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César Tralli
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Natuza Nery
Em agosto de 2025, a megaoperação Carbono Oculto expôs um complexo esquema que envolve a facção criminosa PCC, o setor de combustíveis e o coração do sistema financeiro brasileiro, a Faria Lima. A investigação mostrou como o PCC infiltra agentes em fintechs e fundos de investimento para esconder o dinheiro sujo do crime organizado. Segundo a Receita Federal, 52 bilhões de reais foram movimentados em quatro anos. Foi a partir dessa operação que novas camadas do crime organizado começaram a ser desvendadas, revelando uma rede ainda mais profunda e sofisticada. Nesta sexta-feira, 26 de dezembro, o assunto reprise o episódio mais ouvido do ano. Nele, explicamos como fintechs viraram um bolsão de dinheiro ilegal e discutimos porque o mercado de combustíveis se tornou tão lucrativo para a maior facção criminosa do país. Uma operação de números superlativos. a maior da história do Brasil contra o crime organizado.
Narrator/Reporter
Civil e militar do Estado de São Paulo, além da Receita Federal, Secretaria da Fazenda Estadual, Agência Nacional do Petróleo e Procuradoria-Geral do Estado. Os alvos estão em oito estados, São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Mais de 1.400 agentes foram às ruas.
Natuza Nery
O objetivo? Desarticular um esquema criminoso bilionário no setor de combustíveis.
Government Official/Expert
As investigações apontam que o PCC se infiltrou em várias etapas da produção de cana-de-açúcar, a adulteração das bombas nos postos, passando, claro, pela lavagem do dinheiro arrecadado. São mais de 350 alvos, entre pessoas.
Bruno Tavares
Físicas e jurídicas, suspeitos de fraudes fiscais.
Government Official/Expert
Lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis e crimes ambientais.
Natuza Nery
Um esquema que abastecia cerca de 300 postos de gasolina.
César Tralli
Segundo as investigações, o grupo criminoso sonegou quase 8 bilhões de reais em impostos federais, estaduais e municipais.
Bruno Tavares
Os investigados vão responder pelos crimes contra.
César Tralli
A ordem econômica, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro, fraude fiscal e estelionato.
Natuza Nery
Para movimentar o dinheiro sem ser rastreado, o grupo usava as chamadas fintechs, que são bancos digitais, além de fundos de investimento. Mais de 50 bilhões de reais de organizações criminosas podem ter transitado por instituições financeiras ligadas ao crime organizado nos últimos quatro anos. Um esquema complexo, como explica Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, promotor de justiça do estado de São Paulo.
César Tralli
É uma cadeia muito sofisticada e que, no meio dessa cadeia, o próprio crime organizado mostrou a sua força, a sua diversidade em relação a novas atividades que eles estão investindo. É novidade no cultivo, na fazenda, no meio do caminho, na aplicação de recursos, não só em Fitex, como fundos de investimentos.
Natuza Nery
Assim, a operação chegou ao coração do sistema financeiro do país, a Avenida Faria Lima.
Narrator/Reporter
A Força Tarefa descobriu que grande parte do dinheiro obtido com o esquema era aplicado em fundos de investimentos administrados pela REAG, uma das maiores gestoras independentes do país, listada, inclusive, na Bolsa de Valores de São Paulo. Era por meio desses fundos que o grupo comprava as empresas e blindava o patrimônio.
Natuza Nery
Uma ação policial que evidenciou uma capilaridade ainda maior das organizações criminosas que operam aqui no Brasil.
César Tralli
Há muito tempo nós estamos acompanhando um fenômeno que é a migração da criminalidade organizada, da ilegalidade para a legalidade. O crime se sofistica e o Estado tem que sofisticar a sua ação contra o crime. Enquanto o crime é organizado, é preciso haver resposta organizada.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é o PCC na Faria Lima. Eu converso com César Tralli, apresentador da Globo e da Globo News. Antes, falo com Bruno Tavares, repórter da TV Globo. Sexta-feira, 29 de agosto. Bruno, você foi o primeiro jornalista a noticiar essa mega operação de quinta-feira, uma operação histórica, nunca se viu no Brasil algo dessa monta, então eu quero te pedir para nos explicar como é que essa investigação começa e como é que a gente chega até a quinta-feira, esta quinta-feira que é quando a gente grava.
Bruno Tavares
Natuza, é importante a gente recuar um pouquinho no tempo. Essa investigação, na verdade, começa em 2021 com a Operação Arina, da Polícia Federal, que investigava adulteração de diesel em caminhões. É muito interessante essas investigações criminais, como elas nascem, né? Nasceu pequena para apurar esse esquema de adulteração de diesel e de sonegação fiscal. A Polícia Federal identifica um grupo criminoso, o Ministério Público de São Paulo também passa a atuar, também identificam o esquema maior de sonegação fiscal e aí, aos poucos, começa a se revelar um grande esquema que foi completamente desvendado hoje com essa operação Carbono Oculto e também com as duas operações deflagradas simultaneamente pela Polícia Federal, tanto em São Paulo quanto no Paraná.
