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Natuza Nery
A maior refinaria de petróleo do mundo fica na Índia e processa mais de 1 milhão de barris por dia. Uma estrutura gigantesca que custou o equivalente a 100 bilhões de reais só pra ficar pronta. Isso em 2008. No Brasil, uma outra refinaria, bem menor do que essa, conseguiu um feito. Produziu um rombo financeiro que custou pros cofres públicos metade dessa dinheirama toda da refinaria da Índia.
Luiz Felipe Silva
O grupo Refit foi classificado pela Receita como devedor quanto mais. O Ministério da Fazenda afirma que as dívidas de todas as empresas do conglomerado somam 52 bilhões de reais.
Natuza Nery
Estamos falando da Refit. Na sexta-feira, a Operação Sem Refino da Polícia Federal apontou para um império erguido sobre a indústria da sonegação fiscal. As empresas desse grupo faziam isso de maneira recorrente. A fraude se deu principalmente na sonegação do ICMS, que é um imposto com um papel central no orçamento e na gestão executiva dos estados e do Distrito Federal. Foram R$ 39,6 bilhões. É mais ou menos o que arrecadam por ano juntos os estados do Pará e do Ceará com ICMS.
Luiz Felipe Silva
A refite foi interditada pela Agência Nacional do Petróleo em setembro de 2025, a partir de investigações da Polícia Federal que apontaram que a refinaria não refinava uma gota sequer. Importava gasolina pura, declarando ser óleo bruto para pagar menos imposto.
Carlos Catelan
A suspeita é que a refite importe gasolina já refinada como se fosse nafta, que tem impostos mais baixos.
Luiz Felipe Silva
A Refit também entrou na mira da Operação Carbono Oculto, por suspeita de integrar uma rede de empresas que auxiliava o PCC de São Paulo a lavar dinheiro
Natuza Nery
De acordo com a Polícia Federal, dois estados são as maiores vítimas do grupo chefiado pelo empresário Ricardo Magro Em São Paulo, a dívida é de R$ 11,3 bilhões No Rio, mais que o dobro. R$ 23,5 bilhões em passivos tributários. Segundo a investigação, essa trama criminosa ganhou corpo entre os anos de 2018 e 2022, durante os governos de Wilson Witzel e de Cláudio Castro, no Palácio da Guanabara. Foi nesse período que a máquina pública fluminense se tornou uma espécie de muro de proteção da Refit. Isso inclui a gestão executiva, mas também a Procuradoria-Geral do Estado e a Assembleia Estadual, a Alerj.
Investigador Polícia Federal
A Polícia Federal suspeita que Castro agiu para beneficiar o grupo Refit. A PF suspeita que servidores públicos tenham recebido benefícios para deixar a Refit operar. A operação cumpriu mandados de busca contra o desembargador Guaraci Viana, afastado em março, também por suspeitas ligadas à Refit. E também contra o ex-procurador do Estado, Renan Saadio, e o ex-presidente do Instituto Estadual do Ambiente, o INEA, Renato Jordão Bussieri. Outro alvo da PF foi Álvaro Barcha Cardoso. Segundo a investigação, ele atuava como lobista, é apontado como operador de pagamentos de propina do esquema e, segundo as investigações, tinha uma forte influência dentro da Secretaria de Fazenda.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é A fraude da Refit, uma mutreta que sobreviveu por décadas no Rio de Janeiro e depois se expandiu para outros estados. Neste episódio, eu converso com Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da CBN e da Globo News. Terça-feira, 19 de maio. Maria Cristina, quero começar nossa conversa pedindo para que você nos localize acerca do principal personagem dessa história. Ricardo Magro, dono da Refit, que segundo a APF é a maior sonegadora fiscal individual do país. Quem é essa figura?
