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Ana Tuzaneri
Depois que os mais de 100 mortos na mega-operação do Rio foram identificados, um problema antigo ficou em evidência. O aliciamento, cada vez mais cedo, de crianças e adolescentes para o mundo do crime.
Vanessa Cavalieri
Três dos mortos tiveram anotações de infração quando eram menores de idade.
Ana Tuzaneri
Uma engrenagem que nunca para. O tráfico não fica sem soldados.
Vanessa Cavalieri
Reimorto, reiposto. Os bandidos que tombaram serão substituídos e a insegurança continua.
Ana Tuzaneri
Nas comunidades, há espera por um destino diferente para quem nasce e cresce ali.
Adolescente entrevistado
O que precisa é ter uma ação dentro das comunidades, onde os jovens, as.
Vanessa Cavalieri
Crianças e os adultos têm uma perspectiva de vida diferente de querer ser bandido.
Ana Tuzaneri
A entrada de um adolescente no crime é quase sempre o resultado de um caminho que pula fases, como a infância e a pré-adolescência.
Vanessa Cavalieri
Depois de 16 anos pra frente que eu comecei a querer fumar maconha, querer vender droga.
Adolescente entrevistado
Aí com o tempo foi me desvirtuando e comecei a procurar um descaminho mais fácil, né? No momento ali, né?
Ana Tuzaneri
Esqueci dos problemas. Até o mês de agosto de 2024, o Brasil tinha 12.506 adolescentes em restrições e privação de liberdade. O dado é do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, o SINASE, ligado à Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. A lei prevê uma série de caminhos para garantir a reinserção social e evitar o retorno ao tráfico. Mas nem sempre as medidas são aplicadas como devem. Há aqueles que conseguem mudar de vida e aqueles que, num ciclo difícil de ser rompido, seguem nas mãos do crime.
Mãe de adolescente
Como mãe, eu acreditava que uma hora ele ia viver algo diferente, que ele ia despertar para sair disso. Porque a gente sabe, infelizmente, que o caminho do crime ou é a morte ou é a cadeia.
Ana Tuzaneri
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é... O recrutamento de jovens para o tráfico. Como secar a fonte? Minha convidada é Vanessa Cavalieri, juíza da Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro. Quarta-feira, 5 de novembro. Vanessa, você lida diariamente com adolescentes infratores e eu gostaria de saber qual é o principal fator de cooptação do crime em relação a esses adolescentes.
Vanessa Cavalieri
Eu acho que não dá pra falar sobre um fator só e a gente precisa fazer um recorte também de classe social, né? A gente tem tido nos últimos anos uma mudança nesse perfil do adolescente que chega ao judiciário, mas assim, entendendo que você está se referindo ao adolescente, mais pobre, vulnerável, esse que vai trabalhar no tráfico ou que está sendo cooptado para praticar furtos e roubos. A gente tem um cenário de contexto de vida desse adolescente que é multifatorial e que leva ele a ser aliciado e ser seduzido por essa vida criminosa. Acho que o primeiro aspecto que é muito marcante para a gente, que a gente percebe isso muito claramente, é a total falta de estrutura familiar. A gente recebe adolescentes aqui na vara da infância, Eu trabalho na única vara da infância da cidade do Rio de Janeiro que é responsável por adolescentes sem fratores. E a primeira coisa que a gente faz quando esse adolescente chega é colher os dados biopsicos sociais dele. Então a gente vai perguntar como é o contexto familiar dele, se ele está estudando, se não está, em que ano que ele está, como é a configuração familiar, a questão de profissionalização, se ele está trabalhando ou não. E aí o que a gente percebe é que quase todos estão inseridos em famílias monoparentais femininas, ou seja, só tem uma figura feminina de autoridade, normalmente a mãe, às vezes uma avó, uma tia, mas não tem pai no cenário. O pai ou ele sequer conhece, ou é um pai que tem um nome no registro de nascimento, mas que ele nunca conviveu com esse pai. Então tem essa questão muito forte dessa falta de uma estrutura familiar e ao mesmo tempo essa mãe é uma mulher que desde sempre não tem acesso a políticas públicas, então ela não teve acesso ao planejamento familiar, ela não teve acesso a uma educação de qualidade, ela não tem rede de apoio para cuidar dos filhos e esse menino está nessa família muito vulnerável pela falta mesmo de uma estrutura para que ele se desenvolva de forma segura e saudável. 29 de outubro de 2025, quarta-feira. Corpos enfileirados no chão. 57 foram tirados da mata pelos próprios moradores. Moro aqui já há 58 anos. Aqui dentro, nunca vi. Nunca vi isso. E vai ser difícil esquecer. Essa cena aqui, pra mim, foi trágica. Alguém já responde para a família reconhecer, gente, por favor. Foi você que teve que pegar o corpo do seu filho lá em cima? Sim, fui lá pra cima, pro mato.
