O Assunto – “Os protestos que desafiam Trump”
Data: 21 de outubro de 2025
Host: Natuza Nery
Convidado: Maurício Moura (fundador do Instituto de Pesquisa Ideia, professor na George Washington University)
Visão Geral do Episódio
Este episódio de “O Assunto” mergulha nos protestos massivos contra o segundo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos, analisando motivações, impactos políticos e as leituras simbólicas do movimento “No Kings” (“Sem Reis”). Com milhões marchando em mais de 2.600 cidades americanas e protestos também em capitais europeias, a discussão explora a rejeição à condução autoritária do governo Trump, o contexto do shutdown nos Estados Unidos e o simbolismo das manifestações. O professor Maurício Moura traz uma análise detalhada dos bastidores políticos, das rupturas institucionais e do ambiente polarizado que marca o atual momento americano.
Principais Pontos e Discussões
1. A Dimensão dos Protestos: “No Kings”
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Protestos históricos:
- Manifestações aconteceram em mais de 2.600 cidades, reunindo entre 7 e 10 milhões de pessoas (03:21).
- Inclusão de fantasias infláveis (sapo, unicórnio, galinha, dragão) e participação de famílias, enfatizando caráter pacífico (00:00; 01:18).
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Motivações principais:
- Rejeição ao autoritarismo e defesa das instituições democráticas.
- Insatisfação generalizada:
- Demissões em massa de funcionários públicos federais.
- Frustração da comunidade hispânica/latina devido a políticas de imigração não alinhadas ao prometido na campanha.
-
Símbolo “No Kings”:
- Referência direta ao monarca britânico George III, implicando que Trump governa como um “rei” autoritário (01:38; 17:36).
“Os organizadores dizem que Trump está levando o país em direção à autocracia e chamam as pessoas para lutarem contra o autoritarismo.”
— Ana Tuzaneri (01:18)
2. Reação do Governo e Narrativas Antagônicas
- Resposta de Trump:
- Vídeo forjado por IA de Trump como um “rei” jogando excrementos sobre os manifestantes, desviando a atenção para o espetáculo midiático (02:18; 07:52).
- Leitura do Partido Republicano:
- Protestos classificados como “antipatrióticos” pela liderança republicana (02:36).
“O Trump tem usado essa questão de inteligência artificial nesse segundo ano, mas de uma maneira recorrente… Isso faz parte da dinâmica dele de comunicação, onde ele planta uma polêmica e a gente aqui tá falando da polêmica, não da manifestação.”
— Maurício Moura (08:16)
3. Popularidade de Trump e Parâmetros Históricos
- Baixa aprovação:
- Aprovação em torno de 40%, com 55% de rejeição — “proibitivo” para padrões americanos (03:21, 05:50).
- Comparação com o governo Carter, que enfrentou crises severas nos anos 1970.
- Deterioração do apoio especialmente entre comunidades latinas e servidores públicos (03:21).
4. O Caráter Lúdico e Criativo das Manifestações
- Fantasias e metáforas:
- Elemento de criatividade visto como estratégia para comunicar oposição de forma visual e sarcástica, inspirando até políticos como o governador da Califórnia (07:17).
- Diferenças culturais:
- Comparação com o Brasil, onde protestos geralmente são mais sóbrios (06:51).
“Eu acho que do lado da oposição ao Trump tá se percebendo que utilizar as metáforas e a criatividade […] é uma boa maneira de articular a oposição a ele.”
— Maurício Moura (07:17)
5. Shutdown, Impasse Orçamentário e Clima Político
- Repetição do ‘shutdown’:
- Paralisação da máquina pública é cada vez mais comum; momento atual é marcado por demissões e cortes em serviços essenciais, afetando inclusive as Forças Armadas (09:26; 13:00).
- Responsabilidade do impasse é atribuída pelos americanos ao Partido Republicano, que controla Casa Branca, Senado e Câmara (09:26).
“Se não mudar nada em relação ao subsídio e apoio ao sistema de saúde, os democratas não vão entregar esses sete votos.”
