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Natuza Nery
Em pleno inverno, você acorda com o celular apitando. Alerta de calor extremo. Dias depois, uma chuva torrencial alaga cidades inteiras. Em outro canto do país, a terra racha de tão seca. Parece contradição, mas por trás de tudo isso pode estar o mesmo fenômeno. O El Nino. Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e
Narrator/Reporter
Alertas de Desastres Naturais, o CEMADEM, há
Natuza Nery
80% de chance do El Nino se estabelecer no Oceano Pacífico Equatorial, perto da linha do Equador, e pode provocar um desastre térmico. Climatologistas acreditam que este El Nino poderá ser o mais forte dos últimos 140 anos. O El Niño ocorre quando as águas da superfície do Oceano Pacífico, que fica entre a América do Sul e a Oceania, esquentam mais do que o normal. E isso muda a direção dos ventos e das chuvas em boa parte do planeta. É como mexer numa peça de dominó e ver todas as outras começarem a cair.
Narrator/Reporter
No século XIX, foi registrado um de excepcional intensidade. No nordeste do Brasil, uma das piores estiagens já relatadas destruiu lavouras e causou êxodo em massa. Seca, fome e doenças associadas ao aquecimento das águas do Pacífico mataram milhões de pessoas ao redor do mundo. Esses episódios potentes com a superfície do Pacífico mais de dois graus acima da média, ocorreram mais quatro vezes nos últimos 150 anos. No último, o Brasil enfrentou a maior seca dos últimos 70 anos, com mais de 80% dos municípios afetados, quase 1.400 de forma extrema.
Natuza Nery
Vamos voltar a 2024, ano em que cerca de 30 milhões de hectares arderam em chamas pelo Brasil, uma área 60% maior do que a média histórica A Amazônia, por exemplo, nunca tinha queimado tanto
Lincoln Alves
A gente teve essa situação também, que
Natuza Nery
a água que nós estávamos bebendo, parecia que estava fervendo.
Lincoln Alves
A gente descia para a beira para
Natuza Nery
pegar água umas 3 horas da tarde, 2 horas da tarde, a água estava
Lincoln Alves
quente mesmo, bastante quente.
Natuza Nery
E estava ruim para beber, para tomar banho. Seca total de um lado, chuva extrema do outro. E foi também em 2024 que o Rio Grande do Sul viveu uma das suas maiores tragédias. 185 mortos. Uma estimativa de 6 milhões de pessoas afetadas.
Lincoln Alves
A maior enchente que já aconteceu aqui
Carlos Nobre
foi a de 2010.
Lincoln Alves
E ficou coisa de um metro e
Medical Expert/Health Official
meio, dois metros abaixo do que está hoje. Muita diferença, muito mais água. Alguma coisa sem comparação do que já
Narrator/Reporter
ocorreu aqui outra vez.
Natuza Nery
O El Nino daquele ano foi considerado pela Organização Mundial da Saúde o quinto mais poderoso da história Só que o de agora, o previsto para este ano, pode ser muito pior O Brasil é
Narrator/Reporter
um país extremamente vulnerável não só à mudança do clima, mas aos efeitos do El Nino E quando uma coisa é agravada pela outra, isso pode representar impactos que atingem diretamente a população E aí
Natuza Nery
é que está o pulo do gato. Apesar de ser um fenômeno climático natural, esta é uma crise resultante da combinação de diferentes fatores. Entre eles, um se destaca cúpula de calor que hoje sufoca o planeta.
Narrator/Reporter
A união do aquecimento global com um reuninho potencialmente intenso pode agravar eventos climáticos extremos.
Lincoln Alves
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a dura verdade é que falhamos em garantir que o aquecimento da Terra seria mantido em menos de um grau e meio e que isso foi uma falha moral e uma negligência mortal.
Medical Expert/Health Official
Os cientistas alertam que as ondas de calor estão ficando mais intensas e mais longas, consequência da poluição provocada pela queima de combustíveis fósseis.