Mãe de adolescente
Eu só fui achar o corpo do meu filho uma hora da manhã. Eu não criei meu filho pra ser bandido. Como mãe, eu acreditava que uma hora ele ia viver algo diferente.
Vanessa Cavalieri
E aí depois a gente tem a questão da escola, então a maioria deles está fora da escola, está em situação de evasão escolar, e a gente sabe que as pesquisas indicam no mundo todo que o primeiro passo do adolescente antes de entrar na vida do crime, ou melhor dizendo, talvez o último passo dele, é abandonar a escola. Então ele larga a escola e logo depois ele começa a delinquir. E esses meninos, a grande maioria, dependendo do ano, a gente tem uma faixa em torno de 70% a 80% deles, houve anos em que era 85% o número de adolescentes fora da escola. Em situação de evasão escolar, muitos deles fora da escola há muito tempo, há 2, 3 anos, sem que o Conselho Tutelar tenha sido acionado, sem que a escola tenha feito busca ativa, sem que a própria família tenha rematriculado ele na escola. uma desvinculação da escola muito evidente, e a gente sabe quando é que ele larga a escola. Ele larga a escola principalmente no 6º ano, que é aquele ano que marca a virada do Fundamental 1 para o Fundamental 2, que é um ano muito emblemático, porque a gente tem nesse momento uma saída da infância e início da adolescência, então é um momento do desenvolvimento humano muito muito vulnerável, muito sensível. E aí a gente tem também uma falta de acesso até à profissionalização. Muitos já querem trabalhar, mas não conseguem nenhuma colocação como jovem aprendiz ou no mercado de trabalho, mesmo que informal. E aí acabam sendo muito seduzidos por essa vida do crime, pelo tráfico de drogas, por aquela figura ali do traficante poderoso. com dinheiro e respeitado na comunidade e que as mulheres querem sair e aí esse menino acaba criando o vínculo dentro da facção criminosa e aí ele é cooptado.
Ana Tuzaneri
E como é que é essa atuação dentro da facção? Qual é o tipo de função que esse adolescente vai ter? Quanto ele ganha, por exemplo, é mito ou é verdade? que no crime ele ganha mais do que se tivesse um trabalho em algum lugar, ou na comunidade ou fora da comunidade. Um trabalho regular, claro. É mito.
Vanessa Cavalieri
Eles ganham mal, são mal remunerados. O que a gente sabe é que a organização criminosa, seja o Comando Vermelho, ou o Terceiro Comando, ou o ADA, que são as três organizações que dominam o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, eles têm uma estrutura bastante hierarquizada. Então esse menino entra normalmente como vapor. O vapor é quem vende a droga no varejo, na boca de fundo.
Especialista em segurança pública
Normalmente, o dono daquele ponto de venda de drogas, o traficante responsável por distribuir a droga naquele bairro, ele normalmente não se arrisca. Ele sempre vai colocar alguém para se expor a uma ação policial, a uma prisão. E eles têm acabado utilizando o adolescente, que é onde eles encontram uma mão de obra mais barata.
