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Ana Tuzaneri
Há anos circula em Brasília uma anedota que tenta exemplificar o poder do centrão. Essa anedota diz o seguinte. Um novo presidente da república entra pela primeira vez no Palácio do Planalto e lá encontra um político do centrão. Ele estava, sim, confortavelmente instalado no sofá do gabinete, fumando um charuto. Surpreso, o presidente eleito pergunta, mas o senhor por aqui? E o político do charuto responde, ora, eu sempre estive aqui. O senhor, presidente, é quem está de passagem. Essa anedota fala de um poder que sobrevive ao tempo e a governos de todos os matizes ideológicos. Uma influência que ganhou uma dimensão ainda maior nos últimos anos com o chamado orçamento secreto. E sabe o político do charuto que eu acabei de citar? Pois bem, em cima desse dinheiro todo das emendas parlamentares, ele já não quer apenas estar no sofá do palácio. Ele quer, se puder, se sentar na cadeira do presidente da república, mesmo sem ter sido eleito presidente, para ditar as regras do jogo. Mas é bom que se diga, esse político do Charuto tem um ponto. O centrão sempre esteve na área.
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A Constituinte era um momento divisor de
Bela Megali
águas da sociedade brasileira.
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Passei a pertencer ao Centrão. Foi uma corrente de parlamentares que se colocava ao lado do liberalismo econômico, contra
Bela Megali
o pensamento de esquerda, que, em tese, era o bem.
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Nós éramos o mal.
Ana Tuzaneri
Como força política, o Bloco nasceu na Assembleia Nacional Constituinte entre 1987 e 1988. Era um bloco de centro-direita que se organizou para reagir às propostas consideradas mais progressistas durante a elaboração da nova Constituição brasileira. Os anos se passaram, mas foi sob o comando de Eduardo Cunha, deputado que viabilizou o impeachment na época em que era presidente da Câmara e que acabou caçado tempos depois, que o centrão ganhou mais ambição e mais musculatura. E desde então vieram as emendas, a baixa transparência, a fama mais forte de fisiologia e o mais puro pragmatismo político.
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A necessidade de grupos de pressão, no caso representando o capital, o investidor, porque nós tínhamos uma panela de pressão, onde os direitos sociais, tudo isso, havia a expectativa de se contemplar na Constituição. isso é importante. Mais recentemente, lideranças parlamentares entenderam que a maioria governa e quando ela está organizada, ela basicamente comanda o processo legislativo. Isso fica muito claro sempre quando tem governos no executivo de esquerda, porque aí tem claramente esse contraste entre a maioria no executivo e uma maioria parlamentar que tende a ser de centro-direita.
Ana Tuzaneri
Esse contraste às vezes se acentua, mas às vezes ele quase some. Depois de quatro anos incompletos de atritos entre o governo Lula e o Congresso Nacional, que é comandado justamente pelo Centrão, a proximidade da eleição mudou o clima dessa relação. E mesmo o Centrão estando mais próximo do bolsonarismo, os partidos que ocupam o bloco optaram pela neutralidade na corrida presidencial. Mais que isso, o atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Mota, tomou um lado.
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Então, eu estava aguardando a posição do partido para que pudesse trazer de público a nossa posição. A nossa posição está sendo aqui revelada em primeira mão de apoio ao presidente Lula em seu projeto de reeleição. Nós iremos declarar esse apoio ao presidente porque é o presidente que converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país.
Ana Tuzaneri
Outro expoente, o presidente do Senado Davi Alcolumbre, não chega tanto, mas já começa a mudar o tom nessa relação. Tanto que, depois de um quase rompimento total, Lula e Alcolumbre se encontraram recentemente.