— Maurício Moura (11:18)
- Duas administrações em uma:
- Núcleo duro trumpista aproveita o shutdown para forçar mais rupturas e demissões.
- Servidores de carreira estão desanimados com os rumos do governo.
6. Impactos Eleitorais e Manipulação do Sistema
- Consequências prováveis para as midterms (eleições de meio de mandato):
- Em condições normais de impopularidade, oposição deveria conquistar maioria no Congresso, mas fatores como “gerrymandering” (remapeamento eleitoral para favorecer republicanos) dificultam previsões (14:35).
“O Texas está redistribuindo os distritos […] para favorecer distritos que são mais republicanos.”
— Maurício Moura (14:35)
- Risco institucional:
- Casa Branca dá sinais de que dificilmente aceitará uma derrota legislativa, o que pode escalar a crise política (16:41).
“Dificilmente essa Casa Branca vai aceitar um resultado em que os republicanos percam a maioria da Câmara[…]”
— Maurício Moura (16:41)
7. Símbolos, Constituição e Teste às Instituições
- O significado do “Trump não é rei”:
- O protesto se apoia na tradição americana antimonárquica, evocando o episódio da independência dos EUA (17:36; 20:29).
- Americanos têm pouca experiência “real” com regimes autoritários, o que torna o debate inédito e sensível.
- Trump utiliza ordens presidenciais num espaço “cinzento” da Constituição, que tem menos detalhes que a brasileira, testando limites judiciais e institucionais.
“A Constituição americana […] tem muita coisa que era um protocolo institucional, mas que não está escrito na lei, não está escrito na Constituição. Então essa dinâmica de governar massivamente com ordem presidencial não é uma dinâmica casual, usual, nos Estados Unidos […] ele tá conseguindo operar aí nessa zona cinzenta da Constituição americana.”
— Maurício Moura (17:36)
- Força do símbolo:
- A imagem de Trump coroado é facilmente compreendida, mesmo por quem não acompanha detalhes técnicos do governo (19:55).
Tópicos-Chave por Timestamps
- 00:00–01:52 — Retrato das manifestações, fantasias, clima pacífico, origens do lema “No Kings”.
- 02:18 — Resposta sarcástica de Trump em vídeo criado por IA.
- 03:21–05:50 — Números das ruas, causas da impopularidade de Trump, grupos mais insatisfeitos.
- 07:17 — Estratégias de comunicação e criatividade dos protestos.
- 08:49–11:18 — Shutdown, causas e quem a população culpa.
- 12:20–14:16 — Reação dos funcionários públicos ‘de carreira’ e do núcleo trumpista.
- 14:35–16:41 — Gerrymandering e riscos para as eleições de 2026.
- 17:36–20:29 — O caráter simbólico dos protestos, constituição americana testada, diferença do contexto histórico americano.
Frases Mais Notáveis
“O Trump está levando o país em direção à autocracia e chamam as pessoas para lutarem contra o autoritarismo.”
— Ana Tuzaneri (01:18)
“A criatividade… é uma boa maneira de articular a oposição.”
— Maurício Moura (07:17)
“Ele planta uma polêmica e a gente está falando da polêmica, não da manifestação.”
— Maurício Moura (08:16)
“Dificilmente essa Casa Branca vai aceitar um resultado em que os republicanos percam a maioria da Câmara.”
— Maurício Moura (16:41)
“A Constituição americana, sem muito detalhe, hoje tá sendo o espaço que o Donald Trump tá usando pra testar diversas instituições americanas.”
— Maurício Moura (17:36)
Resumo Final
O episódio expõe a gravidade e ineditismo dos atuais protestos contra a administração Trump, contextualizando o uso simbólico, midiático e institucional das manifestações. Destaca ainda como a inflexibilidade dos dois grandes partidos em torno do orçamento contribui para radicalizar o ambiente político, enquanto estratégias legislativas e narrativas superficiais — de ambos os lados — põem à prova a resiliência da democracia americana. O movimento “No Kings” traz à tona fragilidades constitucionais e institucionais diante da atuação presidencial agressiva, emoldurando o debate sobre o futuro da democracia dos Estados Unidos em um ano pré-eleitoral decisivo.