Maria Cristina Fernandes
Ele é um empresário do Rio de Janeiro cuja família já atuava no setor de combustíveis, ele entrou no negócio da família, eles acabaram adquirindo esta refinaria que tinha o nome de refinaria de Manguinhos e passou a se chamar Refit, mas que nos últimos anos deixou de fato de refinar petróleo. e passou a comprar o combustível já refinado, sem que isso fosse oficializado, e passou a refinar de fato imposto. Tornou-se a empresa que é a maior sonegadora país. Na decisão do ministro Alexandre de Moraes, que autorizou a inclusão dele na lista vermelha da Interpol e busca e apreensão de vários personagens, a dívida do conglomerado do Ricardo Magro é de 52 bilhões, sendo que 94% desse passível se deve a refite, ou seja, 48 bilhões se devem a refite que é esta refinaria. A maior parte deste valor é devida ao ICMS nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
Sara Rezende
A fraude começava ainda na importação. Segundo os investigadores, as importadoras do grupo declaravam gasolina como se fosse produto bruto, com tributação bem mais baixa. Depois da importação, o próximo passo era o refino e a mistura irregular.
Natuza Nery
E como é que ele sai desse lugar de refinador de petróleo para refinador de sonegação? É por meio do lobby, né? Décadas de lobby. Queria que você mostrasse essa estrutura, porque na sua coluna, que foi publicada no sábado no Valor Econômico, Você descreve a estrutura que é criminosa, que a própria PF inclusive chama de retrato da cooptação integral do estado do Rio de Janeiro pela Refit. E aí quando fala-se em cooptação integral, eu entendo que é a cooptação do Executivo do Rio de Janeiro, do Legislativo e também do Judiciário, né?
Maria Cristina Fernandes
dos três poderes, agora foi uma articulação que se iniciou no Rio e se expandiu. Mas como é que ela começou no Rio? Na verdade, o lobby do Magro na máquina estadual feminense vem desde o governo Antônio Garotinho, mas foi com a cessão do bolsonarismo no Palácio do Guanabara. na eleição de Wilson Witzel em 2018, e tinha como vice o Cláudio Castro, ele que acabou tomando posse um ano depois por conta do impeachment do titular. E que esta cooperação, que é uma articulação dos três poderes, para permitir que a Refit fizesse dar sonegação ao seu modelo de negócios, de fato se estabelecesse. E acabou virando o símbolo de um Rio de Janeiro que substituiu, com a ascensão do bolsonarismo, esse processo, digamos assim, ganhou absoluta densidade. A substituição de uma atividade econômica importante, que é o refino privado, substituiu essa atividade por uma operação que envolve sonegação, corrupção e associação com o crime organizado. E como é que isso aconteceu? Bem, as empresas que concorriam com a Refit, as empresas que trabalham no mercado legal de combustíveis, começaram a enfrentar essa concorrência desleal por parte de uma empresa que não paga, está suspensa, não está em operação impostos. E passaram a acionar, existe hoje o Instituto de Combustível Legal, começou a levantar dados, começou a municiar a Polícia Federal e a municiar os estados de dados, o Ministério Público aqui em São Paulo, o Ministério Público no Rio de Janeiro, e começou a municiar de dados sobre a atuação dessa empresa. E eis que a Agência Nacional do Petróleo interditou a empresa, interditou a Refit, já municiada por todos esses dados. E esta interdição, ela foi contestada pela Procuradoria-Geral do Estado. Cláudio Castro, ex-governador, ele trocou o Procurador-Geral do Estado. justamente para que a Procuradoria Geral, quem representa o Estado no Judiciário, contestasse essa suspensão. Acionou o Tribunal de Justiça do Rio, enviou um projeto para a Assembleia Legislativa também, digamos assim, lavando a sonegação da REFIT para que ela pudesse continuar a funcionar. e também operou ali na fazenda estadual para que essa sonegação também pudesse ser, de alguma forma, perdoada. Então, no governo do Rio se instaurou aí uma grande estrutura de suporte Além da atuação de todos os órgãos, a Refit se estendeu aqui para o Estado de São Paulo e aqui no Estado de São Paulo teve operações muito importantes, que foi a Carbono Oculto, a cadeia de carbono e a Poço de Lobato.
