O Assunto – Saúde em risco: a fragilidade da formação médica no Brasil
Data: 22 de janeiro, 2026
Host: Natuza Nery
Convidada: Dra. Ludmila Rajar (Cardiologista, intensivista e professora titular de emergências da USP)
Visão Geral do Episódio
Neste episódio, Natuza Nery investiga a preocupante crise na formação médica no Brasil, à luz dos alarmantes resultados do primeiro Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgado pelo MEC em 2025. Ao conversar com a Dra. Ludmila Rajar, especialista em medicina de emergência, o episódio discute as causas e impactos da baixa qualidade nos cursos de medicina, evidenciados pela alta reprovação das graduações, a expansão desordenada das vagas, e as consequências diretas para a saúde pública e segurança do paciente.
Pontos-Chave e Discussão
1. Retrato da Má Formação dos Médicos no Brasil
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Natuza introduz o tema com exemplos de erros médicos básicos em atendimentos de emergência, ilustrando casos em que recém-formados demonstram falta de conhecimento prático e teórico.
[00:02]
"Nessas situações hipotéticas, esses profissionais são médicos de emergência. [...] durante os seis anos de curso, a formação acabou sendo falha." – Natuza Nery -
Cerca de um terço das faculdades de medicina foram reprovadas no exame do MEC, evidenciando a dimensão do problema.
[00:52]
"O resultado mostra que mais de 30% dos cursos de medicina foram reprovados." – Benício (narrador) -
Detalhes dos resultados: dos 351 cursos avaliados, 107 obtiveram notas 1 ou 2, consideradas insatisfatórias.
[00:57]
"Dos 351 cursos avaliados, 107 tiraram notas 1, a mais baixa, e 2, consideradas insatisfatórias." – Representante do Conselho Federal de Medicina
2. Expansão Desenfreada dos Cursos e Falta de Qualidade
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O número de escolas de medicina no Brasil quase quadruplicou em 20 anos, sendo superado apenas pela Índia.
[01:19]
"Hoje são 494 escolas em atividade. Apenas um país tem mais, a Índia." – Natuza Nery -
A expansão ocorreu especialmente no setor privado, sem critérios mínimos de qualidade, infraestrutura e campo de prática.
[01:48]
"A expansão acelerada de cursos, especialmente no setor privado, não foi acompanhada de critérios mínimos de qualidade." – Representante do Conselho Federal de Medicina
3. Consequências na Prática Médica e na Segurança do Paciente
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Médicos recém-formados chegam ao mercado sem experiência prática mínima.
[04:14]
“Eu recebo alunos que terminaram medicina e falam: ‘professora, nunca entubei um paciente, nunca drenei um tórax, nunca fiz uma ressuscitação...’ E isso passou a ser rotina. É assustador.” – Dra. Ludmila Rajar -
O sistema vira uma loteria para os pacientes, com riscos altos devido à pouca triagem e falta de preparo dos profissionais.
[06:10]
"É uma loteria com a chance maior de você perder." – Dra. Ludmila Rajar
4. Perfis das Instituições Mais Problemáticas
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Dos 107 cursos com notas insatisfatórias, 87 são particulares e sete de faculdades municipais. As públicas conquistaram resultados melhores.
[07:53–09:01] -
Problemas comuns nas faculdades privadas e municipais:
- Falta de corpo docente qualificado
- Ausência de hospital próprio ou vínculo forte com o SUS
- Investimento irregular
- Foco assistencial sem supervisão ou ensino
[09:01]
"O modelo privado de medicina no Brasil e o modelo municipal são modelos que tendem a levar a uma falência do sistema. E quem paga é o paciente." – Dra. Ludmila Rajar
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Exemplo trágico: Caso de Emanuele, que morreu após atendimento inadequado em uma maternidade municipal.
[10:35]
“Emanuele passou por uma cirurgia de emergência [...] mas não resistiu e morreu horas depois.” – Jonathan (marido)
5. O Papel do Enamed e Caminhos Propostos
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O Enamed não basta sozinho; é preciso fechar escolas de medicina sem critérios rígidos.
- Critérios essenciais para abrir um curso: necessidade epidemiológica, hospital de qualidade, conexão com o SUS, corpo docente qualificado, campo de residência.
[11:05]
“Tem que fechar a escola de medicina, tem que não abrir faculdade de medicina, se não realmente tiver critérios muito rígidos.” – Dra. Ludmila Rajar
- Critérios essenciais para abrir um curso: necessidade epidemiológica, hospital de qualidade, conexão com o SUS, corpo docente qualificado, campo de residência.
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Proporcionalidade entre o número de médicos formados e vagas de residência é fundamental. [11:05]
6. Importância do SUS, Residência e Política de Estado
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Contacto prático com o SUS é insubstituível na formação médica.
- O sucesso das estaduais de São Paulo é atribuído ao financiamento público contínuo (política de Estado), independentemente do governo.
