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Natuzanera
Em 1875, nas profundezas do estado venezuelano de Táxira, um forte terremoto abriu fendas na terra e revelou um cheiro forte, denso, parecido com um asfalto quente. era petróleo. Ali, o sinal era de um tesouro bruto que, um século e meio depois, colocaria a Venezuela no centro de uma disputa de poder nas Américas. Na coletiva sobre a captura de Nicolás Maduro no último sábado, o presidente americano disse ao menos 18 vezes o que queria.
Davício Berstein
Petróleo.
Natuzanera
Hoje, segundo o relatório mais recente da UPEP, as reservas da Venezuela somam cerca de 303 bilhões de barris. aproximadamente 17% de todo o petróleo conhecido no mundo. Nenhum país tem mais que isso. Esse volume gigantesco sempre atraiu a ambição de petroleiras americanas, mas também de agentes locais.
Energy Analyst
20 anos antes da posse do Hugo Chaves, a gente teve o começo da estatização das indústrias de petróleo e da concessão, justamente, da exploração desse petróleo. Veio o governo de Hugo Chaves e o governo de Maduro e implementou-se ainda mais essa estatização.
Narrator/Reporter
Multinacionais que atuavam no país tiveram seus.
Davício Berstein
Bens expropriados em 2007.
Narrator/Reporter
A estatal PDVSA assumiu a produção e os investimentos.
Natuzanera
O que, para os venezuelanos, soava como esperança, logo se desgastou com sanções, corrupção, domínio militar e uma infraestrutura em ruínas. Só para se ter uma ideia, o pico de produção nos anos 70 chegou a 3,7 milhões de barris por dia. Hoje, a média diária é de 1 milhão.
Davício Berstein
A falta de investimentos fez a indústria encolher. É agora 30% do que já foi um dia.
A Venezuela, já nos últimos 15 anos, foi retirando os incentivos e as condições, do ponto de vista institucional e regulatório, que favoreciam a permanência e a participação de empresas estrangeiras, notadamente norte-americanas.
Natuzanera
Donald Trump justifica, sim, a invasão. Para ele, são os americanos que devem assumir a indústria de petróleo venezuelano. Neste cenário, Delcy Rodrigues, que era vice de Nicolás Maduro e agora é presidente interina da Venezuela, surge com um papel inesperado. É a interlocutora da estratégia trumpista de devolver à América Latina a esfera de influência dos Estados Unidos. E isso coloca o mundo inteiro em alerta.
Energy Analyst
Delce Rodrigues mudou completamente o tom. Ela defendeu que os Estados Unidos cooperem com a Venezuela.
Narrator/Reporter
Em postagem nas redes, ela deixou de lado os xingamentos ao governo Trump e convidou o presidente americano a, abre aspas, trabalhar conjuntamente em uma agenda de cooperação orientada ao desenvolvimento compartilhado, fecha aspas. Delce não criticou Trump em momento algum e sequer pediu a liberação de seu antigo chefe, Nicolás Maduro. Pouco depois, o presidente Trump afirmou que dele se está cooperando. Ele disse que não conversou com ela pessoalmente ainda, mas que outras pessoas da Casa Branca já falaram com ela.
Natuzanera
No fundo, no fundo, o que move essa crise é o mesmo cheiro que subiu da terra em Táxira há quase 150 anos. Um cheiro que promete riqueza, mas que pode incendiar o globo. E em meio à ânsia pelo chamado ouro negro, fica um questionamento. Qual é o futuro dos combustíveis fósseis?
Energy Analyst
O interesse dos Estados Unidos aqui repousa especificamente na exploração do petróleo. E quando a gente fala make Venezuela great again, a gente pensa justamente em ser a Venezuela esse ponto central de exploração de petróleo para as empresas dos Estados Unidos. A preocupação deve repousar simplesmente qual é o interesse dos Estados Unidos em fazer a Venezuela grande novamente?
Natuzanera
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é aquilo que realmente mobiliza Trump, o petróleo. Eu converso com Davício Berstein, ex-diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo e professor do Instituto de Energia da PUC-Rio. Quarta-feira, 7 de janeiro. Davi, a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas responde apenas por cerca de 1% da produção mundial. Como é que se chegou a essa contradição? O que explica isso?