Narrator/Reporter
O climatologista da Universidade do Colorado, Scott Tannen, explicou que o mundo vem esquentando há 50 anos. Isso acontece porque a gente queima carvão, petróleo e gás para fazer energia elétrica. O carbono vem dessas queimas e fica na atmosfera e vai continuar lá, fazendo o mundo cada vez mais quente.
Natuza Nery
É como se o clima naturalmente instável passasse a funcionar sob uma panela de pressão, uma panela que nós mesmos colocamos no fogo ao negligenciar as mudanças climáticas. E o resultado? Ondas de calor mais intensas, mais duradouras e mais perigosas. E, a partir daí, eventos mais intensos, mais longos e mais difíceis de prever.
Medical Expert/Health Official
Os médicos do serviço de urgência deste hospital nos arredores de Paris começaram a usar gelo em grandes quantidades para fazer baixar a temperatura corporal dos doentes que têm dado entrada na unidade com hipertermia. Por aqui, o número de internações duplicou por causa do calor. É um desafio para toda a Europa, que está aquecendo mais rapidamente que o resto do mundo. O Reino Unido é um exemplo disso. O país registrou em junho o dia mais quente da sua história. Na Espanha, o mês passado terminou com mais de mil mortes associadas às altas temperaturas.
Natuza Nery
Governos do mundo todo se mobilizam para enfrentar o segundo semestre de 2026. O governo brasileiro, inclusive, anunciou um pacote de quase 10 bilhões de reais para preparar os sistemas de saúde e de assistência social. Isso porque a questão já não é apenas se o El Nino vai chegar. É o tamanho do estrago que ele pode causar ao encontrar um planeta cada vez mais quente.
Narrator/Reporter
Agora não se tem tempo para se preparar a infraestrutura, mas as medidas de resposta, sim. Quais serão os agentes públicos acionados e todas as medidas de resposta de evacuação, de preparação daquela cidade para ela responder ao desastre, que, como eu disse, o Brasil é um país de dimensão continental e os desastres são muito diferentes dependendo da região que você olha.
Natuza Nery
O Brasil está preparado para responder a esse desafio? Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é... O super reuninho, as mudanças climáticas e o novo normal infernal. Neste episódio, eu converso com Carlos Nobre, climatologista e cientista sênior da Universidade de São Paulo. Ao lado de outros cientistas, Carlos Nobre recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007 como um dos autores do IPCC, o painel intergovernamental sobre mudanças climáticas da ONU. Eu converso também com Lincoln Alves, ordenador-geral do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, e autor líder do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Sexta-feira, 3 de julho. Professor, muitos cientistas estão dizendo que o El Nino deste ano vai ser o pior em 140 anos. Eu queria te perguntar, começar te perguntando por quê.
Carlos Nobre
As projeções dos centros climáticos meteorológicos do mundo todo estão indicando que esse auninho pode atingir a categoria muito forte e até ser, como você falou, um auninho dos mais fortes por mais de um século.
Narrator/Reporter
A Organização Meteorológica Mundial divulgou um estudo que indica extremos climáticos com temperaturas excepcionalmente altas em quase todas as partes do planeta nos próximos três meses e alertou para uma maior probabilidade de chuvas fortes e secas. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o El Nino vai alimentar ainda mais o aquecimento global, que os impactos serão ainda mais severos, cruzando fronteiras com uma velocidade devastadora, e que o mundo deve tratar isso como um alerta climático urgente que é.
Carlos Nobre
E se mede muito a temperatura ali do Oceano Pacífico Equatorial, na superfície do mar, a gente chama Ninho 3.4, que é ali no meio do Oceano Pacífico Equatorial. E o muito forte é quando a temperatura ali passa de 2,5 graus da média. De março para abril, para maio, para junho e agora em julho, essa temperatura já chegou a 1,2 grau. E as projeções são que continuam a aumentar e atingiremos essa forte setembro, outubro, novembro e dezembro. Se é um dos mais fortes é o Ninho. Quase todos aqueles meses, agosto de 2023 até, Abril de 2024 foi um ano moderado, mas esse será forte, mas provavelmente muito forte. Então nós temos que estar muito preparados.
