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Natuza Nery
Você chega a um hospital depois de uma queda com dores no braço. Faz um raio-x, mas ao pegar o exame, o médico fica meio sem saber o que fazer. Ou chega com dores no peito e falta de ar e recebe um diagnóstico errado. Por exemplo, asma em vez de infarto. Nessas situações hipotéticas, esses profissionais são médicos de emergência. Muitos deles entram no mercado de trabalho logo depois de se formar. Mas durante os seis anos de curso, a formação acabou sendo falha e o conhecimento prático e teórico deixou, e muito, a desejar. Essa pode ser a realidade de muitos médicos no Brasil. Em quase um terço dos cursos de medicina, os estudantes não estão aprendendo o suficiente. É o que indica o resultado do primeiro Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, conduzido pelo MEC.
Benício (patient's story narrator)
O resultado mostra que mais de 30% dos cursos de medicina foram reprovados.
Conselho Federal de Medicina Representative
O Inamed avalia o que os estudantes de medicina aprenderam ao longo do curso e se estão preparados para atuar como médicos. Dos 351 cursos avaliados, 107 tiraram notas 1, a mais baixa, e 2, consideradas insatisfatórias pelo Inep.
Natuza Nery
Por trás da baixa qualidade está a expansão desenfreada de cursos de medicina. Na última década, o país abriu em média mais de 2.500 novas vagas para alunos por ano. O número de vagas e o número de cursos mais que triplicaram nos últimos 20 anos. Segundo o levantamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, hoje são 494 escolas em atividade. Apenas um país tem mais, a Índia, a nação mais populosa do mundo.
Conselho Federal de Medicina Representative
Em noto, o Conselho Federal de Medicina afirmou que o resultado do Enamed-MEC mostra que a expansão acelerada de cursos, especialmente no setor privado, não foi acompanhada de critérios mínimos de qualidade, infraestrutura e campo de prática adequados.
Medical Educator or Expert
Medicina é uma ciência e como ciência ela exige um conhecimento amplo, principalmente nas áreas básicas de anatomia, fisiologia, bioquímica, etc.
Natuza Nery
Não é uma formação qualquer, são esses profissionais que vão cuidar da nossa saúde, nossa e das pessoas que amamos. Eles que precisam ter nas mãos as ferramentas para salvar e tornar a vida das pessoas melhores.
Medical Educator or Expert
Pelas notas que nós vimos aí, alguma coisa está errada e alguns médicos provavelmente não terão essa capacidade de viver a medicina como ela merece e ela precisa ser vivida.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Nath Uzaneri e o assunto hoje é Saúde em risco, a fragilidade da formação médica no Brasil. Neste episódio, eu converso com a médica Ludmila Rajar. Ela é cardiologista, intensivista e professora titular de emergências da USP. Quinta-feira, 22 de janeiro. Doutora Ludmilla, o MEC divulgou nesta semana o resultado do Enamed. A primeira edição do Enamed, que foi em 2025, uma prova anual que foi criada justamente para avaliar a formação dos estudantes de medicina aqui no Brasil. O que exatamente o exame avalia? Ele avalia teoria, prática, as duas coisas?
Dra. Ludmila Rajar
Natuza, o exame é uma prova teórica, então são 100 questões de múltipla escolha, mas esta prova foi feita para analisar a condição clínica, o raciocínio clínico, o raciocínio diagnóstico, a aplicação de um tratamento, ou seja, é uma prova que tem implicações práticas, mas a fundamentação dela é uma prova teórica.
Natuza Nery
E você já vinha observando, porque os resultados são recentes, de uma prova do ano passado, mas você já vinha observando uma má formação de profissionais nos hospitais?