Davício Berstein
Ela foi fundadora da OPEP em 1960. Ela teve um protagonismo muito grande, apesar de não estar nos grandes centros de produção. E ela, como você falou, mencionou aí, ela detém reservas maiores do que as reservas dos países do Oriente Médio, maior do que a Arábia Saudita, que é o segundo país em termos de reservas. E ela cresceu, ela teve um impulso muito, muito, muito importante.
Energy Analyst
Depois que o governo nacionalizou a indústria petrolífera em 1976, a estatal PDVSA perdeu técnicos, sofreu cortes e interrompeu manutenções. A queda nas receitas contribuiu para a inflação extrema de 2019, quando os preços no país subiram mais de 300 mil por cento. Mesmo enfraquecido, o petróleo segue central. Em 2024, a PDVSA faturou cerca de US$ 17,5 bilhões. E mais da metade foi para o Tesouro.
Davício Berstein
Entrou o governo Chávez e o governo Chávez aí... E é uma coisa que acontece muito no mundo do petróleo quando você tem regimes. Primeiro, onde o petróleo é praticamente a única fonte de receita do país. A Veneza é um país que nunca se industrializou efetivamente. Nunca teve um setor produtivo pujante na agricultura, como eu já falei, na indústria ou no que seja. Então o petróleo chegou a representar mais de 60% do orçamento do país. E na questão das exportações, 90% da balança de exportações o petróleo até hoje na realidade é o grande gerador de receitas e divisas em moedas estrangeiras. Então é muito comum quando isso acontece que há uma mistura muito clara entre o poder político e a indústria de petróleo.
Energy Analyst
Os militares passaram a controlar parte importante da economia venezuelana, principalmente do petróleo. Então, eles foram comprados, as forças armadas foram compradas por essa atuação do governo Chávez para se manter no poder e, ao mesmo tempo, armou a população, fez milícias, concentrou milícias e tal, e aí ele foi se mantendo no poder.
Davício Berstein
Então, no caso da Venezuela especificamente, isso já acontecia antes do governo Chávez, onde a riqueza do país era abundante, mas ela não se transformava em benefícios para a população. Regimes... Também é muito comum de acontecer. e os regimes muito corruptos no sentido de se manter no poder à custa desse dinheiro. Então, isso aconteceu até que no início dos anos 2000, precisamente, acho que foi em 1999, que entrou Chávez, você juntou, e ele entrou no discurso, vamos dizer assim, na linha exatamente de fazer uma repartição da riqueza do petróleo pela população, que era um discurso adequado, dadas as circunstâncias. até então do governo Andrés Pérez. Ele começou fazendo isso, mas agora ele também ideologizou demais esse processo. E o projeto era manutenção do poder. A gente conhece a história. E aí o que aconteceu com a PDVSA foi que, num primeiro momento, o Chávez entrou num processo de nacionalização radical, da produção de petróleo venezuelana, mandou embora a maior parte das cabeças ilustradas, digamos assim, do setor de petróleo, num primeiro momento dizendo que era para melhorar a eficiência, só que ele mandou embora 20 mil, depois de quatro anos tinha 40 mil a mais. Só que eram 40 mil a mais que não necessariamente eram pessoas qualificadas. A Venezuela sofreu... Para que você tenha uma ideia, a Venezuela, você falou que ela hoje representa 1%. Em valores de hoje, ela representaria de 3% a 4%, considerando todo o aumento da demanda. Você imagine isso e no final dos anos 90, o século passado, seria muito mais, em função de uma produção que seria 3 a 4 vezes o que é hoje.
Natuzanera
Deixa eu ver se eu entendi então para ficar bem claro. Quando o Chaves assume, ele assume com um discurso de distribuir as riquezas do petróleo.
Davício Berstein
Isso.
Natuzanera
Ao longo da gestão dele e depois do seu sucessor, o Maduro, o que foi acontecendo? Houve a nacionalização da produção de petróleo, então muitas empresas saíram da Venezuela, é isso?
