O Assunto – REPRISE: Ana Maria Gonçalves, a 1ª Mulher Negra na ABL (30/12/2025)
Episódio em Resumo
Este episódio presta homenagem à escritora Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 128 anos de história. Ao longo da conversa conduzida por Natuzaneri, Ana Maria reflete sobre o impacto social e literário de seu romance "Um Defeito de Cor" (2006), um marco da literatura afrobrasileira, e discute temas como representatividade, a exclusão histórica de mulheres negras na literatura nacional e sua expectativa ao assumir este novo espaço. O episódio é intercalado por leituras sensíveis de trechos do livro e poemas de Luiz Gama, feitas por Maju Coutinho e Lázaro Ramos.
Principais Temas e Discussões
1. Representatividade e Exclusão Histórica na Literatura Brasileira (07:30 – 12:16)
- Natuzaneri abre a conversa destacando a sub-representação de mulheres negras na literatura:
- Apenas a oitava mulher negra a publicar um romance no Brasil até 2006 (08:08).
- Ana Maria aponta que os números refletem o caráter excludente da sociedade e do mercado literário brasileiro, citando a cultura do "compadrio":
- “Enquanto a gente, apesar de há muito tempo já ter competência, já ter qualidade no trabalho [...], a gente ainda não ocupa [esses espaços].” (08:08, Ana Maria Gonçalves)
- O mercado editorial era controlado por homens brancos da região sudeste, com indicações pessoais entre eles (09:22).
- Destaca o papel das novas tecnologias (internet, autopublicação) e do amadurecimento dos debates raciais para furar esse bloqueio.
- Cita a pioneira Maria Firmina dos Reis e a responsabilidade da ABL em representar a diversidade da sociedade brasileira.
- “Eu acho que, quando se coloca qualquer coisa brasileira, por exemplo, Academia Brasileira de Letras [...], se faz ali uma promessa que ela seja representativa da sociedade a qual ela nomeia.” (11:16, Ana Maria Gonçalves)
2. "Um Defeito de Cor": Pesquisa, Protagonismo e Herança Histórica (12:16 – 19:35)
- Ana Maria detalha a construção da protagonista Kendé, inspirada em Luísa Mahin, mãe do poeta Luiz Gama.
- “A Quendé é inspirada na vida da Luísa Maim [...] a minha Luísa Maim ficcionalizada, a partir de dois poemas do Luiz Gama em que ele fala sobre a mãe.” (13:16, Ana Maria Gonçalves)
- Aborda o processo de pesquisa e o apagamento documental de mulheres negras na história do Brasil.
- “A personagem é construída a partir de recortes, de retalhos, de pequenos lampejos de existências [...] em torno entre 350 a 400 mulheres.” (17:53, Ana Maria Gonçalves)
- Revela o surgimento posterior de documentos que comprovam a existência de Luísa Mahin, validando fontes orais e literárias negras (18:41).
📖 Trecos do Livro & Poemas
- Leituras dramáticas alternam entre Maju Coutinho (voz de Kendé) e Lázaro Ramos (poemas de Luiz Gama), dando vida à memória histórica dos personagens.
- “Não estava mais na minha terra, não tinha mais a minha família. Estava indo para um lugar que não conhecia.” (27:31, Kendé)
3. Racismo, Narrativas e a Transformação Social (19:46 – 25:22)
- Contextualiza o lançamento de “Um Defeito de Cor” (2006) e a ascensão do debate público sobre cotas raciais – ainda embrionário na época.
- “O livro teve a grande sorte de pegar o momento onde estava se procurando entender parte desse passado que justificasse a existência de cotas para pessoas negras.” (20:43, Ana Maria Gonçalves)
- Ana Maria reflete sobre sua identidade como mulher negra de pele clara e a complexidade da autodefinição em diferentes contextos sociais no Brasil.
- “Eu sou filha de mãe negra e de pai branco, para mim sempre foi uma identidade que as pessoas questionavam muito, dependendo do contexto em que eu estava…” (21:22, Ana Maria Gonçalves)
- Aponta o avanço na autodeclaração racial e a compreensão da população sobre o racismo estrutural nos últimos anos.