Natuza Nery
A Carbono Oculto é aquela que chega no andar de cima, ali na Faria Lima, não é isso?
Maria Cristina Fernandes
Exatamente, o carbono oculto é aqui e a cadeia de carbono também, que mostram a lavagem de dinheiro da sonegação do setor de combustíveis no mercado financeiro. E nessa lavagem, digamos assim, o setor de combustíveis prestou serviços para o crime organizado, lavava o dinheiro do crime organizado mediante uma comissão. Todas essas informações foram recolhidas pela Polícia Federal e tudo isso foi municiando o relatório que ensejou esta decisão.
Natuza Nery
Então você tá falando de dois vetores, né? Um vetor é o vetor da Polícia Federal, que acaba colocando a Refit no foco, não só a Refit, o próprio ex-governador do Estado. Mas eu queria entender melhor, então, pra não perder esse fio da meada, o que o governador que está no cargo interinamente e que não é um homem da política tem a ver com o estado de coisas atual.
Maria Cristina Fernandes
Primeiro, ele demorou um pouco a colaborar porque ainda estava indefinida a permanência dele no cargo. Quando efetivamente ele foi decidido, aliás com base no Aliminar, que ele fica no cargo e isso muito provavelmente vai perdurar até o final do ano, até a eleição do próximo governador. Ministro Cristiano Zanin manteve o presidente do Tribunal de Justiça, o Ricardo Couto, no comando do Estado. A decisão veio depois de um pedido do PSD, que quer evitar mudanças na chefia do governo. para trocar as pessoas e fazer a limpa no Estado e a entrar nas contas e, de fato, fazer ali uma devassa do que o governo Cláudio Castro havia deixado. E uma das mudanças importantes que ele fez foi restituir à Procuradoria-Geral do Estado o Bruno Dubê, era o titular da VGE, que tinha sido destituído pelo Castro, justamente por ter se recusado a representar judicialmente contra a interdição da refinaria que tinha sido determinada pela ANP com a operação Cardeia de Carbono. O substituto do B, lá no governo Castro, o Renan Sádio, acabou sendo um dos alvos da operação da Polícia Federal, que jogou esse aviso, esse alerta vermelho para o Ricardo Magro. Então o Ricardo foi importante porque a Procuradoria Geral do Estado acabou podendo colaborar com os investigadores sobre o que havia ali internamente de articulação nos órgãos do Estado para favorecer o magro.
Natuza Nery
Você já disse, né, já explicou que uma empresa por meio de lobby que começou refinando o petróleo, passou a refinar a sonegação ou imposto, como você mesma disse, ao longo de décadas, mas que intensificou essa atuação já em 2018, ela não contou com o apoio somente do Executivo do Rio de Janeiro. contou também com o Legislativo, e aí eu queria que você nos explicasse como.
Maria Cristina Fernandes
Em 2025, Paulo Castro aprovou uma lei de parcelamento da dívida tributária, bem na medida para que a Refit, que tinha tido seu parque industrial interditado, pudesse voltar a funcionar. A LERG, no ano passado, era e continua sendo um feudo do PL. Na época, era presidida pelo Rodrigo Bacelá, que foi eleito pelo PL e depois se filiou à União, mas era da base bolsonarista. Bacelá foi preso no mesmo ano, sob acusação de que teria vazado informações sigilosas a um outro deputado estadual, o TH Joias, este do MDB, e também acabaria preso por associação com o Comando Vermelho. Pela segunda vez, a Polícia Federal prendeu
Sara Rezende
o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacelar, do União Brasil. Ele é suspeito de vazar informações sigilosas da polícia para o Comando Vermelho. Rodrigo Bacelar responde por ter vazado informações da polícia para um aliado, o então deputado estadual TH Joias. TH Joias seria alvo de uma operação da PF. Ele também está preso, acusado de negociar armas e drones com o Comando Vermelho.