Bela Megali
É o
Ana Tuzaneri
Centrão mais uma vez garantindo seu lugar no sofá, independentemente de quem passará os próximos quatro anos no Palácio do Planalto. Da redação do G1, eu sou Ana Tuzaneri e o assunto hoje é Para que lado aponta o pêndulo do centrão? Neste episódio, eu converso com Bela Megali, colunista do jornal O Globo Quarta-feira, 12 de agosto Bela, a gente te convidou pra falar dos ventos do Centrão, pra que lado eles estão soprando. E a primeira pergunta que eu quero te fazer é sobre uma declaração recente do presidente da Câmara, Hugo Mota. Essa declaração me chamou atenção porque ao longo de todo o período de Hugo Mota como presidente da Câmara, a relação dele com Lula foi uma relação de muitos trancos e muitos barrancos. Mas eis que ele diz que o Lula é o melhor nome, etc e tal. O que que aconteceu e por que o Gumota se aproximou de Lula depois desse período tão intenso. Eu diria assim bom que a gente
Bela Megali
vê em relação a esse tema do Gumota é que existe um cálculo político claro do presidente da Câmara para fazer essa declaração de voto para o presidente Lula. Em primeiro lugar, ele tenta a reeleição, o Gumota vai concorrer à reeleição como deputado federal pela Paraíba, que é um estado que tem uma base lulista grande. Para a gente lembrar um pouco dos dados das eleições de 2022, 66% dos votos dos paraibanos foram para o Lula e 33% para o Bolsonaro. Então, a base é muito maior para o presidente Lula no estado do Gumota. ele tenta emplacar ali o pai dele, o Nabor Wanderley, que é ex-prefeito de Patos, como senador. O Nabor Wanderley está concorrendo ao Senado e ele trava uma disputa com um nome que é da base do Lula, que é o senador veneziano Vitaldo Rego, do MDB, da Paraíba. Então, o Gomota faz esse gesto, claro, para o presidente da República, tentando dividir ali o palanque do Lula na Paraíba. E o outro ponto ali do cálculo político do Hugo Mota, em relação a esse xadrez, é que ele já tá de olho em se reeleger presidente da Câmara num eventual mandato Lula-PAR. Ele já tá tentando pavimentar esse caminho, inclusive já falou com integrantes do Palácio do Planalto, com ministros. O governo Lula já sondou a possibilidade de ter o apoio do governo e do presidente em uma eventual reeleição ali ao comando da Câmara dos Deputados, Natuza.
Ana Tuzaneri
Pois é, tá faltando aí uma explicação que eu queria testar contigo. Hugo Mota é do Republicanos, partido de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, candidato à reeleição. Tarcísio queria ser ele o candidato à presidência da República, acabou ficando Flávio Bolsonaro. Mas todo mundo diz, no entorno de Tarcísio, que Tarcísio faz uma conta pragmática, como é todo santrão, diga-se de passagem. No seguinte sentido, se Flávio Bolsonaro se elege agora, ele vai tentar uma reeleição em 2030, mas 2030 é quando Tarcísio, depois de governar São Paulo mais uma vez, se for reeleito para esse segundo mandato, quer ser ele o candidato. Faz sentido isso como explicação da neutralidade do partido republicanos, que é o mesmo partido do Tarcis e o mesmo partido do Gomota?
Bela Megali
Ah, certamente. Acho que é essa avaliação e essa leitura, até porque a apuração que eu tenho vai na linha de que o Republicanos nunca deu sinais claros para a campanha do Flávio e nem para o próprio Flávio Bolsonaro, que iria abraçar ali ou iria se coligar ao senador agora na corrida pelo Palácio do Panal. Teve esse namoro com a Daniela Marques, que se filiou ao Republicanos e ali era o nome favorito do Flávio pra ser a sua vice. Mas a relação, vamos dizer assim, nunca deu um match sério. A coisa nunca engatou muito. E o Marcos Pereira sinalizava que o caminho que preferia era a neutralidade. Ele se escuda ali nos levantamentos internos dos diretórios, dizendo que a maioria foram a favor da neutralidade. e que isso teria feito o partido tomar essa posição. Mas o fato é que o Marcos Pereira não queria assumir esse lado já de olho numa eventual possibilidade do Tarcísio concorrer à presidência em 2030. O próprio Tarcísio falava que Nesse ano, ele só ia disputar o Palácio do Planalto se o cavalo passasse selado para ele. E o cavalo passar selado era Bolsonaro dizer, Tarcísio, dá você, você é meu nome. O Bolsonaro selou o cavalo para o filho dele, o Flávio Bolsonaro, porque não quer passar esse legado, essa herança política do clã, para um nome fora da família. Então, está todo mundo ali esperando na janelinha e faz sentido que esse cálculo político do republicano junto à Tarcísio sobre a neutralidade tenha entrado na conta.
Ana Tuzaneri
E no caso de Hugo Mota só para a gente fechar esse personagem que é um dos personagens do centrão ele deve estar fazendo um cálculo regional como você disse mas também um cálculo nacional ou seja ele deve achar que o presidente Lula tem mais chance de ganhar o mandato do que Flávio.