Davício Berstein
As empresas saíram e ele perdeu a capacidade de operar a PDVSA, essa é a questão. Muitos funcionários foram embora e ele ficou sem... Porque uma empresa de petróleo, ela não acha petróleo e fica produzindo petróleo, porque cada poço, cada campo de petróleo, ele tem uma vida útil. Então, faz parte da vida de uma empresa de petróleo você produzir e continuar pesquisando e achando petróleo, seja um processo que a gente chama de reposição de reservas. Então, se você vai produzindo e não consegue fazer reposição dessas reservas, aqueles campos vão se esgotando e você não consegue aumentar ou manter a sua produção, ou talvez aumentar a sua produção. e foi o que aconteceu na Venezuela.
Energy Analyst
Mas não vai ser fácil para as empresas americanas de petróleo se apropriarem de todo esse petróleo da Venezuela. Eu vou listar alguns dos fatores que dificultam esse processo. O primeiro deles é que a infraestrutura de produção de petróleo, de refino, está totalmente sucateada por causa desses anos de gestão, de controle estatal da produção. Então, plataformas, oleodutos, refinarias, todos estão em péssimas condições e os especialistas acreditam que seria necessário um investimento de 100 bilhões de dólares nos próximos 10 anos. Um outro fator que dificulta é que as empresas do mundo inteiro estão numa trajetória de descarbonização. com a eletrificação, com a busca de biocombustíveis, essa transição verde. Então, se estima que a partir de 2030, o consumo de petróleo do mundo todo vai começar a cair, o que torna também desvantajoso para as empresas investirem tanto dinheiro na produção na Venezuela. E o último fator é que para as indústrias de petróleo americanas voltarem a investir na Venezuela, elas precisam ter garantias de que não vai acontecer o que aconteceu no passado com a intervenção do Estado venezuelano sobre as empresas estrangeiras.
Davício Berstein
É uma situação que eu vejo, que ou ela, e essa é a grande incógnita, porque a gente não sabe que tipo de governança se imagina nessa intrusão americana na Venezuela, de como isso vai se dar para você tentar reverter esse processo, ainda mais que é um dado importante. que do que a Venezuela produz hoje, 70% vai para a China. Se por acaso você cortar esse, vamos dizer assim, esse quase cordão umbilical que é vital, é o oxigênio em termos de produção de divisas para a Venezuela. Se você cortar, seja militarmente ou de alguma maneira a base da força, você cortar esse fluxo para a China, que para a China ainda é muito relevante, diga-se passagem. Isso representa menos de 4% da demanda na China, que ela pode resolver isso muito facilmente. Mas se você cortar isso, a situação fica muito, muito crítica, muito pior do que já é hoje.
Natuzanera
Bom, agora eu quero olhar para um outro personagem dessa história, que são os Estados Unidos, o maior produtor de petróleo do mundo. Uma pergunta muito simples. Por que eles precisam da Venezuela? Por que essa operação contra Maduro, se eles já são o maior produtor de petróleo do mundo?
Davício Berstein
Olha, eles são o maior produtor, o maior consumidor. Eles são os maiores produtores, mas é muito recente. Os Estados Unidos viraram os maiores produtores de petróleo do mundo no governo Obama. Ou seja, em termos históricos, isso foi anteontem. Lembrando, o Obama, quando foi indicado candidato a presidente, na indicação dele pelo Partido Democrata, No discurso dele, ele diz que em 10 anos, nós iremos acabar com a nossa dependência de petróleo do Oriente Médio. Ele não fala nem de sermos independentes. Nesse meio tempo, houve um salto enorme em uma nova tecnologia, que é conhecida como shale gas ou shale oil. Foi uma mudança numa velocidade que ninguém previa. Ou seja, em menos de 10 anos, os Estados Unidos, que já estavam ficando cada vez mais dependentes do México e do Canadá, principalmente, seus cidadezinhos na importação de petróleo e gás, E isso explica um pouco também as bravatas e o discurso, vamos dizer assim, machão, para ser pejorativo mesmo, do presidente americano, dizendo que eu faço, eu prendo, eu arrebento, quer dizer, aquela coisa ultrapassada e de mau gosto, porque ele não depende mais, ele não depende do Canadá e do México pelo menos por um tempo. Então, o que você tem aí é uma situação em que os Estados Unidos hoje não precisam do petróleo da Venezuela. Agora, você tem duas maneiras também de ver por que ele tem interesse no petróleo da Venezuela. O primeiro deles é que, naturalmente, você tem, também usando um termo muito pejorativo mesmo, que é usado muito na doutrina antiga americana, no seu quintal você tem as maiores reservas de petróleo do mundo, que efetivamente é uma distância muito pequena. se você comparar com as outras grandes reservas mundiais.