Maria Cristina Fernandes
Veja bem por que lá no relatório da PF, vou só fazer esse parênteses, por que o relatório diz, quando descreve a atuação do Castro em favor da Refit, que ele foi a Nova York buscar junto às agências americanas de combate às drogas, buscar apoio para classificar as facções do Rio como narcoterroristas, enquanto na máquina estadual protegia o crime, o crime organizado. para delapidar o erário Fluminense. É isso que está escrito lá no relatório da Polícia Federal. Então, voltando à Assembleia Legislativa, a prisão desses dois deputados estaduais não impediu que o bolsonarismo continuasse a dar as cartas na lege. Com a eleição do Douglas Ruas para presidência da casa, é um deputado do PL que ascendeu na política fluminense à sombra do pai, é um prefeito de São Gonçalo, o capitão Nelson, um ex-PM, também filiado ao PL, que foi investigado pela CPI das milícias lá na Assembleia Legislativa do Rio, E assombra também o deputado federal Altineu Cortes, que é uma das principais lideranças bolsonaristas no Estado. E o Douglas Ruas é o candidato da família Bolsonaro ao governo do Rio. Ele disputaria ao lado de Castro. Ele, Castro, como candidato ao Senado e ele como candidato ao governo. Hoje parece que essa possibilidade, o Ruas está querendo descartar o Castro, já não quer. associação com esta operação sem refino. Digamos assim, o bolsonarismo quer se livrar da refite, que hoje está muito associada ao Castro, mas o fato é que, durante todo o governo Castro, foi o bolsonarismo que, no comando da Assembleia Legislativa, permitiu que o Castro operasse o poder legislativo em benefício da empresa. Mas aí ainda falta o terceiro poder, né, Natuza, que é o judiciário do Rio de Janeiro.
Natuza Nery
Era essa a minha próxima pergunta.
Maria Cristina Fernandes
Pois é. Um dos alvos da operação da semana passada foi o desembargador Guaraciviana.
Natuza Nery
Quem é?
Maria Cristina Fernandes
Ele é um desses, um dos laços, talvez o principal laço entre a Refit, o crime organizado, o bolsonarismo e o judiciário, porque o Guaraci foi o portador da informação vazada ao Rodrigo Bacelá, que levou à prisão do burro do Rodrigo Bacelá. Foi ele que avisou, olha, vai ter uma operação lá na casa do TH Joias. E foi a partir deste aviso que o Rodrigo Bacelá avisou ao TH Joias. É do Guaraci também a decisão que desinterditou a Refit temporariamente. E essa decisão acabou sendo revertida pelo STJ, pelo Superior Tribunal de Justiça. No momento em que ele tomou essa decisão de desinterditar a Refit, a refinaria já tinha tido suas operações suspensas duas vezes e estava nessa guerra. A Refit procurou estabelecer laços com os tribunais superiores. Por que eu estou dizendo isso? Porque não está citado nem na decisão do ministro Alexandre de Moraes, nem no relator da Polícia Federal, pelo menos nos trechos que estão citados lá na decisão, mas o filho do ministro do Supremo Tribunal Federal, o recém-impostado presidente do TSE, o ministro Cássio Nunes Marques, Ele tem um filho chamado Kevin Marques, que é um advogado de uma carreira fulgurante em Brasília. Um ano depois de ter obtido a OAB, já tinha 500 clientes na sua carteira do seu escritório. Ele foi contratado pela Refit e ingressou no TRF1 contra a interdição da Refit PNA-INP. Um desembargador chamado Newton Ramos deu liminar favorável à refinaria a partir da gestação. Um mês depois de ter pego carona com Nunes Marques, pai do Kevin Marques, num voo para Maceió, custeado pelo Banco Master. tem o governo federal ao longo do governo Bolsonaro, porque um dos alvos de busca e apreensão foi o Jonatas Assumpção. Quem é? Ele é o mesmo executivo da Refit hoje. Está lá, estão descritos os depósitos e os comprovantes correspondentes à transferências de Magro para Jonathan Sussão no valor de 1,3 bilhão. Ele foi secretário executivo da Casa Civil quando o hoje senador Ciro Nogueira, alvo lá da Masta, era o titular, sob o Bolsonaro, desta pasta da Casa Civil. foi o Ciro Nogueira também que indicou o Jornal da Assunção para o Conselho de Administração da Petrobras. Quando terminou o mandato dele no Conselho de Administração e também na Secretaria Executiva, lá da Casa Civil, o Ciro Nogueira indicou o Jornal da Assunção para trabalhar na Refit. O mesmo Ciro Nogueira foi quem apresentou aquela emenda mágica para levar o Fundo Garantidor de Crédito, o FGC, o limite de garantir R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Carlos Catelan
Nas mensagens trocadas em 13 de agosto, Vorcaro diz, Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro. Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes. Está todo mundo louco. Naquele mesmo dia, poucas horas antes das mensagens, o senador havia apresentado uma emenda para aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, o FGC, que é de R$ 250 mil por CNPJ ou CPF, para R$ 1 milhão. A emenda nem chegou a ser votada.