Vanessa Cavalieri
E aí ele é remunerado como vapor pela carga de drogas que ele vende. Então ele ganha, por exemplo, 200 reais a cada carga de droga vendida. Uma carga de cocaína ou uma carga de maconha, ele ganha 200 reais. E às vezes ele leva ali 3, 4, 5 dias para poder conseguir vender uma carga de drogas. muitos ganham por semana. Então você tem o Radinho, que é o menino que fica com um rádio transmissor para avisar quando tem entrada da polícia, quando tem invasão, quando tem alguma atividade suspeita. O Radinho normalmente ganha 200 reais por semana. E eles cumprem uma jornada de trabalho, se é que a gente pode chamar assim, partindo da premissa que a própria Unicef reconhece que O tráfico de drogas é uma forma de exploração do trabalho infantil junto com a prostituição ou a exploração sexual, antigamente chamada de prostituição. São as duas piores formas de exploração do trabalho infantil. Então, na jornada de trabalho dele dentro da boca de fumo, é uma jornada de 12 horas diárias sem folga semanal. Então, eles trabalham na jornada de 8 horas da manhã até 8 da noite ou de 8 da noite até 8 da manhã, de segunda a segunda. Isso é a jornada de trabalho de um vapor, de um radinho do tráfico. E aí é óbvio que ele abandona a escola, né? Normalmente abandona antes de entrar para o tráfico e quando não abandonou ainda, assim que entra para o tráfico, ele para de ir para a escola. Primeiro porque não consegue nem conciliar os horários, né? Porque ele fica exausto depois de trabalhar essas 12 horas e ele vai dormir, enfim, vai para o bar, ele vai se divertir e não quer saber da escola. E além disso, ele também acaba... não vendo sentido no estudo formal. Eu acho que essa é uma questão que a gente precisa trazer do quanto o modelo de educação que a gente tem hoje no Brasil, principalmente o modelo da escola pública no Brasil, não faz nenhum sentido para esse jovem periférico. Então, uma pergunta que eu escuto muito desses meninos, quando eles chegam aqui na Vara da Infância, depois de serem apreendidos por trabalhar no tráfico ou por furtar, eles me pedem, você consegue um jovem aprendiz pra mim? É o que eles me pedem. Você consegue me colocar no jovem aprendiz? E aí eu sempre respondo pra eles, olha, pra ir pro jovem aprendiz, você tem que voltar pra escola, porque sem estudar a empresa não pode te contratar. Então você vê que o que eles querem é uma profissionalização, eles querem trabalhar, eles querem ganhar dinheiro, querem uma autonomia financeira. E quando a gente consegue realmente essa oportunidade de que ele seja colocado num curso profissionalizante e então comece a trabalhar, receba ali a bolsa que ele tem direito, que é um salário mínimo ou equivalente ao salário mínimo dependendo da carga horária, ele sai do tráfico, ele para de viver da venda de drogas.
Ana Tuzaneri
Ainda focada nos fatores de risco, por que você diz que o que acontece na primeira infância muitas vezes é determinante para decidir se o adolescente vai ou não ser cooptado pelo tráfico, pelas facções criminosas e até mesmo criar condições para o aliciamento desse menor de idade?
Vanessa Cavalieri
A gente sabe que a primeira infância é determinante para o resto da vida de qualquer ser humano. Suas pesquisas todas sobre primeira infância mostram, inclusive há dados sobre o quanto o investimento na primeira infância vai repercutir favoravelmente, evitando a necessidade de políticas públicas para adultos, por exemplo. Até o dinheiro investido na primeira infância vai evitar problemas de saúde, problemas de segurança pública, dificuldade de aprendizagem e tudo mais. Então, o que acontece na primeira infância desse menino de quem a gente está falando? Primeiro que ele nasce numa família onde não houve planejamento familiar. O número de filhos médio, em média, das famílias dos adolescentes em conflito com a lei aqui no Rio de Janeiro é de seis filhos por família. E lembrando que a gente está falando de uma família onde o pai é completamente ausente, ele não participa financeiramente e ele não participa da educação do filho. Então, a gente tem uma mulher responsável por cuidar de seis crianças. E quem é essa mulher? É uma mulher pobre, na maioria das vezes que foi mãe pela primeira vez ainda adolescente, e a gravidez na adolescência é a principal causa da evasão escolar das meninas, então ela abandona a escola quando ela engravida, e aí ela vai trabalhar em empregos informais porque ela não completou o ciclo básico de educação. Então ela trabalha como faxineira, como babá, como empregada doméstica, como camelô, e ela sai para trabalhar muito cedo porque a gente tem um problema de falta de mobilidade urbana, então ela mora longe dos lugares onde ela consegue emprego e aí ela... sai de casa às vezes de madrugada ainda, e quem cuida desses filhos dela? É uma mulher que também não tem rede de apoio e não tem acesso à creche, então essa mulher muitas vezes sequer consegue colocar todos os seus filhos na creche, na escola, e ela precisa que alguém tome conta deles. E quem vai tomar conta dessa criança pequenininha, dessa mãe que precisa sair para trabalhar para ganhar dinheiro e botar comida dentro de casa? Muitas vezes são os irmãos mais velhos, que são crianças também, isso é uma outra forma, de adultização, que a gente tem falado tanto nos últimos tempos, e de exploração do trabalho infantil. Muitas vezes é uma vizinha, é uma pessoa ali da comunidade que às vezes coloca várias crianças em casa para cuidar. Muitas vezes, dependendo da idade, essas crianças ficam até sozinhas em casa. A gente já teve situações assim da mãe deixar o filho trancado dentro de casa. quando já tem uma certa idade pra poder, não sei, não correr risco de alguém entrar, de alguém fazer alguma maldade, praticar alguma violência. E então essa criança fica ali sem nenhum cuidado de um adulto de referência com quem ele crie vínculo, de quem ele possa receber estímulos necessários pra se desenvolver, pra desenvolver o cérebro, pra poder ter uma saúde emocional mínima pra que ele possa ali ter uma vida boa. E a falta do pai, a gente vê isso em estudos sobre delinquência juvenil desde a época do Winnicott. A falta da figura paterna tem uma correlação com o envolvimento de adolescentes em crimes, em atos infracionais, que é como a gente chama o crime do adolescente.
