O Assunto – REPRISE: O PCC na Faria Lima
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 26 de dezembro de 2025
Host: Natuza Nery
Convidados: Bruno Tavares (repórter TV Globo), César Tralli (apresentador Globo/Globonews)
Visão Geral do Episódio
Este episódio retoma o tema mais ouvido do ano: como o PCC (Primeiro Comando da Capital), a principal facção criminosa do Brasil, expandiu sua atuação para o setor financeiro e de combustíveis, culminando na megaoperação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025. Com base em apuração detalhada, fontes exclusivas e entrevistas com especialistas e investigadores, o episódio explora o esquema bilionário de lavagem de dinheiro via fintechs e fundos de investimento na Faria Lima, além de desvendar as fragilidades regulatórias do setor de combustíveis, que permitiram ao crime organizado dominar todas as etapas da cadeia produtiva.
Principais Pontos da Discussão
1. Megaoperação Carbono Oculto: O Início e a Dimensão do Esquema
- [00:07] A operação revelou o profundo envolvimento do PCC com setores estratégicos da economia, especialmente combustíveis e o sistema financeiro (Faria Lima).
- [01:31] Mais de 1.400 agentes participaram em oito estados, mirando 350 pessoas físicas e jurídicas, com foco em fraudes fiscais, lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis e crimes ambientais.
- [02:27] O esquema abastecia cerca de 300 postos e sonegou quase 8 bilhões de reais em impostos.
- [03:41] Fundo de investimento como a REAG, listada na bolsa, era usado para "blindar" patrimônio e lavar dinheiro do crime.
Citação-chave:
"É uma cadeia muito sofisticada... O próprio crime organizado mostrou a sua força, a sua diversidade em relação a novas atividades que estão investindo."
— Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, promotor de justiça [03:13]
2. Do Porto ao Posto: Como o Esquema Funcionava
Investigação e Modus Operandi
- [05:16] A investigação começou em 2021 com adulteração de diesel, mas revelou controle integral da cadeia de combustíveis, da importação à distribuição.
- [06:14] Importação fraudulenta de metanol (altamente tóxico e restrito) e nafta, desviados diretamente para postos, usados para “batizar” gasolina e etanol. Postos fiscalizados chegaram a ter 90% de metanol no etanol (limite legal: 0,5%).
- [08:43] Frota própria de mil caminhões permitia distribuição nacional desrespeitando normas ambientais e de segurança.
Explicação:
"É um setor com fragilidades regulatórias... e característica de operar dinheiro vivo, igual ao tráfico de drogas. Os criminosos tentavam espelhar nos postos de combustível a operação que tinham nos pontos de venda de droga."
— Bruno Tavares [08:43]
3. O Papel das Fintechs na Lavagem do Dinheiro do Crime
- [10:11] O grupo criou uma “rede bancária paralela” via fintechs, burlando controles e dificultando a identificação dos clientes na Receita Federal.
- [12:50] Bancos digitais permitiam a mistura e movimentação discreta de recursos oriundos de combustível adulterado e tráfico, posteriormente aplicados em fundos de investimento regulares.
- [13:19] Estima-se que o PCC tenha adquirido cinco usinas de etanol do interior de SP usando esses fundos.
- [15:32] As operações envolviam empresas de fachada e laranjas, como o caso de uma senhora em Sergipe que figurava como “responsável” por 20 empresas sem saber.
Citação-chave:
"A Receita Federal, veja só a gravidade disso, ela não enxergava quem operava, quem eram os clientes de uma determinada fintech... Isso permite que criminosos usem instituições regulares para lavar dinheiro."
— Bruno Tavares [10:11]
4. Escalada do Crime: Do Pequeno Posto ao Domínio do Setor
- [18:57] César Tralli compartilha sua apuração: o esquema que começou por postos de gasolina e pequenas “batizadoras” agora domina toda a cadeia, do canavial ao posto e lojas de conveniência.
- [20:59] Empresários sérios vêm sendo ameaçados, coagidos e até extorquidos pelo crime organizado, sendo forçados a vender ou entregar seus ativos.
- [23:00] Participantes da cadeia criminosa incluem ex-policiais civis, laranjas, ex-traficantes e empresários fictícios.