Dra. Ludmila Rajar
Muito, Matosa, mas muito. Vou te dizer o seguinte, de 2015 pra cá, nós vimos uma mudança no espectro do aluno que é recém saído de uma faculdade de medicina. Nós todos, por exemplo, eu tenho 25 anos de profissão, Na minha época do vestibular, quem é que estava na faculdade de medicina? Os melhores alunos, na época o ensino médio era o segundo grau, os alunos que eram destaque, as faculdades saíam com aqueles alunos muitíssimo bem preparados para uma residência, para suas especializações, e aí nós tínhamos os médicos. Hoje, o que nós vimos nesses últimos dez anos? Nós vimos um absurdo em termos de aumento do número de vagas de escolas médicas, uma expansão absurda, norte, nordeste, sul, sudeste, centro-oeste, e mudou esse espectro. Um aluno hoje é um aluno que pode pagar. Então, isso mudou na minha mente absurdo, porque antigamente era aquele menino que era diferenciado, que era o mais estudioso, que era o mais aplicado, que era alguém com uma desenvoltura muito grande em vários aspectos da vida, mas hoje não. Hoje, a medicina passou a ser elitizada. Então, se a pessoa pode pagar, ele vai fazer medicina. E aí, o que eu percebi na minha vida diária? Eu estou lá na emergência do Hospital das Clínicas, eu recebo pessoas, alunos, que terminaram medicina e que agora ou estão começando a residência ou estão ali em estágios eletivos e que chegam para mim e falam, professora Ludmila, tem seis anos, eu acabei de terminar meu curso, eu nunca entubei um paciente, eu nunca drenei um tórax, Eu nunca fiz uma ressuscitação, uma reanimação cardiopulmonar. Eu nunca passei um cateter central, me ensinem. E isso passou a ser rotina. É assustador.
Natuza Nery
Isso significa que quando a gente vai para um hospital, acaba sendo uma loteria. Se o hospital não tem uma triagem eficiente desses profissionais, corre-se bastante risco.
Dra. Ludmila Rajar
Mas é muito, e eu diria que é uma loteria com a chance maior de você perder, porque veja, em termos de número, Vou falar de emergência, que é a pessoa recém-formada, que não tem ainda residência, que não tem o título de especialista. Onde ela vai procurar emprego? No pronto-socorro ou uma unidade básica de saúde? E aí, chegando no pronto-socorro, ele vai cuidar de uma emergência. Sabe quantos emergencistas no Brasil têm especialidade em emergência ou título?
Natuza Nery
Só?
Dra. Ludmila Rajar
É muito pouco, só os outros, boa parte é gente que acabou de sair da faculdade de medicina, boa parte delas sem hospital, boa parte delas sem professor bom, aprendendo em aulas teóricas apenas, e medicina não se aprende no anfiteatro, é na prática, é lidando com dificuldade, é na emergência com preceptoria qualificada. Então, nós perdemos muito nesses últimos anos, mas muito.
Natuza Nery
Eu queria entender um pouco mais do porquê desses 30% dos cursos de medicina apresentando esse desempenho. O que esses cursos de medicina têm em comum? São faculdades dos tipos municipais? São privadas com fins lucrativos? Porque essas apresentaram as notas mais fracas. O que dá pra gente descobrir a partir desses resultados?
Dra. Ludmila Rajar
Então vamos lá, das 351 instituições de ensino superior, das faculdades de medicina que foram avaliadas, 107, 30%, teve o desempenho 1 ou 2, que são as piores notas, ou seja, as faculdades não alcançaram o mínimo de proficiência. Você sabe o que era proficiência, Natuza? É alcançar 60 pontos numa prova de 100. Ou seja, já não é um sarrafo tão alto, já é um médico nota 6, ainda assim, elas não alcançaram.
Conselho Federal de Medicina Representative
Dos 107 cursos de medicina com notas 1 ou 2, 87 são particulares, 5 são federais ou estaduais. Dos 8 cursos avaliados em faculdades municipais, sete tiveram as piores notas. As universidades públicas são maioria entre as que registraram os melhores resultados. Entre as avaliadas com notas de 3 a 5, 114 são universidades federais e estaduais e 89 Quem são essas instituições?
Dra. Ludmila Rajar
No Brasil, são as privadas e são as municipais. O que tem em comum nas privadas? Primeiro, um aumento indiscriminado no número de privadas nos últimos 10 anos, especialmente desde a moratória de 2018, que foi governo Temer, na qual foi instituída uma regra de que não se abre mais faculdade, porque nós iremos fazer uma revisão. Até a lógica fazia sentido, mas eles não fizeram a revisão e essas faculdades começaram a ser abertas por meio de liminares. Mas não só isso, houve também editais dos próprios Ministérios da Educação, de 10 anos pra cá, relativamente frouxos e que resultaram no aumento do número exponencial de faculdades privadas. Então, o grosso é faculdade privada. O que elas têm em comum? A ausência de corpo docente qualificado, pouca gente com dedicação à vida acadêmica, boa parte dessas faculdades privadas sem hospitais ou com uma conexão muito pequena com o SUS? E com investimento muito irregular, aí você vai pra municipal, é muito parecido, as municipais que foram muito mal, foram tão mal quanto as privadas, elas têm recurso muito irregular, depende muito dos prefeitos, da questão política, então você não tem uma regularidade de investimento. Segundo, a maior parte são hospitais municipais puramente assistenciais, sem ensino, sem supervisão, sem preceptoria, mostrando que esse modelo privado de medicina no Brasil e o modelo municipal são modelos que tendem a levar a uma falência do sistema. E quem paga é o paciente.