Adolescente entrevistado
Eu morava com a minha mãe até os 14 anos de idade. Antes, meu pai já tinha falecido, quando eu tinha 1 ano de idade. Aí minha mãe começou a morar sozinha. Ela tinha problema de alcoolismo, ela bebia bastante. Quando eu tinha 14 anos, ela foi sair de cá. Ela bateu o carro e morreu no dia das mães.
Vanessa Cavalieri
Então existe ali um lugar de que a transgressão do crime, ela vai trazer um limite para ele que dentro de casa ele não tem. Isso é muito claro para a gente, assim, o quanto essas famílias que chegam estão completamente esvaziadas de autoridade. Essa mãe muitas vezes se relaciona com esse filho adolescente como se ele não fosse filho dela, como se ele fosse ali um outro adulto, né? É uma relação muito horizontal, por exemplo. Às vezes eu pergunto assim, mas por que seu filho não tá estudando? Ah não, porque ele ano passado, ele não foi. E aí esse ano eu perguntei pra ele se ele... queria que a matriz seria estudar e ele falou que não, e aí eu nem matriculei. Isso a gente tá falando de meninos de 13 anos de idade, né? E aí quando eu pergunto assim, mas a senhora acha mesmo que é ele que tem que tomar essa decisão? E aí é o momento que a mãe para e fala assim, não, né? E aí quando eu determino que ele volte pra escola como uma condição pra ele poder ficar em liberdade, dele voltar a estudar, dele frequentar um programa de abandono da droga, né, de tratamento de drogadição, quando é o caso. Enfim, e aí a mãe fala assim, tá vendo fulaninho, agora a juíza que tá mandando, você vai ter que ir pra escola. Como se eu, juíza, tivesse mais autoridade na vida desse menino do que ela, mãe. Então há um esvaziamento aí dessa configuração familiar que é muito disfuncional, porque os adultos não conseguem fazer essa função de adultos por várias questões, por questões de vulnerabilidade, por questões culturais que a gente tem enfrentado.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Vanessa Cavalieri. Quando um adolescente em conflito com a lei é apreendido, o que acontece com ele? Eu sei que a lei prevê uma série de caminhos para garantir a reinserção social desse adolescente, evitar um retorno ao tráfico, mas o que tem acontecido na prática, de acordo com a tua experiência?