Maria Cristina Fernandes
Agora, ele não se limitou a apresentar essa emenda. Ele também fez uma emenda para a REFIT. Ele tentou emplacar uma emenda excluindo, porque para a gente entender a REFIT, a gente não pode pular este capítulo do Devedor Quanto Mais, que é um projeto que tramitou oito anos no Congresso e tinha a bancada que obstruía a aprovação desse projeto do Devedor Quanto Mais. Quanto Mais é aquele que faz da sonegação seu modelo de negócio. Então, o Ciro Nogueira, quando viu que a coisa podia passar, ele apresentou uma emenda para excluir o setor de combustível das penalidades decorrentes da aprovação deste projeto de lei que tipificava o devedor contumaz no país. Quando teve a Carbono Oculto e a Poço de Lobato, no fim do ano passado, aí o Congresso ficou ansioso para se dissociar dessas operações, porque foram operações que mostraram os laços entre o clima reorganizado e os sonegadores do setor de combustível. E o Congresso acabou aprovando esse projeto, que ficou parado oito anos, e aí passou no Senado, passou na Câmara, e a legislação está aprovada. Mas o fato é que esta emenda existia. O projeto foi aprovado sem esta emenda, mas ela foi apresentada pelo Sirio Nabiara.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Maria Cristina Fernandes. Eu queria te fazer uma pergunta que juntasse o escândalo da Refit, o escândalo do Master, o escândalo da Carbono Oculto, ou seja, gente do mercado financeiro lavando dinheiro para crime organizado, VIDE, PCC. Como tudo isso é possível?
Maria Cristina Fernandes
Na Tusa, muito se falava ao longo do governo Bolsonaro que o governo foi terceirizado para o Centrão. Bolsonaro só cuidava ali de manter a sua placa imobilizada, fazendo provocações, pautando com as suas declarações polêmicas. Um mini-Trump pautando a opinião pública brasileira e ali no meio da Covid também. Então, o Bolsonaro como um grande animador de auditório e o Centrão como o condutor da máquina. Nós estamos vendo, pelo envolvimento do senador Flávio Bolsonaro, e não foi bem apenas um condutor da máquina passivo, nem aqui pelo que aconteceu com os aliados na Assembleia Legislativa do Rio. Houve uma simbiose e uma operação conjunta do bolsonarismo e do centrão para fazer essa máquina funcionar. Essa máquina da sonegação, essa máquina que tentou se entranhar e se viabilizar nas brechas e abertas pelas instituições, se enfronhou com sentenças Conseguidas, a gente ainda não sabe exatamente como, mas com muito conflito de interesse, os desdobramentos dessa investigação, onde mostrar como é que essas sentenças e essas decisões que mantiveram a REFIT em funcionamento até outro dia, elas se sustentaram. Agora, o fato é que tudo isso se deu com uma anuência de personagens com muito poder na máquina estatal, e não apenas do executivo. Quando a gente fala do Estado brasileiro, a gente fala das instituições que o operam, que estão aí nos três poderes.