Bela Megali
A leitura que tem sido feita é que a disputa está sendo muito acirrada entre o Flávio e o presidente Lula, apesar de uma série de desgastes ter sido enfrentados pelo Flávio Bolsonaro, especialmente em relação ao caso do Daniel Borcaro, ele tem mostrado uma candidatura resiliente e muitas vezes ali com empate técnico nas intenções de votos em relação ao presidente Lula. Então, acho que tranquilidade sobre a vitória de um ou de outro, nem o Motta e nem os caciques políticos de Brasília tem, mas de fato existe uma avaliação de que o Lula é o favorito, não o franco favorito, mas o favorito ainda nessa disputa até pelo que as pesquisas mostram, com uma margem apertada, mas seria ali o favorito.
Ana Tuzaneri
E você acha que Lula apoiaria a reeleição de Hugo Mota para a presidência da Câmara sendo que Mota deu dor de cabeça para Lula enquanto foi presidente.
Bela Megali
Pois é a gente tem uma série de pontos de momentos de crise entre Hugo Mota e o presidente Lula e o seu governo ao longo do mandato do Hugo Mota como presidente da Câmara. Por exemplo, em junho do ano passado, o Hugo Motta pautou no Congresso e o Congresso derrubou o aumento do IOF, que foi imposto pelo governo Lula e gerou uma grande crise política.
Ana Tuzaneri
A derrota que a Câmara e o Senado impuseram ontem ao governo ao derrubarem o aumento do IOF foi um marco histórico nas relações entre os poderes. Fazia 35 anos que isso não acontecia com um decreto presidencial.
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No Senado, a votação foi simbólica pouco depois de os deputados derrubarem o decreto que aumentou o imposto sobre operações financeiras, com votos, inclusive, de partidos que comandam ministérios. O presidente da Câmara, Hugo Mota, do Republicanos, defendeu a decisão em uma rede social. Essa construção se deu de forma suprapartidária e com a maioria expressiva, a Câmara e o Senado resolveram derrubar esse decreto do governo para evitar o aumento de imposto.
Ana Tuzaneri
O governo decidiu questionar essa medida, a derrubada do decreto, no Supremo Tribunal Federal. Parlamentares dizem que levar esse assunto para o judiciário é um desrespeito ao Congresso. E também afirmam que não dá para aceitar aumento de imposto como forma de
Bela Megali
fazer o ajuste fiscal. Em entrevista à TV Bahia, o presidente
Ana Tuzaneri
Lula falou sobre o recurso ao Supremo.
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Se eu não entrar com recurso no Poder Judiciário, se eu não for Suprema Corte, ou seja, eu não governo mais o país, cara. Esse é o problema. Cada macaco no seu galho. Ele legila e eu governo.
Bela Megali
No fim do ano passado também teve a história de que o Mota indicou o deputado Guilherme de Ritchie, que é ligado à oposição ao Flávio Bolsonaro, para ser relator do PLA de facção, que era uma das bandeiras do governo Lula. E no fim do ano o clima também azedou bastante entre o Mota e o Lula, após o presidente da Câmara romper as relações políticas com o líder do PT na Câmara, na época o Lindbergh Farias, mas agora Tanto o Lula quanto o Alcolumbre estão refazendo esse cálculo político. Tanto que depois do Motta manifestar publicamente apoio ao Lula, o Lula ligou para o presidente da Câmara, Hugo Motta, para agradecer o gesto dele. E perguntou se ele estava em Brasília e que seria bom os dois marcarem uma conversa pessoalmente. Então tem essa troca de afagos e eu acho que o Lula também não tem muita opção para onde correr num eventual quarto mandato ali. porque o PT não tem uma base ampla para poder ter um líder ligado ao partido com folga, para ter um presidente ligado ao partido com folga no comando da Câmara. Então, tanto que no governo Lula eles nem chegaram a lançar um nome diretamente ligado a Lula, já apoiaram o Motta, fizeram a construção dessa aliança. Então, acredito que existe a possibilidade de refazer essa aliança em torno do nome do Hugo Mota como presidente da Câmara, sim, na PUSA, muito pela falta de opção que o governo Lula tem hoje. Agora, vale também a gente pontuar que ele fez alguns gestos ali para o Palácio do Planalto, especialmente em relação ao projeto da Anistia, que era um tema muito rumoroso. Claro que o Hugo Mota mordia e assoprava em relação a essa anistia, mas ele acabou não pautando a anistia do ex-presidente Jair Bolsonaro, que era uma questão ali de honra para o Palácio do Planalto, para o governo Lula e para os integrantes do Supremo Tribunal Federal.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Bela.