Natuza Nery
E a gente sabe qual foi a peça fundamental dessa investigação que começa pequenininha, vai crescendo até chegar à monta de hoje?
Bruno Tavares
O que se investigava era uma sonegação fiscal bilionária, o que Inicialmente os investigadores enxergavam, era só negação fiscal, mas aos poucos, Natuza, o que se verificou foi que esse grupo tinha controlado um ramo inteiro do setor de produção, distribuição e comercialização de combustíveis. Começava lá no Porto de Paranaguá com a importação de nafta, que é um derivado de petróleo, e também de metanol, que é um tipo de álcool muito usado na indústria química, Essa rede criminosa fazia de conta que estava importando para a indústria química, mas na verdade há várias provas disso na investigação, esse produto químico saía do porto de Paranaguá e ia direto para postos de combustíveis espalhados pelo país. Nessa ocasião, os motoristas despejavam metanol e nafta direto nos tanques para fazer o que a gente conhece como batizar a gasolina e o etanol. Em alguns postos fiscalizados pela Agência Nacional do Petróleo, Existia uma concentração de quase 90% de metanol no etanol, ou seja, o consumidor estava comprando um produto, levando o outro, e o mais grave, né Natuza? Esse produto é altamente tóxico, destrói as peças do motor do nosso carro. O metanol é um solvente químico extremamente tóxico, extremamente perigoso, que tem restrição na ANP para conter apenas 0,5% em combustíveis, por exemplo, na gasolina. Não obstante, fiscalizações no estado de São Paulo apontam alguns postos com até 90% de metanol, o que é extremamente arriscado para as pessoas, para os veículos, para o meio ambiente.
Natuza Nery
E por que esse setor, nesse esquema que passa por tudo, de sonegação à lavagem de dinheiro? Existe alguma explicação do porquê? Porque você disse o seguinte, olha, eles se apoderaram de um setor inteiro, de uma cadeia produtiva inteira, que iria desde a importação, a mistura, o batizado do combustível que nós consumidores comprávamos, até chegar ao coração do sistema financeiro. Por que o setor de combustível? Por que o setor de etanol? Existe alguma explicação para isso?
Bruno Tavares
O que os investigadores dizem é que é um setor com fragilidades regulatórias e também um setor muito propício para lavagem de dinheiro, porque especialmente os postos de combustíveis na Tulsa, mesmo hoje, em 2025, com toda a tecnologia, São comércios que têm a característica de operar dinheiro vivo, exatamente igual o tráfico de drogas. Então, o que os investigadores observam é que os criminosos tentavam um pouco espelhar nos postos de combustível a operação que tinham nos pontos de venda de droga. uma coisa alimentava a outra. E essa parte é muito interessante, Natuza, quando os investigadores, quando a gente pergunta, mas qual a relação disso com o PCC? O que os investigadores explicam é que a relação é óbvia, porque que empresário vai querer vender combustível adulterado? Que empresário vai querer fazer fraude em bomba? O empresário que Já tá no mundo do crime, digamos assim, e o empresário que precisa lavar dinheiro. Empresário, lógico, Natuza, eu tô dizendo entre muitas aspas, não são empresários, na verdade são traficantes de droga. O que se observou durante a investigação é a presença, os nomes de traficantes de drogas ligados ao PCC como donos de postos de combustíveis e também de lojas de conveniência instalados nesses postos.
Natuza Nery
Ou seja, é o crime organizado completamente embrenhado na economia formal, né?
Bruno Tavares
É o mais assustador disso tudo, Natuza, e aí eu acho que a gente pode fazer um gancho pra Faria Lima. Esse sistema, esse grupo criminoso, melhor dizendo, ele criou uma rede bancária paralela. Essas são palavras da Marcia Ming, superintendente da Receita Federal aqui em São Paulo, que ao explicar a operação, o papel da Receita Federal na operação, disse que a Receita Federal, veja só a gravidade disso, ela não enxergava quem operava, quem eram os clientes de uma determinada fintech, de um determinado banco digital. Esses bancos digitais, por uma fragilidade da legislação, Eles abrem contas, essas contas são chamadas de contas bolsão, em que o cliente opera o dinheiro, mas as instituições, os meios de pagamento não são obrigados a fazer uma declaração para a receita. Eles declaram que aquele banco digital operou X milhões de reais, mas ele não é obrigado a dizer para a Receita Federal quem são os clientes dele. A Receita Federal disse que isso é gravíssimo, que isso permite que criminosos usem instituições, entre aspas, regulares, mas que estão no sistema financeiro, para lavar dinheiro. Todo o dinheiro dessa rede criminosa era operacionalizado Por esse banco digital, esse banco digital então escondia as movimentações financeiras, a Receita disse que teve um trabalho na Tusa enorme para conseguir identificar, porque teve que fazer contabilidades cruzadas com fornecedores, um cruzamento enorme de informações que, como a gente viu, levou mais de um ano para que pudesse saber exatamente quem eram aqueles clientes, de onde vinha, para onde ia aquele dinheiro.