Vanessa Cavalieri
Então, Natuza, a gente tem previsão legal, uma coisa que muita gente não sabe, é que uma pessoa pode ser privada da sua liberdade, pode ser encarcerada a partir dos 12 anos de idade, dependendo da gravidade do que ela fez. Então, quando um adolescente comete um ato infracional, um crime violento, com violência, com grave ameaça, ele pode até ficar privado da liberdade. Então, ele vai ser apreendido pela polícia, ele vai para uma delegacia, ele vai ser autuado e ele vai ser processado, vai responder uma representação sócio-educativa, uma ação na justiça, da infância. E aí, qual é a consequência que esse crime pode ter para um adolescente pela lei, pelo Estatuto da Criança e Adolescente? A consequência desse ato infracional é que ele pode receber uma medida sócio-educativa. Por quê? Porque a intenção, a visão do ECA é de que uma pessoa em desenvolvimento, um adolescente, é mais importante a gente sócio-educar ele do que punir. Então, a finalidade da medida não é só ter uma punição, e sim dá a ele condições de ele se tornar um adulto, que lá na frente não vai se tornar um criminoso. Isso pode ser uma medida sócio-educativa em meio fechado, que é essa restrição da liberdade, ou em meio aberto. E o que o ECA estabelece é que se o crime cometido por esse adolescente não tiver nem violência, nem grave ameaça, e ele for primário, ele não tiver passagens anteriores, ele não pode ficar encarcerado, ele precisa receber uma medida em meio aberto. Então, tornando muito simples aqui, para as pessoas que estão nos escutando, que não são técnicos da área do direito, o que a gente tem muito simples na lei é o seguinte. Se um menino de 12 a 18 anos, menino ou uma menina, praticou um crime pela primeira vez, e esse crime não é violento, é um crime sem violência ou sem grave ameaça, ele não vai ficar encarcerado, ele não vai ser preso. Ele vai receber uma medida em meio aberto, que é a liberdade assistida e ou a prestação de serviço à comunidade, que consiste no acompanhamento desse adolescente junto da família. Ele vai continuar em liberdade, só que essa liberdade vai ser assistida, ele vai ser acompanhado. No mundo ideal, ele vai ter os seus fatores de risco afastados. Então, se o fator de risco, por exemplo, é a evasão escolar, a gente reinsere ele na escola. Se o fator de risco é o uso de drogas, a gente coloca ele num programa de tratamento de drogadição. Se o fator de risco dele é que ele tem uma questão psiquiátrica de saúde mental, ele vai receber atendimento de saúde mental. Se o problema dele é que a família é muito vulnerável e ele precisa trabalhar para ganhar dinheiro, a gente insere ele num programa de profissionalização. E assim por diante. Na prática, nunca existiu na cidade do Rio de Janeiro um programa, uma política pública efetiva de medida sócio-educativa em meio aberto. E aí eu acho que uma coisa que é muito importante deixar claro é o seguinte, sim, a segurança pública é a responsabilidade dos estados, Mas a gestão do meio aberto, do meio socioeducativo aberto, não é do Estado, é dos municípios. E isso aqui eu quero deixar muito claro porque sempre a gente vê governo após governo, os prefeitos, e aqui não há uma crítica a nenhum político A, B ou C, porque isso se repete. há décadas no Rio de Janeiro, a gente vê os prefeitos sempre colocando o problema da segurança pública na conta do governador do estado, dos governadores do estado, que tem muita responsabilidade. O sistema socioeducativo no meio fechado está totalmente abandonado no Rio de Janeiro pelos governos do estado, mas esse primeiro momento de fazer uma intervenção eficaz cabe aos municípios, cabe à prefeitura. E a gente não tem, no município do Rio de Janeiro, nunca teve um programa sério de medida socioeducativa em meio aberto. E aí o que acontece na prática? Esse adolescente vai ser encaminhado para o órgão gestor, que é o CREAS, que é o Centro de Referência Especial em Assistência Social, é um equipamento vinculado à Secretaria Municipal de Assistência Social, e lá ele vai assinar um papel. É isso que os meninos dizem pra gente que eles fazem quando eles vão cumprir essa medida sócio-educativa e meio aberto. Assinar um papel. Ele vai lá, ele conversa um pouquinho com a pessoa lá do CREAS e assina um papel todo mês para mostrar que ele está indo lá cumprir. E é claro, é evidente que essa assinatura de um papel não vai mudar a vida de ninguém, porque os fatores de risco que levaram ele a praticar aquele crime ou a se envolver com tráfico, por exemplo, continuam lá. Ele continua fora da escola, ele continua sem profissionalização, ele continua sem fazer um esporte, a família continua sem assistência social, sem orientação, então é muito provável que ele vá reincidir. E aí eu acho que é isso que a gente precisa começar a pontuar, que não é difícil tirar um menino que começou a se envolver ali com coisas erradas aos 12, 13, 14 anos, não é difícil tirar esse menino dessa vida, corrigir essa rota dele e mostrar pra ele que um outro caminho é possível.
Ana Tuzaneri
Isso é muito impressionante, porque quando você me responde quanto o tráfico paga para esses adolescentes e você diz que não é mais do que pagaria se ele estivesse trabalhando, por exemplo, em um supermercado, num escritório de advocacia, por exemplo, que ele ganharia exatamente o que o tráfico pagaria. Ou seja, não parece impossível disputar esse adolescente com o tráfico, né? Eu acho que é isso que você está nos dizendo. Agora, quando esse adolescente que passa pelo teu gabinete, por exemplo. Ele vai pra uma liberdade assistida, mas não tem vaga nos serviços públicos, não tem programas eficazes de acompanhamento. O que que acontece? Esse adolescente vai voltar várias vezes pro teu gabinete ou ele desaparece? Ele é permanentemente cooptado pelo tráfico e não volta mais?