Jonathan (patient's family member)
O Jonathan acompanhou a esposa até a maternidade municipal, na Lapa, perto das duas horas da manhã. Ele contou que no exame de toque, Emanuele começou a sangrar, mas o médico disse que não era um problema. Foi durante o parto que o Jonathan ouviu um comentário do médico que o deixou preocupado. Emanuele passou por uma cirurgia de emergência para retirada do útero, mas não resistiu e morreu horas depois.
Dra. Ludmila Rajar
Então, para nós, o Enamed mostra um dado, consolida um dado, que para nós, médicos e professores, nós já vivemos essa dificuldade nos últimos anos. Então, a partir daí, decisões estratégicas têm que ser tomadas. Não basta a gente só olhar a nota e dizer, ah, eu vou reduzir o número de vaga. Tem que fechar a escola de medicina, tem que não abrir faculdade de medicina, se não realmente tiver critérios muito rígidos. O primeiro deles é epidemiológico. Essa cidade, esse município, essa região precisa. Segundo, tem hospital decente, conectado ao SUS, tem residência. Tem supervisão? Tem preceptoria? Tem corpo docente qualificado? Tem paciente? Se não preenche todos esses critérios, não faz sentido ter. Agora, nós vamos ter que pegar esses dados e fechar escolas, e não é só agora, mas simplesmente mudar a estratégia. A mesma coisa é residente na Tusa. A gente forma 40 mil médicos por ano. Nós temos que ter, num tempo aí, no máximo dentro de 10 anos, o mesmo número de médicos formados, o mesmo número de vagas de residência. Eu tenho que ter um para um, porque não adianta eu formar um médico porque a vida vai ensinar esse médico na residência, no campo prático. A graduação é super importante. Mas nós, por mais que a gente vá melhorar a qualidade das escolas, essa pessoa hoje tem que se submeter a uma residência. Então, isso é uma necessidade. Então, isso chama a atenção do Brasil para uma mudança de concepção. Não adianta a gente pegar essa pontinha aqui, pegar uma pontinha ali. É uma estratégia que tem que ser modificada.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Ludmilla Rajar. E por que fazer residência é importante e por que fazer uma faculdade que se conecte com hospital ou com SUS é importante?
Dra. Ludmila Rajar
Primeiro, as questões epidemiológicas. No Brasil, as pessoas morrem de quê? De doença crônica, doença cardíaca, doença neurológica e trauma e câncer. Então, primeiro, essas doenças crônicas, elas estão no Sistema Único de Saúde. O Sistema Único de Saúde é o nosso sistema capilarizado, que está em todo o país e que faz a integralidade do cuidado, desde o atendimento básico, lá na atenção primária, até a alta complexidade. Por isso, a exigência que nós temos hoje, que para o médico ser completo na integralidade do cuidado, ele tem que estar conectado ao sistema único de saúde. É inviável você achar que, do ponto de vista privado, você tem ali um ecossistema mínimo que vai dar ao médico a integralidade necessária para ele entender das vidas e das necessidades humanas. Então, isso é fundamental. Outro aspecto importantíssimo disso é que não basta ter hospital, você tem que ter professor, preceptor qualificado, e que ganhe bem, e que seja dedicado à vida acadêmica, e que ali pesquisa com inovação, com assistência e com ensino. E o terceiro ponto, Natuza, que chama atenção, por quê? Por que as escolas federais e estaduais foram melhores? pela conectividade com o SUS, pelos grandes hospitais, pelo corpo docente, mas chama atenção São Paulo, as estaduais de São Paulo, notas altíssimas, o topo da esfera de notas. Por quê? O que as estaduais de São Paulo têm que alguns estados não têm? elas têm um investimento financeiro que é política de Estado, que tem a ver com recolhimento de imposto de ICMS, ou seja, pode ser governo de esquerda, de direita em São Paulo, que aquela porcentagem fixa do ICMS para investir nas universidades do Estado, ela é mantida, mostrando que a nossa mudança de foco tem que entender que educação e saúde são política de Estado. Então, nós temos que reforçar as estaduais, reforçar as federais, não cortar o orçamento de educação.
