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Ana Maria Gonçalves
Itaú Empresas.
Narrator/Character Voice (Kendé)
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Natuzaneri (Interviewer/Host)
2025 foi um ano de um capítulo histórico para a cultura brasileira. A escritora Ana Maria Gonçalves chegou à Academia Brasileira de Letras. Foi a primeira vez, em 128 anos, que uma mulher negra assumiu uma cadeira na BL. Ana Maria é autora de Um Defeito de Cor, romance que se tornou um pilar da literatura contemporânea. Nesta terça-feira, 30 de dezembro, o Assunto tem a honra de reprisar minha conversa com Ana Maria Gonçalves. A escritora reflete sobre o impacto da sua obra desde 2006, quando o livro foi lançado. Ao longo da conversa, trechos de um defeito de cor são lidos por Maju Coutinho e Lázaro Ramos, que dá voz também ao poema Minha Mãe, de Luiz Gama.
Narrator/Character Voice (Kendé)
Eu nasci em Savaloo, reino de Daomé, África, no ano de 1810. Portanto, tinha seis anos, quase sete, quando esta história começou. O que aconteceu antes disso não tem importância, pois a vida corria paralela ao destino.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Essa história atravessa séculos.
Narrator/Character Voice (Kendé)
O meu nome é Kendé, porque sou uma ibeje e nasci por último. Minha irmã nasceu primeiro e por isso se chamava Taiwo. Antes tinha nascido meu irmão, Kokumo, e o nome dele significava, não morrerás mais, os deuses te segurarão. O Cocumo era um abicu, como a minha mãe. O nome dela, Durorique, era o mesmo que Fica, tu serás mimada. A minha avó, Durojaie, tinha esse nome porque também era um abicu. E o nome dela pedia, Fica para gozar a vida, nós imploramos. Assim são os abicús, espíritos amigos há mais tempo do que qualquer um de nós pode contar e que, antes de nascer, combinam entre si que logo voltarão a morrer para se encontrarem novamente no mundo dos espíritos. Eles têm nomes especiais que tentam segurá-los vivos por mais tempo, o que às vezes funciona. Mas ninguém foge ao destino, a não ser que ele queira. Porque quando ele quer, até água fria é remédio.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
E atravessa também o Oceano Atlântico. Uma história contada magistralmente no livro Um Defeito de Cor.
Narrator/Character Voice (Kendé)
A minha avó disse que estava se sentindo fraca e cansada, que perdia a força e a coragem longe dos seus vuduns, pois tinha abandonado a terra deles. Durante dois dias ela me falou sobre os vuduns, os nomes que podia dizer, as histórias, a importância de cultuar e respeitar os nossos antepassados. Mas disse que eles, se não quisessem, se não tivessem quem os convidasse e colocasse casa para eles no estrangeiro, não iriam até lá. A minha avó morreu poucas horas depois de terminar de dizer o que podia ser dito. Poucos dias depois que jogaram a minha avó ao mar, avisaram que estávamos chegando, que da parte de cima do tumbeiro já era possível enxergar terra de um lugar chamado Brasil. Foi só então que os muçulmans acreditaram que não estávamos indo para a Meca e ficaram bravos por terem sido enganados, dando pontapés e murros nas paredes do navio. Eles calaram o protesto. Mas rezaram por horas a fio, em voz baixa e todos juntos. Uma oração monótona e repetitiva. Um lamento tão triste que o coração da gente até virava um nó.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Um romance histórico que testemunha o peso e a força de quem ousou sobreviver.