Natuza Nery
A gente vive a nossa história marcada por eventos climáticos extremos. Eles não existem desde recentemente, existem já há muito tempo, mas eles se tornaram mais avassaladores, mais frequentes, mais intensos. E eu queria te perguntar o que que nós, humanidade, temos a ver com isso.
Carlos Nobre
É nossa responsabilidade, porque fomos nós que praticamente desde que começamos a utilizar combustíveis fósseis, carvão, petróleo, gás natural, isso começou lá no fim do século XVIII na Inglaterra, depois a industrialização levou isso no século XIX em muitos países e depois no século XX praticamente em todo o mundo.
Narrator/Reporter
As mudanças começaram a ser percebidas já no fim do século XIX. O grande pintor francês Claude Monet retratou a poluição em Londres na época. Há quem diga que a névoa misturada com a fumaça das fábricas durante a queima do carvão influenciou Monet nas suas técnicas impressionistas de pintura. Mas foi no fim do século passado, depois do início do uso do petróleo como combustível, que as evidências científicas começaram a comprovar A relação direta do aumento das emissões dos gases do efeito estufa com o aumento da temperatura na Terra.
Carlos Nobre
E essas são as principais fontes dos gases de efeito estufa, o gás carbônico. E 75% das emissões dos gases de efeito estufa vem dos combustíveis fósseis. Então, nós é que causamos esse aumento da temperatura. A ciência já vem dizendo há muitas décadas que se a gente continuar emitindo esses gases, principalmente o gás carbônico, ele vai manter o aquecimento global. E pela primeira vez na história recente das civilizações, a temperatura atingiu 1,5 grau no segundo semestre de 2023. 2024 foi o ano mais quente e a ciência já mostrou. Nós vamos atingir 1,5 grau. 2,5 graus permanentemente até 2030. E nós cientistas climáticos, nós estamos há mais de 30 anos dizendo, olha, na hora que atingirmos 2,5 graus de aquecimento, todos os eventos extremos, ondas de calor, chuvas excessivas, secas, incêndios florestais, venda-vais, ressaca, tudo vai aumentar demais, não vai aumentar um pouquinho. Exatamente o que aconteceu nesses últimos três, quatro anos. Então, nós temos que estar muito preparados, porque não estamos, mundialmente falando, não estamos adaptados para esses eventos climáticos extremos que já estão ocorrendo.
Natuza Nery
Se a gente continuar nesse passo, o que vai acontecer com a gente daqui a 30 anos, já que o senhor citou esse marco temporal dos últimos 30?
Carlos Nobre
é muito grave, porque nós tínhamos uma enorme expectativa. A COP30 seria a mais importante das 30 COPs, porque todos os países concordariam em acelerar demais a redução das emissões. Infelizmente, poucos países não concordaram As emissões aumentaram em 2025, continuam altas agora no começo de 2026. Aí sim, respondendo a sua pergunta, em 25, 30 anos, nós, lá na década de 2050, nós podemos chegar a dois, até dois graus e meio de aquecimento. Se isso acontecer, é o que a gente chama ecocídio, suicídio ecológico para o planeta. Nós temos muitos pontos de não retorno
Medical Expert/Health Official
no planeta, E esses são os chamados pontos de não retorno. Eles são limites que, se forem cruzados, desencadeiam mudanças graves e sem volta. Na Amazônia, o risco é a da savanização. Já na Groelândia e na Antártida, a preocupação é com o gelo. Se as temperaturas continuarem subindo, partes das camadas de gelo podem começar a derreter sem parar. E tem mais, tá? O permafrost, o solo congelado do arco, tá começando a descongelar e ele libera gás metano, um super poluente climático. Se o aquecimento passar de 1,5, essa liberação pode sair do controle.