Natuza Nery
Deixa eu ver se eu entendi então o caminho do crime. Esse metanol chegava no porto de Paranaguá, entrava no mercado brasileiro, abastecia postos de gasolina pertencentes a representantes do PCC nesses portos, O dinheiro que se arrecadava com a venda de combustível batizado, adulterado, se incorporava ao dinheiro que se arrecadava com o tráfico de drogas. Esses dinheiros juntos, o que tinha origem no tráfico e o que tinha origem nos postos de combustível adulterado, eram juntados, reunidos e aplicados no sistema financeiro por meio dessas fintechs, desses bancos digitais. É isso.
Bruno Tavares
Perfeito, Natuza. É exatamente isso. Os bancos digitais tinham o papel de bancos de operacionalizar a troca de valores entre fornecedores, entre empresas e pessoas. E mais do que isso, os chefes dessa organização criminosa pegavam esse dinheiro que, como você bem destacou, se misturava com tráfico de droga, com combustível adulterado e aplicavam em fundos de investimento listados na Bolsa de Valores de São Paulo.
Natuza Nery
Então pode ter muito dinheiro do crime organizado nesse mercado todo regular.
Bruno Tavares
A Polícia Federal, o Ministério Público Estadual e a Receita Federal afirmam categoricamente que sim. Eles dizem que esse dinheiro, inclusive, eles conseguiram mapear que esse dinheiro foi para fundos de investimento regulares, fundos de investimento esses que estão listados na B3, na Bolsa de Valores de São Paulo, Esse fundo de investimento, na verdade 40 ao todo de diferentes perfis, eram usados para comprar empresas por meio de fundos de investimento, Natuza, esse grupo criminoso é suspeito de ter adquirido cinco usinas de etanol na região de São José do Rio Preto. A gente lembra que há alguns anos, Natuza, o setor sucro alcooleiro passou por uma crise grave. Muitas dessas usinas tradicionais lá do interior de São Paulo, elas pediram recuperação judicial ou ficaram em vias de pedir recuperação judicial pelo acúmulo de dívidas. Pois então, segundo os investigadores, o crime organizado se valeu dessa situação, dessa fragilidade do setor para usar fundos de investimento lá da Faria Lima para comprar essas usinas.
Narrator/Reporter
O grupo também aproveitou uma crise financeira e comprou pelo menos cinco indústrias. Segundo a investigação, as usinas foram compradas em nome de laranjas, mas pertencem a Mohamed Hussein Murad. Mohamed é dono de uma formuladora de combustível, de uma rede de distribuição e de postos de combustíveis, segundo a polícia. Ele é investigado há quase 10 anos por chefiar um esquema de sonegação fiscal que coloca as empresas dele entre as maiores devedoras de impostos do país.
Bruno Tavares
E aí sim, dominar completamente a cadeia, né Natuza? A gente tá falando do combustível ali, da gasolina batizada, do etanol produzido por eles e sonegado, há também um esquema de sonegação na questão do etanol, e passando por uma rede de distribuição com cerca de mil caminhões. Eles tinham uma rede de transporte própria que circulava pelo país, segundo os investigadores também, infringindo normas de segurança e de meio ambiente, normas ambientais.
Natuza Nery
Claro.
Bruno Tavares
Tamo falando de combustível, tamo falando de produto perigoso, tem uma série de normas, isso era desrespeitado também, e aí então chegava lá nos postos.
Natuza Nery
Pra terminar, Bruno, eu queria perguntar pra você Quem são os cabeças desse esquema? Os investigadores apontam Mohamed Hussein Murad e Roberto Augusto Leme da Silva. Explica para quem nos ouve agora quem são esses personagens.
Bruno Tavares
A história especialmente do Mohamed Murad, Natuza, merece um destaque porque o Mohamed Murad apareceu lá atrás, ainda no começo dos anos 2000, porque aqui em São Paulo, naquela época, houve uma grande explosão de um posto de combustível na zona norte da capital paulista. Esse posto explodiu, as autoridades foram ver o que tinha acontecido, graças a Deus ninguém ficou ferido, Mas ao verificar quem era o proprietário, se as licenças estavam em dia, verificaram, claro, que não existia licença nenhuma, que era um posto clandestino, irregular. O posto explodiu. Quem era o dono? Mohamed Hussein Murad. Ele era dono de posto de combustível, mas nesse... Percurso de aproximadamente 15, 20 anos, ele se tornou, na visão dos investigadores, um magnata desse setor do combustível. Ele acumulou postos, ele acumulou formuladoras de combustível, que são empresas em que o combustível recebe a mistura, a concentração correta, ele acumulou, ele se apresenta inclusive como dono dessa transportadora, que o diz com mais de mil veículos, e ele também, segundo os investigadores, é o personagem principal. É ele o controlador, é ele o empresário, digamos assim, sob muitas aspas, ele é o empresário que controla esse setor junto, em parceria, com esse homem que é conhecido como Beto Louco.
Natuza Nery
Beto Lucco. E a gente sabe alguma coisa sobre ele?