Narrator/Character Voice (Kendé)
Depois que percebemos que o navio tinha parado, ficamos por muitas horas ouvindo grande movimentação, barulho de coisas sendo arrastadas e de vozes gritando ordens. Eu estava ansiosa para saber se o branco que tinha me escolhido estaria no desembarque e se ainda ia me querer. No meio da tarde, eu já sentia muita fome, pois a comida não tinha dado para todo mundo. Os que estavam ali antes da nossa chegada foram os únicos a se servir, e em quantidades moderadas. Foi quando entrou um homem muito distinto, de meia-idade, seguido de perto por dois pretos também alinhados, embora tivessem os pés descalços. Ele pediu uma preta que soubesse cozinhar e algumas se apresentaram, voluntariamente ou depois de serem chamadas pelo empregado do barracão, que primeiro tentava vender as peças mais antigas, que os compradores recusavam para escolher as que estavam em melhores condições. Acabou sendo escolhida uma senhora que tinha viajado no meu navio, uma que eu vi chorando no dia em que levaram o marido morto para ser jogado no mar. Depois, o homem pediu um preto que entendesse de pescaria. E como já não havia mais homens da nossa leva, ficou um dos antigos, que na verdade não tinha nada de antigo, era bem moço ainda, embora magro e maltratado. Quando parecia que já estava se preparando para ir embora, feliz com a compra, correu os olhos pelo armazém, como quem procura uma vaca entre carneiros, parou e apontou a bengala na minha direção.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Essa também é a memória do Brasil, uma memória marcada pela escravidão, contada na obra-prima da escritora Ana Maria Gonçalves. Os trechos que você ouviu foram lidos a pedido do assunto pela apresentadora Maju Coutinho. A personagem principal, Quindé, é inspirada na vida de Luís Amain, que foi a mãe do poeta e advogado abolicionista Luís Gama. Ao longo do episódio, você também vai ouvir estrofes do poema Minha Mãe e uma carta. Ambos foram escritos por ele. Quem lê esses trechos, também a convite do assunto, é o ator Lázaro Ramos.
Lázaro Ramos (Actor reading Luiz Gama's texts)
Dediquei-lhe os versos que com esta carta envio-te.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Quem der ex-escravizada negra é quem conta a história do nosso país. No amontoado de papéis, um livro de quase mil páginas. Na realidade brasileira, um passado que até hoje se perpetua, com muitos reflexos sociais que demoram a ser reparados. Nesta semana, no dia 7 de novembro, Ana Maria Gonçalves assume a cadeira número 33 da Academia Brasileira de Letras. Será a primeira vez que uma mulher negra vai ocupar um espaço na academia, 128 anos depois de sua fundação. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Ana Maria Gonçalves. Uma entrevista com a autora do romance Um Defeito de Cor, lançado em 2006, que a consagrou como uma das grandes vozes da literatura nacional. Em 2007, o livro venceu o prêmio Casa de las Américas, um dos mais importantes da América Latina. A obra também foi homenageada como enredo da Escola de Samba Portela, em 2024, e ganhou uma exposição que marcou a reabertura do Museu da Cultura Afro-Brasileira, em Salvador, em novembro de 2023. Eu queria aproveitar para agradecer a Maju Coutinho e ao Lázaro Ramos pelos incríveis áudios enviados a pedido da produção do assunto.
Ana Maria Gonçalves
Segunda-feira.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
3 de novembro. Ana Maria Gonçalves, é um prazer imenso, um privilégio conversar com você aqui. Você que é a primeira mulher negra a ser eleita para uma cadeira na BL, além de ser a décima terceira mulher na instituição. E eu queria começar puxando um levantamento que foi feito em 2019, apontando que você era a oitava mulher negra a ter publicado um romance no Brasil até o ano de 2006. Então eu te pergunto, o que esses números nos dizem sobre a história e o lugar da mulher negra na literatura brasileira?
Ana Maria Gonçalves
Eu acho que são números que refletem um caráter muito particular da sociedade brasileira. Enquanto a gente, apesar de há muito tempo já ter competência, já ter qualidade no trabalho, já ter Ter condições de ter ocupado esses lugares, a gente ainda não ocupa. E eu acho que dá para analisar isso em várias camadas. Uma delas, eu acho que é o que o Roberto da Mata fala do Brasil ser uma sociedade do compadrio.
Guest Commentator
Ninguém quer ser o João Ninguém, todo mundo quer ser alguém, essa oposição entre alguém e ninguém é o que gerou o sábio que está falando, o jeitinho, né? Então, que são reações anti-igualitárias. Você conhece o fulano? Conheço. É meu tio. Ah, você devia ter falado antes, cara. Por que você não falou antes? E essas reações, esse tipo de bússola que nós usamos para nos orientar quando nós estamos diante de desconhecidos ou em situações novas, é uma bússola que mede quem está em cima e quem está embaixo. Não é uma bússola da modernidade democrática liberal.