Carlos Nobre
Muito triste para nós aqui no Brasil. Nós vamos passar do ponto de retorno da Amazônia, do Cerrado, da Caatinga e do Pandanal. Vamos perder a maioria desses biomas. Isso significa o quê? Nós chegaremos em 2100 com 3 a 4 graus de aquecimento. Isso é o que nós chamamos ecocídio. causar a sexta extinção de espécies e também, mesmo para nós humanos, vai ser muito perigoso. Por exemplo, lugares tropicais no nível do mar, lá por 2070, 2080, Belém seria inabitável. Quando está muito quente e úmido, muito mais quente que a nossa temperatura do corpo, 35, A gente morre, e isso o ano todo. Por exemplo, outras partes do Brasil, o sudeste, o sul, mais de 100 dias durante o verão inabitável também. Então só estou mencionando o risco que nós estamos colocando no planeta.
Natuza Nery
Eu queria conectar essa previsão ou esse risco, melhor dizendo, mais do que uma previsão é um risco, para uma pessoa que mora na cidade de São Paulo ou no Rio de Janeiro, se nada for feito e continuar nesse passo até 2070. Como é que será a nossa vida no verão do ano de 2070, se nada for feito?
Carlos Nobre
Sem dúvida, é um enorme risco. E qual é o risco que aumenta muito de viver em cidades brasileiras? Nós removemos as vegetações, quase totalidade das cidades brasileiras. O Rio de Janeiro tem mais mata atlântica que São Paulo, mas tem muitos bairros, principalmente as favelas, sem vegetação. São Paulo, quase a totalidade de onde moram as populações da cidade de São Paulo, praticamente não tem vegetação. Então isso, além do aquecimento global, quando você tem uma favela totalmente sem vegetação, A temperatura nos dias muito quentes do verão chega a ser 6 a 11 graus mais quente nesses locais comparado com um local de bastante vegetação. E muitos estudos já têm mostrado isso.
Narrator/Reporter
No rio, a brisa fresca que sopra do mar não chega longe, muito menos ao complexo do Alemão, na zona norte da cidade, onde a sensação térmica já bateu 50 graus. Beco sem ventilação, nenhuma vegetação, casa colada uma na outra, telhas de zinco e de amianto que armazenam o calor e transferem para dentro das casas. Nos dias mais quentes do ano, esses são os lugares que mais sofrem. Isso aqui parece um caldeirão de fervura. Nas últimas semanas de 2025, aqui no Alemão e nas outras favelas, nas mesmas condições, o calor foi mais insuportável do que em qualquer outro lugar da cidade.
Carlos Nobre
um enorme risco. E lógico, tirando a vegetação, as chuvas seriam mais fortes, porque quando a temperatura está mais alta, forma nuvens mais altas, como nos limpos. Então isso é terrível. Em 2070, se a gente continuar com o aquecimento global e não aumentar demais a restauração florestal dessas cidades, inclusive o que a gente não tem no Brasil, muito comum em Singapura, em cidade chinesa, é o telhado verde, né? Coloca plantas no telhado, isso em dias muito quentes do verão, ele baixa 4 a 6 graus dentro da residência. E também quando a gente restaura a vegetação, poro verde, a gente retém muito da chuva forte e diminui demais as inundações. Então, além de combater a emergência climática do aquecimento, mas nós temos que fazer uma mega restauração florestal nas cidades brasileiras, inclusive com telhado verde. A China começou a fazer a restauração florestal das cidades 25, 30 anos atrás e tem mais de 100 cidades totalmente reflorestadas. Todas as avenidas têm árvores dos dois lados. o telhado verde, muitos parques muito grandes nas cidades. Então esse é um desafio a mais para a gente não tornar as cidades brasileiras quase que inabitáveis até o final desse século.
Natuza Nery
O senhor mencionou a China. A China tem uma grande parcela nessa responsabilidade, porque é um grandíssimo emissor de gases do efeito estufa. Aliás, os países ricos são mais responsáveis. Eu queria terminar pedindo para o senhor nos orientar como é que nós, nós que fazemos o assunto, nós que as pessoas que ouvem o assunto, Uma ação que elas puderem fazer na vida delas, uma mudança que elas podem fazer que ajuda a contribuir para evitar esse cenário devastador.