[13:05–14:20]
“Educação e saúde são política de Estado.” – Dra. Ludmila Rajar
- O sucesso das estaduais de São Paulo é atribuído ao financiamento público contínuo (política de Estado), independentemente do governo.
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Medidas punitivas após o Enamed: suspensão de matrículas, redução de vagas, bloqueio de financiamentos federais.
[15:24]
“Oito cursos que tiveram o pior desempenho estão proibidos de receber novos alunos.” – Representante do Conselho Federal de Medicina
7. Polêmica em Torno de um "Exame de Ordem" Médico
- Debate sobre a adoção de um exame nacional ao estilo OAB para medicina:
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Dra. Ludmila defende avaliações obrigatórias já durante a graduação (quarto e sexto anos), e que essa responsabilidade deve ser do Estado, não do conselho de classe.
[16:19]
"É dever do Estado proteger a população de médicos mal formados." – Dra. Ludmila Rajar -
Críticas ao modelo proposto pelo Conselho Federal de Medicina, que transfere o filtro para depois da formação:
[17:45]
"Se eu deixar pra fazer a prova no final com o médico já formado [...] ele não tem preceptoria, não tem estrutura de ensino." – Dra. Ludmila Rajar
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8. Causas Estruturais e Política
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Expansão motivada por liminares judiciais e editais ministeriais frouxos. [20:06–21:36]
"Faculdades foram abertas baseadas em liminares e em juízes de primeira instância. Uma irresponsabilidade de várias entidades e pessoas." – Dra. Ludmila Rajar -
Lobby dos grandes grupos privados é intenso e transforma a formação médica num negócio perigoso à saúde pública. [22:26]
"O lobby é muito grande. Existem grupos que hoje dominam as faculdades privadas no Brasil. [...] É um negócio que coloca vidas em risco." – Dra. Ludmila Rajar
9. Emergência: o retrato do risco
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Médicos recém-formados dominam postos de emergência, muitos sem residência ou título.
- Dramático impacto na porta de entrada do sistema
[23:42]
"Medicina de emergência não é pra amador. Você tem que ter conhecimento teórico, prático, raciocínio, experiência, porque você tá diagnosticando e tratando doenças cujo tempo é o senhor do destino daquela vida." – Dra. Ludmila Rajar
- Dramático impacto na porta de entrada do sistema
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Casos reais mostram o impacto direto da má formação em diagnósticos errados, prescrições perigosas e mortalidade evitável.
- Exemplo de Benício: erro na aplicação de adrenalina por médica recém-formada.
[25:27–25:49]
- Exemplo de Benício: erro na aplicação de adrenalina por médica recém-formada.
Citações Memoráveis & Timestamps
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“É uma loteria com a chance maior de você perder.”
— Dra. Ludmila Rajar [06:28] -
“Eu recebo alunos que terminaram medicina e falam: ‘professora, nunca entubei um paciente, nunca drenei um tórax, nunca fiz uma ressuscitação...’ É assustador.”
— Dra. Ludmila Rajar [04:14] -
“O modelo privado de medicina no Brasil e o modelo municipal tendem a levar a uma falência do sistema.”
— Dra. Ludmila Rajar [09:01] -
"Educação e saúde são política de Estado."
— Dra. Ludmila Rajar [14:13] -
"Medicina de emergência não é pra amador."
— Dra. Ludmila Rajar [23:42] -
“O lobby é muito grande, existem grupos que hoje dominam as faculdades privadas no Brasil [...] e colocam vidas em risco.”
— Dra. Ludmila Rajar [22:26]
Segmentos Importantes e Timestamps
- Problemas de formação prática em medicina – [04:14–06:10]
- Dado do Enamed: indicadores da crise – [07:53–10:35]
- Exemplo real: falha em maternidade municipal – [10:35–11:05]
- Propostas para mudanças estruturais – [11:05–13:05]
- Defesa do SUS e das escolas públicas – [13:05–15:24]
- Discussão sobre exame de ordem para médicos – [16:11–19:31]
- Causas da expansão indiscriminada e lobby – [20:06–22:26]
- A crise nas emergências e consequências práticas – [23:07–25:58]
Tom da Conversa
O episódio é conduzido em tom sóbrio, crítico e de alerta, mas com clareza e didatismo. Dra. Ludmila é direta, combativa, mas profundamente comprometida com a transformação do ensino médico no Brasil e com a defesa da saúde coletiva.
Conclusão
O episódio escancara as consequências da abertura desenfreada de faculdades de medicina sem rigor ou compromisso com a qualidade, retratando um cenário de insegurança para pacientes e profissionais. Propõe a necessidade de políticas públicas sérias, fiscalização eficiente, foco em residências médicas e conexão direta com o SUS. É um chamado à sociedade e ao Estado para não banalizar a formação médica e proteger a saúde coletiva.
Recomenda-se ouvir na íntegra para quem se preocupa com o futuro da medicina e da saúde pública no Brasil.