Natuzanera
Tá, mas então ele está aguardando para o futuro, é isso?
Davício Berstein
Isso é a primeira coisa. Em termos de segurança energética, sim, com certeza. Então você tem, em tese, você faria um grande duto, se você quisesse, ou instalaria refinarias na Venezuela, ou você tem um parque de refina ali muito perto, no Golfo do México, que você pode receber petróleo venezuelano. Essa é a primeira coisa. A outra coisa, e aí, É um tiro geopolítico bem, não sei se bem pensado, mas muito bem dado, porque na Venezuela, a Venezuela tinha como parceiros preferenciais, eu diria que quase exclusivos, além da China, e você também atinge Rússia, atinge Irã e atinge Cuba. Porque são os três super parceiros, outros além da China, no caso, onde você não só na questão econômica, mas principalmente por questões geopolíticas, questões estratégicas em termos de armamentos, principalmente para a Rússia e o Irã.
Natuzanera
Espero um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Davi Silberstein. O Trump fez essa intervenção na Venezuela porque quer garantir suprimentos para o futuro, já que hoje ele não precisa de petróleo porque os Estados Unidos se tornaram exportadores de petróleo. Ao mesmo tempo, ele viu na ação um potencial estratégico de atingir a influência chinesa e as boas relações da Venezuela, a influência chinesa na região, na América do Sul, e as boas relações da Venezuela com adversários, supostamente, dos Estados Unidos, Irã, Rússia e Cuba.
Davício Berstein
Isso, perfeito. É isso. Eu diria que o impacto na questão de petróleo é de médio a longo prazo. como você colocou, é uma reserva estratégica de médio e longo prazo. Agora, no curtíssimo prazo, ele deu, na minha opinião, uma tacada geopolítica extremamente relevante, porque ele tirou da sua vizinhança, tirou ou pelo menos reduziu, ou A gente não sabe como é que as coisas vão evoluir, pelo menos uma influência importante de três, você chamou de adversários ou rivais ou o que seja, é super importante.
Natuzanera
Agora, a gente aprendeu... Na literatura do petróleo, digamos assim, que qualquer tensão envolvendo grandes produtores tende a refletir rapidamente no preço do petróleo. No caso da Venezuela, quais são as consequências imediatas desse atual momento para o valor do barril?
Davício Berstein
O que a gente pode imaginar hoje em termos de oferta, primeiro, O mundo hoje não tem problema de oferta de petróleo. Ponto. Essa é a primeira questão.
Natuzanera
Então não deve influenciar tanto no preço do barril?
Davício Berstein
Vai influenciar porque vai sobrar mais. Vai influenciar no preço do barril, sim. Não vai influenciar no sentido onde a gente está normalmente acostumado. A gente está acostumado assim, tipo, tem uma crise, o barril vai lá em cima. Irmão, o que deve acontecer, o bairro vai cair. Deve cair de preço. Já vem caindo. Ano passado, em 2025, a queda foi de praticamente 20%. Então, a gente saiu de um bairro de quase 80%, o bairro está oscilando em torno de 60%. O que pode acontecer, e o que acontece na Venezuela, ao contrário de quando você, por exemplo, alguém vai explorar petróleo, você começa fazendo perfurações, você começa a delimitar o poço, ver se tem petróleo, quanto tem de petróleo, e depois você vai partir para efetivamente a retirada daquele petróleo. Na Venezuela, toda essa etapa, que é a etapa mais de risco e mais de incertezas, essa etapa já está superada, porque Você já conhece as reservas, sabe onde elas estão? Elas estão dimensionadas? Então são investimentos, primeiro, muito menores do que uma exploração convencional de petróleo, de um processo de exploração. E segundo, você tem um prazo muito mais curto para você ter acesso a esse petróleo. Então você ganha em termos de redução de risco, E você ganha muito em termos de tempo para você extrair esse petróleo. Então, o que a gente pode imaginar, e aí eu entro um pouco no campo da especulação, mas uma especulação relativamente calibrada, que se houver acordo, e aí essa é a grande ressalva, se houver acordo do governo americano, Também deu a.