Vanessa Cavalieri
Geralmente ele volta, até porque o que acontece aqui no Rio de Janeiro, que é, por exemplo, diferente de São Paulo, o PCC tem uma forma diferente de lidar com isso. Mas aqui no Rio de Janeiro, as facções criminosas, e principalmente o Comando Vermelho, que é que tem mais domínio territorial, eles cobram do adolescente que é apreendido pela polícia, o valor da carga de drogas que ele perde. Então, por exemplo, se o menino está trabalhando lá no tráfico e ele é apreendido em flagrante e ele está com uma carga de maconha, de cocaína, que vamos supor que valha 5 mil reais para o tráfico, ele vai ficar com aquela dívida, ele vai ficar devendo 5 mil reais que ele vai ter que pagar quando ele for solto. E aí quando ele é solto, ele volta pra casa e o dono lá da boca fala pra ele, olha, você tá com essa dívida aqui de 2 mil reais, de 3 mil reais, de 4 mil reais, como é que você vai pagar? Ele fala, não tenho dinheiro. Então eu te dou algumas possibilidades de você pagar isso. Uma delas é você voltar a trabalhar no tráfico. A outra é você roubar um carro. Geralmente são essas possibilidades que ele tem. Alguns voltam pro tráfico, voltam a trabalhar na boca de fumo e aí trabalham de graça pra poder pagar essa dívida E muitos, né, o adolescente, a gente sabe que o adolescente tá com o cérebro imaturo ainda, ele é impulsivo, ele é imediatista Então ele fala assim, não, eu prefiro roubar um carro porque aí me livro logo, né Vou roubar um carro, já prometi pra minha mãe que... que não vão mais trabalhar no tráfico, porque ela sofreu muito quando eu fui preso, e aí eles pegam uma arma emprestada com esse traficante, eles até encomendam que tipo de carro que eles querem, eles têm alguns tipos, estilos de carro preferidos, e mandam eles roubarem o carro. Olha, eu vou falar pra você que é muito, muito raro um adolescente ser apreendido por roubo de carro aqui no Rio de Janeiro, e a história por trás desse roubo não ser essa. Ele está com uma dívida no tráfico por causa do que aconteceu antes e ele tem que pagar essa dívida roubando um carro. E aí ele é apreendido de novo, eventualmente. Então ele vai roubar um carro e de novo ele é apreendido. E aí o que acontece? Dessa segunda vez ele não vai mais receber da liberdade assistida, ele vai receber uma medida e-mail fechado, que aí é um crime com arma de fogo, violento e tal. Às vezes é uma arma de fogo, às vezes é uma réplica. E ele fica devendo a arma também para o traficante. Aí ele cria uma dívida assim, insolucionável. E o que é muito impressionante também é que eles não contam para a família que eles estão com essa dívida. Eles não avisam que eles têm esse problema para resolver. Eles tentam resolver sozinhos. E aí assim, a coisa vai virando uma bola de neve e eles vão ficando cada vez mais envolvidos. Muitos morrem pelo caminho. E a gente tem adolescentes que nunca mais voltam. Adolescentes que, apesar do programa não ser muito afetivo, aquilo dá uma cordada em todo mundo. É um choque de realidade tanto para o adolescente quanto para a sua família. E aí eles mesmos conseguem reconfigurar aquela convivência, aquelas regras, aquela forma de educar e a coisa vai. E aí ele acaba se afastando do mundo do crime.
Ana Tuzaneri
Mas isso é maioria a minoria?
Vanessa Cavalieri
Então, infelizmente, a gente não tem dados de reincidência porque isso não é medido, né? A gente tem um problema.
Ana Tuzaneri
Mas no teu gabinete? Uma amostra do que acontece no teu cotidiano?
