em meio a um embargo implacável e a falta de aliados eficazes. A análise histórica mostra que, apesar de rivalizar o mundo durante a Guerra Fria, Cuba hoje é vista, sobretudo, como peça de valor simbólico para as grandes potências, que pouco alteram sua realidade no cotidiano dos cubanos.
“Eu vejo as pessoas se sentindo muito mais livres para falar. [...] O Estado não está o tempo todo em cima de cada opinião.” — Titi [08:04]
“O orgulho nacional cubano permanece muito forte, e a lógica da especulação imobiliária dos EUA esbarra nessa identidade.” — Resumo de Ariel [26:40+]
“O drama cubano é a luta diária por sobrevivência, e uma diplomacia internacional cada vez mais voluntarista.” — Síntese do episódio
Recomendado para ouvintes que buscam compreender não apenas a crise recente, mas a travessia histórica, social e política do povo cubano diante do isolamento global.