Natuza Nery
Um dos elos dessa história é justamente o fato de a Refit ter operado no estado do senador Davi Alcolumbre, o estado do Amapá, um esquema de importação de combustível com benefícios fiscais extraordinários. E aí já fiquei com várias pulgas atrás da orelha pra te perguntar.
Maria Cristina Fernandes
É o seguinte, a gente falou que a Refit trazia o combustível já refinado e isso se dava sem pagar de imposto e para camuflar essa operação de refino que não existia mais na refinaria de Manguinhos. Isso acontecia por meio de corredores de importação. Um dos corredores que funcionou mais longevos foi o corredor de importação de combustíveis operado no Amapá. Funcionou por seis meses. O que era isso? O navio chegava da Rússia, a maior parte desse combustível foi trazido da Rússia, chegava ali no porto de Macapá, declarava que estava desembarcando, só que não desembarcava, fazia a sua entrada alfandegária pelo porto de Macapá, só que dali seguia para os outros estados. Declarava que havia pago impostos, na verdade era uma simulação, era um arranjo ali que era simulação de pagamento de impostos para conseguir evadir das obrigações tributárias em outros estados para onde o combustível efetivamente se destinava. E aí causava prejuízo no fisco dos demais estados, que acabavam não recolhendo. Olha, eu já paguei lá na Mapa, só que na Mamapá tinha deixado uma fração do imposto só. Este corredor funcionou sob o governo Clécio Luiz, aliado do presidente do Senado, Gabriel Columbre. e do presidente da União Brasil, Antônio Rueda, que também atuou fortemente na estruturação desses corredores. E o Juliano Pascoal, que foi alvo da operação, foi secretário de Fazenda também do governo Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, substituindo um secretário de Fazenda que se recusou a fazer isso. Ele foi colocado lá no governo, no palácio do Ganabara, no governo Cláudio Castro, também pelo Alcolumbre. quando o corredor do Amapá acabou sendo descontinuado por pressão dos secretários de fazenda dos estados. O COFAES, que é o conselho que reúne secretários de fazenda de todo o Brasil. O COFAES deu em cima, acabou sendo descontinuado. Só que esse corredor saiu migrando pelos estados e funcionou um tempo no Rio de Janeiro. graças à articulação desse secretário. Ele funcionou um tempo no Paraná, então ele saiu por onde ele conseguia para tentar colocar esse combustível dentro do país e fazer com que as operações do Ricardo Magro prosseguissem.
Natuza Nery
Eu ouvi uma declaração de um representante do setor de combustíveis e ele dizia que organizações criminosas lucram muito com serviço sujo no setor de combustíveis, mais do que o próprio tráfico de drogas.
Luiz Felipe Silva
O presidente do Instituto Combustível Legal, que representa empresas do setor, disse numa entrevista à Globo News que o instituto já havia entrado na justiça pedindo a falência da Refit, a partir dos indícios de crimes praticados pela empresa. O crime organizado entrou no setor porque fatura três vezes mais do que fatura com cocaína. Dentro do setor de combustíveis, O crime organizado fatura 62 bilhões de reais. Em cocaína, segundo o Fórum Nacional de Segurança Pública, eles faturam 22. Eu falo que nós não temos mais crime organizado, nós temos a economia do crime hoje.
Maria Cristina Fernandes
Essas operações todas na Tulsa, porque elas mapearam a quantidade de postos de gasolina hoje nas mãos do PCC, eram postos abastecidos por essa rede, que é a rede da qual o Ricardo Magro fazia parte, mas que tinha outros dois empresários que estão foragidos da Justiça. com os quais o Antônio Reida já reconheceu vínculos. São empresários foragidos que tentaram fechar uma delação aqui no Ministério Público de São Paulo, o Beto Louco e o Mohamed, eles tentaram fechar uma delação, não foi aceita a delação porque eles não apresentavam nenhuma novidade, não queriam entregar nada além do que o Ministério Público e a Polícia já tinham com o que foi recolhido nessas operações. Então, ao longo desses anos, o imbricamento e as conexões do setor de combustíveis com o crime organizado realmente cresceu muito e criou uma estrutura de atividades paralelas, que têm uma aparência legal, que são esses postos de gasolina, quando, na verdade, eles são operados pelo crime.
