O Assunto – “Por que o Brasil está bebendo menos?”
Data: 19 de janeiro de 2026
Host: Ana Tuzaneri
Entrevistada: Mariana Tibbs (Doutora em Sociologia, coordenadora do CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool)
Tema principal: A queda no consumo de álcool no Brasil, especialmente entre os jovens, suas causas, consequências e padrões de consumo em diferentes segmentos da sociedade.
Visão Geral do Episódio
O episódio foca na tendência recente de diminuição do consumo de bebidas alcoólicas no Brasil, sobretudo entre os jovens, e busca entender os fatores por trás desse novo comportamento. Mariana Tibbs, especialista em saúde e álcool, oferece análises sobre dados, comportamento social, reflexos no mercado e desafios persistentes relacionados ao abuso alcoólico, além de discutir mitos, impactos de saúde, novas formas de socialização e o papel das políticas públicas.
Pontos-Chave e Insights
1. “Janeiro Seco” e Mudança de Comportamento
- Movimento “Janeiro Seco” incentiva um mês sem álcool para analisar os efeitos no bem-estar e saúde.
- Mariana Tibbs (00:16): Explica seu motivo pessoal para parar de beber em janeiro: “Eu sempre sinto que o álcool atrapalha os meus ganhos na academia... então eu resolvi mudar isso. Aí dá pra usar isso como detox ou pra perder um quilinho aí que a gente tava precisando”.
2. Dados Sobre o Consumo de Álcool no Brasil
- Pesquisa Ipsos/PEC: 2 em cada 3 brasileiros não consumiram álcool em 2025.
- Entre jovens de 18 a 24 anos, abstinência subiu de 46% para 64% em 2 anos (01:08).
- Entre 25 a 34 anos, subiu de 47% para 61% (01:15).
Notável tendência mundial:
- Mudança já observada em países como Reino Unido, Irlanda e Austrália.
- “A geração de jovens atual era a geração mais abstêmia da história.” (Mariana Tibbs – 03:56)
3. Fatores Para a Queda no Consumo Entre Jovens
- Informação e Consciência dos Riscos:
“Essa é uma geração muito mais informada a respeito dos riscos que o álcool pode causar...” (Mariana Tibbs – 04:12) - Mudança na Percepção da Embriaguez:
“Ficar bêbado já não é mais visto como algo positivo... é visto como símbolo de vulnerabilidade.” (Mariana Tibbs – 04:43) - Redes Sociais e Imagem Pública:
“Tem uma grande preocupação com a reputação de você poder fazer algo e se arrepender depois, e isso ficar registrado lá para sempre na internet.” (Mariana Tibbs – 05:36) - Saúde e Estética:
Jovens estão mais focados em saúde física e mental, frequente academia, esportes e programas diurnos.
4. Substituição por Outras Substâncias?
- Crescimento de uso de vape observado em pesquisas recentes, mas não há relação automática de substituição com o álcool.
- Mariana: “Eu não chamaria de troca... são fenômenos separados, paralelos.” (07:14)
5. O Papel Cultural do Álcool no Brasil
- O álcool permanece central na socialização brasileira, especialmente em faixas etárias mais velhas.
- “O álcool é, sim, central na nossa civilização e ele é muito importante para a sociabilidade.” (Mariana Tibbs – 07:43)
- Mudança é segmentada por geração e recente temporalmente.
6. Padrão de Consumo x Outros Países
- Brasil tem maioria abstêmia; 21-22% consome de forma moderada e 15% de forma abusiva.
- Consumo mediterrâneo (Itália, França, Portugal): frequência alta, baixas quantidades por ocasião, associado a menos problemas (11:48).
- Padrão brasileiro: coexistência de consumo moderado e abusivo, sendo este último ainda muito presente, principalmente em situações de lazer nos fins de semana.
- “Aqui ainda prevalece o mito de que se eu beber muito só nos finais de semana, isso não vai me trazer malefício.” (Mariana Tibbs – 12:51)
7. Efeitos e Riscos do Álcool
- Especialista em Saúde (13:29):
“O álcool tem uma série de efeitos no nosso organismo... há mais de 100 condições médicas relacionadas ao consumo de álcool." - Sintomas vão desde euforia a problemas metabólicos, obesidade, doenças do fígado e aumento do risco de câncer.