Conselho Federal de Medicina Representative
Oito cursos que tiveram o pior desempenho estão proibidos de receber novos alunos. Treze terão que cortar a oferta de vagas pela metade. Trinta e três terão corte de 25%. Todos ficam suspensos de novos contratos do Fies e de outros programas federais. E os outros 45 não podem aumentar o número de vagas.
Dra. Ludmila Rajar
Agora, o Enamed é a primeira história desse capítulo. Ele tem sanções, essas sanções serão impostas a partir de já, as escolas estão no período de defesa, eles têm que apresentar um plano, mas é óbvio que o Enamed é tão importante quanto será importante o que resultará dele, que é uma mudança de estratégia nacional.
Natuza Nery
Por que vocês não têm uma espécie de OAB da medicina para fazer um filtro? Ou isso não seria importante?
Dra. Ludmila Rajar
É super importante. Nós temos, e é dever do Estado, proteger a população de médicos mal formados. Eu não tenho dúvida disso. Agora, o meu entendimento é que essa prova, que deve ser implementada como obrigatória, ela tem que ser feita no quarto ano, porque a medicina natura são seis anos. São quatro anos teóricos e os últimos dois anos de campo prático, que é o internato. Qual que é a nossa proposta? Proposta do Conselho Nacional de Educação, proposta das universidades públicas brasileiras. é ter uma prova no quarto ano, antes do aluno entrar para o campo prático, e uma prova no sexto ano. E essa prova vai funcionar como uma espécie de OAB diferente, porque ela ainda pode corrigir a rota desse aluno. Esse aluno ainda está na faculdade. Eu posso demonstrar deficiência e corrigir a deficiência. Por que nós somos contra o formato que o CFM vem propondo? Primeiro que o CFM quer tirar do Estado essa obrigação. Eu não concordo de uma entidade médica ficar com a obrigação de avaliar quem pode se formar ou não. O CFM tem que agir em relação ao ato médico, médico já formado, mas nós temos que agir enquanto ele está na graduação. É ali que ele está investindo o dinheiro dele, ele sai endividado e a instituição, que é a faculdade, que foi tão ou mais responsável pela falta de ensino adequado, ela já terminou. se eu deixar pra fazer a prova no final com o médico já formado. Então a nossa intenção, e isso faz parte do novo currículo, da nova diretriz curricular, é uma prova no quarto ano, obrigatória, e uma prova que é um progresso de avaliação desse aluno no sexto ano. E aí caberá ao Ministério da Educação, e aí a minha visão, que é a dever do Estado, dizer quem é um aluno que não pode se formar, ou aquele que vai ter uma mudança de rota, que houve o aprendizado, que está comprovado, que fez a prova. Agora, qual que é o meu receio de uma prova da OAB? O aluno terminou, ele já é médico, aí ele não passa, tudo bem, aí ele faz um cursinho e faz a prova. ele não tem preceptoria, ele não tem supervisão, ele não tem estrutura de ensino. Então, por isso que a minha opinião é que eu preciso sim proteger a população desse mal médico, ele não tem que ser médico, mas eu tenho que ver isso durante a graduação, e é dever do Estado, não de uma entidade.
Natuza Nery
Ou seja, não seria parecido com A ou AB, mas precisaria haver um controle em tempos diferentes, quatro anos e depois seis anos, para avaliar e eventualmente consertar a rota desse estudante que vai se tornar um médico lá na frente. Entendi certo a sua ideia.
Dra. Ludmila Rajar
É isso. Perfeito. A minha ideia é essa e ideia de boa parte hoje do Legislativo. Isso está em discussão no Senado. Tem uma linha do Senado que defende a prova do CFM depois do médico formado e existem outros que estão de acordo com essa minha opinião. E isso está sendo debatido, está sendo discutido nas comissões internas e em breve a gente terá uma deliberação. Que há necessidade, não há dúvida. Agora discute-se o formato.