Carlos Nobre
Deixo primeiro só falar da China. De fato, ficamos muito desapontados porque esperávamos que a China assumisse uma grande liderança na COP30. É o país que desde 2025, 26 anos, o que mais emite, historicamente, desde 1850, os Estados Unidos, 25% das emissões. Mas agora é a China, 23, 24% das emissões. Ela equilibrou as emissões nos últimos dois anos, mas ainda é muito alta. E nós esperávamos que a China, na COP 30, fosse assumir uma enorme liderança, até porque, historicamente, o maior emissor, Estados Unidos, nem estava lá. Infelizmente, a China e vários outros países não concordaram com o mapa do caminho de zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis, mas respondendo a sua pergunta. Eu acho que cada um de nós tem que ter uma política de combater a emergência climática. Não é só esperar políticas públicas. Nós temos que ter ações. Por exemplo, no Brasil, 70% das emissões são mudanças nos usos da terra. Desmatamentos, principalmente, nas últimas décadas Amazônia e Cerrado e agropecuária. Então, hoje, se nós apoiarmos a agricultura e a pecuária regenerativa, ela exera os novos desmatamentos e também reduz muito as emissões. E nós podemos também, cada um de nós, começar a apoiar muito a restauração florestal do país, principalmente nas cidades, 86, 87% dos brasileiros são urbanos. acelerar a restauração, inclusive uma coisa cultural, o telhado verde. Claro, não é só uma solução, Natuza. Nós temos que ir reduzindo as emissões e adaptação a todos esses eventos climáticos extremos. Tem que prestar atenção nos alertas e buscar salvar a vida. No médio prazo, milhões e milhões de brasileiros e brasileiras que moram nessas áreas de risco de chuvas intensas, tem que retirar essas pessoas e ter residências em lugares totalmente seguros, sustentáveis. A outra coisa, um enorme perigo na Amazônia, no Nordeste, no Cerrado, quando há mega-secas, como o reuninho leva a uma mega-seca nessas regiões, nós temos que zerar o uso do fogo, convencer o setor da agropecuária a não usar mais fogo, e também combater o crime organizado, que em 2024 bateu o recorde de incêndios dentro da floresta amazônica. E, lógico, também o que mais leva à morte por eventos climáticos extremos no mundo são as ondas de calor. Na França, mais de 1.500 mortes, esse número deve ser muito maior.
Narrator/Reporter
O calor mexe com o nosso corpo. Ele acelera os batimentos, aumenta a pressão, desidrata mais rápido e sobrecarrega o sistema circulatório. Quanto mais calor, mais o nosso corpo fica estressado, tentando regular a temperatura. E isso traz consequências para órgãos importantes, como o coração, o pulmão e o rim. E ainda tem mais. O calor também aumenta o caso de arboviroses, como a dengue. A temperatura acelera a reprodução do mosquito, que aumenta o número de casos.
Carlos Nobre
Quem é um idoso muito suscetível a onda de calor, bebês, quando a projeção da onda de calor ocorrer, as pessoas têm que procurar lugares seguros. Então, as pessoas que não têm ar-condicionado têm que procurar lugares seguros. As ondas de calor duram 5, 8, 9 dias. Uma pessoa idosa, doente, que fica esse número de dias na onda de calor, principalmente quando a temperatura mínima é acima de 23 graus, que é muito comum nas ondas de calor, leva muitas, muitas milhares de pessoas a morte.
Natuza Nery
Professor Carlos Nobre, é sempre uma honra poder entrevistar o senhor. Muito obrigada pelo seu tempo. Espero que muitos líderes possam, nos próximos anos, ouvir os seus alertas. Muito obrigada.
Carlos Nobre
Eu que agradeço. Muito obrigado, Natuza.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Lincoln Alves. Lincoln, olhando para o mapa brasileiro, eu vou te pedir para fazer um exercício de desenhar na nossa cabeça aqui um mapa dos principais impactos do El Nino no Brasil. Onde deve ter onda de calor, onde deve ter chuva excessiva ou risco de queimada ou um longo período de estiagem. Faz esse mapa pra gente, por favor.