Ana Maria Gonçalves
Então eu vejo muito isso no mercado literário, principalmente até algum tempo, onde quem publicava no Brasil, pelas grandes editoras e com isso trazendo mais visibilidade para o seu trabalho, eram geralmente homens brancos da região sudeste, mais particularmente dizendo de Rio e São Paulo. E eles meio que controlavam esse mercado editorial, né? Ou seja, era... Porque, geralmente, você chega numa grande editora por indicação, né? Então, indicavam uns aos outros, né? Eram eles quem faziam, por exemplo, as curadorias dos festivais literários pelo Brasil, eram quem estavam nos júries dos concursos literários, né? Então, isso fazia com que... o capital cultural, o capital social da literatura ou das artes circulasse entre eles. Eu acho que a internet foi um instrumento muito importante para a gente começar a furar nessa bolha. A partir da autopublicação, a partir de você poder divulgar o teu trabalho e a partir também de um amadurecimento do debate sobre a questão racial no Brasil. Eu acho que isso tudo junto faz com que a gente pense nesses números. A primeira mulher negra a publicar um romance no Brasil foi em 1853, o Úrsula da Maria Firmina dos Reis. Nossa literatura do passado tem nomes tão pouco conhecidos. Maria Firmina dos Reis é um deles. Maranhense, que nasceu em 1825, e que foi a primeira mulher concursada, passou como professora num concurso público para o seu estado. Depois escreveu Úrsula, um romance abolicionista. Escreveu também, durante a campanha abolicionista, em 1887, o livro A Escrava. Ela era contra o escravismo. E estar na ABL agora, eu acho que, eu espero que seja, e eu acredito que é, uma sinalização da academia para cumprir com uma promessa. Eu acho que quando se coloca qualquer coisa brasileira, por exemplo, Academia Brasileira de Letras, Literatura Brasileira, eu acho que se faz ali uma promessa que ela seja representativa da sociedade a qual ela nomeia. Então, estar lá dentro agora eu acho que é um aceno da Academia Brasileira de Letras de ser mais diversa, de admitir nesse clube que é fechado, em que as pessoas votam entre si para eleger os seus pares, de incluir mais diversidade, essa diversidade que realmente é o espelho do que a sociedade brasileira é hoje em dia.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
E também uma imposição para o mercado editorial que precisa acelerar muito para, pelo menos, inverter essa lógica, para a gente não demorar tanto tempo. Eu vejo mudanças, mas pelo que você nos conta, essas mudanças são ainda muito lentas. Dito isso, eu queria muito entrar no teu livro Um Defeito de Cor, jogar os nossos olhares sobre a tua protagonista, Kim Dé. Ela era uma criança que saiu, foi capturada, sequestrada do reino de Daomé, foi trazida aos oito anos de idade para o Brasil. Uma história que se passa no século XIX, que narra a vida de uma sociedade escravista brasileira, como foi a sociedade brasileira, e eu queria entender como é que você construiu essa personagem. Por que você escolheu a Quendé para ser a protagonista?
Ana Maria Gonçalves
A Quendé é inspirada na vida da Luísa Maim, que é a mãe do poeta, abolicionista, advogado, jornalista Luís Gama.
Narrator/Additional Voice
Luís Gama é um menino negro, pai aos 10 anos de idade, na ausência da mãe.
Ana Maria Gonçalves
O Esgama passa oito anos escravizado, primeiro em Salvador, depois em Rio de Janeiro, depois em São Paulo, capital.
Narrator/Additional Voice
Passa oito anos escravizado, trabalhando como copeiro, lavando roupa, engomando roupa, como sapateiro.
Ana Maria Gonçalves
Aprende a ler e escrever e, quando.
Narrator/Additional Voice
Isso acontece, um novo mundo se abre.