Natuza Nery
Agora, doutora Ludmila, segundo o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, de 2004 a 2024, análise é nesse período, o número de escolas médicas saltou de 252 para 448. Hoje são quase 500 cursos. Como é que foi se autorizando assim, a torto e a direito, faculdades que não tinham esse mínimo que você descreve, para formar médicos aptos a cuidar da vida das pessoas?
Dra. Ludmila Rajar
Isso foi uma irresponsabilidade de várias entidades e pessoas. Irresponsabilidade 1. Fez-se a moratória de 2018 a 2023. O que resultou? Injudicialização. Então, boa parte dessas faculdades abertas em interiores, cidades pequenas, de três ou quatro grandes grupos que chegam a ter 50, 80, 90 faculdades de medicina, elas foram abertas baseadas em liminares e em juízes de primeira instância. E aí ela abriu-se, sem hospital, sem corpo docente qualificado, então esse foi um ponto. O segundo foram editais do próprio Ministério da Educação. Uma questão, por exemplo, o Mais Médicos, lá de 2013. Naquele momento, o Brasil tinha poucos médicos no interior, como tem hoje, né? Nós temos uma centralização, uma heterogeneidade de distribuição. Então, foi um pensamento do governo aumentar médicos baseados em abrir escolas nas regiões periféricas, no Norte e Nordeste. Então, muitos editais de uma maneira mais ampla, mais aberta foram liberados. Então, foi tanto política ministerial de governos anteriores tanto liminares. E é sobre isso que a gente está falando hoje. Primeiro que nós queremos bloquear essas liminares. Nós queremos implicar o Ministério da Educação nessa decisão. E segundo que o Ministério da Educação tenha editais extremamente rígidos. vai abrir, se tem que abrir, tem que ser de altíssima qualidade. E segundo, do mesmo jeito que abre, ele tem que ter uma revisão periódica para fechar. E eu sempre uso o exemplo da CAPES. A CAPES é uma autarquia do MEC que avalia mais de 5 mil cursos de pós-graduação no Brasil, periodicamente, a cada quatro anos. E aquele ano, ou seja, naquela quadrinal, eu posso ter sido uma pós-graduação excelente quatro anos atrás. Eu caí de nota e eu caí duas vezes sucessivamente, a minha pós-graduação é fechada. Então, você tem que ter uma análise seriada e continuada.
Natuza Nery
E o lobby costuma ser muito grande, doutora Ludmilla?
Dra. Ludmila Rajar
O lobby é muito grande, Natuza, o lobby é muito grande. Existem grupos que hoje dominam as faculdades privadas no Brasil. Isso passou a ser visto como um grande negócio. Então, infelizmente, é um negócio que coloca vidas em risco. É um negócio que vulnerabiliza uma população. Então, isso tem que ser enxergado como algo que tem que ser combatido. Essa abertura de faculdades privadas por lobby, por pressão, por decisão liminar, por força de grupos, isso tem que ser combatido com muita seriedade no nosso país. Nós não podemos deixar a população pagar por isso.
Natuza Nery
Bom, também de acordo com esse relatório Demografia Médica 2025, a medicina de emergência é uma das especialidades com perfil etário mais jovem aqui no Brasil. Então, 36% dos recém-formados com 35 anos ou menos vão para a emergência. que é uma área de alta demanda por mão de obra e de alto risco também para os pacientes. O que esse resultado nos diz sobre o atendimento que é prestado nessa porta de entrada tão crucial do tratamento, digamos assim?
Dra. Ludmila Rajar
Nós estamos num momento dramático disso. Eu sou professora titular da Medicina de Emergência da USP. O Brasil só tem mil médicos prontos do ponto de vista de titulação para atender emergências. A maior parte dos médicos das emergências hoje do Brasil não tem residência, não tem especialidade. E são os médicos jovens, recém-formados, que enxergam aquilo como um bico. e medicina de emergência não é pra amador. Você tem que ter conhecimento teórico, prático, raciocínio, experiência, porque você tá agindo pra diagnosticar e tratar doenças cujo tempo é o senhor do destino daquela vida. Então esse é um drama que nós estamos vivendo. Nós estamos buscando qualificar, aumentar o número de residências de emergência no Brasil, mas boa parte das pessoas nem procura, porque tem a demanda. E daí tem casos absurdos de erro de medicamento, de erro diagnóstico, de pacientes que morrem na atenção primária sem ter dado atenção à regulação, pacientes que morrem e que poderiam ter tido seu destino totalmente modificado por uma pessoa mais experiente, uma pessoa que pudesse realmente mudar aquela vida.