Lincoln Alves
O importante é mencionar inicialmente que os impactos esperados são regionalmente distintos. Em geral, a maior probabilidade de chuva abaixo da média, em boa parte, do centro-norte do Brasil, especialmente o nordeste e pontos do oeste e região norte. Por outro lado, a maior probabilidade de chuva acima da média na maior parte da região sul. E além disso, a maior parte do país apresenta uma probabilidade de temperatura acima das normais climatológicas com aumento potencial de ondas de calor secas e queimadas.
Natuza Nery
O El Ninho não é um fenômeno novo. O Brasil já viveu eventos climáticos extremos nos últimos anos. A gente não se recuperou, o país não se recuperou do que viu da tragédia no Rio Grande do Sul. O Brasil hoje, ele está mais preparado para enfrentar o El Ninho do que estava antes ou a gente andou muito pouco nesse sentido?
Lincoln Alves
Olha de uma maneira bem objetiva eu diria que o Brasil conseguiu avançar em vários aspectos. O Brasil hoje tem uma capacidade técnica e institucional seja de monitoramento seja de previsão. ou até mesmo de preparação efetiva para uma resposta, para eventos extremos, e isso é reflexo, claro, do envolvimento de diversas instituições, como, por exemplo, Instituto Nacional de Meteorologia, o CEMEM, o INMP, a ANA, um trabalho bastante coordenado. Então as ações que a gente vê no Brasil hoje são mais ações antecipatórias e não reativas. Então isso faz com que o Brasil esteja melhor preparado. Isso também não significa dizer que estamos 100% preparados. O Brasil, com os eventos extremos recentes da última década, seja ele excesso de chuva ou até mesmo condição de seca, tem demonstrado o quanto o Brasil é vulnerável. Entretanto essas ações governamentais têm trazido para o Brasil uma melhor segurança do ponto de vista de preparar os municípios a lidar com os eventos extremos e claro o evento extremo o impacto dele acontece de fato nas cidades e aí no âmbito do governo federal estamos trabalhando numa iniciativa chamada Adapta Cidades que é apoiar os municípios a elaboração de planos de adaptação. Então a gente precisa preparar as cidades a lidar com esse novo normal, que é uma frequência cada vez mais de eventos extremos num futuro bem breve.
Natuza Nery
Citei o exemplo do Rio Grande do Sul, mas não queria deixar de citar as secas históricas na Amazônia. Isso deve permanecer? A gente deve revisitar as cenas que a gente viu não muito tempo atrás, cenas super tristes?
Lincoln Alves
de uma maneira geral, uma condição de um cenário de reunião forte como está sendo previsto, com alta probabilidade de persistência até o início de 2027, os impactos realmente mais prováveis são condições de seca, calor e queimadas em grande parte da região norte. essas cenas como essa, que a gente viu em eventos passados, de populações isoladas, deve se repetir, entretanto, diante das informações que a gente já tem, já existe todo um planejamento de dar suporte a essas comunidades, essas pessoas que eventualmente já sofreram no passado. Então, o impacto pode ser minimizado desde que considere o potencial impacto do evento que está sendo previsto.
Natuza Nery
A gente está citando exemplos da cidade se prepararem mais em razão do El Ninho, mas eu queria falar de um setor econômico que é super importante para o PIB brasileiro, que é o setor agrícola. Esse também deve sofrer bastante, eu imagino, com esses eventos climáticos extremos.
Lincoln Alves
Sim, sem dúvida, tanto o setor agrícola quanto o setor hídrico e aí está relacionado também à questão de produção de energia. É importante considerar que num cenário de mudança do clima e exposto a maior vulnerabilidade socioambiental esses setores precisam incorporar a agenda de adaptação como uma estratégia de desenvolvimento do setor.
Medical Expert/Health Official
E é justamente essa combinação de excesso de chuva em alguns lugares e falta de água em outros que pode afetar a produção de alimentos. No sul, mais chuva costuma ajudar culturas como soja, milho e arroz. Mas se a água vier demais, a colheita pode atrasar e a qualidade dos grãos cair. Já no Sudeste e no Centro-Oeste, o calor e a seca podem prejudicar culturas importantes como café, cana-de-açúcar, soja e milho. No Nordeste, a falta de chuva pode pesar ainda mais. Lavouras de milho, feijão e mandioca podem ter perdas e as pastagens também podem sofrer. No Norte, a seca pode reduzir a produção de culturas como mandioca e cacau.