Ana Maria Gonçalves
E ele nunca mais para de ler e de escrever. Eu conheci a figura da Luísa Maim quando eu estava fazendo pesquisa sobre A Rebelião Malê, que era o assunto inicial do livro, e depois da pesquisa feita, e eu acho que principalmente por entender esse papel que poderia ter Kendé ali, A Rebelião Malê acabou virando o capítulo 7 do livro, e a história da Kendé cresceu muito em torno desse capítulo. Inicialmente eu não encontrei nenhum documento oficial, tido como oficial sobre a existência da Luísa Maim e havia muita dúvida se ela realmente tinha existido, como se a gente pudesse duvidar da palavra do próprio filho falando sobre a mãe dele e a gente retrucando que essa mãe nunca existiu. Era exatamente isso que acontecia com a vida do Luiz Gama e da sua mãe, Luiza Maim. E aí, então, eu construí a Quem Dé, ou seja, a minha Luiza Maim ficcionalizada, a partir de dois poemas do Luiz Gama em que ele fala sobre a mãe.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Aqui você vai ouvir um trecho do poema Minha Mãe, de Luiz Gama. Quem lê, a pedido do assunto, é o ator Lázaro Ramos.
Lázaro Ramos (Actor reading Luiz Gama's texts)
Era muito bela e formosa, era a mais linda pretinha, da Adosta Líbia, rainha, e no Brasil, pobre escrava. Oh, que saudades que eu tenho dos seus mimosos carinhos! Quando custei uns filhinhos, ela sorrindo brincava. Os olhos negros altivos, dois astros eram luzentes. Eram estrelas cabentes por corpo humano sustidas. Foram espelhos brilhantes da nossa vida primeiro, foram a luz derradeira das nossas crenças perdidas. Tinha uma prece infinita, como o dobrar do cineiro. As lágrimas que brotavam eram pérolas sentidas dos lindos olhos vertidas na terra do cativeiro.
Ana Maria Gonçalves
E dois parágrafos de uma carta autobiográfica que ele escreve pra um amigo, também contando sobre ela e contando o que ele tinha procurado por ela em determinadas regiões, em determinados locais.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
De novo, você ouve a voz do ator Lázaro Ramos, que gravou pra gente trechos dessa carta escrita por Luiz Gama.
Lázaro Ramos (Actor reading Luiz Gama's texts)
Que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita. A cor era de um preto retinto e sem lustro. Tinha dentes alvíssimos, como a neve. Era muito altiva, geniosa, Dava-se ao comércio, era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa, como suspeita de envolver-se em planos de insurreição de escravos que não tiveram efeito. Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do Dr. Sabino na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro. e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e em 1861 na corte, sem que a pudesse encontrar. Nada mais eu pude alcançar a respeito dela. Nesse ano, 1861, voltando a São Paulo e estando em comissão do governo na vila de Caçapava, dediquei-lhe os versos que com esta carta envio-te.
Ana Maria Gonçalves
Então, eu procurei por documentos que me contassem da vida das mulheres nesses locais e nessas épocas onde a Luísa Maim poderia ter estado e passado. Então, a personagem é construída a partir de recortes, de retalhos, de pequenos lampejos de existências do que eu não contei. mas do que eu acredito ser em torno entre 350 a 400 mulheres, né? Então, eu acho que ela é uma boa representante de uma possibilidade de existência sob aquelas condições, naquele período de tempo. E agora, assim, eu sempre digo, viu que acharam alguns documentos que provam a existência da Luísa Maim?
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Depois do livro?
Ana Maria Gonçalves
Depois do livro, eu acho que agora há dois meses, mais ou menos, a gente teve a notícia do encontro de documentos por duas professoras da Universidade Federal da Bahia. E a minha reação é, eu já sabia, eu avisei, eu sempre digo que... que Luiz Gama não era filho de chocadeira, né? É óbvio que ele tinha uma mãe e é óbvio que a gente tá muito acostumado na sociedade brasileira, marcada pela escravidão e no racismo, e principalmente naquela época da existência do Luiz Gama, a duvidar da palavra de um homem negro. E agora a gente, eu acho que muita gente igual eu já não duvidava e agora não podemos mais duvidar com o encontro, então, desses documentos.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Ana Maria Gonçalves.