Benício (patient's story narrator)
Benício chega andando ao hospital. Está com tosse seca e febre. A suspeita, laringite. Os pais levam o filho ao hospital que fica em Manaus, é particular e aceita o convênio da família. Na triagem, o quadro não foi considerado grave.
Parent of Benício
A médica se chamou, né? E aí ela pediu pra avaliar ele. Falou que ele ia fazer a adrenalina.
Benício (patient's story narrator)
Esta é a prescrição feita por Juliana, que é médica há seis anos. Adrenalina pura, não diluída, via intravenosa, ou seja, aplicada na veia. Os pais contam que assim que recebeu a adrenalina na veia, aqui na enfermaria do hospital, Benício começou a ficar pálido e reclamou de dores no coração.
Parent of Benício
Aí eu começo a entrar em desespero.
Benício (patient's story narrator)
Então hoje nós estamos buscando alternativas, que.
Dra. Ludmila Rajar
É aumentar a residência, aumentar treinamento, aumentar a capacitação. impedir os hospitais e as emergências que não contratem essas pessoas sem terem experiência. Porque esse é um ponto, a demanda existe e o hospital, para atender aquela demanda, contrata um recém-formado sem experiência, sem preceptoria. Então esse é um problema que o Brasil enfrenta.
Natuza Nery
Professora Ludmila e doutora Ludmila, muito obrigada por jogar luz sobre esse tema tão importante que eu sei que é um tema que você defende há muito tempo, que haja uma qualificação melhor, um ensino melhor de medicina aqui no Brasil. Bom trabalho para você.
Dra. Ludmila Rajar
Muito obrigada pela oportunidade, um abraço.
Natuza Nery
Antes de terminar um recado, se você ouve o assunto no Spotify e gostou do episódio, é Assunter mesmo, dá cinco estrelas e compartilha esse episódio com quem você quiser. Você pode nos ouvir no G1, no YouTube e em todas as plataformas de áudio. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva e Carlos Catellan. Neste episódio colaborou também Paula Paiva Paulo. Eu sou o Natuzaner e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 22 de janeiro, 2026
Host: Natuza Nery
Convidada: Dra. Ludmila Rajar (Cardiologista, intensivista e professora titular de emergências da USP)
Neste episódio, Natuza Nery investiga a preocupante crise na formação médica no Brasil, à luz dos alarmantes resultados do primeiro Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgado pelo MEC em 2025. Ao conversar com a Dra. Ludmila Rajar, especialista em medicina de emergência, o episódio discute as causas e impactos da baixa qualidade nos cursos de medicina, evidenciados pela alta reprovação das graduações, a expansão desordenada das vagas, e as consequências diretas para a saúde pública e segurança do paciente.
Natuza introduz o tema com exemplos de erros médicos básicos em atendimentos de emergência, ilustrando casos em que recém-formados demonstram falta de conhecimento prático e teórico.
[00:02]
"Nessas situações hipotéticas, esses profissionais são médicos de emergência. [...] durante os seis anos de curso, a formação acabou sendo falha." – Natuza Nery
Cerca de um terço das faculdades de medicina foram reprovadas no exame do MEC, evidenciando a dimensão do problema.
[00:52]
"O resultado mostra que mais de 30% dos cursos de medicina foram reprovados." – Benício (narrador)
Detalhes dos resultados: dos 351 cursos avaliados, 107 obtiveram notas 1 ou 2, consideradas insatisfatórias.
[00:57]
"Dos 351 cursos avaliados, 107 tiraram notas 1, a mais baixa, e 2, consideradas insatisfatórias." – Representante do Conselho Federal de Medicina
O número de escolas de medicina no Brasil quase quadruplicou em 20 anos, sendo superado apenas pela Índia.
[01:19]
"Hoje são 494 escolas em atividade. Apenas um país tem mais, a Índia." – Natuza Nery
A expansão ocorreu especialmente no setor privado, sem critérios mínimos de qualidade, infraestrutura e campo de prática.
[01:48]
"A expansão acelerada de cursos, especialmente no setor privado, não foi acompanhada de critérios mínimos de qualidade." – Representante do Conselho Federal de Medicina
Médicos recém-formados chegam ao mercado sem experiência prática mínima.
