O Assunto – REPRISE: Crise mental: o impacto no trabalho
Data: 29 de dezembro de 2025
Host: Ana Tuzaneri
Convidadas: Poliana Casemiro (repórter de Ciência e Saúde do G1), Renata Paparelli (psicoterapeuta, professora da PUC-SP e coordenadora do NAST)
Visão Geral
Este episódio, reexibido na trilha dos 5 anos do podcast “O Assunto”, mergulha numa das principais crises contemporâneas do Brasil: o impacto da saúde mental no trabalho. Ao lado de especialistas, relatos pessoais e dados inéditos, a equipe analisa o aumento expressivo dos afastamentos por ansiedade e depressão, discute os fatores por trás desse fenômeno e avalia quais medidas estão sendo tomadas—ou precisam ser aprimoradas—por empresas e políticas públicas.
Principais Temas e Discussões
1. A explosão dos afastamentos por saúde mental
- Dados alarmantes:
- Em 2024, houve quase meio milhão de pedidos de afastamento por transtornos ligados à saúde mental — um aumento de 68% em relação ao ano anterior.
- “A gente percebeu que era um número alarmante, que são esses de mais de 400 mil, que são os dados de 2024. É o maior aumento que a gente já teve nessa série histórica.”
— Poliana Casemiro [05:12]
- Esses números representam apenas a “ponta do iceberg”, já que não incluem episódios não registrados oficialmente, casos informais ou licenças negadas pelo INSS.
- Os transtornos mais prevalentes são ansiedade e depressão, enquanto burnout aparece pouco nos registros oficiais devido à dificuldade de diagnóstico e classificação (CID).
2. Relatos pessoais: o sofrimento invisível
- Estigma e invisibilidade:
- “Como é uma doença assim, invisível, eles não acreditam. Como é uma doença invisível, se passam é ataque frescura, é coisa da cabeça.”
— Marcela Carolina, trabalhadora afastada [00:58]
- “Como é uma doença assim, invisível, eles não acreditam. Como é uma doença invisível, se passam é ataque frescura, é coisa da cabeça.”
- Impactos na vida e no trabalho:
- Exemplo de Marcela, que lida com depressão há 20 anos e diz que a doença lhe “roubou a vida”.
- “A depressão e o fato de eu colocar o trabalho como mais que 50% de importância na minha vida caminham juntos.”
— Marcela Carolina [09:15]
- Casos recentes relatam sintomas de pânico, tristeza crônica, esgotamento e o sentimento de sufocamento ligado à sobrecarga e pressão no ambiente de trabalho.
3. Impacto da pandemia
- “A maior citação entre os especialistas foi a pandemia... Quando tudo passou, conseguiram dar atenção aos sintomas que talvez já sentiam.”
— Poliana Casemiro [12:10] - O contexto pós-pandemia deixou “cicatrizes” — luto coletivo, instabilidade financeira, aumento do custo de vida, reestruturação familiar — que continuam a afetar a saúde mental dos trabalhadores.
4. O papel das empresas e as mudanças na legislação
- Empresas sentem o peso financeiro dos afastamentos e começam a adotar medidas: treinamentos para líderes, suporte psicológico, revisão do home office, entre outros.
- Nova regulamentação:
- Atualização da NR1, Norma Regulamentadora que passa a tornar obrigatória a avaliação e gestão dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho (pressão, assédio, sobrecarga, etc.) a partir de 26 de maio.
- “Agora o Ministério do Trabalho vai poder fiscalizar esses pontos, não só isso, o trabalhador também pode denunciar... A empresa pode ser até multada.”
— Poliana Casemiro [16:54]
5. Contexto econômico e instabilidade
- Trabalhadores relatam pressão para múltiplos empregos e perda de poder de compra.
- “Um dos pontos que o psiquiatra falou: o principal para o Brasil ser um país tão ansioso é justamente a instabilidade... Instabilidade é o maior gatilho para ansiedade.”