Citação-chave:
"É uma situação desesperadora de máfia mesmo. Eles batem na porta com um carro forte dizendo: se você não aceitar o valor que queremos, queimamos tudo, sequestramos sua família..."
— César Tralli [19:48]
5. PCC e Outros Grupos: Controle Sistêmico e Conexões
- [25:20] O PCC está presente em todos os níveis, mas outros grupos também participam e se comunicam, especialmente na lavagem de dinheiro e distribuição.
- [26:57] A operação desmantela também o chamado “andar de cima”, expressão usada pelo Ministro da Fazenda para descrever quem controla o caixa e os fundos milionários do crime organizado.
Citação-chave:
"Chega em quem cuida da grana... Foram seguindo o caminho do dinheiro e bateram nos poderosos que cuidam dessa fortuna."
— César Tralli [26:57]
6. O Vácuo Regulatório das Fintechs e Mudança no Jogo
- [28:46] Fintechs atuam como “buracos negros” para lavagem de dinheiro, por falta de exigências regulatórias.
- [30:14] Nova norma da Receita Federal obriga fintechs a dar transparência igual à de bancos tradicionais; auditor fiscal terá até 10 dias para comunicar transações suspeitas, corrigindo um “vácuo de 20 anos”.
Citação-chave:
"Não tem nenhuma grande investigação da PF hoje sobre crime organizado que não esteja passando por fintech... Elas viraram o triângulo das bermudas. O que cai nelas, ninguém consegue identificar."
— César Tralli [28:46]
7. Alcance do Crime: Mercado Capturado e Riscos Sistêmicos
- [34:45] Estimativas do setor apontam: 40% da produção nacional de álcool e até 30% da gasolina já controlados por organizações criminosas.
- [36:05] Adulteração está em postos de todas as bandeiras, inclusive grandes marcas, e fiscalização oficial é considerada “ridícula” devido ao volume de estabelecimentos e recursos humanos limitados.
Citação-chave:
"Hoje, 40% do mercado de álcool e entre 25% e 30% do mercado de gasolina está na mão do crime organizado."
— César Tralli [34:45]
8. Perspectivas, Desafios e Aprendizados
- [40:01] Novas fases da operação devem vir, com o aprofundamento da investigação sobre outros empresários e fintechs.
- [41:51] Trabalho da PF, Receita, MP e órgãos estaduais só foi possível graças à cooperação técnica, mas a comunicação fragmentada entre autoridades prejudica respostas mais efetivas.
- [42:42] Necessidade urgente de priorizar o combate à máfia acima de interesses políticos.
Citação-chave:
"Num momento como esse, de combate ao crime organizado, tinha que deixar 2026 de lado e pensar na necessidade de salvar o país desse tipo de máfia."
— César Tralli [42:42]
Momentos Memoráveis & Timestamps
- [03:41] Descoberta do uso de fundos de investimento para blindagem patrimonial
- [12:50] Descrição clara do “caminho do crime” da importação à lavagem via fintech
- [19:48] Relatos de ameaças a empresários e produtores familiares no setor do álcool
- [26:57] Explicação sobre a atuação no “andar de cima” do esquema financeiro
- [28:46] Definição de “buraco negro” para as fintechs
- [34:45] Estimativas reais sobre o tamanho do mercado capturado
- [42:42] Crítica à desunião política e necessidade de combate articulado
Conclusão
O episódio ressalta o grau de sofisticação, violência e capilaridade do crime organizado brasileiro, apontando para suas infiltrações não apenas na economia formal, mas no coração do sistema financeiro do país. A combinação de fragilidade regulatória, poder econômico, violência mafiosa e ausência de fiscalização efetiva possibilitou ao PCC e outros grupos expandir negócios e lavar bilhões sem serem detectados. A resposta das autoridades é elogiada, mas também considerada tardia, pedindo maior integração interinstitucional e adaptação rápida do Estado diante de criminosos cada vez mais sofisticados.
Frase de Encerramento do Episódio:
"Se não fossem essas operações da PF, em no máximo cinco anos a maior parte do mercado estaria nas mãos de grupos criminosos."
— César Tralli [36:32]
Recomendado para:
Quem deseja entender o grau de organização, poder e infiltração do crime organizado no Brasil contemporâneo, o impacto da regulação financeira, e como os elos entre crime, finanças e mercado colocam em risco setores inteiros da economia nacional.