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Ana Tuzaneri
Bom, eu quero falar, então, de um outro líder do Centrão, presidente do Senado, Davi El Colombre. Esse impôs a última grande derrota de Lula no Senado Federal, que foi a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. Indicação essa feita por Lula. Eles se encontraram na casa do ministro Alexandre de Moraes. Estava presente também o ministro do Supremo, Cristiano Zanin. Conta para a gente o que que aconteceu o que que Davi Alcolumbre pode entregar para o Lula lembrando que Lula depois dessa derrota não queria ver o Davi Alcolumbre pintado de ouro na frente dele. Mas agora as coisas parecem mais distensionadas.
Bela Megali
Antes dessa conversa com o Lula o Davi Alcolumbre já foi preparando o terreno. Inclusive, ele atuou para que a federação formada pelo partido dele, União Brasil, com o PP, ficasse neutra na disputa nacional e não apoiasse o nome do senador Flávio Bolsonaro. Então, o Davi Alcolumbre já chega nessa conversa com o Lula, vamos dizer, com esse ativo, né? Inclusive, falando diretamente com integrantes ali do PT, com o Edinho Silva, que é o os coordenadores da campanha do Lula e o presidente do partido, e também com o ministro José Guimarães. Então, ele prepara esse terreno e vai ao encontro de Lula, vai nessa reunião, mas começou num clima bem ruim, de lavação, de roupa suja, inclusive eles só falaram do passado nessa reunião, segundo eu apurei, com duas pessoas que estavam presentes no encontro. na Tulsa, falaram, obviamente, do ápice da crise, que foi a negativa da indicação do Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, que teve o Alcolumbre como um dos principais artífices. O Alcolumbre argumentou ali que teria aletado o Palácio do Planalto, que o Messias não passaria na votação do Senado. Essa derrota que o Senado impôs ao presidente Lula tem um nome principal. É Davi Alcolumbre dizendo para o governo que quem manda no Senado é ele. É Davi Alcolumbre dizendo para o governo que não adianta fazer negociação, articulação paralela sem passar por ele. O Davi Alcolumbre vinha repetindo nos bastidores ao longo de todo esse processo que nunca viu nada ser aprovado no Senado sem a campanha dele, sem a articulação dele. Ele vinha dizendo que estava sendo neutro, que não estava interferindo, que tinha preferência pelo Rodrigo Pacheco. e que não estava se sentindo respeitado. Mas o fato é que o clima começou com uma lavação de roupa suja, falando do ano passado e sobre esse episódio, e as coisas terminaram bem, segundo a descrição dessas pessoas que estavam presentes no encontro, com os dois reestabelecendo uma conexão. Mas não foram tratadas diretamente nesse encontro pautas de interesse de Lula e nem de interesse de Alcolumbre, até porque tinha a presença de dois ministros do Supremo Tribunal Federal. Ficou acertado que eles vão ter uma segunda agenda nos próximos dias para tratar de temas que interessam a ambos. Para Lula, o fim da escala 6x1, como você citou, é um tema essencial, que está parado no Senado há bastante tempo, desde que foi aprovado ali na Câmara, e também uma nova indicação do Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, porque tem uma ala do Palácio do Planalto que defende que tem que ser feita uma nova indicação antes da eleição e que o Davi Alcolumbre precisaria estar envolvido nesse movimento como presidente do senado.
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Então há um entendimento no governo que a relação com a cúpula do Congresso melhorou muito nessa reta final, um pouco antes de começar a campanha propriamente dita. No Senado Federal, quais são as prioridades? Votar a PEC da Segurança Pública, votar o fim da escala 6 por 1 e evitar aprovação de pautas bombas que podem causar impacto fiscal para o governo. A avaliação é que não é fácil convencer Davi Alcolumbre a votar a PEC 6x1 e a PEC da Segurança Pública. Ele já deu sinalizações de que isso deve ficar para depois das eleições, mas o governo quer aproveitar essa melhora na relação com o presidente do Senado para tentar convencê-lo a construir um consenso, um acordo para colocar esses temas em votação.
Bela Megali
O que eu relatei no meu blog, no Globo, é que para alguns aliados do partido dele União Brasil, o Davi Alcolumbre já sinalizou que não tem mais toda aquela resistência que ele apresentava contra o nome do Jorge Messias para ele integrar o Supremo Tribunal Federal. Naquela época ele queria mostrar a força que tinha para o presidente da república e impôs essa derrota. mas que agora os ânimos se arrefeceram e que, a depender do que ele conseguir negociar com o Lula, pode vir a trabalhar para que o nome do Jorge Messias seja aprovado no Supremo Tribunal Federal. Então, esse é um dos cálculos ali que está no cenário do governo e também, segundo o aliado de Alcolumbre, União Brasil, também já está no radar do presidente do Senado.