— Poliana Casemiro [18:24]
6. Análise especialista: o que está por trás da crise
- Precarização e intensificação do trabalho:
- “Estamos vivendo um processo de precarização dos vínculos empregatícios, uberização, plataformização do trabalho... e de outro lado, intensificação das exigências.”
— Renata Paparelli [21:26]
- “Estamos vivendo um processo de precarização dos vínculos empregatícios, uberização, plataformização do trabalho... e de outro lado, intensificação das exigências.”
- O ambiente tóxico:
- Definido por competitividade exacerbada, metas abusivas, invasão do tempo pessoal pelo trabalho, isolamento e ausência de solidariedade.
- “O cenário é de extrema competitividade, de sobrecarga de exigências... não consegue se desconectar, não só por causa do celular, mas da cabeça.”
— Renata Paparelli [26:40]
7. Desafios para as mudanças efetivas
- Dificuldades em quantificar sobrecarga e subjetividade da experiência.
- A importância de ouvir os trabalhadores e criar redes de apoio nas empresas:
- “Em saúde mental, rede é tudo... rede acalenta, rede nina, rede conforta, e falta rede nas empresas.”
— Renata Paparelli [34:45]
- “Em saúde mental, rede é tudo... rede acalenta, rede nina, rede conforta, e falta rede nas empresas.”
- Políticas e fiscalizações precisam ir além do protocolo; ações precisam ser reais para mudar a cultura organizacional e não apenas “para inglês ver”.
Timestamps Importantes
- [00:58] – Estigma enfrentado por trabalhadores doentes (Marcela Carolina)
- [02:15–02:31] – Relato de sintomas por parte dos entrevistados
- [05:12–06:30] – Explicação dos números e alcance do aumento de afastamentos
- [09:15–11:04] – Relato pessoal de Marcela Carolina: o impacto de 20 anos de depressão
- [12:10–13:43] – Repercussão da pandemia nos quadros atuais de saúde mental
- [14:14–15:46] – A resposta das empresas e novas práticas
- [16:06–16:54] – Detalhes da atualização da NR1 (Norma Regulamentadora)
- [18:24] – O vínculo crucial entre instabilidade econômica e ansiedade
- [21:26–24:09] – Renata Paparelli: precarização, intensificação do trabalho e mudança do paradigma organizacional
- [26:40–28:34] – O que caracteriza (e como identificar) um ambiente tóxico no trabalho
- [31:08] – Dilema dos trabalhadores em expressar limitações frente à ameaça de demissão
- [34:45] – A importância da rede de apoio nas empresas
Notáveis Quotes e Momentos Memóraveis
- “A depressão e o fato de eu colocar o trabalho como mais que 50% de importância na minha vida caminham juntos.”
— Marcela Carolina [09:15] - “Eu acho que eu poderia ter sido outra pessoa se eu não tivesse ficado doente... Saudade do que eu não vivi.”
— Marcela Carolina [10:14] - “Ambientes que antes eram toleráveis... deixam de ser toleráveis porque as pessoas não têm mais psíquico pra isso.”
— Poliana Casemiro [12:56] - “O principal ponto para o Brasil ser um país tão ansioso como ele é... é justamente a instabilidade.”
— Poliana Casemiro [18:24] - “Esses cenários nos quais as pessoas ficam isoladas são nefastos para a saúde mental.”
— Renata Paparelli [27:56] - “Em saúde mental, rede é tudo, porque rede é aquilo que impede a gente de se esborrachar no chão quando cai.”
— Renata Paparelli [34:45]
Conclusão
O episódio mostra que a crise de saúde mental no ambiente de trabalho brasileiro reflete fatores complexos — sociais, econômicos, organizacionais e culturais. O aumento abrupto dos afastamentos não é mera estatística, mas um alerta vermelho sobre as condições de trabalho, a falta de suporte adequado e os efeitos duradouros da pandemia e da instabilidade econômica. Muito além de ações pontuais, a solução exigirá esforços conjuntos entre empresas, políticas públicas e a escuta genuína das experiências dos próprios trabalhadores.