Ana Maria Gonçalves
Eu.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Queria lançar um olhar teu, naturalmente, sobre o Brasil de 2006, que é quando você lança um defeito de cor. Naquele momento, há O debate sobre cotas raciais na educação superior, ele estava engatinhando, só ganharia força a partir de 2010. Foi só em 2012, seis anos depois de um defeito de cor ser lançado, que o Supremo Tribunal Federal reconheceu que o sistema adotado nas universidades públicas era constitucional. Então eu queria que você comparasse esses dois Brasis. O Brasil que tem você como representante na ABL, na Academia Brasileira de Letras, e o Brasil que recebeu um defeito de cor em 2006.
Ana Maria Gonçalves
Era um Brasil, como você disse, que exatamente estava ali iniciando o debate público sobre cotas, porque esse é um debate que vem sendo feito dentro dos movimentos negros há muito mais tempo, mas para a sociedade ele surge naquele momento. E eu acho que o livro teve a grande sorte de pegar o momento onde estava se procurando entender parte desse passado que justificasse a existência de cotas para pessoas negras, entender o que foi a escravidão e como ela ainda continuou atuando e mostrando seus tentáculos ali na vida da população afrodescendente brasileira ainda nos dias atuais. Era um Brasil no qual grande parte da população negra e principalmente da população mestiça como eu não se entendia como parte de um grande movimento que estava buscando direitos e dignidades para todo mundo. Eu sempre digo, eu sendo uma mulher negra de pele clara, eu sou filha de mãe negra e de pai branco, para mim sempre foi uma identidade que as pessoas questionavam muito, dependendo do contexto social em que eu estava e até geográfico dentro do Brasil, do contexto cultural, eu podia até ser lida como uma mulher branca e como uma mulher negra em contextos diferentes. E esse livro pra mim foi a minha reafirmação, a reafirmação de entender de onde é que eu vinha, qual era a história que embasava esses movimentos de luta que os meus antepassados vêm feito desde sempre, que pisaram aqui no Brasil escravizados e lutando pra retomar a sua própria liberdade.
Narrator/Additional Voice
Mais de 92 milhões de pessoas se declararam pardas. Isso representa 45% da população do país, ultrapassando pela primeira vez o número de brancos, que ficou em pouco mais de 88 milhões de pessoas, ou seja, 43% dos habitantes. 20 milhões de brasileiros se identificaram como pretos, mais que no último censo em 2010. O presidente do IBGE diz que o censo retrata um avanço na conscientização e na forma como os brasileiros se enxergam. Até o primeiro censo realizado no Brasil, em 1872, se interpretava o Brasil como sendo um país europeu formado majoritariamente por brancos, alfabetizados e católicos. O trabalho de conscientização permitiu que o censo realizado pelo IBGE fosse cada vez mais percebido como um avanço da população não branca no Brasil. Isso é uma expressão de uma conscientização que está em curso no Brasil. No senso, o termo pardo significa quem se identifica com uma mistura de duas.
Narrator/Character Voice (Kendé)
Ou mais opções de cor ou raça, incluindo branca, preta, parda e indígena.
Ana Maria Gonçalves
O Brasil de hoje, em que eu sou eleita para a Academia Brasileira de Letras, a 13ª mulher, a 1ª mulher negra, é um Brasil que está começando a entender que, ao acessar esses lugares, na verdade a gente chega para ampliar. Não é para tirar direitos de ninguém, não é para substituir, não é para roubar vaga, mas é para ampliar e colaborar na construção de um país que vai ser mais digno e mais interessante, mais importante, mais forte para todo mundo. Eu acho que é um aceno da Academia Brasileira de Letras, principalmente depois da candidatura da Conceição Evaristo, em 2017 ou 2018. Ela não foi eleita, mas foi um movimento que serviu para que a academia se olhasse no espelho e visse que ela não era representativa da diversidade cultural, intelectual, literária do Brasil. E eu espero que o meu ingresso lá dentro venha num movimento de entender a necessidade de abrir portas.
Narrator/Additional Voice
Nós estamos elegendo uma grande escritora, uma escritora majestéu, mas nós estamos elegendo também uma mulher. Essa é uma vitória de um Brasil diferente. de um Brasil que é feito de nós todos.