8. Mitos Sobre Tolerância ao Álcool
- “A tolerância não é sinal de resistência, na verdade, ela é um sinal de alerta.” (Mariana Tibbs – 15:40)
- Os danos são iguais, independentemente da sensação de embriaguez.
9. Recortes de Gênero e Classe Social no Consumo
- Houve aumento no uso abusivo entre mulheres, que são mais sensíveis biologicamente ao álcool (16:39).
- “O álcool sai do sistema digestório mais alcoólico [nas mulheres], o que faz com que ele seja mais absorvido.” (Especialista em Biologia – 17:03)
- Uso abusivo entre homens segue estável, e há pouca política pública para enfrentamento do problema.
- Queda no consumo mais significativa em jovens das classes A/B e maior escolaridade; uso abusivo ainda mais prevalente entre homens de baixa escolaridade do Centro-Oeste e Norte (19:12).
10. Benefícios de Reduzir ou Parar o Consumo
- Melhora do sono, pele, produtividade, disposição e até ciclo menstrual entre mulheres.
- “As pessoas notam melhora na produtividade, você tem mais disposição, mais energia ao longo do seu dia...” (Mariana Tibbs – 20:07)
Notáveis Citações e Momentos
- “Essa é uma geração muito mais informada a respeito dos riscos que o álcool pode causar para o corpo humano.”
(Mariana Tibbs – 04:12) - “Ficar bêbado já não é mais visto de forma positiva, é visto como símbolo de vulnerabilidade.”
(Mariana Tibbs – 04:43) - “Aqui prevalece muito o mito de que se eu beber muito só nos finais de semana, isso não vai me trazer nenhum tipo de malefício... Para o nosso fígado, ele não sabe se é final de semana.”
(Mariana Tibbs – 12:51) - “A tolerância não é sinal de resistência, na verdade, ela é um sinal de alerta.”
(Mariana Tibbs – 15:40) - “O álcool sai do sistema digestório mais alcoólico [no organismo da mulher], o que faz com que ele seja mais absorvido...”
(Especialista em Biologia – 17:03) - “Muitas pessoas relatam que passaram a dormir melhor, a pele melhora muito, notam melhora na produtividade, têm mais energia ao longo do dia.”
(Mariana Tibbs – 20:07)
Timestamps dos Segmentos Importantes
- [00:16] – Relato pessoal sobre parar de beber e contexto de “Janeiro Seco”
- [03:38] – Apresentação de dados sobre jovens brasileiros e mudança de geração
- [04:12] – Fatores para queda no consumo entre jovens
- [06:49] – Questão do “troca” por outras substâncias, especialmente vape
- [07:31] – Papel cultural do álcool no Brasil
- [10:34] – Padrão brasileiro comparado ao de outros países
- [13:29] – Efeitos médicos do álcool, com contribuição de especialista
- [15:40] – Esclarecimento sobre mito da tolerância ao álcool
- [16:39] – Recorte de gênero: aumento do abuso entre mulheres
- [19:12] – Segmentação socioeconômica do consumo
- [20:07] – Benefícios relatados por quem para de beber
Síntese Final
O episódio evidencia uma relevante transformação geracional na relação com o álcool no Brasil: jovens bebem menos, motivados por saúde, autocuidado e mudança cultural na percepção da embriaguez. No entanto, o consumo abusivo persiste em segmentos mais vulneráveis, e cresce entre mulheres – mostrando a complexidade do tema, agravada pela falta de políticas públicas e necessidade de pesquisas aprofundadas.
Relevância para Quem Não Ouviu
Com esse panorama detalhado, o ouvinte compreende não só as estatísticas, mas também as nuances sociais, culturais e comportamentais envolvidas na mudança de hábito do consumo de álcool, podendo refletir sobre práticas cotidianas, saúde e o contexto cultural brasileiro – tanto nos avanços quanto nas persistentes desigualdades e desafios.