Bruno Tavares
É também um empresário desse setor que, de certa forma, dividiria ali com o Mohamed essa operação dessas várias empresas que, segundo os investigadores, são empresas de fachada, abertas em nome de laranjas. Há um caso, Natuza, muito curioso, de uma senhora no interior de Sergipe que, segundo as investigações, administrava quase 20 empresas desse grupo. Claro, ela não sabia que o nome dela estava sendo usado. Na investigação tem, inclusive, um boletim de ocorrência que ela registra lá na cidade dela, dizendo, olha, eu não tenho nada a ver com isso, não tenho empresa nenhuma, eu não sou dono de empresa nenhuma. Uma senhora muito humilde, trabalhadora, que é funcionária pública, inclusive, da prefeitura dessa cidadezinha no interior de Sergipe.
Natuza Nery
E que foi usada como laranja sem saber.
Bruno Tavares
Usada como laranja sem absolutamente nenhum conhecimento.
Natuza Nery
Bruno, muito obrigada. Parabéns pela cobertura e pelo trabalho. Foi ótimo te ouvir.
Bruno Tavares
Prazer sempre estar aqui com você no assunto.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o César Tragli. Trali, eu tô impressionada com os detalhes dessa operação. Você, mais do que qualquer um, tem muita apuração a respeito. Eu queria te ouvir sobre o que mais te impressionou nesse grande esquema. Os criminosos dominavam um setor produtivo, uma cadeia inteira de um determinado setor.
César Tralli
Onatuza, eu durante 10 anos fiz reportagem especial para o Jornal Nacional sobre máfia de combustível. Pouquíssimos repórteres nesse país investigaram tanto esse setor como eu investiguei. Na época em que eu fazia essas reportagens para o JN, a gente está falando de uns 15 anos atrás, esse setor já estava começando a se contaminar muito, mas especialmente no varejo. Ou seja, postos de combustíveis que faziam adulteração de gasolina, de álcool, com metanol, com solvente, botando água no combustível. Então era um esquema que já estava começando a ficar gigante, mas ele envolvia principalmente postos e algumas pequenas distribuidoras que a gente chamava na época de batizadoras. Elas batizavam combustível, misturavam ali, faziam uma mistura podre e mandava para o posto de gasolina. O que aconteceu de lá para cá foi uma contaminação completa do setor. Então, o ano passado, Quando começaram aqueles incêndios em Canaviau, em Fazenda, em Usina, no interior de São Paulo, como eu já tenho muita fonte nesse setor de anos e anos e anos atrás, eu comecei a receber muito telefonema de gente do ramo do açúcar e do álcool desesperada. mas assim, desesperada no sentido de dizer, olha, a gente tá sofrendo ameaça, a gente tá sofrendo coação, tem usina em que eles batem na porta com um carro forte dizendo, se você não aceitar o valor que nós estamos comprando, nós vamos queimar tudo, a gente sequestra a sua família, a gente mata seu filho, então assim, uma situação desesperadora de máfia mesmo, um esquema de máfia. E aí eles fizeram com Canavial, Pequenos fazendeiros, gente que arrenda terra pra plantar cana.
Natuza Nery
Isso no Brasil todo?
César Tralli
No Brasil todo, especialmente no interior de São Paulo. Por isso que boa parte dessa investigação floresce aqui no estado de São Paulo. Aí fizeram com algumas usinas. Fizeram isso com transportadora de caminhão, porque é um setor que você depende essencialmente de várias transportadoras, especialmente no interior de São Paulo, para pegar aquele álcool dentro da usina ou da distribuidora e levar para o posto de gasolina no centro consumidor. Fizeram isso com rede de posto, então eles foram contaminando a cadeia inteira, do plantio da cana até o bico da bomba do posto de combustível.
Natuza Nery
Passando pela loja de conveniência, que também era dos caras.
César Tralli
E aí o que aconteceu? Várias dessas denúncias que chegaram até mim num tom de desespero, esses mesmos empresários, comerciantes, fazendeiros começaram a levar isso de maneira sigilosa pros gaecos espalhados pelo interior de São Paulo. Batiam na porta dos promotores, entravam numa delegacia da Polícia Federal pedindo ajuda. Gente, olha, e é um setor unido, eles têm cooperativas, tem muita gente muito séria nisso. São gerações, são vidas de gerações e gerações voltadas ao setor do açúcar e do álcool. E foram lá batendo dizendo, olha, a gente não sabe o que fazer. Porque o crime organizado está chegando de um jeito que eles estão querendo expulsar a gente do setor e tomar conta. E aí essas denúncias foram sendo juntadas com uma série de indícios que esses investigadores já tinham sobre esses esquemas que estavam se agigantando. E tudo bateu, Natuza. Tudo bateu. E aí, de um ano pra cá, que essa investigação foi ganhando a dimensão, a robustez necessária pra culminar, resultar no que a gente tá vendo agora.
Natuza Nery
Agora, teve nas prisões um personagem que me chamou a atenção, que é um ex-policial. Como é que ele entra nessa história?