Vanessa Cavalieri
Então, a maioria não volta, tá? A gente tem uma reincidência baixa. Inclusive, entre os mais novos, é mais baixa. Quando o adolescente chega aqui, já mais velho, entre 16 e 18 anos, a reincidência é muito maior. Até porque ele já várias vezes, desde pequeno, começou e nada foi efetivo. Mas quando ele recebe uma medida eficaz com 12, 13, 14 anos, é muito alto o índice de recuperação desse menino. Agora, a gente teve um programa aqui no Rio de Janeiro, ao invés de um projeto aqui no Rio de Janeiro, foi no mandato anterior do prefeito Eduardo Paes, esse projeto foi implementado, que chama-se Passo a Passo, que é um projeto em que os adolescentes recebiam uma mentoria nesse CREES, e aí eles eram acompanhados por esse tutor, que fazia programas culturais com eles, oficinas, passeios pela cidade, colocava em programas de esporte. E aí a gente teve o resultado de reincidência só de 4%, então 96% dos adolescentes que participaram desse projeto nunca mais fizeram nada de errado, nunca mais se envolveram com nenhuma coisa errada. O custo orçamentário desse projeto para abranger todos os adolescentes do Sistema Socioeducativo do Meio Aberto do município do Rio de Janeiro naquela época era de 5 milhões de reais apenas, é muito pouco. 5 milhões de reais, quando a gente pensa em orçamento público.
Ana Tuzaneri
É muito barato.
Vanessa Cavalieri
E não só no orçamento público, mas no impacto que isso representa nas contas futuras, porque há uma economia futura de gasto com segurança pública, porque aquele menino não vai mais se tornar um criminoso quando for adulto. É inacreditável que esse programa não tenha sido continuado. E aí, quando o Eduardo Paes saiu e veio o Marcelo Crivella, o programa acabou. E aí, recentemente, nós, os juízes da infância aqui do Rio de Janeiro, tivemos uma reunião com a equipe toda do prefeito Eduardo Paes, os secretários, e ele estava também, e a gente falou sobre a necessidade de ressuscitar e de reimplementar o passo a passo. Então, agora, recentemente, a gente teve a notícia de que o passo a passo agora vai ser novamente, a partir de novembro, a partir desse mês de novembro, ele vai ser novamente colocado em prática. Então, já é alguma coisa, não é tudo que a gente precisa, mas já é alguma coisa.
Ana Tuzaneri
Eu ia te perguntar o que era preciso mudar na base para garantir uma melhora desse quadro, mas imagino que essa resposta somada às outras já dê em conta desse recado. Tem mais alguma outra iniciativa que na sua ótica seria fundamental para ajudar nesse processo?
Vanessa Cavalieri
Sim, para mim a política pública, na minha opinião, eu há muito tempo estudo isso e falo sobre isso há vários anos, existe uma política pública número um no Brasil que precisa ser feita e que enquanto ela não acontecer, nada vai mudar de verdade na nossa sociedade, que é uma política pública séria de planejamento familiar. A gente nota o quanto é abissalmente diferente a realidade de uma família. que consegue ter sob controle esse planejamento, ou seja, a família consegue decidir se quer ter filhos, quando quer ter filhos e quantos filhos quer ter. E a família em que os filhos simplesmente vão chegando sem nenhum planejamento. Essas crianças ficam muito vulneráveis e aí a gente não consegue melhorar, ter nenhuma política pública adjacente de creche, educação, saúde, que consiga melhorar a vida dessas pessoas e quebrar esse ciclo de pobreza, de miséria, de vulnerabilidade social. Então eu considero que a política pública número um mais importante é o planejamento familiar. antes mesmo de a gente falar em investir em educação, porque se a gente não tiver planejamento familiar, a gente nunca vai conseguir ter uma educação de qualidade para a população mais vulnerável. E aí, isso tem que começar, inclusive, com a educação sexual nas escolas e com acesso muito mais amplo e efetivo aos métodos contraceptivos, inclusive para os meninos também, a gente ainda fala muito de planejamento familiar, a gente ainda pensa muito que é a mulher que é responsável por isso, mas os meninos precisam desde a adolescência ser ensinados nas possibilidades que existem. Então assim, é um problema muito sério mesmo da questão do planejamento familiar, eu acho que essa política pública É um tabu, porque a gente tem muita resistência na sociedade. Por exemplo, quando a gente fala em planejamento familiar, muita gente acha que a gente está falando de legalização do aborto, quando na verdade o aborto não é planejamento familiar. Pelo contrário, a interrupção de uma gravidez indesejada é justamente porque faltou planejamento. Então, a gente está falando de planejar para que não aconteça uma gravidez indesejada. E há um estudo da Unicef que mostra que a gravidez na adolescência é um fator de risco para esse bebê quando ele se tornar adolescente Então, um adolescente que nasceu filho de uma mãe adolescente, quando chega na adolescência ele tem um risco e um índice muito maior de ser vítima de morte violenta. Então, há um maior envolvimento no crime e em mortes violentas de adolescentes que nasceram de mães, meninas que foram mães adolescentes. Então, a gente volta sempre para essa questão do planejamento familiar, até porque a família é o primeiro núcleo de proteção da criança. A Constituição fala que é dever do Estado, da sociedade, da família, do Estado, da sociedade. A família é o primeiro núcleo de proteção, e aí o Estado e a sociedade precisam entrar como atores que vão apoiar essa família, porque aí vou cair aqui no lugar comum de setar o provérbio africano, mas a gente não pode sair dele, de que é preciso toda uma aldeia para educar uma criança, e aí nesse sentido a gente precisa também comprometer a sociedade. As empresas muitas vezes não dão nenhuma chance para a contratação de jovem aprendiz desses meninos mais pobres, mais vulneráveis, A gente tem muita dificuldade de colocá-los em programas de prestação de serviço à comunidade porque a sociedade não quer que eles prestem serviço, quer eles bem longe, e aí fica muito difícil a gente conseguir a reintegração deles.