Ana Tuzaneri
E o que Davi Alcolumbre está querendo, Bela, partindo do princípio, da própria definição do centrão, de que o centrão, quando entrega, sempre quer alguma coisa. O que Davi Alcolumbre está querendo ao se aproximar de Lula?
Bela Megali
A gente vê que o Davi Alcolumbre tem um desejo claro e trabalha para se reeleger presidente do Senado novamente. E ele só vê que existe chance disso acontecer num eventual governo Lula 4, porque está claro que se o Flávio Bolsonaro ganhar, eles vão trabalhar para que o Rogério Marinho, coordenador da campanha do Flávio, braço direito dele no pleito, seja o presidente do Senado. O Marinho não esconde de ninguém que esse é o grande objetivo dele. E além do Marinho tem outro nome, né, de uma aliada, que é a Tereza Cristina, do PP, também foi cotada ali para serviço do Flávio, acabou não dando certo por causa da neutralidade do partido dela, mas o fato é que o Davi Alcolumbre não está entre os nomes prioritários da oposição do grupo do Flávio Bolsonaro para ser o presidente do Senado, então ficaria muito difícil ele construir essa reeleição dentro da casa. E com Lula já teria um caminho um pouco mais acessível. Agora é isso. O Davi Alcolumbre foi o nome que impôs a maior derrota para o presidente da república ao recusar o nome indicado por ele para integrar o Supremo Tribunal Federal. O que eu tenho apurado é que o Lula segue cada vez mais enchendo o seu potinho de mágoas. e que esse eventual mandato, Lula 4, o Lula vai apresentar, vai trazer essas mágoas ali, elas vão contar nas decisões dele. Então, será que esse cálculo político do Alcolumbre de ter o apoio do Lula na presidência do Senado vai se efetivar? Acho que ainda é uma aposta que o cenário ainda está muito nebuloso e a gente vai ter que ver os desdobramentos que essa reaproximação, de fato, vai ter de maneira concreta.
Ana Tuzaneri
Bom, a gente tem de todo o Centrão os partidos que dão as cartas, né? Então você tem o PP, o Progressistas, que é o partido de Arthur Lira. Esse parece piscar muito mais pra Flávio Bolsonaro do que pra Lula. Ciro Nogueira, esse sim o grande líder do PP, do Progressistas, que parece estar mais afastado de Flávio, era uma voz do campo bolsonarista dentro do centrão. Queria entender o que aconteceu com o Ciro Nogueira, se ele está em alguma rota ou em alguma conversa com o próprio Lula, assim como Davi Alcolumbre, o União Brasil do Davi Alcolumbre, que também é centrão, Republicanos. Como é que você qualifica esses dois outros líderes, Arthur Lira e Ciro Nogueira?
Bela Megali
O Ciro Nogueira enfrenta ali uma crise com o Flávio Bolsonaro desde que ele se tornou um dos alvos da operação da Polícia Federal envolvendo o Daniel Vorcaro pela ligação íntima que o Ciro tinha com o banqueiro. Ele se sentiu muito abandonado pelo Flávio Bolsonaro não ter feito nenhum gesto direto ali para ele, então isso foi algo que abalou muito a relação deles e abriu brecha para lideranças do PT e integrantes do governo se reaproximarem de Ciro Nogueira e trabalharem pela neutralidade do progressistas no cenário nacional. Então, ele manteve muitas conversas também com Edinho e com José Guimarães, que ficaram responsáveis por tentar fazer esse bloqueio dos partidos do Centrão de aproximação do grupo do Flávio Bolsonaro. Então, o Ciro Nogueira foi um dos articuladores desse movimento. Inclusive, a própria Michele Bolsonaro chegou a ligar para o Ciro Nogueira e fazer um apelo para que o partido dele integrasse a base de apoio de Flávio Bolsonaro, liberasse a Tereza Cristina para ser vice do senador, mas não teve jeito. O Ciro Nogueira manteve ali a negativa e isso sempre respaldado ali. no mesmo argumento do Marcos Pereira, presidente dos republicanos, que consultou as bases, consultou os diretórios regionais, a maioria votou pela neutralidade. Mas a gente sabe que isso tudo é um jogo muito combinado. O Arthur Lira, de fato, tem essa preferência ali. pelo Cláudio Bolsonaro, essa ligação maior com os bolsonaristas, mas, segundo eu apurei nessa consulta interna feita pela executiva do PP, ele também teria se posicionado pela neutralidade, ele não chegou a defender abertamente. nenhuma aliança com Flávio. O fato é que o Ciro, por exemplo, já manifestou publicamente que vai apoiar o Flávio Bolsonaro. E o Ciro Nogueira também tem o cálculo político similar ao do Hugo Mota, né? Ele é do Piauí, ele vai tentar a reeleição. pelo Piauí e também é um estado com a base lulista. Então, tem um acordo ali de cavaleiros também para que ele não entre no alvo, não seja muito atacado e possa ter uma eleição ali, uma campanha mais tranquila, entre aspas, e não de confronto com o eleitorado lulista.
