O ASSUNTO — O RISCO DE UM COLAPSO EM CUBA
Data: 2 de março de 2026
Host: Vítor Boedian (G1)
Convidados: Cristiana Mesquita ("Titi", Associated Press em Havana) & Ariel Palacios (correspondente Globo/GloboNews em Buenos Aires)
Tema do Episódio
O episódio mergulha na crise aguda que atinge Cuba em 2026, marcada por falta de combustível, apagões prolongados, escassez de alimentos e remédios, e pela intensificação do embargo econômico, especialmente com o bloqueio de petróleo impulsionado pelos EUA sob Donald Trump. Os convidados trazem relatos e análises históricas para entender se Cuba está, de fato, à beira de um colapso humanitário e como a ilha tem resistido e mudado ao longo das últimas décadas.
Contextualização Histórica e Situação Atual
[00:01–03:01]
- O episódio contextualiza a Revolução Cubana de 1959 e o papel do embargo dos EUA, que desde então limita seriamente a economia cubana.
- Desde a era Trump, houve recrudescimento das políticas anti-Cuba, especificamente impedindo a compra de petróleo por Cuba, chegando agora ao bloqueio de países terceiros que tentem negociar combustível com a ilha.
- Impacto direto:
- Longos apagões (até 15h/dia)
- Transporte público praticamente inexistente
- Distribuição de alimentos e remédios comprometida
- Vida cotidiana dramaticamente afetada
Memorável:
"Os cubanos estiveram sob embargo, mas nas últimas semanas experimentaram algo inédito, viver praticamente sem combustível." — Vítor Boedian [00:44]
Cuba nas Ruas: Relato da Realidade
Convidada: Cristiana Mesquita ("Titi")
[03:52–10:36]
- Rotina alterada: Vida dos cubanos marcada pelo improviso e distanciamento da imagem solidária do “período especial” dos anos 1990.
- Racionamento: Gasolina limitada a 20 litros por pessoa/veículo; enormes filas; ruas vazias.
- Solidariedade em transformação:
- Antes, todos sofriam de forma igual; hoje, há desigualdade crescente devido ao surgimento de uma classe média após abertura para negócios privados.
- O "clima de solidariedade" revolucionário se esgarça.
“Esse clima de solidariedade, apesar de que ele ainda existe... está também aos poucos se perdendo. É a grande tristeza que eu vejo nesse cenário.” — Titi [06:44]
- Opinião dos cubanos:
- O temor de represálias ao expressar opiniões diminuiu, mas persiste certo receio.
- Majoritário sentimento antipático em relação ao governo Trump, visto como agressor ("bully"), e compreensão de que qualquer desfecho da crise prejudicará o povo, não a elite governante.
"Eles sabem perfeitamente que, seja qual for o desenlace disso, vai afetar ao povo, não vai afetar a esse governo que eles veem como muito distante deles.” — Titi [09:18]
A Gravidade Humanitária e o Papel Internacional
[10:36–12:33]
- Ajuda humanitária travada: ONU angustiada pela impossibilidade de distribuir donativos por falta de logística, especialmente para vítimas de desastres naturais.
- O México destaca-se como fonte de solidariedade, enviando mais de 800 toneladas de ajuda.
Memorável:
"Eles não estão podendo fazer isso, porque não tem como transportar esses produtos e essas coisas para as pessoas." — Titi [11:20]
Incidente Naval: Tensão Militar e Migração
[12:33–15:55]
- Relato do incidente em que militares cubanos mataram quatro pessoas numa lancha com registro da Flórida, supostamente cubanos expatriados tentando “infiltração de natureza terrorista”, segundo Havana.
- O episódio reacende temores de testagem das defesas cubanas.
"Isso deu aos cubanos aquela coisa, é, eles estão nos testando para ver como é que a gente vai reagir no caso de uma interferência militar." — Titi [15:14]
Análise Histórica e Política: Ariel Palacios
[16:24–29:16]
Cuba e os Grandes: Por que o Interesse?