César Tralli
Tem muita gente que entra nessa história em vários ramos e segmentos, digamos, dessa cadeia criminosa da adulteração de álcool. Porque não é só o álcool que recebe um metanol, que é um produto proibido, e que vai para o posto de gasolina para enganar o consumidor. É um esquema de nota fiscal fria de compra e venda de álcool, é um transporte de álcool totalmente clandestino, é uma produção de álcool que foge do radar das autoridades, seja sanitária, seja de controle da ANP, de tudo. E aí esse esquema criminoso foi montando uma cadeia de produção envolvendo muita gente, digamos assim, com um CPF sujo ou com um antecedente criminal e foi pegando gente de todos os setores. Inclusive um caso, que é esse caso de Paulínia, eu estava conversando agora há pouco com o delegado responsável pela investigação, um delegado federal, e ele falou, é um ex-policial que a gente identificou que participava ativamente da distribuição do álcool Ele era ex-policial civil do estado de São Paulo. Foram até a casa dele, apreenderam um monte de coisa e fizeram a prisão dele. Agora, igual a esse caso, tem caso de prisão de gente que já cumpriu pena por tráfico de drogas. de gente que já figurou como laranja em esquema societário de empresa fantasma. Então tem de tudo, inclusive um esquema de tubarões que é um pessoal que comprou distribuidora, que tem empresa que faz a composição química para produzir álcool combustível. Então tem de tudo nessa rede criminosa, Natuza. Eles identificaram oito Oito grupos criminosos que se comunicavam e alguns deles societários do PCC. É por isso que entra o PCC. Eu ainda perguntei muito seriamente para vários investigadores do MP, do MPF, da Receita, especialmente da PF. Porque é uma área da Polícia Federal em Brasília que é a divisão de combate ao crime organizado e corrupção.
Natuza Nery
Dedicada só a isso?
César Tralli
Só a isso. E eu perguntei, escuta, é o PCC que está em tudo? É o PCC que está tomando conta de tudo? E eles disseram, não. A gente tem que tomar cuidado para não falar que tudo é PCC. Tem PCC, mas tem outros grupos criminosos que se fortaleceram, se criaram e fizeram fortuna nesse esquema de adulteração de combustível. E alguns desses grupos se comunicam com o PCC na lavagem de dinheiro, na distribuição do combustível batizado, na compra de rede de postos. Então, assim, é interessante como esses grupos iam se fortalecendo à medida que um até ia ajudando o outro.
Natuza Nery
Deixa eu ver se eu entendi, então. O andar de cima desse esquema tem PCC.
César Tralli
Tem PCC. E o PCC no andar de baixo também, porque o PCC está no atacado e no varejo.
Natuza Nery
Essa imagem é uma imagem importante.
César Tralli
Só que, Nantusa, como é um esquema bilionário, porque a produção de combustível é isso, cada centavo no litro que você consegue pôr a mais ou tirar, no cômputo, ao longo da...
Natuza Nery
É uma grana.
César Tralli
É um dinheiro absurdo. Então, assim, tem espaço para um monte de grupo criminoso atuar. E como as nossas fiscalizações são muito frágeis, esses grupos foram crescendo e se multiplicando. Então tem PCC e não tem PCC também.
Natuza Nery
Eu usei a expressão andar de cima porque foi um termo usado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Que andar de cima é esse, Tragli?
César Tralli
Quando ele quis dizer andar de cima, é porque pela primeira vez esse tipo de investigação não chega só na empresa fantasma, no distribuidor, naquela usina que fralda nota fiscal, no sujeito que bota metanol no álcool para vender no posto. Chega em quem cuida da grana. Eles foram seguindo o caminho do dinheiro e bateram nos poderosos que cuidam dessa fortuna. Toda essa fortuna tem que ficar escondida em algum lugar. E aí eu estava agora há pouco conversando com o ministro Haddad. Falei, ministro, quero saber o seguinte do senhor. É verdade mesmo que a Fazenda vai fiscalizar a Fintech? Ele falou, é verdade. A partir de amanhã, as Fintechs terão tratamento de banco, ou seja, elas terão que prestar os mesmos esclarecimentos sobre movimentação financeira, sobretudo essas completamente inusuais, e nós vamos poder, a partir daí, destrinchar outros esquemas de lavagem de dinheiro com muito mais rapidez. A gente teve um problema sério com fake news em cima do Pix no começo do ano e prejudicou muito as normativas nossas para fiscalizar as fintechs.
Natuza Nery
É, porque eles tinham editado uma portaria, aí houve um ruído, um deputado bolsonarista, o Nicolas, disse que o objetivo era taxar o Pix, E aí a coisa ficou tão insustentável, o governo emparedado que foi obrigado a levantar, a desistir dessa medida. Acho que o próprio secretário da Receita falou isso, que se aquilo tivesse sido implantado naquele momento, daria para coibir uma série de irregularidades.