Ana Tuzaneri
Depois dessa nossa conversa toda, quem nos ouve pode sair desse episódio com a seguinte conclusão. Bom, então o Centrão está com Lula. Por que que essa afirmação não é necessariamente verdadeira diante de tudo isso, de tanta gente piscando para o atual presidente da República?
Bela Megali
A gente sempre viu que, ao longo desse mandato do presidente Lula, o Centrão agiu da maneira que lhe convém, muitas vezes em pautas econômicas e de costumes, fazendo ali acenos à oposição, ao clã Bolsonaro. Então, é uma atitude ali que convém. muito mais aos interesses políticos, a manutenção ali das emendas e de toda essa estrutura que coloca eles como fiel da balança aqui de Brasília, do que uma afinidade ideológica de esquerda ou de direita, de Lula ou de Bolsonaro. E hoje os interesses políticos, e que vão propiciar mais poder e mais recursos para os partidos do centrão, é fazer esse gesto de neutralidade, em alguns casos gestos pessoais, como o do Gomota, ao presidente Lula. Mas a gente não vai ver uma ligação intrínseca, uma ligação muito próxima, a gente não vai ver o Republicanos ou o PP, União Brasil, integrando a base firme do presidente Lula e votando com o governo, um eventual Lula 4, um eventual governo Lula, um novo governo Lula, também vai ser movido a trancos e barrancos, mesmo que Lula venha a construir, por necessidade, por pragmatismo, uma nova reeleição de Hugo Mota na Câmara, ou até de Alcolumbre no Senado. Então, é um cálculo político, é o pragmatismo político dos dois lados, mas sem afinidade de projetos e sem afinidade ideológica alguma.
Ana Tuzaneri
E montado em cima de uma dinheirama de emendas parlamentares, né?
Bela Megali
que ninguém abre mão, por mais que o presidente Lula já chegou, agora está adotando essa bandeira de ter um discurso mais duro em relação às emendas, mas a gente viu que ao longo desses últimos três anos e meio, ele não conseguiu fazer muita coisa para basear esse poder do Congresso e é muito difícil fazer mesmo, porque hoje o governo executivo é muito mais recém do Congresso, do Parlamento, precisa muito mais do Parlamento do que o Parlamento executivo.
Ana Tuzaneri
Bela Megali, muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui no Assunto.
Bela Megali
Obrigada a você, Natuza. Até a próxima.
Ana Tuzaneri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Marco Antônio Martins. Colaborou neste episódio Tomé Granemann, Este episódio usou áudios da TV Cultura. Eu sou Ana Tuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
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Bela Megali
E aí E aí
Data do episódio: 12 de agosto de 2026
Host: Ana Tuzaneri
Convidada: Bela Megali (colunista do O Globo)
Neste episódio, o podcast “O Assunto” mergulha no cenário político brasileiro para analisar o papel do Centrão e seu posicionamento em um cenário de eleições acirradas entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ana Tuzaneri e Bela Megali detalham o pragmatismo e as estratégias do grupo, revelando as motivações dos principais líderes e partidos do Centrão diante de um quadro polarizado e volátil. O episódio mostra que, mais do que uma escolha ideológica, os movimentos do Centrão têm sido pautados por cálculos de sobrevivência política e busca de poder, especialmente em meio à disputa pelos comandos da Câmara e do Senado.
O episódio deixa claro que, apesar das aparências, o Centrão mantém sua lógica de sobrevivência acima de compromissos ideológicos ou fidelidade a governos. Os principais nomes e partidos navegam com neutralidade estratégica para preservar influência, recursos e portas abertas em possíveis futuros governos, sejam eles liderados por Lula ou pela família Bolsonaro. Como diz a anedota inicial, os presidentes passam – o Centrão fica.