[17:30–22:38]
- Após a Revolução, Cuba oscilou até decidir-se pelo bloco soviético, sobrevivendo graças ao açúcar, à União Soviética e depois à Venezuela com Chávez.
- O fim do apoio venezuelano e a hostilidade dos EUA deixaram Cuba com isolamento inédito e uma economia em queda livre.
“Era como se fossem as sete pragas do Egito: furacões... apagões… desabastecimento de alimentos e medicamentos, êxodo de seus habitantes, repressão e censura do regime, as pressões da Casa Branca... e, por último, o corte do petróleo.” — Ariel Palacios [20:19]
- Cuba já não possui importância estratégica, recursos naturais, ou apoio decidido da China e da Rússia — ambos limitam-se a declarações protocolares.
“Cuba está tremendamente isolada na atual conjuntura, aliada mesmo para a vareleira Venezuela. E agora não é mais.” — Ariel Palacios [24:35]
A “Aproximação” Norte-Americana
[24:49–29:16]
- O governo Trump fala de “aquisição amigável” de Cuba, sinalizando interesse econômico-turístico, mas isso esbarra no orgulho nacional e legado revolucionário ainda marcantes.
“Comprar Cuba seria algo... é uma jogada mais histriônica do Trump...” — Ariel Palacios [26:40]
- Negociações de bastidores ocorrem: EUA buscam contato com figuras estratégicas próximas à liderança histórica cubana, vislumbrando uma transição pactuada.
- Flexibilização do embargo: Trump autoriza venda de petróleo para empresas privadas cubanas, mas a estrutura estatal dos negócios pode neutralizar os efeitos da medida.
Memorável:
“O Estado cubano controla várias empresas privadas, embora seja o Estado Cubano, com a família Castro por trás disso.” — Ariel Palacios [29:07]
Timestamps Relevantes
- [03:52] — Titi relata mudanças na vida cotidiana cubana e destaca racionamento e filas
- [05:48] — Comparação atual com o "período especial" dos anos 1990
- [08:04] — Debate sobre liberdade de opinião e sentimentos dos cubanos nas ruas
- [11:35] — Ajuda humanitária do México e dificuldades da ONU
- [13:01] — Incidente naval e suas repercussões
- [17:30] — Ariel faz retrospectiva das alianças internacionais cubanas
- [22:38] — Relembre a crise dos mísseis e o desinteresse atual de China/Rússia
- [24:49] — Ideia de “aquisição amigável” dos EUA e questões do orgulho cubano
- [27:40] — Negociações confidenciais entre EUA e figuras da elite cubana
Notas Finais
O episódio oferece um retrato raro e detalhado da gravidade atual em Cuba — um país no limiar do colapso, mas resiliente, fragmentado internamente e mais isolado do que nunca. Os relatos de Havana revelam o esgarçamento do tecido social e as novas nuances do regime em meio a um embargo implacável e a falta de aliados eficazes. A análise histórica mostra que, apesar de rivalizar o mundo durante a Guerra Fria, Cuba hoje é vista, sobretudo, como peça de valor simbólico para as grandes potências, que pouco alteram sua realidade no cotidiano dos cubanos.
Frases-Chave
“Eu vejo as pessoas se sentindo muito mais livres para falar. [...] O Estado não está o tempo todo em cima de cada opinião.” — Titi [08:04]
“O orgulho nacional cubano permanece muito forte, e a lógica da especulação imobiliária dos EUA esbarra nessa identidade.” — Resumo de Ariel [26:40+]
“O drama cubano é a luta diária por sobrevivência, e uma diplomacia internacional cada vez mais voluntarista.” — Síntese do episódio
Recomendado para ouvintes que buscam compreender não apenas a crise recente, mas a travessia histórica, social e política do povo cubano diante do isolamento global.