- Comenta o impacto simbólico de sua entrada na ABL e o precedente da candidatura de Conceição Evaristo, além das recentes eleições de Gilberto Gil e Ailton Krenak.
4. A Importância do Termo “Escravizado” (26:32 – 28:44)
- Debate didático sobre a opção pelo termo “escravizado” em vez de “escravo” – para reforçar que trata-se de uma condição imposta, não de uma identidade nata.
- “Ela nasce uma criança livre [...] E ela é tornada escrava, ou seja, tiraram-lhe uma liberdade que deveria ser um dos bens mais protegidos por cada um de nós.” (26:59, Ana Maria Gonçalves)
- “Ao se falar que é escravizada, a gente pensa também que não é uma condição passiva, é uma condição ativa. Ela tinha a sua liberdade e essa liberdade foi tomada por alguém.” (27:57, Ana Maria Gonçalves)
5. Novos Projetos: Menopausa e Escrita Feminina (28:53 – 32:39)
- Ana Maria fala sobre seu novo livro, em desenvolvimento, que trata da menopausa, assunto ainda cercado de tabu e desinformação.
- Relata sua própria experiência durante a pandemia e ressalta a necessidade de políticas públicas para atendimento da saúde da mulher nesta fase da vida.
- “Hoje eu falo que eu tô escrevendo um livro sobre a menopausa, e as mulheres todas, e é muito bonito, querendo colaborar, querendo contar a sua experiência [...]” (30:56, Ana Maria Gonçalves)
6. Reflexão sobre a ABL e Machado de Assis (32:39 – 33:43)
- Antecipando sua posse, comenta sobre revisitar a história da ABL, especialmente o embranquecimento histórico de Machado de Assis.
- “Na certidão de nascimento do Machado tá como negro, a certidão de morte dele tá como branco...” (32:46, Ana Maria Gonçalves)
- Destaca o simbolismo de assumir-se negra na principal instituição literária do país.
Notas e Momentos Memoráveis
- [03:44] Natuzaneri: “Um romance histórico que testemunha o peso e a força de quem ousou sobreviver.”
- [13:16] Ana Maria Gonçalves sobre inspiração em Luísa Mahin.
- [20:43] Comparação entre o Brasil de 2006 (debate inicial de cotas raciais) e 2025 (acesso à ABL).
- [26:59] Explicação sobre a escolha do termo “escravizado”.
- [28:53 & 30:56] Discussão sensível sobre menopausa, saúde da mulher e inclusão deste tema na literatura e nas políticas públicas.
- [32:46] Releitura crítica do passado da ABL e de Machado de Assis.
Timestamps de Destaque
- 07:30 – 12:16: Exclusão histórica de mulheres negras na literatura, papel das editoras, compadrio e internet.
- 13:16 – 19:35: Pesquisa e construção de Kendé; validação da história oral negra; trechos lidos de Luiz Gama.
- 19:46 – 25:22: Impacto de "Um Defeito de Cor" no debate racial; evolução social e simbologia da presença negra na ABL.
- 26:32 – 28:44: Importância de dizer “escravizado” e não “escravo”.
- 28:53 – 32:39: Projeto sobre menopausa, relatos pessoais e discussão sobre saúde pública.
- 32:39 – 33:43: Reflexões sobre Machado de Assis, reescrita da memória e sua própria posse.
Conclusão
O episódio serve tanto como retrato histórico quanto celebração do presente e projeção para um futuro mais plural na literatura e cultura brasileiras. Ana Maria Gonçalves, com lucidez e emoção, narra o caminho árduo da representatividade, revisita vozes e memórias apagadas e defende a ampliação dos espaços para a diversidade, tanto na ABL quanto na sociedade.
Memorável:
“O futuro no Brasil só pode ser diverso.”
— Ana Maria Gonçalves (25:58)
Recomendado para quem deseja compreender as raízes do racismo estrutural brasileiro, o poder transformador da arte e a urgência de inclusão nos espaços de poder cultural.