Ana Tuzaneri
Doutora Vanessa, foi muito bom te ouvir. Eu aprendi demais, demais. Vou mandar este episódio de um assunto para diversos prefeitos com quem eu converso para apurar, porque são falas super necessárias. Te agradeço imensamente por ter topado conversar aqui com a gente.
Vanessa Cavalieri
Obrigada, Natuza, pelo convite, pela oportunidade de trazer esse assunto que é tão importante e vou ficar aqui na torcida que esses prefeitos escutem o que a gente conversou e que de alguma forma a gente possa mobilizar as políticas públicas necessárias para mudar a realidade da nossa cidade, do nosso país, que é interesse de todo mundo.
Ana Tuzaneri
Antes de terminar um recado, se você ouve o assunto no Spotify e gostou do episódio, é Assunter mesmo, dá cinco estrelas e compartilhe esse episódio com quem você quiser. Você pode nos ouvir no G1, no YouTube e em todas as plataformas de áudio. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Thiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Ana Tuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 05 de novembro de 2025
Host: Ana Tuzaneri (G1)
Convidada: Vanessa Cavalieri (Juíza da Vara da Infância e Juventude do RJ)
Tema: As causas, dinâmicas e possíveis soluções para o aliciamento de crianças e adolescentes pelo tráfico nas comunidades brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro.
Este episódio do podcast “O Assunto” examina em profundidade o fenômeno do recrutamento precoce de jovens pelo tráfico de drogas. A jornalista Ana Tuzaneri conversa principalmente com Vanessa Cavalieri, juíza especializada na infância e juventude do Rio de Janeiro, abordando os múltiplos fatores que levam adolescentes a se envolverem com o crime, as funções que desempenham, os desafios de reinserção social e caminhos essenciais para romper esse ciclo.
“O tráfico não fica sem soldados. Reimorto, reiposto.”
— Vanessa Cavalieri, 00:23
“Quase todos [os adolescentes] estão inseridos em famílias monoparentais femininas... não tem pai no cenário.”
— Vanessa Cavalieri, 02:42
“É uma jornada de trabalho de 12 horas diárias sem folga semanal. ...O tráfico de drogas é uma forma de exploração do trabalho infantil”
— Vanessa Cavalieri, 08:36
“Nunca existiu no Rio de Janeiro um programa efetivo de medida sócio-educativa em meio aberto.”
— Vanessa Cavalieri, 19:14
“Não é difícil tirar um menino dessa vida, corrigir essa rota e mostrar que um outro caminho é possível.”
— Vanessa Cavalieri, 21:03
“O custo orçamentário desse projeto para abranger todos os adolescentes era de 5 milhões de reais apenas... é muito pouco.”
— Vanessa Cavalieri, 27:34
“Enquanto não tivermos uma política pública séria de planejamento familiar, nada vai mudar de verdade na nossa sociedade.”
— Vanessa Cavalieri, 29:05
O episódio revela como o recrutamento juvenil para o tráfico é resultado da combinação devastadora de pobreza sistêmica, desagregação familiar, evasão escolar e ausência de políticas públicas eficazes — desde a infância à adolescência. Vanessa Cavalieri aponta que o ciclo é reversível, especialmente com intervenção precoce e projetos de reinserção orientados e integrados. No entanto, sem planejamento familiar e comprometimento real do poder público (especialmente dos municípios), a fonte de jovens para o crime permanece inesgotável.