Ana Maria Gonçalves
Uma intelectual ativa, atuante, diversa, plural, e que vai mostrar como uma instituição como.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
A DL é uma instituição aberta ao passado, de olho no nosso presente, mas que quer mesmo abocanhar o futuro.
Ana Maria Gonçalves
E o futuro no Brasil só pode ser diverso. Depois dessa candidatura da Conceição Evaristo, por exemplo, a gente teve eleição de Gilberto Gil, de Ailton Krenak, e agora a minha. Então, eu acho que isso foi muito significativo e muito importante da gente fazer com que essa instituição tão tradicional e tão importante e que guarda esse bem tão valioso que é do povo, que é a sua própria língua, seja representativa desse povo.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Você usou algumas vezes a expressão escravizado e nós temos na audiência do assunto muitos adolescentes que vão tentar a faculdade e acho que vale muito a pena explicar porque não se usa o termo escravo mais, e sim escravizado. Você faria essa gentileza para essa audiência do assunto que estuda todos os dias e que vai prestar vestibular?
Ana Maria Gonçalves
É extremamente importante de se entender essa distinção, porque as pessoas, por exemplo, a Kendé, que é a personagem do meu livro, ela nasce uma criança livre, morando no seu vilarejo com a sua família, E ela é tornada escrava, ou seja, tiraram-lhe uma liberdade que deveria ser um dos bens mais protegidos por cada um de nós.
Narrator/Character Voice (Kendé)
Não estava mais na minha terra, não tinha mais a minha família. Estava indo para um lugar que não conhecia. Não sei dizer o que sentir, se tristeza, se felicidade por continuar viva, ou se medo. Mas a pior de todas as sensações, mesmo não sabendo direito o que significava, era a de ser um navio perdido no mar, e não a de estar dentro de um.
Ana Maria Gonçalves
Então, não é que ela nasceu nessa condição de escrava, ela foi escravizada. E eu acho que, ao se falar que é escravizada, a gente pensa também que não é uma condição passiva, é uma condição ativa. Ela tinha a sua liberdade e essa liberdade foi tomada por alguém. Houve um agente escravizador. Então, a gente para de lançar os nossos olhos só para a pessoa que foi tornada escrava e passa a pensar que houve ali uma troca troca de relações, uma transferência situacional em que alguém se acha no direito de possuir um outro alguém, e nesse caso da escravização africana, apenas pela diferença no tom de pele.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Te agradeço muito por isso e aproveito pra te perguntar sobre o que você tá escrevendo agora. É sobre menopausa, não é?
Ana Maria Gonçalves
Isso. Eu costumo escrever várias coisas ao mesmo tempo, Natuza, porque eu entendi que um texto ele trava em alguns momentos e pra eu não ficar parada nele, eu trabalho em vários, travou um, eu passo pra outro. E a menopausa foi um assunto que me atravessou ultimamente e que me modificou da maneira mais profunda, eu acho que desde a grande mudança que eu fiz na minha vida, ao abandonar a publicidade para ir morar em Itaparica e virar escritora. E pra mim aconteceu durante a pandemia, e eu não tava entendendo o que que tava acontecendo comigo. Porque a gente acha, é um assunto que agora sim eu acho que tá tomando corpo, né? A gente tá conseguindo falar dele com mais liberdade, com mais propriedade, com mais conhecimento. Mas durante muito tempo foi um grande tabu, né? Eu nunca tinha conversado com a minha mãe ou com a minha avó, com as minhas tias sobre menopausa. Então eu não sabia o que que eu sentiria, o que que aconteceria comigo. E aí, sendo a gente no processo de confinamento durante a pandemia, eu tava triste, eu tava estressada, eu não conseguia dormir e eu achava que era tudo por causa só da pandemia. por aquela situação que a gente estava vivendo. E demorou muito, eu acho que eu estava nesse processo de perimenopausa durante uns três anos até eu entender que aquilo era perimenopausa, que aquele conjunto de sistemas era o meu corpo com uma crise de abstinência enorme em relação a um hormônio que ele parava de produzir. Um não, alguns hormônios que ele parava de produzir. E aí então eu resolvi