César Tralli
É, porque assim, tem muita fintech séria, mas infelizmente hoje, e isso eu já venho acompanhando especialmente desde o fim do ano passado, não tem nenhuma grande investigação da Polícia Federal sobre o crime organizado, contrabando de arma, contrabando de produto eletrônico, remessa de cocaína para a Europa, para os Estados Unidos, narcotráfico. Não tem, na Tuzão, nenhum esquema nesse país hoje que não esteja passando por fintech. As fintechs, elas foram blindadas de investigação e de fiscalização. Então, elas se tornaram buracos negros. Essa é a expressão que os investigadores usam. Elas viraram o triângulo das bermudas. O que cai nelas... Ninguém consegue identificar a origem e o destino. Por quê? Porque é um pouco complexo, mas na prática é o seguinte, você vai lá, vende um produto na sua maquininha, no posto de gasolina. Esse dinheiro, quando vai pra uma fintech, ele cai numa conta comum, que é a conta de todo mundo. E essa conta, ela não identifica pra quem tá fazendo fiscalização o CPF de quem tá movimentando aquilo ali ou o CNPJ. É uma conta mãe que fica com uma fortuna lá dentro e esse dinheiro vai saindo e vai entrando e vai saindo e vai entrando sem que as autoridades saibam quem é o verdadeiro dono da grana.
Government Official/Expert
De acordo com a nova instrução normativa da Receita Federal, as instituições de pagamento estarão sujeitas às mesmas normas de obrigações de todas as instituições do Sistema Financeiro Nacional e do Sistema de Pagamentos Brasileiros, e que a representação sobre indícios de crimes deverá ser feita por um auditor fiscal no prazo de 10 dias após a identificação da movimentação financeira suspeita. Com a mudança da norma, as fintechs não poderão mais ocultar os nomes de pessoas ou empresas que fazem as transações financeiras. Segundo a Receita Federal, a regulação corrige um vácuo de 20 anos entre normas mais flexíveis para as fintechs e as regras do sistema financeiro tradicional.
César Tralli
É como se fosse aquele aviãozinho que fica cruzando a fronteira do Paraguai com o Brasil, da Bolívia com o Brasil, carregado de cocaína o dia inteiro de um lado pro outro, mas ele tá voando abaixo do radar. Então o radar não pega esse avião do tráfico. E é exatamente o que está acontecendo hoje com as fintechs. Eles não conseguem identificar a origem dessa grana. Então, o que o ministro me disse é que, a partir de agora, o Banco Central e o Ministério da Fazenda em especial tem uma inteligência artificial, um programa de inteligência artificial, que é o que eles aplicam no sistema financeiro, nos bancos comuns, nos grandes bancos e tal, em que eles vão observando tudo o que está sendo movimentado dentro daquela instituição financeira. Pô, mas peraí, acendeu uma luz aqui, por que essa conta está mandando tantos milhões para aquela outra e depois o dinheiro volta, aí vai para uma terceira, aí volta para aquela mesma, aí pulveriza para mais não sei É como se.
Natuza Nery
O dinheiro tivesse um identificador, um chip.
César Tralli
Exatamente, um chip. E o que ele diz é que o crime organizado vai ter que buscar outros meios para ocultar suas fortunas. Ele está muito otimista em relação a isso. Eu liguei também e telefonei agora há pouco, antes de vir para cá para a entrevista, para dois grandes especialistas da Polícia Federal nessa área, que são delegados que começaram a investigar as fintechs e que viraram experts nesse assunto e referência no Brasil todo. E eles concordam que se não tiver uma fiscalização em cima dessas instituições, você não vai conseguir quebrar o braço financeiro, digamos assim, desses grupos criminosos. Então, quando se fala, ah, nós batemos o andar de cima, é porque agora eles sabem quem é que está movimentando esses fundos milionários, essas fintechs que estão na ilegalidade, que não estão cumprindo com as normas que deveriam cumprir, fugindo as regras do sistema financeiro, então eles vão conseguir pegar essa grana. Só por algumas delas passaram mais de 50 bilhões de reais em menos de quatro anos. Então, é muito dinheiro. Por quê? Porque a adulteração de combustível e a produção de combustível dá muito dinheiro na Tusa.
Natuza Nery
O mais impressionante disso tudo, né, para além da sofisticação, o que a gente intuitivamente por sermos brasileiros já sabemos, né, de que eles estão anos luz à frente do Estado em determinadas áreas, eles conseguem se enriquecer e multiplicar o dinheiro que tem, o dinheiro criminoso que tem. Mas eu nunca imaginei que eu fosse ver cenas de policiais fardados nos andares térreos de prédios da Floriana Lima.
César Tralli
O metro quadrado mais caro do Brasil, eles entraram no prédio em frente ao shopping Iguatemi, que é um dos prédios mais caros do Brasil. O metro quadrado mais caro. Tem um monte de empresa de grife, de renome, consolidada e instalada lá. Ali estavam alguns alvos da Polícia Federal hoje. e outros endereços da Falea Lima, que seriam impensáveis se não fosse uma investigação aprofundada dessa que chegou exatamente em quem guarda, esconde, pulveriza, oculta essa fortuna toda do crime organizado.