Narrator/Reporter
Entender que os Estados Unidos já teriam o controle político sobre a Venezuela. Ele disse que o secretário de Estado, Marco Rubio, havia conversado com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodrigues.
Energy Analyst
Ela tinha publicado uma mensagem mais diplomática para o governo americano. Evitou pedir a libertação do ditador, como tinha feito no sábado. E afirmou, priorizamos alcançar relações equilibradas e respeitosas com os Estados Unidos. Convidamos o governo americano a colaborar com uma agenda de desenvolvimento compartilhado.
Davício Berstein
Supondo que esse caminho seja trilhado, você pode ter daqui a três, quatro, cinco anos, no máximo, uma quantidade nova de novos petróleos disponíveis no mercado que, com uma demanda que vem crescendo menos do que a oferta, mais barato do que a gente teve até agora. E aí é um mundo que para muita gente é bom, para quem, por exemplo, usa petróleo vai ficar mais barato, Para quem vai ser ruim? Para quem produz petróleo hoje nessa faixa dos 60 dólares, vai ficar fora do mercado, e vai ser ruim em termos ambientais. Por quê? Porque você vai retardar muito o processo da transição energética, vamos chamar de desfossilização, ou seja, para uma economia de menos carbono.
Natuzanera
A gente está num daqueles momentos em que, se a gente estende a mão, a gente toca na história, né? Então, a fase atual é de redesenho da arquitetura de poder. Então, se a gente olhar para o século XIX, o carvão projetou a Inglaterra no cenário mundial. No século XX, o petróleo mesmo, deu protagonismo para quem tinha grandes reservas e hoje outros minérios começaram a entrar nesse jogo de interesses também. Cito aqui as chamadas terras raras. Para além do petróleo, o que mais a Venezuela tem que pode interessar os Estados Unidos nesse momento?
Davício Berstein
Olha, aí é por hipótese porque a Venezuela é muito pouco explorada. Aliás, o mundo é muito pouco explorado. Você falou de minerais raros ou minerais estratégicos. Você tem uma situação hoje em que o mundo precisa muito deles porque o caminho do mundo é eletrificação. O mundo vai ficando cada vez mais eletrificado. O uso da eletricidade nos diversos segmentos da sociedade em termos produtivos, em termos de transporte. O que acontece? Primeiro, você não tem uma concentração, não coincide a concentração desses minérios com o que tem de petróleo. Então você tem uma transição geográfica de países estratégicos, por exemplo, no Congo você tem 60% das reservas de cobalto. O Congo é um país fora do radar quando você fala em petróleo. A China tem muito, os Estados Unidos tem muito, o Brasil tem muito, a América do Sul, o Chile tem muito, a grande reserva do Chile são de cobre, o Chile não tem expressão na questão do petróleo. Então, o que vai acontecer ao longo do tempo? E aí é uma situação que não está muito clara, porque... O petróleo você já conhece, você perfura, você retira, você transporta, você tem a logística já determinada e principalmente espalhada pelo mundo. Quando você tira petróleo, você pode refinar o petróleo onde você quiser. Hoje, nessa questão dos minerais estratégicos, 90% do refém, porque ele é minerado, essa mineração hoje, se você pegar o ciclo inteiro, desses minerais, eles são minerados em países em geral, vamos pegar a África, pobres, onde você vai ter problemas ambientais seríssimos, onde você vai ter problemas sociais e de trabalho, se não escravo, mas em condições não muito adequadas. Depois esses minérios são transportados e são refinados em 90% na China. Por que na China? Porque a China desenvolveu primeiro muitas tecnologias e ele é tão poluente que muitos países deixaram de fazer essa mineração. Então a gente está vivendo num momento parecido com o que a gente viveu na pandemia, Quando na questão da globalização, se você não tinha insumos de medicamentos aqui, você comprava na Índia. Se você não tinha máscaras aqui, você comprava na China. Nos minerais estratégicos está acontecendo a mesma coisa. Ou seja, os países estão num certo desespero em relação a isso. Então, voltando à questão da Venezuela, a Venezuela aparentemente não é um país de grandes relevâncias em relação a isso. Por exemplo, a Bolívia é na questão do lítio, por exemplo. Então, você já sabe de antemão onde está a Venezuela, por enquanto, pelo menos. Até onde se sabe, não é um país de relevância que justifique temores, como é no caso do petróleo.