que eu queria escrever sobre isso. Pelo menos a minha escrita, ela é muito levada a assuntos que me provocam, aí eu começo a fazer a pesquisa por mim mesma, ou seja, pra atender uma necessidade, e eu vi que tinha muito assunto pra se conversar sobre isso. E como tem? Hoje eu falo que eu tô escrevendo um livro sobre a menopausa, e as mulheres todas, e é muito bonito, querendo colaborar, querendo contar a sua experiência, porque cada experiência é única, querendo colaborar com esse processo de escrita e discutir, porque a gente foi muito calada por esse assunto durante muito tempo. Eu acho que isso tem que ser transformado em política pública. Agora que a gente começou a falar nisso da sociedade, eu acho que tá na hora da gente começar a falar também que isso tem que ser transformado em política de saúde pública, tem que ter atendimento no SUS para as mulheres da menopausa. Pesquisas indicam que, por exemplo, mulheres de 55 a 65 anos morrem muito mais de ataque cardíaco do que homens na mesma idade. E isso é por causa da menopausa. Mulheres dessa mesma idade têm mais AVCs do que homens dessa mesma idade. É por causa da menopausa. Então, não é algo que acontece só dentro da nossa cabeça. Osteoporose. quebra-se, cai-se, quebra-se ossos, por causa da menopausa. Então, é um problema sério de saúde pública que deve ser entendido como isso e tratado, e que todas possam ter esse atendimento, que as mulheres que têm acesso a médicos ou a planos de saúde têm, com esclarecimento sobre reposição hormonal, com esclarecimento sobre tipo de alimentação, A gente merece isso, o que a gente faz pela sociedade faz com que a gente mereça esse tratamento de volta.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
O dia da sua posse, Nabele, está chegando. O que a gente pode esperar do teu discurso de posse?
Ana Maria Gonçalves
Eu ainda tô planejando o discurso, eu sou alguém que gosta de reescrever, então não quero escrever agora, senão eu vou ficar reescrevendo até a data, então tô tomando anotações e vou escrever. Mas eu tô querendo, o que seja, analisar as condições desde que o Machado de Assis foi o seu primeiro presidente e foi alguém que foi embranquecido pela até pelos seus confrades lá dentro da academia, né, se você analisar, por exemplo, a certidão de nascimento do Machado tá como negro, a certidão de morte dele tá como branco, né, então entender quais foram as transformações até dentro da academia durante esse processo, né, que hoje faz com que seja celebrada a posse de uma mulher assumidamente, ou seja, que não tem nenhum problema em eu me assumir negra ao tomar posse na academia.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Muito obrigada pela entrevista, foi incrível.
Ana Maria Gonçalves
Muito obrigada pelo papo, adorei conversar com você aqui.
Natuzaneri (Interviewer/Host)
Este episódio usou trechos do Samba Enredo da Portela em 2024 e do canal da Fê Comércio no YouTube. Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Este episódio presta homenagem à escritora Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 128 anos de história. Ao longo da conversa conduzida por Natuzaneri, Ana Maria reflete sobre o impacto social e literário de seu romance "Um Defeito de Cor" (2006), um marco da literatura afrobrasileira, e discute temas como representatividade, a exclusão histórica de mulheres negras na literatura nacional e sua expectativa ao assumir este novo espaço. O episódio é intercalado por leituras sensíveis de trechos do livro e poemas de Luiz Gama, feitas por Maju Coutinho e Lázaro Ramos.
O episódio serve tanto como retrato histórico quanto celebração do presente e projeção para um futuro mais plural na literatura e cultura brasileiras. Ana Maria Gonçalves, com lucidez e emoção, narra o caminho árduo da representatividade, revisita vozes e memórias apagadas e defende a ampliação dos espaços para a diversidade, tanto na ABL quanto na sociedade.
Memorável:
“O futuro no Brasil só pode ser diverso.”
— Ana Maria Gonçalves (25:58)
Recomendado para quem deseja compreender as raízes do racismo estrutural brasileiro, o poder transformador da arte e a urgência de inclusão nos espaços de poder cultural.