[04:14]
“Eu recebo alunos que terminaram medicina e falam: ‘professora, nunca entubei um paciente, nunca drenei um tórax, nunca fiz uma ressuscitação...’ E isso passou a ser rotina. É assustador.” – Dra. Ludmila Rajar
O sistema vira uma loteria para os pacientes, com riscos altos devido à pouca triagem e falta de preparo dos profissionais.
[06:10]
"É uma loteria com a chance maior de você perder." – Dra. Ludmila Rajar
Dos 107 cursos com notas insatisfatórias, 87 são particulares e sete de faculdades municipais. As públicas conquistaram resultados melhores.
[07:53–09:01]
Problemas comuns nas faculdades privadas e municipais:
Exemplo trágico: Caso de Emanuele, que morreu após atendimento inadequado em uma maternidade municipal.
[10:35]
“Emanuele passou por uma cirurgia de emergência [...] mas não resistiu e morreu horas depois.” – Jonathan (marido)
O Enamed não basta sozinho; é preciso fechar escolas de medicina sem critérios rígidos.
Proporcionalidade entre o número de médicos formados e vagas de residência é fundamental. [11:05]
Contacto prático com o SUS é insubstituível na formação médica.
Medidas punitivas após o Enamed: suspensão de matrículas, redução de vagas, bloqueio de financiamentos federais.
[15:24]
“Oito cursos que tiveram o pior desempenho estão proibidos de receber novos alunos.” – Representante do Conselho Federal de Medicina
Dra. Ludmila defende avaliações obrigatórias já durante a graduação (quarto e sexto anos), e que essa responsabilidade deve ser do Estado, não do conselho de classe.
[16:19]
"É dever do Estado proteger a população de médicos mal formados." – Dra. Ludmila Rajar
Críticas ao modelo proposto pelo Conselho Federal de Medicina, que transfere o filtro para depois da formação:
[17:45]
"Se eu deixar pra fazer a prova no final com o médico já formado [...] ele não tem preceptoria, não tem estrutura de ensino." – Dra. Ludmila Rajar
Expansão motivada por liminares judiciais e editais ministeriais frouxos.
[20:06–21:36]
"Faculdades foram abertas baseadas em liminares e em juízes de primeira instância. Uma irresponsabilidade de várias entidades e pessoas." – Dra. Ludmila Rajar
Lobby dos grandes grupos privados é intenso e transforma a formação médica num negócio perigoso à saúde pública.
[22:26]
"O lobby é muito grande. Existem grupos que hoje dominam as faculdades privadas no Brasil. [...] É um negócio que coloca vidas em risco." – Dra. Ludmila Rajar
Médicos recém-formados dominam postos de emergência, muitos sem residência ou título.
Casos reais mostram o impacto direto da má formação em diagnósticos errados, prescrições perigosas e mortalidade evitável.
“É uma loteria com a chance maior de você perder.”
— Dra. Ludmila Rajar [06:28]
“Eu recebo alunos que terminaram medicina e falam: ‘professora, nunca entubei um paciente, nunca drenei um tórax, nunca fiz uma ressuscitação...’ É assustador.”
— Dra. Ludmila Rajar [04:14]
“O modelo privado de medicina no Brasil e o modelo municipal tendem a levar a uma falência do sistema.”
— Dra. Ludmila Rajar [09:01]
"Educação e saúde são política de Estado."
— Dra. Ludmila Rajar [14:13]
"Medicina de emergência não é pra amador."
— Dra. Ludmila Rajar [23:42]
“O lobby é muito grande, existem grupos que hoje dominam as faculdades privadas no Brasil [...] e colocam vidas em risco.”
— Dra. Ludmila Rajar [22:26]
O episódio é conduzido em tom sóbrio, crítico e de alerta, mas com clareza e didatismo. Dra. Ludmila é direta, combativa, mas profundamente comprometida com a transformação do ensino médico no Brasil e com a defesa da saúde coletiva.
O episódio escancara as consequências da abertura desenfreada de faculdades de medicina sem rigor ou compromisso com a qualidade, retratando um cenário de insegurança para pacientes e profissionais. Propõe a necessidade de políticas públicas sérias, fiscalização eficiente, foco em residências médicas e conexão direta com o SUS. É um chamado à sociedade e ao Estado para não banalizar a formação médica e proteger a saúde coletiva.
Recomenda-se ouvir na íntegra para quem se preocupa com o futuro da medicina e da saúde pública no Brasil.