Narrator/Reporter
Trump ressaltou. Os americanos vão controlar a indústria do petróleo venezuelano. Donald Trump disse que, durante décadas, as empresas americanas é que construíram a indústria de petróleo da Venezuela, até verem suas instalações serem expropriadas pelos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Trump afirmou que a reforma da estrutura petrolífera da Venezuela custará bilhões de dólares e que esse valor será pago diretamente pelas empresas americanas. Elas serão recompensadas por isso, mas o pagamento vai ser feito, ele disse, e vamos garantir que o petróleo volte a fluir como deveria.
Natuzanera
O que acontece a partir de agora? As empresas que tinham saído de lá voltam imediatamente ou isso não está claro? Porque o Trump falou em pegar o petróleo dele de volta.
Davício Berstein
Primeiro, não está clara a própria governança política, como vai ser, e a relação com os Estados Unidos. Quando você falou essa coisa de pegar meu petróleo de volta, lembrando que ele falou que os Estados Unidos foram roubados. Essa história de foram roubados, também encurtando a história, que quando houve a nacionalização, não houve uma indenização adequada das empresas, tanto pelas reservas, porque o maior ativo de uma empresa de petróleo são as reservas que ela detém. Então, tanto pelas reservas quanto pelos equipamentos, houve um processo de arbitragem internacional, a Venezuela perdeu, houve uma reiteração em tribunais americanos para pagamento e a Venezuela não pagou. Então, quando o presidente americano fala que os Estados Unidos foram roubados, é nesse sentido, ou seja, é como você fazer uma desapropriação e não pagar. Então, eu acho que isso vai entrar na mesa. Eu acho que, como foi feito com a Ucrânia, quando ele discutiu a questão da ajuda para a Ucrânia, ele foi ressarcido em minerais ucranianos, eu acho que isso vai entrar na mesa, porque, inclusive, em termos legais, os Estados Unidos têm os meios formais e garantidos em termos internacionais de ter direito, sim, a essa indenização. Então, eu acho que isso vai entrar na mesa de negociações.
Natuzanera
E a Delcy Rodrigues, a presidente interina, ela é uma autoridade forte no campo do petróleo na Venezuela. Ela na presidência muda algo, melhora, piora?
Davício Berstein
Eu acho que o problema é maior do que o petróleo nesse caso, porque eu acho que os americanos aprenderam, e não sei se é um pouco de arrogância minha querer achar que estou dando lição, mas acho que eles aprenderam que entrar num país e ficar é uma tragédia. Todas as experiências progressas onde os americanos entraram, a saída sempre foi desastrosa.
Natuzanera
Sim, mas em relação especificamente ao petróleo?
Davício Berstein
O que eu acho que é muito pouco provável que eles derrubem, ou tentem derrubar o governo da Venezuela sem uma ocupação, como fizeram no Oriente Médio recentemente, como fizeram no passado em outros lugares. A minha impressão é que vai haver algum tipo de ajuste de acordo com o atual governo. Tudo parece que sim. Não me parece que o governo americano, para os americanos, é o pior dos mundos. É uma intervenção militar? Porque, de qualquer maneira, é impossível você imaginar uma empresa de petróleo cercada de marinas e de soldados fuzileiros navais para garantir essa operação. Sem um acordo com o governo da Venezuela, qualquer que seja, E aí a chave é ver, nessa questão da governança política, quem é que vai ficar, seja com o atual presidente ou com quem quer que seja, tudo está caminhando por enquanto para que seja com o atual presidente, eu acho que seria esse o caminho.
Energy Analyst
Delci é uma pessoa muito importante no chavismo, e ela é uma pessoa importante no aspecto que interessa ao governo de Donald Trump, que é o petróleo, essencialmente. Desde 2024, ela acumula, acumulava a vice-presidência com o comando do Ministério dos Hidrocarbonetos. Ela negociou o último contrato da Venezuela com a Chevron. E esse aspecto é essencial. Por que isso? É o que interessa a Donald Trump. E a relação de Delci com as companhias petroleiras, tanto estrangeiras como dentro da Venezuela, é essencial para que Trump possa conseguir o que ele quer com essa operação militar bem-sucedida.
