O Assunto – “O vai e vem do projeto para combater facções”
Data: 12/11/2025
Host: Natuza Nery
Visão Geral
Neste episódio, o podcast “O Assunto” analisa o tumultuado processo legislativo envolvendo o projeto de lei antifacções apresentado pelo governo federal em resposta ao aumento da violência e ao avanço do crime organizado – especialmente após megaoperações contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro. O episódio destaca as diversas modificações do texto durante sua tramitação na Câmara, conflitos institucionais entre os poderes Executivo e Legislativo e reações da Polícia Federal e de especialistas em segurança pública e direito penal.
A apresentadora Natuza Nery recebe o jurista Walter Maierowicz, referência em crime organizado, e William Murady, diretor executivo da Polícia Federal, para analisar as idas e vindas do projeto e suas implicações sobre as estratégias de enfrentamento às facções criminosas no Brasil.
Principais Pontos da Discussão
1. Contexto e Tramitação do Projeto
- [00:01-00:57] O governo federal envia ao Congresso um projeto de lei contra facções quatro dias após mega-operação no RJ.
- A oposição rapidamente assume controle sobre a tramitação ao indicar como relator Guilherme Derrit (Progressistas), ex-secretário de Segurança de SP.
- Derrit altera o texto, endurecendo penas e aproximando-as das previstas para terrorismo, gerando críticas.
- Citação:
“Ele manteve parte do texto enviado pelo Executivo, mas fez alterações estruturais. Endureceu penas, equiparando atos do crime organizado a ações terroristas. E recebeu críticas.” – (A) [00:52]
2. Críticas à Nova Redação
- [00:57-01:57] Promotor Lincoln Gacchia critica equiparação com terrorismo:
“O que está sendo feito é inserir uma conduta que não está na lei de terrorismo e isso vai causar mais problema do que nós já temos.” – (C) [01:28]
- Polícia Federal reage negativamente à limitação de seu papel:
“Não poderia concordar com nenhuma medida que fosse limitadora do papel da Polícia Federal no combate ao crime organizado.” – Andrei Passos Rodrigues [01:58]
3. Mais Mudanças e Novo Marco Legal
- [02:33-03:46] Após críticas, Derrit e o presidente da Câmara anunciam uma terceira versão, retirando alterações na Lei Antiterrorismo e criando um “Marco Legal do Combate ao Crime Organizado”.
- O novo texto prevê penas de até 40 anos para lideranças de facções e mantém competências da Polícia Federal.
- Medidas como gravação de conversas entre presos e advogados e banco nacional de dados de criminosos são mantidas.
- Citação:
“O novo Marco Legal vai punir adequadamente, vai isolar lideranças, vai garantir um encarecimento do custo do crime...” – Guilherme Derrit [02:55]
Análise de Especialistas
4. Entrevista com Walter Maierowicz (Jurista, ex-desembargador)
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(a) Avaliação do Projeto do Executivo
- O projeto é positivo, mas "precisa ser aperfeiçoado".
- Faltou criar agência nacional e tratar do “concurso externo” ao crime organizado (envolvimento de empresários, por ex.).
- Citação:
“Esse projeto... é um bom primeiro passo, embora tenha resistido... à criação da agência nacional.” – Maierowicz [05:09]
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(b) Perfil e Motivações do Relator
- Derrit tem visão "de guerra", defende políticas de tolerância zero próximas às de El Salvador.
- Escolha do relator pela Câmara foi um erro, pois a visão diverge da abordagem mais moderna e eficiente recomendada internacionalmente.
- Citação:
“Guerra ao crime organizado, guerra às drogas, bandido bom é bandido morto... Isso está superado.” – Maierowicz [07:29] “O objetivo [do crime organizado] é o lucro... não pode ser misturado com terrorismo, que tem raiz ideológica.” [10:10]
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(c) Competências da Polícia Federal
- Redução do papel da PF afronta a Constituição.
- Crimes transnacionais e interestaduais devem ser de competência federal.
- Citação:
“Trocar a competência da Polícia Federal é flagrantemente inconstitucional.” – Maierowicz [12:49]
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(d) Populismo Penal e Aumento de Penas
- Aumentar penas não resolve, pois reincidência segue alta; falta de políticas de ressocialização agrava o problema.
- Citação:
“O aumento da pena não inibe por si só. No mundo civilizado, há necessidade de resocializar.” – Maierowicz [14:31] “Nosso sistema prisional é falido... as pessoas vão continuar saindo de lá e voltando a praticar crimes...” [16:10]
5. Entrevista com William Murady (Diretor Executivo da Polícia Federal)
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(a) Ausência de Consulta à PF
- A PF não participou de discussões sobre a versão de Derrit; projeto limita seu papel e retira medidas eficazes, como descapitalização do crime.
- Citação:
“Fomos surpreendidos ontem com um projeto pronto... a Polícia Federal sequer foi chamada para discutir.” – Murady [18:45] “No projeto inicial, a descapitalização das organizações foi completamente suprimida.” [19:14]
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(b) Papel Fundamental da PF
- PF participou de mais de 3 mil operações em 2025, com quase R$ 10 bilhões em bens do crime bloqueados.
- Cooperação internacional reconhecida, inclusive com eleição do brasileiro como secretário-geral da Interpol.
- Evidências de sua imprescindibilidade em crimes interestaduais e internacionais.
- Citação:
“A Polícia Federal é fundamental, é essencial nessa função e nessa missão.” – Murady [21:15]
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(c) Exemplos Práticos
- Operação Carbono Oculto: ilustrou a necessidade de integração federal.
- Caso Marielle: solução exigiu atuação federal após anos de impasse estadual.
- Citação:
“Se tivéssemos hoje a proposta da Carbono Oculto, teríamos que pedir autorização... Muitas vezes, o órgão estadual não tem relação com aquela investigação.” – Murady [24:24]
Momentos Notáveis e Citações
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Populismo penal:
“O populismo é combater crime organizado, enganando a população de que aumentar penas resolve.” – Maierowicz [14:31]
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Diferença entre crime organizado e terrorismo:
“Crime organizado tem por objetivo o lucro. Não tem ideologia política... Terrorismo é violência política ou ideológica. São fenômenos completamente diferentes.” – Maierowicz [10:10]
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Crítica à limitação da PF:
“Não aceitável que uma lei infraconstitucional vá tolher uma competência prevista na Carta Magna.” – Andrei Passos Rodrigues [13:47]
Timestamps dos Segmentos-Chave
| Segmento | Timestamps | |----------------------------------------|---------------| | Contexto e tramitação do projeto | 00:01–00:57 | | Críticas ao relator e mudanças | 00:57–03:46 | | Debate sobre penas e populismo | 14:21–16:48 | | Análise da competência da PF | 11:30–13:27 | | Entrevista com William Murady (PF) | 18:45–26:25 | | Exemplos práticos de atuação da PF | 23:44–26:14 |
Conclusão
O episódio expõe o vaivém no Congresso quanto a estratégias de combate ao crime organizado, explicitando conflitos entre endurecimento penal, garantias processuais e competências institucionais. Especialistas defendem a centralidade da Polícia Federal e alertam para os riscos de abordagens simplistas, populistas e inconstitucionais. Os debates ressaltam a necessidade de políticas públicas sofisticadas, integração federal e foco na descapitalização do crime – não apenas no aumento de penas ou na militarização da resposta estatal.