Natuza Nery
Maria Cristina Fernandes, obrigada por costurar tantos retalhos de suspeitas e escândalos num assunto só. Te agradeço muito e te desejo um bom trabalho.
Maria Cristina Fernandes
Obrigada, Natuza. Sempre uma alegria participar.
Natuza Nery
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Nathuzaner e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 19 de maio de 2026
Host: Natuza Nery
Convidada: Maria Cristina Fernandes (colunista do Valor Econômico, comentarista CBN e GloboNews)
Outros participantes: Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan
Este episódio detalha um dos maiores casos de sonegação fiscal e corrupção empresarial na história do Brasil: o escândalo da Refit, uma refinaria do Rio de Janeiro que se tornou símbolo de cooptação do Estado, conexões com crime organizado e impactos bilionários nas finanças públicas. O caso se desenrola em meio a investigações federais e estaduais, atingindo figuras do Executivo, Legislativo e Judiciário e escancara o envolvimento do setor de combustíveis com o crime organizado. Maria Cristina Fernandes analisa os mecanismos do esquema, a trajetória do empresário Ricardo Magro e o entrelaçamento dos interesses econômicos, políticos e criminosos.
"A fraude se deu principalmente na sonegação do ICMS, que é um imposto com um papel central no orçamento e na gestão executiva dos estados e do Distrito Federal."
— Natuza Nery [00:40]
"O lobby do Magro na máquina estadual fluminense vem desde o governo Antônio Garotinho, mas foi com a ascensão do bolsonarismo no Palácio do Guanabara... que essa cooperação se estabeleceu."
— Maria Cristina Fernandes [06:10]
"A Carbono Oculto... mostram a lavagem de dinheiro da sonegação do setor de combustíveis no mercado financeiro. O setor de combustíveis lavava o dinheiro do crime organizado mediante uma comissão."
— Maria Cristina Fernandes [09:09]
"Quando teve a Carbono Oculto e a Poço de Lobato... operações que mostraram os laços entre o crime organizado e os sonegadores do setor de combustível."
— Maria Cristina Fernandes [18:40]
"O crime organizado entrou no setor porque fatura três vezes mais do que fatura com cocaína. Dentro do setor de combustíveis, o crime organizado fatura 62 bilhões de reais."
— Luiz Felipe Silva [25:01]
"Houve uma simbiose e uma operação conjunta do bolsonarismo e do centrão para fazer essa máquina funcionar."
— Maria Cristina Fernandes [20:23]
"Ela não contou com o apoio somente do Executivo do Rio de Janeiro, contou também com o Legislativo."
— Natuza Nery [11:40]
"Essas operações... mapearam a quantidade de postos de gasolina hoje nas mãos do PCC, abastecidos por essa rede da qual o Ricardo Magro fazia parte..."
— Maria Cristina Fernandes [25:36]
"Eu falo que nós não temos mais crime organizado, nós temos a economia do crime hoje."
— Luiz Felipe Silva (Instituto Combustível Legal) [25:01]
O episódio evidencia como décadas de conivência, lobby e cooptação de órgãos públicos permitiram a consolidação de um esquema bilionário de fraude fiscal e lavagem de dinheiro — envolvendo desde empresários e políticos estaduais e federais, até o crime organizado. O caso Refit ilustra as fragilidades institucionais brasileiras diante de interesses privados e criminosos, ao mesmo tempo em que destaca a relevância de operações federais e denúncias do setor legal na desarticulação do esquema.
Resumo preparado para quem quer entender o escândalo da Refit: fraude fiscal, cooptação do estado, lavagem de dinheiro, crime organizado — uma radiografia da corrupção estrutural brasileira contemporânea.