Natuza Nery
E o que isso diz sobre o poder do crime organizado?
César Tralli
Diz que a gente está numa situação difícil. Eu, por ter muita fonte nesse setor há muitos e muitos anos, também conversei longamente hoje com empresários que estão na ponta, no varejo. Grupos consolidados que vendem combustível há décadas, de famílias tradicionais, gente ultra séria. e representantes de postos também, e o que eles estavam me dizendo é assustador. Eles não falam abertamente, porque todos têm até medo, mas eles me disseram que hoje 40% de todo o mercado de álcool no Brasil está na mão do crime organizado. e entre 25% e 30% de todo o mercado da gasolina. Então é gasolina batizada com solvente e álcool batizado com metanol ou que tem até uma quantidade maior de água pra conseguir fazer mais volume. E o grande problema hoje é que antigamente, quando eu investigava isso lá atrás, o crime organizado, ele entrava assim, de mansinho, naqueles chamados postos sem bandeira. É um posto que não tem marca, um nome esquisitinho e tal, de beira de estrada, numa comunidade, numa periferia, num bairro afastado. Hoje não. Hoje o que eu ouvi do setor é o oposto. O crime organizado tem dominado até mesmo bandeiras conhecidas. Eles enganam as grandes marcas. Eles compram postos como se fossem pessoas sérias, vão comprando aquela cota de combustível mensal da distribuidora séria, pagam com nota fiscal bonitinho, mas a grande parte do combustível que vende acaba sendo adulterado. Então, o consumidor é enganado, para no posto achando que pode confiar. e está comprando um combustível batizado de um esquema criminoso em que os caras estão fazendo fortuna. E como a fiscalização é muito frágil na ponta, na cadeia toda produtiva, eles deitam e rolam. Então, infelizmente, a gente está numa situação, e eu ouvi isso hoje de uma pessoa que conhece o mercado profundamente há décadas, que se não fossem essas operações de hoje da PF, em no máximo cinco anos o mercado todo, ou a maior parte do mercado, digamos assim, 50% mais um, estaria na mão de grupos criminosos. Tamanha a velocidade, a voracidade e o poder desses grupos que se envolveram no mercado de combustível. Então, assim, Tem que ter um controle maior em cima dos postos, das usinas, das distribuidoras e tem que ter mais fiscalização. Só que a quantidade fiscal é ridícula perto da quantidade que o mercado exige. Só o estado de São Paulo tem 8.500 postos de gasolina, só o estado de São Paulo. E desses, hoje, conversando com quem está dentro do setor, 2.500, a estimativa, vendem combustível adulterado.
Natuza Nery
Quando você fala que a projeção das suas fontes é de que em mais alguns anos eles abocanhariam a outra parte do mercado, você tá falando de São Paulo ou nacional?
César Tralli
Nacional, Brasil.
Natuza Nery
Ou seja, é o equivalente a dizer que uma organização criminosa teria o poder de parar o Brasil. Se você controla toda a cadeia de combustível, Você para o país, literalmente para o país.
César Tralli
Eles fazem importação, navios com solvente, enfim, com metanol, tem um esquema de você comprar em outros estados onde a alíquota de imposto é bem menor e aí você falsifica as notas e você transporta para o estado onde está o seu maior mercado consumidor e aí de certa forma as pessoas acabam infelizmente buscando o preço mais barato, mas esse preço mais barato no bico da bomba é o preço do combustível adulterado. Então, assim, as pessoas são enganadas sem saber, acreditando ali num preço mais competitivo, mas, no fundo, estão não só estragando o veículo delas, como também ajudando a alimentar essa cadeia criminosa que tomou conta de grande parte do mercado de combustíveis no Brasil hoje.
Natuza Nery
Tralha, impressionante a extensão da sua apuração, ou seja, você fez apuração sobre o esquema em si, você apurou com setores da cadeia produtiva, assustados, você conversou com produtores rurais, do ramo de açúcar e do álcool. Os Ineiros, portanto. Você também conversou com o ministro da Fazenda, com policiais federais e nos deu aqui um bom panorama, assustador, porém, do que está acontecendo. Te agradeço imensamente.
César Tralli
Agora vem uma próxima fase bem interessante de tudo isso, porque eles aprenderam muita coisa e eles já conseguiram identificar mais fintechs envolvidos nessa máfia dos combustíveis, mais grupos criminosos, mais empresários do crime nessa área de combustíveis, então Esse estouro da boiada não vai parar aqui. Eu tenho convicção de que outras fases virão juntando essas informações todas. E isso só deu certo, Natuza, porque independentemente da briga política, o chão de fábrica trabalhou junto. promotor de justiça, com delegado federal, com auditor da Receita. E eles, por uma questão de confiança, de trabalho já passado, muito bem sucedidos, foram cruzando informação e foram vendo que as investigações se conversavam. E decidiram deflagrar hoje, simultaneamente, porque se não fizessem isso hoje, uma investigação ia acabar atrapalhando a outra. Não ia adiantar nada eu ter um mandado de prisão contra um sujeito aqui, se o promotor de justiça fosse fazer uma ordem de busca e apreensão nesse mesmo endereço e eu deixasse para cumprir o mandato de prisão amanhã. Então, ou a gente casava as operações, o que eu ouvi deles, ou não ia dar certo como eles desejavam. Eu ouvi hoje muita reclamação de delegados e promotores no sentido de que pena que a política sempre acaba estragando. Porque eles imaginavam que haveria uma única entrevista coletiva.