Natuzanera
Uma coisa que eu não entendi nesse período todo foi o seguinte, a Chevron conseguiu voltar a operar na Venezuela fugindo do embargo dos Estados Unidos, como isso foi possível?
Davício Berstein
Ela exporta para os Estados Unidos, é petróleo americano, simples assim, quer dizer, Ela não tem liberdade. Primeiro que ela tem ganhos restritos. É um acordo que interessa para os dois. Ela paga royalties, ela paga alguma coisa para o governo venezuelano e o petróleo é 100% americano. Foi um acordo, na época, salvingando o governo Biden. onde houve um certo afrouxamento nas sanções para a Venezuela, uma tentativa de afrouxamento, e eu acho que partiu um pouco simbolicamente pela empresa americana, mas de uma maneira muito restrita, limitada à exportação de petróleo americano e pagamento para os venezuelanos.
Natuzanera
Davi, muito obrigada por sua participação e pelos esclarecimentos todos, volte outras vezes aqui ao assunto.
Davício Berstein
Muito obrigado, eu que agradeço o convite.
Natuzanera
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia, em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kaczorowski e Carlos Catelano. Neste episódio colaborou também Paula Paiva Paulo. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Podcast: O Assunto (G1)
Host: Natuza Nery
Data: 7 de janeiro de 2026
Convidados: Davício Berstein (ex-diretor da ANP, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio), analista de energia
Este episódio analisa a crise venezuelana à luz da recente intervenção dos EUA, liderada por Donald Trump, e o interesse crescente dos americanos no petróleo venezuelano. Natuza Nery discute, com especialistas e repórteres do Grupo Globo, o contexto histórico, político e econômico da indústria do petróleo na Venezuela, as motivações dos EUA e as consequências possíveis para o país e o mercado global.
“No fundo, no fundo, o que move essa crise é o mesmo cheiro que subiu da terra em Táxira há quase 150 anos.” – Natuza Nery (03:29)
“A falta de investimentos fez a indústria encolher. É agora 30% do que já foi um dia.” – Davício Bernstein (01:56)
“Delcy Rodrigues mudou completamente o tom. Ela defendeu que os Estados Unidos cooperem com a Venezuela.” – Analista de Energia (02:47)
“Convidamos o governo americano a colaborar com uma agenda de desenvolvimento compartilhado.” – Delcy Rodrigues, citada no episódio (02:53)
“No seu quintal você tem as maiores reservas de petróleo do mundo, que efetivamente é uma distância muito pequena.” – Davício Berstein (15:20)
“Precisa ter garantias de que não vai acontecer o que aconteceu no passado com a intervenção do Estado venezuelano sobre as empresas estrangeiras.” – Analista de Energia (12:00)
“O mundo hoje não tem problema de oferta de petróleo. [...] O que deve acontecer, o barril vai cair.” – Davício Bernstein (18:36)
“Se houver acordo, [...] você pode ter [...] uma quantidade nova de novos petróleos disponíveis no mercado, [...] mais barato do que a gente teve até agora." – Davício Bernstein (21:16)
“Quando o presidente americano fala que os Estados Unidos foram roubados, é nesse sentido, [...] não houve uma indenização adequada das empresas.” – Davício Bernstein (27:20)
“Delci é uma pessoa muito importante no aspecto que interessa ao governo de Donald Trump, que é o petróleo, essencialmente.” – Analista de Energia (29:55)
“Ela paga royalties, ela paga alguma coisa para o governo venezuelano e o petróleo é 100% americano.” – Davício Bernstein (30:54)
O episódio detalha como a riqueza petrolífera da Venezuela, aliada à instabilidade política, transforma o país em palco central de disputas globais, agora catalisadas por Donald Trump. Os EUA procuram garantir suas reservas estratégicas, minar adversários e talvez obter reparações por expropriações passadas, mas esbarram nas condições precárias do setor e no cenário global de transição energética. O futuro do país depende de acordos complexos, redefinindo não só o acesso ao petróleo, mas também o papel da Venezuela na dinâmica de poder continental e global.