Natuza Nery
Bom, e aí para a gente finalizar, uma medida que precisa ser tomada urgentemente pelas cidades brasileiras, pelos governos estaduais e pelo governo federal?
Lincoln Alves
É o próprio desenvolvimento desses planos de adaptação. Então é fundamental que esses municípios enxerguem a sua vulnerabilidade e que fortaleçam as suas capacidades institucionais na construção de planos, de sistema de alerta, que integre setores estratégicos, recursos hídricos, meio ambiente, saúde e não considere um evento extremo simplesmente como uma temática ambiental. Ele precisa ser enxergado como um tema extremamente transversal em todos os setores e que de uma maneira geral é um impacto socioeconômico.
Natuza Nery
Tem algum município que possa servir de exemplo do que já foi feito em termos de adaptação da cidade para enfrentar esses eventos climáticos extremos?
Lincoln Alves
Em geral, os municípios que a gente tem hoje planos de adaptação são municípios já de grande porte, como por exemplo Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro. O grande problema é que a grande maioria dos municípios do Brasil são de médio e pequeno porte. E aí são esses municípios exatamente que sofrem os maiores riscos.
Natuza Nery
Lincoln, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Bom trabalho para você.
Lincoln Alves
Eu que agradeço a oportunidade. Obrigado, abraço.
Natuza Nery
Este episódio usou áudios da TV Cultura. Este foi o Assunto, podcast e diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast: O Assunto
Host: Natuza Nery (G1)
Data: 3 de julho de 2026
Convidados:
Neste episódio essencial de "O Assunto", Natuza Nery aborda o fenômeno climático “Super El Niño” e sua combinação com a crise das mudanças climáticas, discutindo o que isso representa para o Brasil e para o mundo. Com apoio de especialistas renomados, o episódio aprofunda-se nos impactos históricos e projeta futuros cenários, trazendo uma reflexão urgente sobre adaptação, responsabilidade humana e as respostas emergenciais em curso.
[00:01–03:20]
"É como mexer numa peça de dominó e ver todas as outras começarem a cair." — Natuza Nery [00:41]
[03:20–07:20]
"Falhamos em garantir que o aquecimento da Terra seria mantido em menos de um grau e meio..." — António Guterres, citado por Lincoln Alves [03:43]
[07:20–13:41]
“Todos os eventos extremos [...] vão aumentar demais, não vai aumentar um pouquinho.” — Carlos Nobre [10:52]
"Se isso acontecer, é o que a gente chama ecocídio, suicídio ecológico para o planeta." — Carlos Nobre [12:19]
[13:41–16:48]
“Nos dias muito quentes do verão, chega a ser 6 a 11 graus mais quente [em áreas sem vegetação]...” — Carlos Nobre [15:11]
[16:48–22:24]
“Nós temos que ter ações... acelerar a restauração, inclusive uma coisa cultural, telhado verde.” — Carlos Nobre [20:11]
[23:20–29:26]
"O importante é mencionar inicialmente que os impactos esperados são regionalmente distintos." — Lincoln Alves [23:57]
[29:26–30:39]
“O evento extremo precisa ser enxergado como um tema extremamente transversal em todos os setores, não só ambiental.” — Lincoln Alves [29:26]
O episódio mantém um tom jornalístico, objetivo e engajado, alternando momentos de alerta grave com propostas de solução e chamando à responsabilidade individual e coletiva. Os convidados são claros, didáticos e realistas — enfatizando os riscos sem perder o horizonte da adaptação e da ação.
O episódio constrói uma linha clara entre fenômenos naturais cada vez mais extremos e a aceleração dessas catástrofes provocada pela ação humana. Demonstra que o novo normal infelizmente é “infernal” — com ondas de calor, secas, enchentes, incêndios e riscos à saúde populacional. As soluções passam tanto por mudanças de políticas públicas e adaptação das cidades quanto por escolhas individuais que considerem o combate à crise climática como questão de sobrevivência coletiva.