Natuza Nery
Uma única comunicação.
César Tralli
Uma única comunicação. Todo mundo ia sentar junto. Do procurador de justiça de São Paulo ao ministro da Fazenda em Brasília. Mas não. Foram duas coletivas simultâneas. Uma em São Paulo, com Secretário de Segurança Pública, promotores do Gaeco, Procurador de Justiça e uma em Brasília, com Ministro da Justiça, Ministro da Fazenda, Secretário da Fazenda, enfim, da Receita Federal. E quem faz a investigação diz que isso não é legal, que mais atrapalha do que ajuda. Então, num momento como esse, de combate ao crime organizado, tinha que deixar 2026 de lado e pensar na necessidade de salvar o país desse tipo de máfia.
Natuza Nery
É isso aí. Cesar Tragli, muito obrigada por ter topado compartilhar com a gente tanta informação.
César Tralli
Conte comigo sempre. Obrigadão.
Natuza Nery
Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catelan. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Podcast: O Assunto (G1)
Data: 26 de dezembro de 2025
Host: Natuza Nery
Convidados: Bruno Tavares (repórter TV Globo), César Tralli (apresentador Globo/Globonews)
Este episódio retoma o tema mais ouvido do ano: como o PCC (Primeiro Comando da Capital), a principal facção criminosa do Brasil, expandiu sua atuação para o setor financeiro e de combustíveis, culminando na megaoperação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025. Com base em apuração detalhada, fontes exclusivas e entrevistas com especialistas e investigadores, o episódio explora o esquema bilionário de lavagem de dinheiro via fintechs e fundos de investimento na Faria Lima, além de desvendar as fragilidades regulatórias do setor de combustíveis, que permitiram ao crime organizado dominar todas as etapas da cadeia produtiva.
Citação-chave:
"É uma cadeia muito sofisticada... O próprio crime organizado mostrou a sua força, a sua diversidade em relação a novas atividades que estão investindo."
— Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, promotor de justiça [03:13]
Explicação:
"É um setor com fragilidades regulatórias... e característica de operar dinheiro vivo, igual ao tráfico de drogas. Os criminosos tentavam espelhar nos postos de combustível a operação que tinham nos pontos de venda de droga."
— Bruno Tavares [08:43]
Citação-chave:
"A Receita Federal, veja só a gravidade disso, ela não enxergava quem operava, quem eram os clientes de uma determinada fintech... Isso permite que criminosos usem instituições regulares para lavar dinheiro."
— Bruno Tavares [10:11]
Citação-chave:
"É uma situação desesperadora de máfia mesmo. Eles batem na porta com um carro forte dizendo: se você não aceitar o valor que queremos, queimamos tudo, sequestramos sua família..."
— César Tralli [19:48]
Citação-chave:
"Chega em quem cuida da grana... Foram seguindo o caminho do dinheiro e bateram nos poderosos que cuidam dessa fortuna."
— César Tralli [26:57]
Citação-chave:
"Não tem nenhuma grande investigação da PF hoje sobre crime organizado que não esteja passando por fintech... Elas viraram o triângulo das bermudas. O que cai nelas, ninguém consegue identificar."
— César Tralli [28:46]
Citação-chave:
"Hoje, 40% do mercado de álcool e entre 25% e 30% do mercado de gasolina está na mão do crime organizado."
— César Tralli [34:45]
Citação-chave:
"Num momento como esse, de combate ao crime organizado, tinha que deixar 2026 de lado e pensar na necessidade de salvar o país desse tipo de máfia."
— César Tralli [42:42]
O episódio ressalta o grau de sofisticação, violência e capilaridade do crime organizado brasileiro, apontando para suas infiltrações não apenas na economia formal, mas no coração do sistema financeiro do país. A combinação de fragilidade regulatória, poder econômico, violência mafiosa e ausência de fiscalização efetiva possibilitou ao PCC e outros grupos expandir negócios e lavar bilhões sem serem detectados. A resposta das autoridades é elogiada, mas também considerada tardia, pedindo maior integração interinstitucional e adaptação rápida do Estado diante de criminosos cada vez mais sofisticados.
Frase de Encerramento do Episódio:
"Se não fossem essas operações da PF, em no máximo cinco anos a maior parte do mercado estaria nas mãos de grupos criminosos."
— César Tralli [36:32]
Recomendado para:
Quem deseja entender o grau de organização, poder e infiltração do crime organizado no Brasil contemporâneo, o impacto da regulação financeira, e como os elos entre crime, finanças e mercado colocam em risco setores inteiros da economia nacional.